Toda história tem dois lados

Este é um tema sobre o qual estou querendo falar há um tempo. E, apesar da palavra “história” ali no título, eu sabia que poderia parecer, inicialmente, que este texto nada tinha a ver com os assuntos do blog. Mas quanto mais eu refletia sobre ele, mais eu pensava em uma grande conexão literária que me servirá muito bem de exemplo ao que quero falar.

Em nossa literatura temos o grande dilema: Capitu traiu ou não Bentinho?

Há pessoas que dizem que sim e há pessoas que dizem que não, mas sendo a história totalmente narrada em primeira pessoa por Bentinho, fica difícil afirmar qualquer coisa, uma vez que conhecemos apenas o lado dele na história.

Pode parecer bobo reafirmar isso que, antes de mim, tantos estudiosos já disseram, mas a verdade é que há uma força muito grande nesta imagem com relação ao que escrevo aqui. E tem mais, isso tudo conecta-se com outra coisa que foi muito discutida ao longo desse 2020: a cultura do cancelamento.

Há muitas críticas (coerentes) a este comportamento que tem se intensificado e vejo que, em diversos casos, realmente falta um mínimo conhecimento sobre o outro lado da história. Afinal, como eu disse no título, toda história tem dois lados (o que não significa que nunca há um lado errado, claro).

Eu mesma já, infelizmente, ouvi gente falando “mas eu conheço fulano, se ele está dizendo isso, eu acredito, não me importa o que o outro lado tem a dizer”. E é com discursos assim que pessoas são “canceladas” até mesmo por coisas que não fizeram ou que não são bem como os outros estão dizendo.

Reforço: não estou dizendo que as pessoas não erram, que não ocorrem coisas absurdas neste planeta. Com certeza há muita coisa ruim e muito crime que precisa ser julgado. Mas, em tese, um juiz de verdade deve analisar todos os fatos tanto de um quanto de outro lado.

Ouvimos falar sobre “cultura do cancelamento” e pensamos que isso nunca vai acontecer conosco, mas, de uma forma ou de outra, estamos sempre sujeitos a mentiras ditas sobre nós, sobre o nosso trabalho, sobre nossas vidas.

A vontade de escrever sobre tudo isso surgiu, em mim, quando vi de perto que as pessoas são capazes de fazer qualquer coisa para estar “por cima”, para se dar bem. Criam-se fatos inexistentes, manipulam-se palavras. E, por vezes, você não tem como se defender porque, para isso, precisaria dizer verdades (o que, muitas vezes significa mostrar que o outro lado não é o que parece ser também) que é melhor guardar para dizer diante da justiça, a única que deveria realmente julgar fatos.

O problema é que nem sempre as pessoas têm a oportunidade de provar que não fizeram nada daquilo sobre as quais são acusadas. Aqui, refiro-me até a situações mais “simples” que aquelas de grandes casos midiáticos. Refiro-me a situações mais “cotidianas”, entre pessoas que se conhecem e estão em um mesmo (pequeno) círculo social.

É muito triste perceber que, infelizmente, em casos assim, a pessoa que inventa fatos acaba realmente se dando bem. Não sei até quando, porque talvez uma hora as máscaras venham a cair. A gente acaba torcendo por isso. Mas, e se a máscara nunca cair?

Não temos como afirmar com 100% de certeza se Capitu traiu ou não Bentinho, pois, em realidade, nunca ouvimos um “a” que tenha vindo diretamente dela. Então também não acredite em outras histórias que tenham vindo de apenas um lado, principalmente se isso calunia ou diminui a parte que você não conhece ou não deu espaço para se explicar.

13 comentários em “Toda história tem dois lados

  1. Honestamente não dou a mínima pra esta modinha de cancelamento. Pois, como tudo que é modinha, logo passará. O grande problema é que agora não existe certo ou errado, exista a minha opinião e o meu ponto de vista. Está se relativizando muita coisa, e isto sim é perigoso. Do dia pra noite qualquer um virou jurista pra falar de lava-jato e infectologista pra falar da pandemia. Eu, como zootecnista e profissional que trabalha diretamente com a produção de carne, tenho que ouvir muita asneira de vegano que não tem o mínimo de conhecimento técnico sobre o assunto. Ainda assim, procuro informar somente quando me cabe, mas a cada dia que passa a vontade de simplesmente ignorar aumenta.

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    1. Torço para que passe mesmo, pois não há sentido algum. É como você disse, qualquer um virou “especialista” em áreas que não tem conhecimento algum! É uma luta diária querer conscientizar pessoas que decidiram que a opinião delas é o que importa. Mas parabéns por continuar tentando.

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  2. Todas as histórias tem dois lados, reais ou inventados. Por isso, é necessário cuidado. No caso de Bentinho, só temos o lado dele e por ser escrita por um homem, não temos bem mesmo uma Capitu. Apenas os olhos dela. Algo muito comum as personagens femininas antigas. Falta corpo. São apenas partes. E possível saber mais sobre a mãe do personagem que da própria Capitu.
    Enfim, eu nem sempre dou atenção para todos os lados porque, as vezes, um dos lados se aproveita e nos deixa em situação delicada. Já passei por isso e dei uma de pinguim de Madagascar.

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  3. É realmente complicado. E eu concordo absolutamente com você de que temos que analisar todos os lados da história. Eu mesma, quando sinto que estou começando a “julgar” alguém ou alguma situação abro espaço para o diálogo e dali surgem novas perspectivas que, muitas vezes, eu não esperava. E em situações em que não temos como ouvir o outro lado, acho que o que nos resta é ter um pouco mais de compaixão e tolerância. Aquele clichezão de que todo mundo está lutando uma batalha que não sabemos é a mais pura verdade.
    Quanto a Capitu, não sei se o meu lado romântico fala mais alto ou se é exatamente pelo fato de nunca ter ouvido a versão dela, mas sigo acreditando que não houve traição. Eu sei que generalizações são perigosas, mas ousaria dizer que na maioria das vezes quando não há evidências suficientes para que você escolha um lado ou outro, a sua decisão vai dizer mais sobre você mesma do que a pessoa (ou pessoas) que você defende ou cancela.

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  4. Pensei bastante sobre o assunto cancelamento em 2020. Ao mesmo tempo que criou-se essa cultura de cancelar pessoas – e o ódio coletivo une muito mais as pessoas na internet do que qualquer outra coisa, infelizmente – também se criou esse negócio de “fada sensata”, “zero defeitos”, “nunca errou”. TODO MUNDO ERRA. Somos humanos.

    Esses dias vi algum perfil chamar uma famosa de “gente como a gente” e isso me fez pensar tanto. Eu cheguei a conclusão pessoal que esse é o problema da cultura do cancelamento. hahaha A gente coloca as pessoas em pedestais e endeusamos ídolos que são SEMPRE gente como a gente. E aí, quando eles obviamente não conseguem manter essa imagem perfeita que criamos, porque são humanos e todo mundo erra, as pessoas se “decepcionam”.

    É um tema complicado mesmo, Tati, no âmbito pessoal ainda é um exercício recorrente e eu sinto que terapia tem me ajudado bastante. Os livros têm um papel muito importante em aprender a se colocar no lugar dos outros também, né?

    Beijo,
    Brenda

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    1. Acho que em 2020 realmente levantou muito forte a bola do cancelamento. E é exatamente isso que você disse! Todo mundo erra e jogar ódio gratuito pra cima da pessoa não vai fazê-la ser necessariamente melhor, sabe
      Mas você disse algo importante (para além da terapia, claro): livros nos ajudam a ter empatia. E realmente, existem até estudo sobre isso.
      Definitivamente, os brasileiros precisam ler mais!

      Beijos!!

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