Demorei tempo demais para finalmente conhecer a escrita do Vitor Martins, mas já dizia o ditado “antes tarde do que nunca” (até porque seria triste demais passar por essa vida sem nunca ler nada do autor).
Um milhão de finais felizes foi publicado em 2018 e, de maneira leve — mas ainda tão necessária hoje — consegue abordar temas de extrema importância, falando, por exemplo, sobre ansiedade.
“Será que algum dia no futuro meus problemas de hoje também parecerão pequenos?”
“Percebo que esse é meu ideal de felicidade. Estar junto sem medo de que alguma coisa ruim vá acontecer a qualquer momento”
Também retrata as dificuldades da vida, os sentimentos e a força que cada um pode ter dentro de si.
“— Eu sei que eu ainda estou meio quebrado por dentro, mas eu não sou frágil”
Outra temática que permeia toda a obra (e não apenas essa, mas tantas outras do autor) é o da homofobia.
“Saber que meu pai prefere um filho drogado do que um filho gay me causa uma dor diferente de todas as dores que eu já senti”
Se você quer saber mais sobre esta história, clique abaixo para ler a resenha completa.
Razão e emoção podem parecer duas coisas totalmente opostas e desconectadas, mas em Fisiologia do amor, livro escrito por Lyra Rocha, descobrimos o quanto uma coisa pode influenciar a outra.
“Não é porque você tem uma probabilidade estatística que todo mundo vai ser igual. Tem muitas outras coisas que envolvem uma pessoa e definem o seu caráter”
Cecília trata o amor de uma maneira diferente: cientificamente. E, assim, ela busca não sofrer o que todo mundo que já se permitiu amar sofre em algum momento.
“— Quebrar a cara faz parte da vida, Cel. Eu mesma sou a experiência em pessoa nisso, você bem sabe. Mas estou viva, não estou? As dores nos tornam melhores, desde que aprendamos com os erros”
“Estava novamente deixando os meus hormônios me levarem por um caminho perigoso”
“Sair com ele era um risco que havia aceitado correr, mas nem por isso queria dizer que era fácil”
“E por mais que tivesse ainda medo, uma coisa era certa: se jogar nessa paixão era gostoso demais”
“Eu tinha plena consciência que não era fácil ter um relacionamento e que ocasionalmente, os casais se desentendiam e tinham suas crises”
Mas claro que ela não consegue levar suas convicções até o fim: razão e emoção até influenciam uma a outra, mas tem horas que certas coisas acabam prevalecendo.
“É muito diferente não ter os passos cronometrados e não saber o que vai acontecer em nossa vida”
“Quando gostamos de alguém, tudo é diferente. Os beijos mais simples tornam-se mais saborosos, o mais leve toque nos causa arrepios e algo vibra em nosso coração, enchendo de um sentimento tão bom que dá vontade de explodir”
Emoções nos invadem facilmente, e não seria diferente nem mesmo com a mais científica das pessoas.
“Ficava brava, queria matar um às vezes, mas era só a pessoa aparecer arrependida na minha frente que eu virava manteiga”
Abordando essas questões, Lyra Rocha nos faz ir além e refletir sobre como o ser humano, em geral, age, tanto em relação a coisas boas, como em relação às ruins.
“Na verdade, eu acredito no amor e tudo mais, mas as pessoas permitiram que tantas coisas más ocupassem os seus corações que acho difícil acreditar é no ser humano”
“A vida é engraçada, nós sempre queremos que os outros nos compreendam, porém, poucas vezes paramos para compreender o outro”
Para alcançar este objetivo, contudo, a autora tem de fazer, em alguns momentos, generalizações, que fazem sentido para o tom da obra.
“Homens, independentemente das características, sempre gostam de ser bajulados”
“Todos esperam que as mulheres sejam românticas e sonhadoras incuráveis”
“Chocolate é sempre o maior amor de uma mulher, Bernardo”
Assim, a autora também nos leva a refletir sobre questões culturais e sociais, que nos mostram que ainda há muito a evoluir em nossa sociedade.
“Não que eu precisasse disso, mas homens tendem a ter problemas com mulheres que ganham mais do que eles”
“A única regra que tinha era achar uma pessoa com meus padrões. Era pedir demais?”
Mas se tem uma lição que realmente fica ao longo desta narrativa é o de que, apesar de tudo, precisamos persistir — mas com aberturas, claro — naquilo que acreditamos.
“Confie em mim, as conquistas mais grandiosas só foram atingidas porque as pessoas não desistiram delas no processo”
Se quiser saber mais sobre esta história, clique aqui e leia a resenha completa.
Recesso, do autor Claus Castro, foi uma leitura que me apareceu do nada, graças ao contato do próprio autor, e que me fez pensar em alguns (vários) assuntos, que retomo aqui, com alguns trechos que destaquei ao longo da leitura e que ficaram de fora da resenha.
O primeiro deles é a nossa memória: aquilo que lembramos e esquecemos, por querer ou pela passagem do tempo.
“Lembrar é um presente me tomando o futuro e este tempo é um sono do qual não posso despertar”
“Algo morre em você e você não consegue continuar sendo a mesma pessoa. Você se perde, no amor ou nessa ausência, e passa a ser tudo aquilo que detestava, para esquecer, para não esquecer, para tampar o rombo no seu peito com a continuação de uma história que já terminou”
“Você esconde no fundo de um álbum no celular uma foto de alguém que não vê há dez anos”
“Toda vez que ficamos, estamos deixando algo para trás, um lapso, uma oportunidade ou o início de uma memória que seja”
Tempo, aliás, é outra temática muito presente, e o autor nos faz pensar sobre a História e o que estamos fazendo com nossas vidas.
“Três revoluções industriais, e a tecnologia foi capaz de nos aproximar de tudo, menos de nós mesmos”
“Quando nasci havia um muro, e pessoas morrendo por uma liberdade em cima dele. Hoje somos livres e vivemos nossas vidas construindo barreiras entre nós”
“A história não era linear, não éramos lineares, nossas histórias não passavam de linhas que ora se trançavam e ora se desembaraçavam numa grande fiação de mais um maquinário que nos roubava”
O narrador possui uma amargura muito visível e, por isso, essas temáticas são tão densas, assim como quando ele fala sobre a relação que temos uns com os outros e como deveríamos estar mais verdadeiramente presentes.
“Mal saíamos de casa e nos sentíamos tão sozinhos, nossas dores não eram mais capazes de nos unir de nos fazer encontrar no outro um ombro para desabar”
“Antes precisávamos de pessoas que falassem, agora precisamos de pessoas que possam escutá-las”
“Nunca antes se falou tanto em amor e nunca antes quisemos ser verdadeiramente tão amados”
Relacionamentos, aliás, estão no cerne dessa narrativa, e nos despertam muitas reflexões.
“Quem era ela pra querer um homem em mim? E quem era eu pra querer uma mulher nela?”
“Mulheres… o que fazer com elas? O que faríamos sem elas? O que estaríamos fazendo se fôssemos elas?”
Há um destaque especial para a dor, presente em diversos momentos da narrativa.
“Não há como combater a dor com a dor, tudo que se tira disso é mais sofrimento”
“A dor é tudo que me move”
Barulho e silêncio também aparecem em tantos outros momentos da história.
“O barulho te assusta num primeiro momento, mas o silêncio pode trazer à tona muitas outras palavras que não foram escutadas”
“Não há conversas, nem murmúrios, só o que existe é o caos, e você em silêncio querendo lutar contra isso”
Recesso é uma leitura que ecoa muito em nós por, além dos temas já mencionados, trazer uma profunda reflexão de um eu que não sabe bem que é e porque veio ao mundo.
“Diziam que eu poderia ser tudo o que quisesse, porém não consigo nem ser eu mesmo”
“Não importa quanto tempo passe, eu ainda estarei aqui. E acho que é isso o que mais me desespera”
“A vida estava tentando me ensinar uma lição, que eu nunca poderia aprender”
E por nos lembrar constantemente de que a vida não é fácil.
“Por que é que quando a coisa resolve andar é aí que ela volta pior do que antes?”
“Aceitar que a vida é um caminho difícil não vai tornar as coisas mais fáceis; no entanto, isso tornará as que seguirem assim verdadeiras”
Concluo este post com uma passagem que vai dar muito o que pensar e convido você a saber mais sobre este livro através da minha resenha.
“A barbárie está na indiferença, no cruzar dos braços. Não mexe um músculo move muito mais coisa que se pode imaginar”
As grandes navegações, obra escrita por Gael Rodrigues e publicada em 2023, foi uma grata surpresa para mim no último ano.
Ganhei o ebook da presente da Geovana, do Capítulo 20 e não tinha grandes expectativas sobre a obra, apesar da sinopse ter chamado minha atenção com uma simples palavra: amizade.
“Algo passa a existir para gente depois que o nomeamos. Um desconhecido pega o mesmo vagão do metrô que o seu, todas as manhãs, mas começa a existir apenas depois de ser apresentado numa festa qualquer por um amigo qualquer”
“Recomenda-se compartilhar os sonhos numa mesa de café da manhã, com cheiro de café quente atingindo as narinas, aquecendo os sorrisos”
A história, contudo, vai muito além do tema da amizade, nos fazendo mergulhar num universo novo e encantador, uma vez que se inicia em Moçambique, para, em seguida, trabalhar certo contraste com o Brasil.
“A mulher-insular, agora, era também oca. Sem rumo e sem peso. Nada sentia, lágrima nenhuma corria pelo seu rosto. Oca, oca”
“São Paulo era uma cidade grande, feita para caber mentiras e vidas escondidas”
Outro tema que aparece em diversos momentos da narrativa é a questão da diferença e do diferente.
“Protegia-te e mesmo que não soubesses, eu estava em segurança contigo. Dois diferentes juntos são menos diferentes”
“‘O diferente tem vocação para partir. Seja da casa em que ele nunca teve cômodo próprio. Do grupo de amigos em que, apesar das tentativas, o diferente falhou em se conectar profundamente. Ou de uma torre’”
“Mas é o sonho a casa dos diferentes, e é preciso que eles saibam. Feito abraço quente que nunca houve”
“O homem acordado tem asco à diferença. O homem acordado quer a segurança dos iguais, para não ser surpreendido com a aterrorizante ideia de tomar decisões. De trilhar caminhos novos. De ter à sua frente um alienígena a revelar tanto do que ele tenta esconder”
E destaco aqui outro ponto crucial nesta narrativa: a língua.
“A língua separa, mas também une, ela também dizia”
O que me leva, ainda, a outras temáticas importantes: o contar histórias e o lembrar.
“Memória de branco é boa porque eles vivem remoendo o passado”
“A brincadeira de encaixe ensinou Leonildo a ser paciente. Não havia lugar para onde ir, nem a pressa dos que vão. Aprendeu a humildade de desistir de uma conclusão, não se ater ao encaixe mais rápido e fácil. Desconfiar. Foco, mais foco. Voltar à estaca zero e recomeçar”
“Deveria ser algo novo dentro dele a transmutar as coisas todas do mundo em uma determinada pessoa”
“Eu tinha cinco anos e algo se quebrou num lugar tão profundo, impossível de achar”
“Leonildo contava sorridente, como se o passado não tivesse sido difícil, como se o presente também não o fosse”
“A máscara foi embora e Guilherme se deparou com um rosto diferente do que ele imaginava. Ele, como outros, completaram os rostos das pessoas incompletas, dando-se conta depois que haviam errado”
“Às vezes, a gente precisa fingir que está contando outra história para contar o que a gente realmente quer contar”
“Às vezes, ter acontecido é o motivo de não se falar mais da coisa, porque ela ficou completa e enterrada”
Também me chamou a atenção o fato da história, em certo momento, se passar durante a pandemia e nos transportar a algumas dificuldades que este período trouxe.
“Perderam o emprego e não queriam perder a vida, estavam prestes a perder o juízo”
Com tantas temáticas abordadas de maneira quase poética, há uma que não poderia deixar de aparecer: o amor.
“Se soubesse, se pudesse, construiria um mundo onde o sol sempre estaria na iminência de se pôr”
“O sorriso dele cedeu a um certo constrangimento, ciente de que o amor é incapaz de tornar um chiqueiro num palácio”
“Eles sorriam, estavam felizes. Eram novos demais, por isso felizes”
“Ainda faltava uma estação e uma eternidade”
Uma história que fala de presente, passado e futuro.
“Era como se ela soubesse que o futuro seria brilhante, que precisava aprender desde já como se é feliz”
E que nos lembra que, mesmo diante de toda e qualquer maldade, o que vale é o que temos dentro de nós, principalmente a bondade.
“‘Não deixe o medo impedir você de compartilhar o que você tem de bom aí dentro, eles sempre aparecem e fazem a gente desacreditar, perder a confiança, mas nem todos são como eles, confie na sua intuição, e compartilhe o que você tem aí dentro’”
Se você acha que este livro pode te interessar, leia a resenha completa para saber mais e garantir seu exemplar.
Há tempos me interesso pelo assunto surdez. Não sei muito bem o porquê do interesse, mas é sempre um prazer poder aprender um pouco mais sobre o tema.
Com isso, não é de hoje que o trabalho da Paula Pfeifer tem estado no meu radar e esse ano eu finalmente li Crônicas da Surdez, cuja resenha você encontra aqui.
Logo no início da obra há um esclarecimento muito importante sobre o que ela irá nos apresentar, ao mesmo tempo em que a autora tem a oportunidade de abordar uma questão de extrema importância: a heterogeneidade da surdez.
“Vamos esclarecer de uma vez por todas: a surdez não é homogênea, não existe certo nem errado quando se trata da forma pela qual um surdo escolheu para se comunicar e viver. Sou a favor do respeito à diversidade de escolha. O que funciona para mim pode não funcionar para você, e vice‑versa. Não tenho nada contra a língua de sinais e admiro muito os surdos bilíngues (que dominam o português e a LIBRAS). São tantos surdos com experiências de vida e comunicação distintas que quis escrever este livro para me comunicar com aqueles que vivem as mesmas situações que eu. Minha vivência com a língua de sinais e com surdos sinalizados é praticamente nula”
“Quando você lê a palavra “surdo”, o que lhe vem à cabeça? Pois saiba que a surdez é uma deficiência heterogênea. Não há uma definição única, e existem vários graus de perda auditiva”
Aliás, a autora nos lembra, como não poderia deixar de ser, que cada deficiência é única e traz as suas dificuldades, mas também a oportunidade de desenvolver algumas habilidades.
“Só que não existe deficiência melhor ou pior. Ao contrário, cada deficiência afeta e prejudica a vida da pessoa que convive com ela das mais variadas maneiras – é impossível e seria muito injusto escolher a pior de todas”
“A surdez torna as pessoas mais observadoras. A visão fica mais aguçada, e você passa a prestar atenção em coisas que antes passavam batido. Em especial, no comportamento humano”
O tema no qual ela mais se centraliza nesta obra, porém, é o da importância de buscar profissionais capacitados para atender e te ajudar em sua deficiência e, principalmente, não ter vergonha dela. Não se esconder, mas sim encarar a realidade.
“Quando a surdez se manifesta na infância, são pouquíssimas as famílias que a encaram logo de primeira”
“No fundo, eu sabia, mas era mais seguro fingir que não era comigo e evitar qualquer contato telefônico com quem quer que fosse”
“Você quer cuidar da saúde ou viver de aparências?”
“Sentir vergonha da surdez é uma vergonha”
Para ajudar seus leitores nessa jornada, a autora ressalta que não somos o centro do universo: nem todos estão prestando atenção em nós (o que quase sempre é uma benção) e que há muitas pessoas gentis nessa vida.
“A maior epifania que já tive na vida foi perceber que, quase sempre, os outros não estão nem 1% interessados em nossa condição como achamos que eles estão”
“Acho que encontramos muito mais pessoas gentis e acolhedoras na vida do que gente rude, e ficar triste com algumas grosserias que nos fazem é bobagem – no geral, quem age assim nem lembra do que fez ou não considera sua atitude errada”
E ela também nos lembra de uma coisa muito importante.
“Viajar é um dos maiores prazeres da vida, que não deve ser deixado de lado por medo. Quem fica com receio de viajar sozinho para o exterior deveria pensar que imprevistos podem acontecer a qualquer um, independentemente de ouvir ou não”
Por fim, não posso deixar de ressaltar que o silêncio e o barulho marcam presença constante ao longo das páginas deste livro (o que talvez já fosse de se esperar, não é mesmo?).
“Sinceramente, nunca consegui identificar no silêncio as trevas sombrias que muitas pessoas veem nele”
“Quando o silêncio faz parte de nós, não percebemos até que ponto o mundo é barulhento”
Se interessou por Crônicas da Surdez? Então leia a resenha completa e adquira o seu exemplar!
O post de hoje vai para você que ainda não se convenceu a ler A cor púrpura, escrito por Alice Walker.
Uma obra que, para além de um clássico, realmente tem muito a nos transmitir, falando, por exemplo, sobre pertencimento.
“Pela primeira vez na minha vida, eu sinto que tô no meu lugar”
Sobre o respeito ao próximo, mesmo que o próximo seja uma mulher vivendo numa sociedade extremamente machista.
“Eu num brigo as briga da Sofia, ele fala. Meu negócio é amar ela e levar ela pra onde ela quer ir”
Uma história sobre amores, não apenas românticos (aliás, este talvez seja o menos presente) e sobre exemplos.
“Talvez só de morarmos juntos, amar as pessoas faz com que elas se pareçam com a gente, eu falei. Você sabe como algumas pessoas casadas há muito tempo se parecem”
Mas, acima de tudo, uma obra sobre preconceitos, desrespeito e sobre vencer diariamente muitas batalhas.
“Eu sei que os branco nunca escutam os negro, e pronto. Se eles escutam, eles só escutam o bastante pra poder dizer procê o que você deve fazer”
Se você acha que precisa ler esta obra (e spoiler: precisa mesmo) clique na resenha para saber mais sobre ela e garantir o seu exemplar.
Quero andar de mãos dadas, como comentei na resenha, foi uma obra que comecei a ler sem esperar muita coisa e que me surpreendeu bastante.
“Algumas coisas chamam nossa atenção e nos fazem ficar presos a elas de uma maneira quase hipnótica”
A obra, escrita por Victor Lopes, aborda diversos assuntos delicados, mas necessários, como as mentiras que contamos, muitas vezes numa tentativa de nos proteger ou sobreviver.
“As mentiras da minha vida ficavam cada vez maiores e nada de bom surgia delas. Nada de bom. Só surgia dor”
“Mais uma mentira contada. Agora era só esperar pela próxima”
No caso desta história, essas mentiras são a forma que os protagonistas encontram para se defender num mundo que, mesmo se dizendo tão evoluído, ainda é tão retrógrado.
“Deveria ter colocado um ponto final, pois sei melhor do que ninguém que não vai dar certo, que não posso gostar dele e deixar acontecer o que quer que seja que poderia acontecer”
“— A verdade é que nós sempre precisamos fazer as coisas mais comuns meio escondidos, isso se não quisermos que nos xinguem, ou nos batam ou tentem nos matar. Desculpa, não queria te assustar.
— De boa. Eu sei como é. 2014 e as pessoas ainda não aceitam”
“Meus sonhos de encontrar alguém por quem eu me apaixonasse trouxeram com eles o pesadelo da realidade”
“As pessoas me olhavam e eu tinha certeza de que elas viam em meus olhos o que acontecera, conseguiam ver minhas mentiras e me julgavam por ser gay. É isso o que as pessoas fazem, não importa quem sejam. Nada importa para elas se você não for igual a elas”
E, como não poderia deixar de ser, o medo se faz bem presente.
“Talvez esse seja o motivo pelo qual não nos falamos normalmente ontem, porque estamos com medo de nossos sentimentos”
“Resolvi enfrentar esse medo, mesmo sabendo que não podia haver muitas consequências positivas”
Medo esse que faz um dos protagonistas não conseguir agir como gostaria. O impede de ser quem realmente é.
“Eu não posso ser outra pessoa, ainda que queira”
“Essa minha cara é a cara de alguém que não pode ser quem é e não pode viver o que quer por medo do que vocês vão fazer e pensar e do que vai acontecer com nossa família”
“Cada coisa que eu deixava de fazer para poder manter meu segredo, era uma tonelada a mais colocada sobre meus ombros”
“— Eu estragaria tudo para eles.
— Você prefere estragar tudo para você?
— É só o que posso fazer agora”
“Eu não posso fazer o que quero fazer e preciso aceitar isso”
“Eu fiz um pedido. Pedi que tudo mudasse. Pedi que eu pudesse viver”
Uma hora, porém, quando guardamos demais dentro de nós, as coisas acabam extravasando.
“E certo dia foi exatamente o que aconteceu. Eu explodi”
À espreita, nesta história, há muito mais. A morte, principalmente, está sempre rondando, de mãos dadas com muita angústia e ansiedade.
“Um dia eu chegaria da escola e ela não estaria mais lá. Eu só torcia para que esse dia não fosse hoje”
“Eu não via como era possível existir desse jeito com coisas tão boas acontecendo e sendo substituídas, transformadas quase num passe de mágica, em sentimentos desesperadores”
“Depois de um fim, algo começa”
“E eu fiz. Às três e meia da manhã, eu fiz a dor por dentro parar. A dor por fora era muito mais libertadora. No meio do quarto escuro tudo ficou vermelho e eu vi todas as luzes se apagarem antes mesmo de conseguir pedir ajuda”
Porém nem só de dor e tristeza vivem as páginas desta obra. Há também muito amor e companheirismo.
“Meu mundo estava em meus braços e eu não queria largar”
“Por fim, acho que fiz a coisa certa, por mais doloroso que possa ser para ele, eu precisava tocar no assunto, mostrar que estaria ao lado dele e que existem coisas mais importantes do que o que a família pensa sobre ele. Mas será que eu disse tudo isso?”
Se você se interessou por esses trechos, leia a resenha completa clicando abaixo e garanta seu exemplar.
No meu lugar foi uma leitura forte que realizei este ano.
Escrito por Jorge Castro, o livro aborda temas importantes e assuntos pesados. Talvez por isso a lembrança seja algo difícil ao longo da história.
“Lembrar é doloroso. Desperta outros medos”
Assim como o medo é uma presença constante.
“Tudo pode acontecer. E pode ser bem ruim”
Mas onde há medo, também há coragem.
“É corajoso deixar o mundo saber que você existe”
Aliás, há personagens corajosos também, e cheios de personalidade.
“Carol não puxou em nada as características do irmão. Aventureira nata, desde pequena. Nunca gostou de ser limitada”
Mas, sem dúvidas, a principal lição da obra é a necessidade de sermos quem somos, independentemente do que os outros dizem (ou pensam).
“A gente só consegue ser feliz quando para de se preocupar com a forma como os outros veem nossa casa, e passa a focar no que realmente importa: se sentir bem dentro dela”
Se quiser saber mais sobre No meu lugar, não deixe de ler a resenha completa clicando abaixo.
A leitura de Enemies with benefits, da Roxie Noir, foi longa, como comentei em minha resenha, mas foram várias as passagens que chamaram a minha atenção e que acabaram ficando de fora do post anterior.
A começar, claro, pelo fato da história abordar de diferentes formas os relacionamentos humanos, principalmente amorosos (mas não só).
“Quando feito corretamente, até parece que ter alguém é uma coisa boa”
“When done properly, it seems like having one is nice”
“Casar parece bom, mas também parece que é somente para os outros”
“Marriage seems nice, but it also seems like it’s for other people”
“Eu havia esquecido o quanto eu sentia falta dos meus irmãos por estar longe”
“I’d forgotten how much I missed my brothers by being away”
“Eu não tirei da cabeça o nosso beijo atrás da cervejaria. Eu nunca tiraria”
“I haven’t gotten our kiss behind the brewery out of my mind yet. I might never”
“Quem se importa com como chamamos isso?”
“Who cares what we call it?”
“Isso machuca e eu tenho de fazer algo para tentar e consertar isso, não importa o quê”
“It hurts and I have to do something to try and fix it, no matter what”
“Ela nunca parou de me surpreender. Não acho que em algum momento ela irá parar”
“She hasn’t stopped surprising me. I don’t think she ever will”
A protagonista tem alguns pensamentos e comportamentos com os quais concordo bastante.
“Eu não gosto que as pessoas paguem por mim. Eu não gosto de sentir que estou devendo algo para alguém”
“I don’t like being paid for. I don’t like feeling as if I owe someone something”
Ao mesmo tempo, ela é bem cabeça dura e quer ser sempre a dona da razão.
“Ela está correta sobre os detalhes, mesmo que eu ache que ela está errada sobre o todo”
“She’s right about the details even if I think she’s wrong about the big picture”
O protagonista, por sua vez, é um cara cheio de experiências e viagens, mas que decidiu voltar para sua cidadezinha natal.
“Eu não sabia disso naquele tempo. Eu não voltei por ela, mas ela me deixa feliz por ter voltado”
“I didn’t know it then. I didn’t come back for her, but she makes me glad I came”
“Todos os lugares têm os mesmo problemas depois de um tempo”
“Everywhere has the same problems after a while.”
E é claro que esses dois seres tão opostos, também teriam tanto em comum, ainda que na infância fossem basicamente inimigos.
“Egos de crianças de seis anos de idade podem ser delicados”
“Six-year-old egos can be delicate”
Para além disso tudo, uma passagem que me conquistou muito foi, como muitas vezes acaba sendo, a que fala sobre o poder da palavra.
“Palavras têm poder. Etiquetas têm poder e exatamente agora, tudo está nas minhas mãos. Eu posso nomear o que eu quero e criar a realidade”
“Words have power. Labels have power, and right now, it all lies with me. I can name what I want and form reality”
Se você quiser saber mais sobre essa história, não deixe de ler a resenha completa clicando abaixo.
A cada volume da tetralogia napolitana que eu leio (e, infelizmente, agora já estou no último) o encantamento por essa história só aumenta.
Do penúltimo livro — sempre com o lembrete de que este post pode conter spoilers — muitos trechos interessantes ficaram de fora da resenha. Compartilho aqui o que ficou para trás, com tradução minha e os originais ao final do post.
Em Storia di chi fugge e di chi resta, assim como nos demais volumes desta tetralogia, a autora consegue imprimir em sua escrita uma interessante visão da vida e do mundo que retrata, nos fazendo refletir, por exemplo, sobre a dureza do viver e do tornar-se.
“A vida é uma coisa muito dura, Lenù”
“Tornar-se. Era um verbo que sempre me deixara obcecada, mas que só me dei conta pela primeira vez naquela ocasião. Eu queria me tornar, mesmo que soubesse o quê”
“Eu precisava aprender a me contentar comigo mesma”
“O padre não era uma garantia, nada era uma garantia no feio mundo em que vivíamos”
“Fui muito miserável, muito massacrada pela obrigação de me destacar nos estudos”
Alguns trechos também nos fazem refletir sobre o adoecimento das pessoas, da sociedade, do mundo em que vivemos e, claro, sobre relações igualmente doentias.
“E hoje eu penso assim: não é o bairro que está doente, não é Napoli, é o globo terrestre, é o universo ou os universos”
“Casa comigo para ter uma criada de confiança, todos os homens se casa para isso”
“É uma tristeza a solidão feminina, eu me dizia, é um desperdício esse rompimento uma com a outra, sem protocolos, sem tradição”
“Você, quanto mais se sente verdadeira e está bem, mais se distancia. Eu, só de cruzar o túnel da avenida, já me amedronto”.
“A nova carne vive repetia a velha por jogo, éramos uma cadeia de sombras que entrava em cena com a mesma carga de amor, de ódio, de vontades e de violência”
“Nunca mais, nunca mais moveria um dedo por ninguém. Parti, fui me casar”
Aliás, como eu sempre acabo destacando, as relações humanas são extremamente centrais nesta narrativa e neste volume não seria diferente. Os relacionamentos, as amizades e a família ganham ainda mais destaque ao longo das páginas.
“Um homem, exceto pelos loucos momentos em que você o ama e ele te penetra, fica sempre fora”
“Nos tornamos, uma para a outra, fragmentos de voz, sem nenhuma confirmação do olhar”
“Eleonora teria entendido que com o amor não se pode fazer nada, que é insensato dizer a uma pessoa que quer ir embora: não, você tem que ficar”
“Pietro, em suma, não era capaz de me passar confiança, me olhava sem me ver”
“Nós duas precisávamos de uma nova dimensão, de corpo e, no entanto, tínhamos nos distanciado e não conseguíamos mais nos entregar”
Por fim, um tópico que gostaria de ressaltar é o da metalinguagem: a escritora que fala sobre escrita e sobre esse universo, numa ótica, mais uma vez, bem interessante.
“Disse que a face repugnante das coisas não era suficiente para escrever um romance: sem fantasia não parecia uma coisa verdadeira, mas uma máscara”
E aí, gostou desses trechos? Se quiser conferir os originais, basta ler este post até o final. E se quiser saber mais sobre o livro como um todo, vem ler a minha resenha:
Trechos originais (na ordem em que aparecem neste post)
“La vita è una cosa molto brutta, Lenù”
“Diventare. Era un verbo che mi aveva sempre ossessionata, ma me ne accorsi per la prima volta solo in quella circostanza. Io volevo diventare, anche se non avevo mai saputo cosa”
“Dovevo imparare ad accontentarmi di me”
“Il prete non era una garanzia, niente era una garanzia nel brutto mondo in cui vivevamo”
“Ero stata troppo miserabile, troppo schiacciata dall’obbligo di eccellere nello studio”
“E oggi la vedo così: non è il rione a essere malato, non è Napoli, è il globo terrestre, è l’universo, o gli universi”
“Mi sposa per avere una serva fidata, tutti gli uomini si sposano per questo”
“È un dispiacere la solitudine femminile delle teste, mi dicevo, è uno sciupo questo tagliarsi via l’una dell’altra, senza protocolli, senza tradizione”
“Tu tanto più ti senti vera e stai bene, quanto più ti allontani. Io, se solo passo il tunnel dello stradone, mi spavento”
“La nuova carne viva ripeteva la vecchia per gioco, eravamo una catena di ombre che andava da sempre in scena con la stessa carica di amore, di odio, di voglie e di violenza”
“Mai più, mai più avrei mosso un dito per nessuno. Partii, andai a sposarmi”
“Un maschio, a parte i momenti pazzi in cui lo ami e ti entra dentro, resta sempre fuori”
“Diventammo l’una per l’altra frammenti di voce, senza nessuna verifica dello sguardo”
“Eleonora avrebbe capito che con l’amore non c’è niente da fare, che è insensato dire a una persona che vuole andare via: no, devi restare”
“Pietro insomma non era capace di darmi fiducia, mi guardava senza vedermi”
“Avevamo entrambe bisogno di nuovo spessore, di corpo, e tuttavia c’eravamo allontanate e non riuscivamo più a darcelo”
“Disse che la faccia schifosa delle cose non bastava a scrivere un romanzo: senza fantasia non pareva una faccia vera, ma una maschera”
“Disse che la faccia schifosa delle cose non bastava a scrivere un romanzo: senza fantasia non pareva una faccia vera, ma una maschera”