A ruiva ao lado — Taynara Melo

Título: A ruiva ao lado 
Autora: Taynara Melo 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 78  
Ano: 2021 (2º edição)

A ruiva ao lado é uma obra razoavelmente curta e, por isso, rápida de ler. Além disso, um dos principais plots da narrativa está colocado logo no início, mas, mesmo assim, o mistério perdura por toda a obra.

“Já vi aquele olhar. Mas não me lembro em quem”

Celine tem 32 anos e ainda carrega consigo a dor de ter sido abandonada pela mãe aos 10 anos de idade, tendo crescido apenas com o pai, alcoólatra.

“Até hoje sinto que a minha felicidade foi embora com minha mãe, no dia que ela partiu”

Apesar de tantos percalços, Celine conseguiu construir sua vida e, ao contrário da mãe, jamais abandonou o pai, mesmo diante da dificuldade e da tristeza de conviver sob o mesmo teto que alguém com um vício tão complicado e destrutivo quanto o álcool.

“Nesse exato momento, ele está na reunião do AA. Fico feliz por ele estar se empenhando. No mês anterior, ele havia completado quatro anos de sobriedade. Aquilo, para ele, era uma vitória diária. E eu estava orgulhosa dele”

Mas claro que, quando as coisas começam a se ajeitar, a vida vem e traz novas surpresas e desafios.

“Só quero seguir em frente, sem esse drama à minha volta”

Voltando de um delicioso final de semana com as amigas, Celine conhece Laura, a ruiva que pede para sentar ao seu lado no ônibus.

Desse momento, nasce uma linda e surpreende relação. Um elo que não é sempre que conseguimos criar em tão pouco tempo.

Mas é também por causa desse momento que todo o passado de Celine vem à tona e sua vida vira um caos.

A ruiva ao lado é, portanto, uma história que fala sobre abandono, alcoolismo, depressão e, acima de tudo, perdão.

“Compreendi que o perdão deve ser dado de coração”

Se quiser realizar esta leitura, prepare-se para encontrar sentimentos intensos e, claro, para chorar. Clique aí embaixo para saber mais e não deixe de seguir a autora nas redes sociais (Twitter e Instagram) para conhecer esta e suas demais obras.

Garoto conhece garoto — Leblon Carter

Título: Garoto conhece garoto 
Autor: Leblon Carter 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 21
Ano: 2021 

Acho que todos nós, cedo ou tarde, nos deparamos com um momento em que buscamos uma leitura gostosa, mas rápida e leve. E é exatamente isso que encontramos em Garoto conhece garoto.

O contexto é bem simples e, por si só, poderia render os mais diferentes tipos de história: uma excursão para um parque de diversões.

O foco porém — como não poderia deixar de ser em um conto — está em um momento específico: quando quebra a roda gigante em que Bruno está. 

“Só aconteceu. De forma natural”

Aqui, porém, sinto-me na obrigação de fazer alguns esclarecimentos: 

1°: Bruno estava morrendo de medo de ir em tal brinquedo.

2°: Bruno estava na fila com seu amigo — que era quem realmente queria ir ao brinquedo —, mas este sentiu uma enorme vontade de ir ao banheiro, deixando o amigo em pânico e sozinho.

Claro que esses acontecimentos eram necessários para que, mesmo quase tendo um treco, Bruno entrasse na roda-gigante e dividisse a cabine com um desconhecido. O que, no final das contas, não foi tão ruim assim…

“Nós ficamos com as mãos uma por cima da outra durante uns dois minutos antes que surgisse um outro assunto”

Ficou com vontade de conhecer e ler esse conto romântico, fofinho e curtinho? Então clique abaixo para saber mais e não deixe de seguir o autor em suas redes sociais (Twitter e Instagram).

A filha primitiva — Vanessa Passos

Título: A filha primitiva 
Autora: Vanessa Passos 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 97 
Ano: 2021

Há cerca de um ano, conheci a obra Desesterro, da Sheyla Smanioto. Agora, uma vez mais, me deparo com uma história forte, densa — apesar da linguagem relativamente fácil de ler — intensa e, em certa medida, brutal.

“Que alegria tem botar criança no mundo pra sofrer?”

E por que mencionar Desesterro aqui, ao invés de ir diretamente para a resenha de A filha primitiva? Porque ao iniciar a leitura desta obra, deparei-me com uma epígrafe que trazia, justamente, um trecho de Desesterro. E se de início isso foi uma surpresa, ao final da obra eu conseguia entender que a escolha talvez não pudesse ter sido melhor.

“Se tem os rastros, é porque a vida não é mais a mesma”

Em uma ficção que é a verdade de tantas pessoas, Vanessa Passos nos transporta em uma imensidão de sentimentos. E assim, uma obra curta transforma-se numa leitura que pede pausas, uma tomada de fôlego para seguirmos com os acontecimentos e pensamentos.

“Vou me descobrindo enquanto escrevo, quando puxo de dentro uma palavra depois da outra, sem sentido lógico as palavras continuam vindo”

A narrativa se passa em Fortaleza e retrata uma mulher — a protagonista — que tenta (re)construir sua história, mas que sem ter peças muito importantes para tal empreitada, desespera-se, revolta-se, amargura-se.

“Um dia eu engoli o orgulho e fui procurar a vizinha, perguntar sobre o meu pai”

Sobre isso, a própria autora traz uma reflexão muito importante na introdução do livro: às vezes, ter uma história também é um privilégio de classe e gênero. Forte, não? Pois lendo o livro, a gente sente com ainda mais força essas palavras.

A mãe dessa protagonista recusa-se a dar qualquer informação sobre o pai, mesmo diante de todo tipo de insistência da filha. E é evidente os embates que elas vivem diariamente, numa relação um tanto quanto complicada e dolorosa.

“Fui levando para frente as escolhas que eram mais delas do que minhas”

Não bastasse a complexidade da vida entre essas duas mulheres, soma-se uma terceira à história: a filha. E, ainda que ela não tenha muita consciência do que se passa ao seu redor (apesar de provavelmente sentir), é uma personagem igualmente sofrida. Afinal, é como a autora também diz na introdução: como uma mãe que não se sente pertencente ao mundo pode transmitir esse sentimento à filha?

“A menina sugando de dentro de mim a mãe que eu não era”

Nenhuma dessas três figuras femininas têm nome. E apesar deste não ser um recurso original, ele ainda causa um efeito muito forte, principalmente em uma história como essa.

“Um personagem só ganha vida, só se materializa com o nome”

O fato das personagens não terem nome é ainda mais relevante quando compreendemos que a protagonista é uma pessoa que conhece, aprecia e participa da literatura.

“Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro”

Mas não é como se nenhum personagem tivesse nome ao longo do livro. Os homens tem. O que também é bem significativo diante da narrativa que se desenrola, permeada de violências, dores, desamores.

“Naquele dia eu descobri que a palavra rasga mais que faca no corpo”

Ao olharmos para A filha primitiva, talvez não possamos imaginar o que nos aguarda. A riqueza dessa narrativa certamente surpreende. Não à toa, a obra foi vencedora da 6º Edição do Prêmio Kindle de Literatura. Então, se quiser conhecê-la, não deixe de clicar aí embaixo:

Uma noite inesquecível — Adrielli Almeida

Título: Uma noite inesquecível 
Autora: Adrielli Almeida 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 70 
Ano: 2021

Um começo inusitado, que esconde uma história que poderia ser como tantas outras, mas que tem muitos detalhes que a tornam única. É assim que adentramos Uma noite inesquecível, cujo honesto título já nos adianta que os acontecimentos têm uma breve duração.

Passadas as primeiras páginas, somos apresentados a Darin Moon.

“Darin era o tipo de garoto feito na medida certa. Bonito, mas não a ponto de ser obsceno. Inteligente, mas não a ponto de ser uma enciclopédia irritante. Gostava da namorada, mas não a ponto de ser apaixonado por ela”

O jovem, acostumado a ter do bom e do melhor, não esperava que tudo pudesse desandar justamente no dia do seu baile de formatura: o término de seu namoro, intrusos na festa que fora planejada por tanto tempo e com tanto cuidado, uma briga… E daí para pior (sim, sempre pode piorar!).

“Darin pensou que tudo estava fadado a dar terrivelmente errado. Sua noite, sua vida, a droga da sua experiência como colegial”

Em paralelo a esse caos, também vamos conhecendo Camilo Dantas, um garoto bem diferente de Darin.

“Camilo Dantas gostava de acreditar em milagres”

A vida deles talvez nunca tivesse se cruzado, se não fossem justamente os infortúnios que tiram a paz de Darin. Às vezes, no olho do furacão, a gente não consegue perceber que as coisas precisam dar errado antes de darem certo (ou não).

“Ele sabia que era uma péssima ideia desde o começo, mas, às vezes, a gente precisa ver tudo dar errado para entender que… daria errado para um caralho”

Darin e Camilo acabam se aproximando e vivendo uma noite inesquecível, regida por um envelope vermelho vindo sabe-se lá de onde (nós talvez saibamos).

“Ele não deveria mesmo estar ali. (Mas agora estava.)”

A escrita desta narrativa é tão marcante que é impossível não ser contaminado por ela e se você leu (ou se resolver ler) a história, perceberá as influências nesta resenha. Isso sem falar no tom poético, que mescla elementos da natureza e sensações, trazendo uma sinestesia muito forte para a leitura.

“Acho que se apaixonar é diferente para cada um. Para mim, é como… É como… Pular em uma cama elástica em um dia de chuva”

E além de falar sobre diferenças, aventuras e descobertas, Uma noite inesquecível também fala sobre relacionamentos, família e vivências.

“Os dois primos trocaram um olhar cheio de significado e de mensagens que só pessoas que crescem juntas conseguem desenvolver com o passar do tempo”

Uma leitura extremamente rápida e prazerosa, que você também pode realizar clicando aí embaixo.

Citações #45 — O baú do Zumbi Gelado

Por mais que eu goste de um conto, é difícil sobrarem trechos dele que eu achei interessante e destaquei ao longo da leitura, mas que não usei na resenha. Isso ocorre, principalmente, devido à curta extensão deles.

No entanto, após a resenha de O baú do Zumbi Gelado, escrito por Rafael Weschenfelder, ainda fiquei com alguns quotes que gostaria de trazer para vocês e fico feliz em ter mais uma oportunidade de falar sobre esta obra sensacional!

“Sabe quando você está falando e a palavra certa foge?”

Na resenha eu comento sobre o quanto esse conto surpreende, ainda que haja elementos que — espero eu — podem se tornar marca registrada do autor.

“— Não estou jogando enquanto espero ele acordar. Estou jogando para ele acordar”

É o que acontece, por exemplo, com a naturalidade de Rafael em criar histórias que incluem conhecimentos interessantes, mesmo quando se referem a coisas um pouco mais técnicas, como já comentado na resenha.

“Um dos grandes charmes de Zumbizeira é a inteligência artificial dos NPCs. Com respostas infinitamente mais sofisticadas — e hilárias — que as da Siri da Apple e da Alexa da Amazon, conversar com eles se transformou numa espécie de passatempo para os jogadores”

Ou então com a facilidade que ele tem para criar um humor gostoso de ler.

“Se recuperou o senso de humor, está curada”

Além, claro, do fato dele inserir discussões importantes em suas histórias aparentemente despretensiosas.

“— O mundo te deu as costas. Nada mais justo que dar as costas para o mundo”

Outra característica que adoro encontrar nas histórias que leio e que apareceram muito bem inseridas em O baú do zumbi gelado são elementos do cotidiano, da cultura na qual estou inserida, da realidade em que vivo.

“Nos filmes de terror, sempre tem um cara que não acredita em fantasmas: o cientificozão, que faz piada com o sobrenatural e finge ter sido possuído quando o grupo resolve usar um tabuleiro Ouija para se comunicar com o além. Geralmente é o primeiro a morrer”

Depois de tudo isso, claro que é difícil não querer indicar a leitura de O baú do Zumbi Gelado para todo mundo, né? Então, de novo, se você ainda não leu, fica aqui o meu convite para que você conheça essa história.

“Nos encaramos por um instante. Um equilíbrio prestes a se romper”

Citações #44 — Se essa coroa fosse minha

Algumas pessoas têm um enorme pé atrás com antologias, coisa que eu até posso entender, mas não concordo. Elas são uma excelente forma de conhecer novos autores, além de carregarem muitas histórias e escritas diferentes em uma única obra.

“Mas ela ainda tinha que me dar uma chance”

O peso da coroa — Laura Machado

Uma das melhores antologias que li ano passado foi Se essa coroa fosse minha. Clicando aí no título você pode ler a resenha que eu escrevi (caso ainda não tenha lido) e entender porque gostei tanto.

“Acho que, nesse momento, todo mundo desse salão se apaixonou um pouco por Alaska. Isso é fácil. Difícil seria não se apaixonar”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

Apesar da relativamente extensa resenha e dos vários trechos que coloquei nela, muitas outras passagens maravilhosas dessa obra ficaram de fora e agora é o momento de apresentá-las a você.

“Se eu fizesse as escolhas certas poderia fazer alguma diferença no mundo”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

Como tentei deixar claro ao longo da resenha, essa é uma obra diferente, que vai muito além de qualquer senso comum, falando sobre uma realeza que não estamos acostumados a imaginar.

“Mas sou uma princesa. Serei uma rainha. Não tenho direito a ter sentimentos”

Adoro um amor inventado — Lyli Lua

“Quem era essa garota com quem eu teria que conviver por tempo indeterminado? E do que ela tanto fugia? Seria realmente algo tão perigoso assim?”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“Quem iria querer o prolongamento de uma guerra civil só para ficar próximo da garota que gosta?”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

Não só por falar em sentimentos tantas vezes, mas também por trazer relacionamentos que fogem à heteronormatividade.

“Como é possível que a sociedade tenha evoluído tanto a ponto de um simples toque de dedo na têmpora poder transferir meus pensamentos para quem eu quiser, e tão pouco a ponto de forçar jovens como eu a um casamento que eles não desejam?”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

Além disso, essa antologia aborda diversas perspectivas das relações familiares.

“Meu irmão me mostra que a vida ensina muito mais do que qualquer sala de aula”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Penso no meu pai. No homem que eu nunca conheci. No espaço vazio que permaneceu em mim até que minha mãe conhecesse Sandro e ele me ajudasse a fechar aos poucos” 

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Tudo o que importa é que eu ganhei uma avó. E eu sinto que as lacunas que eu sentia haver na minha história agora estão perfeitamente preenchidas”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Ele queria ser mais presente na sua vida, mas tinha um trabalho a fazer”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

E, sem dúvidas, fala muito sobre amor.

“No fim, acho que sentir falta de Drika foi o que mais nos uniu”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

“Amar alguém é uma coisa engraçada, só de vê-lo já me sinto melhor, segura e mais feliz”

Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez

“O que lhes faltava em dinheiro, sobrava em amor e isso sempre foi tudo de que preciso”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Me incomoda você ter passado tanto tempo achando que isso me impediria de me apaixonar por você” 

O peso da coroa — Laura Machado

“Eu já quis te dar todas as chances do mundo e achava que você nem me enxergava”

Adoro um amor inventado — Lyli Lua

Outra coisa que eu adoro encontrar nas histórias que leio e que aparece ao longo desta obra é o peso das palavras que dizemos.

“Palavras têm poder, e tronos já caíram por menos” 

O peso da coroa — Laura Machado

“Eu talvez tivesse esperado ouvir algo assim a minha vida inteira”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“— A gente já perdeu tempo demais com medo, entalando palavras na garganta, você não acha?”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

E consequentemente, como já deu para perceber, o peso dos silêncios que optamos por fazer também.

“As palavras que eu não falo ainda estão presas na minha garganta”

Se não a coroa cai — Maria Freitas

“Olho nos seus olhos e naquele momento percebo que há muito mais do que uma coroa em questão, mas também sei que não devo me meter nesse assunto”

Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa

“Na verdade, ela se isolou completamente, do mundo e de mim”

Adoro um amor inventado — Lyli Lua

Aliás, há diversas passagens que revelam alguma angústia ou dor, tornando os personagens ainda mais reais.

“Pela primeira vez o mar de seu lar não foi o suficiente para aliviar o aperto em seu coração”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“Eu odiava ser vista como coitada. Não aceitava ser definida por essas coisas que aconteceram comigo. Meus traumas nunca seriam maiores do que eu”

Paixão de Ori — Camila Cerdeira

“Era apenas uma moeda, cinco míseros centavos, mas pesava uma tonelada em meu peito que me impedia de olhar para qualquer outro lugar”

O peso da coroa — Laura Machado

Por fim, um trechinho para nos lembrar de sempre fazer o nosso melhor, mesmo que ele pareça pouco (porque se é o seu melhor, nunca é pouco!):

“Era tudo que eu tinha, e faria o melhor que podia”

O peso da coroa — Laura Machado

Para o garoto que já tem tudo — Leblon Carter

Título: Para o garoto que já tem tudo
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação Independente
Páginas: 49
Ano: 2021

O Natal está batendo à porta e — juro! — por coincidência a resenha de hoje é justamente sobre um conto natalino que, aliás, li sem sequer imaginar que tinha relação com a temática (como eu conhecia o autor, peguei sem nem ler a sinopse, confesso, até porque o título já tinha chamado a minha atenção).

Você costuma fazer desejos nesta época? Não só de metas para o ano que está por vir, mas também de coisas que gostaria de ter ou alcançar? Pois aqui vai um lembrete sempre válido: cuidado com o que você deseja! Mas o que isso tem a ver o conto? Calma que eu te explico.

“‘Quando acreditar que tudo está perdido e ao seu redor só há escuridão, olhe mais fundo. Talvez a luz que procure esteja dentro de você. E, mesmo que não esteja, não se preocupe. Não se precisa de luzes quando se é uma estrela’”

Emílio (ou Milo) é o garoto que já tem tudo. Ou quase. Ele mora em uma casa de quatro andares e todo dia seu motorista vai buscá-lo — dirigindo uma limusine — na escola caríssima em que estuda.

“Lembram quando falei sobre o número de andares representar superioridade? Então…minha casa tem quatro. A maior de todo o bairro. Mas não é por superioridade. Minha mãe diz que, para pessoas pretas, quatro andares é a mesma coisa que dois para pessoas brancas. Ou seja, não estamos no topo. Estamos igualados. Mesmo que igualdade seja bem controversa hoje em dia”

Mas já diria aquele velho ditado: dinheiro não é tudo na vida. E Milo sabe que está bem longe de ter tudo. Ao menos tudo o que deseja. Na escola, por exemplo, ele e seu melhor amigo, Yong Soon, são excluídos, sendo vítimas de racismo, xenofobia, bullying.

“Ei, Pastel de Flango! – o tom debochado de sua voz nos fez criar uma expressão de antipatia e constrangimento. – Você vai conseguir entregar aquela “coisa” – sussurrou bem próximo ao Yong”

Além disso, Milo — e todo o resto de sua classe — é apaixonado por Maria, que o despreza. Mas isso não o impede de fazer o possível para tirá-la no amigo secreto de final de ano e, assim, poder presenteá-la.

E engana-se quem pensa que a falta do amor de Maria é o único que machuca nosso protagonista: ele também se sente muito sozinho em casa, tendo pais extremamente ausentes, mas que também querem determinar para ele um futuro que talvez não seja exatamente o que ele deseja.

“Às vezes pode parecer que eu sou o garoto que já tem tudo: móveis lustrados, limusines espaçosas e uma casa gigantesca. Mas, quando vejo momentos iguais esse da foto do Yong com a mãe, é como se eu não tivesse nada. A simplicidade parecia me atrair mais”

E foi em uma noite solitária e reflexiva que Milo viu uma estrela cadente e fez o seu pedido. Um pedido que mudou o seu dia seguinte, trazendo revelações que ele não poderia esperar.

“Um vislumbre azulado surgiu no céu. Estrela cadente; pensei. A primeira vez em que via uma com meus próprios olhos. Normalmente deveríamos fazer um pedido. Desejar algo que nosso coração sempre ansiou, mas nunca teve”

A leitura desse conto é super rápida e envolvente. A cada página que viramos fica aquele gostinho bom de “o que mais será que está por vir?”. E os personagens cativam, deixando a história ainda mais emocionante.

“As pessoas costumavam sorrir somente pelos lábios, mas ele não”

Se você já está em clima natalino ou se preparando para entrar, recomendo esse conto. Uma história com representatividade, para esquentar nossos corações e também nos fazer refletir.

Proibida pra mim — Tayana Alvez

Título: Proibida pra mim: um romance com diferença de idade
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação Independente
Páginas: 645
Ano: 2021

Proibida pra mim é aquele tipo de livro quando você começa a ler pensa “mas para quê tanta página?” e, quando vê, já está completamente envolvido na leitura, querendo mais e mais.

“— O que você tá fazendo comigo, Lavínia? — a pergunta dele é tão sincera que a garota ri”

É até difícil falar dessa história, cheia de pontos extremamente importantes. Mas vamos começar pelo óbvio, que já dá muito o que falar: a protagonista.

“Lavínia engole em seco e se prepara para dizer algo que nunca teve coragem de dizer em voz alta nem na frente do espelho”

Lavinia começou a trabalhar muito cedo, querendo garantir o seu lugar no mundo. Ao mesmo tempo que vemos que ela foi alcançando seus objetivos, também conseguimos enxergar o preço disso para ela que, como consequência mais óbvia, tornou-se uma pessoa extremamente madura para a idade.

“A Lavínia de dezessete anos. Essa eu sei que morre de orgulho de quem eu sou hoje”

Além disso, Lavinia é uma mulher tão real que, mesmo que você ache que não tem nada em comum com ela, é difícil não se identificar em alguma medida. Pode ser na maturidade, na frieza, no coração partido, nas dificuldades.

“Durante os primeiros meses, não foi fácil. O luto pelo amor perdido ainda estava ali, as lembranças eram recentes…”

Por sua maturidade, Lavínia não consegue se relacionar com os garotos de sua idade, que ainda estão em outra fase da vida. Mas se um relacionamento com grande diferença de idade já é complicado, imagina quando trata-se do pai de uma de suas melhores amigas?

“Ela é a amiga da família, ou como Manoela falou mais cedo, é quase da família. Alguém quase da família não namora o pai da amiga”

Isso era algo que eu sabia desde que li a sinopse, mas me perguntava como raios ela não conhecia o pai de sua melhor amiga. E aqui está mais uma parcela da genialidade da Tayana! Não há pontas soltas nesta história, e é graças ao quebra-cabeça de detalhes que a compõem que a autora consegue abordar tantos assuntos fortes e importantes.

“Existem poucas coisas nas quais Lavínia consegue se identificar com Amanda, e não poder amar quem ela gostaria como gostaria é uma delas”

Apesar de Lavínia e Daniel — seu tal amor proibido — serem o centro da história, Amanda é uma peça crucial para a narrativa, trazendo uma dose a mais de detalhes e riqueza.

“É, Dani. Mas a Amanda não é as coisas que aconteceram com ela, a Amanda é nossa filha e se ela nunca quiser te falar sobre o que aconteceu ou não quiser sentar e me dizer que ela tem uma namorada e está feliz, a gente só pode respeitar. — Manoela sorri com pesar e encolhe os ombros. — Filho é isso… São pessoas excepcionais, que a gente nunca vai conhecer”

Proibida para mim é um hot, mas claro que, em se tratando de Tayana Alvez, não seria apenas isso. E é impressionante o quanto ela consegue entregar em conteúdo e imersão. Para além de tudo o que já mencionei, tem uma coisa que eu gosto muito na obra da Tayana e que, uma vez mais apareceu aqui, que é a forma como ela retrata as relações entre pais e filhos.

“E, hoje, depois do que aconteceu com a cozinha e tal, eu percebi que se eu ficar lá, quanto mais velhos eles estiverem, mais impossível vai ser pra eu sair”

E não vou negar que, por mais incrível que a Lavínia seja, eu cheguei a sentir raiva dela. Do medo de se entregar. De viver o que tinha de viver. Mas não preciso nem dizer que a raiva foi, muito provavelmente, por identificação, né?

“Faria qualquer coisa para evitar as lágrimas dela agora, faria qualquer coisa para que o coração dela não fosse um campo tão árido, para que o amor dela não fosse tão surrado”

Nunca imaginei que favoritaria um romance hot, mas Proibida pra mim conseguiu essa proeza sem a menor hesitação. Então não deixe de ler essa obra que escancara feridas, te faz refletir e ainda arranca, na mesma medida, lágrimas e risadas.

“A gente sempre espera que o amor seja normal, mas ele não é. Ele é só amor, e a gente não deveria estabelecer um padrão de normalidade para o amor ou colocar isso numa balança”

Se essa coroa fosse minha (Antologia)

Título: Se essa coroa fosse minha
Autora: várias autoras
Editora: Publicação independente
Páginas: 250
Ano: 2021

Estando em contato com o trabalho de diversas editoras — principalmente pequenas — é comum que eu leia muitas antologias, pois esta é uma forma de publicação que tem suas vantagens para as duas partes (autores e editoras), coisa sobre a qual posso falar melhor em outro momento. Mas o ponto aqui é: eu nunca havia lido algo como Se essa coroa fosse minha e fico muito feliz de ter entrado em contato com esta obra (obrigada, Tayana Alvez, por ter participado dela).

“O povo precisa de alegria. De uma história para se apegar. De uma festa para se divertir. Eu não sou diferente”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O título talvez possa nos fazer pensar em algo que, muito provavelmente, está distante do que essa antologia retrata. Contudo, pode ser que uma boa olhada para a capa desta obra já nos faça notar algo de diferente.

“Nunca havia me passado pela cabeça que pessoas da realeza também possam sofrer com esse tipo de problema”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Se essa coroa fosse minha é uma antologia que reúne 6 contos, e se eu tivesse de escolher uma palavra para defini-la seria representatividade, uma vez que em todos os contos há protagonismo negro e sexualidades diversas.

“De onde eu venho, as pessoas são mortas por terem a minha cor e pensar em um homem negro matando toda a família por causa de uma coroa me assusta mais do que eu conseguiria descrever — desabafo”

(Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez)

O livro começa com o conto Se não a coroa cai, da Maria Freitas. Uma história que se passa num futuro (talvez) não tão distante.

“Jeremias me disse que esse objeto se chama “lápis” e que servia para escrever e desenhar nos tempos antigos. E o mais importante: as palavras escritas podem ser apagadas”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

Ao lê-lo, já podemos compreender a que vem essa antologia: ao mesmo tempo em que ela nos mostra a realeza de uma perspectiva rara de se encontrar em livros, mesmo que eles sejam de ficção, Se essa coroa fosse minha também traz críticas e reflexões pertinentes às pessoas comuns como nós.

“Não sei de onde tiraram a ideia de que uma pessoa sozinha, sem um casamento, família, herdeiros e sei lá mais o que não pode comandar um reino”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O que eu mais gostei neste primeiro conto (e olha que é difícil escolher uma coisa só) foi o uso da metáfora da montanha-russa, que me deixou de queixo caído com o final da história também.

“E, meia hora depois, aqui seguimos nós dois, como as duas crianças que cresceram, mas nunca tiveram coragem de enfrentar os altos e baixos da montanha-russa”

(Se não a coroa cai — Maria Freitas)

O segundo conto é o da Tay Alvez, responsável por me fazer conhecer essa antologia. Chamado Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis, já dá para imaginar a força dessa história, não? E claro que este conto também já deixa claro outro ponto forte desta antologia: mostrar que a realeza nem sempre é um sonho e que não tem nada de perfeita.

“Eu não era uma princesa e um príncipe nunca iria me salvar. O que era bom, porque eu não precisava mesmo ser salva”

(Insubmissos, Incurvados, Inquebráveis  — Tay Alvez)

Ao mesmo tempo que tem um romance gostoso de ler, esse é um conto com passagens angustiantes e recheado de trechos que nos fazem refletir, inclusive sobre o racismo que é ainda tão forte no Brasil.

Depois nos deparamos com o conto Não pedi para ser princesa, da Letícia Rosa. O próprio título já reforça o que destaquei acima, sobre a realeza nem sempre ser um sonho, mas aqui um novo ponto fica evidenciado: a questão de que, até pouco tempo, não tínhamos acesso a histórias de príncipes e princesas negros, algo que essa antologia tenta, portanto, mudar.

“Mas já faz tempo que eu não acredito em contos de fadas. É o que acontece com pessoas negras à medida que crescem”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Para além disso, este conto também fala sobre relações familiares de uma forma bem interessante e, claro, forte.

“A verdade é que somos duas completas desconhecidas. Não somos avó e neta e não seremos do dia para a noite”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

Este é um conto que também tem uma metáfora que eu adorei. Aqui, a autora usa o sorvete para transmitir a sua mensagem e eu quase gritei com o final, porque ele é aberto e eu só queria mais.

“Pode me trazer outro, por favor? De baunilha, morango e… — Penso um pouco, eu ainda poderia mudar e continuar a ser eu mesma. — Limão”

(Não pedi pra ser princesa — Letícia Rosa)

O quarto conto chama-se A paixão de Ori e foi escrito pela Camila Cerdeira, uma autora que, até então, eu não conhecia, mas que já adorei poder ler. Ela conseguiu mesclar elementos muito interessantes e a história se passa nos tempos atuais, o que torna tudo ainda mais bacana de se ver.

“A quarentena me roubou muitas coisas. O pingado na padaria antes do trabalho, as cervejas na sexta depois da faculdade, os domingos de praia, nossa barraca favorita para fofocar sobre os fracassos amorosos com as poc. E mesmo assim, correndo o risco de parecer um hetero crossfiteiro, o que mais sinto falta são os treinos de Muay Thai” 

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

Além de também retratar questões familiares complicadas (e extremamente palpáveis), este conto traz uma paixão muito forte e que surge de uma maneira que é difícil não se identificar.

“Merda, eu estava me importando com ela. Quando eu começava a me importar com alguém assim, só podia significar uma coisa. Eu estava lascada”

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

E talvez já tenha dado para perceber, mas com essa história, apesar do nó na garganta em alguns momentos, a risada também está garantida.

“Desgraça? Isso é praticamente o começo de uma fanfic, Bah. Uma princesa de verdade bateu na tua porta enquanto tu lava a louça”

(Paixão de Ori — Camila Cerdeira)

Em O peso da coroa, quinto conto desta antologia, escrito por Laura Machado, temos uma história mais introspectiva, de uma princesa um pouco mais solitária, mas que está a vida toda em busca de uma única pessoa.

“Enquanto ela se afastava de mim, eu tinha me apaixonado por ela”

(O peso da coroa — Laura Machado)

Nesta história é impossível não sentir, como o próprio título já nos indica, o peso de uma coroa real. E olha que esse tema já vinha sendo trabalhado em todos os outros contos, sempre desmistificando a nossa visão “Disney” da realeza, mas quando chegamos neste conto, tudo parece ficar ainda mais denso.

“A Coroa era mais importante do que minha vontade de ir brincar com as outras garotas no pátio, de querer dormir no mesmo andar que elas, ter as mesmas aulas”

(O peso da coroa — Laura Machado)

Por fim, em Adoro um amor inventado, escrito por Lyli Lua, temos duas protagonistas que são praticamente a personificação de “os opostos se atraem”. A narrativa fica muito bem equilibrada entre a irreverência de uma e a seriedade da outra, ainda que, aos poucos, a gente vá compreendendo as máscaras que cada uma precisa vestir nessa história.

“Pela primeira vez decidia me abrir com alguém, e tudo parecia que ia dar muito errado” 

(Adoro um amor inventado — Lyli Lua)

A gente passa a leitura desse conto todo na expectativa de onde vai dar essa história de casamento fake que elas inventaram…

E é isso: vou terminar minha resenha por aqui porque quero sim te deixar com vontade de ler esta obra. E, mais do que isso, indico fortemente a leitura da mesma! Ótima para nos fazer pensar em diversas formas de amor, em racismo, em visões romantizadas que talvez tenhamos sobre princesas e príncipes. Para saber mais, clique aqui.

Tenho 7 namorados e não gosto de NENHUM — Leblon Carter

Título: Tenho 7 namorados e não gosto de NENHUM
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação independente
Páginas: 59
Ano: 2021

Ok, vou iniciar essa resenha deixando algo bem claro: que história sensacional, minha gente!

Bianca Pessegrini, não contente em ter um namorado, tem sete. Ao mesmo tempo! E não, não venha me dizer que isso parece maravilhoso, porque quem está em um relacionamento de verdade sabe que se entregar para uma pessoa já é muito, imagina para sete! E quem não está em um relacionamento de verdade… Bom, quem dirá em sete, né?

“Todo mundo ganha um pedaço da Bianca Pessegrini; menos a própria Bianca”

Ah, e claro, nenhum namorado sabe da existência do outro, viu? Imagina como é possível gerenciar isso? Imagina o quanto isso custa da sanidade de qualquer um?

“Você sempre tá sem tempo. Correndo contra o mundo e não junto com ele”

Tenho 7 namorados e não gosto de NENHUM é dividido em oito capítulos, sendo um para cada namorado e, por fim, um para Bianca, aquela que deveria ser a protagonista desta história. Será que ela consegue isso?

“Eu nunca conseguiria ser o tipo de pessoa que pede ajuda para alguém que também precisa de ajuda. Isso é extremamente tóxico”

Por meio desta obra, acompanhamos a rotina de Bianca e como cada namorado faz parte de um pedaço dessa vida. No início, é surpreendente. Depois do quarto namorado, porém, vamos nos cansando. Não da narrativa, mas de imaginar que seja possível levar uma vida assim e… continuar viva! Porque o ponto não é apenas que Bianca lida com sete namorados, mas que ela também estuda, faz curso, trabalha.

“Isso meio que fazia eu me sentir exausta com tanta cobrança ao mesmo tempo. Escola! Curso! Trabalho! Provas para as faculdades! Quando foi que a adolescência deixou de ser divertida e se transformou nesses dias tortuosos?”

Por outro lado, pode ser que o cansaço que começamos a sentir ao longo da leitura tenha a ver, também, com o próprio cansaço da protagonista, com a sensação de sufocamento que vai tomando conta dela e a necessidade que ela passa a sentir de livrar-se disso tudo.

“Talvez esse seja o significado de amor: sacrificar uma coisa que você ama por outra que ama ainda mais. É meio confuso, eu acho. Amar é confuso”

Cada namorado, porém, tem o seu jeito e o seu charme. Raul, o do ônibus, é bom de conversar; Pedro, o da escola, a trata como uma princesa; Ângelo, o da moto, é diferente de tudo o que ela poderia imaginar; Marcondes, o do curso, é muito inteligente (ou apenas quer acreditar nisso); Knock, o do trabalho, faz planos para o futuro; Cristian, o do condomínio, tem um charme todo seu; Gustavo, o virtual, compartilha com ela uma realidade diferente da sua.

Por meio desses relacionamentos fragmentados e dessa história que parece surreal — mas que tem uma lógica bem compreensível por trás — Leblon Carter consegue nos fazer refletir sobre algo muito importante: o amor. E mais: o amor próprio.

“Ah! Que lindo o amor. Aquele sentimento puro que nos despedaça para depois reconstruir. Odiamos amar e amamos odiar. Somos preenchidos e esvaziados na mesma proporção”

Se você quiser saber o que acontece com Bianca no meio de tantos amores e tanto vazio, não deixe de clicar aqui. E depois vem, por favor, me contar o que achou!