Citações #44 — Se essa coroa fosse minha

Algumas pessoas têm um enorme pé atrás com antologias, coisa que eu até posso entender, mas não concordo. Elas são uma excelente forma de conhecer novos autores, além de carregarem muitas histórias e escritas diferentes em uma única obra.

“Mas ela ainda tinha que me dar uma chance”

O peso da coroa — Laura Machado

Uma das melhores antologias que li ano passado foi Se essa coroa fosse minha. Clicando aí no título você pode ler a resenha que eu escrevi (caso ainda não tenha lido) e entender porque gostei tanto.

“Acho que, nesse momento, todo mundo desse salão se apaixonou um pouco por Alaska. Isso é fácil. Difícil seria não se apaixonar”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

Apesar da relativamente extensa resenha e dos vários trechos que coloquei nela, muitas outras passagens maravilhosas dessa obra ficaram de fora e agora é o momento de apresentá-las a você.

“Se eu fizesse as escolhas certas poderia fazer alguma diferença no mundo”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

Como tentei deixar claro ao longo da resenha, essa é uma obra diferente, que vai muito além de qualquer senso comum, falando sobre uma realeza que não estamos acostumados a imaginar.

“Mas sou uma princesa. Serei uma rainha. Não tenho direito a ter sentimentos”

Adoro um amor inventado — Lyli Lua

“Quem era essa garota com quem eu teria que conviver por tempo indeterminado? E do que ela tanto fugia? Seria realmente algo tão perigoso assim?”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“Quem iria querer o prolongamento de uma guerra civil só para ficar próximo da garota que gosta?”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

Não só por falar em sentimentos tantas vezes, mas também por trazer relacionamentos que fogem à heteronormatividade.

“Como é possível que a sociedade tenha evoluído tanto a ponto de um simples toque de dedo na têmpora poder transferir meus pensamentos para quem eu quiser, e tão pouco a ponto de forçar jovens como eu a um casamento que eles não desejam?”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

Além disso, essa antologia aborda diversas perspectivas das relações familiares.

“Meu irmão me mostra que a vida ensina muito mais do que qualquer sala de aula”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Penso no meu pai. No homem que eu nunca conheci. No espaço vazio que permaneceu em mim até que minha mãe conhecesse Sandro e ele me ajudasse a fechar aos poucos” 

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Tudo o que importa é que eu ganhei uma avó. E eu sinto que as lacunas que eu sentia haver na minha história agora estão perfeitamente preenchidas”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Ele queria ser mais presente na sua vida, mas tinha um trabalho a fazer”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

E, sem dúvidas, fala muito sobre amor.

“No fim, acho que sentir falta de Drika foi o que mais nos uniu”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

“Amar alguém é uma coisa engraçada, só de vê-lo já me sinto melhor, segura e mais feliz”

Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez

“O que lhes faltava em dinheiro, sobrava em amor e isso sempre foi tudo de que preciso”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Me incomoda você ter passado tanto tempo achando que isso me impediria de me apaixonar por você” 

O peso da coroa — Laura Machado

“Eu já quis te dar todas as chances do mundo e achava que você nem me enxergava”

Adoro um amor inventado — Lyli Lua

Outra coisa que eu adoro encontrar nas histórias que leio e que aparece ao longo desta obra é o peso das palavras que dizemos.

“Palavras têm poder, e tronos já caíram por menos” 

O peso da coroa — Laura Machado

“Eu talvez tivesse esperado ouvir algo assim a minha vida inteira”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“— A gente já perdeu tempo demais com medo, entalando palavras na garganta, você não acha?”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

E consequentemente, como já deu para perceber, o peso dos silêncios que optamos por fazer também.

“As palavras que eu não falo ainda estão presas na minha garganta”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

“Olho nos seus olhos e naquele momento percebo que há muito mais do que uma coroa em questão, mas também sei que não devo me meter nesse assunto”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Na verdade, ela se isolou completamente, do mundo e de mim”

Adoro um amor inventado — Lyli Lua

Aliás, há diversas passagens que revelam alguma angústia ou dor, tornando os personagens ainda mais reais.

“Pela primeira vez o mar de seu lar não foi o suficiente para aliviar o aperto em seu coração”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“Eu odiava ser vista como coitada. Não aceitava ser definida por essas coisas que aconteceram comigo. Meus traumas nunca seriam maiores do que eu”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“Era apenas uma moeda, cinco míseros centavos, mas pesava uma tonelada em meu peito que me impedia de olhar para qualquer outro lugar”

O peso da coroa — Laura Machado

Por fim, um trechinho para nos lembrar de sempre fazer o nosso melhor, mesmo que ele pareça pouco (porque se é o seu melhor, nunca é pouco!):

“Era tudo que eu tinha, e faria o melhor que podia”

O peso da coroa — Laura Machado

Se essa coroa fosse minha (Antologia)

Título: Se essa coroa fosse minha
Autora: várias autoras
Editora: Publicação independente
Páginas: 250
Ano: 2021

Estando em contato com o trabalho de diversas editoras — principalmente pequenas — é comum que eu leia muitas antologias, pois esta é uma forma de publicação que tem suas vantagens para as duas partes (autores e editoras), coisa sobre a qual posso falar melhor em outro momento. Mas o ponto aqui é: eu nunca havia lido algo como Se essa coroa fosse minha e fico muito feliz de ter entrado em contato com esta obra (obrigada, Tayana Alvez, por ter participado dela).

“O povo precisa de alegria. De uma história para se apegar. De uma festa para se divertir. Eu não sou diferente”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O título talvez possa nos fazer pensar em algo que, muito provavelmente, está distante do que essa antologia retrata. Contudo, pode ser que uma boa olhada para a capa desta obra já nos faça notar algo de diferente.

“Nunca havia me passado pela cabeça que pessoas da realeza também possam sofrer com esse tipo de problema”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Se essa coroa fosse minha é uma antologia que reúne 6 contos, e se eu tivesse de escolher uma palavra para defini-la seria representatividade, uma vez que em todos os contos há protagonismo negro e sexualidades diversas.

“De onde eu venho, as pessoas são mortas por terem a minha cor e pensar em um homem negro matando toda a família por causa de uma coroa me assusta mais do que eu conseguiria descrever — desabafo”

(Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez)

O livro começa com o conto Se não a coroa cai, da Maria Freitas. Uma história que se passa num futuro (talvez) não tão distante.

“Jeremias me disse que esse objeto se chama “lápis” e que servia para escrever e desenhar nos tempos antigos. E o mais importante: as palavras escritas podem ser apagadas”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

Ao lê-lo, já podemos compreender a que vem essa antologia: ao mesmo tempo em que ela nos mostra a realeza de uma perspectiva rara de se encontrar em livros, mesmo que eles sejam de ficção, Se essa coroa fosse minha também traz críticas e reflexões pertinentes às pessoas comuns como nós.

“Não sei de onde tiraram a ideia de que uma pessoa sozinha, sem um casamento, família, herdeiros e sei lá mais o que não pode comandar um reino”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O que eu mais gostei neste primeiro conto (e olha que é difícil escolher uma coisa só) foi o uso da metáfora da montanha-russa, que me deixou de queixo caído com o final da história também.

“E, meia hora depois, aqui seguimos nós dois, como as duas crianças que cresceram, mas nunca tiveram coragem de enfrentar os altos e baixos da montanha-russa”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O segundo conto é o da Tay Alvez, responsável por me fazer conhecer essa antologia. Chamado Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis, já dá para imaginar a força dessa história, não? E claro que este conto também já deixa claro outro ponto forte desta antologia: mostrar que a realeza nem sempre é um sonho e que não tem nada de perfeita.

“Eu não era uma princesa e um príncipe nunca iria me salvar. O que era bom, porque eu não precisava mesmo ser salva”

(Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez)

Ao mesmo tempo que tem um romance gostoso de ler, esse é um conto com passagens angustiantes e recheado de trechos que nos fazem refletir, inclusive sobre o racismo que é ainda tão forte no Brasil.

Depois nos deparamos com o conto Não pedi para ser princesa, da Letícia Rosa. O próprio título já reforça o que destaquei acima, sobre a realeza nem sempre ser um sonho, mas aqui um novo ponto fica evidenciado: a questão de que, até pouco tempo, não tínhamos acesso a histórias de príncipes e princesas negros, algo que essa antologia tenta, portanto, mudar.

“Mas já faz tempo que eu não acredito em contos de fadas. É o que acontece com pessoas negras à medida que crescem”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Para além disso, este conto também fala sobre relações familiares de uma forma bem interessante e, claro, forte.

“A verdade é que somos duas completas desconhecidas. Não somos avó e neta e não seremos do dia para a noite”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Este é um conto que também tem uma metáfora que eu adorei. Aqui, a autora usa o sorvete para transmitir a sua mensagem e eu quase gritei com o final, porque ele é aberto e eu só queria mais.

“Pode me trazer outro, por favor? De baunilha, morango e… — Penso um pouco, eu ainda poderia mudar e continuar a ser eu mesma. — Limão”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

O quarto conto chama-se A paixão de Ori e foi escrito pela Camila Cerdeira, uma autora que, até então, eu não conhecia, mas que já adorei poder ler. Ela conseguiu mesclar elementos muito interessantes e a história se passa nos tempos atuais, o que torna tudo ainda mais bacana de se ver.

“A quarentena me roubou muitas coisas. O pingado na padaria antes do trabalho, as cervejas na sexta depois da faculdade, os domingos de praia, nossa barraca favorita para fofocar sobre os fracassos amorosos com as poc. E mesmo assim, correndo o risco de parecer um hetero crossfiteiro, o que mais sinto falta são os treinos de Muay Thai” 

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

Além de também retratar questões familiares complicadas (e extremamente palpáveis), este conto traz uma paixão muito forte e que surge de uma maneira que é difícil não se identificar.

“Merda, eu estava me importando com ela. Quando eu começava a me importar com alguém assim, só podia significar uma coisa. Eu estava lascada”

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

E talvez já tenha dado para perceber, mas com essa história, apesar do nó na garganta em alguns momentos, a risada também está garantida.

“Desgraça? Isso é praticamente o começo de uma fanfic, Bah. Uma princesa de verdade bateu na tua porta enquanto tu lava a louça”

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

Em O peso da coroa, quinto conto desta antologia, escrito por Laura Machado, temos uma história mais introspectiva, de uma princesa um pouco mais solitária, mas que está a vida toda em busca de uma única pessoa.

“Enquanto ela se afastava de mim, eu tinha me apaixonado por ela”

(O peso da coroa — Laura Machado)

Nesta história é impossível não sentir, como o próprio título já nos indica, o peso de uma coroa real. E olha que esse tema já vinha sendo trabalhado em todos os outros contos, sempre desmistificando a nossa visão “Disney” da realeza, mas quando chegamos neste conto, tudo parece ficar ainda mais denso.

“A Coroa era mais importante do que minha vontade de ir brincar com as outras garotas no pátio, de querer dormir no mesmo andar que elas, ter as mesmas aulas”

(O peso da coroa — Laura Machado)

Por fim, em Adoro um amor inventado, escrito por Lyli Lua, temos duas protagonistas que são praticamente a personificação de “os opostos se atraem”. A narrativa fica muito bem equilibrada entre a irreverência de uma e a seriedade da outra, ainda que, aos poucos, a gente vá compreendendo as máscaras que cada uma precisa vestir nessa história.

“Pela primeira vez decidia me abrir com alguém, e tudo parecia que ia dar muito errado” 

(Adoro um amor inventado — Lyli Lua)

A gente passa a leitura desse conto todo na expectativa de onde vai dar essa história de casamento fake que elas inventaram…

E é isso: vou terminar minha resenha por aqui porque quero sim te deixar com vontade de ler esta obra. E, mais do que isso, indico fortemente a leitura da mesma! Ótima para nos fazer pensar em diversas formas de amor, em racismo, em visões romantizadas que talvez tenhamos sobre princesas e príncipes. Para saber mais, clique aqui.