Aproveitando o clima de férias, achei que seria legal trazer algo mais leve e descontraído para cá, então escolhi responder à TAG Passado, criada e postada pelo blog Leitor dos Sonhos.
Coincidentemente, esta TAG foi postada justamente em julho do ano passado e você pode conferir as respostas do autor aqui.
A ideia é relembrar um pouco do passado (nem sempre tão distante assim) por meio dos livros. E, por favor, não me leve a mal, mas para esta TAG vou considerar mais de 10 anos passado, tá?
E aí, vamos nessa?
O primeiro livro que você lembra de ter lido
Já começamos com um item difícil. Sempre comento por aqui que tive a sorte de crescer numa família que incentiva bastante a leitura, então desde muito nova estive em contato com os livros, o que torna quase impossível que eu me lembre com precisão qual foi o primeiro. Mas não posso deixar de mencionar aqui um que tem um valor muito especial, por ter sido provavelmente um dos primeiros e porque ganhei da minha professora da pré-escola: O ratinho e o alfabeto, da Monique Félix.
Um livro que foi importante para o seu desenvolvimento
Certo, continuamos num campo muito complicado… Todos os livros acabam tendo a sua importância e já tentei mais de uma vez escolher apenas três ou dez que tenham sido essenciais para mim. Agora apenas um? Impossível.
Um livro cuja história se passa em um passado distante
Uma série que li na adolescência e que me agradou muito mais do que eu poderia imaginar foi a trilogia Alexandros, escrita por Valerio Massimo Manfredi, que narra a trajetória de Alexandre, o Grande.
Um livro que você gosta, publicado em um passado distante
Quando vi essa categoria, logo imaginei que teria de escolher um clássico, contudo me lembrei de um livro que talvez não seja tão conhecido assim, mas que é incrível e que foi publicado em 1906 (provavelmente não é o mais antigo dos que eu conheço e já li, mas não poderia deixar de mencioná-lo): A viagem maravilhosa de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlöf. Já ouviu falar deste livro?
Um livro que você leu há muito tempo, mas ainda se lembra bem dele
Não sou uma pessoa que guarda com uma imensa gama de detalhes as histórias que leio, até porque acabo emendando uma leitura na outra e, aos poucos, os detalhes vão ficando para trás. Mas guardo com muito carinho (na mente e no coração) a leitura de Anarquistas Graças a Deus, da Zélia Gattai, que fiz lá em 2009.
Um livro que já está bem velhinho na sua estante
Para fechar, uma categoria um pouco mais fácil. Isso porque é bem fácil abrir o meu armário de livros e ver qual está basicamente caindo aos pedaços. Mas é que se trata de uma relíquia para mim: uma edição de o diário de Anne Frank que era do meu pai. A capa já está quase totalmente solta, mas é um livro que eu amo e que carrega consigo essas duas histórias.
Quais seriam as suas respostas? Não deixe de compartilhar comigo, pois vou adorar saber!
Título: Laços de família
Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 135
Ano: 1998
SINOPSE
O texto de Clarice Lispector costuma apresentar ilusória facilidade. Seu vocabulário é simples, as imagens voltam-se para animais e plantas, quando não para objetos domésticos e situações da vida diária, com frequência numa voltagem de intenso lirismo. Mas que não se engane o leitor. Em poucas linhas, será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade o cotidiano mais costumeiro, minando e corroendo a repetição monótona do universo de homens e mulheres de classe média ou mesmo o de seres marginais. Desse modo, o leitor defronta-se com a experiência de Laura com as rosas e o impacto de Ana ao ver o cego no Jardim Botânico. Pequenos detalhes do cotidiano deflagram o entrechoque de mundos e fronteiras que se tornam fluidos e erradios, como o que é dado ao leitor a compreender acerca da relação de Ana, seu fogão e seus filhos, ou das peregrinações de uma galinha no domingo de uma família com fome, ou do assalto noturno de misteriosos mascarados num jardim de São Cristóvão. E, como se pouco a pouco se desnudasse uma estratégia, o cotidiano dos personagens de Laços de família, cuja primeira edição data de 1960, vai-se desnudando como um ambiente falsamente estável, em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parecia estar sendo marcado pela ameaça de nada acontecer.
Nesta coletânea de contos, os personagens – sejam adultos ou adolescentes – debatem-se nas cadeias de violência latente que podem emanar do círculo doméstico. Homens ou mulheres, os laços que os unem são, em sua maioria, elos familiares ao mesmo tempo de afeto e de aprisionamento.
― LUCIA HELENA, Pós-Doutorada em Literatura Comparada pela Brown University, EUA, e autora do livro Nem musa, nem medusa: Itinerários da escrita em Clarice Lispector
RESENHA
Laços de família é um daqueles livros que futuramente pedirão uma releitura, para melhor absorção dos detalhes e de sua profundidade. Por enquanto, ficamos com as impressões desta primeira leitura.
A obra é uma coletânea de contos que mergulha nas complexidades e sutilezas das relações familiares e interpessoais. Através de uma prosa poética e trazendo uma profundidade psicológica cativante, a autora nos presenteia com uma obra-prima que nos coloca diante de questionamentos existenciais profundos.
“Ela sentia vergonha de não confiar neles, que eram cansados”
Preciosidade
Publicado originalmente em 1960, o livro recebeu uma edição pela Editora Rocco (que foi a que eu li, mas diferente da que colocarei ao final desta resenha), que soube preservar a qualidade literária e estética característica da autora. A capa minimalista, com traços que evocam a introspecção e o enigma — retratando sobretudo o conto Feliz aniversário, um dos meus preferidos — convida o leitor a adentrar nesse universo peculiar criado por Lispector.
“Fora inútil recomendarem-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam mas tinham arranjado uma linguagem de rosto onde medo e confiança se comunicavam, e pergunta e resposta se telegrafar mudas”
A imitação da rosa
A obra é composta por treze contos que abordam uma ampla gama de temas, todos eles intrinsecamente ligados, como dito, aos relacionamentos humanos. Em Devaneio e embriaguez duma rapariga, somos levados a refletir sobre a fragilidade do amor e as fantasias que nos envolvem. Já em Amor, acompanhamos a trajetória de Ana, uma mulher presa em um casamento infeliz, que anseia por uma conexão verdadeira e intensa. E em O búfalo, amor e ódio se misturam diante de uma dolorosa decepção amorosa.
“Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo”
O búfalo
O cenário dos contos é sempre muito realista e a maioria das histórias se passa em cidades, sobretudo no Rio de Janeiro. Também há diversos contos com um cenário mais intimista, como a sala de uma casa. É o que acontece, por exemplo, em Feliz aniversário. Neste conto somos apresentados à personagem Lorena, que, durante uma festa, se depara com a solidão e o vazio existencial que permeiam sua vida.
No conto que dá nome à obra, Os laços de família, nos vemos diante da complexidade das relações familiares e a dificuldade de comunicação entre os membros de uma mesma família, explorando os sentimentos de ressentimento, amor e compreensão que coexistem nesse contexto.
“Sempre doía um pouco ser capaz de rir”
Os laços de família
Outras narrativas igualmente marcantes, para mim, foram A imitação da rosa, que narra a história da submissa Laura; O jantar, que acompanha uma família em um jantar que revela as tensões subjacentes entre seus integrantes; e A menor mulher do mundo, que trata do choque entre duas realidades tão distintas e diante de verdades tão diferentes daquelas que esperamos.
Em ordem, os contos que compõem a obra são:
Devaneio e embriaguez duma rapariga
Amor
Uma galinha
A imitação da rosa
Feliz aniversário
A menor mulher do mundo
O jantar
Preciosidade
Os laços de família
Começos de uma fortuna
Mistério em São Cristóvão
O crime do professor de matemática
O búfalo
Clarice Lispector, com sua prosa única e sua habilidade em explorar os recantos mais profundos da alma humana, nos leva, por meio deste livro, a uma jornada íntima e introspectiva. Seus personagens são complexos e seus diálogos, repletos de silêncios e subtextos, são verdadeiras joias literárias. Os contos, aparentemente simples, revelam-se como verdadeiros microcosmos de reflexão e questionamento sobre a condição humana.
“Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida”
A menor mulher do mundo
Laços de Família é uma obra-prima da literatura brasileira, nos convidando a mergulhar nas profundezas da alma humana e a refletir sobre nossas próprias relações e anseios. Uma obra indispensável para os amantes da literatura, da nossa cultura e, sobretudo, da complexidade do ser.
Se você acredita que esta deve ser a sua próxima leitura, não deixe de clicar abaixo para garantir o seu exemplar físico ou digital.
O livro, que tem como protagonista uma mulher incrível e um cara um pouco difícil de engolir, pode te proporcionar muitas surpresas (boas e ruins) ao longo da leitura.
“Convencido é o nome do meio de Thales Fernandes”
Uma narrativa que vai te fazer pensar sobre a vida e o tempo que temos para fazermos o que queremos e vivermos o que temos para viver.
“Para ela, a vida é curta demais e nós temos que fazer tudo o que tivermos vontade antes que não dê mais tempo”
“Mas quanto tempo é todo o tempo do mundo?”
Uma história sobre o amor e o que ele tem a nos ensinar.
“No fim, quase nenhuma palavra precisa ser dita, pois nossos olhares conversam entre si”
“Amor, só agora consigo definir toda a turbulência de sentimentos que vieram como uma avalanche para cima de mim de uma hora para a outra”
Mas, principalmente, um livro que serve para nos lembrar de valorizar o que temos, no presente, sem perder tempo fugindo de nossos sentimentos e sonhos. Só que, claro que, para deixar a mensagem bem viva dentro de nós, isso precisa ser contado de uma maneira que vai partir nosso coração.
“Eu só quero chorar e acho que nem todas as lágrimas existentes no mundo farão com que eu me sinta recuperado dessa dor”
Por um triz é um livro forte, bonito e que mesmo trazendo alguns clichês, consegue contar a sua história de maneira surpreendente.
Se você ainda não conhece o Thales e a Marina, já clica aí na resenha para saber mais. Também já deixo um alerta especial: o ebook está gratuito até amanhã (30/06). E se você pretende ir à Bienal do Livro no Rio de Janeiro, não deixe de garantir seu exemplar para pegar autógrafo com a autora por lá.
Título: Heroínas
Autoras: Laura Conrado; Pam Gonçalves; Ray Tavares
Editora: Galera
Páginas 254
Ano: 2018
Sinopse
Três escritoras brasileiras ― Laura Conrado, Pam Gonçalves e Ray Tavares ― reinventam clássicos para inspirar cada vez mais heroínas. Não faltam heróis. Dos clássicos às histórias contemporâneas, os meninos e homens estão por todo lugar. Empunhando espadas, usando varinhas mágicas, atirando flechas ou duelando com sabres de luz. Mas os tempos mudam e já está mais do que na hora de as histórias mudarem também. Com discussões feministas cada vez mais empoderadas e potentes, meninas e mulheres exigem e precisam de algo que sempre foi entregue aos meninos de bandeja: se enxergar naquilo que consomem. Este é o livro de um tempo novo, um tempo que exige que as mulheres ocupem todos os espaços, incluindo a literatura. Laura Conrado imaginou as Três mosqueteiras como veterinárias de uma ONG, que de repente contam com a ajuda de uma estudante que não hesita em levantar seu escudo para defender os animais. A Távola Redonda de Pam Gonçalves é liderada por Marina, que diante do sumiço do dinheiro que os alunos de sua escola pública arrecadaram para a formatura, desembainha a espada e reúne um grupo de meninas para garantirem a festa que planejaram. E Roberta é a Robin Hood de Ray Tavares. Indignada com a situação da comunidade em que vive, a garota usa sua habilidade como hacker para corrigir algumas injustiças. Este é um livro no qual as meninas salvam o dia. No qual elas são o que são todos os dias na vida real: heroínas. Finalmente.
Resenha
Heroínas é um livro que reúne três contos, de três autoras diferentes, unidas por uma mesma proposta, que o próprio título deixa claro: trazer um protagonismo feminino e inspirador. E o melhor: em situações bem próximas à realidade. Uma proposta simples, mas necessária.
“Para uma menina como eu, conviver com a personificação do seu sonho é um presente”
Uma por todas, todas por uma
O primeiro conto foi escrito por Laura Conrado, autora também de O retorno de Saturno, que já tive a oportunidade de ler (e adorei).
A história tem o título de Uma por todas, todas por uma e é narrada por Daniela D’Artagnan, uma adolescente que está no último ano do ensino médio e que quer muito poder trabalhar na ONG Mosqueteiros.
Por isso, ao parecer uma oportunidade de se voluntariar, mesmo não cumprindo os requisitos, ela resolve tentar. E já na recepção recebe uma negativa um tanto quanto malcriada.
A sorte, porém, logo lhe sorri e Daniela começa a não apenas realizar seus sonhos, mas também a contribuir para que eles permaneçam vivos e funcionando como deveria ser.
“E eu estou convencida: o melhor lugar do mundo é o agora”
Uma por todas, todas por uma
Esta é uma história sobre amor aos animais, boas ações, conquistas, amizades e amores.
O segundo conto recebe o título de Formandos da Távola Redonda e foi escrito por Pam Gonçalves, da qual que ainda não li outras narrativas (mas pretendo em breve).
Nesta história, narrada em terceira pessoa, a protagonista é Marina, que logo de cara se vê em uma grande enrascada: salvar a formatura do terceirão a apenas oito semanas do grande evento.
O problema é que, devido a um assalto, todo o dinheiro juntado até então fora roubado e a diretora resolveu confiar a Marina, devido à sua popularidade, a missão de salvar o evento mais aguardado do ano.
Para tal empreitada, porém, Marina decide formar uma comissão de formatura, que acaba sendo totalmente composta por mulheres.
“Uma lei não dita tinha ficado bem claro para todas aquelas mulheres. Só poderiam confiar nelas mesmas”
Formandos da Távola Redonda
Com este grupo, iremos refletir sobre amizade, respeito e o poder da união e da boa vontade. Mas também iremos percorrer o caminho da dúvida, do medo e da injustiça.
“Ela não se reconhecia mais. Não sabia se o que queria era real. Mas precisava descobrir, ou não conseguiria continuar sem explodir”
Formandos da Távola Redonda
Por fim, o terceiro conto, escrito por Ray Tavares (de quem já li o divertido Os doze signos de Valentina), narra a história de Roberta Horácio, um bebê que fora abandonado na porta de Gilberto e Magdalena Horácio, mas que jamais sequer desconfiou de seu passado.
Os Horácio moravam na Selva de Pedra, uma comunidade periférica. Mas Roberta é extremamente inteligente e consegue boas oportunidades para subir na vida.
“Roberta era só cérebro e pouca atividade física”
Robin, a proscrita
O destino, porém, muitas vezes é cruel, e ela se vê órfã muito cedo.
Movida pelo desejo de vingança e utilizando seus conhecimentos, Roberta decide continuar morando — ou se escondendo — na Selva de Pedra, enquanto mexe com programas e algoritmos para roubar o dinheiro de pessoas influentes, ricas e corruptas e devolvê-lo à comunidade.
Uma história que vai muito além da sede de vingança, falando também sobre injustiças sociais, abandono, corrupção, violência e — por que não? — amor.
“Mas existia algo mágico em se sentir patética por estar amando”
Robin, a proscrita
É evidente a inspiração e a releitura feita em cada um dos contos que compõem Heroínas: o primeiro tem sua origem em Os três mosqueteiros, e isso fica claro com o título, que remete ao lema deles, mas também no sobrenome da protagonista e com o nome da ONG.
No segundo conto , a inspiração vem de Os cavaleiros da Távola Redonda, com bem aponta o próprio título da história.
Por fim, a inspiração do terceiro conto é a história de Robin Hood. Robin é o apelido de Roberta, que não apenas gosta de usar verde (como o personagem que inspira seu apelido), mas também age como ele, roubando dos ricos para dar aos pobres.
A leitura dos contos é bem tranquila e rápida. Ótima não apenas pelos temas que aborda, mas também pela leveza e naturalidade com que as histórias se desenrolam.
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Literatura e música são minhas paixões e não escondo isso de ninguém (até porque eu nem conseguiria).
Encontrar um livro que fale de música ou uma música que fale de livros é sempre um doce acontecimento.
Por isso não tinha como eu não me encantar com Brasileira academia, música de Moraes Moreira lançada em 2012, no álbum A revolta dos ritmos, pela Biscoito Fino.
O interessante é que este álbum é uma celebração aos diversos ritmos da música brasileira e, ao mesmo tempo, consegue ser uma celebração à toda a cultura de nosso país, homenageando também escritores, poetas e compositores, como podemos ver justamente na música escolhida para este post.
Ao iniciar a letra da música, Moreira menciona que é de um país e, mesmo sem usar seu nome, logo sabemos de que país se trata, pois ele enumera personalidades literárias daqui, começando por aquele que talvez seja o mais conhecido de todos: Machado de Assis.
Em seguida, o compositor cita outros grandes autores sem, contudo, colocar seus nomes de maneira mais completa. E mesmo assim, continuamos a reconhecê-los ao longo do texto: Guimarães (Rosa), (Manuel) Bandeira, (Carlos) Drummond (de Andrade), Darcy (Ribeiro), Anísio (Teixeira), Afrânio (Peixoto), (Jorge) Amado, (João) Ubaldo (Ribeiro), (Gregório de Matos) Boca do Inferno, Gonçalves (Dias), Gilberto (Freyre), Ariano (Suassuna), Patativa (do Assaré), (Luís da Câmara) Cascudo, (Mario) Quintana, (Luís Fernando) Veríssimo, Rubem (Alves), Vinícius (de Moraes), Clarice (Lispector), Rachel (de Queiroz), (Augusto) dos Anjos, (Augusto de) Campos, João Cabral (de Melo Neto).
Mas Machado de Assis não é o único mencionado com o nome completo pelo qual o conhecemos. Há também Castro Alves, Oswald de Andrade, Euclides da Cunha, José de Alencar, Olavo Bilac e Rui Barbosa.
Através destas figuras, Moraes Moreira também consegue fazer uma viagem do norte ao sul do Brasil, passando pelos sertões, Bahia, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte (e também do Sul).
Vale lembrar, ainda, que a menção a tantos nomes e o título da música não são mero acaso: muitos dos escritores mencionados (mas não todos) estão entre os membros da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Deixo aqui a letra e a música, para que você também possa apreciá-la.
Título: Conectadas
Autora: Clara Alves
Editora: Seguinte
Páginas: 320
Ano: 2019
Sinopse
Ser uma garota gamer não é fácil. Principalmente quando um romance está em jogo.
Raíssa e Ayla se conheceram jogando Feéricos, um dos games mais populares do momento, e não se desgrudaram mais ― pelo menos virtualmente. Ayla sente que, com Raíssa, finalmente pode ser ela mesma. Raíssa, por sua vez, encontra em Ayla uma conexão que nunca teve com ninguém. Só tem um “pequeno” problema: Raíssa joga com um avatar masculino, então Ayla não sabe que está conversando com outra menina.
Quanto mais as duas se envolvem, mais culpa Raíssa sente. Só que ela não está pronta para se assumir ― muito menos para perder a garota que ama. Então só vai levando a mentira adiante… Afinal, qual é a chance de as duas se conhecerem pessoalmente, morando em cidades diferentes? Bem alta, já que foi anunciada a primeira feira de Feéricos em São Paulo, o evento perfeito para esse encontro acontecer.
Em um fim de semana repleto de cosplays, confidências e corações partidos, será que esse romance on-line conseguirá sobreviver à vida real?
Resenha
Falar de Conectadas certamente não é uma tarefa fácil, seja porque este é um livro que já foi lido por tantas pessoas, seja porque ele aborda temáticas diversas e importantes. Mas não custa nada tentar trazer um pouco da minha experiência aqui, não é mesmo?
“— Não importa se as pessoas vão se decepcionar. Se você não for verdadeira consigo mesma, a vida perde o sentido”
Raissa é uma adolescente que vive em Sorocaba, tem um melhor amigo que é quase como um irmão — o Léo — e vem de uma família bem estruturada, com pais presentes.
Porém nem tudo são flores: Raissa é lésbica. O que não seria um problema, claro, se vivêssemos numa sociedade minimamente decente.
“Se eu não precisasse passar por nada disso, talvez a vida fosse mais fácil”
E, para piorar, Raissa é adolescente. Uma fase já tem cheia de inseguranças, mas que, devido à sua orientação sexual, fica ainda mais complicada, fazendo com que ela viva à sombra daquilo que poderia viver se pudesse tranquilamente se assumir.
“Será que se eu não morasse em Sorocaba, se meus pais tivessem crescido em um ambiente mais diverso como São Paulo, eu teria mais coragem de me assumir?”
Por outro lado, temos Ayla, também adolescente, mas com problemas que parecem um pouco mais complicados, porque não envolvem somente a sua sexualidade. A mãe de Ayla descobrira a traição do pai e, desse então, eles vivam numa guerra fria, na qual Ayla é a principal arma de batalha.
“Mentiras destruíam pessoas”
Ayla vive em Campinas e sabe — mesmo que não queira acreditar — que é bissexual.
“Ayla fazia isso constantemente. Ficava se esquivando de falar sobre seus sentimentos”
O que une essas duas garotas que, apesar de morarem em cidades próximas, estão tão distantes uma da outra? Feéricos, o jogo online do momento.
“Mas chega um momento da vida em que é preciso aceitar a derrota antes que a frustração te consuma”
Raissa sempre fora apaixonada por esse jogo, mas ela logo percebeu que não seria fácil ser mulher e gamer e, por isso, acabou criando um avatar masculino para si.
“Nesta época aprendi que esse universo podia te acolher como nenhum outro, mas também podia te massacrar num piscar de olhos”
Quando viu Ayla, novata no jogo, pedindo ajuda, não hesitou em ser gentil. Só que ela não imaginava que essa ajuda se tornaria uma forte amizade e, claro, uma paixão.
“Ayla era o destino da viagem pela qual eu mais ansiava. O que só tornava tudo o que eu estava fazendo ainda pior”
E ela não poderia imaginar ainda mais que elas logo teriam a oportunidade de se conhecer pessoalmente. O que, claro, era um grande problema, porque mesmo já tendo feito chamadas de vídeos, Raissa contava com a ajuda de Leo para manter seu disfarce.
“Sabe quando as coisas vão virando uma bola de neve e você não tem chance de voltar atrás?”
Em meio a todas essas confusões e sentimentos, como já se pode imaginar, Conectadas consegue trabalhar temáticas como diversidade (em seu sentido mais amplo), medo, machismo, inseguranças e sonhos.
“A Ayla era uma garota incrível e inteligente e parecia gastar energia demais tentando ser alguém que não era”
Um jogo online e duas garotas buscando seu lugar no mundo, usando a tecnologia para fugir de uma realidade que não as agrada, da mesma forma que muitos de nós, leitores, fazemos com os livros.
“Ele foi meu motivo para seguir em frente desde que nos conhecemos”
Duas garotas que conseguem estar tão próximas, mesmo distantes, passando por muitas dúvidas, frustrações e angústias.
“Às vezes parecia que havia um oceano inteiro entre nós”
A narrativa é alternada entre as Raissa e Ayla, o que nos permite conhecer melhor cada uma e todo o contexto em que vivem.
“Ela era especial demais para ser esquecida”
Se você busca uma leitura capaz de aquecer seu coração, ao mesmo tempo em que aborda temas importantes para jovens numa linguagem acessível e interessante, acaba de encontrar uma bela recomendação: Conectadas fala sobre jogos online, livros, filmes e sexualidade com uma naturalidade deliciosa.
“Eu nunca admitiria, mas era do tipo que ainda acreditava em amor verdadeiro”
Clique abaixo para garantir seu exemplar físico ou digital e não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter | Site), porque tem muito mais coisa boa dela para conhecer.
Hoje é dia de reviver o aclamado Luzes, do Leblon Carter, com alguns dos quotes que ficaram de fora da resenha.
“Não é fácil escrever”
Esta foi uma obra que, conhecendo um pouco do autor, me fez identificar alguns de seus traços no personagem principal.
“Ser um escritor claramente me torna um viciado em desculpas para escrever”
“Mas é que, às vezes, ainda dói, sabe? Fazer tudo sozinho e o tempo todo”
Além disso, a história, em diversos momentos, nos faz pensar sobre a importância de não nos deixarmos em segundo plano, coisa que não é tão simples assim para muitos de nós.
“Como se importar mais com as outras pessoas pode ser uma coisa legal? Eu não deveria me preocupar mais comigo?”
“Mas, como se controla isso? Como você aprende a ouvir mais os seus sentimentos do que os das outras pessoas?”
Isto também nos leva a outras passagens que tratam dos nossos sentimentos mais íntimos e da nossa forma de nos colocarmos no mundo.
“Nem tudo é culpa sua. O mundo não gira ao seu redor, mesmo que pareça, às vezes”
“O problema é quando você sente tanto que acaba sentindo sozinho, por dois”
“Existem pessoas que são como rochas. Não adiantava tentar senti-las, entendê-las ou analisá-las. Era como se houvesse uma forte camada blindada e impenetrável revestindo sua pele e seus pensamentos”
“E era assim que pessoas amargas se moldavam: quando estavam ocupadas demais, prestando atenção nos outros, enquanto sua própria vida virava uma bagunça”
A dualidade do ser humano (e todas as nuances dentro dela) também se faz presente ao longo dessas páginas.
“É engraçado como o conceito de bem ou mal parece tão simples quando somos mais jovens”
E apesar de toda a carga emocional, a narrativa consegue transmitir uma leveza que nos lembra que, apesar de tudo, o que queremos é apenas uma felicidade tranquila e genuína.
“Por que o mundo sempre parece ficar em câmera lenta quando observamos algo que nos fascina?”
“Mas eles pareciam felizes, juntos. Assim como eu queria estar”
Se você ainda não leu a resenha de Luzes, não deixe de ler. Depois disso, garanto que você vai querer correr para garantir o seu exemplar digital desta história.
O que um chiuaua não-adestrado, uma loja sendo demolida, o demolidor da loja em questão e Olivia Liveretti têm em comum? Isso mesmo: nada. Principalmente porque o tal demolidor se encontrava completamente coberto de cimento e grosserias. Sendo assim, quando esses quatro elementos se reúnem, numa tarde nublada de segunda-feira, algo estranho acontece. E continua acontecendo à medida que Olivia Liveretti passa a conhecer as razões pelas quais Jonas Caruso continua a demolir a sua querida loja de quinquilharias apesar de seus protestos. A “Kinki quinquilharias e afins” nunca mais será a mesma. E Olívia também não.
Resenha
Logo no começo de Romance concreto me veio à mente se eu deveria continuar a leitura, se ela de alguma forma me atrairia em algum ponto. Mas a cada vez que a dúvida batia eu pensava “vou ler mais um pouco e qualquer coisa eu largo”. De repente, porém, eu não queria mais largar. Pelo contrário: queria ler mais e mais e sentia falta dos personagens quando não estava lendo (e sim, quando terminei, ficou aquele vazio de saudade também).
“Sonhos mudam, criança”
As minhas dúvidas iniciais se deram porque achei que a protagonista seria insuportável. Mas como ela mesma aprende ao longo desta história, não podemos julgar as pessoas sem conhecê-las.
“Fiquei chocada com a superficialidade do meu próprio pensamento, mas tive que fazer isso sem olhar para a câmera ou demonstrar emoção”
Olivia Liveretti era influencer conhecida, mas seus dias de glória já não eram uma realidade.
“A conta bancária de Olivia Liveretti já tinha visto dias melhores”
Ainda assim, a conhecemos justamente quando a curva do sucesso está em declínio e ela se recusa a aceitar isso. Então, a primeira impressão que temos desta protagonista é a de uma menina mimada e prepotente.
“Imagina só, Olivia Liveretti exausta pelos cantos. Essa era uma informação que jamais poderia vazar. Por isso sempre que saía, mesmo que fosse para levar Django na rua, escondia minhas olheiras com um montão de maquiagem”
Django é o cachorrinho de Olivia, e por menor que ele seja, tem um papel essencial nesta história. É graças a ele que Olivia acaba esbarrando pela primeira vez com Jonas. E a partir daí o destino deles irá se cruzar de diversas maneiras.
“Quem diria que a demolição de um imóvel podia afetar tanto o emocional de uma pessoa?”
De maneira extremamente leve, Romance concreto nos leva a refletir sobre o universo digital e o quanto muitas pessoas acabam deixando de viver o que realmente importa: o mundo aqui fora.
“Era uma pena a vida não ser um texto que dava para cortar e editar”
Aos poucos, a narrativa também vai pincelando o poder das escolhas e a importância de seguirmos os nossos sonhos, mesmo que, em algum momento, eles mudem. E eles vão mudar, cedo ou tarde.
“Como se existisse esse negócio de se desculpar por sonhar as coisas que a gente sonha”
Outra reflexão importante desta história é o valor da amizade, ainda mais num meio tão superficial quanto os das relações virtuais.
“Nunca pensei que amizade com pessoas da minha idade poderia ser tão despreocupada como era a minha relação com Thaíssa”
E ainda tem espaço para que conflitos familiares se façam presentes, nos mostrando que qualquer família está sujeita a cobranças sem sentido que apenas estragam o relacionamento entre os familiares.
“Não importava o que eu fizesse, fosse bom ou ruim, eles sempre terminavam balançando a cabeça no ritmo da decepção”
Romance concreto se passa no Rio de Janeiro e, por mais que boa parte da história aconteça basicamente nos arredores da casa de Olivia, também temos a oportunidade de visitar, sob a perspectiva dela, a periferia.
“Morei minha vida inteira nessa cidade, mas nunca a tinha visto por esse ângulo”
Chega até a ser surpreendente que Olivia não se incomode de ir para a periferia da cidade, de trem. Algo que eu jamais esperaria da protagonista do começo do livro.
“Tudo era muito novo pra mim. Talvez fosse por isso que eu estivesse encontrando dificuldades em saber como lidar”
O espaço central de todo o conflito desta narrativa, contudo, é a loja Kinki, uma loja de quinquilharias que, segundo a narradora (e protagonista) foi o berço de seus sonhos trabalhistas.
“Sabia que deveria me sentir agradecida, mas na realidade eu ficava um pouco sentida por algo que um dia guiou minha vida inteira ficar cada vez mais no passado”
O livro começa justamente quando, levando Django para passear, Olivia descobre que a Kinki está sendo demolida e fica indignada com isso.
“A verdade doía às vezes”
Um ponto que me chamou a atenção ao longo da narrativa, para além dos temas que foram muito bem introduzidos, foram os diversos jogos de palavras feitos por Olivia.
“Eu era a rainha dos contornos, tanto nos olhos quanto na vida”
Uma história muito gostosa de ser lida para passar o tempo e que, apesar de parecer banal, pode trazer algumas interessantes reflexões (e lágrimas).
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Aproveitando o barco da resenha desta semana, e com uma pequena (alta) dose de loucura, hoje eu resolvi traduzir um artigo sobre palavras italianas que não têm tradução em outras línguas. Contraditório? Talvez! Mas fique até o final para entender como isso seria possível.
Cheguei ao texto em questão através da newsletter da Treccani, a famosa enciclopédia italiana. Ele foi escrito por Eva Luna Mascolino, tendo sido publicado originalmente em novembro de 2022, no illibbraio.it.
E aí, me acompanha neste desafio?
Como traduzir uma palavra que serve de reforço, como “mica” ou a interjeição “boh”, sem recorrer a uma perífrase? E como explicar conceitos como o de “meriggiare”, de “struggimento” ou de “abbiocco” para quem não fala a nossa língua? Uma curiosa e fascinante análise de palavras que existem (quase) somente em italiano…
Conhecida também como a língua do sim, graças à conhecida divisão dos idiomas românicos na obra de Dante Alighieri, o italiano é há séculos repleta de termos poéticos, vocabulários multifacetados e palavras tão pontuais que não podem ser facilmente explicadas para quem não conhece essa língua, ou para quem busca traduzi-la com perfeição.
Como geralmente acontece em muitos sistemas linguísticos, de fato, existem conceitos enraizados de tal forma na cultural local ou com uma história etimológica tão característica que existem (quase) apenas no nosso país: a seguir, uma análise dedicada a alguns dos exemplos mais curiosos e fascinantes disso, para refletir sobre a unicidade dos ternos que usamos cotidianamente e conhecer melhor as suas origens.
Vamos nos debruçar, então, em algumas palavras italianas “intraduzíveis” em outras línguas:
Abbiocco
Termo italiano regional, cada vez mais difundido em toda a península, abbiocco é uma palavra que deriva de galinha, ou seja, um animal que, por excelência, está em uma posição recolhida, agachada, para chocar os ovos. A partir disso, começou a indicar uma pessoa que enrosca-se em si mesma porque está muito cansada, como já podíamos ler, por exemplo, no romance Meninos da vida, de Pier Paolo Pasolini. E assim, nos dias de hoje, o intraduzível abbiocco italiano define o comportamento de quem foi vencido pelo marasmo, principalmente depois de ter consumido uma farta refeição. Em inglês só é possível traduzir com um sintagma (food coma), assim como em francês (coup de pompe o coup de barre) e em muitas outras línguas estrangeiras.
Boh
Escutamos essa palavra ser pronunciada algumas tantas vezes ao dia e, contudo, a interjeiçãoboh que comumente exprime para nós o conceito de incerteza é tudo, menos compreensível, em outras partes do mundo. Não existem, de fato, correspondentes tão rápidos e incisivos em outros sistemas linguísticos, especialmente se levamos em conta que além de significar não sei ou não tenho ideia, o monossílabo boh também pode exprimir o ceticismo de quem fala, ou até mesma a irritação, o desconcerto, a perplexidade. Por isso, há anos, circula nas redes manuais para o uso do boh, que ajudam quem está aprendendo italiano e quer se familiarizar com as nuances e com as possíveis exceções desta curiosa palavrinha.
Magari
Continuamos no tema das interjeições e focalizamos agora na palavra magari, proveniente do grego μακάριος (makàrios, pt. feliz) e que inserido em uma exclamação é sinônimo de eu adoraria, realmente gostaria, enquanto como função adverbial pode substituir o mais frequente forse (talvez). O seu fascínio reside na dificuldade de captar todas as possíveis implicações, a partir do momento em que, com base no contexto, pode exprimir uma sensação de esperança, de felicitação, de arrependimento, ou de dúvida: esse é o motivo pelo qual em línguas como o inglês, por exemplo, podemos traduzi-lo como if only, mas também como I wish ou ainda como you wish, sem que exista, contudo, apenas um correspondente igualmente polissêmico.
Meriggiare
Meriggiare pallido e assorto / presso un rovente muro d’orto, / ascoltare tra i pruni e gli sterpi / schiocchi di merli, frusci di serpi: é assim que se abre uma poesia de Eugenio Montale, na qual o protagonista é justamente esse vocabulário áulico, mas atualmente em desuso, tão amado pelos intelectuais italianos desde Burchiello até chegar, no século passado, ao já mencionado escritor genovês e ao “poeta vate” Gabriele D’Annunzio. Trata-se, neste caso, de uma condição comportamental, que mais detalhadamente significa em repouso e na sombra das primeiras horas de uma tarde de sol. Em outras palavras, em um estado de calmaria, em contato com a natureza.
Mica
E sempre a propósito de palavras italianas “intraduzíveis” em outras línguas, talvez não todos saibam que em latim a mica equivalia a uma migalha de pão, exatamente com acontece ainda hoje em algumas zonas do norte da Itália, nas quais a michetta é um precioso tipo de pão. E como uma migalha, na atualidade, mica tornou-se um advérbio que pode ser encontrado em qualquer lugar, de perguntas a exclamações enfáticas. A sua função, de fato, é aquela de reforçar uma negação (exemplo: não sei mesmo quem é o assassino deste livro), que, consequentemente não é nem um pouco fácil de traduzir: em inglês se poderia recorrer a it’s not as if, at all, certainly e afins, mas se tratam sempre de perífrases genéricas e bem mais longas, que não correspondem totalmente ao original.
Struggimento
Vamos concluir com um substantivo de retrogosto melancólico e romântico, o struggimento, cuja etimologia está relacionada ao verbo latino destruere. Se considerarmos que antigamente a palavra significava desfazer, liquefazer ou reduzir a nada, entendemos facilmente como hoje, em italiano, esteja associada à ideia de um pensamento nostálgico e impossível de realizar, que consome pouco a pouco tanto a nossa mente quanto o nosso corpo, e que geralmente se deve a um amor atormentado. Pode parecer estranho, contudo não são muitas as línguas nas quais se pode expressar a mesma faceta da dor com um substantivo tão específico que não seja, por exemplo, um genérico heartache ou torment.
Gostou desta tradução? Não deixa de me contar nos comentários se você já conhecia alguma das palavras apresentadas aqui e como você as traduziria para o português.
Título: Albert, o pequeno morador de Plutão — Alberto il piccolo abitante di Plutone
Autora: Olívia Couto Borges
Editora Letraria
Ano: 2022
Versão em italiano: Tatiana Iegoroff
Ilustrações: Lucymar Rodrigues
Sinopse
— Você sonha, papai? — perguntou Albert.— Há muitos sonhos nesse centenário coração, meu filho, e o maior deles é se comunicar com o Planeta Azulado. Contar aos seres humanos que há outros lugares povoados, há muitas moradas no Universo, e tudo está interligado.— Confia, pai. Feche os olhos, bem apertado, buscando se imaginar lá. Pronto! Logo chegará a hora da Terra nos alcançar. Sabe por quê? — continuou o menino, inclinando seu corpinho para o Alto. — Não há quem possa deter os planos da eternidade. E você, já parou para sonhar? Mesmo que acorde sem sonhos, ainda, pode inventá-los!
— Sogni, papà? — chiese Alberto.— Ci sono molti sogni in questo cuore centenario, figlio mio, e il più grande di essi è quello di comunicare con il Pianeta Azzurro. Raccontare agli esseri umani che ci sono altri luoghi popolati, esistono molte abitazioni nell’ Universo e tutto è collegato.— Fidati, papà. Chiudi gli occhi, molto strettamente, e cerca di immaginarti lì. Ecco fatto! Presto arriverà il momento in cui la Terra ci raggiungerà. Sai perché? — continuò il ragazzino, inclinando il suo corpo verso l’alto. — Non c’è nessuno che possa fermare i piani dell’eternità.E tu, ti sei mai fermato a sognare? Anche se ti svegli senza sogni, puoi sempre inventarli!
Resenha
A resenha de hoje não será muito longa, mas (ao menos para mim) será muito especial. Isto porque a obra em questão contou com uma colaboração minha e, por isso, tive a sorte de não apenas conhecê-la antes de todo mundo, mas também de acompanhar seu processo de criação.
Albert, o pequeno morador de Plutão é um livro infantil com uma proposta muito interessante: trata-se de um livro bilíngue, com todo o texto escrito em português e em italiano (acho que já deu para imaginar onde entro nessa história, né?).
Uma coisa que para mim é muito evidente, justamente porque ajudei a passar o texto para o italiano e foram muitas conversas para tentar colocar tudo isso em outro idioma também, é a sonoridade que esta história tem, contando inclusive com algumas belas rimas.
“Durante o trajeto especial, Albert ficou encantado! – Ah, como o universo é maravilhoso – pensava ele deslumbrado”
Outra coisa que encanta na obra são as ilustrações: elas permeiam todo o livro e são compostas por coloridas aquarelas.
Não podemos ser injustos, porém, e fazer parecer que este livro se resume à sua sonoridade e às suas ilustrações: a narrativa também traz muitas coisas boas para quem se aventurar por ela.
” O ser humano se acostumou com a batalha, mas não poderia”
Um texto que nos ensina sobre Plutão, rebaixado em 2006 a planeta anão, mas que não deixa de ter seu encanto, com uma mancha em formato de coração (juro que essa rima aqui não foi proposital, provavelmente foi inspiração da leitura!).
É justamente este um dos elementos apresentados nesta história, que nos mostra o pequeno Albert querendo ajudar seu pai, Galileu, a se comunicar com a Terra.
“Galileu precisava dialogar com esse planeta o mais rápido possível, porque quando se demora muito na escuridão, logo logo a luz se apaga, por toooooda imensidão”
Esse fato também permite que a autora nos faça refletir sobre a vida humana e sobre a violência e as mazelas que nos cercam. Ela também pontua a importância da comunicação e ainda consegue trazer alguns fatos científicos que podem despertar a curiosidade dos pequenos, ou ao menos ser uma porta de entrada para que os pais apresentem este mundo a eles.
“— Querido Albert, como você pôde ver, a fórmula da comunicação está gravada no coração, por isso nem todos conseguem ler”
Albert, o pequeno morador de Plutão é um livro para ser lido, principalmente em voz alta, tanto em português quanto em italiano, para que os leitores possam usufruir de toda a magia que esta narrativa pode nos oferecer. E, claro, é um livro para crianças e adultos, extremamente interessante para uma leitura conjunta e dialogada.
Se você se interessou por ele, pode adquirir um ebook no site da própria Editora. Para exemplares físicos, o ideal talvez seja entrar em contato com a autora. Também recomendo que você assista à live de lançamento do livro, que contou com participação da autora e da ilustradora. Uma ótima maneira de conhecer ainda mais esta linda obra.