Inizio

Hoje finalmente dou início a um novo espaço aqui no blog.

“Finalmente” porque era algo que eu já tinha tinha vontade de fazer, mas sempre deixava para lá e cujo desejo aumentou com minha participação em um desafio de escrita em italiano que já acabou há mais de um mês (e cujos textos — ao menos alguns — provavelmente aparecerão por aqui).

Textos perdidos será uma coluna em que escreverei textos bem livres, sobre aquilo que povoa minha mente. Mas com um detalhe em especial: os textos serão em italiano. 

A ideia é deixar que algumas palavras que me habitam ganhem vida e, ao mesmo tempo, praticar o meu italiano.

Não haverá tradução. O objetivo aqui não é ser necessariamente compreendida, apenas escrever. Portanto, só este primeiro post será nos dois idiomas. 

Espero que goste e que, quem sabe, este espaço desperte a sua curiosidade para a lingua italiana.


Oggi finalmente apro un nuovo spazio qui nel blog.

“Finalmente” perché questo era qualcosa che avevo la volontà di fare, ma sempre lasciavo per dopo e il cui desiderio è cresciuto con la mia partecipazione in una sfida di scrittura in italiano che è già finita da un mese (e i testi che ho scritto lì — almeno alcuni — probabilmente appariranno qui).

Testi sperduti sarà una rubrica nella quale scriverò dei testi liberi, su quello che c’è nella mia mente. Ma con un dettaglio: i testi saranno in italiano.

L’idea è dare vita alle parole che esistono dentro di me e, allo stesso tempo, praticare il mio italiano.

Non ci sarà la traduzione. L’obbiettivo qui non è essere necessariamente capita, soltanto scrivere. Così, solo questo primo post sarà nelle due lingue. 

Spero che ti piaccia e che, chi lo sa, questo spazio faccia nascere in te una curiosità sulla lingua italiana.

Como se fosse a casa — Ana Martins Marques e Eduardo Jorge

Título: Como se fosse a casa (uma correspondência) 
Autores: Ana Martins Marques e Eduardo Jorge
Editora: Relicário
Páginas: 48
Ano: 2017

Sinopse

Durante um mês, a poeta Ana Martins Marques alugou o apartamento do amigo e também poeta Eduardo Jorge, que viajara para a França. O imóvel fica na região centro-sul de Belo Horizonte, no edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer em 1952. Enquanto viveu ali, a inquilina trocou e-mails com o locador. As mensagens, de início, abordavam questões meramente práticas. Mas, depois, se converteram em uma troca de poemas sobre o permanecer e o partir, o morar e o exilar-se, o familiar e o estranho. Um dos méritos do livro está no fato de que ambos os poetas, apesar de escreverem a partir das provocações e evocações poéticas apresentadas pelo outro, não estabeleceram uma relação simbiótica, de perda da identidade em direção a uma linguagem comum e a uma síntese estilística. Ao contrário, a singularidade de cada um foi plenamente mantida, percepção confirmada pelo poeta Ricardo Aleixo, autor do texto de orelha da obra: “Ana e Eduardo conseguiram a proeza de compor uma obra que não apaga nem relativiza as diferenças estilísticas entre ela (sua rara aptidão para o manejo da camada fônica da palavra, com especial destaque para a composição de frases de diferentes extensões) e ele (a imageria algo desorbitada e o gosto pelas ousadas torções sintáticas)”.

Resenha

Há um ditado popular que diz que os menores frascos guardam os melhores perfumes. O que será que guardam os menores livros?

Difícil fazer generalizações, ainda mais quando falamos de literatura, mas livros pequenos podem conter grandes histórias , reflexões, aprendizados.

“Duas pessoas dançando

a mesma música

em dias diferentes

formam um par?”

Como se fosse a casa nos traz uma troca de correspondências entre dois poetas: Ana Martins Marques e Eduardo Jorge. 

Troca essa que podemos notar não apenas pela própria diagramação da obra, que utiliza cores de página diferentes para cada um, mas também pelo estilo de escrita deles.

“Ensinam algo

as estrelas

sobre a distância

algo sobre o pequeno atraso

a pequena demora

que é a leitura”

Um livro pequeno, fino, extremamente leve e de leitura confortável. Diagramação simples (o que não significa que não tenha sido extremamente pensada) e conteúdo complexo.

“Devem existir palavras apropriadas

para cada lugar”

Sem palavras rebuscadas, os versos contidos nesta obra nos transportam por uma deliciosa viagem entre o mundo palpável e aquele das ideias.

“(Conhecerão também as coisas

o cansaço?)”

Essa é uma daquelas leituras para se fazer quando precisamos desacelerar e, ao mesmo tempo, necessitamos de algo com qualidade, quando buscamos leveza e beleza.

“A cura está no tempo, dizem,

mas, ela pensa, por que não

no espaço?”

Uma obra que em sua breve extensão nos fará transitar entre duas cidades não necessariamente nomeadas e as quais, aos poucos, vão se tornando também nossas.

“moro na cidade explicada

em várias línguas

muitas delas não latinas”

Por fim, gostaria de destacar alguns versos que, infelizmente, ainda são muito atuais e que deixo aqui como uma importante reflexão da necessidade do mundo ainda funcionar assim.

“penso que só sabe da casa

quem precisa atravessar

rapidamente uma fronteira

quem fez sua casa

num país que não o quer”

Se você se interessou por esse livro, clique abaixo para saber mais.

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Citações #76 — O caminho que me leva até você

Claro que ao longo da leitura de mais uma obra da Tayana Alvez — O caminho que me leva até você, lançado este ano — eu não poderia deixar de destacar inúmeras passagens lindíssimas ou que me fizeram refletir de alguma forma.

Como não foi possível utilizar todos esses trechos ao longo da resenha, aqui vai um pouquinho mais desta história tão especial.

Uma narrativa que nos prende desde o início porque sabemos que há muita coisa no passado dos personagens que queremos descobrir.

“Não queria falar de Daniel para Miyeko. Não queria falar dele para ninguém”

“Lembrar da sensação de ser deixada numa estante pela pessoa que você mais ama na vida é doloroso, e eu engulo em seco”

Um passado coroado por uma linda história de amor…

“Eu e Caroline éramos uma coisa só. Nunca aprendemos a ser metade de algo”

“Estávamos no topo da cidade, mas qualquer lugar ao lado dela era como o topo do mundo”

“Mas é impossível estar perto de Carol Pimenta e não pensar em tudo o que eu gostaria de viver com ela”

Mas também por muita dor.

“Ouvi-la dizendo que me amava, mas não queria mais estar comigo, me destruiu para todas as outras mulheres do mundo e me entregou para a Fórmula 1”

“Só que você não volta para os braços da pessoa que te prometeu um futuro, mas não conseguia nem te oferecer o presente, não é?”

Inclusive, a obra fala muito sobre estar “quebrado” e o quanto isso interfere em nossas relações (principalmente românticas).

“Talvez o amor não compactue com pessoas quebradas tendo seus pedaços ainda mais partidos por quem diz amá-las, afinal”

“— Eu não quero me oferecer a você toda destruída”

A história também fala sobre mudanças (internas e externas).

“Existe um momento muito específico no qual, ainda que quase todas as coisas ao redor continuem iguais, tudo dentro de você muda”

“No entanto, ainda que tudo tenha mudado, nada mudou”

“Algumas coisas nunca mudam”

E sobre amizade.

“Miyeko é minha única companheira nessa estrada, não dá mais para esconder isso”

Talvez já tenha dado para notar como as relações humanas são centrais nesta história. E este é um ponto realmente abordado de várias perspectivas, nos fazendo pensar diversas vezes em como nos relacionamos com o outro.

“Assumir um momento de vulnerabilidade não quer dizer que estou pronta para ser vulnerável o tempo todo”

“A paz que te preenche e diz que, independente do que aconteça, você está segura, simplesmente, não existe”

“Talvez, ser a pessoa que sempre cede no relacionamento não quer dizer que você é resiliente”

“Estar sozinha é ruim. Sempre foi. Mas, aparentemente, sufoca menos”

“É engraçado como algumas pessoas causam sensações e trazem sentimentos mesmo que elas não estejam fisicamente com você”

“Quanta gratidão é necessária para sustentar três anos de relacionamento?”

“Nem sempre um bom diálogo e um abraço resolvem todas as coisas que estão erradas”

“A sensação de impotência não te toma por inteira quando te fazem algo muito ruim. Não, ela te invade no segundo que se percebe que não há nada a ser feito sobre isso. Não porque você não pode, mas porque ninguém se importa o suficiente com a sua dor. Assim, você luta sozinha. Mas, não é uma luta justa”

“— Perdoar o que as pessoas te fazem, Caroline, é mais sobre por que aquilo te afeta do que sobre o que eles estão fazendo”

A tristeza também tem seu espaço ao longo do texto. 

“Era como se ela fosse arte. O tipo mais triste e belo de arte”

“Literalmente, todo mundo é definido pelas experiências que viveu”

Assim como a morte, que está sempre assombrando os personagens.

“Não é o meu trabalho quem define a hora que eu vou morrer ou não, isso é departamento de Deus, do destino…”

E, como não poderia deixar de ser, há boas reflexões sobre o racismo

“Dona Sofia é uma mulher branca e loira, casada com um homem negro e com uma filha negra, se alguém entende o que o racismo pode fazer para quem se ama, esse alguém é ela”

“Não tem nada de bonito vindo do racismo. Não há nada de proveitoso que se origine no preconceito”

Espero que esses trechos tenham despertado seu interesse por esse livro. E se quiser saber mais sobre ele, não deixe de ler a resenha completa clicando abaixo.

Troféu — Leblon Carter

Título: Troféu 
Autor: Leblon Carter 
Editora: Se Liga Editorial 
Páginas: 208 
Ano: 2023

Sinopse

ELES TERÃO QUE COMPETIR POR UM TROFÉU.

Breno é o gerente de uma pizzaria no shopping; Oswaldo, de uma hamburgueria. Inimigos declarados há muito tempo, eles terão que competir por um troféu durante a semana do consumidor. Enquanto descobrem, em meio a uma guerra de comida, fantasias engraçadas e MUITA tensão sexual, uma paixão reprimida.

Resenha

Que Troféu era um enemies to lovers (ou seja, inimigos que se apaixonam), eu já sabia. Mas não esperava encontrar um protagonista tão reclamão e um “antagonista” tão querido (mesmo o livro sendo narrado em primeira pessoa, o que obviamente significa um olhar enviesado, mas que, por incrível que pareça, não foi tão negativo assim com relação ao coitado).

“Ou o Oswaldo era a pior pessoa que eu conhecia ou era a melhor. Não havia meio termo”

Breno acaba de ser promovido à gerência do Pizza Peels, pizzaria em que trabalha, na praça de alimentação de um shopping, e o momento mais aguardado do ano também chegou: a semana do consumidor.

Nesta semana, as lojas desse centro comercial fazem de tudo para vender muito e, assim, conquistar o troféu oferecido pelo shopping. 

E claro que Breno, querendo mostrar serviço e honrar o seu novo cargo, vai fazer realmente de tudo para se sair vencedor. 

“Eu queria aquele troféu e vencer a semana do consumidor. Só não queria ter que passar por cima dos meus sentimentos por causa disso”

O problema é que, bem ali,  de frente para a pizzaria, está a hamburgueria que Oswaldo gerencia a Queen Burger.

E a rixa da história não é apenas entre Breno e Oswaldo: as chefes deles já possuem uma briga muito mais antiga e esse é um mistério que nós também acabamos querendo entender melhor, o que contribui para não largarmos o livro. 

Ainda que se passe praticamente dentro do shopping, Troféu não deixa de nos lembrar que a cidade de fundo é São Paulo, o que pode arrancar boas identificações para quem conhece bem essa metrópole.

“Morar em São Paulo é entender que, a qualquer horário, de qualquer dia e em qualquer parte da cidade, vai haver dezenas de pessoas desse jeito: se apertando dentro de um ônibus, esperando na fila do banco ou tentando vaga em alguma padaria da Zona Sul”

A história se passa praticamente em uma semana, mas ela é bem intensa. Não só pela competição mencionada, mas também pelos sentimentos que vão aflorando e ganhando vida entre os dois personagens.

“Mas o fato de eu odiar clichês era porque nunca imaginei que fosse acontecer comigo, sabe? O romance fofo, a leveza nos diálogos, as brigas que, geralmente, acabavam em risadas”

Li esta história na edição física, publicada pela Se Liga Editorial e a diagramação dela é simples, mas extremamente confortável de ler e bonita. 

Além disso, o volume conta com o conto Troféu de Natal ao final, o que é uma delícia para quem, assim como eu, ainda não queria se despedir dos personagens. 

No conto, vemos a situação de Breno e Oswaldo já resolvida e temos a oportunidade de passar um natal com eles. Mas será um natal tranquilo? Só lendo para saber!

Aliás, se você se interessou por essa história, já clica no link abaixo para saber mais. Uma leitura que indico para quem está buscando algo mais leve, com a possibilidade de dar boas risadas, mas também surtar um pouco com alguns personagens no caminho.

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Italo Calvino completaria 100 anos em 15 de outubro de 2023 [tradução 34]

Introdução 

Sou apaixonada pela língua Italiana muito antes de saber que a sua literatura é extremamente rica e fascinante.

Quem acompanha este blog tem visto, aos poucos, nascerem as resenhas da tetralogia napolitana, escrita por Elena Ferrante, série pela qual tenho me apaixonado mais a cada dia (e se você ainda não viu, vem aqui ler: volume 1, volume 2, volume 3).

Mas nem só de Elena Ferrante vive a literatura italiana, felizmente. Outro escritor, para citar somente um dentre tantos que merecem atenção é Italo Calvino, que em 2023 completaria 100 anos.

Autor de diversos livros já traduzidos para o português, Calvino tinha um estilo literário plural, tendo escrito de tudo um pouco.

Como este seria o ano de seu centenário, não faltam textos e eventos em sua homenagem e, assim, achei que seria bacana trazer algo para cá.

Em meio às minhas buscas, encontrei este artigo que busca apresentar este autor através de cinco palavras

O post foi escrito por Giusi Chiofalo e publicado em 15 de outubro de 2023 no site Revista Blam. Você pode conferir o texto original clicando aqui.


Tradução

Italo Calvino é um dos escritores mais renomados e importantes da literatura italiana. Suas obras são conhecidas e traduzidas em todo o mundo e incluem romances, ensaios, escritos epistolares, traduções e músicas. Este ano festejamos o seu centenário.

Nascido em Cuba, em 15 de outubro de 1923, de pais italianos¹, passa a infância e a adolescência em Sanremo, durante a época fascista. A Segunda Guerra Mundial abala a sua vida familiar, mas fortifica a índole do escritor, levando-o a um decisivo compromisso político, alimentado pela leitura de Montale, Vittorini e Pisacane.

Italo Calvino: quem era o escritor em 5 palavras

Resistência

Na densa correspondência epistolar realizada ente Calvino e seu amigo de escola, Eugenio Scalfari, o escritor conta a própria experiência na resistência, convidando-o, dentre outras coisas, a votar pela República no referendum de 1946. Partigiano², militante no campo como porta munição, Calvino frequenta a faculdade de Letras de Torino e começa, contemporaneamente, a escrever contos e a colaborar com algumas revistas. A primeira fase da poética de Calvino é ligada ao movimento neorealista, corrente literária pós bélica de caráter antifascista. O primeiro romance A trilha dos ninhos de aranha (1947) tem como protagonista Pin, um menino que vive com a jovem irmã, que é obrigada a se prostituir para ganhar a vida. A história é ambientada exatamente no período da Resistência: “no tempo em que a escrevi, criar uma ‘literatura da Resistência’ era ainda um problema aberto” afirmará mais tarde Calvino.

Fábula 

Na metade da década de 50, Calvino se dedica à reescrita de algumas fábulas italianas populares, corrigindo erros, fazendo algumas modificações, preenchendo lacunas. Segundo o autor, as fábulas são histórias que dizem respeito ao ser humano de maneira universal, uma vez que descrevem a sua passagem pela terra em cada etapa importante e em cada fase dessa passagem: “[as fábulas] são, consideradas em seu conjunto, em suas repetições e no sempre variado leque de acontecimentos humanos, uma explicação geral da vida”. É desse mesmo período a publicação de O visconde partido ao meio (1952), o primeiro volume da trilogia (desconectada) Os nossos antepassados que com O barão nas árvores (1957) e O cavaleiro inexistente (1959), constitui um percurso alegórico dedicado ao homem contemporâneo e inspirado em Orlando Furioso, de Ariosto. Recorrem aqui temas da rebelião juvenil, do sentido da incompletude, da busca pela própria identidade individual e social.

Jogo combinatório

Da pesquisa semiológica e da proximidade com o estruturalismo derivam o conceito calviniano da escrita como jogo combinatório, um tipo de literatura experimental aprendida em Paris, graças à troca intelectual com Queneau e com o grupo literário de OuLiPo (Oficina de Literatura Potencial). As cidades invisíveis (1972) é o romance que mais sofre dessas influências e da prática de uma escrita experimental. Encontramos aqui cinquenta e cinco descrições de cidades imaginárias, divididas em macronúcleos: a cidade e a memória, os sinais, o desejo, os olhos, as trocas, o céu, o nome, os mortos. Calvino se inspira n’As viagens de Marco Polo, e considera o leitor uma espécie de marionete a ser controlado e conduzido a seu bel prazer a lugares extraordinários, que representam cada aspecto da realidade: o livro é “para quem está sempre em outro lugar, para quem quer fugir do congestionamento do passado, do presente e do futuro, que bloqueia as existências calcificadas na ilusão de movimento”.

Literatura 

“Sabe-se que é um autor que muda muito de livro para livro. E justamente por essas mudanças se reconhece que é ele”. Assim escreve Calvino em Se um viajante numa noite de inverno (1979), um dos últimos romances, que amarra em uma única história os incipit de dez narrativas, intercaladas com as reflexões dos personagens, um Leitor e uma Leitura. Trata-se de um livro dedicado, de fato, à leitura, uma espécie de obra-manifesto na qual a experiência estilística e a reflexão hermenêutica encontram uma expressão completa e literária. Mas o volume que condensa o pensamento teórico literário de Calvino é certamente Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas, resultado das aulas preparadas para um curso na universidade de Harvard, em que o autor associa as potencialidades e a plasticidade da palavra a temas só na aparência abstratos: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Coerência (somente projetada) são os títulos dos tantos capítulos que compõem o volume, publicado postumamente em 1988.

Fama

Após a sua morte, que aconteceu em 6 de setembro de 1985, alguns amigos de Calvino — entre os quais Natalia Ginzburg, Norberto Bobbio, Lalla Romano, Cesare Segre e Massimo Mila — fundam o prêmio Italo Calvino, que se tornou um dos mais importantes reconhecimentos literários italianos. Em Cuba também foram instituídos prêmios e associações em sua memória. Ainda hoje, ler Calvino é uma experiência iluminadora, não apenas pelo talento no uso da linguagem e a experimentação constante que caracteriza a construção de suas histórias, mas pela capacidade com a qual este autor soube fazer da literatura um instrumento para adestrar o mundo à leveza, “porque leveza não é superficialidade, mas plainar sobre as coisas, não ter pedras no coração”.

Italo Calvino: os primeiros livros para ler e conhecer este autor

  • Il sentiero dei nidi di ragno, Mondadori, 2012
  • Le città invisibili, Mondadori, 2022
  • Se una notte d’inverno un viaggiatore, Mondadori, 2022
  • Lezioni americane. Sei proposte per il prossimo millennio, Mondadori, 2022
  • I nostri antenati, Mondadori, 2023
  • Gli amori difficili, Mondadori, 2023

Notas da tradução

1. A cidadania italiana é de tipo ius sanguinis, ou seja, é considerado cidadão italiano aquele que, independentemente de onde nasceu, tem pais de origem italiana. Por esse motivo, mesmo nascido em Cuba, Calvino é italiano.

2. Os partigiani eram civis que lutaram contra o governo fascista e as posições da Itália na Segunda Guerra Mundial. Uma tradução possível para esta palavra seria “guerrilheiros”.


Conclusão 

Acho que o texto deixa claro a multiplicidade de Calvino, o que contribuiu enormemente para seu sucesso. 

Espero que esta tradução tenha despertado o seu desejo de conhecer o autor (caso ainda não conheça) ou de retomar seu contato com suas obras (caso já tenha lido algo dele).

Aliás, se já leu algo de Calvino, comenta aqui o que foi e o que achou!

 

Tarsila — Mary del Priore

Título: Tarsila: uma vida doce-amarga 
Autor: Mary del Priore 
Editora: José Olympio 
Páginas: 143 
Ano: 2022 

Sinopse

A premiada historiadora Mary Del Priore apresenta aqui uma biografia breve de uma das artistas mais geniais do modernismo: Tarsila do Amaral. Criadora de pinturas icônicas, que se confundem com uma estética canônica da representação do Brasil – a paisagem, a gente, as festas, o trabalho e os costumes –, Tarsila é um dos nomes mais aclamados na história da arte brasileira e, ao mesmo tempo, um vulto cuja vida íntima é pouquíssimo conhecida.

Criada em uma família conservadora, dona de terras no interior de São Paulo, Tarsila rompeu, no início do século XX, as barreiras do moralismo de sua época para se tornar uma artista mundialmente conhecida. Engana-se, porém, quem acha que ela teve uma vida apenas gloriosa. Desilusões amorosas e traições, ataques à sua arte e à sua honra, julgamentos reacionários à sua tentativa de romper com a vida burguesa e até mesmo acusações de que seria colaboradora da polícia política de Getúlio Vargas são indicações da coleção de infortúnios que a assombraram em vida.

O estilo de escrita de Mary Del Priore nos aproxima de Tarsila de forma ímpar. A narração desta biografia alia o lirismo da contação de histórias ao rigor da pesquisa em arquivo, e vai trazendo, aos poucos, sabores que sustentam um perfil incomum da grande modernista – tanto na revolução iconográfica que suas imagens representaram quanto na invenção de uma nova posição para a mulher na sociedade paulistana.

Tarsila: uma vida doce-amarga é uma oportunidade única de conhecer de perto uma das artistas mais queridas pelo público, em uma leitura prazerosa, repleta de revelações. E ricamente ilustrada por dois cadernos de imagens com fotos raras de Tarsila e os principais destaques na imprensa sobre sua produção.

Resenha

A cada dia torna-se mais óbvia, para mim, a importância da arte em nossas vidas e, sobretudo, a importância de se aprender sobre arte na escola.

Quando ainda estava na pré-escola, me lembro de ser apresentada a Tarsila do Amaral. Chegamos (os alunos, no caso), inclusive, a pintar o Abaporu

Desde então, passei a admirar esta pintora, que só depois vim a descobrir que nascera na mesma cidade de meu pai.

“Em carta à família, datada de 19 de abril de 1923, Tarsila declarava: ‘Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser pintora da minha terra”

Tarsila, uma vida doce-amarga foi um livro emprestado por minha tia e sobre o qual eu não sabia o que esperar. Assim, não haviam expectativas sobre ele, só a curiosidade de poder saber mais sobre essa artista que tanto gosto.

Escrito por uma historiadora, o livro não está dividido em capítulos: é um único texto, que pode ser lido em um fôlego só (não é um livro tão longo assim), ou, como fiz, aos poucos, cabendo ao leitor o momento certo de fazer uma pausa.

“Não cabe ao historiador julgar a obra pictórica de Tarsila. Há outros especialistas para fazê-lo. Mas é ao historiador que cabe interpretar os longo anos em que ela ficou esquecida e ignorada”

Apesar de não ser um texto literário e eu ter algumas ressalvas a ele (sim, cabe uma leitura com certo olhar crítico), a leitura foi muito gostosa. Para além de saber mais sobre uma de minhas pintoras favoritas, também me deparei com tantos outros nomes conhecidos, como Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Brecheret, Drummond… Sem contar a oportunidade de visitar uma São Paulo antiga, dominada pelos barões do café e grandes casarões. 

“No saguão, os quadros de Anita e as esculturas de Brecheret. No ar, poemas de Manuel Bandeira e música de Heitor Villa-Lobos, ambos recebidos com vaias”

O título da obra foi certeiro: ao longo das páginas sentimos alegrias e tristezas vividas por Tarsila. Os bons momentos e aqueles mais difíceis. Uma história tantas vezes esquecida ou mesmo desconhecida.

“Tarsila sofreu a intolerância de uma sociedade que vivia de aparências. Hipócrita. De homens e mulheres machistas. Gente que só reconheceu seu talento e suas qualidades depois que ela sorveu os frutos mais amargos da vida”

Isso me lembra, inclusive, que este ano tive a oportunidade de visitar o Cemitério da Consolação e um dos primeiros túmulos que busquei por lá foi o de Tarsila. Não encontrei. Não havia nada, uma plaquinha sequer, que indicasse que ali estava enterrada esta grande pintora.

“Conta-se que ela vivia no mundo da lua e se refugiava na música”

Uma leitura interessante para quem quer conhecer um pouco mais sobre Tarsila do Amaral e seu tempo, mas ressaltando que, apesar de escrito por uma historiadora, há pontos que deixam a desejar quanto às informações trazidas. Um livro para ser lido com um olhar crítico e ser usado como uma entrada nesse universo tão vasto.

Se você se interessou por essa obra, clique abaixo para saber mais sobre ela. 

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Citações #75 — Romance concreto

Quer conhecer um pouco melhor a obra Romance concreto, da Aimee Oliveira? Então acompanhe esses trechos que ficaram de fora da resenha!

O livro fala muito sobre o uso doentio de redes sociais, tanto é que um dos sentidos de “concreto” é justamente o daquilo que está para além das telas: o mundo real.

“O mundo é tão maior do que uma tela…”

“A maioria das coisas é assim. A vida é mais bonita quando a gente joga uns efeitos”

“Não era sempre que uma coisa que não envolvesse notificações captava minha atenção por completo”

“Passei tempo demais encarando a tela do computador, cuidando dos meus perfis sem me lembrar que existia um mundo inteiro em volta”

Claro que esse vício e essa alienação interferem — e muito — em nossas relações sociais, e isso é muito trabalhado ao longo da narrativa.

“Era fácil deixar os problemas de lado em meio à rotina”

“Às vezes as pessoas simplesmente precisavam de um lembrete de que você ainda estava viva”

“Não foi fácil tomar a decisão de ir até ela. Eu podia ter ignorado o seu sofrimento, assim como ela fez com o meu”

“— Acho que tudo é consequência do que a gente faz, sabe?”

Olivia Liveretti é uma protagonista quase insuportável: mimada e extremamente preocupada com sua imagem e seus seguidores. 

“Ora essa, eu era Olivia Liveretti, eu não fazia ameaças vazias.  Tinha uma reputação a zelar”

“Além do mais, eu gostava de pensar que eu era melhor que isso. Mas não tinha certeza se era”

“Não era um saco quando algo que você fazia por prazer virava uma obrigação?”

“Uma estranha satisfação tomou conta de mim por saber que eu não era a única a pensar as coisas horríveis que eu pensava”

“Minha vida estava se transformando em algo que eu nunca achei que se transformaria”

“Assim como todo ser humano no mundo, eu detestava ser julgada”

“— É um saco quando o seu máximo não é suficiente pra realizar seu sonho”

“Entendia como podia ser chato quando alguém, vindo absolutamente do nada, tentava ocupar seu espaço”

“Tentei melhorar minha postura, mas era muito difícil me concentrar na minha aparência quando tudo dentro de mim estava despedaçando igual uma geleira no aquecimento global”

Aos poucos, porém, vamos percebendo que Olivia é apenas uma garota que, com seus erros e acertos, está apenas tentando viver sua vida como uma pessoa normal.

“Aquele mundo não me pertencia mais. A cada esquisitice aquilo ficava mais claro para mim”

“É que não foi no Twitter, foi na rua mesmo, na vida real. Esse lugar esquisito em que não dá para desfazer as ações”

“A melhor maneira de se sentir normal, era fazer coisas normais”

“Eles eram tão legais… Mereciam ter tudo o que quisessem, por mais difícil que fosse”

“Todo mundo diz coisas que não deveria de vez em quando”

“Nada como uma boa dose de paranoia para dar um gostinho a mais ao café da manhã”

“Até porque, não tinha como negar que andava tão satisfeita com a vida que até deixei as insatisfações de lado”

“Não era nada fácil bancar a superior. Principalmente porque eu também estava me sentindo pra baixo”

“Era sempre bom ter algum tipo de proteção contra o mundo quando ele ameaça te esmagar”

Justamente por ser tão humana quanto qualquer outra pessoa, Olivia merece também ser amada. O amor, portanto, não poderia ficar de fora deste livro, que além de tudo se chama Romance concreto também por fazer um jogo com o trabalho do par romântico de Olivia. 

“O que uma voz rouca sussurrada no ouvido de uma pessoa não faz”

“Houve dias que cheguei a pensar que esse tipo de gente só existisse na ficção”

“Era uma pena que ainda não existisse uma unidade de medida para aferir intensidade de um sorriso”

“Era muito difícil ficar congelada enquanto se está queimando por dentro, mas foi o que aconteceu comigo” 

“A gente precisava correr o risco, porque existia uma mínima possibilidade de dar certo”

“Felicidade não era algo que conseguia ser pausado, não era um vídeo no YouTube”

“Quando foi que você começou a ficar com medo de finais felizes?”

Por falar nisso, dá para não se apaixonar por Jonas?

“Nem todo mundo tinha a sorte de ser tão querido quanto ele”

“O cheiro de xampu do cabelo dele funcionava como uma barreira antiestresse ao meu redor”

“Mas acho que o meu preferido era o jeito em que ele se desdobrava em mil para ser um bom trabalhador, um bom estudante e um bom filho, sem perder nenhum tempo reclamando do esforço enorme que aquilo deveria ser”

Romance concreto, claro, traz altas doses de confusão, com boas pitadas de drama.

“Aquele era um ótimo momento para ficar invisível. Momentos de confusão geralmente eram”

“Eu só conseguia olhar pro rosto decepcionado dele e me sentir pequena”

“Não pensei que desse para se sentir pior do que eu já estava, mas pelo visto dava, sim. As palavras de Jonas me machucaram igual uma navalha, cortando meus sentimentos”

“Não adiantava parar o furacão quando ele já tinha destruído tudo o que eu mais prezava”

Outra temática muito importante é, sem dúvidas, o poder da influência, mas também da união das pessoas.

“Era muito mais fácil testar o poder da palavra falada com as pessoas quando sabíamos exatamente onde encontrá-las”

“Quando as pessoas falavam que juntas elas eram mais fortes, elas não estavam de brincadeira”

Se você acha que essa história pode te interessar, vem ler a resenha completa!

Querido Ex, — Juan Jullian

Título: Querido ex, (que acabou com a minha saúde mental, ficou milionário e virou uma subcelebridade) 
Autor: Juan Jullian 
Editora: Galera Record 
Páginas: 181 
Ano: 2020 

Sinopse

Querido ex conta em primeira mão os relatos de um jovem cuja vida está sendo definida por um catastrófico acontecimento: seu ex-namorado virou, da noite para o dia, a maior celebridade do país”

A única coisa pior e mais desastrosa do que levar um pé na bunda, é levar um pé na bunda e ver seu ex se tornar a maior subcelebridade do Brasil. Não só isso, mas assistir em tempo real enquanto ele se apaixona por outro cara em TV nacional. Poucas palavras conseguem expressar esse nível de decepção amorosa. Nem mesmo Taylor Swift seria capaz de entender.

Mas é justamente a tentativa de colocar a dor em palavras, reunidas em cartas para o maldito ex, que faz com que nosso protagonista repense algumas coisas. Entre crises de luto e saudades, existem festas anuais do dia dos ex-namorados com todas as suas amigas que o seu ex detestava. Existe a vida que você deixou para trás enquanto amava alguém que agora é somente um estranho com milhões de seguidores. E talvez por trás daquele amor existisse também um tanto de controle, de gaslighting, de codependência.

Além de abordar de forma sensível, irônica e crua as diferentes nuances de um relacionamento abusivo, Querido ex também traz questionamentos sobre os preconceitos sociais que jovens negros e gays estão sujeitos em nossa sociedade. Publicado originalmente de forma independente, o livro vendeu mais de 20 mil exemplares e ficou mais de 100 dias seguidos no 1° lugar dos mais vendidos na categoria LGBT da Amazon.

Resenha

Pensei que a leitura de Querido ex, pudesse ser catártica e, de início, realmente foi, mas depois percebi que algumas histórias são muito mais complexas e dolorosas e que, portanto, não tenho como me identificar com elas (ainda bem?), apenas compreendê-las.

“Escrever estas cartas é minha última tentativa de superar tudo o que passou, uma última tentativa de deixar para trás você por inteiro”

A ideia do livro é muito interessante: após um término difícil de superar, o protagonista decide escrever cartas aos seu ex, numa tentativa de colocar em palavras aquilo que está dentro de si e de compreender o que ele está vivendo.

“Eu tentei parar de pensar em você, parar de pensar em nós, parar de sentir. Mas nesses meses sem você eu corri uma maratona sem nunca sair do lugar. Estou exausto, estagnado”

Por meio dessas cartas, conhecemos melhor o protagonista. O de hoje, o que namorou o tal ex, e o de antes desse relacionamento.

“Passei dois anos tentando me encaixar em você, na sua vida, nos seus planos, nos seus desejos, e do que adiantou?”

Antes de namorados, os personagens foram bons amigos. Mas relacionamentos podem nos mostrar facetas de uma pessoa que antes não imaginávamos existir.

“Nos tornamos menos que amigos. Nos tornamos estranhos”

Aos poucos vamos recebendo mais detalhes sobre essa amizade e sobre o relacionamento que ela gerou, além de conhecer melhor as características de cada um dos personagens, o que levanta uma questão importante para a obra: o racismo.

“E por que será que você se preocupava tanto com a impressão alheia sobre nossa imagem como casal? Por eu ser preto e ter um cabelo maravilhosamente crespo, enquanto você ostenta sua pele pálida, um corpo magro definido por horas diárias de crossfit e cachos”

Mas a distância (física e emocional) também faz o protagonista perceber o quão abusivo era aquele relacionamento, narrando inclusive episódios que podem ser gatilho para algumas pessoas.

“Não. Independentemente do que viesse a acontecer, eu não conseguiria esquecer”

Mesmo com a história sendo contada por apenas um dos lados, porém, é possível perceber como nenhum deles (afinal ambos são humanos) tem total razão: o narrador assume alguns de seus erros ao longo das cartas e é interessante poder ver também essa sua faceta ao longo do livro.

“E eu pedi desculpas. Desculpas por tudo que eu não fui, por tudo que eu não fiz”

O fato da história ser composta por cartas, além de alguns outros acontecimentos ao longo deste livro, nos lembra de uma coisa muito importante: o poder da escrita, principalmente como uma forma de compreender nossa história e nossos sentimentos.

“Uma narrativa tem o poder de agregar pessoas, de fazer com que problemas sejam amenizados através da identificação mútua, de superar a solidão e de nos ajudar a encontrar a libertação”

A necessidade de se reencontrar também se faz presente, como não poderia deixar de ser em uma história como essa. O autor inclusive nos lembra da importância de nos conhecermos melhor antes de entrar em um relacionamento. 

“E eu me perdi no meio desse caminho. Só que estou começando a me achar”

O tempo é bem marcado pela data das cartas, claro, mas mesmo os acontecimentos anteriores que nelas são contados também seguem uma ordem cronológica fácil de acompanhar.

“Eu deveria ter respeitado meu tempo. Eu deveria ter crescido antes de engatinhar na sua direção”

O final me surpreendeu. Não sei bem o que eu estava esperando dele, mas com certeza não o que veio. Um final que choca (mas, infelizmente, não surpreende). 

“Olhando para trás agora, eu deveria ter notado que o fim era somente uma questão de tempo”

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Sangrando — Gonzaguinha

Outro dia, ouvindo a música Sangrando, fiquei com vontade de trazê-la aqui e já não sei mais direito o motivo, para além do fato de ser uma linda canção.

A música em questão faz parte do disco de Gonzaguinha De volta ao começo, lançado em 1980.

Os primeiros versos da canção introduzem de maneira poética o seu argumento central: a necessidade de colocar em palavras aquilo que está dentro de nós e, principalmente, que as pessoas compreendam essas palavras, que busquem o significado daquilo que está sendo dito, pois também fiz respeito a elas (e às suas lutas). 

Em se tratando de uma música cantada, também podemos interpretar esses primeiros versos como um eu-lírico cantor que está, ali, falando sobre a necessidade de cantar e ser cantado.

Quando eu soltar a minha voz

Por favor entenda

Que palavra por palavra

Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca, peito aberto

Vou sangrando

São as lutas dessa nossa vida

Que eu estou cantando

Vale lembrar que o verbo “sangrar” — que sozinho dá nome à canção — não significa apenas “derramar sangue”, mas também “dilacerar”, “entristecer”, “atormentar”, definições que também se encaixam nesta música.

Lá para o meio da canção, chegamos ao ápice do sentimento e da força do cantor. E ele ainda afirma que as palavras contidas nessa letra são também fruto do que ele vive e de como tudo isso é intenso e verdadeiro.

Quando eu abir minha garganta

essa força tanta

Tudo que você ouvir,

esteja certa

que estarei vivendo

Veja o brilho nos meus olhos

e o tremor nas minhas mãos

E o meu corpo tão suado,

transbordando toda raça e emoção

Por fim,  os versos finais, com o que resta de força, o cantor reitera mais uma vez que o que ele retrata ali é a sua vida e, acrescenta, o seu amar.

Cantar é o que move o eu lírico dessa canção e, ao final da música, há também um apelo para que todos nós cantemos, porque é isso que move aqueles que vivem de produzir e reproduzir músicas. 

E se eu chorar

e o sol molhar o meu sorriso

Não se espante, cante

Que o teu canto é minha força pra cantar

Quando eu soltar a minha voz

por favor, entenda

É apenas o meu jeito de viver

O que é amar

É possível extrapolar a música para além desse arte: todo artista vive daquilo que produz e precisa ser apreciado e consumido, não apenas para ter seu retorno financeiro, mas também para ter forças para continuar. 

Se quiser ouvri a música completa, é só dar o play abaixo! E depois não esquece de me contar o que achou (não só da música, mas também do texto trazido aqui).

Storia di chi fugge e di chi resta — Elena Ferrante

Título: Storia di chi fugge e di chi resta: tempo di mezzo 
Autora: Elena Ferrante 
Editora: E/O Edizioni 
Páginas: 382 
Ano: 2013
Título em português: História de quem foge e de quem fica: tempo intermédio 

Sinopse

A continuação do aclamado A amiga genial. No terceiro volume da série napolitana, Lenù e Lila partem para os embates da vida adulta. Numa sequência angustiante e sem espaço para a inocência de outrora, Elena Ferrante coloca o leitor no meio do turbilhão que se forma das amizades, das relações sociais e dos interesses individuais. História de quem foge e de quem fica é uma obra de arte a respeito do amor, da maternidade, da busca por justiça social e de como é transgressor ser mulher em um mundo comandado pelos homens.

Resenha

Concluída a leitura de mais um volume da tetralogia napolitana, tudo o que consigo pensar é “caramba, não é a toa que isso aqui fez/faz tanto sucesso”. 

Antes de continuar com qualquer comentário, porém, gostaria de lembrar que, em se tratando de uma resenha do terceiro volume de uma série, as chances deste post conter spoilers são altas, então prossiga na leitura por sua conta e risco.

Também aproveito para relembrar que li a história em italiano e que os trechos em português que aparecerem ao longo desta resenha foram traduzidos por mim, estando os originais ao final do post, na ordem que forem utilizados por aqui. E se quiser ler minhas resenhas anteriores, basta clicar aqui e aqui.

Agora sim: vamos ao que interessa!

Neste terceiro volume, temos uma Elena mais madura e, devido ao distanciamento (principalmente físico) de Lina, mais livre das influências (que ainda não vejo com bons olhos, mesmo que agora a Lina esteja levemente menos impalatável para mim) da amiga.

“Sabia com clareza, agora, que cultivar a nossa amizade só era possível se segurássemos nossas línguas”.

Ainda assim, é notável a dependência que nossa autora protagonista tem com relação a esta personagem e o quanto isso molda seu caráter e suas ações.

“Aceitar que eu era uma pessoa mediana”

Os assuntos abordados neste volume não são menos pesados que os vistos anteriormente, se fazendo ainda mais presente as questões políticas da época.

“Bons ou maus, os homens acreditam que cada tarefa deve colocá-los em um pedestal como São Jorge matando o dragão”

Consequentemente, se discute muito sobre máfia e fascismo e o quanto as relações sociais e políticas estão à mercê de forças violentas como essas.

“Quantas pessoas que foram crianças conosco não estavam mais vivas, desaparecidas da superfície terrestre por causa de doença, porque os nervos não aguentaram a dureza dos tormentos, porque o sangue delas foi derramado”

O medo também não poderia deixar de se fazer presente em um contexto tão duro. Lenù teme pelas pessoas que ama, de diferentes formas. Teme por Pietro, por suas filhas, por seus amigos e parentes, por si mesma.

“Assim que eu descia do trem, me movia com cautela nos lugares em que cresci, tomando o cuidado de falar sempre em dialeto, como se para mostrar ‘sou uma de vocês, não me façam mal'”

Ah, sim, nossa protagonista se casa e se torna mãe ao longo deste volume. Também com medo, não só pelas violências, mas por aquilo que ela se tornará a partir do momento em que passar a viver na pele este novo papel: o que ela terá de deixar de lado? O que será da vida dela dali para frente? Ela está pronta para isso?

“Era urgente que eu me habituasse, portanto, àquele novo pertencimento, em especial eu deveria ter consciência dele”

E a solidão bate forte à sua porta. Um retrato fiel do que significa ser mãe para muitas mulheres, ainda hoje.

“eu estava grávida pela segunda vez e, no entanto, vazia”

Inclusive quase não há personagens novos neste livro, ainda que (ou justamente por isso) Lenù viva boa parte da história longe de Napoli.

“Me sentia frágil e sozinha”

Em Storia di chi fugge e di resta continua a se fazer central as relações sociais e os laços que fazemos e desfazemos ao longo da vida.

“Mas o costume de fazer confissões tão bem articuladas, nós duas, com quase vinte e cinco anos, não possuímos”

Este volume começa com a lembrança de que toda a história foi escrita anos depois dos acontecimentos narrados, a partir de um desaparecimento de Lila. Mas ao longo dessas páginas, que logo voltam ao passado que nos está sendo apresentado, percebemos diversos outros momentos de aproximação e afastamento entre Lila e Lenù e também entre outros personagens da série.

“Que lembrança conservava do nosso amor, admitindo que conservasse alguma?”

Em vários momentos somos relembrados, também, do papel central que os estudos têm nesta história. Sua importância para que a protagonista possa ir muito além, o que inclusive dá vida ao título deste livro.

“O essencial era sair de Napoli”

Ao mesmo tempo, porém, há uma forte crítica à “hipocrisia acadêmica”, ao fato de que muito se fala, muito se teoriza, mas pouco há de concreto ali para uma sociedade regida pela violência.

“Vocês professores insistem tanto no estudo porque com isso ganham o pão, mas estudar não serve para nada, nem mesmo nos melhora, pelo contrário, nos torna ainda mais malvados”

E, como não poderia faltar, ainda mais no momento em que Lenù se torna realmente adulta, deixa suas origens, se casa, tem filhos e redescobre o amor, Storia di chi fugge e di chi resta faz boas críticas à sociedade machista em que vivemos. 

“Uma comunidade que acha natural sufocar com o cuidado dos filhos e da casa tanta energia intelectual feminina, é inimiga de si mesma e nem mesmo percebe”

Se você se interessou por este livro, adquira sua edição em português clicando no link ao final deste post. Antes, porém, deixo aqui os trechos originais das passagens usadas ao longo da resenha:

“Sapevo con chiarezza, ormai, che coltivare la nostra amicizia era possibile solo a patto che tenessimo a freno la lingua”

“Accettare che ero una persona media”

“Buoni o cattivi, gli uomini credono tutti che a ogni loro impresa devi metterli su un altare come san Giorgio che ammazza il drago”

“Quante persone che erano state bambine insieme a noi non erano più vive, sparite dalla faccia della terra per malattia, perché la nervatura non aveva retto alla carta vetrata dei tormenti, perché era stato versato il loro sangue”

“Appena scendevo dal treno, mi muovevo con cautela nei luoghi dove ero cresciuta, badando a parlare sempre in dialetto come per segnalare sono dei vostri, non mi fate male”

“Era urgente che mi abituassi dunque a quella nuova appartenenza, soprattutto ne dovevo avere consapevolezza”

“Ero per la seconda volta pregna e tuttavia vuota”

“Mi sentivo fragile e sola”

“Ma la tradizione per confidenze così articolare noi due, a quasi venticinque anni, non ce l’avevamo”

“Che memoria conservava del nostro amore, ammesso che ne conservasse ancora una?”

“L’essenziale era andarmene da Napoli”

“Voi professori insistete tanto sullo studio perché con quello vi guadagnate il pane, ma studiare non serve a niente, e nemmeno migliora, anzi rende ancora più malvagi”

“Una comunità che trova naturale soffocare con la cura dei figli e della casa tante energie intellettuali di donne, è nemica di se stessa e non se ne accorge”

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