Mãe, me ensina a conversar — Dalva Tabachi

Título: Mãe, me ensina a conversar: vencendo o autismo com amor
Autora: Dalva Tabachi
Editora: Rocco
Páginas: 96
Ano: 2006

Sabe aquela velha história de que um livro leva a outro? Foi assim que coloquei Mãe, me ensina a conversar no meu horizonte de livros que eu gostaria de ter e ler. Felizmente, no final do ano passado, finalmente ganhei um exemplar deste livro!

Mas eu talvez tenha sido um pouco ingênua ou precipitada, apegando-me demais ao título e ignorando o subtítulo: vencendo o autismo com amor. O que exatamente significaria esse “vencendo”?

“Para lidar com o autismo, há necessidade de amor e paciência”

Infelizmente, esse foi um ponto que pesou bastante ao longo da leitura. O livro foi escrito pela mãe de Ricardo, um rapaz autista. Ela fala da experiência dela ao descobrir que o filho é autista e tudo o que veio depois disso. Mas, por diversas vezes, ela aborda isso falando sobre encontrar uma “cura” para o autismo.

“Fiz tudo para Ricardo ficar bom. É triste ver pais que não acreditam na cura de um filho, pais que podem pagar bons profissionais e não o fazem”

Ok, é importante ressaltar algumas questões aqui. Primeiro: o livro foi publicado em 2006. Ainda que fosse uma época já com mais informação circulando, ainda não era como hoje, em que temos quase tudo na palma da mão e, mais que isso, uma época na qual debatemos sobre tudo e temos a possibilidade de, a cada dia, conhecer a enormidade do mundo.

“Assim como sei que Ricardo é outro, acho que eu mesma sou atualmente um ser humano mais evoluído e compreensivo com as diferenças”

Além disso, como eu mencionei acima, trata-se do relato de uma mãe, o relato de uma experiência, e cada um de nós enfrenta as coisas de uma forma. Para essa mãe, o início foi um baque e, como ela mesma afirmou no trecho que destaquei acima, foi algo que a fez evoluir e aprender muito.

“É importante entender os temores, conviver com eles, para conseguir talvez superá-los algum dia”

Mesmo assim, falar em termos de “superação” e, pior ainda, de “cura” do autismo foi algo que me deixou um pouco com o pé atrás.

Claro que, em muitos casos de autismo, é importante que seja feito um longo trabalho para facilitar a vida do autista em uma sociedade que, infelizmente, ainda não sabe lidar com o que foge da nossa “normalidade”. Mas isso não significa que vamos “curar” a pessoa, apenas tentar fazer com que ela possa se integrar a esse mundo que é, tantas vezes, muito cruel.

“Nem todos compreendem que cada atitude dele, cada comunicação, é um esforço”

Ricardo nasceu em uma família que tinha condições de propiciar ao rapaz tratamentos dos mais diversos, como acompanhamento fonoaudiológico, terapia, esporte, aulas particulares. E, o longo deste livro há, inclusive, alguns trechos com depoimentos desses profissionais.

“Os palpites também vinham sem que pedíssemos, nos deixando confusos e inseguros”

Mesmo não sendo totalmente escrito pela mãe de Ricardo, achei a narrativa do livro um pouco arrastada e, em alguns trechos, até um pouco repetitiva (e olha que o livro é curto!). Ou seja, de todos os livros que já li sobre o assunto, esse foi o que menos gostei.

Porém, isso não significa que eu não tenha aprendido com ele. Refleti bastante ao longo da leitura — pensando nas coisas que trouxe aqui — e, claro, há sempre alguma informação nova sobre esse universo que não nos passa desapercebida nesse tipo de livro.

Gostaria de te ouvir: você já leu esse livro? O que achou? Será que estou sendo muito chata com minhas reflexões? Porque sim, isso pode ter acontecido também! E se você não leu, mas acha que pode ser uma leitura interessante, clica aqui e depois me conta o que achou!

Céu de menta — Camila Martins

Título: Céu de menta
Autora: Camila Martins
Editora: Hope
Páginas: 185
Ano: 2018

Depois que li O que me faz pular, tornei-me uma leitora que não pode ver livros sobre autismo que já quer devorar todos. E assim foi com Céu de menta que, no entanto, é bem diferente de qualquer outra leitura que eu já tenha feito sobre o tema.

“Como se deixar envolver por algo que não se conhece?”

Comecemos pelo fato de que Céu de menta é uma ficção (enquanto os demais livros que li geralmente foram não-ficção ou ficção baseado em fatos reais, coisa que não sei se é aplicável neste caso). E Céu de menta é uma ficção que nos mostra uma vida muito normal, afinal de contas, o autismo não é algo que nos torne incapazes de sentir e viver. A narrativa é bem doce e, por vezes, um pouco parada. Mas nada que torne esta história menos especial.

Sem grandes ambientações (a história se passa quase toda entre casas vizinhas de uma pequena cidade), Céu de menta nos mostra duas famílias extremamente diferentes que vivem lado a lado.

“Ser feliz com pouco, e curtir isso, é um dom”

Primeiro somos apresentados aos Salles, família formada por Carolina (mãe), Roberto (pai), Ana Maria (a protagonista) e Davi (o irmão mais novo). Depois, aos Alencar, família formada por João (o vizinho de Ana e também protagonista desta história), sua vó Clara, suas duas irmãs mais velhas e rebeldes (Paula e Bianca), sua mãe acamada (Sílvia) e seu pai ausente (Paulo). Acho que essa descrição já deixou bem claro que não temos aqui uma família muito fácil, não é mesmo?

“A família Alencar sempre foi uma granada prestes a explodir”

E tem mais: a família de Ana é simples, vive muito bem com o que tem e mudou-se para essa pequena cidade com o intuito de oferecer uma vida melhor à filha, portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista), enquanto a família de João está mergulhada numa vida de ostentação material, mas de ausência de amor. Contudo, mesmo tendo crescido nesse ambiente, João é um garoto calmo, compreensível e amoroso.

“João era um diamante em meio aos cacos de vidro”

É ele quem, ainda jovem, aproxima-se de Ana. E assim nasce uma amizade muito linda, já que ele está disposto a compreender a amiga e fazer de tudo para sempre deixá-la confortável. Os pais de Ana, claro, veem essa amizade com bons olhos, pois também sabem da raridade de se encontrar pessoas como João no mundo.

“Não tem preço ter alguém inteiro em nossas vidas. São raridades”

O mais bonito desta história, porém, é ver como ambos têm suas dificuldades e como um pode ajudar — e muito — o outro. Cada um com o seu jeito, cada um com suas habilidades, Ana e João crescem e amadurecem juntos. E claro que, nesse caminho, alguns percalços acontecem, fazendo com que a autora aborde questões como a pressão sobre os jovens na escolha de uma carreira, depressão, as máscaras da nossa sociedade, preconceito…

“Como chegar perto de alguém que se cercou de um enorme muro?”

Logo no início, o título do livro já passa a fazer sentido, mas somente ao final é que o entendemos realmente, e ainda com uma última bela lição deixada pela autora.

Aliás, temos muito a aprender com Céu de menta e um dos aprendizados que mais me marcou é de que o fato de uma pessoa não saber muito bem como lidar e demonstrar seus sentimentos, não significa que ela não sente (e muito!).

“Ah, como Ana ama abraços. Ah, como é difícil para Ana entender os abraços”

Se você busca um livro com uma protagonista autista e, ao mesmo tempo, quer ler algo bem leve, com certeza é Céu de menta que você procura. Então clica aqui e saiba mais sobre essa história que vai te deixar com um quentinho no coração.