Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos [tradução 2]

Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos
Aviso:
o texto abaixo é uma tradução. O original pode ser lido aqui.

A escola italiana — e digo isso por experiência própria, uma vez que vivi no exterior — tem grandes méritos, como propor um programa completo e variado, inclusive com relação à literatura. Acontece, porém, de um professor indigesto ou de uma abordagem errada nos fazer odiar uma obra

É exatamente sobre isso — sobre como a escola pode nos fazer odiar um autor ou um livro — que falaremos no encontro de março do Livromania, a coluna dedicada a livros e a tópicos deste tema (para saber do que se trata e como nasceu, vocês podem ler o texto introdutivo).

Quanto influencia o ensino, o modo como entramos em contato com grandes clássicos da literatura, na opinião que fazemos deles? E é possível, depois, superar o “obstáculo emotivo” e pegar novamente aquela besta escura, relê-la e ainda apreciá-la?

Com professores de italiano/literatura tive bastante sorte, principalmente nos últimos três anos da escola — não é por acaso que eu decidi, exatamente nesse período, estudar Letras na universidade. Nos dois primeiros, nem tanto¹.

É justamente a esse biênio que remontam os meus maiores “ódios literários”: “Os noivos” de Alessandro Manzoni (vencedor indiscutível do prêmio de pior coisa que suportei) e “A eneidade Virgílio.

O que fez “odiá-los” tanto? Provavelmente o fato de que não tive a oportunidade de ler e apreciar essas obras enquanto livros, mas apenas de vê-los e estudá-los como matéria de prova e atividades em sala.

Acho que é muito difícil entrar em sintonia com uma história, um autor e seus personagens — ainda mais os que fazem parte da esfera literária e dos clássicos, pela sua natureza “difícil” — se você não se aproxima deles com a abordagem correta. E, infelizmente, na escola, nem sempre os professores têm tempo, modo e sensibilidade de encontrar essa tal abordagem.

Pessoalmente, ainda me lembro, mesmo com a distância dos anos, a ira da professora porque eu não me lembrava de um detalhe importantíssimo de um episódio d’Os noivos, sinal evidente de que eu não havia lido atentamente as páginas atribuídas pela professora. Vocês devem estar se perguntando: que detalhe é esse? Que as meias de Lucia eram vermelhas.

Vocês também têm livros que odeiam desde os tempos da escola? O que fez com que vocês desenvolvessem essa aversão? E, depois de crescer, vocês foram capazes de superá-la? Escrevam os títulos nos comentários, ou nas redes sociais. Até a próxima!

—–

Nota:
¹. Os ciclos escolares, na Itália, são um pouco diferentes dos nossos. O “ensino médio” deles dura 5 anos (enquanto o que corresponde ao “ensino fundamental” dura um pouco menos que o nosso). Portanto, neste caso, a autora se refere aos dois primeiros anos do ensino médio dela.

14 comentários em “Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos [tradução 2]

  1. Olá, Tati..Então, eu quando estudante na minha época de escola, lembro que amava as aulas de Literatura e um dia quis ser como minha professora. Ela nos contava a história dos livros clássicos de uma forma tão mágica. Mas quando tínhamos que ler aqueles livros, eu detestava.. Por ironia do destino, fui fazer Letras também. Na faculdade, comecei a ler os clássicos e me apaixonar por eles. Foi só na época da faculdade que desenvolvi o gosto da leitura (antes tarde do que nunca). Atualmente, sempre procuro ler algum clássico. Agora no momento estou lendo Lira dos Vinte Anos, do Álvares de Azevedo. E estou impressionada em como é um livro fantástico (ainda estou no começo, mas já deu para perceber).
    Super beijo!!!

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    1. Bem interessante esse relato, Renata, porque a sua professora, ao menos era um grande contadora de histórias. Talvez, à época, você procurasse nos livros as palavras dela, mas se deparava com algo muito mais difícil! Porém, realmente, desenvolver o gosto pela leitura não tem idade! E são prazeres únicos. Obrigada pela visita e por esse comentário tão enriquecedor!
      Beijão

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  2. Eu estudei na Itália, colégio católico e meus professores foram incríveis. Apenas um ou outro me aborrecia pela metodologia. Mas nada a reclamar. Eu lia muito. Era precoce para a idade e boa parte do meu ensino inicial foi a casa por recomendação da psicóloga após um sem-fim de testes.
    Enfim, a leitura nunca me aborreceu e eu nunca pensei num livro como conteudo para isso ou aquilo. Acho que eu tive a felicidade de ter professores que me entenderam enquanto leitora e não me sabotaram. Bacio

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    1. Che bella!
      Eu acredito que em qualquer país do mundo, uma abordagem errada nos afasta do mundo dos livros. Isso, por sorte, nunca aconteceu comigo, mas, além de tudo, eu cresci numa família de leitores, é estranho não me imaginar lendo.
      Fico feliz que você tenha tido a oportunidade de ter bons professores e ter mantido seus bons hábitos!
      Bacio

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  3. Aprendi a mar os clássicos no meu período de Vida Religiosa Franciscana, ainda no Ensino ,Médio… O melhor professor de literatura que tive foi neste período… Com mais de 20 mil volumes à disposição à época, o universo conspirou a meu favor…

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  4. Sempre conto que minha professora passou “Grande Sertão: Veredas” no meu nono ano do ensino fundamental. Quando um professor faz isso com a gente ele nos rouba duas vezes. Primeiro a emoção de uma primeira leitura proveitosa – uma vez que pra passar você tem que recorrer a resumos na internet, o que faz com que vc não se emocione com nenhum dos pontos de virada dos livros. Mesmo depois de anos da primeira leitura desastrosa. Segundo que o professor tenta te roubar o gosto pela leitura. Ora se eu (13 anos) não gostei de talvez o melhor livro da literatura brasileira, eu não tenho esperanças. “Não gosto de ler”. Consigo compreender perfeitamente

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    1. Nossa… Até hoje eu não tive coragem de enfrentar Grandes Sertões (tentei uma vez, mas não consegui), imagine com 13 anos. E te obrigam a ler algo assim para, no final das contar, perguntar a cor da meia. Sabe, não funciona!

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  5. Tati, como professora de Textos/Comunicação, me deliciei na leitura desse texto! Trouxe muito esse relato para o contexto educacional brasileiro, que não é mesmo diferente. No caso aqui do Brasil, vejo que o problema não é exatamente escola (apesar de ela ainda se pautar no formato do século XIX, o que é surreal). É o vestibular, num formato absurdo, que cobra um milhão de coisas muitas vezes inaplicáveis, e que dita o que a escola deve ensinar. É um trabalho danado passar o conteúdo do vestibular (porque pais cobram, alunos cobram, direção cobra, e todo mundo quer resultado e aprovação, e pouco além disso) e ao mesmo tempo coisas contextualizadas. Por exemplo, queria ensinar meus alunos do ensino médio a escreverem um e-mail corporativo e produzirem um currículo. Quanta gente não sai da escola sem fazer isso? E foi uma trabalheira incluir esse tema (que não é abordado em materiais didáticos, porque consideram isso “inútil” frente ao conteúdo do vestibular) e trabalhar com os temas do ENEM ao mesmo tempo.
    O mesmo vale pra literatura, pra química, pra biologia, pra todas as matérias. Infelizmente a educação segue um molde absurdo que é o vestibular.
    A gente deveria lutar é por melhores condições de entrada nas universidades. Isso, sim, revolucionaria a educação desde a base!

    Excelente tradução, Tati! Obrigada pela partilha! =)

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    1. Nossa, não sei nem o que dizer depois de tudo isso, porque é a mais pura verdade! Como essa tradução me perguntei quantos leitores não se perderam por conta da obrigação de “ler” certas coisas na escola, mas, com as suas palavras, me pergunto quantos talentos não perdemos nas mais diversas áreas também, porque, no final das contas, a escola também poda demais. Molda para o vestibular e pronto, como você disse. Mas não ensina a viver. Como escrever um email corporativo poderia ser inútil se o que a escola quer é que o aluno passe no vestibular, para começar uma faculdade que depois o fará ingressar no mercado de trabalho? Chega a ser até contraditório, não?

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