Dolls, da A. S. Victorian,é um livro que carrega muito mais do que pode parecer em um primeiro momento e, por isso, não consegui colocar na resenha tudo o que eu gostaria.
Assim sendo, hoje trago aqui mais alguns trechos deste livro surpreendente. A começar pelo fato de que esta é uma história que trata muito da solidão.
“Por que as pessoas sempre se afastavam dela, mesmo quando ela se empenhava em ser uma boa amiga?”
“Ede se sentia só, tão só que nem ao menos conseguia afastar as dúvidas de sua cabeça”
E que nos mostra como esta solidão gera outros sentimentos tão complicados quanto ela.
“Não sei se escrever irá me fazer ignorar o fato que sou fraca e incapaz de lidar com os meus problemas”
“Pare de guardar o seu sofrimento só para você”
A ansiedade também marca presença ao longo das páginas deste livro.
“A ansiedade fazia questão de lembrá-la que estava sempre ali ao seu lado”
A necessidade de se mostrar forte também aparece em diversas linhas desta narrativa.
“Nunca pensou que um dia não conseguiria mais fingir que estava tudo bem”
Para além disso, Dolls é uma história sobre o poder da amizade.
“Eu não dou presente para as pessoas pedindo algo em troca. Estava muito feliz por poder presenteá-la, na verdade”
“Como ele poderia desistir de ouvi-la e obrigá-la a guardar tudo novamente?”
E do amor, mesmo quando é preciso ir contra tudo e todos.
“Por que tinham que esconder de todo mundo e fingir que nada daquilo existia?”
“— Porque dói gostar de alguém que não sente o mesmo por nós”
“O que ele tem a ver com quem você gosta ou deixa de gostar?”
Uma narrativa que fala sobre a arte e a sua força.
“A arte nos ajuda a quebrar nossas barreiras e mostrar quem somos”
E também sobre tristezas e felicidades geradas pela vida e suas coisas boas e ruins.
“Sentiu o desespero tomá-la, pensou em voltar, mas não iria desistir de sua desistência”
“Eu só não consigo entender por que as pessoas se preocupam tanto com a vida dos outros a ponto de se acharem no direito de decidir ou não o que é felicidade”
Por fim, uma temática de extrema importância na obra são as relações familiares e suas complexidades.
“Existem segredos de família que não falamos para ninguém, e esse é um deles”
Dolls é um livro forte e bonito. Em alguns momentos é preciso estômago para encará-lo, mas a leitura certamente vale a pena.
Leia minha resenha para saber mais e, se te interessar, já garanta o seu exemplar.
Título: As luzes em mim
Autor: Roberto Azevedo
Editora: Rico
Páginas: 206
Ano: 2018
Sinopse
Será o amor capaz de salvar alguém da mais solitária escuridão?
Marcos nunca esquecerá tudo que viveu na cidade onde nascera. Não tem como apagar a morte do pai, o fato de perder a visão e despedir-se de tudo que amava. Entre aquelas ruas viveu o melhor e o pior da sua vida.
Dez anos se passam, quando enfim Marcos retorna a sua cidade de infância, mas assim como ele, tudo mudou. Mas, para a sorte do rapaz, coisas boas também acontecem. Afinal, dizem que o amor é para todos e sempre encontra um jeito de unir as pessoas… Porque com ele seria diferente?
Tudo começa com apenas um nome, que pertence a dois garotos diferentes. Na verdade, completamente opostos. Mas ambos causarão inúmeras confusões na cabeça de Marcos.
A única coisa que o nosso jovem protagonista sabe é que um deles é o cara que ele esperava ansiosamente encontrar, a única lembrança boa do seu passado. Mas qual?!
Através dessa busca, Marcos descobrirá mais sobre si mesmo do que imagina. Mas será que ele está pronto para descobrir em si as luzes do verdadeiro amor? Prepare o coração e venha conferir.
Resenha
As luzes em mim começa com dois garotos brincando e tudo nas palavras iniciais do livro deixa bem claro o quanto eles se dão bem e gostam um do outro.
“Maurício não era apenas um amigo. Era quem sempre salvava o mundo em suas brincadeiras”
Sabemos, contudo, que a vida é uma caixinha de surpresas e logo um acidente muda tudo.
“Porque a vida tem o costume de pregar peças e despedaçar sonhos”
Marcos voltava de mais uma excelente tarde na casa de Maurício, quando o carro de seu pai, o Dr. João, foi atingido por outro veículo e, no acidente, Marcos perde a visão e, pior ainda, o pai.
“Ainda se lembra com tristeza daquele momento, o instante em que perdera a sua visão, e também o seu pai”
Não bastassem essas perdas tão doloridas, sem mais nem menos, a mãe dele resolve ainda, mudar de cidade. Eles praticamente fogem de lá, na verdade.
“Os dois meninos não queriam se separar nunca, mas já sabiam que os adultos e suas manias e problemas sempre os afastaria em algum momento, falando que era preciso”
A narrativa avança e nos deparamos com um Marcos já adolescente, cheio de sentimentos e dúvidas. Dez anos já haviam se passado.
“Sempre que Marcos sente-se ameaçado ou inseguro, torna-se verbalmente agressivo, fala por impulso, sem analisar a quem pode doer”
Ele nunca entendera a mudança que a mãe o forçara a fazer, bem como as diversas outras que se seguiram à primeira, impedindo, além de tudo que o jovem criasse raízes.
“Quando a vida seria maleável com esse garoto, que tantos problemas enfrenta?”
Com o agravante de Marcos ser cego e ter lidar, a cada nova escola, com os comentários maldosos ou com a pena de seus colegas (e ele não sabia o que era pior dentre esses dois comportamentos).
“A diferença incomoda muita gente”
As coisas ficam ainda mais complicadas quando a mãe, após tantos anos, decide voltar para a cidade natal de Marcos.
“Entretanto, como fazer uma nova ferida em alguém que já está machucado, e por sua própria causa?”
Ali, o protagonista espera reencontrar seu amigo de infância e também as respostas que tanto busca.
“Por mais que seja forte, Marcos nem imagina que aquilo preso em seu peito é muito maior do que um jovem normalmente aguenta”
O problema é que, logo de cara, Marcos se depara com dois Maurícios e, sem poder enxergar (e depois de tantos anos), tem de contar com outros meios para descobrir qual deles é o “seu” Maurício. Após dez anos, será que isso é realmente possível?
“Ali eu percebi que não precisava reencontrar ninguém, que poderia viver feliz e criar uma história diferente, só nossa”
Além disso, as respostas que tanto busca são muito mais complexas do que parecem, aumentando ainda mais a confusão do jovem, mas também propiciando a ele novos sentimentos.
“Finalmente sabe de toda a verdade… Mas por um preço que parece alto demais”
É difícil não se envolver nas dúvidas e nas buscas de Marcos, assim como é difícil não se envolver com as temáticas abordadas pelo livro.
“Que merda! Como é difícil ser adolescente”
Para além da adolescência e da cegueira de Marcos, o livro também fala sobre traição (nas suas mais diversas formas) e inúmeros tipos de preconceito.
“Seu coração, assim como ele, é cego… Não julga pela aparência. Somente sente, e isso é o mais importante”
Por meio da escola, o autor também consegue falar sobre bullying.
“Onde houver pessoas grosseiras e julgadoras em relação as diferenças de seus próximos, lá estará o preconceito”
E, sobretudo, esta é uma história sobre o poder do amor. Amor fraternal, amor familiar, amor romântico: seja como for, ele é capaz de nos transformar.
“A conexão que adquiriram causa inveja em todos aqueles que desejam encontrar uma pessoa para partilhar de tais sentimentos”
A cada página, o título escolhido para esta história faz mais sentido e é muito interessante ver como as luzes e as cores são importantes na construção do protagonista.
“O mundo de escuridão a que Marcos pertencia desaparece em uma explosão de cores e sentimentos”
Para além de tudo isso, ainda há espaço, ao longo da narrativa, para aprendermos e refletirmos sobre como é viver após perder a visão. Principalmente para Marcos, que desde pequeno adorava desenhar e pintar.
“Para ser guia de um deficiente visual, o mesmo precisa confiar em você. Tem de haver uma conexão. E isso claramente não existe entre eles”
As luzes em mim foi um livro que me surpreendeu bastante. Gostei de ter conhecido o Marcos, a sua história e de tê-lo acompanhado em suas descobertas (dolorosas ou deliciosas) e conquistas.
“— Meu mundo de escuridão tem ganhado algumas luzes, sabe? E você está se tornando fundamental para isso”
Se você também quiser mergulhar nesta narrativa, basta clicar ali embaixo. E se quiser saber um pouco mais sobre o autor, já segue ele em suas redes sociais (Instagram | Twitter).
Acredito que eu já tenha falado isso por aqui antes: sou fã de Djavan. E é perceptível como, muitas vezes, ele é um compositor incompreendido.
O maior exemplo disto é, provavelmente, a música Açaí, que foi lançada no álbum Luz, em 1982.
Famosa por seu refrão “açaí, guardiã / zum de besouro, um ímã / branca é a tez da manhã”, essa música é uma das responsáveis por colocar Djvan no papel de compositor de músicas nonsense (ou seja, sem sentido).
O próprio cantor, no entanto, já explicou que Açaí só é nonsense para quem não conhece a cultura do norte e do nordeste brasileiro. Alagoano de nascença, ele deve saber do que está falando.
Para compreender melhor tudo isso, porém, vale a pena dar uma olhada em toda a letra da música — que é bem curta —, uma vez que ela traz uma narrativa que aparece desde o seu início.
Na primeira estrofe, o compositor fala sobre a solidão e, para isso, ele traz imagens que nos transmitem esse sentimento, como a “poeira tomando assento” ou seja, baixando no solo, e o “som de assombração” feito pelo vento, aquele barulho meio assustador que se amplifica em lugares ermos e silenciosos e que realmente nos dá a impressão de uma assombração.
Solidão de manhã Poeira tomando assento Rajada de vento, som de assombração Coração sangrando toda palavra sã
Passando para a segunda estrofe, Djavan começa a tratar da paixão.
“Afã” é uma palavra que possui significados diversos, mas podemos entendê-la, nesta música, como uma aflição, uma ansiedade, coisa que ganha ainda mais força com as imagens que a seguem e que representam algo instável, passageiro e ilusório, como vemos em “castelo de areia” e na “ilusão” da “ira de tubarão”.
A paixão, puro afã
Místico clã de sereia, castelo de areia
Ira de tubarão, ilusão
O Sol brilha por si
Provavelmente o cantor está querendo nos contar de um amor que passou e que o deixou à deriva, teoria que consegue dar um sentido à união da primeira estrofe (solidão) com a segunda (paixão).
Por fim, chegamos à última estrofe, tão discutida desde o seu lançamento. Após a solidão e a paixão que acabou, aqui temos versos que trazem certa paz e quase nos dão a sensação de que tudo pode ficar bem.
Isso porque “açaí, guardiã” faz referência ao pé de açaí, tão importante na cultura nortista e nordestina. Realmente um guardião da vida, gerador de riquezas locais.
O “zum de besouro”, ao contrário do “som de assombração” é aquele barulho que, mesmo incômodo, nos atrai e hipnotiza (como uma imã).
E, para concluir, a brancura de uma manhã que se inicia com aquela neblina que precede um lindo dia de sol.
Açaí, guardiã Zum de besouro, um ímã Branca é a tez da manhã
Nos poucos versos que compõem esta canção, fica evidente a presença da natureza, quase sempre em seu sentido literal, ainda que, por vezes, a inversão no uso de alguns termos torne a frase um pouco mais difícil de compreender (principalmente na última estrofe).
É justamente a natureza, aliás, como fica evidente na última estrofe, que ajuda o eu lírico a se distrair e esquecer um pouco da solidão deixada pela tal paixão acabada.
Para coroar toda a letra da música, temos que levar em conta, ainda, o ritmo da música e a forma como ela é cantada pelo próprio compositor. Palavras faladas aos poucos, num crescendo que acompanha o ritmo.
Agora me conte: você ainda acha essa canção tão estranha assim?
Para fechar com chave de ouro e, como de costume, te deixo com a música em questão, para que você possa ouvir e curtir.
Título: O caminho que me leva até você.
Autora: Tayana Alvez
Editora: publicação independente
Páginas: 417
Ano: 2023
Sinopse
Caroline estava certa de que tinha superado o ex — até ter que entrevistá-lo e lidar outra vez com seus flertes descarados.
Grumpy/Sunshine, amor do passado, friends to strangers to lovers e só tem uma cama!
Obcecada por Fórmula 1 e por trabalho, ser promovida à repórter de campo foi um marco na vida de Caroline Pimenta. Acompanhar a carreira dos principais pilotos deveria ser uma tarefa fácil, se não fosse por Daniel Harris e todas as memórias que compartilhavam.
Muitos anos atrás, Daniel prometeu à Caroline que estariam juntos quando ele ganhasse o seu primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1. O destino parece disposto a cumprir sua promessa e juntá-los outra vez, e Daniel vê as coincidências como uma segunda chance para reconquistar a ex-namorada, ainda que ela esteja envolvida com um babaca manipulador e nem um pouco disposta a reviver aquele amor adolescente.
Quando os sentimentos mal resolvidos entram na pista, Caroline tenta focar no trabalho e deixar o passado para trás, mas o destino sempre encontra um caminho — e todas as suas rotas de fuga parecem lhe levar até Daniel Harris; o novato que ela jurou nunca mais amar.
Alerta de conteúdo: Racismo e gaslighting.
Resenha
Livros me encantam por sua capacidade de me apresentar universos com os quais não tenho muita intimidade, ampliando meus horizontes.
Vale ressaltar que a autora acompanha o esporte, então a construção do cenário e o desenvolvimento dos personagens neste âmbito ficou excelente.
“No fim do dia, Fórmula 1 é ritmo”
O caminho que me leva até você nos conta a história de Daniel Harris — o Novato — e Caroline Pimenta — a Pimentinha. Ele é piloto de Fórmula 1, ela é jornalista e sonha em poder acompanhar as corridas de pertinho.
“No fundo, eu sempre soube que encontraria um caminho que me levaria até ela”
A história deles, porém, se cruza muito antes da vida adulta: Daniel e Carol se conheceram na escola e da implicância entre um e outro surgiu uma linda amizade, que virou um delicioso romance até que tudo acabou.
“Na primeira vez que falei com Carol Pimenta, eu tinha treze anos”
Quando esta narrativa começa, acompanhamos o reencontro dos protagonistas: Carol, como repórter, tem de entrevistar Daniel após sua primeira vitória na Fórmula 1. Um reencontro depois de cinco anos de uma história mal terminada.
“O tempo passa, mas ele não cura merda nenhuma. Algumas cicatrizes, por mais antigas que sejam, sempre vão doer quando pressionadas”
Este momento, claro, traz à tona muitas histórias e sentimentos que pareciam esquecidos ou superados.
“A pior parte de estar trabalhando nessas ocasiões é: estar trabalhando e precisar terminar seu expediente como se aquilo não tivesse abalado até seus ossos”
Com uma narrativa em primeira pessoa, alternada entre Carol e Daniel, página a página vamos entendendo o presente e o passado deles, enxergando o quanto a história de cada um ainda os afeta mesmo depois de cinco anos do término e desde muito antes, para ser mais exata.
“Deixo mais algumas lágrimas rolarem esperando que em algum momento o amor pare de brigar comigo e eu consiga ter uma relação que dure”
A história se desenrola em alguns meses — fazendo alguns necessários flashbacks — e se passa entre a Europa e o Brasil. Por meio das corridas, conhecemos não apenas alguns dos principais circuitos, mas também algumas belas cidades.
“Finalmente me sinto num lugar ‘diferente’, a Europa é incrível. Tecnologia de ponta em cenários que beiram o medieval, muitos castelos, ruínas, morros, parques… Apesar do clima frio, é possível lidar com a maioria dos lugares por causa do aquecedor e das três camadas de roupas que usamos”
E se só o fato de colocar protagonistas apaixonados por Fórmula 1 já não fosse o suficiente para deixar está história incrível, Tayana Alvez, como sempre, vai muito além.
“Parabéns por achar que um esporte que depende de uma equipe de 800 pessoas é um esporte individual”
A começar pelo fato de que os protagonistas são negros e, desfazendo qualquer estereótipo, provém de famílias ricas, capazes de fornecer total apoio (financeiro e material) às suas carreiras, mesmo sendo contra elas.
“Ser a decepção do papai vem com um peso, e não é todo dia que é fácil carregar”
O caminho que me leva até você também fala sobre solidão, mas não apenas a solidão da mulher negra — tema já muito bem abordado por Tayana em outras obras —, apesar dela também estar marcada ali, bem como o racismo, que a autora sempre faz questão de nos lembrar que existe e como existe.
“Eu tinha 6 anos quando percebi que estava sozinha no mundo, ter pessoas ou não ter pessoas é sempre uma questão de tempo e espaço, e agora, o Gabriel, que esteve ao meu lado no pior momento da minha vida e segurou minha mão por todos os outros, foi só mais uma pessoa que não ficou”
A solidão aqui é daquelas que talvez muitos de nós já sentimos, no passado e até no presente: a solidão de perceber que ninguém permanece, por mais que já tenha estado conosco em momentos difíceis.
“Era como se eu tivesse ficado oficialmente sozinha num mundo com sete bilhões de pessoas”
A narrativa também nos mostra que sonhos não se realizam da noite para o dia, mas que são fruto de abdicações e pequenas conquistas.
“— Às vezes, a gente precisa fazer pequenos esforços, porque as pessoas valem a pena”
Outro tema que se faz muito presente nesta obra são as relações familiares: tanto Carol quanto Daniel têm seus problemas com os pais, ainda que sintam um enorme carinho por seus progenitores.
“Sofia e Carlos só nunca souberam ser pais. Algumas pessoas simplesmente não nascem para isso”
É tocante, ainda, a forma como a autora trata a força, as dores e os sentimentos de Carol. Um livro que nos mostra que somos construídos de altos, baixose imperfeições e que nem por isso somos menos dignos de amor e respeito.
“Carol quer chorar. Ela quer muito chorar. Mas não vai. Porque a Carol não é assim e isso também dói, esse jeito supermulher dela de ser”
O caminho que me leva até você é, portanto, uma história escrita para nos apaixonar, revoltar e, claro, chorar algumas boas lágrimas, sem querer que ela acabe!
“Como é possível amar tanto uma pessoa e preferir não estar perto dela?”
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Para ficar por dentro das novidades e, claro, saber mais sobre o trabalho da Tayana, já segue a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter).
Uma personagem que adorei ter conhecido este ano foi a Mitali, de De repente esclerosei, da Marina Mafra. Acompanhar o seu coração sendo derretido por Dimitri e ver todas as mudanças que o seu diagnóstico trazem para sua vida tornam a narrativa muito especial.
“Sentia como se o tivesse a vida inteira e não fazia ideia de como havia sobrevivido sem ele até aqui”
Na resenha, acabei deixando, como sempre, alguns trechos bem interessantes de fora, então chegou o momento de compartilhá-los por aqui.
Mitali é uma personagem que, num primeiro momento, parece estabanada.
“O quanto de vergonha alguém pode passar e ainda continuar vivendo?”
Mas suas trapalhadas logo ganham um novo sentido: seu diagnóstico de esclerose múltipla.
“Mas o que me consumia ainda mais era como eu iria conviver comigo de agora em diante?”
Descoberta essa que vem precedida de um belo susto, ainda que, na verdade, o problema também tenha sido a aversão da protagonista a médicos..
“Eu sentia como se tivesse nascido de novo e queria aproveitar tudo”
“Caminhar ganhou um novo significado, era como viver um milagre”
Mas o livro não fala somente sobre a esclerose múltipla. Ele é também uma obra sobre o medo (não apenas de médicos, claro).
“O medo é individual”
Sobre as durezas da vida.
“Nem todos os dias são bons”
E, principalmente, sobre como outras pessoas são capazes de transformar nossa vida com tão pouco.
“Algumas pessoas têm o dom de tornar o mundo melhor, não por conseguir mudar o que está ruim, mas apenas por existirem”
“Melissa não parecia ter limites para piadas e eu estava começando a amar isso”
Recomendo que você leia a resenha completa para saber melhor sobre estes e outros temas abordados na obra e, claro, que já vá garantir seu exemplar de De repente esclerosei.
Título: O bebê (quase) inesperado — a garota do DJ
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 221
Ano: 2022
Sinopse
Aos trinta e seis anos, Lorena Telles tinha tudo o que uma mulher poderia querer: um casamento dos sonhos, um negócio bem-sucedido e uma casa digna de revista de celebridades. A única coisa que falta para a sua felicidade completa é o que mais deseja: um filho. Depois de anos de tentativas frustradas de engravidar, a CEO da rede de PetShops mais popular do Rio de Janeiro decide jogar a sua vida inteira para o alto.
Aos 38 anos, solteira, tomada de um novo senso de aventura e com um aplicativo de relacionamentos instalado no celular, Lorena decide testar uma nova versão de si mesma e sair com o primeiro cara com quem der match. Ela só não estava preparada para que Ravi Borges fosse o homem mais gentil e engraçado com quem já se deparou. Muito menos que, aos vinte e seis anos, ele fosse capaz de deixar suas pernas bambas antes mesmo de terem se beijado.
DJ em ascensão nas noites cariocas, Ravi sempre adotou a fama de cafajeste desapegado com orgulho, e a última coisa que planejava era se apaixonar tão rápido por uma mulher que conheceu em um aplicativo — muito menos ver sua vida virar do avesso com a notícia de que será pai do dia para a noite.
Resenha
O bebê (quase) inesperado é um livro que toca em temas difíceis, dolorosos, cruéis. E, ao mesmo tempo, é uma obra linda, capaz de nos devolver uma leveza que nem mesmo havíamos percebido precisar.
“As palavras dele conseguem me cortar no meio e me refazer em questão de segundos”
Lorena Telles tem uma história e tanto e é difícil não se sensibilizar em algumas — muitas — medidas.
“Um banho não lava nossa alma nem leva os problemas embora”
Quando a conhecemos, porém, não sabemos da missa a metade. Apenas a encontramos saindo de um consultório, totalmente desolada e jogando para o alto todos os seus sonhos. Aqueles que, pouco a pouco, vamos descobrir quais são.
“A vida não se importa muito com o quanto alguém quer uma coisa. Às vezes, seus maiores desejos não vão se realizar”
Apesar de ser dona de uma popular rede de Pet Shop carioca, há algo faltando na vida de Lorena: um filho. Que poderia ser seu ou adotado, coisa, porém, que o marido é totalmente contra. A obsessão em se tornar mãe, portanto, acaba destruindo seu casamento e, mesmo assim, não diminuí, ao menos até o fatídico episódio que dá início a esta história.
“É curioso e amargo como, quando uma pessoa acaba com a sua vida uma vez, alguma coisa realmente a convence de que ela pode fazer isso quantas vezes achar necessário”
Cansada de tanto sofrimento, porém, a certinha e determinada Lorena joga tudo para o alto e resolve se arriscar pela primeira vez: solteira e afogada em mágoas, ela baixa um aplicativo de relacionamentos para sair com qualquer um que aparecer.
A sorte, porém, começa a sorrir para nossa protagonista e o primeiro match dela é com Ravi Borges, um DJ que diz não querer nada sério com as mulheres que conhece pelo aplicativo, afinal, sua vida é complicada demais.
“Chegar no topo é difícil, mas se manter é mais ainda”
Bom, esse é o discurso de Ravi até ele conhecer Lorena, claro. E mesmo diante do fiasco do primeiro encontro deles — que acaba com Lorena bêbada e chorando as pitangas nos ombros do boy — eles acabam dando uma chance um ao outro de se conhecer melhor.
“De alguma forma, meus segredos, incertezas e hesitações estão seguros aqui”
É assim que nós também vamos conhecendo pouco a pouco cada um deles, seus medos, suas histórias e seus famigerados sonhos — realizados ou não.
“Nunca pensei que existisse a possibilidade de sonhos se realizarem fora do tempo”
É difícil (para não dizer impossível) não se apaixonar por Ravi: apesar da pose de bad boy, ele é um cara extremamente doce, gentil, atencioso e engraçado. O Dj consegue deixar Lorena confortável com muita facilidade, sempre percebendo quais são os limites dela e propondo jogos para que eles consigam se conhecer melhor e se aproximar cada vez mais.
“Os jogos propostos por Ravi são sempre jogos que eu quero jogar”
Mesmo não querendo assumir, os protagonistas vão, pouco a pouco, se apaixonando um pelo outro, mas… Sim, claro que teria um “mas”.
“Deixá-lo aqui agora é como se eu estivesse deixando para trás o primeiro raio de sol que me tocou depois de uma longa tempestade”
Um pequeno acidente acaba destruindo a pequena calmaria que se instalara entre o quase casal, afastando-os por medos e inseguranças mil. Aquela velha história: ao invés de conversar, eles preferem fugir…
“E isso é uma outra coisa com a qual eu preciso aprender a lidar: alguém que se importa”
Narrado por Lorena, O bebê (quase) inesperado se passa basicamente no Rio de Janeiro, apesar de ficar evidente a paixão da protagonista por São Paulo — mais um de seus sonhos abandonados pelo caminho (e por causa do ex-marido… Não dá para disfarçar o ranço, né?).
“São Paulo acorda cedo demais e dorme muito tarde”
De maneira muito bem orquestrada, essa história fala sobre relacionamentos abusivos, aborto e racismo, sem, contudo, se tornar um texto maçante ou depressivo demais.
“Racistas podem ser racistas, vítimas de racismo não podem se defender”
Além disso, a narrativa traz um conceito muito interessante, que faz parte da caracterização da personagem: ela é sinesteta.
“Pelos céus, depois que você acostuma com a cor de um som, é fácil agir como se ela fizesse parte da sua vida, porque, de fato, faz”
O bebê (quase) inesperado é o primeiro livro de uma série de histórias independentes, composta também pelas seguintes narrativas:
E se você quiser conhecer mais do trabalho da Tayana Alvez (coisa que eu sempre indico por aqui), não deixe de segui-la em suas redes sociais (Instagram | Twitter). E se quiser ler O bebê (quase) inesperado é só clicar abaixo.
Dia desses, para variar, eclodiu uma polêmica no Twitter, que o Fabiano já comentou neste post, sobre ter ou não livros em casa.
A ideia deste post não é alimentar a polêmica em si, mas trazer uma tradução sobre o acúmulo de livros, que muitas vezes é mais forte que nós. Será que existe explicação para isso?
Ao longo do texto, você irá se deparar com uma palavra em japonês que não era novidade para mim, uma vez que a conheci em Lost in translation, mas cujo significado fica, agora, ainda mais claro.
O texto original foi retirado do wired.it e foi publicado em janeiro de 2023, tendo sido escrito por Maria Francesca Amodeo, como você pode conferir aqui.
Tradução
Esta pergunta é o centro de memes que circulam online; aparece com frequência nas conversas entre leitores e incomoda cada comprador que não consegue parar de comprar novos livros. Uma palavra japonesa nos ajuda a entender este fenômeno.
É uma prática muito mais difundida do que se pode imaginar — no mundo inteiro e também no nosso país — a de comprar livros e acumulá-los, adiando sua leitura. Parece uma crença besta, que muitas vezes é utilizada como uma acusação irônica nos confrontos dos leitores apaixonados (ou que se torna real com os memes), mas é pura verdade, às vezes de forma patológica: muitas pessoas não conseguem parar de comprar livros. Mesmo se já possuem o suficiente para aplacar — ao menos num curto espaço de tempo — sua sede de leitor.
Esses indivíduos acabam por encher as cômodas, os móveis da casa, as prateleiras, as escrivaninhas. Saem por aí e não são capazes de bloquear o impulso de comprar novos livros, mesmo já tendo volumes suficientes à disposição no interior do próprio apartamento. E esta é uma prática que se repete de novo e de novo, em um loop que não faz menção de ceder.
Alguns entram na livraria e, passeando entre as prateleiras, encantam-se com um título ou uma capa e sentem a necessidade de comprar; mas tem também quem segue os canais de editoras mais conhecidas, fica sempre informado dos lançamentos e compra online as publicações recentes que atiçam a sua curiosidade.
Tem também aqueles que não saem de casa com a intenção de comprar um livro, mas que simplesmente não sabem resistir ao bom perfume das páginas novas quando, por acaso, trombam com elas. Ou quem, por outro lado, não tem interesse no conteúdo e só tem a mania de possuir os volumes. E, ainda, há aqueles que amam colecionar edições preciosas e raras dos livros mais famosos do mundo.
As motivações que levam à aquisição de livros são, portanto, diferentes (ou ao menos assim parece), mas o resultado é o mesmo: na casa de cada um desses compradores compulsivos existem altas — e provavelmente empoeiradas — pilhas de livros para serem lidos. Montes de páginas que reduzem o espaço vital à disposição (como já diria Marie Kondo) e que ficam esquecidas por meses, até por anos.
O risco maior, não é nem preciso dizer, é que com a sede de dedicar-se a novas aquisições, os velhos volumes que já possuímos acabem no esquecimento e nunca sejam realmente lidos. Mesmo quando pareciam interessantes no momento da compra.
E então, por que tantas pessoas continuam a comprar livros sem parar, ficando com uma montanha de livros não lidos em casa? As possíveis respostas para este pergunta talvez sejam três.
Há quem sofra de bibliomania
A primeira resposta se refere a uma verdadeira patologia. A bibliomania é, de fato, um distúrbio obsessivo-compulsivo clinicamente reconhecido, que motiva a pessoa que sofre disso a comprar compulsivamente livros que não tem intenção alguma de ler. Neste caso, o sujeito tem como único interesse aquele de rodear-se de volumes de sua propriedade: novos, usados, muitas vezes até em versões duplas ou triplas. Não é nada incomum, de fato, que o bibliomaníaco possua cópias de um mesmo título, porque para ele não é o conteúdo de cada livro que conta, mas apenas o fato de ser proprietário da maior quantidade possível de volumes.
Se trata, neste caso, de uma mania e quem sofre disso muitas vezes tem inclusive problemas relacionais. É de tal maneira dedicado à sua obsessão de acumulador que é capaz de comprometer sua própria saúde. Por isso que quem sofre de bibliomania é tratado com remédios e terapias específicas.
A bibliofilia e o colecionismo
Bem diferente é a bibliofilia que, como é fácil compreender retomando as origens gregas do termo, nada mais é do que o profundo amor aos livros. Geralmente o bibliófilo também possui muitos exemplares, mas ele se empenha em ler todos eles e tende a conseguir. A sua, de fato, é uma sede por conhecimento, para além de um amor real pela leitura de volumes físicos de páginas ásperas.
Normalmente o bibliófilo é também um colecionador e privilegia, por isso, edições raras de livros famosos, cópias autografadas de seus autores preferidos ou volumes fora de catálogo que não se encontram mais à venda. Amando de maneira realmente visceral até mesmo a encadernação e a capa de cada volume, quem se considera um bibliófilo não pode achar mais sem sentido a tendência de design na qual se colocam estantes e prateleiras de casa cheias de livros expostos com as páginas à vista, em uma infinita extensão de bege. A bibliofilia não é absolutamente considerada uma condição patológica.
A resposta definitiva: o Tsundoku
Igualmente comum — ainda que venha confundida com a bibliomania — é a condição do Tsundoku. O termo deriva do antigo dialeto japonês e une três diferentes palavras: tsunade (amontoar as coisas, acumular), doku (ler) e oku (deixar um pouco para lá). Em resumo, portanto: acumular livros e esquecê-los deles. O termo em uso no Oriente desde 1879 para definir uma tendência que acompanha a humanidade desde a Idade Medieval.
Esta prática, muito mais difundida que as duas primeiras, diz respeito a todas aquelas pessoas que compram livros com a real intenção de lê-los. Os depositam nas prateleiras (ou sobre a cômoda, ou em qualquer lugar da casa) à espera de iniciar a leitura e depois o abandonam por um tempo indefinido. Mas por quê?
Porque no intervalo, compram novos volumes que roubam o interesse deles. E, num certo ponto, porém, parte dos “novos” livros se tornaram datados, porque serão substituídos e ultrapassados por aquisições ainda mais recentes.
Vejamos um exemplo: se uma pessoa que tende ao Tsundoku compra dez livros, começará — na melhor das hipóteses — a ler um num curto espaço de tempo, e deixará os outros nove à espera, na estante. Muito provavelmente, enquanto está empenhado em sua leitura, sua curiosidade será capturada por outros volumes que resolverá comprar. Digamos que quatro, apenas para exemplificar.
Um desses talvez se transforme em sua próxima leitura. Os outros três, contudo, entrarão na famosa “pilha da vergonha dos livros não lidos”, com os outros nove livros anteriores e sabe-se lá quantos outros mais. E assim por diante, possivelmente infinitamente.
Os benefícios do Tsundoku
O Tsundoku, porém, não é considerado uma prática negativa. Vale dizer, porém, que se refere sobretudo àqueles que, geralmente, são definidos como leitores fortes, ou seja, aqueles que leram pelo menos 12 livros no espaço de um ano.
Estima-se que em 2022, na Itália, os leitores fortes eram de apenas 15,2% da população, um percentual realmente baixo. Saber que o mercado editorial pode contar pelo menos com uma base de fortes apaixonados que continuarão a comprar livros é, contudo, uma boa notícia.
Mas comprar livros, para além do fato que serão lidos ou não, traz benefícios para a saúde também. O simples gesto de comprar um objeto — como já foi demonstrado por diversas pesquisas conduzidas na última década — melhora o humor de quem compra. E se se trata de livros, há ainda mais um ponto a favor.
O escritor estadunidense Alfred Edward Newton, que viveu entre os séculos XIX e XX e se definia um bibliófilo defendia que “mesmo quando não podemos lê-los, a presença dos livros que possuímos produz uma forma de êxtase: a compra de mais livros do que podemos ler é nada menos que uma tentativa da alma de se aproximar do infinito. Apreciamos os livros mesmo quando não os lemos, o simples fato de tê-lo e saber que estão perto nos deixa mais cômodos. Só de saber que estão disponíveis nos passa segurança”.
Ter em casa livros, olhar para eles, cheirá-los (sim, tem quem o faça) é, de fato — para quem os ama — uma espécie de remédio para a tristeza. Uma cura para as pequenas, grandes feridas cotidianas, oferecida por uma especial e única sensação de expectativa que se esconde entre as páginas desconhecidas.
Agora me conte aqui: você compra livros e mais livros, mesmo sem saber onde guardá-los? Ou já consegue resistir a esse impulso?
Título: Rabo de pipa
Autora: Maitê Rosa Alegretti
Editora: Laranja Original
Páginas: 108
Ano: 2022
Sinopse
Em seu segundo livro, Maitê Alegretti nos conduz por um percurso. Dificilmente os leitores não associariam esse movimento aos tempos recentes pelos quais passamos e às dificuldades que encontramos para retomar nossos caminhos cotidianos. De início, a obra em questão já nos introduz que, após essas vivências, nada mais seria como antes, pois “eu precisava aprender/ que a mesma rua/ já não guardava as pessoas de antes/ e a cidade se deslocava todos os dias/ centímetros abaixo de nós”.
Há, dessa forma, evidente melancolia nesse movimento de regresso ao mundo exterior, que exige, inclusive, uma preparação. Afinal, depois da clausura, “ter espaço/ de sobra/ dentro dos pulmões/ parece tarefa/ desmedida”. Apesar de o mundo continuar se movimentando abaixo de nossos pés, a percepção do tempo, a partir do contexto posto e imposto, altera-se. Assim, “o tempo parece não existir” e é necessário um esforço para a realização da possibilidade que se dispõe aos sujeitos: “apenas os movimentos/ circundantes”. A dimensão temporal, desprovida de parâmetros anteriores, impõe o ritmo do corpo, mais lento, aos poucos acontecimentos. Por isso, o dia, com todas as suas horas, precisa ser distendido para contemplar cada músculo de carne.
Todavia, ao direcionar o olhar ao que é possível ver, surgem as varandas. Na obra, os detalhes que se mostram por meio dessas aberturas são os recortes do mundo e o pedaço reduzido do outro a que os sujeitos podem ter acesso. Tal percepção culmina em versos que podem ser associados a outra questão: “na minha versão/ dentro de nós/ era tudo claro e/ luminoso”. Esse tipo de construção evidencia a dinâmica que se estabelece entre interior e exterior no que se refere a outros sujeitos.
Além disso, elaborar esse retorno, a nível da própria linguagem, também é um desafio. Desse modo, parte dos poemas e da prosa poética aventura-se por idiomas estrangeiros, como o italiano, língua estudada por Maitê Alegretti ao longo de sua formação acadêmica. Lado a lado, páginas em diferentes idiomas mostram distintos caminhos para a mesma questão, a busca pelo retorno perdido e a retomada do que não mais se verifica igual.
Entretanto, há um momento singular do livro que faz o sujeito e os leitores buscarem os céus, a despeito da clausura: o aparecimento das pipas e do vento, “como se/ antes não/tivesse sido/ detido”, que se espraia e leva esses recortes coloridos pelo dia de cor azul irretocável. A vida parece se anunciar novamente, apesar de um carnaval triste, o qual não apaga o passado, ao mesmo tempo em que a separação deve se converter no indivisível. Por fim,o último poema demonstra um novo parâmetro, o qual deve reger esse mundo por vir, por se criar e se recriar em nossas mãos, para que possamos, enfim, amarrar a vida às costas e desejá-la como nossa. A despeito da melancolia e das constatações de que nada permanece igual, há, ao final, uma esperança em relação ao porvir.
Luana Claro
Resenha
Rabo de pipa é o mais novo livro de poesias da Maitê e é uma daquelas obras que a gente pode — e deve — apreciar com calma e reflexão, como uma pipa que encontra o equilíbrio e plana na imensidão do céu.
“Eu precisava aprender
que a mesma rua
já não guardava as pessoas de antes”
O livro está dividido em seis partes, com os seguintes títulos:
Inaudito
Varandas
Rabo de pipa
Nenúfares
Indivisível
O tempo que se leva
Além disso, Rabo de pipa ainda conta com um prefácio (assinado por Mariana Marino) e um posfácio (assinado por Anna Clara de Vito). Ambos os texto enriquecem nossa leitura e trazem uma interessante análise dos poemas que encontramos ali.
“mas se você olhar lá fora
o pôr do sol parece
estranhamente
ainda mais
bonito”
Ao longo das páginas deste livro, nos deparamos com um mundo que é tão nosso, mas que, ao mesmo tempo, é tão novo. Um mundo a ser (re)descoberto, apreciado, vivido.
“mas para que tanto sofrimento
se o espírito
é pulsação e
vibra?”
Um mundo em consonância com o caos interior que tantas vezes carregamos, e com a vontade de viver aquilo que períodos difíceis não nos permitem viver, apreciando a imensidão, mas também a pequenez.
E no meio da observação do mundo, Maitê ainda insere sentimentos tão seus e conhecimentos que a vida pouco a pouco foi lhe propiciando, a ponto dela se arriscar a ir além de referências italianas em seus versos, escrevendo também uma breve prosa poética bilíngue.
Dentre os poemas lidos, o meu preferido foi O tempo que se leva, que me parece fechar com chave de ouro esta coletânea. Mas não pense você que é uma escolha fácil dentre os belos versos com os quais nos deparamos ao longo das páginas desta delicada e saborosa obra.
“Não é o tempo do trabalho
Não é o tempo da doença
Não é o tempo presente”
A diagramação e o uso de papel pólen para a impressão tornam a leitura do exemplar físico ainda mais confortável, propiciando ao leitor um tranquilo momento de lazer e esquecimento em meio aos versos da Maitê.
Você pode garantir o seu exemplar em diversas livrarias, como a Livraria da Travessa, Martins Fontes e Dois pontos. Ou então você pode comprar diretamente da Editora ou com a Autora (aproveita e já segue o perfil dela!). Clicando abaixo você compra pela Amazon (e colabora com o Blog das Tatianices).
Uma das minhas maiores alegrias recentes com relação à literatura tem sido poder finalmente ler em italiano a tetralogia napolitana, da Elena Ferrante.
Foram anos esperando para ter esses exemplares em mãos e a mesma quantidade de anos fugindo de informações sobre a história, para não perder a magia da leitura. A única coisa que eu sabia era que este era um grande sucesso literário e que provavelmente havia um motivo para isso.
Storia del nuovo cognome é o segundo volume da série e a cada página lida eu tinha mais certeza de que o sucesso era merecido. Em poucos parágrafos muita coisa acontecia e a leitura transcorria entre prender a respiração, ficar chocada e querer falar sobre tudo com qualquer pessoa que aparecesse na minha frente.
A história traz inúmeras temáticas fortes e por mais que eu tenha escrito uma longa resenha sobre esta obra, várias coisas ainda ficaram de fora. Por isso, hoje trago alguns dos trechos que destaquei ao longo da leitura e que gostaria de compartilhar com você.
Como geralmente faço com livros que leio em outras línguas, colocarei os trechos com a minha tradução e, ao final, as passagens originais, na ordem em que aparecerem por aqui.
Uma temática que me parece muito importante na obra da Elena são as relações humanas. Ou melhor, o quão difícil elas são. E digo uma coisa: elas são de uma complexidade assustadora ao longo da história.
“Eu disse a ela: é só nos movermos que erramos, quem entende os homens, ah, quantos aborrecimentos eles nos causam, a abracei com força e parti”
“Nunca me ocorreu, como havia acontecido em outras ocasiões, que ela sentia a necessidade de me humilhar para poder suportar melhor sua própria humilhação”
Storia del nuovo cognome fala, ainda, sobre como as pessoas mudam, se transformam ou simplesmente mostram a sua verdadeira essência, seja ela qual for (o que nos faz amar e odiar os personagens a cada instante).
“Como ela poderia desaparecer assim, sem deixar um vazio?”
“O cinema, os romances, a arte? Como as pessoas mudavam rapidamente, seus interesses, seus sentimentos”
Mais que isso, esta é uma obra sobre a complexidade do amor, principalmente numa sociedade patriarcal e machista, cabendo algumas críticas bem interessantes e bem colocadas ao longo das páginas.
“Pensei que eu era mais sortuda do que Lila, Antonio não era como Stefano. Ele nunca me faria mal, ele só era capaz de fazer mal a si mesmo”
“Imagine se pudéssemos fazer essas coisas, eu e você. Viajar. Trabalhar como garçonetes para nos sustentar. Aprender a falar inglês melhor do que os ingleses. Porque ele pode se dar ao luxo e nós não?”
“Diria que ele derramava sobre todos nós, inclusive sobre mim, a confusão que sentia dentro de si”
“Pensei: o fato de Lila estar casada não é um obstáculo nem para ele nem para ela, e essa constatação me pareceu tão odiosamente verdadeira que meu estômago se revirou, levei a mão à boca”
“‘Você estava destinada a grandes coisas’ ‘Eu as fiz: me casei e tive um filho’ ‘Qualquer um é capaz disso'”
Neste segundo volume também temos a chance de conhecer mais a fundo os personagens do primeiro volume, principalmente as protagonistas, além de conhecer outros personagens, mergulhando cada vez mais em suas características e complexidades.
“Lina, quanto mais cercada de afeto e estima, mais cruel ela pode se tornar”
“Mudei, não na aparência, mas em profundidade”
“Percebi rapidamente que Pietro Airota tinha um futuro e eu não”
Como esta é uma narrativa que nos mostra jovens vivendo como adultos antes do tempo, a história também fala muito sobre juventude.
“Em resumo ele disse que o problema da juventude é a falta de olhos para se ver e sentimentos para se sentir com objetividade”
E, muito relacionado a isso, sobre como nos enxergarmos, tanto no mundo quanto dentro de nós mesmos e o quanto aquilo que nos cerca influencia esta visão.
“Eu odiava a mim mesma, me desprezava”
“Eu não era capaz de confiar em verdadeiros sentimentos. Eu não sabia me deixar levar além dos limites”
“Eu não disse nada sobre mim, ela não disse nada sobre si mesma. Mas as razões dessa lacuna eram muito diferentes”
Por fim, não poderia deixar de mencionar que esta é uma história que a todo momentos ressalta a importância dos estudos, mostrando como o conhecimento pode nos levar adiante e nos fazer conquistar aquilo que sequer imaginamos.
“Eu, Elena Greco, filha de um mero funcionário estatal, aos dezenove anos estava prestes a sair do bairro, prestes a deixar Nápoles. Sozinha”
“Agora tudo o que eu era, eu queria construir por mim mesma”
Espero que estes trechos tenham despertado a sua curiosidade para esta obra, caso ainda não a conheça, ou que tenha te ajudado a matar um pouco da saudade dela.
Para concluir, como prometido, deixo aqui os trechos originais, conforme utilizados ao longo deste post.
“Le dissi: appena ci muoviamo sbagliamo, chi li capisce i maschi, ah, quante noie ci danno, l’abbracciai forte, filai via”
“Non mi venne mai in mente, come invece era accaduto in altre occasioni, che avesse sentito la necessità di umiliarmi per poter sopportare meglio la sua umiliazione”
“Come si poteva svanire così, senza lasciare un vuoto?”
“Il cinema, i romanzi, l’arte? Come cambiavano in fretta le persone, i loro interessi, i loro sentimenti”
“Pensai che ero più fortunata di Lila, Antonio non era come Stefano. Non mi avrebbe fatto mai del male, era capace di farne solo a se stesso”
“Pensa se queste cose le potessimo fare anche io e te. Viaggiare. Fare le cameriere pe mantenerci. Imparare a parlare l’inglese meglio degli inglesi. Perché lui se le può permettere e noi no?”
“Diciamo che rovesciava su tutti noi, anche su di me, la confusione che sentiva dentro”
“Pensai: che Lila sia sposata non è un ostacolo né per lui né per lei, e quella constatazione mi sembrò così odiosamente vera che mi si rivoltò lo stomaco, portai una mano alla bocca”
“‘Eri destinata a cose grandi’ ‘Le ho fatte: mi sono sposata e ho avuto un figlio’ ‘Di questo sono capaci tutti’”
“Lina, tanto più è circondata dall’affetto e dalla stima, tanto più può diventare crudele”
“Sono cambiata non all’apparenza, ma in profondità”
“Capii presto che Pietro Airota aveva un futuro e io no”
“Disse nella sostanza che il problema della gioventù era la mancanza di occhi per vedersi e di sentimenti per sentirsi con oggettività”
“Odiavo piuttosto me stessa, mi disprezzavo”
“Non ero capace di affidarmi a sentimenti veri. Non sapevo farmi trascinare oltre i limiti”
“Io non dissi niente di me, lei niente di sé. Ma le ragioni di quella laconicità erano molto diverse”
“Io, Elena Greco, la figlia dell’usciere, a diciannove anni stavo per tirarmi fuori dal rione, stavo per lasciare Napoli. Da sola”
“Ora tutto ciò che ero volevo ricavarlo da me”
Se quiser saber mais sobre esta obra, não deixe de ler a resenha completa clicando abaixo!
Título: O irlandês — Uma comédia romântica (Com amor, Dublin — Livro 1)
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 273
Ano: 2022
SINOPSE
UM PAI SOLO, UMA BABÁ ATREVIDA E DUAS CRIANÇAS QUE TRAMAM PARA QUE OS DOIS FIQUEM JUNTOS! O que esperar dessa receita?
Aos vinte e sete anos, Júlia decidiu sair do conforto da casa de sua família na Baixada Fluminense e tentar a vida fora do país. Morando numa casa com outras 6 pessoas, batendo ponto em dois empregos e um curso de inglês, ela está à beira de um surto e a última coisa da qual precisava era mais um trabalho. No entanto, depois de uma noite atípica em seu Karaokê favorito, Julia recebe uma proposta irrecusável e bem, que Deus a ajude.
Há um ano Robert tinha a família perfeita, o emprego perfeito e a casa perfeita. Agora ele mora numa casa que não lhe pertence e, enquanto tenta fazer o melhor pelas filhas, está lutando para juntar os cacos e superar a dor que o abandono da ex-mulher provocou.
Um encontro inesperado e a tal proposta irrecusável leva-os a conviver juntos, numa aproximação forçada que surpreendentemente não incomoda nenhum deles.
Sem nem perceberem o que os atingiu, a amizade de Júlia resgata Robert de dores que ele nunca imaginou superar, e o amor de Robert leva Júlia a lugares que seu coração nunca pensou em chegar… Mas, no fim, será isso o bastante para corações machucados se permitirem recomeçar?
RESENHA
Já faz uns anos que não tenho sido muito adepta da releitura. Quando eu era pequena, lia duas ou três vezes o mesmo livro, principalmente aqueles que eu mais gostava ou os que tinha que ler para a escola. Com o tempo, porém, meu acesso aos livros foi crescendo e meu tempo diminuindo e, com isso, passei a priorizar leituras inéditas. Afinal, a vida é muito curta para lermos tudo o que queremos ler.
“Mas, acima de tudo isso, sou grata pela vida que me permiti viver e pelo dia em que decidi que minhas feridas não iam me parar”
Recentemente, contudo, concluí uma releitura e foi uma delícia também. Foi como reencontrar um velho amigo e saber que aquele abraço ainda tem gosto de lar. Claro que contribuiu muito para isso o fato da autora ser uma das minhas preferidas: Tayana Alvez.
“Aperto ainda mais o abraço porque desde que aprendi o que é admiração, sei que esse é o sentimento mais importante de um relacionamento, seja ele qual for”
Já comentei em outros posts que a Tay retirou alguns de seus livros da Amazon. Isso porque ela publicava livros com hot, que já não condizem com o que ela realmente quer publicar. Um destes livros, contudo, era justamente O irlandês, que a autora reeditou e relançou. E com uma bela surpresa: uma edição física do primeiro volume (aguardando ansiosamente um físico de Minha querida Julie também)!
“Subo as escadas feliz e contente, sabendo que eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo com a minha vida, mas quero continuar assim”
A resenha de hoje, portanto, não é 100% nova, mas eu não poderia deixar de comentar novamente sobre O irlandês, de maneira mais fiel à atual edição.
Neste livro, Tayana Alvez nos presenteia com uma protagonista e tanto: brasileira, negra, nascida na baixada fluminense, Júlia decide tentar a sorte fora do país, em Dublin, como intercambista.
“A pior parte do racismo é que ele nunca cura”
A ambientação irlandesa, assim como os detalhes, incluindo os perrengues do intercâmbio (afinal, eles não poderiam faltar), são muito bem escritos, pois Tayana viveu tudo isso na pele. O que significa que em O irlandês nós somos transportados a essa viagem através do desconhecido e do desejado, sem contudo, ter de passar pelas dificuldades vividas por Júlia, ainda que a escrita da Tay seja tão forte que é difícil não mergulhar nos problemas e nos momentos felizes que encontramos ao longo das páginas.
“A vida na Irlanda nem sempre facilita encontros”
O fato da autora ser brasileira enriquece ainda mais essa história, pois ela pode nos apresentar com propriedade as diferenças culturais que há entre esses países, tornando nossa imersão ainda mais completa e real.
“Ouvir da boca de um irlandês que você é o seu amuleto mais precioso é quase tão bonito quanto ouvir um eu te amo”
Na esperança de que o intercâmbio seja apenas o início de uma vida distante do Brasil, Júlia trabalha muito. E, como trata-se de um intercâmbio estudantil, ela tem de estudar também. Mas sabe aquelas pessoas que não sabem dizer “não”, principalmente quando surge mais uma oportunidade de ganhar um dinheirinho que fará diferença no final do mês? Pois bem, essa é Júlia.
“Quanto mais dinheiro você tem, mais dinheiro quer ter”
É por não saber/não querer dizer “não” que Júlia, mesmo já trabalhando como garçonete e como cuidadora (em algumas noites), começa a cuidar de Annabelle e Alice. Ela tem de ficar apenas algumas poucas horas com as meninas, entre o fim do expediente da babá que realmente cuida das meninas e o retorno do pai, Robert, após o trabalho.
“Eu estou preparada para muita coisa. Mesmo. Até curso de primeiros socorros eu tenho, mas a dor do abandono de uma mãe? Isso eu não sei como lidar…”
E é assim que vamos, aos poucos, conhecendo essa protagonista tão cheia de si, mesmo que tenha seus medos, inseguranças e, claro, marcas do passado. Júlia sabe de onde vem, mas também sabe onde quer chegar e, ao mesmo tempo, sabe que terá de lutar em dobro simplesmente por ser uma mulher negra.
“Isso pesa. Essa sensação de nunca ser boa o bastante, de ser parada por causa da minha cor, de ser uma subcategoria de mulher porque nasci com mais melanina do que outras pessoas”
Por outro lado, também vamos cada vez mais conhecendo Robert e suas encantadoras meninas. E é muito instigante querer saber mais sobre o seu passado. Sobre as marcas que ele carrega. E que as meninas também carregam, ainda que sejam tão jovens.
“Dói demais ver uma criança sofrer tanto”
O fato de termos uma (quase) babá e uma pai solteiro com um passado e tanto, me lembrou um pouco Alameda do Carvalho, outra história que gostei muito. A experiência de leitura de cada uma dessas histórias, porém, é bem única, porque os rumos que o enredo toma e o que está por trás de cada trauma são bem diferentes.
“Meu coração quase rasga meu peito e eu sinceramente não sei o que estou sentindo, mas sei que é incrível”
O irlandêstem tudo para ser um clichê, mas também tem muito mais para transformá-lo numa história rica e capaz de nos transmitir mensagens importantes como a necessidade de um bom diálogo em qualquer tipo de relacionamento, bem como a solidão da mulher negra (e, por mais que isso possa soar um pouco solto dito assim, fica muito claro o significado disso quando você lê essa história).
“Então é assim que as pessoas se relacionam quando elas têm um bom diálogo e não escondem medos e inseguranças?”
Ah, e claro, tudo isso é feito através de uma narrativa envolvente, daquelas que te fazem rir no momento certo e ficar com o coração apertado na mesma medida. Uma história que flui facilmente e que, quando menos esperamos, já a devoramos.
“Choro uma dor que nem é minha, que eu nem deveria estar sentindo”
A edição física está muito linda, com uma diagramação incrível e pensada nos mínimos detalhes. Um livro que com certeza vou guardar com muito carinho.
Se você quiser saber mais sobre o trabalho da Tayana Alvez, não deixe de segui-la em suas redes sociais (Instagram | Twitter) e, claro, já garante ao menos o seu exemplar digital deste livro maravilhoso.