Citações #66 — Crônicas e agudas

Já falei tantas vezes sobre o trabalho do Antonio Carlos Sarmento, mas se ainda não te convenci a ir conhecê-lo com seus próprios olhos, deixo aqui alguns trechos retirados das crônicas que compõem a obra Crônicas e Agudas, publicada em 2022.

“Duas pessoas nunca leem o mesmo livro. A história é única para cada um, pois a imaginação é própria de cada mente”

As crônicas reunidas neste livro tratam de assuntos diversos, dos mais banais aos mais complexos.

“A limitação da liberdade desnorteia”

Trata de assuntos sérios, mas também nos faz rir e sentir leveza.

“Lembrei que, numa ocasião, ao final de uma reunião polêmica, um amigo estrangeiro me disse que nós, latinos, somos muito passionais. Se alguém discorda ou se opõe à alguma ideia ou posição nossa, já o tratamos como inimigo”

Os textos do autor são capazes de nos fazer pensar, ao mesmo tempo em que queremos apenas ler mais e mais.

“Como é grande o nosso apetite por formar opinião sobre tudo e sobre todos, sem lembrar que o maior risco de julgar é o de ser injusto”

E claro que muitos textos tratam do amor, das relações humanas e do carinho, assuntos que dominam o pano de fundo da maioria dos textos, de uma forma ou de outra.

“Como é bom ouvir uma voz amiga num momento de tristeza”

“Demonstrações de amor quando estamos frágeis têm um peso ainda maior”

“Fiquei imaginando quantas outras diferenças haveria entre eles, como em todo casal e como é preciso controlar a nossa tendência de querer fazer o outro semelhante a nós mesmos”

“O abraço é tão essencial como o alimento”

Não posso deixar de mencionar, também, as reflexões sobre o viver.

“A gente  balança quando ainda não consegue andar. A gente balança quando já não consegue mais andar”

E sobre o tempo que temos neste mundo.

“Tenho a impressão de que todo tempo ganho é imediatamente transformado em mais atividades, mais compromissos, mais informações”

Conte-me: agora eu consegui te convencer a ao menos dar uma espiada no blog do Antônio Carlos?

Dolls — A. S. Victorian

Título: Dolls. 
Autora: A. S. Victorian 
Editora: Publicação independente. 
Páginas: 275 
Ano: 2018

Sinopse

A família Hyeon era perfeita, todos diziam. Até um desastre acontecer e transformar profundamente Jack Hyeon. Ela decide então que a vida é curta demais para viver de aparências e que precisa começar a fazer suas próprias escolhas. Como primeira decisão, aproxima-se de uma colega de escola, Ede, que é o contrário dos padrões que os senhores Hyeon impuseram para a filha.

Já Edeline carrega sua própria lista de infortúnios e descobre na amizade uma forma de superar o passado. Mas a vida dá uma reviravolta quando percebe que seus sentimentos estão tomando um outro rumo.

Resenha

Dolls foi um livro que comecei com as expectativas lá embaixo, mas que logo me conquistou de tal maneira que dei atenção somente a ele.

“Como ser fiel a uma coisa que nunca daria certo?”

Vale ressaltar que a leitura é pesada, por mais que o leitor esteja a todo momento sendo preparado para o pior. Antes de continuar, gostaria de lembrar que há cenas de violência doméstica, estupro e tentativa de suicídio.

“Eu sempre tive medo do escuro, mas, depois de um tempo, o medo está tanto ao nosso lado que já se torna nosso amigo”

A narrativa começa nos apresentando duas garotinhas tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidas: Edeline Stein (Ede) e Jaqueline Hyeon (Jack).

“Eu e a Jack sabemos como é ter momentos difíceis. Não é muito bom ficar guardando isso dentro de você, dói muito e só vai piorar. Precisa de alguém com quem conversar”

Esse início, aliás, me lembrou bastante O lado extraordinário da falta, mas no caso de Dolls, como eu ressaltei, a história vai ganhando contornos muito mais pesados.

Porém, como no livro mencionado, temos Edeline, filha única, em uma família humilde e cheia dos seus problemas.

“A família se mudara há pouco tempo. Não queria ter escolhido exatamente aquela parte do subúrbio, muito menos aquela casa que não era nem um pouco o que desejavam chamar de lar, mas as circunstâncias, a falta de capital para algo melhor e a pressa, os fizeram ficar com o que conseguiram: a casa longe do centro, meio acabada, meio inteira”

Não que a família de Jack seja perfeita como quer fazer parecer, muito pelo contrário, aliás. Mas eles são uma grande e extremamente influente família. Ao menos dinheiro eles possuem de sobra.

“Não era uma família muito unida aquela”

Dolls começa quando as meninas têm apenas sete anos de idade e se conhecem na escola em que estudam. 

“Por mais que odiasse a escola, preferia ficar lá do que voltar para o vazio de casa”

Um incidente, porém, logo as separa e, após um salto temporal elas finalmente se reencontram.

“As coisas mudaram depois do acidente com Edeline e nos dez anos que se seguiram. Os pais de Jack decidiram mudá-la de turno, e, por alguns anos, ela foi esquecida pelos antigos colegas”

Voltando às diferenças entre as duas meninas, está o fato de que Jack é extremamente fria e, aparentemente, desinteressada de tudo, enquanto Ede tem um brilho no olhar que fascina o coração gelado de Jack. 

“Pare de agir como se ninguém se importasse e você tivesse que carregar todo peso sozinha”

Mas, como eu disse, elas também possuem semelhanças e não falo somente da idade: ambas passam por situações bem difíceis (lembra que deixei um alerta no início desta resenha?) e sentem-se extremamente sozinhas.

“As coisas não simplesmente somem, sabe? Nós vamos guardando elas dentro de nós… Até que explodem”

Tão opostas por um lado e tão semelhantes por outro, Ede e Jack sempre tiveram o necessário para se darem bem.

“— Esse é o problema das pessoas — Mordeu o sanduíche. — Elas costumam se prender aos momentos ruins e esquecem os felizes”

A história não se resume a acontecimentos pesados e tristes. Há muitas passagens capazes de nos oferecer um quentinho no coração e um abraço gostoso.

“Gostar de alguém era algo novo para ela”

E na mesma medida em que há personagens que não parecem ter coração, há muitos outros que renovam nossa fé na humanidade.

“Nós não precisamos magoar as pessoas para sermos felizes”

O que me encantou nessa história foi o fato de que ela é muito real, palpável. As personagens agem de acordo com suas histórias, seus sofrimentos e suas pequenas conquistas. E por mais que nem todo mundo encontre alguém que renove as esperanças, alguns dos pontos felizes dessa história são uma pequena fuga necessária para a realidade apresentada.

“Você não precisa tentar ser forte sempre. Todo mundo precisa ser ajudado às vezes”

Além disso, tem ainda um detalhe que me encantou muito nesta narrativa, mas que não quero revelar aqui, porque foi gostoso imaginar se isso aconteceria e a revelação foi muito boa de acompanhar. 

“Gostar de alguém é errado?”

Se você se interessou por essa história, adquira seu ebook clicando abaixo. E aproveite para seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter | Site | Instagram literário).

Nomes famosos, títulos de filmes e livros [tradução 30]

Dia desses, um dos meus alunos falou que seria legal fazermos uma aula sobre traduções de nomes de personagens

Traduções desse tipo (nomes de personagens, títulos de livros e filmes e até músicas) costumam dar muito pano para manga, então eu logo me empolguei com a ideia.

Além disso, como trabalho muito um ensino voltado aos interesses dos alunos, logo fui procurar vídeos e textos sobre o tema e, dentre minhas leituras, encontrei um artigo, que resolvi trazer para cá.

É muito interessante porque o artigo trata das traduções entre inglês e italiano, mas com resolvi trazer os nomes que usamos em português, noto como por aqui também modificamos diversas coisas.

Hoje, portanto, vamos ler a tradução do texto Nomes famosos, títulos de filmes e livros: as estranhas traduções em língua italiana, escrito por Pietro Gambino e publicado em setembro de 2020 no site Italiano Avanzato: da studente a fluente.


Eis aqui um assunto que você dificilmente encontrará em um curso de língua italiana! Vamos falar sobre nomes famosos e suas traduções para a língua italiana! Títulos de livros, títulos de filmes, nome de personagens nem sempre mantém, no italiano, a forma original. Alguns anos atrás, aliás, era bem normal traduzir tudo.

Com o tempo, por sorte, esse hábito mudou, ou ao menos se enfraqueceu, mas os nomes permaneceram, porque já haviam sido decorados por todos. O maior exemplo? Sem dúvidas, TOPOLINO, conhecido em outros países como Mickey Mouse!

O mundo Disney é muito peculiar: quase não existem personagens que não tenham mudado seu nome na tradução em língua italiana. Você conhece Pippo (Pateta)? E Paperino (Pato Donald)?

E mais:
Mickey Mouse – Topolino
Pateta – Pippo
João Bafo de Onça – Pietro Gambadilegno
Pato Donald – Paperino
tio Patinhas – Paperon de Paperoni
Huguinho, Zezinho e Luisinho – Qui, Quo e Qua

Aqui uma pequena LISTA!

O mundo dos quadrinhos é certamente aquele com mais traduções e adaptações em língua italiana. Como vimos, não apenas o título, mas também o nome dos personagens principais mudam!

Na Itália não é estranho, por exemplo, assistir um filme do Uomo Ragno (Homem Aranha) ou ler as histórias do Uomo Pipistrello (Batman). Por sorte, pelo menos nesses casos, os nomes italianos ficam servem tanto quanto os originais: não é um problema usar o nome em inglês.

Aqui está um belo artigo sobre esse assunto!

Dos quadrinhos aos livros, é apenas um passo! Não tenho ideia dos infinitos nomes modificados no decorrer dos anos, mas tentarei me concentrar em uma saga muito famosa. Vamos falar de Harry Potter e de suas traduções em língua italiana.

Em italiano, Harry Potter se chama Enrico Vasaio! Não, calma, estou brincando. Esse seria o nome se fizéssemos uma tradução literal, em italiano, dos personagens!

De qualquer forma, muitos nomes que vêm do universo de Harry Potter foram realmente modificados (e continuam a mudar no decorrer dos anos, às vezes criando muita confusão nas várias edições de livros). Menos problemáticos, deste ponto de vista, são os filmes, pelo menos até o próximo remake. Alguns exemplos de como os italianos conhecem esses personagens famosíssimos:
Albus Dumbledore – Albus Silente
Severus Snape – Severus Piton
Minerva McGonagall – Minerva McGranitt
Neville Longbottom – Neville Paciock

Se você é fã de Harry Potter, aqui está uma página onde você pode encontrar numerosos exemplos de traduções em língua italiana: POTTERPEDIA.

Mas, em geral, até mesmo os títulos de livros podem sofrer grandes modificações, às vezes para possibilitar jogos de palavras ou expressões que não existem em outras línguas:
O apanhador no campo de centeio – Il giovane Holden
O sol é para todos – Il buio oltre la siepe
As vinhas da ira – Furore
A lista pode ser infinita!

E chegamos ao ponto que talvez seja o mais sensível: justamente aquele dos filmes. Aqui também foi somente nos últimos anos que (quase) pararam de traduzir e mudar títulos. O problema é que, às vezes, causaram um grande desastre, usando nomes errados e absurdos! Em especial, entre as traduções em língua italiana, o maior crime toca à obra prima Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Para fazê-lo parecer uma comédia romântica, por razões puramente comerciais, o título em italiano tornou-se: Se mi lasci ti cancello (se você me deixar, eu te deleto).

Até eu, naquele tempo, me lembro que não queria assisti-lo, porque realmente acreditava que fosse a enésima comédia romântica. O poder dos nomes! Por sorte, consertei isso alguns anos depois.

Outros nomes modificados?
Esqueceram de mim – Mamma ho perso l’aereo
Sociedade dos poetas mortos – L’attimo fuggente
Cidadão Kane – Quarto potere
Star Wars – Guerre stellari (mas hoje usamos também o título original)
Vertigo – La donna che visse due volte
A noviça rebelde – Tutti insieme appassionatamente
12 homens e uma sentença – La parola ai giurati

Uma lista aqui.


Você já tinha parado para pensar nas traduções dos títulos que conhecemos? E o que achou deste artigo?

De repente esclerosei — Marina Mafra

Título: De repente esclerosei: um faz de conta de verdade 
Autora: Marina Mafra 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 316 
Ano: 2018 (1º edição) 

Sinopse

Mitali Montez possui um arquivo pessoal de mágoas. Protege e ama incondicionalmente Aurora, sua melhor amiga e única família. É surpreendida pelo destino ao conhecer Dimitri Mifti, um moço com habilidades para derreter o seu coração gelado. O retorno misterioso do pai muda a perspectiva do seu passado, mas é através da adaptação com o diagnóstico de Esclerose Múltipla que ela percebe a necessidade do perdão para encontrar a paz que não sabia que precisava.

Resenha

De repente esclerosei é um livro que nos lembra que todos nós estamos sujeitos a condições imprevisíveis e que nada têm a ver com quem somos ou com o que fazemos, mas que isso não significa que somos os únicos no mundo passando por determinado problema.

“Como viver sem saber quando será a última vez que fecharemos os nossos olhos?”

Como gosto de histórias que podem nos ensinar algo sobre coisas reais e as quais eu não tenho muito conhecimento, o título deste livro logo chamou a minha atenção e sua sinopse terminou por me fisgar de vez.

Devo ressaltar, porém, que mais do que me ensinar algo, esta narrativa despertou ainda mais a minha curiosidade para o tema da esclerose múltipla.

“Eu conseguiria fazer qualquer coisa, só que não com a mesma facilidade de uma pessoa normal”

Mitali (Mit) e Aurora (Rora) são melhores amigas desde a infância e dividem a vida que estão construindo na cidade grande, depois de saírem de Boieira, a cidade natal delas.

“Acho que posso dizer que, finalmente, eu e a Rora conquistamos o nosso lugar no mundo. E só quem perdeu ou nunca teve, sabe o que isso representa”

Apesar de bem diferentes uma da outra, as duas se dão bem e, principalmente, zelam muito pela vida da amiga.

“Aurora é minha única amiga na vida e desde o berço”

Não é de se espantar, portanto, que Aurora fique muito preocupada com algumas queixas de Mitali: formigamento nas pernas, dificuldade em andar, perda de equilíbrio.

“Entre ouvir ou dizer ‘vai ficar tudo bem’ até, realmente ficar, há uma imensidão de fatos que não podem ser ignorados”

Mitali, contudo, vai deixando para lá tudo isso, até o momento em que não é mais possível ignorar seus sintomas e ela precisa buscar ajuda urgente.

“Vivo um pesadelo em tempo real, sem o alívio de poder acordar”

Entre os primeiros acontecimentos preocupantes de Mitali e o seu diagnóstico, porém, muitas outras coisas ocorrem e, pouco a pouco, vamos descobrindo mais sobre ela e sobre sua história.

“Acredito que os lugares guardam memórias e que se pudessem falar, contariam os nossos segredos mais profundos”

Mitali trabalha como gerente em uma livraria e o seu chefe, o senhor Braga é quase como um pai para ela.

“Ele vivia querendo me arrumar um namorado, desde que não aceitei nenhum dos seus filhos”

Não que Mitali não tenha um pai de verdade: Aurora perdera os pais em um acidente de carro e a mãe de Mitali também falecera anos antes, mas Maurice ainda é vivo, só nunca fora um pai muito presente.

“Te amei desde o primeiro momento, mas da minha maneira. Hoje eu me arrependo, pois perdi muita coisa e o tempo não volta”

A aproximação desse pai que até então fora muito ausente, no meio do turbilhão de coisas que acontecem com Mitali, é mais um ponto de reviravolta na história, fazendo nossa protagonista parar e refletir sobre seus sentimentos e sobre a sua própria vida.

“— Essa situação só me fez refletir. A vida acaba em um piscar de olhos”

O senhor Braga, por sua vez, é o responsável por apresentar Dimitri a Mitali e, novamente, a vida da protagonista sofre uma grande transformação.

“Não acreditava que havia uma vida antes do que vivíamos”

Não sei se eu que sigo desacreditada demais do amor, mas achei que o romance entre Mitali — uma pessoa até então bem fechada para os sentimentos, principalmente amorosos — e Dimitri foi de zero a cem muito rápido. 

“Ele era mais que o grande amor da minha vida, era o meu melhor amigo, a melhor pessoa do mundo para mim”

De qualquer forma, Dimitri é uma figura essencial para que Mitali consiga lidar com tudo o que está passando e é angustiante vê-la tentando afastá-lo.

“Ele era a única parte normal da minha vida, a única que me permitia sentir segurança”

Para além da esclerose múltipla, esta é uma obra que fala sobre o amor ou sobre os laços que construímos com as pessoas de nosso sangue ou não.

“Talvez fosse bom encontrar pessoas como eu, em um lugar não tão cheio de pessoas como a gente”

E o laço principal que esta história aborda é a amizade.

“Há dias em que ajudamos e dias em que precisamos ser ajudados. Não importa a nossa personalidade, estamos no mesmo barco”

Por isso, é bem difícil não se abalar com as brigas de Mitali e Aurora, que tem muita dificuldade de entender pelo que a amiga está passando. Em algumas situações, chega a dar até um pouco de raiva da Rora.

“Algumas pessoas gostam de complicar a vida, Rora é uma delas”

De repente esclerosei também fala bastante sobre perdas, não apenas de uma vida “normal”, mas também das pessoas que amamos.

“Não dissemos nenhuma palavra, pois não há conforto quando a dor é por ausência de quem partiu”

E claro, com uma história dessas, esta obra também tinha de falar do medo, principalmente do amanhã, sempre tão desconhecido.

“O tempo passa depressa quando tememos o futuro e nos guia diretamente para o alvo dos nossos pesadelos”

A escrita do livro é envolvente: já nas primeiras páginas eu não queira mais largá-lo. Em alguns momentos me perdi um pouco no tempo da narrativa, mas nada que prejudicasse em grande medida a experiência.

“Todos temos uma história triste pra contar, Mit”

Se você se interessou por essa história, não deixe de acompanhar o trabalho da autora (Instagram | Twitter | Facebook | Site) e, claro, de adquirir o seu exemplar. Li o livro em formato ebook e gostei bastante da diagramação dele. A edição que tenho foi lançada de maneira independente, mas agora você tem acesso à edição da Martin Claret, em formato físico e digital!

Storia del nuovo cognome — Elena Ferrante

Título: Storia del nuovo cognome 
Título em português: História do novo sobrenome 
Autora: Elena Ferrante 
Editora: Edizioni E/O 
Páginas: 470
Ano: 2020 (29º reimpressão)

Ano passado eu tive (enfim!) a oportunidade de ler o primeiro livro da tetralogia escrita por Elena Ferrante e desde janeiro deste ano estive lendo o segundo volume, cujo título è Storia del Nuovo Cognome.

A leitura talvez tenha sido um pouco demorada, mas não poderia ser diferente, não apenas pelo tamanho do livro — ainda que ele pareça maior do que é, devido às páginas mais grossas —, mas principalmente pelo peso que a própria história tem. E eu provavelmente não conseguirei colocar em palavras tudo o que gostaria, mas tentarei, porque justamente esse volume dá ainda mais ênfase à importância da palavra. Falarei principalmente dos temas da obra, mas também tentarei abordar outros aspectos que a compõem.

“Queria obrigá-la a nomear as coisas. Queria que ela entendesse bem o que estava me dizendo”

E antes de começar, gostaria de lembrar que os quotes que utilizarei ao longo deste resenha foram traduzidos por mim e que, ao final, você encontrará a versão original deles, na sequência que aparecerem aqui.

Também gostaria de comentar que realizei essa leitura ao mesmo tempo que uma amiga (a Nati) e isso com certeza me abriu os olhos para tantas outras questões que eu não sei nem por onde começar a compartilhar tudo isso. Mas vamos do começo mesmo, né?

“Tudo é interessante se você sabe trabalhar isso”

Tive um pouco de dificuldade com o início deste livro, pois Lenù — a narradora — me parecia um pouco mais insuportável e petulante. Aos poucos, contudo, fui enxergando a melancolia, a dor e a solidão que permeavam suas ações e palavras.

“Eu tinha muitas ansiedades e a impressão de estar sempre errada, não importando o que eu fizesse”

Já adianto que a partir daqui será difícil não trazer spoilers, principalmente com relação ao primeiro volume. Feito o alerta, continue a leitura desta resenha por sua conta e risco.

O spoiler, aliás, já começa no título deste livro: o novo sobrenome é aquele que Lila recebe ao se casar com Stefano, coisa que acontece justamente ao final de A amiga genial. E aqui temos a primeira grande temática desta narrativa: o casamento.

“Me casar não significa ter uma vida de velha. Se ele quiser vir comigo, bom, mas se, por outro lado, está cansado demais à noite, saio sozinha”

Vale lembrar que a maioria dos personagens desta história — a narradora inclusive — encontra-se numa faixa etária entre 15 e 25 anos. São extremamente jovens, mas vivem (e têm de viver) como se fossem tão mais velhos e maduros.

“Mas a condição de esposa a havia fechado em uma espécie de redoma de vidro, como um veleiro que navega a todo vapor para um espaço inacessível, até mesmo sem mar”

O casamento, num primeiro momento, talvez seja o grande causador da crise na amizade de Lila e Lenù, ainda que, conforme avançamos na leitura, percebamos que existem muitos motivos para o distanciamento delas e as rupturas nessa amizade tão complicada (e, de novo, por vezes bem tóxica).

“Nada de rupturas, portanto não escaparíamos juntas pelas estradas do mundo”

O tema do casamento nos leva a outro muito presente neste volume: a violência. Não somente física, mas também psicológica. Ambas têm seu pesado espaço nas linhas deste livro e moldam as relações que observarmos.

“Claro, a explicação era simples: havíamos visto os nossos pais baterem nas nossas mães desde a infância. Havíamos crescido pensando que um estranho não podia nem mesmo esbarrar em nós, mas que os pais, o namorado e o marido podiam nos agredir quando quisessem, por amor, para nos educar, para nos reeducar”

Desde o primeiro livro, vejo a Lila como uma pessoa extremamente tóxica, principalmente para a Lenù. Mas o quanto disso não é fruto da sociedade em que elas vivem, ao mesmo tempo em que funciona, também, como um mecanismo de defesa?

“Quando reencontrei Lila, logo percebi que ela não estava bem e que tendia a me fazer mal também”

A amizade, aliás, é outra temática de grande força neste volume, uma vez que Lenù parece cada vez mais ser dar conta da maldade de Lila, ao mesmo tempo que não consegue viver sem ela (e ela percebe e reforça isso algumas vezes ao longo da narrativa).

“Mas Lila sabia bem como me atrair para as suas coisas. E eu não era capaz de resistir: de um lado dizia ‘basta’, de outro me deprimia com a ideia de não fazer parte da sua vida, do seu modo de se tornar”

Os conflitos entre elas aumentam nesta fase da vida e Lenù realmente chega a viver um tempo afastada. Mas nada parece capaz de amenizar essa relação… tóxica (desculpa, não consigo enxergar de outra forma, ao menos não ainda).

“Quanto a mim, decidi que daquele momento em diante viveria me ocupando apenas de mim, e a partir do retorno a Napoli foi exatamente o que fiz, impondo-me um comportamento de total afastamento”

Todos esses acontecimentos nos levam a outras temáticas que aparecem com força neste livro e que não posso deixar de mencionar aqui, como a sensação de despertencimento e a capacide de ir além, vividos por Lenù, mas não apenas.

“Sabia estar com aquelas pessoas, estava melhor que com os amigos do bairro em que cresci”

É impressionante como a maioria dos personagens, de alguma maneira, parece fazer parte e, ao mesmo tempo, parece perdido naquela realidade. É como se as peças não se encaixassem ali.

“Não é possível que eu reste prisioneira para sempre deste lugar e dessa gente”

Se por um lado todos os personagens têm sua cota de despertencimento ao bairro, Lenù é a que mais acaba se destacando e isso é notável inclusive na forma que todos a tratam: quanto mais o tempo passa, mais fica evidente o quanto as pessoas respeitam Lenù e a buscam quando precisam de palavras sábias, seja para acalmar ânimos, seja para ajudar na tomada de decisões.

“De que serviam os anos de escola e faculdade dentro daquela cidade?”

Outro ponto relacionado aos estudos que chamou minha atenção está na questão de que este nos ajuda a mudar de vida. Se por um bom tempo a leitura de Storia del nuovo cognome retrata muitas peculiaridades da realidade italiana, há passagens, principalmente ao final, que poderiam retratar a vida de muitas famílias brasileiras.

“Um pouco antes dos vinte e três anos eu era nada menos que doutora, tinha uma graduação em Letras, com nota máxima e mérito. Meu pai não havia ido além do quinto ano, minha mãe havia parado no segundo, nenhum dos meus antepassados, até onde eu sabia, havia aprendido a ler e escrever corretamente”

E claro que isso também escancara ainda mais a situação em que se vive no bairro em que se passa a história e nos faz enxergar, com maior clareza, muitas coisas do primeiro livro.

“A professora considerava óbvio que eu normalmente fizesse coisas que na minha casa, no meu ambiente, não eram de fato normais”

Os estudos de Lenù também reforçam, e isso aparece em diversas partes da narrativa, a distância que há entre o uso do italiano em detrimento do dialeto e viceversa. E essa é uma questão que talvez só quem realmente conhece um pouco da história da língua italiana pode entender.

Mas se eu tivesse de falar sobre apenas um tema central (depois de tudo isso que eu já falei? Sim), para este volume eu escolheria o amor. Ou os sentimentos humanos em geral, mas dando ênfase ao amor. Só não se engane: não estou falando daqueles amores de histórias água com açúcar e acho que isso já ficou claro até aqui, certo?

“As horas passaram, mas foi impossível aceitar que ele fosse tão profundo no lidar os grandes problemas do mundo, quanto superficial nos sentimentos amorosos”

Isso porque a trama é recheada de brigas de casal (não preciso nem dizer que a relação entre Stefano e Lila é extremamente complicada, né?), traições e rompimentos.

“E por mais que nós, meninas do bairro, desde pequenas quiséssemos nos tornar esposas, de fato, crescendo havíamos sempre simpatizado com as amantes, que nos pareciam personagens mais maleáveis, mais combativas e, principalmente, mais modernas”

Outro elemento que se sobressai neste volume é o fato de que, sendo a história narrada em primeira pessoa, totalmente por Lenù, ela torna-se cada vez mais uma narradora pouco confiável.

“Não sabia nada além disso, mas na escola havia aprendido a fazer com que acreditassem que eu sabia muito”

Em Storia del nuovo cognome continuam existindo muitos personagens, o que requer uma leitura cuidadosa para não se perder.

Além disso, o período em que se passa essa história vai de cerca dos 14 aos 19 anos de Lenù, com um longo período passado novamente a Ischia.

“Quer continuar sendo jovem, não sabe ser mulher”

A sucessão de acontecimentos é uma loucura: a cada nova página são inúmeros fatos que nos surpreendem, nos deixam de boca aberta, nos fazem prender a respiração. Não à toa eu não sabia muito bem como trazer tudo isso para cá.

“Basta um instante para mudar sua vida disto para aquilo”

Apesar de doloroso, e por vezes difícil, Storia del nuovo cognome é uma excelente continuação de L’amica geniale e ele é capaz de deixar o leitor ainda mais estarrecido e ansioso pelo que vem a seguir. Não vejo a hora de saber onde tudo isso vai dar.

Para encerrar, e como prometido, deixo aqui os trechos originais que usei ao longo desta resenha.

“Volevo obbligarla a nominare le cose. Volevo che capisse bene ciò che mi stava dicendo”

“Tutto è interessante se sai lavorarci”

“Avevo troppe ansie e l’impressione di essere sempre in errore, qualsiasi cosa facessi”

“Sposarmi non significa fare una vita da vecchia. Se lui vuole venire con me bene, se invece la sera è troppo stanco, esco da sola”

“Ma la condizione di moglie l’aveva chiusa in una sorta di recipiente di vetro, come un veliero che naviga a vele spiegate in uno spazio inaccessibile, addirittura senza mare”

“Niente fratture, dunque, non saremmo scappate insieme per le strade del mondo”

“Certo, la spiegazione era semplice: avevamo visto i nostri padri picchiare le nostre madri fin dall’infanzia. Eravamo cresciute pensando che un estraneo non ci doveva nemmeno sfiorare, ma che il genitore, il fidanzato e il marito potevano prenderci a schiaffi quando volevano, per amore, per educarci, per rieducarci”

“Quando rividi Lila, mi resi subito conto che non stava bene e che tendeva a far star male anche me”

“Ma Lila sapeva bene come tirarmi dentro alle sue cose. E io non ero capace di resistere: da un lato dicevo basta, dall’altro mi deprimevo all’idea di non essere parte della sua vita, del suo modo d’inventarsela”

“Quanto a me, decisi che da quel momento sarei vissuta occupandomi soltanto di me, e a partire dal ritorno a Napoli così feci, mi imposi un atteggiamento di assoluto distacco”

“Sapevo stare con quella gente, ci stavo meglio che con i miei amici del rione”

“Non è possibile che io resti prigioniera per sempre di questo posto e di questa gente”

“A cosa servivano gli anni del ginnasio, del liceo, della Normale, dentro quella città?”

“Poco prima dei ventitré anni ero nientemeno dottoressa, avevo una laurea in lettere, centodieci e lode. Mio padre non era andato oltre la quinta elementare, mia madre s’era fermata alla seconda, nessuno dei miei antenati, per quel che potevo sapere, aveva mai saputo leggere e scrivere correttamente”

“La professoressa dava per scontato che io facessi di norma qualcosa che a casa mia, nel mio ambiente, non era affatto normale”

“Passarono le ore, ma mi fu impossibile accettare che fosse tanto profondo nell’affrontare i grandi problemi del mondo, quanto superficiale nei sentimenti d’amore”

“E per quanto noi ragazze del rione sin da piccole volessimo diventare mogli, di fatto, crescendo, avevamo simpatizzato quasi sempre con le amanti, che ci parevano personaggi più mossi, più combattivi e soprattutto più moderni”

“Non sapevo nient’altro, ma a scuola avevo imparato a far credere che sapessi moltissimo”

“Vuole restare ragazza, non sa fare la moglie”

“Basta un attimo a cambiarti la vita da così a così”

Citações #65 — Sorte ou destino?

Que tal conhecer um pouco melhor o livro Sorte ou destino?, da Bruna Oliveira, através de alguns trechinhos que ficaram de fora da resenha?

Na história, a protagonista Anna claramente não tem uma grande autoestima.

“Você e essa sua mania de se menosprezar. Quantas oportunidades você deve ter perdido na vida, achando que era só coisa da sua cabeça?!”

Ao longo das páginas vamos compreendendo como ela, por conta disso, tenta realmente se anular perante os outros.

“Durante toda a minha vida tentei passar despercebida pelos colegas de sala engraçadinhos que sempre faziam piadas em relação a minha aparência. O problema dessa estratégia que eu adotei, é que esse tipo de comportamento quando repetido ao longo dos anos acaba não te deixando apenas blindada contra as brincadeiras de mau gosto. Ele te deixa invisível aos olhos da maioria das pessoas, e essa é a pior sensação do mundo”

E como ela deixa de viver muitas coisas, justamente por essa visão deturpada que tem de si, preferindo as histórias dos livros que lê à sua própria história.

“Realmente me arrependi de ter admitido meu interesse para a minha amiga, porque apesar de ser uma pessoa que se apaixona fácil, e sempre estar suspirando por alguém que nem sabe da minha existência, não costumo me abrir com ninguém sobre minhas paixonites. Uma vez que elas nunca dão em nada, é menos vergonhoso guardar o coração partido só para mim”

“O problema é que às vezes a gente toma uma decisão e o resultado dela acaba por ser o oposto do que esperamos”

“Quando não é real, é mais difícil de se machucar”

Felizmente, porém, o amor consegue sempre arrumar uma brecha e tomar conta de nós, antes mesmo de qualquer outro sentimento vir à tona.

“Não quero pensar em mais nada, eu só quero que meu coração pare de pular no meu peito todas as vezes que ele aparece de um jeito surpreendente, seja pessoalmente ou por mensagem”

“Ai meu Deus! Esse sorriso… Como é possível um simples sorriso ser capaz de fazer isso comigo?”

“Na hora que ela entra no carro, sorri para mim, e seu perfume me atinge em cheio. E é nesse momento que me sinto o cara mais sortudo do planeta, porque estou levando uma garota incrível para um encontro”

E quando nos damos conta, já é tarde demais: não queremos abrir mão da felicidade que a paixão traz.

“Eu poderia me desfazer em milhões de pedaços nesse instante que nem me importaria porque me sinto muito feliz”

“De todo modo, eu posso afirmar com absoluta certeza que nunca estive tão feliz e completa como agora”

“É meu amigo, quando a gente tá apaixonado nada tira o nosso bom humor”

Sorte ou destino? consegue, ainda, nos ensinar muitas lições. Como por exemplo compreender o que os personagens enxergam como destino.

“Já o destino é quando, apesar de todas as oportunidades perdidas, a vida vai te dando outras chances de fazer a coisa certa”

Ou ainda a necessidade de não perdermos tempo.

“A vida é curta demais para se perder tempo em todos os sentidos, românticos, familiares ou profissionais”

E também as marcas que os relacionamentos podem deixar em nós.

“Quando a pessoa não supera o término, ela ainda está apaixonada pelo ex. Agora o trauma é outra questão, não tem a ver com sentimentos e sim com o fato de que aconteceu algo ruim no relacionamento dos dois e ele tem medo que se repita mesmo estando namorando uma pessoa diferente”

Sorte ou destino foi uma daquelas leituras clichês que deixou meu coração quentinho e que também abriu espaço para pensamentos interessantes. Infelizmente, como eu disse na resenha, o livro não está mais disponível, mas você pode conhecer outras obras da autora clicando aqui.

Hoje não tem resenha, mas…

O mês de março foi uma loucura só. Mas talvez você, que acompanha assiduamente este Blog, não tenha percebido, porque mesmo assim consegui manter as postagens em dia. As leituras, por outro lado, ficaram um pouco esquecidas, mesmo que a contragosto. Com isso, hoje não tenho nenhum livro para resenhar por aqui.

Eu poderia, contudo, escrever sobre qualquer outra coisa. Tanto é que o segundo post da semana será mantido normalmente. Mas ao invés de escrever algo novo para cá, gostaria de te convidar para ler (e assinar, caso ainda não assine) a minha newsletter!

A última edição foi enviada domingo (02/04) e nela eu comento um pouco dessa correria que mencionei, mas também falo sobre amor, sobre minhas leituras, faço um apanhado dos posts de março e te convido a conhecer alguns livros e financiamentos coletivos que estão acontecendo.

Para além disso, não tenho muitas novidades de lugar e acontecimentos, mas tenho VÁRIAS coisinhas que não poderia deixar de divulgar, a começar por dois lançamentos que tive a oportunidade de revisar e que estão no mundo, só esperando a sua leitura

Você também pode ler (e comentar) as edições anteriores. A newsletter existe no Substack somente desde janeiro, então dá para colocar a leitura em dia e aproveitar.

Chegou até aqui e na verdade não entendeu nada do que eu falei? Então espera, vou te explicar o que é uma newsletter!

Ela nada mais é do que um email enviado para pessoas que se inscrevem em uma lista e que tem funções diversas: lojas e empresas, por exemplo, podem enviar uma newsletter para falar de produtos e promoções. Escritores enviam newsletters para compartilhar seus textos (e lançamentos, claro). E eu? Bom, eu envio porque às vezes é gostoso só escrever e compartilhar coisas nem sempre cabem aqui.

A minha news (para os íntimos) é recheada de abobrinhas, resumos de leituras e de posts do blog, lugares-pessoas-momentos, novidades e, para fechar, uma musquinha (tem até playlist da news no Spotify).

Você pode ler qualquer edição já enviada sem precisar se inscrever, mas se você gostar do que encontrar lá e decidir assinar a news (gratuitamente), você receberá os próximos textos diretamente no seu email. Ah, prometo não lotar sua caixa de entrada. Só costumo enviar as news uma vez por mês, então é bem tranquilo!

Teresinha — Ana Larousse

Tem música que a gente houve e que nitidamente percebe uma história se desenrolando em forma de poesia cantada. Teresinha, de Ana Larousse, é uma dessas canções.

Toda vez que ouço esta música, é difícil não vislumbrar as imagens que são tão bem colocadas ao longo dos versos dela.

A música em questão faz parte do álbum Tudo começa aqui, lançado pela cantora em 2013 e cheio de outras músicas que carregam doçura, sentimentos e, claro, histórias.

Teresinha traz uma homenagem à vó de Ana. Com uma letra cheia de sentimentalidade e uma melodia gostosa de se ouvir, é difícil não se encantar por esta narrativa.

Acho que nas primeiras vezes em que ouvi a canção, me chamaram a atenção frases como “ela guiava colada no volante” e “e reclamava, tudo bem, do jeito dela”, pois são imagens tão comuns, mas ao mesmo tempo, tão únicas dentro da história aqui contada.

Ao mesmo tempo em que há imagens concretas, como o cabelo pintado de vermelho e o biscoito e o café para ir embora, a música também tem diversas imagens abstratas, como o velho tempo que entra e a hora de dormir em paz, que dão ares melancólicos à historia, nos fazendo entender que ela teve o seu fim.

Tudo que até aqui mencionei culmina com o final triste da música — também marcado pela diminuição do ritmo da própria melodia —, que talvez só quem já perdeu uma pessoa tão importante pode entender: a dificuldade em dizer adeus, o medo de ficar só e a capacidade de compreender que a morte também faz parte do ciclo da vida.

Deixo, abaixo, a letra completa da música, e também o vídeo, para quem quiser ouvir e se deliciar com ela.

Teresinha (Ana Larousse)

Ela pintava o cabelo de vermelho
Deixava os óculos do lado do chuveiro
Pra não cair
Deixava o velho tempo entrar
Ela guiava colada no volante
Rezava o terço pra cuidar do outro instante
Então vai
Que o tempo tá batendo atrás
E é hora de dormir em paz
Que falta você vai fazer
A casa é grande pra você
O medo te apagou, eu sei
Num carro azul 15 quilometros por hora
O mesmo biscoito e o café pra ir embora
E anoitecer
O riso que eu vi crescer
Ela esperava os filhos na janela
E reclamava, tudo bem, do jeito dela
É muito tempo eu sei
A vida cansa pra valer
Eu mesma vou adoecer
Talvez antes de ter historias pra contar
Antes de ver o amor passar
Isso deve doer
Ela fez a vida dela e de outros cinco
Se eu bem me lembro
Eu tava no colo dela
Ela guardou a minha infância no porão
Ela cuidou pra gente sempre se lembrar
Que antes era eterno
Mas tudo vai e volta só
Então vai que eu fico só a lembrar
Do tempo que era bom
Pé-de-manga, banhos de chuva
Jogar cartas, guaraná
Cor na poça d’água
Eu sei, morrer não dói
Mas ir embora nunca é fácil
Me ensina a dizer adeus
Me ensina a tricotar
Me ensina a cozinhar como você
Me ensina a não crescer só

Morangos mofados — Caio Fernando Abreu

Título: Morangos mofados 
Autor: Caio Fernando Abreu 
Editora: Companhia das Letras 
Páginas: 188 
Ano: 2019 (1º edição)

Sinopse

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época. A prosa visceral dos dezoito contos de Morangos mofados ― potencializada pela hesitação coletiva de um país que vislumbrava a redemocratização ante a falência incipiente do regime militar ― traduziu as inconstâncias humanas mais profundas e continua, ainda hoje, arrebatando leitores de todas as gerações. Para José Castello, que assina o posfácio desta edição, embora seja um livro de narrativas curtas, “a obra mantém uma férrea unidade, em torno da coragem de se despir, da fidelidade aos sentimentos mais íntimos e mesmo os mais terríveis, e ainda à dificuldade de ser”.

Resenha

Em algum momento, uns anos atrás, li algo sobre Morangos Mofados e resolvi incluir este livro na minha lista de livros desejados e no meu aniversário deste ano, este foi um dos livros que a Isa me deu de presente e logo resolvi pegá-lo para ler.

Não me lembrava que se tratava de uma antologia de contos e confesso que, num primeiro momento, fiquei em dúvida do porquê havia me interessado por esta obra, até que entendi: os contos dela retratam, em sua maioria, relacionamentos homoafetivos.

“Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”

(Conto: Terça-feira gorda)

Os personagens, na maior parte das histórias, não possuem nome e em mais de um momento me enganei com relação ao que imaginava sobre eles (porque, claro, meu pensamento sempre acabava seguindo, mesmo que sem querer, um padrão que não era o que o autor estava retratando).

Achei alguns textos de uma poética bonita, mas que os deixam mais difíceis de ler, tornando o ritmo de leitura um pouco mais lento. Ritmo este que talvez fosse necessário para uma obra como esta.

“Sempre posso parar, olhar além da janela. Mas do interior do trem, nunca é fixa a paisagem”

(Conto: Eu, tu, ele)

As temáticas também nem sempre facilitam: falar do ser humano, da nossa complexidade, dos nossos medos, sem sombra de dúvidas não é algo que se faça de maneira simples.

“Amor não mata. Não destrói, não é assim. Aquilo era outra coisa. Aquilo é ódio”

(Conto: Caixinha de música)

A obra é dividida em três partes:

  1. O mofo — contém nove contos e é dedicada aos tempos da ditadura militar.
  2. O morango — contém oito contos e trata sobretudo das transformações interiores.
  3. Morangos mofados — contém o conto que dá nome ao livro.

Esta edição da Companhia das Letras é muito bonita: o papel tem um toque gostoso e torna a leitura confortável e as bordas são arredondadas. Além disso, ela conta com uma carta do autor a José Márcio Penido e um posfácio de José Castello, que torna toda a leitura ainda mais significativa.

“Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos — acordar, comer, caminhar, dormir —, dentro dele algo permanecia imóvel”

(Conto: Transformações)

Apesar do período em que foi publicado, Morangos mofados ainda conserva ares de atualidade (o que não necessariamente é bom). E alguns de seus trechos ganham novos e inesperados significados com o passar dos anos.

“Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval”

(Conto: Terça-feira gorda)  

Todos os contos possuem uma dedicatória, o que acrescenta mais uma dimensão às narrativas e também à obra.

O texto que mais gostei foi Aqueles dois — história de aparente mediocridade e repressão. Uma das poucas histórias em que os personagens têm nome e cuja narrativa possui uma clareza deliciosa de acompanhar.

Se você se interessou por esta obra, não deixe de clicar abaixo para saber mais e garantir o seu exemplar. A obra pode ser lida em formato físico ou digital.

Conhecer Morangos mofados se faz necessário em alguma medida.

Citações #64 — Proibidos de esquecer

Claro que eu escrevi uma longa resenha de Proibidos de esquecer, da Tayana Alvez, mas acabei deixando de fora dela muitos lindos trechos, que hoje trago aqui.

Relembro que a obra não está mais disponível para leitura, mas que fica a torcida para que, num futuro não muito distante, ela ganhe uma nova edição.

Proibidos de esquecer é uma narrativa que carrega em si muitas dores.

“Engulo em seco, porque o vazio que luto constantemente para esquecer ainda dói”

“É sempre mais difícil ver o que dói na gente, né?”

Parte dessas dores é causada por um dos sentimentos mais puros e intensos que existem: o amor. Em todas as suas formas.

“A gente sempre vai olhar para outra pessoa e pensar que seria mais feliz se…”

“O término do nosso casamento não me tirou só a minha esposa, mas a minha melhor amiga”

“Como a gente pode amar alguém que não conhece? Como a gente pode carregar tanta culpa por algo que não fez?”

As perdas também se fazem presentes ao longo desta história.

“Quando o perdi, muito de mim foi perdido também”

“É engraçado como quando a gente está feliz, sente que tudo vai durar para sempre” 

“E depois que a gente tem nossa alma partida, nunca é fácil sair do único lugar onde achamos conforto”

Mas se engana quem pensa que este é livro simplesmente triste, daqueles capaz de nos deixar apenas destruídos (deixa também, mas calma lá). Proibidos de esquecer também nos faz ter vários insights positivos sobre a vida.

“As coisas que não duram para sempre também dão certo. Só que no tempo delas”

“Tem reencontros que a gente acha que nunca vão acontecer”

E esta narrativa ainda traz uma definição bem interessante para a inveja.

“Inveja não é querer o que alguém tem, isso é cobiça. Inveja é querer que alguém não tenha alguma coisa”

Por fim, esta é, ainda, uma história sobre recomeços e sobre dar novos rumos às nossas vidas, apesar de tudo.

“No Rio eu sou ‘o pai do Roger’, ‘o pai daquele menino que…’, e eu simplesmente não consigo mais lidar com isso”

Vai me dizer que depois desses lindos trechos você não ficou com vontade de conhecer mais da escrita da Tayana Alvez? Então já segue a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter) e não perde mais nada dela!