Alguma coisa acontece — Mariana Chazanas

Título: Alguma coisa acontece
Autora: Mariana Chazanas
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 60
Ano: 2014

Lembra daquela viagem pelo Brasil, com a Duplo Sentido Editorial? Se não sabe do que estou falando, clique aqui. Nós finalmente chegamos ao Sudeste e começamos por ninguém menos que ela, a minha cidade do coração: São Paulo.

“Aqui, parece que você pode ser qualquer coisa. Você pode fazer o que quiser e nunca vai ser a pessoa mais esquisita da rua”

Eu estava ansiosa por esse conto, porque uma coisa é ler sobre lugares que não conheço ou então que visitei em algum momento da vida, mas outra coisa totalmente diferente é ler sobre o lugar que nasci e cresci. Queria muito saber como São Paulo seria retratada e já adianto: amei! Mas leia até o final para entender porque.

“Essepê é uma cidade que engole tudo. Sotaques, rios, culinária, receitas de pizza”

Mesmo tendo nascido e crescido aqui, consigo entender o medo e o deslumbre experimentados por Gabriel, o protagonista que vem de uma pequena cidade do interior, pronto (ou não) para desbravar essa grande selva urbana.

“Bem, era a primeira noite de sua viagem. Possivelmente a primeira noite do resto de sua vida”

Foi impossível não sorrir lendo Alguma coisa acontece. São diversos trechos que retratam tão bem São Paulo e que talvez deixem quem não a conhece pensando “mas isso é possível?”. Spoiler: provavelmente sim, pois não vi nada absurdo na narrativa! *emoji de risos nervosos*.

“— Vocês enterraram um rio?
— Eu pessoalmente, não. Mas, sim, enterramos, tipo, um monte”

Apesar dos sorrisos, esse conto também me deixou nostálgica, fazendo-me revisitar lugares que já foram tão cotidianos e que hoje parecem pertencer a outra vida. Senti saudade da São Paulo que não vejo há quase dois anos, mesmo ainda morando aqui. Mas vamos olhar para o lado bom, né? Isso só vem reforçar o quanto o conto é bem escrito e como a narrativa é gostosa de ler (e é mesmo).

“E, ali, aprendeu a terceira coisa: a estação da Consolação não dava na Rua Consolação”

Claro que a história não gira somente em torno da cidade, mas também da relação que está sendo construída entre Gabriel e Elliot, filho de uma amiga da mãe de Gabriel e que deveria recebê-lo, mesmo que os dois ainda não se conhecessem (e parecessem não fazer questão de se conhecer).

“Tinha energia ali, estalando nos ouvidos, fazendo a pele do garoto se arrepiar”

Aliás, Elliot deveria ter ido buscar Gabriel na rodoviária e não o faz. Mas, aos poucos, vamos entendendo o que aconteceu e percebendo mais uma característica de São Paulo: a cidade que pode ser assustadora até mesmo para quem sempre viveu nela.

“Ele pediu informação numa banca de jornal que parecia mais uma lojinha de doces, brinquedos e suvenires para turistas”

Por último, gostaria de destacar um trecho que ri muito lendo, porque eu juro que sempre imaginei isso (o que reforça meu senso de identificação com essa texto):

“Principalmente se você estivesse na estação da Luz, imensa, labiríntica e tão organizada que o garoto não se surpreenderia se alguma pessoa sinalizasse com seta e buzina quando quisesse sair do fluxo”

Se você não é de São Paulo, indico este conto para que você tenha um gostinho da cidade. E se você é de São Paulo, indico este conto para que você revisite lugares e reflita sobre o local em que vivemos, além de aprender um pouco mais. Ou seja: indico esse conto para qualquer pessoa que tenha uma mínima curiosidade sobre São Paulo.

“O lugar podia ser antigo e podia ter uma história interessante, mas por enquanto o caminho consistia basicamente em prédios feios alternados com prédios menos feios”

Não deixe de conferir também os posts anteriores da série Meu Brasil é assim:

Ah, e se você não pegou a referência do título deste conto, não deixe de ouvir Sampa:

Regras da Zona Sul — Leblon Carter

Título: Regras da Zona Sul
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação independente
Páginas: 41
Ano: 2020

Ainda na vibe de O som no fim do túnel, Regras da Zona Sul é um conto que nos mostra mais um pouco da realidade brasileira. Aqui, porém, na periferia de São Paulo. E mesmo em locais “tão” diferentes, os personagens de ambas as narrativas têm muito em comum.

A similaridade mais gritante, claro, é o fato de que Igor — protagonista e narrador de Regras da Zona Sul — também mora apenas com o pai, que está sempre bêbado e largado pelos cantos, e com Érico, seu irmão mais velho que não vê a hora de se livrar daquela realidade.

“Anos de negligência fazem isso com o afeto”

Consequentemente, a falta de amor é, também, algo muito presente na vida de Igor, assim como era na vida de Maycom.

Ao mesmo tempo que é fácil destacar essas similaridades, porém, é possível destacar muitas diferenças, que vão para além do fato da história se passar em Estados diversos.

Regras da Zona Sul é muito mais real, muito mais cru: não há uma superação da realidade ali vivida, não há uma verdadeira perspectiva de dias melhores, ainda que os personagens tenham consciência do que vivem.

“Tento evitar que as drogas comam os poucos neurônios que me restam por conviver com aquela família”

Além disso, este conto aborda algumas questões interessantes como romances LGBTQ+, religiosidade e o valor que a família tem, nos casos em que esta ainda é sólida e unida (e, lembrando, tudo isso narrado a partir do ponto de vista da periferia).

“Os Russo poderiam ser baderneiros, criminosos e violentos, mas a família sempre estava em primeiro lugar”

Ao longo das páginas também fica claro o valor que a verdade e a honra podem ter mesmo em lugares onde só parecer haver violência e injustiça.

Mas, para entender como isso se dá, só lendo Regras da Zona Sul, porque esses elementos têm a ver com os principais acontecimentos da história.

E, se me permite uma sugestão, leia este conto. Leitura rápida, mas que vai te fazer conhecer um pouco mais da nossa realidade e te fazer pensar sobre ela. E, nesta leitura, você não precisa ter tanto estômago quanto para ler O som no fim do túnel.

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Tatianices recomenda [9]

Tatianices Recomenda [9]

Tatianices Recomenda de hoje, em pleno sábado, é sobre a Ocupação Manoel de Barros, no Itaú Cultural. #Ficaadicaprofinaldesemanaeprocarnaval.

O espaço ocupado pela exposição não é muito grande, mas é um delicioso mergulho sobre a trajetória desse poeta não tão conhecido por seus conterrâneos (nós, no caso). Por meio de manuscritos, correspondências e até entrevistas, vamos acompanhando a vida e a obra de Manoel de Barros, que sempre brincou com as palavras.

Além de tudo o que podemos ver e ouvir nessa exposição, ainda podemos sair de lá com uma publicação impressa recheada de outras histórias do poeta. E o melhor: essa publicação é distribuída de graça aos visitantes (é só pedir na recepção)!

E não fiquem aí achando que só porque é de graça essa publicação não é nada demais: trabalhada desde a capa, ela traz reproduções de manuscritos do poeta, fotos, trechos de entrevistas (inclusive uma concedida a alunos de um colégio) e, claro, poesias. Um livro para chamar de seu!

A exposição, como eu disse, está acontecendo no Itaú Cultural, localizado na Av. Paulista, 149. Ela é gratuita e vai até o dia 07 de abril. Para quem não puder conferir pessoalmente, porém, fica aqui um acervo digital muito bacana também: http://www.itaucultural.org.br/ocupacao/manoel-de-barros/

Aos que moram nessa cidade doida — mais conhecida por São Paulo — fica o convite para conhecer esse espaço e essa exposição. Mesmo em um dia de chuva quase ininterrupta, fui com meu namorado e passamos ali uma boa meia hora (ou mais) nos deliciando com nossas descobertas (eu ainda mais, com as explicações de meu namorado, que conhece melhor que eu a vida e a obra de Manoel de Barros).

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