A modo tuo — Ligabue

A modo tuo — Ligabue

Talvez você, leitor mais atento deste Blog, tenha se perguntado o porquê da louca aqui ter usado uma música em italiano numa resenha de um livro sobre o Paquistão. Bem, talvez eu não esteja tão louca assim e possa explicar tudo neste post aqui! Bora?

Quando eu estava lendo Livre para voar, acabei escutando, de novo,  A modo tuo (do seu jeito, em uma tradução simples). Uma música escrita por uma pai para a sua filha. Assim como o livro é de um pai sobre sua filha (em linhas bem gerais, claro).

A música é uma espécie de diálogo recheado de bons desejos, mas no qual cabe, também, um pedido de desculpas pelo mundo que o filho receberá. E esse talvez seja um dos pontos exatos em que não pude deixar de casar essa canção com a leitura que trouxe a vocês.

Será difícil te pedir desculpa
Por um mundo que é como é
Eu tento fazer alguma coisa
Mas é difícil mudá-lo

Mas essa música também parece cair como uma luva em Livre para voar em muitos outros aspectos como, por exemplo, o fato de ambos os pais sentirem certo medo — misturado a um maravilhamento, claro — diante da criança que os aguarda, uma criança que vem para trazer uma mudança, seja no próprio adulto, seja no mundo que a recebe:

Será difícil crescer
Antes que você cresça
Você, que fará tantas perguntas
E eu que fingerei saber mais

A verdade é que a letra de A modo tuo é tão linda quanto o livro Livre para voar. É uma música que eu ouço e ouço e não deixo de achar incrível. Com uma mensagem sincera, forte. Para além dos trechos que apresentei acima (e que, bem livremente, tentei traduzir), essa música ainda fala sobre ver (e deixar) seus filhos crescerem. Ter de ser um mero espectador a partir do momento que o filho passa a escolher seus próprios caminhos. E até nisso eu consigo encontrar ecos das palavras de Ziauddin.

Será difícil te ver de costas
Pelos caminhos que escolherá
Todos os semáforos
Todas as proibições
E as filas que evitará
Será difícil
Enquanto lentamente você se afasta
Procurando sozinha
Aquilo que será

Confesso que eu poderia ouvir essa música vezes e vezes seguidas (e depois passar semanas com ela na cabeça) e poder escrever esse post foi mais um presente para mim mesma (hoje é meu aniversário) do que qualquer outra coisa. Se bem que eu tentei traduzir uns trechinhos para que vocês tenham uma idea da beleza dessa música. O texto original segue abaixo e, no final desse post, vocês podem ouvir a versão cantada pelo próprio Ligabue (tem uma versão cantada pela Elisa também, igualmente linda)

Sarà difficile diventar grande
Prima che lo diventi anche tu
Tu che farai tutte quelle domande
Io fingerò di saperne di più
Sarà difficile
Ma sarà come deve essere
Metterò via i giochi
Proverò a crescere
Sarà difficile chiederti scusa
Per un mondo che è quel che è
Io nel mio piccolo tento qualcosa
Ma cambiarlo è difficile
Sarà difficile
Dire tanti auguri a te
A ogni compleanno
Vai un po’ più via da me
A modo tuo
Andrai, a modo tuo
Camminerai e cadrai, ti alzerai
Sempre a modo tuo
Sarà difficile vederti da dietro
Sulla strada che imboccherai
Tutti i semafori
Tutti i divieti
E le code che eviterai
Sarà difficile
Mentre piano ti allontanerai
A cercar da sola
Quella che sarai
A modo tuo
Andrai, a modo tuo
Camminerai e cadrai, ti alzerai
Sempre a modo tuo
Sarà difficile
Lasciarti al mondo
E tenere un pezzetto per me
E nel bel mezzo del tuo girotondo
Non poterti proteggere
Sarà difficile
Ma sarà fin troppo semplice
Mentre tu ti giri
E continui a ridere
A modo tuo
Andrai, a modo tuo
Camminerai e cadrai, ti alzerai
Sempre a modo tuo

Flor de Lis — Djavan

Flor de Lis Djavan

Lembra que na época das eleições todo mundo falava para tomar cuidado com fake news e também para sempre checar as informações para repassar? Pois é, bem antes disso a gente já caía em fake news e nem ligava…

Quando eu estava no Ensino Médio me disseram que a música Flor de Lis, do Djavan, era uma homenagem do cantor e compositor para sua esposa, Maria, que falecera no parto, com sua filha, Margarida. E olhando a letra, essa até é uma história que faz sentido… Mas jogando rapidinho no Google logo descobrimos que é tudo mentira (ao menos é uma mentira criativa, vai).

Flor de Lis foi lançada em 1976 e faz parte do primeiro álbum da carreira de Djavan. E em 1976 Djvan já era casado com Maria Aparecida dos Santos Viana e assim o foi até 1998, quando se separaram.

A música, se pararmos para analisar a letra, realmente fala do fim de um relacionamento (e isso fica claro com “é o fim do nosso amor”), mas, ao contrário do que o boato dizia, não por causa da morte de uma das partes, mas pelo fim do sentimento em si, que uma das partes não soube cultivar (“eu sei que o erro aconteceu/ mas não sei o que fez/ tudo mudar de vez/ onde foi que eu errei?”).

Mas olha como a gente quer achar explicação em tudo: o eu-lírico da canção, o ser que perdeu seu amor, que não viu o “jardim da vida” florescer com outras flores e outros amores, não precisa ser, necessariamente, o próprio Djvan, afinal, é uma música, e a música pode ser universal! Mas há quem diga que Flor de Lis retrata o final do relacionamento de Djavan e Maria (o que, cronologicamente, não faria sentido, pois a canção é de 1976 e eles foram casados, ao menos no papel, até 1998). Se pensarmos por um outro ângulo, quer nome mais universal que “Maria”? Quer nome melhor para mostrar que essa é uma música para todos?

De qualquer maneira, uma coisa não dá para negar: Flor de Lis é uma linda canção e o modo como ela retrata a dor do fim de um relacionamento (“Será talvez/ que minha ilusão/ foi dar meu coração/ com toda força pra essa moça/ me fazer feliz/ e o destino não quis/ me ver como raiz/ de uma flor de lis”), da percepção de que algo não deu certo e que, ao mesmo tempo, no solo ferido não nasce um novo amor (“do pé que brotou Maria/ nem Margarida nasceu”)… É pura poesia!

Valei-me, Deus é o fim do nosso amor
Perdoa, por favor
Eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez
Tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei?
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei
Será talvez
Que minha ilusão
Foi dar meu coração
Com toda força pra essa moça
Me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz
De uma flor de lis
E foi assim que eu vi
Nosso amor na poeira, poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu
E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu

Bella Ciao — Canção popular italiana

Bella Ciao Canção popular italiana

Começo esse post expressando minha profunda indignação comigo mesma por somente hoje estar escrevendo um post sobre Bella Ciao. Isso porque quando criei essa categoria aqui no Blog, minha ideia era justamente poder trazer um pouco de História através da música e Bella Ciao, sem dúvidas, tem muito a nos ensinar. E se engana quem pensa que esta é simplesmente a música tema da série La casa de papel. Bella Ciao é uma canção bem antiga e mesmo sua versão original não é a mais conhecida. Mas vamos por partes.

A melodia dessa música vem dos tradicionais cânticos de trabalhadores rurais italianos e sua “primeira” letra (ou a primeira letra a que temos acesso hoje) nos remete a esse contexto. Eram canções entoadas para ritmar o trabalho e diminuir o peso deste.

Stamattina mi sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato I’invasor!
A lavorare laggiù in risaia
Sotto il sol che picchia giù!
E tra gli insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi tocca far!
Il capo in piedi col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a lavorar!
Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a consumar!
Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in libertà!

De forma bem resumida, essa letra aí em cima nos mostra um trabalhador rural que acorda e tem de ir ao trabalho, no campo, debaixo de um sol que queima, em meio a insetos, com um chefe a pegar no pé. Tudo isso, em troca de pouco dinheiro e vendo a vida passar. Um trabalho praticamente escravo, feito enquanto se sonha com um trabalho livre.

Sendo uma canção popular, a letra de Bella Ciao foi mudando aos poucos com acréscimos e alterações feitas pelo próprio povo que a entoava. E assim vamos chegando à uma versão mais próxima da música que se tornou símbolo da resistência antifascista italiana, cantada pelos partigiani. Mas, de novo, vamos por partes.

O fascismo ao qual me refiro aqui é aquele que surgiu na Itália por volta de 1910, e que esteve no poder entre 1922 e 1943. Um regime totalitário, nacionalista e antiliberal, representado e exercido por Benito Mussolini. O discurso nacionalista de Benito Mussolini ganhou muitos adeptos, principalmente entre as classes conservadoras italianas, dentre elas, a dos proprietários de terra (sim, provavelmente os empregadores daqueles que entoavam a música apresentada acima!).

E mais: os fascistas queriam tomar o poder por via eleitoral, mas também através de atos violentos contra seus opositores. Desde o momento em que começaram a buscar o poder os “camisas negras” (como eram conhecidas algumas milícias partidárias do fascismo) foram extremamente agressivos, com o objetivo de intimidar e enfraquecer a oposição.

Concomitantemente à ascensão do regime fascista — e em seus anos mais duros — surge um movimento popular de resistência armada, formada pelos Partigiani (partigiano, no singular), que são combatentes que não pertencem a um exército regular. Eles se utilizavam, principalmente, de emboscadas, sabotagens e interceptações de mensagens e eram um grupo formado por desertores e praticamente todos os tipos de civis (homens, mulheres, religiosos, comerciantes e pessoas de qualquer ideologia política).

Eram esses partigiani que entoavam a versão de Bella Ciao mais conhecida nos dias de hoje, uma versão que ganha um tom de “luta pela liberdade”:

Stamattina mi sono alzato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi sono alzato,
ed ho trovato l’invasor.
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
Se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
E seppellire sulla montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire sulla montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.
E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Ti diranno «Che bel fior!»
«Questo fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

Percebam que, esta nova letra, começa da mesma forma que a primeira apresentada, mas é em sua continuação que está a grande mudança: a pessoa que acorda pede para que um partigiano a ajude, pois sente que está morrendo. Mas, essa pessoa pede para que, caso realmente venha a morrer, ser enterrada como partigiano, em uma montanha, à sombra de uma bela flor, a “flor do partigiano morto pela liberdade”.

É uma letra bem forte e muito melódica (daquelas que gruda na cabeça) e só por esse último verso já dá para compreender porque ela ganhou o mundo e se tornou símbolo de tantas outras lutas (ainda que muitas pessoas sequer saibam o que estão cantando…)

Rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes

Rosa de Hiroshima

Em minha última resenha falei de um livro que conta um pouco sobre o acidente nuclear de Chernobyl. Isso me fez pensar, também, em Rosa de Hiroshima, uma vez que, novamente, estamos falando de questões nucleares, com a infeliz diferença de que aqui não se trata de um simples acidente. Mas vamos por partes.

Rosa de Hiroshima é um poema de Vinícius de Moraes que, posteriormente, foi musicado por Gerson Conrad e ganhou vida com a banda Secos e Molhados. Trata-se de uma obra metafórica que nos faz refletir sobre as consequências de um bombardeio nuclear.

No dia 6 de agosto de 1945 — ano em que a II Guerra Mundial chegava ao fim — para demonstrar sua força nuclear, os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima uma bomba de urânio, que recebeu o nome de Little Boy e que matou ao menos 140 mil pessoas. Três dias depois, ainda houve o ataque a Nagasaki, com uma bomba de plutônio, apelidada de Fat Man. Mais de 40 mil pessoas morreram, sem contar as milhares de pessoas que morreram posteriormente, em decorrência dos efeitos da radiação dessas bombas.

Para as pessoas, a radiação pode causar queimaduras, cegueira, surdez e, claro, câncer. Mas, além disso, a radiação em excesso também é prejudicial para o meio ambiente, devastando a vegetação,  causando chuva ácida e contaminando tudo.

É difícil não sentir um aperto no peito lendo o poema ou, mais ainda, ouvindo a canção Rosa de Hiroshima, que ainda nos lembra que ninguém é poupado em um ataque como esse: crianças, mulheres, idosos… É ainda mais tocante ver o horror sendo descrito, metaforicamente, com o auxilio de uma imagem tão frágil e bela, mas também tão forte (uma vez que se protege com seus espinhos): a rosa. Isso sem falar que a rosa pertence à natureza, que também não é poupada em uma tragédia dessas.

E também é bonito ver como Rosa de Hiroshima consegue trazer a união entre música e poesia de maneira tão bonita, trabalhando ainda mais a fundo diversas figuras de linguagem, para além da metáfora: anáfora (com a repetição de pensem), aliteração (da rosa, da rosa de Hiroshima — a sonoridade causada por esses s) e também a sinestesia (a mistura de sensações como as rosas cálidas).

Pensem nas crianças
Mudas, Telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas, inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas, Alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa, sem nada

 

O tempo não pára – Mariza

O tempo não pára Mariza

Aos que estranharam a grafia do título, a música que trago hoje é um fado português! E são muitos os motivos que me fazem escolher apresentar essa música a vocês, então vou tentar organizar as ideias aqui.

O tempo não pára é, na realidade, uma composição de Miguel Gameiro, que ofereceu sua canção à cantora de fado, Mariza e esta, por sua vez, incluiu a canção em seu álbum Best of (2014).

Eu não tenho o hábito de ouvir fado, mas essa música um dia me apareceu no Spotify (há um bom tempo, lá em 2017) e eu me apaixonei! Eu sequer imaginava que era um fado, mas fui ouvindo e quis saber mais sobre a música. E desde então nunca mais a esqueci.

Claro que uma das coisas me mais me encantam nessa música é a letra, mas a melodia dela também é uma delícia. Porém, não posso negar que o fato dela ser em português (ainda que seja o português de Portugal) ajudou muito para que eu logo compreendesse a letra e pudesse me encantar.

O tempo não pára é uma música que fala exatamente sobre o que o título nos indica: sobre a passagem do tempo, a loucura do cotidiano. Como diria Virgílio: tempos fugit. Em uma analogia mais atual, costumo ouvir essa música antes ou depois de ouvir Paciência (do brasileiro Lenine). Não sei, costumo associar essas duas músicas, porque ambas falam desse tempo que escorre, dessa vida que nos consome. Do tempo (ou ainda, da falta dele).

Mariza, nessa canção, faz um reflexão interessante e, ainda que não seja ela a autora da letra, há muito de sua vida na canção: fadista, Mariza teve de viajar, se apresentar, ganhar a vida com sua (belíssima) voz. Isso a fez perder momentos importantes (pois todo momento tem a sua importância) ao lado de sua família e de seu marido. E podemos ver isso na letra, esse balanço entre o que foi perdido, o tempo que passou e o tempo que há pela frente, as novas oportunidades que, no entanto, jamais recuperarão o que ficou para trás.

Sério, vejam essa letra e ouçam a canção, é muito bonito!

Eu sei que a vida tem pressa
Que tudo aconteça sem que a gente peça
Eu sei
Eu sei que o tempo não para
O tempo é coisa rara
E a gente só repara quando ela já passou
Não sei, se andei depressa demais
Mas sei, que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo
Que me dê mais tempo, para olhar para ti
De agora em diante, não serei distante
Eu vou estar aqui
Cantei
Cantei a saudade
Da minha cidade
E até com vaidade
Cantei
Andei pelo mundo fora
E não via a hora
De voltar pra ti
Não sei, se andei depressa demais
Mas sei, que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo
Que me dê mais tempo, para olhar para ti
De agora em diante, não serei distante
Eu vou estar aqui
Não sei, se andei depressa demais
Mas sei, que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo
Que me dê mais tempo, para olhar para ti
De agora em diante, não serei distante
Eu vou estar aqui

 

Vocês já conheciam a Mariza? E essa canção??

Arioso da cantata 156 – Bach

Arioso da cantata 156 Bach

Hoje trago a vocês um post musical muito especial (e que, espero, será melhor que essa rima pobre que acabei de fazer sem querer). Talvez possa parecer muita pretensão falar sobre música clássica por aqui, mas esta não é qualquer música clássica, e sim uma que vocês provavelmente conhecem e eu já vou explicar tudo isso.

Apresentada pela primeira vez em 1729, a Cantata BWV 156 influenciou, anos mais tarde, alguns compositores brasileiros. Uma cantata é uma sinfonia cantada, composta por várias partes, sendo uma delas o Arioso, que é a parte inicial instrumental. Ouçam essa peça e vejam se a reconhecem de algum lugar…

Essa melodia soa conhecida? Bom, ela provavelmente é mesmo. O Arioso da Cantata 156 (como é mais conhecida) serviu de inspiração, na década de 70, para Jessé, cantor brasileiro que, na época, se apresentava como Tony Stevens e cantava em inglês. A música em questão é If you could remember, que vocês podem ouvir abaixo.

Caso você esteja pensando, porém, que nunca ouviu If you could remember, mas que, mesmo assim, sente que conhece a cantata de Bach de algum lugar, pode ser que você conheça outra música, também brasileira: Céu de Santo Amaro. Composta por Flávio Venturini e famosa na voz dele e de Caetano Veloso, essa música chegou a tocar na novela Cabocla (2004). Vocês podem ouvir a música aqui embaixo.

E agora, ela soa mais conhecida?

A música em inglês e a música em português, em termos de letra, são bem diferentes (não se trata de uma tradução/versão), mas ambas são muito bonitas. Eu, particularmente, gosto mais da versão em português, me soa mais poética.

Me lembro que quando ouvi Céu de Santo Amaro pela primeira vez, eu me encantei. Trata-se de uma música que facilmente chama suas imagens à minha mente e cria uma linda história de amor. Ver a imagem do sertão, junto à uma bela noite estrelada, também é algo muito interessante que essa música faz. Encerro o post com a letra dessa canção, para que vocês possam entender melhor o que estou falando:

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor
Nos invadiu
Com ela veio a paz, toda beleza de sentir
Que para sempre uma estrela vai dizer
Simplesmente amo você

Meu amor
Vou lhe dizer
Quero você com a alegria de um pássaro
Em busca de outro verão
Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Na noite do sertão
Meu coração só quer bater por ti
Eu me coloco em tuas mãos
Para sentir todo o carinho que sonhei
Nós somos rainha e rei

Olho para o céu
Tantas estrelas dizendo da imensidão
Do universo em nós
A força desse amor nos invadiu
Então veio a certeza de amar você

 

Maria, Maria – Milton Nascimento

Maria, Maria Milton Nascimento

Hoje eu quis trazer para vocês uma música que não podemos deixar passar em branco: Maria, Maria, de Milton Nascimento, em parceria com Fernando Brant. Tal canção faz parte do álbum Clube da Esquina 2 e foi lançada em 1978 (mas é atemporal).

Na música, vemos descrita uma Maria que pode ser qualquer Maria. E mais que isso: pode ser qualquer mulher. A tal da Maria é uma pessoa que batalha, que tem força e que, apesar de tudo, tem fé na vida. Maria também tem o direito de amar e de sonhar, mesmo que a vida seja dura.

A escolha do nome da música pode ter sido motivada por dois fatores: o fato de Maria ser um nome comum no Brasil e também porque este é, inclusive, o nome da mãe de Milton Nascimento, uma Maria que também batalhou muito na vida.

É fácil visualizar as mulheres se emocionando com esta canção, que em tão pouco fala tanto. E, não à toa, essa música toca em muitos lugares e já foi regravada por muitas pessoas, inclusive cantoras como Elis Regina (mãe de uma Maria também).

Vamos à letra?
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho, sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
E, para ouvir, deixo aqui um clipe novo (de 2018) e lindíssimo. A música foi regravada por Milton Nascimento no cd A festa, e, por isso, ganhou esse clipe incrível e emocionante:

Super-homem (a canção) – Gilberto Gil

Super homem

Você conhece a música Super Homem (a canção)? Trata-se de uma música lançada por Gilberto Gil, em 1979, no álbum Realce. Essa é uma daquelas músicas que eu escuto e deixo a letra ficar ecoando em minha cabeça, mas só agora resolvi realmente tentar entendê-la. E, ao fazer isso, descobri uma história interessante, contada pelo próprio Gilberto Gil!

O cantor estava de passagem pelo Rio de Janeiro, hospedado na casa de Caetano Veloso, quando este chega todo animado do cinema, contando sobre sobre o filme do Super Homem que acabara de assistir. Segundo Gilberto Gil, as descrições de Caetano eram tão boas que, quando foi se deitar, ele não conseguia deixar de visualizar mentalmente tudo o que ouvira, principalmente a cena em que o Super Homem volta o movimento de rotação da Terra para salvar sua namorada de um acidente de trem. E foi assim que nasceu Super Homem (a canção).

O ritmo da música contribuiu para que ela fique em nossa cabeça, mas não vou negar que gosto muito da letra, porque ela valoriza o feminino que há em todo ser humano, valoriza a sensibilidade e, ao mesmo tempo, a força. E claro que, conhecendo a história do Super Homem (o filme), principalmente a cena que serviu de inspiração para Gilberto Gil, fica ainda mais fácil compreender os versos finais da canção.

Um dia, vivi a ilusão
De que ser homem bastaria
Que o mundo masculino
Tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada
Minha porção mulher
Que até então se resguardara
É a porção melhor
Que trago em mim agora
É que me faz viver
Quem dera
Pudesse todo homem compreender
Oh Mãe, quem dera
Ser no verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe
O Super Homem
Venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus
O curso da história
Por causa da mulher

Ouvindo essa música eu sempre penso muito na figura materna, então fica aqui minha homenagem (um pouco atrasada) a todas as mães!

Sorri – João de Barro

Sorri

Sorri é uma linda canção que ficou conhecida na voz de Djavan, mas cuja versão brasileira foi apresentada por João de Barro (Braguinha) em 1955. Digo “versão brasileira”, pois Sorri vem da melodia Smile, composta por Charlie Chaplin em 1936, para o filme “Tempos modernos”. A letra de Smile, no entanto, foi composta somente em 1954, por John Turner e Geoffrey Parsons. A gravação de Djavan é de 1996 e faz parte do álbum Malásia, décimo segundo álbum do cantor.

Trata-se de uma música linda, com uma letra inspiradora e uma melodia leve e doce. Já cheguei a me emocionar inúmeras vezes com essa canção!

Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Smile

Trata-se de uma letra que instiga o ouvinte a sorrir, apesar de tudo. A tentar levar uma vida feliz, mesmo ante as adversidades. E, apesar disso, é uma música triste, principalmente se destacarmos os versos finais da canção.

A música em inglês é um pouco diferente, o que é de se esperar se considerarmos que Sorri é uma versão em português e não uma tradução (uma versão permite que exista um toque de quem a cria, enquanto a tradução tem de ser mais fiel ao original).

Smile, though your heart is aching
Smile, even though it’s breaking
When
there are clouds in the sky
you’ll get by
If you smile through your fear
and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll see the sun come shining
through
for you

Light up your face with gladness
Hide every
trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you
must keep on trying
Smile what’s the use of crying
You’ll find that life
is still worthwhile
If you’ll just
Smile

Em Smile, também há uma ideia de se esconder a tristeza, mas pelo fato dela não nos levar a nada, pelo fato de que, às vezes, precisamos nos lembrar e enxergar que a vida ainda vale a pena e que devemos continuar lutando.

Para encerrar, uma curiosidade: quando escrevi o post sobre O bêbado e o equilibristaque dentre outras coisas homenageia Charles Chaplin — descobri que não são apenas as menções diretas ao ator que aparecem na música, mas que a própria linha melódica dela é muito parecida com a de Smile.

Era um garoto que como eu – Engenheiros do Hawaii

Era um garoto que como eu

Bem conhecida no Brasil pela banda Engenheiros do Hawaii, Era um garoto que como eu foi lançada, originalmente, em italiano — C’era un ragazzo che come me — por Gianni Morandi e Franco Migliacci, em 1966. A primeira versão brasileira é de Brancato Jr. e foi gravada em 1967 pela banda Os Incríveis. Somente em 1990 surgiu a versão do Engenheiros do Hawaii.

Era um garoto que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Girava o mundo sempre a cantar
As coisas lindas da América

A música, como quem conta uma história, começa falando de um jovem americano que rodava o mundo vivendo de música. Na época, as bandas Beatles e Rolling Stones estavam no auge do sucesso (sendo até hoje muito conhecidas) e eles eram admirados por milhares de jovens. Na versão italiana da música fala-se explicitamente que o jovem vinha dos Estados Unidos (veniva dagli Stati Uniti d’America).

Não era belo, mas mesmo assim
Havia mil garotas a fim
Cantava help and ticket to ride
Oh! Lady Jane e yesterday

O rapaz retratado na música podia não ser bonito, mas cantando fazia muito sucesso entre as garotas (e provavelmente aproveitava muito desse sucesso). As músicas que ele tocava eram músicas das bandas mencionadas acima, que estavam no topo das paradas de sucesso.

Cantava viva a liberdade
Mas uma carta sem esperar
Da sua guitarra, o separou
Fora chamado na América

Todo o sonho e a liberdade de rodar o mundo tocando suas músicas, no entanto, foram logo interrompidos por uma carta que o convocava de volta ao seu país — Estados Unidos — e a partir daí o jovem teve de se separar de sua guitarra, de sua juventude, de seu sucesso. Na música italiana, o tal jovem americano presenteia quem canta Era um garoto que como eu com sua guitarra (La sua chitarra mi regalò), o que”justificaria” o fato de existir uma música em sua homenagem.

Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
Mandado foi ao Vietnã
Lutar com vietcongs

Muitos jovens norte americanos foram convocados — por meio de cartas como a recebida por nosso jovem músico — a lutar no Vietnã, suprindo as baixas sofridas pelo exército na Guerra do Vietnã, que durou de 1955 a 1975. Eles lutavam contra os Vietcongs, nome dado aos combatentes da Frente Nacional para a Libertação Vietname, que lutava ao lado do exército do Vietnã do Norte. Em português, o uso de “com” em “lutar com vietcongs” torna o verso ambíguo, pois poderia significar que era para o jovem lutar ao lado deles e não contra eles. Em italiano, porém, a música é bem clara: vá ao Vietnã e atire nos Vietcongs (M’han detto “va nel Viet-nam/ E spara ai Viet-cong”).

Era um garoto que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Girava o mundo, mas acabou
Fazendo a guerra no Vietnã

Já deu para perceber que esta é uma letra bem triste e que não podemos esperar boas coisas do final dela… Os jovens iam para a Guerra sem experiência alguma e tinham repulsão a isso. Eles  só queriam paz, queriam continuar suas vidas.

Cabelos longos não usa mais
Não toca a sua guitarra e sim
Um instrumento que sempre dá
A mesma nota, ra-tá-tá-tá

Ao serem convocados para a Guerra, os jovens tinham de raspar seus cabelos e, sem dúvidas, nosso jovem teve de substituir sua querida guitarra por uma arma, cujo som era monótono e repetido pelas armas de todos os outros combatentes.

Não tem amigos, não vê garotas
Só gente morta caindo ao chão
Ao seu país não voltará
Pois está morto no Vietnã

Sozinho na Guerra, sem amigos, sem mulheres, vendo as pessoas morrendo: era essa a realidade dos jovens que iam para a Guerra do Vietnã. Muitos morreram lá e os que retornaram estavam extremamente abalados fisicamente e emocionalmente. Nosso jovem músico teve o destino de muitos: morreu no Vietnã.

Stop! Com Rolling Stones
Stop! Com Beatles songs
No peito, um coração não há
Mas duas medalhas sim

Aos que lutavam na Guerra restava apenas uma coisa: as medalhas de condecoração pelos serviços prestados. Nosso jovem já não tinha mais um coração batendo em seu peito, mas tinha suas medalhas (na música italiana fala-se em duas ou três medalhas: Nel petto un cuore più non ha / ma due medaglie o tre). A música, portanto, termina com uma bela crítica à Guerra e a todo esse infeliz episódio da História.

Uma curiosidade: existe um livro brasileiro chamado Era um garoto, que conta a história de um brasileiro, filho de alemães, que retornou com a família para Berlim durante a adolescência e que foi forçado a integrar o exército de Hitler no final da Segunda Guerra Mundial. O título do livro, apesar de nos remeter à música, não fala sobre a Guerra do Vietnã, mas trata de uma situação semelhante, que tirou a vida de outros milhares de jovens inexperientes (ainda que isso não tenha ocorrido com o protagonista do livro). Se interessou pela obra?Você pode comprar por R$23,30

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