A jornada — Davi Busquet

Título: A jornada
Autor: Davi Busquet
Editora: Publicação independente
Páginas: 11 
Ano: 2020

Em uma história rápida — o conto pode ser lido em questão de minutos — e certeira, Davi Busquet nos faz refletir sobre a vida (e a morte) e sobre as pessoas que nos cercam.

Com personagens sem nome — chamados apenas de o Velho, o Garoto e a Esposa do Velho — a história torna-se ainda mais universal. Uma narrativa cujo título já explica muito e, ao mesmo tempo, não tem como explicar nada.

No conto, somos jogados em um úmido fim de tarde, chegando com o Velho a um lugar que não sabemos qual… Ou que apenas não queremos saber qual é. Ali, diante de um muro, muitas lembranças se passam em sua mente, mesmo que sejam muito poucas perto da vida que ele provavelmente viveu.

“Assim se defendia a mente de um velho”

Também vamos acompanhando algumas reflexões desse tal Velho, enquanto os demais personagens estão ali para compor a sua história.

Com uma linguagem metafórica, o conto exige uma leitura atenta, para que sejamos realmente transportados nessa viagem existencial.

Para ler o conto, clique aqui. Além disso, o autor está lançando um novo livro pela Editora Lettre. Trata-se da obra No coração de um assassino que, de maneira diferente da apresentada neste conto, também nos faz refletir sobre nossa existência e o que fazemos com o nosso lugar no mundo.

Raimundo — Lucas Oller

Título: Raimundo
Autor: Lucas Oller
Editora: Chiado Books
Páginas: 109
Ano: 2021

Sei que ainda estamos em abril (quase maio), mas posso dizer que 2021 tem sido um ano de aventuras no universo literário. Depois de Desesterro, chegou a vez de comentar sobre Raiumundo, um poema épico moderno. Você já leu algo assim?

Ao segurarmos o livro em mãos, ele pode parecer pequeno, fino. Mas desde a capa podemos ver todo um trabalho feito sobre ele. Também há ilustrações ao longo da obra, além de um prefácio muito bem escrito e que pode te ajudar a mergulhar de cabeça (e com fôlego) no principal: a poesia. Ao final, Raimundo já não parece mais tão pequeno assim…

“Eu serei tudo, a complexidade inalcançável de ser vivo. Chamo-me Raimundo, e é deste ponto que parto para conquistar o mundo”

Dividido em 3 atos, este livro nos transporta para longe e, ao mesmo tempo, para tão perto: para o nosso lado mais natural e animalesco, primitivo. Com o protagonista, partimos para a conquista do mundo. Mas que mundo?

“Sua sina divina sempre dizia: um dia dará à luz a esse mundo”

Como qualquer herói — e somos todos um pouco heróis — Raimundo passa por percalços em seu caminho e, ao longo destas páginas, nós o acompanhamos, sendo guiados — tanto nós quanto ele mesmo — por um narrador que se faz presente, mas que também joga Raimundo em seu devido lugar.

“— Eu já nasci sem escolhas”

É inevitável pensar, desde o título da obra, mas também em alguns de seus trechos, no Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade. Ambos poéticos, mas muito diferentes entre si. E, ao mesmo tempo, com algo que vai muito além da poesia unindo-os.

“Vai menino, vai ser Deus desse mundo”

Essa porém, não é a única referência que podemos captar ao longo das páginas desta obra, que me parece ser fruto de muito estudo, elaboração e conhecimento.

Raimundo é, muito provavelmente, diferente de qualquer coisa que você poderia imaginar, com passagens muito diretas, mas também com versos e interpretações entremeadas, que devem ser degustadas com calma, mas que podem ser concluídas em uma sentada só, a depender do seu fôlego.

Indico a obra para quem quer fazer um mergulho literário e, mais que isso, um mergulho dentro de si e da natureza, seja ela humana ou não. É possível adquiri-la em diversos sites como Amazon (ebook), Livraria da Travessa ou no site da própria Editora Chiado.

Bela Amizade — Jacqueline Gulmini

Título: Bela Amizade
Autora: Jacqueline Gulmini
Editora: Publicação independente
Páginas: 18
Ano: 2021

Ressurgi das cinzas — depois de pouco mais de uma semana afastada daqui do Blog, uma pausa necessária às vezes, né? — para trazer a resenha de um conto super leve e com uma bela mensagem (já voltei fazendo trocadilhos ruins, perdoe-me). Em poucas páginas, Jacqueline consegue transmitir aos seus leitores muito mais do que o que está escrito ali.

Luna é uma jovem que acabou de conquistar sua independência plena, isto é, saiu da casa dos pais para morar sozinha. Mas imagina dar esse grande passo e… Bum! Uma pandemia para te deixar totalmente isolada. Imagina como dever ter sido para quem tem boas relações familiares, mas decidiu se mudar e foi surpreendido por uma pandemia. Esse isolamento forçado deve ter sido um baque e tanto e esse conto nos faz pensar nisso. Mas não só!

O título do conto, claro, não é à toa e, mesmo em meio ao isolamento, nasce uma bela amizade: Luna, inspirada por outros jovens, coloca-se à disposição para ajudar quem ela puder ajudar e, assim, conhece a Dona Dulce, uma senhora que mora no mesmo prédio que ela e que não pode ficar saindo para ir ao mercado.

Luna, portanto, se compromete a ajudá-la com as compras e, além disso, elas também passam a fazer companhia uma para a outra, através de vídeo chamadas e até de jogos online. E é assim que elas vão tentando driblar a saudade da família e da rotina pré-pandemia.

As duas personagens desta história são bem diferentes entre si, principalmente pela distância entre uma faixa etária e outra. Mas ambas têm algo a ensinar e é muito bonito ver isso, além, claro, da relação que elas vão construindo.

“Ela sempre me dizia que, quando somos jovens, tudo parece ser o fim, sem solução, que não vamos aguentar”

Nós, assim como a própria Luna, passamos a história na expectativa de um encontro presencial entre ambas. Como seria? Qual seria a sensação de conversar cara a cara?

“Ainda que não pudéssemos nos abraçar, eu sabia que um dia teríamos o nosso abraço”

Indico Bela Amizade para quem já não tem esperanças de (ou mesmo que já não consegue) ver coisas boas no meio dessa pandemia. Às vezes, algo pode acontecer quando menos esperamos e vir de onde menos esperamos. Aliás, de acordo com os acontecimentos deste conto, tanto algo bom quanto algo um pouquinho assustador pode acontecer a qualquer momento… Mas logo tudo (de ruim) passa!

E aí, ficou com vontade de fazer essa leitura rapidinha? Então clica aqui.

Desesterro — Sheyla Smanioto

Título: Desesterro
Autora: Sheyla Smanioto
Editora: Record
Páginas: 303
Ano: 2018 (3º edição)

Ler Desesterro é, sem dúvidas, uma experiência literária. Acho que o próprio título já nos mostra que algo diferente está por vir e a capa ajuda a dar um toque final à complexidade da obra. Não à toa, a obra foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, na categoria romance — ainda que sua linguagem seja muito mais poética que prosaica —, do Prêmio Machado de Assis (da Biblioteca Nacional), além de ter sido premiado no Jabuti e finalista do Prêmio São Paulo.

“Ler é: devorar a fome dos outros”

Logo na primeira página, não pude deixar de pensar em Vidas Secas (Graciliano Ramos), porque a autora começa a obra com a descrição de uma cidade pequena — Vilaboinha —, humilde e seca. Mas, ainda que ao longo da leitura essa semelhança ainda ecoasse em mim, também há muita coisa única neste livro.

“Até a fome da gente a terra devora, mas a terra não guarda tudo, não senhora”

O livro é dividido em partes, mas que se misturam, assim como as muitas vozes que compõem a narrativa, mas que, por vezes, parecem uma só. Nem tudo tem nome, nem mesmo os sentimentos.

“Desesterro: a única palavra que Scarlett conhecia”

Desesterro é um livro que diz e não diz. Se em alguns trechos eu pensava “será que a autora está falando disso?”, em outros, eu tinha certeza. E por disso entende-se muita coisa: miséria, violência, estupro, abandono paternal.

“Tonho tantas vezes batendo em Fátima ela nem se importa, mulher nenhuma morreu de apanhar de marido, exceto as que estão mortas”

Ainda que sejam temáticas sérias e pesadas, a leitura flui, porque as palavras escorrem em seu tom poético. E o “disse não disse” também nos ajuda a engolir duras verdades.

“Nasceu da morte dela, vê se isso é coisa de gente”

Mas há também outras temáticas na obra, como o passado que nos assombra e o ato de migrar (interna ou externamente).

“Transformação é: migração de dentro.

Sem uma linha temporal clara e com construções gramaticais bem diferentes do comum, Deseterro pode assustar alguns leitores. Mas é uma leitura que merece um esforço, talvez uma leitura em voz alta de alguns trechos (inclusive, se vocês procurarem por esse título no Google, encontrarão diversos vídeos da autora declamando alguns trechos).

“Mas filha é assim mesmo, a Fátima sabe, meu Deus, a Fátima não sabe a Fátima só imagina como é ser mãe. Mas, diacho, quem é que sabe?”

Desesterro é uma leitura para quem quer fugir do óbvio, mas também para quem consegue levar alguns socos no estômago ao virar das páginas. Por fim, uma leitura que irá surpreender a quem decidir realizá-la.

“Ele foi embora com o sol, assustado com a descoberta imprevista”

Se você se interessou, não deixe de clicar aqui (livro físico) ou aqui (ebook).

A sandália virada — H. L. Amaral

Título: A sandália virada
Autor: H. L. Amaral
Editora: Publicação independente
Páginas: 180
Ano: 2021

Eu era bem pequena quando outra criança, tão pequena quanto eu, ensinou-me que não se pode deixar as sandálias viradas para baixo, porque isso causa a morte da mãe. Assunto macabro para crianças, né? Mas bem, são as crendices populares que permeiam o nosso imaginário cultural.

E neste livro, H. L. Amaral trabalha justamente com essa ideia, criando uma narrativa muito instigante, daquelas que não queremos largar, porque cada capítulo nos faz querer ler “só mais um…”.

Lara, a protagonista desta história, tem apenas 12 anos e a vida de ponta cabeça. Bom, na verdade eu talvez esteja sendo tão dramática quanto ela, mas ao longo da leitura vamos entendendo como ela tem seus motivos e, em momento algum, ela é uma protagonista insuportável, ainda que seja um pouco mimada.

“Não importa o quanto ela quisesse, era como tentar abrir uma porta com a chave errada”

O que acontece é que Lara perdeu sua mãe aos oito anos de idade e não consegue aceitar sua madrasta. Para piorar tudo, é por conta dessa madrasta que ela e seu pai precisam mudar de cidade, o que só aumenta a raiva da jovem.

“O nome ‘Cidade Nova’ era bem literal para mim”

Um dia — ou, sendo mais específica, uma noite — Lara, irritada com sua madrasta, decide testar a famosa crendice popular da sandália virada. Mas ela não esperava que o efeito pudesse ser tão potente e real! No dia seguinte, Lara e Heloísa — sua madrasta — sofrem um acidente de carro, do qual Lara sai praticamente ilesa, enquanto Heloísa fica entre a vida e a morte.

“Eu era a rainha dos planos idiotas, acho que isso já ficou claro”

Claro que, neste dia, o pai de Lara viajara a trabalho e teve de voltar às pressas para Cidade Nova. Mas Lara, acreditando que tudo aquilo era culpa da sandália virada, decide fugir do hospital e voltar o quanto antes para casa, para tentar reverter o estrago.

“De onde estava, pude ver que era um sinal de noventa segundos de espera. Esses intervalos parecem durar uma eternidade quando tudo que você quer é chegar em casa”

A maior parte do livro se passa nesse momento, isto é, no caminho de Lara até a sua casa. Um caminho, porém, recheado de obstáculos, não apenas pelo fato dela não conhecer a cidade, mas por ser carnaval e por Cidade Nova, de acordo com as descrições da história, não ser muito segura, principalmente a noite.

“Agora, perdida no meio da noite, vejo que aquilo foi um erro. Eu não devia brincar com o que eu não entendia por completo”

Por “sorte”, no início desse percurso, Lara encontra Elmo, seu único amigo naquela cidade (e que, até então, ela sequer sabia se poderia realmente chamar de amigo).

“Amigos precisam ser transparentes feito amebas”

E é assim que por páginas e páginas acompanhamos as aventuras e desventuras desses dois jovens e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo um pouco mais cada um e de seus respectivos passados e presentes.

“Quando me dei conta, já estávamos rindo pela noite de Cidade Nova, rindo como as crianças que éramos”

É impressionante como, se pararmos para analisar, Sandália Virada se passa basicamente (mas não totalmente) em uma única noite. Melhor ainda, em algumas poucas horas. E, ainda assim, há muito conteúdo entremeado ali. Sem contar o fato de que o autor consegue, em meio a tanta ação, abordar alguns assuntos como nuances das mais diversas relações familiares, a verdadeira amizade, confiança, bullying e superação.

“Tem gente que tem o sorriso torto. Tem gente que sequer sorri. Já vi gente legal e gente ruim em ambos os casos”

Sandália virada se passa em uma noite que mais parece uma vida e ainda toca em temas importantes, conseguindo ser leve e emocionante, fluída e prazerosa de ler. Uma história para todas as idades e que provavelmente vai te surpreender.

“Aquela noite não era sobre o que eu queria ou o que eu precisava. Nunca foi”

Esse livro caiu do céu em meio às minhas leituras, sendo aquela fuga necessária em meio a tanto caos, ainda que o universo de Lara seja bem caótico também.

“Eu podia ser uma maluca que acreditava em pragas da época da minha bisavó, mas ele ainda segurava minha mão”

Se você se interessou por essa história, clique aqui para conhecer Lara, Elmo e toda a confusão que uma simples sandália virada pode causar!

Eu matei minha mãe — Brias Ribeiro

Título: Eu matei minha mãe
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 22
Ano: 2021

Se o título desse lançamento da autora Brias Ribeiro parece pesado, logo compreende-se que muito mais pesada é a narrativa. Aliás, para ser mais justa, a narrativa é até leve, mas aborda uma questão muito importante.

Neste conto conhecemos Diego, um rapaz cuja infância e pré-adolescência foram relativamente boas no aspecto familiar, mas um pouco complicadas na escola, onde sofria bullying, sendo chamado de “viadinho” e “afeminado”, coisa que os pais diziam ser impossível.

Como esses pais sempre faziam tudo por Diego, aos 12 anos ele conseguiu convencê-los que era hora de trocar de colégio. Aos 14 anos, porém, tudo mudou: Diego foi pego atrás da escola, com outro garoto. Aquele foi o fim da relação familiar aparentemente tranquila e equilibrada que existia até ali.

Os pais de Diego, que até então o “amavam”, passaram a odiá-lo e desprezá-lo. Também passaram a brigar constantemente, o que levou à separação deles. Diego continuou morando com a mãe até quando foi possível, mas a situação tornou-se insustentável cedo demais.

“Sentia uma vontade imensa de chorar, mas não conseguia mais”

Logo no início da faculdade — Diego optou por cursar artes cênicas — ele foi definitivamente expulso de casa e teve de se virar. Por sorte, tudo o que lhe faltava de amor familiar, transbordava de amor em suas poucas amizades, que prontamente o acolheram.

“Foram 6 anos de invencibilidade. 6 anos sem chorar que finalmente chegaram ao fim. Era difícil chorar, difícil estar chorando”

Apesar de ter sido totalmente rejeitado por seus pais apenas pela sua sexualidade, Diego sempre tentou conversar, tentou se reaproximar deles, mas todas as suas tentativas foram em vão.

O final do conto é um pouco ambíguo — propositalmente — e, ao mesmo tempo, catártico, ao menos para Diego. Um desfecho que, ao mesmo tempo que surpreende, nos deixa com aquela sensação de “como assim essa história vai acabar aqui?”.

Eu matei minha mãe, portanto, é um conto que fala sobre relações familiares, autoconhecimento, homofobia, amizade, bullying… Caramba, são muitos temas importantes em poucos páginas, mas sem ficar atropelado ou forçado!

E se você quer conferir essa história, clique aqui.

Mãe, me ensina a conversar — Dalva Tabachi

Título: Mãe, me ensina a conversar: vencendo o autismo com amor
Autora: Dalva Tabachi
Editora: Rocco
Páginas: 96
Ano: 2006

Sabe aquela velha história de que um livro leva a outro? Foi assim que coloquei Mãe, me ensina a conversar no meu horizonte de livros que eu gostaria de ter e ler. Felizmente, no final do ano passado, finalmente ganhei um exemplar deste livro!

Mas eu talvez tenha sido um pouco ingênua ou precipitada, apegando-me demais ao título e ignorando o subtítulo: vencendo o autismo com amor. O que exatamente significaria esse “vencendo”?

“Para lidar com o autismo, há necessidade de amor e paciência”

Infelizmente, esse foi um ponto que pesou bastante ao longo da leitura. O livro foi escrito pela mãe de Ricardo, um rapaz autista. Ela fala da experiência dela ao descobrir que o filho é autista e tudo o que veio depois disso. Mas, por diversas vezes, ela aborda isso falando sobre encontrar uma “cura” para o autismo.

“Fiz tudo para Ricardo ficar bom. É triste ver pais que não acreditam na cura de um filho, pais que podem pagar bons profissionais e não o fazem”

Ok, é importante ressaltar algumas questões aqui. Primeiro: o livro foi publicado em 2006. Ainda que fosse uma época já com mais informação circulando, ainda não era como hoje, em que temos quase tudo na palma da mão e, mais que isso, uma época na qual debatemos sobre tudo e temos a possibilidade de, a cada dia, conhecer a enormidade do mundo.

“Assim como sei que Ricardo é outro, acho que eu mesma sou atualmente um ser humano mais evoluído e compreensivo com as diferenças”

Além disso, como eu mencionei acima, trata-se do relato de uma mãe, o relato de uma experiência, e cada um de nós enfrenta as coisas de uma forma. Para essa mãe, o início foi um baque e, como ela mesma afirmou no trecho que destaquei acima, foi algo que a fez evoluir e aprender muito.

“É importante entender os temores, conviver com eles, para conseguir talvez superá-los algum dia”

Mesmo assim, falar em termos de “superação” e, pior ainda, de “cura” do autismo foi algo que me deixou um pouco com o pé atrás.

Claro que, em muitos casos de autismo, é importante que seja feito um longo trabalho para facilitar a vida do autista em uma sociedade que, infelizmente, ainda não sabe lidar com o que foge da nossa “normalidade”. Mas isso não significa que vamos “curar” a pessoa, apenas tentar fazer com que ela possa se integrar a esse mundo que é, tantas vezes, muito cruel.

“Nem todos compreendem que cada atitude dele, cada comunicação, é um esforço”

Ricardo nasceu em uma família que tinha condições de propiciar ao rapaz tratamentos dos mais diversos, como acompanhamento fonoaudiológico, terapia, esporte, aulas particulares. E, o longo deste livro há, inclusive, alguns trechos com depoimentos desses profissionais.

“Os palpites também vinham sem que pedíssemos, nos deixando confusos e inseguros”

Mesmo não sendo totalmente escrito pela mãe de Ricardo, achei a narrativa do livro um pouco arrastada e, em alguns trechos, até um pouco repetitiva (e olha que o livro é curto!). Ou seja, de todos os livros que já li sobre o assunto, esse foi o que menos gostei.

Porém, isso não significa que eu não tenha aprendido com ele. Refleti bastante ao longo da leitura — pensando nas coisas que trouxe aqui — e, claro, há sempre alguma informação nova sobre esse universo que não nos passa desapercebida nesse tipo de livro.

Gostaria de te ouvir: você já leu esse livro? O que achou? Será que estou sendo muito chata com minhas reflexões? Porque sim, isso pode ter acontecido também! E se você não leu, mas acha que pode ser uma leitura interessante, clica aqui e depois me conta o que achou!

Lost in Translation — Ella Frances Sanders

Título: Lost in translation: um compêndio ilustrado de palavras intraduzíveis de todas as partes do mundo
Original: Lost in translation: an illustrated compendium of untranslatable words from around the world
Autora: Ella Frances Sanders
Editora: Livros da Raposa Vermelha
Páginas:  110
Ano: 2018
Tradutora: Livia Deorsola

Olhando muito rapidamente para a capa (e para o formato) deste livro, pode parecer que se trata de uma obra infantil. Mas basta vislumbrar o título e já ficamos em dúvida. Com o subtítulo, então, tudo fica ainda mais claro: não, Lost in Translation não é um livro infantil e sim “um compêndio ilustrado de palavras intraduzíveis de todas as partes do mundo”!

Mesmo folheando esta obra, porém, ainda poderia restar a impressão de ser um livro infantil, devido às páginas coloridas e ilustradas. Ouso dizer até que a simplicidade e a forma poética dos textos contribua para transmitir muito da pureza infantil, afirmação que faço como um elogio à obra.

“As palavras deste livro podem ser respostas a perguntas que você jamais imaginou fazer, ou quem sabe a outras que alguma vez já tenha feito. Elas podem concretizar emoções e experiências que pareciam imprecisas ou indescritíveis, e até mesmo fazer você se lembrar de alguém que esqueceu há muito tempo”

Como alguém que trabalha (também) com tradução, não pude deixar de imaginar como foi a experiência de traduzir este livro. Isso porque ele nos traz inúmeras palavras, de línguas diversas, e que não têm uma tradução exata em outros idiomas. Quer um exemplo? A palavra “kabelsalat”, do alemão, que significa algo tipo “salada de cabos”, ou seja, aquele emaranhado de fios que a gente nunca consegue resolver.

Já dá para imaginar, portanto, como esse livro é um prato cheio para quem, assim como eu, tem paixão por línguas diversas. Mas tenho certeza que a forma como ele foi pensado consegue encantar mesmo quem não tem tanto interesse assim por outros idiomas, mas que gosta de aprender sobre o mundo.

“Embora às vezes mostrem um falso aspecto de permanência, os idiomas não são imutáveis” 

Uma coisa que achei curiosa é que este livro realmente traz palavras de diversos idiomas — muitos, aliás, eu sequer conhecia e são falados por um grupo realmente pequeno de pessoas — mas não traz nenhumazinha de italiano ou de português!

Jayus: uma piada tão ruim que não resta nada a fazer a não ser rir” (Indonésio)

Lost in translation vai seguindo um único formato em toda a sua extensão: a palavra em sua língua original e seu significado, além de um pequeno (pequeno mesmo!) texto sobre ela, sobre seu uso ou alguma curiosidade, como acontece, por exemplo, com a palavra holandesa “Struisvogellpolitiek” cujo significado é “literalmente ‘política do avestruz’. Agir como se a coisa não fosse com você… quando você sabe perfeitamente que algo ruim aconteceu” e que vem acompanhada do seguinte texto:

“Esse termo não deixa de ser surpreendente, afinal, os avestruzes mais próximos vivem a milhares de quilômetros da Holanda…”

Claro que o mais interessante desse livro é que a gente descobre diversas palavras que significam algo que sempre quisemos explicar. Vou deixar aqui alguns exemplos que mais chamaram a minha atenção:

Trepverter: A frase ou resposta engenhosa que passa pela nossa cabeça quando já é muito tarde para usá-la. Literamente ‘palavras de escadas’” (Ídiche)

Ah, e claro, antes de continuar, queria ressaltar que é importante tomarmos cuidado com palavras que podem parecer algo (por conta da nossa língua) e que não são, mas também como nem tudo é tão diferente assim!

Karelu: a marca que fica na pele por se usar algo muito apertado” (Tulu — falado numa região do sudeste da Índia)

Szimpatikus: alguém que você acaba de conhecer e que, no entanto, intui que é boa pessoa” (Húngaro)

Vacilar: quando a experiência de viajar é um si mesma mais importante que o destino” (Espanhol)

E aí, ficou com vontade de conhecer mais palavras que você sempre buscou e não sabia? Então clique aqui e divirta-se!

Como não acabar com seu ídolo — Fátima Aparecida Silva

Título: Como não acabar com seu ídolo
Autora: Fátima Aparecida da Silva
Editora: Publicação independente (a versão que eu li)
Páginas: 417
Ano: 2020

Depois de duas resenhas de livros um pouco mais densos, chegou a vez de resenhar este que, apesar de trazer muita coisa real, é bem mais leve. E o mais legal: essa história também se passa em São Paulo. É muito gostoso ler uma história e poder reconhecer os cenários, não?

“Nunca temos o suficiente de São Paulo”

Como não acabar com seu ídolo é uma daquelas histórias feitas para aquecer nossos corações (com muitos “apesares” no meio do caminho) e, mais ainda, para fazer outros escritores sonharem grande.

“É difícil falar de livros com as pessoas que não têm o hábito de ler”

A protagonista desta história é Camille (ou Mille), uma jovem escritora e estudante de Letras que, em meio aos seus diversos projetos e compromissos pessoais, gosta, também, de acompanhar às lives de Celebrity — seu gamer favorito e por quem tem uma enorme queda — na Twitch. Já perceberam como esse livro traz muitos elementos da atualidade, né?

“Aliás, minha vida era um trem fadado ao fracasso, principalmente quando se tratava de sentimentos”

Logo no início do livro nos deparamos, claro, com um acontecimento que pode mudar a vida desses dois personagens em diversos aspectos. Nathanael Dante — o tal Celebrity — decide que está na hora de criar algo. Mais especificamente um curta metragem de suspense. Mas ele não se sente preparado para escrever o roteiro sozinho e começa a buscar escritores em suas redes sociais.

“Deixar uma escritora sem palavras? Essa arte Nathanael domina”

Os leitores de Camille — que conhecem seu trabalho do wattpad —, sabendo da paixão dela por Celebrity, logo começam a marcar a autora na postagem do gamer, fazendo com a vida dos dois finalmente se cruze (finalmente porque Mille o acompanha já há um bom tempo, mas ele não sabia quem ela era na vida real).

“As coisas não são mais reais, sabe? Você enfeita tudo na internet para mostrar uma vida perfeita, mas está morrendo por dentro”

Aqui eu preciso fazer um parênteses: conheci a Fátima e seus obras através do twitter. Bom, “conhecer” talvez seja uma palavra muito forte, não é como se eu soubesse tudo sobre a vida dela ou se eu acompanhasse de perto tudo o que ela faz. Mas com o rápido vislumbre que tive, não consegui deixar de enxergá-la em Camille, o que tornou essa personagem ainda mais real em minha mente.

“Eu sempre me vi encurralada pela maldade dos outros todas as vezes em que era verdadeira, norteada pelos meus sentimentos mais puros”

Mas, voltando à história, graças ao fato dos leitores marcaram incessantemente Camille, Nathanael finalmente a nota e decide chamá-la para uma entrevista. Ao longo do livro vai ficando claro como era impossível ela não ser a escolhida: Camille é uma pessoa extremamente inteligente — ela sabe muita coisa mesmo — e sabe transmitir esse conhecimento e, ao mesmo tempo, é uma pessoa tão normal quanto qualquer outra. Uma pessoa com um coração enorme.

“Você é feliz com a simplicidade”

Como não acabar com seu ídolo, um título propositalmente ambíguo e explicado ao longo da história, é narrado em primeira pessoa, por Camille, mas ela consegue ir nos apresentando muito bem Nathanael, nos mostrando a visão dele sobre a fama e também sobre como as pessoas o veem. E o que torna essas apresentações mais verossímeis é que, geralmente, temos essa visão através dos diálogos, ou seja, de coisas realmente ditas por Nathanael, e não apenas por Mille.

“Porque se você sempre tiver medo de decepcionar as pessoas com a verdade, nunca será 100% autêntico”

E, ao mesmo tempo que esses dois personagens vão se conhecendo, vão se aproximando e vão avançando no roteiro do curta de Nathanael, eles também vão discutindo sobre os mais diversos assuntos e, como não poderia deixar de ser, vão se envolvendo sentimentalmente também. E isso, por vezes, pode nos deixar malucos com essa história!

“Se você ama, deve agarrar isso com todas as suas células, caso contrário, pode nunca mais encontrá-lo de novo”

Como não acabar com seu ídolo é um livro recheado de momentos leves, engraçados, mas também de ensinamentos (nem que seja sobre teoria das cores, sobre a nossa língua, sobre construção de roteiros) e muitos sentimentos! Uma leitura excelente para esquecer um pouco o caos que estamos vivendo.

“Poucas coisas na vida doem mais do que um coração partido”

Ah, e você lembra daquele meu post sobre músicas italianas e suas versões em português? Num dado momento deste livro, Camille começa a mostrar para Nathanael diversas canções brasileiras que são, em verdade, músicas norte-americanas ou que ao menos pegam a mesma melodia.

“Músicas que marcaram a infância são meio que músicas para o resto da vida”

E aí, também ficou com vontade de ler esse livro e conhecer melhor a Camille e o Nathanael? Você pode escolher entre o ebook e o físico dele!