Sobre revisar livros

Quem me acompanha há um tempinho provavelmente já sabe e se você está caindo de paraquedas aqui agora, vai saber neste momento: uma das coisas com as quais trabalho é a revisão de livros. Bom, eu sou, em primeiro lugar, professora de língua e cultura italiana, mas também me divido entre revisões literárias e já atuei com tradução simples de documentos.

Antes de mais nada, acho importante explicar que atuo ou atuei com tantas coisas assim porque a minha formação me permite isso. Sou formada em Letras, tendo um diploma de bacharelado e um de licenciatura. Eu não acho que diplomas são tudo na vida e que apenas eles comprovam nossa capacidade e conhecimento, mas também me entristece ver pessoas que, somente pelo simples fato de gostarem de ler — e lerem muito —, consideram-se revisoras. Não é bem assim que funciona ou não é bem assim que deveria funcionar (porque, infelizmente, acontece e muito!).

O ponto é que um revisor não é um mero leitor e revisar é muito diferente de ler e, mais ainda, de ler por hobby. Como revisora, eu costumo estar aberta a textos que, por hobby, eu não leria, seja pelo gênero, pelo tipo de escrita, o que for. Minha leitura como profissional é diferente daquela de leitora e nem todo mundo consegue separar assim, querendo revisar apenas o que gosta de ler.

Destacados esses pontos, resolvi escrever esse post para falar um pouco sobre a importância da revisão (não querendo puxar a sardinha para o meu lado…) e sobre como funciona o orçamento desse serviço. Gostaria de lembrar, também, que estou falando, aqui, daquilo que eu vivencio e da forma que eu trabalho, o que não necessariamente é uma regra, tá?

Comecemos pela importância da revisão: quando bem feito, esse serviço ajuda a lapidar seu texto, arrumando frases que, anteriormente, estavam confusas, ambíguas, truncadas ou mesmo com muita repetição de palavras ou cacofonias (que é quando acontecem algumas junções de palavras que não soam muito bem aos nossos ouvidos).

Mas é preciso tomar cuidado, pois há revisores que têm uma formação extremamente gramatical e acabam querendo corrigir demais, retirando um pouco da liberdade literária do autor e aqui acho importante lembrar outra coisa: é o autor quem deve dar a palavra final. Tem autores que dizem “ah, mas eu não entendo nada dessas coisas, só aceito tudo o que o revisor disser que tem que arrumar”. Tudo bem, é uma escolha sua, mas faça-a consciente de que você concorda com ela. Se você viu alguma alteração com a qual não concorda, mesmo que não entenda, pergunte, veja se é realmente necessário. Faça desse momento, também, um momento de aprendizado e de troca.

Ainda que que o autor vá simplesmente acatar todas as sugestões do revisor, considero importante que o trabalho seja feito com o controle de revisão ativado. O controle de revisão é aquela ferramenta que vai mostrando exatamente onde e o que está sendo modificado no texto.

E como é feito o orçamento de uma revisão? Antes de explicar como ele é feito, queria dizer porque resolvi mencionar isso. Bom, a verdade é que esse é um mercado um pouco complexo: cada revisor pode cobrar de uma forma e o até mesmo valores diferentes (não é como na tradução que, em tese, os valores são tabelados), por isso, quando você for buscar um revisor para a sua obra, pesquise, compare preços e serviços.

Quando me procuram pedindo orçamento, gosto de solicitar duas informações: número de caracteres com espaço do texto e quantidade de páginas do arquivo. Com a primeira informação eu consigo calcular o valor e, com a segunda, o prazo que eu preciso para realizar o serviço. Claro que, vendo o arquivo, é possível dar um orçamento e um prazo bem mais precisos do que tendo apenas essas informações, mas entendo perfeitamente que nem todo mundo se sente seguro em já compartilhar o arquivo sem saber se fechará o serviço ou não.

Aqui também cabe explicar que cobro a revisão por lauda, porque considero que esta é a maneira mais justa para todos. O tamanho de uma lauda pode variar de revisor para revisor (eu falei que era complexo!), mas geralmente ela mede entre 1200 a 2100 caracteres. Atenção: estamos falando de caracteres e não de páginas. Isso significa que, por exemplo, se seu livro tem imagens, você não será cobrado pela “revisão” delas, porque elas não contam como caracteres. Imagina, seu arquivo tem 300 páginas, mas 150 são só de imagens. Você irá pagar pela revisão do texto contido em apenas 150 e não em 300 páginas. Também pode acontecer de ter páginas com textos que vão só até a metade delas, não seria justo pagar o valor da revisão de uma página inteira nesses casos, né? Com a lauda, essas pequenas “injustiças” do orçamento não ocorrem.

Para calcular o valor, é preciso fazer uma continha que pode parecer maluca, mas não é: dividir a quantidade de caracteres informada pela quantidade de caracteres que você considera que tem a sua lauda e, depois, multiplicar o resultado dessa conta pelo valor que você cobra. Confuso? Vamos a um exemplo:

Costumo considerar a lauda com 2100 caracteres, assim sendo, se seu texto tem 100.000 caracteres (lembrando, cobro contando espaços), devo fazer a seguinte conta: 100.000/2100 = 47,61. Isso significa que 47,61 é a quantidade de laudas do seu texto. Portanto, eu pego esse valor e multiplico ele pelo valor que eu cobro em cada lauda. Suponhamos que eu cobre R$4 por lauda. Teríamos, portanto, 47,61 X 4 = 190,44. O valor da revisão da sua obra seria, então, de R$190,44.

Com relação aos valores acima, algumas considerações: há revisores que fazem distinção do tamanho da lauda para textos literários ou textos acadêmicos. Para facilitar minha vida, eu considero sempre 2100 caracteres com espaço, não importando o tipo de texto. Já com relação ao valor em si, ele também pode variar muito de revisor para revisor, sendo que R$4 é considerado um valor bem baixo (e usado aqui apenas para fins ilustrativos). Mas tudo é uma questão de diálogo também. Pode ser que você recebe um orçamento, mas que o revisor aceite dar um descontinho. Ou pode ser que não. E eu gosto de arredondar os valores (geralmente para baixo), então no exemplo acima eu provavelmente cobraria R$190 (ok, nesse caso não faz uma grande diferença, mas algumas vezes acabo descontando um pouco mais).

Como eu disse lá no início — e não achei que esse texto ficaria tão grande — o que eu trouxe aqui foi partindo da minha experiência e sabendo que temos de lidar com muitas variáveis nesse percurso. Sou uma pessoa muito aberta e que está sempre aprendendo.

Aliás, também gostaria de lembrar algo muito importante: revisores não são máquinas! Mesmo que você escreva bem, mesmo que você contrate um excelente revisor, seu texto ainda pode sair com um errinho ou outro. Até livros publicados em grandes editoras podem sair com um errinho ou outro, faz parte, somos todos humanos. Mas, sem dúvidas, se o trabalho for bem feito, esses probleminhas serão reduzidos ao mínimo possível.

E por último, mas não menos importante: depois de tudo o que eu disse, não esqueça de valorizar o trabalho de um revisor! Buscar dar o nosso melhor para que você entregue o melhor do seu texto nem sempre é fácil. Passamos horas e horas diante das telas de um computador, pesquisamos, ficamos matutando frases, tudo para realmente entregar uma obra ainda melhor do que aquela que recebemos.

Se te interessa conhecer um pouco do meu trabalho nessa área, convido a visitar a página portfólio, aqui no Blog, na qual estou listando as obras que revisei e já estão publicadas.

A Lettre faz 1 ano!

Essa semana dei uma leve sumida daqui, pois acabei me atrapalhando com as minhas coisas e ficando sem tempo para nada. Mas hoje é uma data muito especial e, para que a semana não passe em branco, resolvi contar uma história para vocês.

Em 2019, eu decidi me aventurar em algo novo para mim: leituras beta. Pensei que, com minha formação, poderia contribuir de mais uma maneira com a literatura brasileira. E tive a sorte de logo conseguir me inscrever para a seleção de uma escritora e, melhor ainda, ser selecionada!

Naquele momento, mesmo sem saber, eu estava dando alguns passos bem importantes para mim. Primeiro que, a partir dessa primeira experiência, resolvi me afirmar mais como revisora e leitora crítica e realmente faço alguns trabalhos nesses campos. Mas o maior passo que aquela primeira leitura beta me deu eu sequer imaginava que viria a acontecer.

Em 2019 eu conheci a escritora Ingrid Sousa. Meu primeiro contato foi com seu livro, uma fantasia que mistura elementos mitológicos e uma garota que se considerava normal até descobrir que possuía certos poderes. Ao longo da leitura, porém, fui ganhando uma amiga. E não falo de Amália, personagem de O despertar da profecia, mas da própria Ingrid.

Depois que o livro foi concluído — porque sim, a leitura beta foi feita durante a construção do mesmo — a Ingrid começou a procurar editoras para publicá-lo e chegou a conseguir mais de um orçamento. O sonho, porém, acabou indo por água abaixo, pois a editora com a qual ela assinou, acabou nada fazendo com a obra.

Mas se tem uma característica da Ingrid que é evidente para qualquer um que se aproxime dela é a persistência. E foi assim que ela decidiu abrir a sua própria editora, para realizar não apenas o seu sonho, mas o de tantos outros autores nacionais.

Em 17 de setembro de 2019 nasceu a Editora Lettre. E eu, timidamente, fui entrando aos poucos nesse sonho da Ingrid e agora estou aqui, contando para vocês que sou uma das pessoas que faz parte da família Lettre.

Sim, vocês já viram muito esse nome por aqui, seja nas resenhas, seja em qualquer um dos posts sobre a antologia “Um amor para chamar de meu“, que tive o prazer de ser a organizadora. Mas vocês talvez não saibam que hoje eu realmente ajudo no que posso para ver essa Editora crescer mais e mais.

É engraçado que, para mim, tudo começou um pouco na brincadeira, com um simples “se precisar de alguém para revisar os livros, estou aqui”. E assim a Ingrid me abriu esse espaço. Depois, porém, ela foi me abrindo mais e mais portas e hoje eu levo tudo isso tão a sério quanto ela.

Em 2019, a Ingrid me deu um espaço para chamar de meu dentro de uma Editora. Deu-me a alegria de poder ver novos autores realizando seus sonhos e, mais que isso, o privilégio de poder lê-los antes de todo mundo!

Nesse um ano de vida, a Editora Lettre já publicou os seguintes títulos:

Ainda teremos alguns lançamentos este ano e edição especial de um dos títulos acima! E a agenda de 2021 também já está praticamente fechada. Tem muita coisa boa vindo por aí.

E claro que a Lettre precisava ter algo de especial (como se tudo o que eu disse já não fosse o suficiente!): estão sendo propostas algumas antologias 100% gratuitas, em formato digital. A ideia é que os escritores encontrem um espaço para divulgar seu trabalho, ao mesmo tempo que a editora contribuiu com o incentivo à leitura de maneira democrática. A primeira antologia desse tipo está prevista para outubro deste ano!

E por falar em antologias, também tem dois editais abertos (e eu estou na organização de um deles!) e um terceiro para abrir:

Não deixem de conhecer o trabalho da Editora Lettre. Este foi apenas o primeiro ano, de muitos que virão. E novamente eu afirmo: é uma alegria fazer parte de tudo isso!