Resilientes (Antologia)

Título: Resilientes: um manifesto contra a LGBTfobia 
Autor: vários autores
Organizadoras: Vanessa Nunes e Thati Machado
Editora: Se Liga Editorial 
Páginas: 219 
Ano: 2019

Sinopse

Dezessete de maio é o dia internacional do combate à homofobia e transfobia. E nós só conhecemos uma maneira de contribuir com a causa: através da escrita. “Resilientes” reúne contos sobre ser LGBT+, viver, resistir e amar livremente em um mundo ainda cheio de amarras.

Resenha

Resilientes é uma antologia que reúne 23 contos que têm como ponto de partida narrar histórias com protagonismo LGBTQIA+.

“O Brasil é um país violento, que fere, mata e destrói seus LGBTQ+ apenas por ódio às diferenças”

Prefácio

A pluralidade se faz presente não apenas no tema, mas também nos gêneros literários que engloba, contando com histórias mais fantasiosas e outras mais realistas; textos mais dramáticos, outros mais cônicos.

“Ela, no entanto, ao se tornar protagonista, descobriu que literatura não é sutil, não é delicada”

Pintura na parede (Luciana Gafasso)

Também é muito rica a variedade de autores: de nomes mais a menos conhecidos, cada conto nos traz uma história única, propiciando uma leitura ao mesmo tempo rápida e cativante.

“O tédio que a monotonia causa é sufocante. Precisa de algo novo”

A palavra de ordem: resistir (Tauã Lima Verdan Rangel)

Sendo os contos de extensão curta, também é possível aproveitar a obra de diferentes maneiras: lendo um conto após o outro, de uma vez; lendo aos poucos; lendo na ordem que quiser.

“Podemos nos apaixonar ainda mais ou podemos nos odiar no final das contas”

Instituto Santa Bárbara (Thalyta Vasconcelos)

O mais interessante desta antologia, para além do que já foi mencionado, é também a variedade de temas que a ampla proposta permitiu ao escritores selecionados.

“Comigo acontece frequentemente de me meter em situações nas quais nem sequer tenho real interesse, e das quais depois não tenho ideia de como sair. Já supus ser culpa da minha dificuldade em dizer “não”, mas hoje acho que a razão é mesmo minha incorrigível curiosidade”

Encantamentos (Danielle Vicentino)

Ao longo das páginas refletimos sobre escolhas, relações humanas, empatia e, claro, sobretudo sobre amor e preconceito.

“Estamos em 2019 e as coisas não deveriam ser assim, mas infelizmente são. Você não pode se sabotar e negar a felicidade só porque vive num mundo cercado de pessoas preconceituosas e ignorantes”

Instituto Santa Bárbara (Thalyta Vasconcelos)

Os contos (e autores) que compõem esta antologia são, em ordem:

  • A sétima onda (Juan Jullian)
  • Setembro (Maria Freitas)
  • Debaixo da chuva (T. S. Rodriguez)
  • Sob(re) o som das árvores (Laís Lacet)
  • Colorido (Luke Marcel)
  • O último dia (Beatriz Montenegro)
  • Matéria de capa (Dane Diaz)
  • Essência (Marta Vasconcelos)
  • Encantamentos (Danielle Vicentino)
  • Instituto Santa Bárbara (Thalyta Vasconcelos)
  • Glim (Vanessa Nunes)
  • Pintura na parede (Luciana Cafasso)
  • Destino irônico (Felipe Ricardo)
  • Notas de liberdade (Jean Carlos Machado)
  • Primeiras vezes (André Brusi Pino)
  • A penumbra do luto (Débora Costa)
  • Tarsila além do bem e do mal (Beto Oliveira)
  • Desconstruindo tabus (Maleno Maia)
  • Coração colorido (Margarete Prado)
  • Girassóis (Beatriz Avanci)
  • Doce vingança (Marcela Cardoso)
  • Certezas (Rafaela Haygett)
  • A palavra de ordem: resistir (Tauã Lima Verdan Rangel)

A diagramação é simples, mas bonita. A única coisa que eu mudaria é a sequência inicial dos capítulos. Na obra, temos título -> biografia do autor -> história. Em quase todos os contos eu lia o título, passava para a biografia do autor, iniciava a história e tinha de voltar para o título, que eu já tinha esquecido qual era.

“A vida nunca é como nos sonhos”

Encantamentos (Danielle Vicentino)

No geral, a leitura foi muito agradável e rápida, então já deixo aqui a dica para você que gosta de histórias com protagonismo LGBTQIA+. Basta clicar abaixo para saber mais sobre a obra e garantir seu exemplar.

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Citações #73 — Os olhos claros do pássaro

Os olhos claros do pássaro, obra escrita por Valéria Macedo e publicada em 2023, é aquele tipo de leitura que realizamos e que permanece em nós por muito tempo.

“A vida foi acontecendo e, sem perceber, um ruído silencioso se fez presente”

A escrita da autora é leve e fluida e, nesta obra, ela consegue abordar com leveza temas muito importantes. 

“Imagino que feridas mais profundas estavam abertas e pulsavam a céu aberto sem serem notadas”

Não consegui me aprofundar em muitos desses assuntos ao longo da resenha, então hoje trarei aqui um bom número de trechos que gostaria de ter compartilhado antes. 

“A observação do modo de viver do outro trazia reflexões sobre nossa própria vida e nossas escolhas”

“Tantas coisas viajam na gente e nem notamos”

“A gente guarda muito mais do que precisa”

Uma das temáticas que se faz muito presente na obra é o fechamento de ciclos, afinal, a vida é cheia deles, que tanto nos transformam, renovam, ensinam.

“Mal sabia eu que aquela fechadura simbolizaria a abertura de uma nova fase de minha vida”

“Sempre fui fã de recomeços”

“Algumas decisões não são nada fáceis. A conhecida escolha é sinônimo de renúncia”

“Tudo tem início, meio e fim. Tudo é temporário”

“As despedidas mais difíceis seriam as últimas”

“Às vezes nossos desejos e emoções podem apontar para uma direção diferente do que é o certo a fazer em relação ao que vivemos”

Os ciclos fechados na vida de Valéria, propiciaram à autora muitas (re)descobertas, principalmente de si mesma.

“Mudei de carreira aos vinte e seis anos: de analista de sistemas fui me dedicar à odontologia. O casamento, a nossa nova casa, a vida a dois e a nova carreira foram grandes oportunidades de me reinventar e respirar novos ares”

“O não pertencer me fazia sentir livre como jamais havia sido. Liberava-me para ser eu mesma. Não precisava me adequar a quase nada”

“Minha menina do passado estava presente. Eu estava inteira”

“Em pouco tempo, me dei conta que não tinha mais sentido me agarrar ao que já não era mais”

“Não se valorizar leva a perda de energia, a se tornar disfuncional e adoecer mentalmente e fisicamente”

“Quando reconheci minha ignorância passei a aceitar a do outro também”

“Não eram situações novas, mas eram situações ressignificadas”

“As nossas histórias são pedacinhos de uma história muito maior”

“Dentro da caixinha de ganhos residem perdas e dentro da caixinha das perdas se escondem ganhos”

Muitos desses trechos inclusive nos conduzem às suas reflexões sobre o pertencimento.

“Não via a possibilidade de ser aceita se expusesse a verdade que vivia intimamente”

“Os lugares fazem as pessoas ou as pessoas fazem os lugares?”

“Nunca foi o lugar, sempre foi a gente”

“Já me senti perdida no mundo. Não pertencente por inteira a nenhum lugar”

E sobre o estarmos (ou não) sozinhos nesse mundo.

“Estar em lugares lotados de pessoas circulando e estar só”

Um tema sem dúvidas importante para este livro é o da migração, como mencionei na resenha.

“Imigrar pedia coragem. Pessoas que deixaram seu país, sua família, às vezes seus filhos para possibilitarem uma vida melhor a um outro alguém”

“O julgamento das escolhas e motivações, que trouxeram estas pessoas a viverem longe de sua pátria, cabia só a elas mesmas”

“Viver em Paris em condições tão privilegiadas era algo que jamais havia imaginado”

“Os países onde vivemos e suas culturas não foram as grandes mudanças que aconteceram.  A grande migração foi interna”

A autora sempre nos lembra, contudo, que nem tudo é fácil e bonito como pode parecer para quem apenas acompanha de longe ou sonha com a vida em outro país.

“Tudo era novidade, os sons, cheiros, sabores e todos os rostos que via”

“Recebi demais do mundo e nem tudo foi bom”

“Era preciso diminuir a velocidade da viagem da vida e passar a apreciar mais as paisagens”

“Não podia combater a realidade, então aceitava e me adaptava”

“Aprendi a escutar silêncios por trás de palavras e palavras por trás de silêncios”

“As possibilidades eram infinitas, mas o tempo não”

“Confesso que, com o passar do tempo, passei a notar que sempre havia uma certa tensão no ar. Éramos revistados em todos os lugares que fôssemos”

“Em situação fragilizada, as relações entre as pessoas transitavam da superficialidade às profundezas rapidamente”

“Os encontros que nos incomodam são caminhos de reflexão”

“Londres carinhosamente esfregava na cara as minhas ilimitadas limitações”

É muito interessante como a natureza tem papel importante na construção desta narrativa, enriquecendo sentimentos e descrições.

“Sempre é verão em Miami”

“Outono é sinônimo de transição e mudança. Estação da impermanência. Não é verão extrovertido, nem inverno reservado. É caminho do meio. É equinócio, equilíbrio de luz e escuridão”

“Sábia é a árvore que aprendeu a desapegar de suas folhas para seu próprio bem”

“O frio contrai, encolhe, fecha, faz movimento para dentro”

E conhecer alguns lugares através dos olhos da autora se torna uma experiência muito interessante.

“Londres e sua pontualidade pontuam ideias contrastantes constantemente”

“Londres é coerentemente paradoxal. Cidade onde cabe o mundo”

“Londres era silêncio e velava tantas perdas. O mundo em luto”

Também é difícil não se encantar com o modo dela falar das pessoas que a cercam, principalmente seus filhos. E é muito bom ver que a autora enxerga a força contida em cada um de nós.

“Havia envelhecido, mas era um menino assustado, vulnerável e perdido”

“As mulheres podem ser verdadeiros portais de cura para outras mulheres”

“Nunca duvide do poder de quem nos quer verdadeiramente bem”

“Maitê era um espírito livre demais para tantas regras”

“Cada um de nós enfrentava seus próprios obstáculos”

E como há poesia mesmo nas coisas mais difíceis: em cada adeus, cada perda, cada dúvida. 

“Mas era doença que se disfarça, com um tudo bem e um sorriso. Ninguém notava”

“Acho que a passagem de um ano faz possível se vivenciar a ausência de quem amamos em todas as datas comemorativas nele contidas”

“Meu irmão havia tentado lançar voo para além do horizonte. Onde tememos ir, mesmo sabendo lá ser o nosso destino final”

“Quero enxergar o que não se vê através dos olhos. Desejo olhos sem o peso da memória”

“Fingimos que vivemos para sempre, mas estamos indo embora”

Um dos valores mais ressaltados é, sem dúvida, o da liberdade. Liberdade de escolher, de opinar, de sermos quem somos, de viver.

“Não há luxo maior do que o de ser livre”

“Onde não há discordâncias ou diferenças não há crescimento”

“Certos pensamentos podem custar o preço da liberdade de viver. Limitam o voo”

No fim das contas, tudo que mencionei até aqui e tudo aquilo que aprendemos aos longo das páginas desta obra culminam em duas reflexões bem importantes: o valor do aprendizado e dos sonhos que nos movem.

“Acredito que os sonhos são os grandes catalisadores de travessias”

“Aprender é essencial. Força motriz da vida”

Os olhos claros do pássaro é, como eu já disse, um livro para ser lido e relido. Se você ainda não se convenceu disso, passe lá na resenha para conhecer um pouco mais a fundo a obra e sua autora.

Quem rabiscou aqui — Cínthia Zagato

Título: Quem rabiscou aqui 
Autora: Cínthia Zagatto 
Editora: Se Liga Editorial 
Páginas: 97 
Ano: 2019

Sinopse

Se suas novas apostilas forem a amostra de como será o ensino médio, Cadu está perdido. Acaba de ganhar o pior material de segunda mão de toda a história. O pai jura juradinho que ter o gabarito dos exercícios vai ajudá-lo, mas é difícil acreditar nisso até se ver contra a parede durante uma aula. Como é possível estar com os livros da aluna mais inteligente e interessante da escola sem nunca a ter visto por lá? Sua melhor amiga diz que é porque o antigo dono deles não é uma garota, mas Cadu sabe que sim. E está apaixonado por ela. Agora, com a ajuda de Tata Batata e do Homem-Cabrito, ele está disposto a bolar os planos mais malucos para descobrir quem foi que roubou seu coração com trechos de música e caricaturas de artistas famosos.

Resenha

Quem rabiscou aqui é uma daquelas leituras leves e divertidas, ótimas para passar um pouco do tempo com algumas risadas e uma boa dose de drama adolescente.

“Estava com os papéis esparramados sobre o peito e o coração amarrotado no chão”

Tudo começa com Cadu revoltado porque seu pai comprou apostilas de segunda mão para o seu novo ano escolar. 

O protagonista inclusive demonstra certo asco com o estados de tal material: todo rabiscado e sujo nas pontas.

Sua melhor amiga — e quase irmã — Tabata — ou Tata Batata — não perde a oportunidade de rir do exagero do amigo.

“Como poderia escolher uma namorada se a garota mais bonita e inteligente do mundo era sua própria irmã?”

Mas logo nos primeiros dias de aula, Cadu muda totalmente de opinião com relação às apostilas: ele percebe que aqueles rabiscos têm muito a lhe dizer e ensinar.

“Havia algo especial naquelas músicas; um sentimento tranquilo que o levava para um estado de espírito muito leve”

Os desenhos, as caricaturas e as músicas ajudam nosso protagonista a entender um pouco da matéria que ele sempre teve muita dificuldade de acompanhar. E, com isso, ele acaba se apaixonando por quem fizera tudo aquilo um ano antes.

Assim, o foco da narrativa aqui apresentada é a busca de Cadu para descobrir quem é a pessoa por quem ele se apaixonou.

“Você pode não querer gostar dele e fingir que nada aconteceu. Talvez só se sinta miserável”

E, em meio a essa busca, conhecemos um pouco mais do protagonista e suas dificuldades com novos conhecimentos.

“Não soube se era erva-doce ou camomila, porque tudo sempre havia sido apenas chá para ele, mas era bom, ainda assim”

Também nos aprofundamos em sua relação com seus familiares, com sua melhor amiga e com seus colegas de escola. 

“Era como se todos soubessem que estava desajeitado dentro de si mesmo, e não do modo como estavam acostumados a ver”

E, principalmente, mergulhamos nas descobertas que ele só poderia fazer por si mesmo.

“— Você tava certo, eu não tava te procurando. Mas o que é que eu faço agora que te achei?”

A leitura de Quem rabiscou aqui é rápida e tranquila. Os personagens são cativantes e é difícil não mergulhar na narrativa.

“O troféu de seu campeonato particular daquele mês de fevereiro”

Também achei muito interessante como a autora apresentou a relação entre Cadu e Tabata: eles cresceram juntos, mas nem todo jovem é capaz de entender a relação entre uma garota e um garoto e, por isso, eles escondem a amizade diante dos colegas. Um tema poucas vezes abordado desta forma, mas tão real entre jovens.

Se você quiser ler esta obra, clique abaixo. E, para conhecer mais do trabalho da autora, siga suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Quais são os benefícios da leitura?

Estou um pouco indignada com o fato de ter este Blog há cinco anos, já ter escrito sobre como começar a ler ou como ler mais gastando menos e ainda como ler em outros idiomas, mas jamais ter falado (ao menos tão diretamente assim) sobre os benefícios da leitura.

Bem, antes tarde do que nunca, né?

Para corrigir esta minha falha — afinal, este espaço existe por causa da literatura e da vontade de incentivar o hábito da leitura nas pessoas — hoje eu finalmente vou falar um pouco dos talvez já tão conhecidos benefícios deste hobby.

Melhora o funcionamento do cérebro

Assim como o nosso corpo precisa de atividade física para se manter saudável, o nosso cérebro também precisa de exercícios para ficar cada dia mais forte e se manter saudável, processando, armazenando e interpretando corretamente as informações que recebemos através de cada um dos nossos sentidos.

Existem muitos tipos de exercícios para o cérebro e a leitura é, sem dúvidas, um deles (talvez o mais divertido, para quem gosta!).

Estimula a criatividade

Ao ler uma descrição (de um personagem, de um local, de uma cena), nosso cérebro cria imagens para aquilo que está apenas em palavras. E tenha a certeza: por mais que a descrição seja a mesma, aquilo que você imagina nunca será exatamente como outra pessoa imagina e essa é só mais uma das tantas magias que a leitura tem a oferecer.

O processo de criar imagens a partir daquilo que lemos é uma das tantas formas de exercitar nosso cérebro, o que torna este benefício intimamente relacionado ao primeiro.

Desenvolve o senso crítico

Ler livros diversos nos apresenta inúmeras realidades, sem que estejamos imersas nela (por mais incrível que o livro seja, jamais estamos vivendo aquelas situações literalmente na pele). Esse distanciamento nos ajuda a analisar com maior discernimento os acontecimentos e, assim, podemos avaliar situações diversas com um olhar crítico mais apurado.

Além disso, também passamos a refletir mais sobre escolhas e consequências, pois toda história — real ou inventada — é fruto do caminho que optamos seguir em determinados momentos.

Desperta empatia

Assim como a leitura desenvolve nosso senso crítico por nos apresentar diversas realidades, ela também desperta a nossa empatia, uma vez que, por meio dela, podemos conhecer pessoas e dores que jamais conheceríamos de outra forma (ainda bem?) e, assim, compreendemos que o mundo (e seus problemas) é muito maior do que poderíamos imaginar.

Reduz o estresse

Apesar de poder trabalhar com coisas reais, como já apontado em outros itens, a leitura o faz de maneira menos compromissada e mais leve. Além disso, o ato de ler diminui a nossa frequência cardíaca e relaxa os músculos, segundo apontam alguns estudos. Tem coisa melhor que ler um pouquinho antes de dormir? (confesso até que durmo melhor se consigo tirar uns minutinhos para ler antes de realmente me deitar).

Expande o vocabulário

Ao pegarmos um livro para ler, podemos nos deparar com palavras desconhecidas ou novas formas de construir frases. Assim, mesmo sem grandes esforços, podemos ampliar o nosso conhecimento e até mesmo melhorar a nossa escrita. Quanto mais lemos, mais nos acostumamos com as opções à nossa disposição e mais nos sentimos confortáveis para brincar com as palavras.

Aumenta a concentração e a memorização

Ler um texto significa compreendê-lo e, para isso, precisamos nos concentrar na informação contida naquelas palavras, para processá-las adequadamente. Além disso, precisamos ir memorizando as informações que vamos obtendo, a fim de uni-las ao final. Quanto maior o texto, mais informações teremos para processar e memorizar.

E quem lê mais de um livro ao mesmo tempo então? Exercita ainda mais todas essas capacidades, separando os acontecimentos de uma obra da outra.

Amplia horizontes

Dizem que ler é viajar sem sair do lugar e eu não poderia concordar mais com uma afirmação. Um simples livro é capaz de te levar para o outro lado do mundo, para uma cultura totalmente diversa e até mesmo para tempos distantes do nosso hoje. E o melhor: custa mais barato que qualquer passagem!

E aí, vamos começar a ler? Aproveite e comente aqui outros benefícios que você conseguiu pensar enquanto lia este post.

O mistério da casa incendiada — Rafael Weschenfelder

Título: O mistério da casa incendiada 
Autor: Rafael Weschenfelder 
Editora: Naci 
Páginas: 336 
Ano: 2023

Sinopse

Foi com um hobby incomum que Gael se tornou um youtuber famoso: visitar casas mal-assombradas. Mas os tempos de glória do Assombrasil parecem ter ficado para trás, e com a queda de visualizações do canal, os patrocinadores ameaçam abandonar o barco. Então quando Sabrina, sua sócia e camerawoman, descola uma semana de estadia na mansão onde os corpos do ex-candidato a prefeito Marcos Gonçalves, esposa e filha foram encontrados carbonizados sem explicação, Gael vislumbra a oportunidade perfeita de reerguer o canal. Mas o que era para ser só mais uma gravação ganha ares sombrios quando ursinhos de pelúcia pegam fogo sozinhos e Gael encontra, no antigo quarto da filha de Marcos, um colar idêntico ao que sua irmã começou a usar antes de morrer. Acreditando que a mesma entidade que a possuiu foi responsável pela chacina da família Gonçalves, Gael fará de tudo para juntar as peças desse intrincado quebra-cabeças envolvendo campanhas eleitorais, igrejas evangélicas e homofobia, e descobrirá que os fantasmas mais assustadores não estão fora, mas dentro de nós.

Resenha

Comecei a leitura de O mistério da casa incendiada com as expectativas lá em cima (um erro, sabemos) e (provavelmente por isso) senti o ritmo um pouco lento.

“Expectativas baixas, eis o segredo da vida”

Para quem leu a sinopse e acompanhou de perto tudo o que rolou antes e durante a pré-venda deste livro, parecia que não havia nada de novo naquelas primeiras páginas, apenas o detalhamento de algo tão aguardado e, por isso mesmo, quase conhecido.

“Mas as questões mais cabeludas demoram a dar as caras. Ficam emboladas no peito e não saem de jeito nenhum”

Aos poucos, porém, a narrativa foi me ganhando e cheguei às últimas páginas abdicando até mesmo de alguns minutos do meu sono (coisa que só faço quando realmente não tenho alternativa ou, neste caso, quando o livro é tão bom que eu PRECISO saber o final).

“Saber que o médium mais poderoso de São Paulo está preocupado com os fantasmas que te assombram definitivamente não é um bom sinal”

Gael, o protagonista e narrador desta história, consegue conduzir a narrativa de maneira que nos sentimos praticamente mergulhando em sua mente, nos tornando uma pessoa muito próxima a ele.

“Tudo o que eu quero é sumir”

Ao longo dos primeiros capítulos temos a oportunidade de nos ambientar à história: conhecemos Gael e Sabrina — sua melhor amiga e camerawoman —, passeamos um pouco por São Paulo e, claro, descobrimos o Assombrasil, o canal para o qual Gael e Sabrina filmam em casas mal assombradas.

“Ultimamente, o gráfico de visualizações do Assombrasil mais parece uma descida de montanha-russa. Mas nem sempre foi assim…”

Numa tentativa de salvar o canal, que fica claro o quão importante é para eles, Sabrina consegue algumas diárias na casa dos Gonçalves, abandonada há 10 anos, após a morte de seus donos: Marcos — candidato à prefeitura de São Paulo que estava subindo nas pesquisas —; Damares, sua esposa; e Jéssica, a filha perfeita. Mas será que perfeição realmente existe quando falamos de seres humanos?

“Não era para ter crianças enterradas em cemitérios”

Ao lado de Gael e Sabrina, a cada página,  vamos buscando entender o que levou àquelas mortes, enquanto visitamos cada cômodo dessa casa aterrorizante.

“A casa dos Gonçalves pode ser assustadora, mas ainda é fichinha perto da que estou prestes a visitar”

Aos poucos, também vamos conhecendo um pouco mais de Gael e logo estamos embarcando na busca dele para entender a relação entre Eloá, sua irmã mais velha que morrera no mesmo dia que Jéssica, os colares idênticos que ambas tinham e alguns mistérios que rondam a sua vida

“— Às vezes nós vemos o que queremos ver, filho”

Tentando fazer as pazes com sua infância, Gael narra um pouco de seu passado, sempre de forma muito intimamente relacionada à irmã.

“Sabe, maninho, o demônio assume várias formas, algumas tão inesperadas que nem dá para desconfiar. A gente pode acabar procurando por ele nos lugares errados, achando o que quer, e não o que é”

E é por meio de tanto mistérios, alguns belos sustos e um bom número de piadinhas infames que Rafael Weschenfelder nos conduz por este livro, que consegue unir ficção e realidade de maneira surpreendente e natural.

“Sem chance, penso, sabendo que pior do que 2018 só mesmo um apocalipse zumbi”

A história também nos faz refletir sobre algumas questões importantes, enquanto nos faz elaborar mil e uma teorias de como tudo isso irá terminar (e olha que somos capazes de imaginar de um tudo, viu).

“— Nem toda doença pode ser tratada por um médico, filho”

Quando menos esperamos, mais uma lição bate à nossa porta. Além de atualidades e reflexões, Rafael consegue inserir algumas críticas interessantes, como a exploração de riquezas em terras que não deveriam ser destruídas pelo capitalismo.

“A gente sabia que não tinha a menor chance contra os fazendeiros, então fechamos um acordo que permitia a exploração de metade da jazida. Funcionou durante algum tempo, mas eles queriam mais. Ele sempre querem mais”

O que nos deixa de queixo caído, no entanto, é o desfecho da história. Que, claro, você só vai descobrir após garantir o seu exemplar (físico ou digital). Mas já deixo um alerta: se comprar o livro físico e não quiser spoilers, não folheie as últimas páginas!

Por falar nisso, a diagramação dele é ótima: leitura confortável do livro físico e detalhes que não escapam aos olhos mesmo quando estamos imersos no texto.

E te garanto: a dedicatória faz cada vez mais sentido depois de concluída esta leitura.

“Para todos aqueles que acreditam em fantasmas, mas acham as pessoas mais assustadoras”

O mistério da casa incendiada vai agradar gregos e troianos (ou místicos e céticos) e vai te garantir bons momentos de leitura.

Para garantir seu exemplar, basta clicar abaixo. E não deixe de seguir o autor em suas redes sociais (Instagram | Twitter) e de fazer parte do seu grupo de leitores no Telegram.

Se quiser conhecer outras obras dele, se liga nestas resenhas:

Citações #72 — Dolls

Dolls, da A. S. Victorian, é um livro que carrega muito mais do que pode parecer em um primeiro momento e, por isso, não consegui colocar na resenha tudo o que eu gostaria.

Assim sendo, hoje trago aqui mais alguns trechos deste livro surpreendente. A começar pelo fato de que esta é uma história que trata muito da solidão.

“Por que as pessoas sempre se afastavam dela, mesmo quando ela se empenhava em ser uma boa amiga?”

“Ede se sentia só, tão só que nem ao menos conseguia afastar as dúvidas de sua cabeça”

E que nos mostra como esta solidão gera outros sentimentos tão complicados quanto ela.

“Não sei se escrever irá me fazer ignorar o fato que sou fraca e incapaz de lidar com os meus problemas”

“Pare de guardar o seu sofrimento só para você”

A ansiedade também marca presença ao longo das páginas deste livro.

“A ansiedade fazia questão de lembrá-la que estava sempre ali ao seu lado”

A necessidade de se mostrar forte também aparece em diversas linhas desta narrativa.

“Nunca pensou que um dia não conseguiria mais fingir que estava tudo bem”

Para além disso, Dolls é uma história sobre o poder da amizade.

“Eu não dou presente para as pessoas pedindo algo em troca. Estava muito feliz por poder presenteá-la, na verdade”

“Como ele poderia desistir de ouvi-la e obrigá-la a guardar tudo novamente?”

E do amor, mesmo quando é preciso ir contra tudo e todos.

“Por que tinham que esconder de todo mundo e fingir que nada daquilo existia?”

“— Porque dói gostar de alguém que não sente o mesmo por nós”

“O que ele tem a ver com quem você gosta ou deixa de gostar?”

Uma narrativa que fala sobre a arte e a sua força.

“A arte nos ajuda a quebrar nossas barreiras e mostrar quem somos”

E também sobre tristezas e felicidades geradas pela vida e suas coisas boas e ruins.

“Sentiu o desespero tomá-la, pensou em voltar, mas não iria desistir de sua desistência”

“Eu só não consigo entender por que as pessoas se preocupam tanto com a vida dos outros a ponto de se acharem no direito de decidir ou não o que é felicidade”

Por fim, uma temática de extrema importância na obra são as relações familiares e suas complexidades.

“Existem segredos de família que não falamos para ninguém, e esse é um deles”

Dolls é um livro forte e bonito. Em alguns momentos é preciso estômago para encará-lo, mas a leitura certamente vale a pena.

Leia minha resenha para saber mais e, se te interessar, já garanta o seu exemplar.

As luzes em mim — Roberto Azevedo

Título: As luzes em mim 
Autor: Roberto Azevedo 
Editora: Rico 
Páginas: 206 
Ano: 2018 

Sinopse

Será o amor capaz de salvar alguém da mais solitária escuridão?

Marcos nunca esquecerá tudo que viveu na cidade onde nascera. Não tem como apagar a morte do pai, o fato de perder a visão e despedir-se de tudo que amava. Entre aquelas ruas viveu o melhor e o pior da sua vida.

Dez anos se passam, quando enfim Marcos retorna a sua cidade de infância, mas assim como ele, tudo mudou. Mas, para a sorte do rapaz, coisas boas também acontecem. Afinal, dizem que o amor é para todos e sempre encontra um jeito de unir as pessoas… Porque com ele seria diferente?

Tudo começa com apenas um nome, que pertence a dois garotos diferentes. Na verdade, completamente opostos. Mas ambos causarão inúmeras confusões na cabeça de Marcos.

A única coisa que o nosso jovem protagonista sabe é que um deles é o cara que ele esperava ansiosamente encontrar, a única lembrança boa do seu passado. Mas qual?!

Através dessa busca, Marcos descobrirá mais sobre si mesmo do que imagina. Mas será que ele está pronto para descobrir em si as luzes do verdadeiro amor? Prepare o coração e venha conferir.

Resenha

As luzes em mim começa com dois garotos brincando e tudo nas palavras iniciais do livro deixa bem claro o quanto eles se dão bem e gostam um do outro.

“Maurício não era apenas um amigo. Era quem sempre salvava o mundo em suas brincadeiras”

Sabemos, contudo, que a vida é uma caixinha de surpresas e logo um acidente muda tudo.

“Porque a vida tem o costume de pregar peças e despedaçar sonhos”

Marcos voltava de mais uma excelente tarde na casa de Maurício, quando o carro de seu pai, o Dr. João, foi atingido por outro veículo e, no acidente, Marcos perde a visão e, pior ainda, o pai.

“Ainda se lembra com tristeza daquele momento, o instante em que perdera a sua visão, e também o seu pai”

Não bastassem essas perdas tão doloridas, sem mais nem menos, a mãe dele resolve ainda, mudar de cidade. Eles praticamente fogem de lá, na verdade.

“Os dois meninos não queriam se separar nunca, mas já sabiam que os adultos e suas manias e problemas sempre os afastaria em algum momento, falando que era preciso”

A narrativa avança e nos deparamos com um Marcos já adolescente, cheio de sentimentos e dúvidas. Dez anos já haviam se passado.

“Sempre que Marcos sente-se ameaçado ou inseguro, torna-se verbalmente agressivo, fala por impulso, sem analisar a quem pode doer”

Ele nunca entendera a mudança que a mãe o forçara a fazer, bem como as diversas outras que se seguiram à primeira, impedindo, além de tudo que o jovem criasse raízes.

“Quando a vida seria maleável com esse garoto, que tantos problemas enfrenta?”

Com o agravante de Marcos ser cego e ter lidar, a cada nova escola, com os comentários maldosos ou com a pena de seus colegas (e ele não sabia o que era pior dentre esses dois comportamentos).

“A diferença incomoda muita gente”

As coisas ficam ainda mais complicadas quando a mãe, após tantos anos, decide voltar para a cidade natal de Marcos.

“Entretanto, como fazer uma nova ferida em alguém que já está machucado, e por sua própria causa?”

Ali, o protagonista espera reencontrar seu amigo de infância e também as respostas que tanto busca.

“Por mais que seja forte, Marcos nem imagina que aquilo preso em seu peito é muito maior do que um jovem normalmente aguenta”

O problema é que, logo de cara, Marcos se depara com dois Maurícios e, sem poder enxergar (e depois de tantos anos), tem de contar com outros meios para descobrir qual deles é o “seu” Maurício. Após dez anos, será que isso é realmente possível?

“Ali eu percebi que não precisava reencontrar ninguém, que poderia viver feliz e criar uma história diferente, só nossa”

Além disso, as respostas que tanto busca são muito mais complexas do que parecem, aumentando ainda mais a confusão do jovem, mas também propiciando a ele novos sentimentos.

“Finalmente sabe de toda a verdade… Mas por um preço que parece alto demais”

É difícil não se envolver nas dúvidas e nas buscas de Marcos, assim como é difícil não se envolver com as temáticas abordadas pelo livro.

“Que merda! Como é difícil ser adolescente”

Para além da adolescência e da cegueira de Marcos, o livro também fala sobre traição (nas suas mais diversas formas) e inúmeros tipos de preconceito.

“Seu coração, assim como ele, é cego… Não julga pela aparência. Somente sente, e isso é o mais importante”

Por meio da escola, o autor também consegue falar sobre bullying.

“Onde houver pessoas grosseiras e julgadoras em relação as diferenças de seus próximos, lá estará o preconceito”

E, sobretudo, esta é uma história sobre o poder do amor. Amor fraternal, amor familiar, amor romântico: seja como for, ele é capaz de nos transformar.

“A conexão que adquiriram causa inveja em todos aqueles que desejam encontrar uma pessoa para partilhar de tais sentimentos”

A cada página, o título escolhido para esta história faz mais sentido e é muito interessante ver como as luzes e as cores são importantes na construção do protagonista.

“O mundo de escuridão a que Marcos pertencia desaparece em uma explosão de cores e sentimentos”

Para além de tudo isso, ainda há espaço, ao longo da narrativa, para aprendermos e refletirmos sobre como é viver após perder a visão. Principalmente para Marcos, que desde pequeno adorava desenhar e pintar.

“Para ser guia de um deficiente visual, o mesmo precisa confiar em você. Tem de haver uma conexão. E isso claramente não existe entre eles”

As luzes em mim foi um livro que me surpreendeu bastante. Gostei de ter conhecido o Marcos, a sua história e de tê-lo acompanhado em suas descobertas (dolorosas ou deliciosas) e conquistas.

“— Meu mundo de escuridão tem ganhado algumas luzes, sabe? E você está se tornando fundamental para isso”

Se você também quiser mergulhar nesta narrativa, basta clicar ali embaixo. E se quiser saber um pouco mais sobre o autor, já segue ele em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Açaí — Djavan

Acredito que eu já tenha falado isso por aqui antes: sou fã de Djavan. E é perceptível como, muitas vezes, ele é um compositor incompreendido.

O maior exemplo disto é, provavelmente, a música Açaí, que foi lançada no álbum Luz, em 1982.

Famosa por seu refrão “açaí, guardiã / zum de besouro, um ímã / branca é a tez da manhã”, essa música é uma das responsáveis por colocar Djvan no papel de compositor de músicas nonsense (ou seja, sem sentido).

O próprio cantor, no entanto, já explicou que Açaí só é nonsense para quem não conhece a cultura do norte e do nordeste brasileiro. Alagoano de nascença, ele deve saber do que está falando.

Para compreender melhor tudo isso, porém, vale a pena dar uma olhada em toda a letra da música — que é bem curta —, uma vez que ela traz uma narrativa que aparece desde o seu início.

Na primeira estrofe, o compositor fala sobre a solidão e, para isso, ele traz imagens que nos transmitem esse sentimento, como a “poeira tomando assento” ou seja, baixando no solo, e o “som de assombração” feito pelo vento, aquele barulho meio assustador que se amplifica em lugares ermos e silenciosos e que realmente nos dá a impressão de uma assombração.

Solidão de manhã
Poeira tomando assento
Rajada de vento, som de assombração
Coração sangrando toda palavra sã

Passando para a segunda estrofe, Djavan começa a tratar da paixão.

“Afã” é uma palavra que possui significados diversos, mas podemos entendê-la, nesta música, como uma aflição, uma ansiedade, coisa que ganha ainda mais força com as imagens que a seguem e que representam algo instável, passageiro e ilusório, como vemos em “castelo de areia” e na “ilusão” da “ira de tubarão”.

A paixão, puro afã

Místico clã de sereia, castelo de areia

Ira de tubarão, ilusão

O Sol brilha por si

Provavelmente o cantor está querendo nos contar de um amor que passou e que o deixou à deriva, teoria que consegue dar um sentido à união da primeira estrofe (solidão) com a segunda (paixão).

Por fim, chegamos à última estrofe, tão discutida desde o seu lançamento. Após a solidão e a paixão que acabou, aqui temos versos que trazem certa paz e quase nos dão a sensação de que tudo pode ficar bem.

Isso porque “açaí, guardiã” faz referência ao pé de açaí, tão importante na cultura nortista e nordestina. Realmente um guardião da vida, gerador de riquezas locais.

O “zum de besouro”, ao contrário do “som de assombração” é aquele barulho que, mesmo incômodo, nos atrai e hipnotiza (como uma imã). 

E, para concluir, a brancura de uma manhã que se inicia com aquela neblina que precede um lindo dia de sol. 

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Nos poucos versos que compõem esta canção, fica evidente a presença da natureza, quase sempre em seu sentido literal, ainda que, por vezes, a inversão no uso de alguns termos torne a frase um pouco mais difícil de compreender (principalmente na última estrofe).

É justamente a natureza, aliás, como fica evidente na última estrofe, que ajuda o eu lírico a se distrair e esquecer um pouco da solidão deixada pela tal paixão acabada.

Para coroar toda a letra da música, temos que levar em conta, ainda, o ritmo da música e a forma como ela é cantada pelo próprio compositor. Palavras faladas aos poucos, num crescendo que acompanha o ritmo.

Agora me conte: você ainda acha essa canção tão estranha assim?

Para fechar com chave de ouro e, como de costume, te deixo com a música em questão, para que você possa ouvir e curtir.

O caminho que me leva até você — Tayana Alvez

Título: O caminho que me leva até você. 
Autora: Tayana Alvez 
Editora: publicação independente 
Páginas: 417 
Ano: 2023

Sinopse

Caroline estava certa de que tinha superado o ex — até ter que entrevistá-lo e lidar outra vez com seus flertes descarados.

Grumpy/Sunshine, amor do passado, friends to strangers to lovers e só tem uma cama!

Obcecada por Fórmula 1 e por trabalho, ser promovida à repórter de campo foi um marco na vida de Caroline Pimenta. Acompanhar a carreira dos principais pilotos deveria ser uma tarefa fácil, se não fosse por Daniel Harris e todas as memórias que compartilhavam.

Muitos anos atrás, Daniel prometeu à Caroline que estariam juntos quando ele ganhasse o seu primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1. O destino parece disposto a cumprir sua promessa e juntá-los outra vez, e Daniel vê as coincidências como uma segunda chance para reconquistar a ex-namorada, ainda que ela esteja envolvida com um babaca manipulador e nem um pouco disposta a reviver aquele amor adolescente.

Quando os sentimentos mal resolvidos entram na pista, Caroline tenta focar no trabalho e deixar o passado para trás, mas o destino sempre encontra um caminho — e todas as suas rotas de fuga parecem lhe levar até Daniel Harris; o novato que ela jurou nunca mais amar.

Alerta de conteúdo: Racismo e gaslighting.

Resenha

Livros me encantam por sua capacidade de me apresentar universos com os quais não tenho muita intimidade, ampliando meus horizontes.

Outro dia mesmo, li um livro que falava sobre tênis (o esporte). Agora chegou a vez de me aprofundar um pouco na Fórmula 1.

Vale ressaltar que a autora acompanha o esporte, então a construção do cenário e o desenvolvimento dos personagens neste âmbito ficou excelente.

“No fim do dia, Fórmula 1 é ritmo”

O caminho que me leva até você nos conta a história de Daniel Harris — o Novato — e Caroline Pimenta — a Pimentinha. Ele é piloto de Fórmula 1, ela é jornalista e sonha em poder acompanhar as corridas de pertinho.

“No fundo, eu sempre soube que encontraria um caminho que me levaria até ela”

A história deles, porém, se cruza muito antes da vida adulta: Daniel e Carol se conheceram na escola e da implicância entre um e outro surgiu uma linda amizade, que virou um delicioso romance até que tudo acabou.

“Na primeira vez que falei com Carol Pimenta, eu tinha treze anos”

Quando esta narrativa começa, acompanhamos o reencontro dos protagonistas: Carol, como repórter, tem de entrevistar Daniel após sua primeira vitória na Fórmula 1. Um reencontro depois de cinco anos de uma história mal terminada.

“O tempo passa, mas ele não cura merda nenhuma. Algumas cicatrizes, por mais antigas que sejam, sempre vão doer quando pressionadas”

Este momento, claro, traz à tona muitas histórias e sentimentos que pareciam esquecidos ou superados.

“A pior parte de estar trabalhando nessas ocasiões é: estar trabalhando e precisar terminar seu expediente como se aquilo não tivesse abalado até seus ossos”

Com uma narrativa em primeira pessoa, alternada entre Carol e Daniel, página a página vamos entendendo o presente e o passado deles, enxergando o quanto a história de cada um ainda os afeta mesmo depois de cinco anos do término e desde muito antes, para ser mais exata.

“Deixo mais algumas lágrimas rolarem esperando que em algum momento o amor pare de brigar comigo e eu consiga ter uma relação que dure”

A história se desenrola em alguns meses — fazendo alguns necessários flashbacks — e se passa entre a Europa e o Brasil. Por meio das corridas, conhecemos não apenas alguns dos principais circuitos, mas também algumas belas cidades.

“Finalmente me sinto num lugar ‘diferente’, a Europa é incrível. Tecnologia de ponta em cenários que beiram o medieval, muitos castelos, ruínas, morros, parques… Apesar do clima frio, é possível lidar com a maioria dos lugares por causa do aquecedor e das três camadas de roupas que usamos”

E se só o fato de colocar protagonistas apaixonados por Fórmula 1 já não fosse o suficiente para deixar está história incrível, Tayana Alvez, como sempre, vai muito além.

“Parabéns por achar que um esporte que depende de uma equipe de 800 pessoas é um esporte individual”

A começar pelo fato de que os protagonistas são negros e, desfazendo qualquer estereótipo, provém de famílias ricas, capazes de fornecer total apoio (financeiro e material) às suas carreiras, mesmo sendo contra elas.

“Ser a decepção do papai vem com um peso, e não é todo dia que é fácil carregar”

O caminho que me leva até você também fala sobre solidão, mas não apenas a solidão da mulher negra — tema já muito bem abordado por Tayana em outras obras —, apesar dela também estar marcada ali, bem como o racismo, que a autora sempre faz questão de nos lembrar que existe e como existe.

“Eu tinha 6 anos quando percebi que estava sozinha no mundo, ter pessoas ou não ter pessoas é sempre uma questão de tempo e espaço, e agora, o Gabriel, que esteve ao meu lado no pior momento da minha vida e segurou minha mão por todos os outros, foi só mais uma pessoa que não ficou”

A solidão aqui é daquelas que talvez muitos de nós já sentimos, no passado e até no presente: a solidão de perceber que ninguém permanece, por mais que já tenha estado conosco em momentos difíceis.

“Era como se eu tivesse ficado oficialmente sozinha num mundo com sete bilhões de pessoas”

A narrativa também nos mostra que sonhos não se realizam da noite para o dia, mas que são fruto de abdicações e pequenas conquistas.

“— Às vezes, a gente precisa fazer pequenos esforços, porque as pessoas valem a pena”

Outro tema que se faz muito presente nesta obra são as relações familiares: tanto Carol quanto Daniel têm seus problemas com os pais, ainda que sintam um enorme carinho por seus progenitores.

“Sofia e Carlos só nunca souberam ser pais. Algumas pessoas simplesmente não nascem para isso”

É tocante, ainda, a forma como a autora trata a força, as dores e os sentimentos de Carol. Um livro que nos mostra que somos construídos de altos, baixos e imperfeições e que nem por isso somos menos dignos de amor e respeito.

“Carol quer chorar. Ela quer muito chorar. Mas não vai. Porque a Carol não é assim e isso também dói, esse jeito supermulher dela de ser”

O caminho que me leva até você é, portanto, uma história escrita para nos apaixonar, revoltar e, claro, chorar algumas boas lágrimas, sem querer que ela acabe!

“Como é possível amar tanto uma pessoa e preferir não estar perto dela?”

Se você quiser conhecer esta história, não deixe de clicar abaixo. Ou faça ainda melhor: corra para garantir a sua edição física e com brindes, que está em pré-venda na The Books Editora até o dia 30/08.

Para ficar por dentro das novidades e, claro, saber mais sobre o trabalho da Tayana, já segue a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Citações #71 — De repente esclerosei

Uma personagem que adorei ter conhecido este ano foi a Mitali, de De repente esclerosei, da Marina Mafra. Acompanhar o seu coração sendo derretido por Dimitri e ver todas as mudanças que o seu diagnóstico trazem para sua vida tornam a narrativa muito especial.

“Sentia como se o tivesse a vida inteira e não fazia ideia de como havia sobrevivido sem ele até aqui”

Na resenha, acabei deixando, como sempre, alguns trechos bem interessantes de fora, então chegou o momento de compartilhá-los por aqui.

Mitali é uma personagem que, num primeiro momento, parece estabanada.

“O quanto de vergonha alguém pode passar e ainda continuar vivendo?”

Mas suas trapalhadas logo ganham um novo sentido: seu diagnóstico de esclerose múltipla.

“Mas o que me consumia ainda mais era como eu iria conviver comigo de agora em diante?”

Descoberta essa que vem precedida de um belo susto, ainda que, na verdade, o problema também tenha sido a aversão da protagonista a médicos..

“Eu sentia como se tivesse nascido de novo e queria aproveitar tudo”

“Caminhar ganhou um novo significado, era como viver um milagre”

Mas o livro não fala somente sobre a esclerose múltipla. Ele é também uma obra sobre o medo (não apenas de médicos, claro).

“O medo é individual”

Sobre as durezas da vida.

“Nem todos os dias são bons”

E, principalmente, sobre como outras pessoas são capazes de transformar nossa vida com tão pouco

“Algumas pessoas têm o dom de tornar o mundo melhor, não por conseguir mudar o que está ruim, mas apenas por existirem”

“Melissa não parecia ter limites para piadas e eu estava começando a amar isso”

Recomendo que você leia a resenha completa para saber melhor sobre estes e outros temas abordados na obra e, claro, que já vá garantir seu exemplar de De repente esclerosei.