Cigarro e anéis no rabo do gato — Maicon Moura

Título: Cigarro e anéis no rabo do gato e outros contos
Autor: Maicon Moura
Editora: publicação independente
Páginas: 57
Ano: 2021

No início do ano eu postei aqui no blog a resenha de Não quero patos elétricos, indicando fortemente a leitura desta obra. Mas se mesmo depois do que escrevi você não se convenceu a ler um livro que talvez te tire da zona de conforto, hoje eu trago uma nova (e talvez mais fácil) opção: a coletânea Cigarro e anéis no rabo do gato e outros contos, publicada pelo mesmo autor.

“As horas passam rápido. Como os dias, os meses e os anos. Coisas irão acontecer e outras não irão”

Considero que esta possa ser uma forma “mais fácil” de te convencer a embarcar em um novo gênero literário porque as histórias aqui são mais curtas (afinal, são contos) e você pode saboreá-las com calma, além de pegar algumas sutis menções à space opera anteriormente resenhada. Porém, um alerta: o fato das histórias serem mais curtas e de você poder lê-las com calma não significa que você irá se deparar com histórias banais ou toscas. Muito pelo contrário!

“Existem pessoas que sabem muitas coisas. Essas pessoas não estão na faculdade, não estão em escritórios, não são Deuses. Estão por aí, esperando o momento certo para mudarem seu modo de ver as coisas”

A coletânea Cigarro e anéis no rabo do gato reúne cinco contos que se passam numa realidade que (ainda) não é nossa, com simulacros, tecnologia e uma consciência ambiental muito acima da que temos hoje (e que ainda tem tanto a melhorar). É muito maluco perceber, porém, como apesar de tudo isso, os personagens são bem parecidos conosco, sendo reais e humanos mesmo quando não o são (achou confuso? Leia e entenderá!).

“O pensar é um grande mistério, as lembranças são confusas e nossa opinião é falha. Somos um amontoado de incertezas não confiáveis”

Outro aspecto excelente desta coletânea é que as narrativas trazem muitos significados e descobertas para nós, leitores, nos fazendo refletir sobre a vida e a morte e tudo o que há entre essas duas pontas.

“Sabemos que vai acabar e o que estamos fazendo?”

Confesso que tive a honra de ler essa obra ao menos duas vezes (porque, além de tudo, eu a revisei!) e não vou negar que a cada leitura eu me surpreendo com um novo detalhe, um novo pensamento.

“Deprimente é pensar que esse não é o mundo real”

E se você ainda está achando o título desse livro muito estranho, saiba que ele é o nome de um dos contos, e que depois da leitura, talvez as coisas passem a fazer mais sentido. Aliás, os títulos dos contos, em ordem, são:

  1. Beijo e chuva de sábado
  2. Cigarro e anéis no rabo do gato
  3. “Papai?” perguntou minha menininha
  4. Ele, a moça e a saída
  5. Mas eu quero morrer (conto bônus, que eu já havia lido de maneira separada e cuja resenha você encontra aqui).

“Corri como se a vida dependesse daquilo. E dependia”

Espero ao menos ter despertado a sua curiosidade com relação à essa coletânea e a tudo o mais que o Maicon escreve. Você pode acompanhar o trabalho do autor através da newsletter, do Instagram e do Linkedin.

“Eu devia ter me esforçado mais”

Com relação a esse trabalho, ele está disponível na Amazon, mas em breve ganhará o formato físico… Com um prefácio meu! Entre em contato com o autor para adquirir o seu exemplar.

Céu de menta — Camila Martins

Título: Céu de menta
Autora: Camila Martins
Editora: Hope
Páginas: 185
Ano: 2018

Depois que li O que me faz pular, tornei-me uma leitora que não pode ver livros sobre autismo que já quer devorar todos. E assim foi com Céu de menta que, no entanto, é bem diferente de qualquer outra leitura que eu já tenha feito sobre o tema.

“Como se deixar envolver por algo que não se conhece?”

Comecemos pelo fato de que Céu de menta é uma ficção (enquanto os demais livros que li geralmente foram não-ficção ou ficção baseado em fatos reais, coisa que não sei se é aplicável neste caso). E Céu de menta é uma ficção que nos mostra uma vida muito normal, afinal de contas, o autismo não é algo que nos torne incapazes de sentir e viver. A narrativa é bem doce e, por vezes, um pouco parada. Mas nada que torne esta história menos especial.

Sem grandes ambientações (a história se passa quase toda entre casas vizinhas de uma pequena cidade), Céu de menta nos mostra duas famílias extremamente diferentes que vivem lado a lado.

“Ser feliz com pouco, e curtir isso, é um dom”

Primeiro somos apresentados aos Salles, família formada por Carolina (mãe), Roberto (pai), Ana Maria (a protagonista) e Davi (o irmão mais novo). Depois, aos Alencar, família formada por João (o vizinho de Ana e também protagonista desta história), sua vó Clara, suas duas irmãs mais velhas e rebeldes (Paula e Bianca), sua mãe acamada (Sílvia) e seu pai ausente (Paulo). Acho que essa descrição já deixou bem claro que não temos aqui uma família muito fácil, não é mesmo?

“A família Alencar sempre foi uma granada prestes a explodir”

E tem mais: a família de Ana é simples, vive muito bem com o que tem e mudou-se para essa pequena cidade com o intuito de oferecer uma vida melhor à filha, portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista), enquanto a família de João está mergulhada numa vida de ostentação material, mas de ausência de amor. Contudo, mesmo tendo crescido nesse ambiente, João é um garoto calmo, compreensível e amoroso.

“João era um diamante em meio aos cacos de vidro”

É ele quem, ainda jovem, aproxima-se de Ana. E assim nasce uma amizade muito linda, já que ele está disposto a compreender a amiga e fazer de tudo para sempre deixá-la confortável. Os pais de Ana, claro, veem essa amizade com bons olhos, pois também sabem da raridade de se encontrar pessoas como João no mundo.

“Não tem preço ter alguém inteiro em nossas vidas. São raridades”

O mais bonito desta história, porém, é ver como ambos têm suas dificuldades e como um pode ajudar — e muito — o outro. Cada um com o seu jeito, cada um com suas habilidades, Ana e João crescem e amadurecem juntos. E claro que, nesse caminho, alguns percalços acontecem, fazendo com que a autora aborde questões como a pressão sobre os jovens na escolha de uma carreira, depressão, as máscaras da nossa sociedade, preconceito…

“Como chegar perto de alguém que se cercou de um enorme muro?”

Logo no início, o título do livro já passa a fazer sentido, mas somente ao final é que o entendemos realmente, e ainda com uma última bela lição deixada pela autora.

Aliás, temos muito a aprender com Céu de menta e um dos aprendizados que mais me marcou é de que o fato de uma pessoa não saber muito bem como lidar e demonstrar seus sentimentos, não significa que ela não sente (e muito!).

“Ah, como Ana ama abraços. Ah, como é difícil para Ana entender os abraços”

Se você busca um livro com uma protagonista autista e, ao mesmo tempo, quer ler algo bem leve, com certeza é Céu de menta que você procura. Então clica aqui e saiba mais sobre essa história que vai te deixar com um quentinho no coração.

Calafrio — Tayana Alvez

Título: Calafrio
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 116
Ano: 2020

Antes de nos deixar embarcar em Calafrio, Tayana avisa que esta não é uma história qualquer, nem mesmo para ela, que está se arriscando em um novo gênero. Também fica o aviso de que a narrativa pode conter gatilhos, mas que, para quem tiver estômago, que siga em frente na leitura e deixe para tirar as conclusões ao final.

O recado estava dado e, mesmo assim, fui enormemente surpreendida com a leitura.

Para começo de conversa, a história toma rumos inesperados a cada instante e vai jogando com reviravoltas que estavam quase me fazendo torcer pelo final errado, mas sobre isso eu explico mais pra frente. A narrativa alterna entre presente e passado e cada peça desse quebra-cabeça vai se encaixando aos poucos, mas, de novo, sem necessariamente nos preparar para o final. Com o passado, vamos conhecendo a história de Imaní e Maia, quem são (ou eram) eles, o que fazem, de onde vêm e, com o presente, vemos o desenrolar deles, juntos.

“Às vezes, na vida, coisas estranhas acontecem. Coisas ruins acontecem”

Imaní é uma jovem que sonha com sua liberdade. Ironicamente, porém, ela é sequestrada. Pior: por alguém em quem estava começando a confiar e que parecia ser quase uma promessa de dias melhores.

“A verdade é o que você acredita que ela é”

Segundo o pouco que vai contando de si, porém, Maia — que começa como um bom amigo e acaba como sequestrador de Imaní — também se sente preso. Não como ela, claro, mas no sentido de não ter escolhas na vida. E aqui temos um ponto: Maia é humano demais, real demais.

Ele quase me convenceu de que poderia passar de vilão a herói e que estaria tudo bem se isso acontecesse. Quase me fez torcer por um final feliz. Não que o final não seja, de alguma forma, feliz, mas ele vem com um belo tapa na cara dado pela autora.

Obrigada, Tayana, por não me deixar embarcar nas conversas de Maia e mostrar que Imaní era ainda melhor do que se apresentara no início da história.

E, aliás, devo discordar que Calafrio não tenha nada a ver com o que já foi publicado por Tayana: Imaní tem a força que as outras protagonistas da autora têm e também a capacidade de nos fazer enxergar para muito além de nossa visão de mundo.

Por fim, Calafrio não é somente o título do livro, mas também a sensação que nos percorre ao realizar essa leitura, bem como é o que Imaní sente muitas vezes, ainda que, no início, não compreenda muito o porquê.

Se você quiser se jogar nesta história, clique aqui.

As 220 mortes de Laura Lins — Rafael Weschenfelder

Título: As 220 mortes de Laura Lins
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação Independente
Páginas: 53
Ano: 2020

Escrever um conto não é uma tarefa tão simples quanto parece, porque não é simplesmente escrever uma histórinha curta e acabou. A “histórinha” precisa ter começo, meio e fim na medida certa. E se tem algo que eu posso dizer é que As 220 mortes de Laura Lins tem exatamente isso. Ok, talvez eu não importasse de ler um pouco mais… Mas isso é pelo que ainda vou apresentar abaixo.

Acho que uma das coisas que surpreende logo de cara neste conto é a linguagem: totalmente acessível. Digo, o conto é escrito numa linguagem adequada aos personagens nele apresentados (dois jovens que estão no ensino médio) e, ao mesmo tempo, é recheado de referências que nos aproximam ainda mais dos acontecimentos e da narrativa. Não é uma história que termina em si mesma, mas que nos abre horizontes.

E aqui pegamos outro ponto crucial: a narrativa. Impossível não ser fisgado por essas páginas. Rafael pegou uma ideia e trabalhou em cima dela de maneira muito criativa, divertida e, apesar de tudo (e vocês já vão entender essa “ressalva”), leve.

Em certo momento da leitura, fiquei pensando se havia uma metáfora por trás daquelas palavras, onde tudo aquilo chegaria. Entendi que não era exatamente uma metáfora, mas havia uma grande mensagem a ser passada e… Uau! Como isso foi muito bem feito.

Mas vamos ao que interessa: antes de começar a leitura da história propriamente dita, somos apresentados a 5 regras. Guarde-as, você logo entenderá cada uma e — provavelmente, ao menos comigo foi assim — achará muito bacana o paralelo ali traçado.

“Nesse jogo, é a mente que fica com as cicatrizes mais profundas”

Os capítulos são nomeados de “ciclos” e isso também logo se explica. Se você olhar o sumário, verá: Ciclo 1, Ciclo 2, Ciclo 3, Ciclo 220, Ciclo 221 e Laura. Não, não é um erro. Lembre-se que estamos falando de um conto e você, ao iniciar a leitura, logo entenderá que não seria possível narrar cada um dos ciclos (eu leria, viu?). Mas por quê?

A cada novo ciclo, Daniel acorda em seu quarto, olha para o celular e vê a mesma data e hora: 17 de maio, 13:23. A cada novo ciclo, Daniel vai se encontrar com Laura no Parque do Ibirapuera. E a cada novo ciclo, Daniel tenta evitar a morte de sua amiga (e falha).

É claro que depois do 3º ciclo, tanto Daniel quanto nós, leitores, já entendemos que ele está preso em um looping temporal. O que não sabemos — e nem ele — é como sair disso.

E apesar disso poder soar repetitivo, não é. Não apenas porque, a cada ciclo, Daniel descobre algo novo, mas também porque somos, aos poucos, apresentados à história dele e de Laura, que é muito mais complexa e instigante do que poderíamos esperar de dois jovens colegiais.

Ok, talvez “instigante” tenha sido um adjetivo exagerado, mas a realidade é retratada ali de maneira tão palpável que não tem como não vermos um filme passando em nossas cabeças.

“Viver a mesma tragédia 219 vezes e não poder conversar com ninguém é demais até para Daniel Trombadinha”

Li esse conto bem rapidamente, torcendo até o último momento por um final feliz. Não posso dizer que cheguei onde esperava, mas o final está realmente muito bem pensando.

E se te deixei com vontade de saber mais sobre essa história, clica aqui.

Positivo — Marcela Brazão

Título: Positivo
Autora: Marcela Brazão
Editora: Publicação independente
Páginas: 58
Ano: 2020
Cabeçalho com capa do livro "Positivo", da autora Marcela Brazão

Positivo é a obra de estreia de Marcela Brazão e não posso deixar de dizer que foi um ótimo início! Trata-se de uma novela (então sim, a leitura é bem rapidinha) e, já pelo título, podemos perceber como tudo foi muito bem planejado e como cada coisa se encaixa ali.

“Eu sabia que não deveria me abalar pelo que os outros pensavam ou como as pessoas olhavam, contudo, era algo que ainda me incomodava”

Quando leio a palavra “positivo”, logo penso em algo bom, alto astral, feliz. Mas esse não é o sentido primeiro da palavra usada no título deste livro e isso já vai sendo explicado desde as páginas iniciais da obra. “Positivo” é, antes de tudo, o resultado de um teste. O teste que muda a vida de Rosa, a protagonista.

“Não idealize achando que o amor será uma explosão e que vai acontecer de repente, de um momento para o outro. Cada cuidado, cada carinho e cada preocupação é amor”

Aos 40 anos, solteira, acima do peso, morando na casa da madrasta, reconstruindo a vida, Rosa descobre-se grávida. E, apesar de tudo o que acabei de listar, esta não é a história de uma pobre coitada que acha a vida injusta. Não, Rosa é uma mulher forte, capaz de dar a volta por cima quantas vezes forem necessárias. Mas, mais que isso: Rosa é uma mulher real.

Não, não estou dizendo que a novela baseia-se em fatos reais (isso eu não tenho como afirmar, nada é falado sobre o assunto), mas que Rosa é uma protagonista como tantas mulheres que existem, em carne e osso, em nosso planeta. Alguém com medos e traumas, mas com vontade de seguir em frente.

“A estatística cruel que mostrava que metade das mulheres eram demitidas após a licença maternidade era um dos pontos que me assombrava diariamente”

A narrativa em primeira pessoa torna a história quase um diálogo conosco. Um diálogo no qual temos a possibilidade de conhecer o passado e o presente de Rosa. Mais ainda: o passado que se faz presente em seus medos, inseguranças, angústias.

“Ricardo tinha me feito desacreditar do amor e esse rapaz estava me ensinando a amar de verdade”

Positivo é um livro que consegue, mesmo em sua curta extensão, abordar temas muito importantes como relacionamento abusivo (e tantas coisas que giram ao redor disso, como inseguranças, os outros desacreditando a sua história…), gravidez após os 40 anos, padrões de beleza (e peso) impostos pela sociedade (e por médicos também, diga-se de passagem), gravidez e mercado de trabalho, homofobia… Enfim, tem muito pano para manga ao longo dessas páginas.

“As agressões eram completamente desacreditadas pela minha madrasta. Tudo era exagero da minha parte”

A forma como a história é contada e o fato de conhecermos Rosa após seu relacionamento abusivo, tornam os acontecimentos um pouco mais leves e, acredito, esta não é uma história que desperte tão facilmente algum tipo de gatilho, mas se você tem muita sensibilidade a esse tema (ou algum outro dos que mencionei acima), claro, talvez seja melhor não ler. De qualquer forma, tudo foi tratado com a seriedade necessária e, ao mesmo tempo, com uma leveza muito plausível.

O texto é muito bem escrito e percebe-se que houve preocupação da autora com a revisão do mesmo. A leitura, como eu disse antes, é rápida — devido à curta extensão da obra — e fluída, uma vez que queremos chegar ao final e saber o que acontecerá com Rosa. O que o destino guarda para ela.

E aliás, o final! Se estamos falando de uma história que retrata algo tão palpável, o final também deveria ser assim, sem idealizações. E Marcela conseguiu trabalhar bem essa questão: o final é feliz, claro, mas um feliz real. Um feliz que enxerga que o futuro pode mudar tudo de novo e que está tudo bem ser assim, porque sempre podemos nos reerguer mais uma vez.

Se você se interessou por Positivo, clique aqui. Obra disponível apenas em formato ebook e cadastrada no Kindle Unlimited, que você pode testar gratuitamente por 30 dias.

Assassinato na praia — Mike Flint

Capa do livro "Assassinato na praia" com o nome do blog, para divulgação da resenha

Enquanto lia Assassinato na praia fiquei pensando em como defini-lo. Creio que a melhor palavra que encontrei foi “ousado”. Sim, definitivamente, “ousado” é um bom adjetivo para esse livro, que tenta mesclar algumas propostas.

O começo da história nos conduz a um romance levinho, coisa que, pelo título, imaginamos que não irá durar muito tempo. Mas vamos focar nesse início por enquanto.

Eduardo é engenheiro e, um pouco cansado de sua vida, decide tirar um tempo para si, alugando uma casa na praia e, finalmente, dando início a um projeto só seu: escrever um livro. O que ele não sabia, porém, era que ali escreveria muito mais páginas da sua vida que do livro em questão.

A praia em questão — a paradisíaca praia do Éden — fica numa pacata ilha, mesmo esta sendo próxima à capital. Tal ilha tem ares de cidade do interior, onde todos se conhecem. E claro, logo Eduardo passa a conhecer pessoas importantes dali. Mas o principal: rapidamente Eduardo conhece e se apaixona por Marcia.

Marcia é uma daquelas mulheres que todos adorariam ter por perto. Uma pessoa agradável, de coração enorme. Linda, por dentro e por fora. Não tinha como nosso protagonista não se apaixonar.

E é assim que inicia o romance levinho que eu disse ali em cima, e que logo ganha ares de romance hot, com cenas bem quentes entre os dois personagens. E aqui, portanto, já entra a segunda proposta do livro. Essas cenas hot são pontuais e adequadas ao livro, contudo, não deixam de ser uma proposta a mais.

Mas, como eu disse anteriormente, os ares de romance levinho, como o próprio título do livro indica, logo dão espaço a um mistério policial: um assassinato na praia de uma pacata ilha e a busca pelo culpado.

De início, o autor até consegue manter bem nossas dúvidas com quem pode ser o verdadeiro assassino, dando motivos para mais de um personagem ter cometido tal ato, mas logo nossas suspeitas vão se reduzindo drasticamente.

E qual a relação de Eduardo com tudo isso? Ele, claro, é o principal suspeito por tal assassinato (não para nós leitores, mas para a polícia da história), sendo o primeiro a ser mantido detido para se explicar diante da justiça. E, a partir deste ponto da narrativa, o autor mescla o momento presente — de agonia enquanto Eduardo espera seu advogado chegar e sofre a perda de uma pessoa querida — e o “passado” (de poucos dias antes), isto é, seus primeiros dias na ilha, os momento românticos e calientes que viveu com Marcia.

No meio disso tudo, ainda tem o tal livro de Eduardo. Um livro dentro do livro que lemos. O autor nos apresenta a estrutura da obra que Eduardo pensou, bem como, aparentemente, quis inserir em seu próprio livro — isto é, em Assassinato na praia — alguns conselhos que lhe pareceram interessantes para quem quer escrever um livro. Em alguns momentos, porém, senti que o autor não seguiu suas próprias recomendações, colocadas na história através do olhar de Marcia, que já trabalhara em uma editora.

Ao meu ver, na tentativa de enriquecer a história e torná-la tanto algo interessante para outros escritores, quanto algo que trouxesse mistério e romance para os mais diversos leitores, o autor acabou perdendo-se um pouco.

A história não tem pontas soltas, mas faltou certo desenvolvimento narrativo que realmente prendesse o leitor. Ainda assim, foi uma leitura curiosa de se fazer. Li até a última página, buscando imaginar que caminhos o autor tomaria. E certamente não cheguei nem perto de descobrir o verdadeiro final.

Se você se interessou por Assassinato na praia, clique aqui. Você não paga nada por ele no Kindle Unlimited, que você pode testar gratuitamente aqui, por 30 dias.

Mas eu quero morrer & Quase alguma coisa — Maicon Moura

Hoje eu trago a vocês, queridos leitores deste Blog, uma resenha dupla. Isto porque semana passada, realizei a leitura de dois contos de um mesmo autor. E apesar de escritos pela mesma pessoa, cada um desses contos têm as suas particularidades.

Primeiro, peguei para ler Mas eu quero morrer. Mergulhei na leitura como muitas vezes faço, tendo apenas visto a capa e sem ler a sinopse. E deparei-me com sete páginas que me deixaram reflexiva.

Somos jogados em uma realidade na qual os avanços tecnológicos nos permitem viver para sempre — e aí acho que esse título tão impactante já fique um pouco mais claro —, mas não apenas isso: podemos viver para sempre em corpos jovens e saudáveis. Será que isso é realmente tão bom assim?

Um conto rapidinho de ler e que eu super indico para quem curte ficção científica. Mas também indico para quem não conhece tanto o gênero, pois pode ser uma interessante porta de entrada.

Por outro lado, Quase alguma coisa é um conto muito… Real? Ele pode parecer confuso, mas a verdade é que confuso somos nós e é isso o que está retratado ali. Peguei ele logo após Mas eu quero morrer, apesar de ainda estar reflexiva, e logo fui nocauteada novamente, rendendo-me a uma história totalmente diferente, mas igualmente incrível.

Este conto nos mostra o quanto nossa mente é capaz de nos fazer enxergar o que não existe, ou então de criar uma realidade quase que paralela. E tudo isso, claro (ou principalmente), durante o banho, no momento em que mais deixamos nossa mente vagar livremente. E o mais interessante é que, por vezes, acreditamos tanto naquilo que criamos que depois fica difícil separar o real do imaginário.

Indico ele para quem gosta de algo mais introspectivo, que nos faz refletir sobre nossos comportamentos, mesmo aqueles que, por vezes, já se tornaram banais.

O desfecho de ambos os contos surpreende e gostei da experiência de lê-los. Duas experiências bem diferentes uma da outra, é verdade, mas que me permitiram conhecer um pouco mais da escrita deste autor nacional que, em breve, lançará um livro solo.

E as duas leituras também foram extremamente rápidas, então se você busca algo para ler em minutos, deixo aqui a minha indicação! Só não me responsabilizo se, mesmo sendo uma leitura rápida, você sair com a cabeça em parafuso…

Se interessou por esses contos? Então adquira Mas eu quero morrer aqui e Quase alguma coisa aqui. Ambos também encontram-se gratuitos no Kindle Unlimited. Experimente gratuitamente aqui.

Entre estantes — Olívia Pilar

Título: Entre estantes
Autora: Olívia Pilar
Editora: Publicação independente
Páginas: 14
Ano: 2017

Logo de cara, o que me chamou a atenção para esta história foi o título. E então a capa. Por fim, a sinopse. Tudo me remeti a livros, a paixão, a conhecimento.

“Entre estantes” é um conto e, como tal, é de rápida leitura. Poucos acontecimentos, poucos personagens. Uma narrativa de fácil compreensão, mas, nem de perto, rasa.

Trata-se da história de uma jovem, Isabel, que está em seu primeiro ano de faculdade. É ela mesma quem nos conta o seu percurso, começando lá em fevereiro, com o início das aulas. O lugar central da história, porém, não é simplesmente a faculdade como um todo, mas um ponto específico: a biblioteca. Agora ficou mais claro o título, não?

Mais do que encontrar os livros de que precisa, porém, Isabel encontra algo mais entre as estantes da biblioteca: autoconhecimento. E não falo apenas sobre o início da vida adulta, as inseguranças com nossas escolhas. Neste conto, Isabel repensa muito mais que isso. E tudo isso ao se deparar com uma figura que rapidamente lhe chama a atenção. Uma figura que ela tenta esquecer, mas não consegue.

Essa é uma leitura que eu recomendo entre um livro e outro, uma pausa gostosa, rápida e incrível. Uma leitura de minutos, mas que vai te acompanhar por dias. E Olívia Pilar tem vários outros contos publicados, que agora estou bem curiosa para conhecer!

Se interessou? Então clica aqui.

Citações #33 — Não inclui manual de instruções

Quando escrevi a resenha de Não inclui manual de instruções, ela já foi recheada de trechos do livro, mas muitos outros ainda ficaram de fora, afinal, trata-se de um livro que aborda algumas temáticas que considero muito importante.

A começar pelo fato que o protagonista tem síndrome de asperger e que, portanto, são apresentadas algumas perspectivas com relação a isso.

“Estava começando a perceber que Conor era do tipo de pessoa que não costumava permitir que alguém entrasse em sua redoma”

Pouco a pouco vamos conhecendo alguns dos hábitos e manias de Conor e entendendo um pouco melhor como funciona a mente de um aspie.

“Ao contrário da maioria das pessoas que leem livros para fugir da realidade, Conor os usa para dar sentido a ela”

E, a partir do momento que vamos compreendo isso, vamos aprendendo que eles são tão humanos quanto nós.

“Algo que sempre me assustou foi ser visto como uma aberração”

Uma das maiores dificuldades para um aspie é, provavelmente, a comunicação, principalmente porque eles costumam ser muito literais!

“Seria muito melhor que as pessoas pudessem aprender a ficar confortáveis com o silêncio, pelo menos de vez em quando”

E é por isso que a autora pode, também, explorar a importância da comunicação para o viver em sociedade.

“Você sabia que a comunicação é muito subestimada?”

Outro ponto de dificuldade para quem tem asperger é com relação a demonstrar sentimentos.

“Sei que não é culpa sua, que não percebe, mas não é fácil dar carinho a alguém e sentir que não está recebendo esse carinho de volta”

Mas isso, claro, não significa que eles não sentem nada. Muito pelo contrário, aliás, afinal, são humanos, certo?

“Às vezes, quando gostamos de verdade de alguém, nos parece tão óbvio que não há como essa pessoa não notar”

Esses eram os trechos que não couberam na resenha, mas que eu destaquei durante a minha leitura, porque me fizeram pensar sobre esses pontos que acabo de trazer. O que acharam? Ficar com vontade de ler Não inclui manual de instruções?

O alquimista prodígio e a espada de cobre — Leblon Carter

Título: O alquimista prodígio e a espada de cobre — Saga Alla
Autor: Leblon Carter
Editora: Djinn
Páginas: 265
Ano: 2019

Se tem uma coisa que me deixa doida (e que eu provavelmente já comentei por aqui) é ouvir dizer que não existem boas fantasias escritas no Brasil. Será que não existe mesmo ou nós é que não conhecemos o que tem sido produzido por aqui?

“A vida é engraçada… sempre no dá a oportunidade certa na hora certa”

Talvez uma das nossas grandes referências atuais do gênero fantasia seja Harry Potter (apesar das inúmeros polêmicas que J. K. Rowling vem se envolvendo), mas vocês já leram O alquimista prodígio e a espada de cobre?

Nesta história conhecemos Aúcia, uma influente cidade. Nela vivem Alla e Elissa, duas jovem que sonham em estudar na Foulst, a mais importante escola de alquimia para jovens. Mas os pais de ambas não são muito favoráveis a essa escolha e elas passam suas últimas férias tentando convencê-los de que é aquilo que desejam.

Nesse meio tempo, vamos conhecendo um pouco mais de Aúcia, mas também conhecemos, de um outro lado da história, alguns jovens que parecem estar numa missão, em busca de objetos que aparentam grande valia. A líder desse grupo é Luana Lavoisier.

Se está te parecendo que a história irá girar ao redor de bem (Alla) e mal (Luana), sinto informar que você está tirando conclusões precipitadas. A verdade é que a única coisa que fica clara ao longo das páginas é que é muito difícil delimitar até onde o bem e o mal realmente vão.

“— São vidros espelho. Cada pedacinho mostra uma imagem diferente de você… o que há de mais profundo na sua alma. Várias personalidades, maneiras, faces suas, e cada uma delas é revelada pelos espelhos. Quando eles se juntam você vê quem realmente é. O pedaço inteiro de si mesma. Todas as suas camadas escondidas são reveladas”

Podemos, assim, dividir a trama em dois grandes núcleos, que vão se alternando, com uma certa predominância da narrativa focada em Alla. Aqui, portanto, acompanhamos a jovem em seu primeiro ano na Foulst, ao lado de Elissa e do mais novo amigo delas: Ernest.

Como todo primeiro ano em uma instituição, os jovens têm de enfrentar poucas e boas. E aqui é importante ressaltar algo: Alla não é uma aluna popular. Muito pelo contrário, aliás, em diversos momentos é possível captar certo bullying dirigido a ela. Mas é muito interessante perceber que, para além de toda a rivalidade que jovens costumam alimentar entre si, são muitas as situações em que os alunos precisam se juntar de verdade para superar um obstáculo.

Esse núcleo da história, portanto, é recheado de ação (na medida certa — e isso, para mim, é uma qualidade essencial. Ação em excesso pode tornar a leitura cansativa demais, por mais paradoxal que isso pareça), lições e claro, uma pitada de romance e rivalidade adolescente.

O segundo núcleo, por sua vez, é o que foca na missão de Luana. Devido ao seu passado, Luana precisa manter-se escondida, então ela comanda as ações de seu grupo, que tem de se dividir em busca dos objetos necessários para construir uma pedra filosofal. Por meio dessa parte da história, podemos conhecer um pouco mais do passado de Aúcia e também de alguns personagens relativamente centrais à história.

Assim, O alquimista prodígio e a espada de cobre é um livro que vem para animar o coração dos leitores ávidos por uma boa fantasia, mas que, ao mesmo tempo, nos deixa com um gostinho de “quero mais” e a certeza de que queremos continuar a leitura dessa série.

Ficou com vontade de conhecer Aúcia e todos os seus mistérios e encantos? Então clica aqui.