Se essa coroa fosse minha (Antologia)

Título: Se essa coroa fosse minha
Autora: várias autoras
Editora: Publicação independente
Páginas: 250
Ano: 2021

Estando em contato com o trabalho de diversas editoras — principalmente pequenas — é comum que eu leia muitas antologias, pois esta é uma forma de publicação que tem suas vantagens para as duas partes (autores e editoras), coisa sobre a qual posso falar melhor em outro momento. Mas o ponto aqui é: eu nunca havia lido algo como Se essa coroa fosse minha e fico muito feliz de ter entrado em contato com esta obra (obrigada, Tayana Alvez, por ter participado dela).

“O povo precisa de alegria. De uma história para se apegar. De uma festa para se divertir. Eu não sou diferente”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O título talvez possa nos fazer pensar em algo que, muito provavelmente, está distante do que essa antologia retrata. Contudo, pode ser que uma boa olhada para a capa desta obra já nos faça notar algo de diferente.

“Nunca havia me passado pela cabeça que pessoas da realeza também possam sofrer com esse tipo de problema”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Se essa coroa fosse minha é uma antologia que reúne 6 contos, e se eu tivesse de escolher uma palavra para defini-la seria representatividade, uma vez que em todos os contos há protagonismo negro e sexualidades diversas.

“De onde eu venho, as pessoas são mortas por terem a minha cor e pensar em um homem negro matando toda a família por causa de uma coroa me assusta mais do que eu conseguiria descrever — desabafo”

(Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez)

O livro começa com o conto Se não a coroa cai, da Maria Freitas. Uma história que se passa num futuro (talvez) não tão distante.

“Jeremias me disse que esse objeto se chama “lápis” e que servia para escrever e desenhar nos tempos antigos. E o mais importante: as palavras escritas podem ser apagadas”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

Ao lê-lo, já podemos compreender a que vem essa antologia: ao mesmo tempo em que ela nos mostra a realeza de uma perspectiva rara de se encontrar em livros, mesmo que eles sejam de ficção, Se essa coroa fosse minha também traz críticas e reflexões pertinentes às pessoas comuns como nós.

“Não sei de onde tiraram a ideia de que uma pessoa sozinha, sem um casamento, família, herdeiros e sei lá mais o que não pode comandar um reino”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O que eu mais gostei neste primeiro conto (e olha que é difícil escolher uma coisa só) foi o uso da metáfora da montanha-russa, que me deixou de queixo caído com o final da história também.

“E, meia hora depois, aqui seguimos nós dois, como as duas crianças que cresceram, mas nunca tiveram coragem de enfrentar os altos e baixos da montanha-russa”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O segundo conto é o da Tay Alvez, responsável por me fazer conhecer essa antologia. Chamado Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis, já dá para imaginar a força dessa história, não? E claro que este conto também já deixa claro outro ponto forte desta antologia: mostrar que a realeza nem sempre é um sonho e que não tem nada de perfeita.

“Eu não era uma princesa e um príncipe nunca iria me salvar. O que era bom, porque eu não precisava mesmo ser salva”

(Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez)

Ao mesmo tempo que tem um romance gostoso de ler, esse é um conto com passagens angustiantes e recheado de trechos que nos fazem refletir, inclusive sobre o racismo que é ainda tão forte no Brasil.

Depois nos deparamos com o conto Não pedi para ser princesa, da Letícia Rosa. O próprio título já reforça o que destaquei acima, sobre a realeza nem sempre ser um sonho, mas aqui um novo ponto fica evidenciado: a questão de que, até pouco tempo, não tínhamos acesso a histórias de príncipes e princesas negros, algo que essa antologia tenta, portanto, mudar.

“Mas já faz tempo que eu não acredito em contos de fadas. É o que acontece com pessoas negras à medida que crescem”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Para além disso, este conto também fala sobre relações familiares de uma forma bem interessante e, claro, forte.

“A verdade é que somos duas completas desconhecidas. Não somos avó e neta e não seremos do dia para a noite”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Este é um conto que também tem uma metáfora que eu adorei. Aqui, a autora usa o sorvete para transmitir a sua mensagem e eu quase gritei com o final, porque ele é aberto e eu só queria mais.

“Pode me trazer outro, por favor? De baunilha, morango e… — Penso um pouco, eu ainda poderia mudar e continuar a ser eu mesma. — Limão”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

O quarto conto chama-se A paixão de Ori e foi escrito pela Camila Cerdeira, uma autora que, até então, eu não conhecia, mas que já adorei poder ler. Ela conseguiu mesclar elementos muito interessantes e a história se passa nos tempos atuais, o que torna tudo ainda mais bacana de se ver.

“A quarentena me roubou muitas coisas. O pingado na padaria antes do trabalho, as cervejas na sexta depois da faculdade, os domingos de praia, nossa barraca favorita para fofocar sobre os fracassos amorosos com as poc. E mesmo assim, correndo o risco de parecer um hetero crossfiteiro, o que mais sinto falta são os treinos de Muay Thai” 

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

Além de também retratar questões familiares complicadas (e extremamente palpáveis), este conto traz uma paixão muito forte e que surge de uma maneira que é difícil não se identificar.

“Merda, eu estava me importando com ela. Quando eu começava a me importar com alguém assim, só podia significar uma coisa. Eu estava lascada”

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

E talvez já tenha dado para perceber, mas com essa história, apesar do nó na garganta em alguns momentos, a risada também está garantida.

“Desgraça? Isso é praticamente o começo de uma fanfic, Bah. Uma princesa de verdade bateu na tua porta enquanto tu lava a louça”

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

Em O peso da coroa, quinto conto desta antologia, escrito por Laura Machado, temos uma história mais introspectiva, de uma princesa um pouco mais solitária, mas que está a vida toda em busca de uma única pessoa.

“Enquanto ela se afastava de mim, eu tinha me apaixonado por ela”

(O peso da coroa — Laura Machado)

Nesta história é impossível não sentir, como o próprio título já nos indica, o peso de uma coroa real. E olha que esse tema já vinha sendo trabalhado em todos os outros contos, sempre desmistificando a nossa visão “Disney” da realeza, mas quando chegamos neste conto, tudo parece ficar ainda mais denso.

“A Coroa era mais importante do que minha vontade de ir brincar com as outras garotas no pátio, de querer dormir no mesmo andar que elas, ter as mesmas aulas”

(O peso da coroa — Laura Machado)

Por fim, em Adoro um amor inventado, escrito por Lyli Lua, temos duas protagonistas que são praticamente a personificação de “os opostos se atraem”. A narrativa fica muito bem equilibrada entre a irreverência de uma e a seriedade da outra, ainda que, aos poucos, a gente vá compreendendo as máscaras que cada uma precisa vestir nessa história.

“Pela primeira vez decidia me abrir com alguém, e tudo parecia que ia dar muito errado” 

(Adoro um amor inventado — Lyli Lua)

A gente passa a leitura desse conto todo na expectativa de onde vai dar essa história de casamento fake que elas inventaram…

E é isso: vou terminar minha resenha por aqui porque quero sim te deixar com vontade de ler esta obra. E, mais do que isso, indico fortemente a leitura da mesma! Ótima para nos fazer pensar em diversas formas de amor, em racismo, em visões romantizadas que talvez tenhamos sobre princesas e príncipes. Para saber mais, clique aqui.

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