Um reconhecimento ao trabalho sério

Edição que veio com erro

Talvez você tenha estranhado o título desse post, mas ele é o exato resumo do que eu vim fazer aqui. Só que, antes de mais nada, preciso contar uma historinha para vocês. Vamos nessa?

No último natal eu ganhei um livro que queria muito ler. Bem, na verdade eu ganhei vários livros no final do ano passado, então esse livro em questão eu só peguei para ler em fevereiro desse ano. O livro era o “A redoma de vidro”, escrito por Sylvia Plath. A edição era da Biblioteca Azul, selo pertencente à Globo Livros. Pois bem, eu estava lendo tranquilamente o livro quando, de repente, ele pulou da página 32 para a página 65. Fiquei muito surpresa (e triste) na hora. Ainda fui olhar o restante do livro e, da página 65 ele seguia normalmente até a página 96 e voltava para uma página 65 para então ir normal até o final. Nada das páginas que deveriam existir entre a 32 e a 65.

Minha primeira medida foi enviar um email através do fale conosco da editora. No site, encontrei apenas um fale conosco geral, nada específico para o selo Biblioteca Azul. Esperei alguns dias e nada de retorno. Acabei fazendo alguns stories pelo Instagram do blog, mas sem retorno também. Depois de algum tempo, enviei um novo email pelo fale conosco da editora. Em seguida, resolvi tentar outros canais de contato da editora — já que obviamente eles devem receber milhares de emails diariamente e o meu provavelmente passaria desapercebido novamente —, enviando mensagem pelo twitter e pelo Facebook. E funcionou! Responderam minha mensagem no Facebook.

Mas… (toda história tem seu mas).

A pessoa que me respondeu disse que o livro estava esgotado na editora. Que azar!

Mas… (muitas histórias também têm o mas do final feliz).

A Globo Livros estava fazendo uma nova edição do livro e eu só precisava passar meu endereço para que eles enviassem um exemplar para mim quando ficasse pronto! Eu, já meio descrente da situação toda, passei meu endereço. Só que o livro ainda não estava pronto, aquele era um dos milhares canais de comunicação da Editora e eu era só mais um ser humano reclamando de algo na vida. De qualquer forma pensei em ficar de olho, quando soubesse do lançamento do livro, eu poderia entrar em contato de novo.

Algum tempo depois, vi que a editora anunciou a nova edição de “A redoma de vidro” e pensei “opa, o lançamento deve estar perto, preciso ficar de olho”. Não precisei. Sem que eu esperasse, o livro chegou em minha casa. Lindo, novinho e… COMPLETO!

E por que eu resolvi vir aqui contar tudo isso? Porque eu senti a necessidade de compartilhar essa história com vocês e agradecer à Globo Livros pelo atendimento. Em tempos de tanta reclamação, tanta crítica e tanta crise, é importante darmos valor a um trabalho bem feito, a um cuidado com os leitores. E que, ao invés de apontarmos apenas os erros, possamos aplaudir os acertos também.

Eu já li muitos outros livros dessa editora (aqui no blog mesmo tem resenha de um monte deles), publicados pelos mais variados selos dela e, por isso, fiquei surpresa com o erro de impressão do meu exemplar de “A redoma de vidro”. Porém a editora não me deixou na mão e eu só tenho a agradecer pelo excelente trabalho que eles realizam.

Citações #20 — Quando a neve cair

21 August 2014

Se você me acompanha por aqui já deve ter percebido que eu amo um bom romance e que com Quando a neve cair não foi diferente. Lançado em 2019, de forma independente, pela autora Cínthia Sampaio, o livro se mostrou uma leitura leve e recheada de sentimentos.

“Aquela felicidade de ter apenas o momento para se viver e nada mais com que se preocupar”

Ainda que seja um romance intenso, Quando a neve cair fala sobre muitas coisas mais. Um dos principais pontos do livro, por exemplo, é a amizade:

“Sinto como se tivesse falhado como sua amiga e tenho medo de que não exista nada que eu possa fazer para você me perdoar”

E mesmo quando a autora fala sobre o amor (romântico), ela lembra que a amizade é imprescindível.

“Os casais mais apaixonados eram melhores amigos antes de tudo”

Por outro lado, às vezes podemos nos sentir sozinhos mesmo em meio a muitas pessoas. Isso porque nenhuma delas, ao menos naquele momento, é capaz de aplacar a nossa dor.

“Quando estamos sofrendo, nós nos sentimos sozinhos até em uma multidão”

Existem diversos motivos pelos quais podemos sofrer e não encontrar ajuda tão facilmente, mesmo quando há pessoas nos estendendo a mão. Isso porque, antes de mais nada, precisamos confiar para aceitar que alguém nos ajude.

“Confiar o coração a outra pessoa era uma tarefa muito árdua”

Essa passagem aí de cima nos leva a outra, em que a protagonista questiona se o amor deve ser algo difícil. E lembre-se: o amor verdadeiro não deve ser difícil. Não deve doer, não deve nos deixar inseguros.

“Será que o amor deveria mesmo ser assim? Deixar-nos rodeados de inseguranças e desespero?”

Como eu disse, Quando a neve cair é um livro recheado de sentimentos. Apesar dos vários momentos alegres, há, também, muita mágoa e arrependimento ao longo das páginas (coisa que talvez já tenha ficado claro com alguns dos trechos acima…).

“Eu sabia que minhas palavras feriam, mas era a verdade. E a verdade doía”

O que eu mais gostei no livro, porém, para além de tudo o que eu já falei, foi a reflexão da autora sobre a questão do que as pessoas consideram “felicidade” para as mulheres.

“Por que as pessoas achavam que para as mulheres serem felizes precisavam necessariamente estar em um relacionamento? Por que achavam que o nosso maior sonho era ter filhos?”

Quantas vezes já não nos perguntamos isso, não é mesmo?

Mas claro que eu também amei uma passagem em que a Luíza conta sobre sua época de escola e acho que eu nem preciso explicar muito o motivo de ter gostado:

“Na verdade, o que eu mais gostava na escola era de me esconder na biblioteca e viajar nas páginas de um livro, imaginar os personagens e viver, nem que fosse por algumas horas, naquele mundo fantástico, onde poderia matar monstros, ter superpoderes, salvar vidas, lutar com espadas e salvar pessoas à beira da morte”

Mas Maria Luíza não tinha superpoderes e quase no final do livro acontece uma reviravolta e tanto. E, sem dar spoilers, termino essas citações com uma bela passagem, para que fique a reflexão:

“Como éramos pequenos naquele mundo enorme. Não importava se éramos ricos ou pobres, baixos ou altos, se tínhamos estudo ou não. Quando algo assim acontecia, não éramos ninguém”

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Meu menino vadio – Luiz Fernando Vianna

Título: Meu menino vadio - histórias de um garoto autista e seu pai estranho 
Autor: Luiz Fernando Vianna
Editora: Intrínseca
Páginas: 205
Ano: 2017 (1º edição)

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O primeiro livro que li sobre autismo foi O que me faz pular (Naoki Higashida) e, a partir daí, passei a me interessar muito pelo assunto. E se menciono isso agora é porque este livro também é citado em Meu menino vadio, escrito por Luiz Fernando Vianna, pai de Henrique, um jovem autista: 

“Sei que há quem me veja, antes de tudo, como pai de autista. É um personagem que não me incomoda, mas no qual nem sempre me reconheço”

Meu menino vadio (p.18)

Se ter um filho autista já é complicado por si só, para Luiz Fernando Vianna a situação era ainda mais difícil: fruto de um relacionamento conturbado, Henrique cresceu no meio de um fogo cruzado e acabou sendo levado por sua mãe e seu padrasto para a Austrália. O autor do livro lutou para que seu filho continuasse a morar no Brasil, mas o resultado foi apenas mais um imenso desgaste.

“A justiça brasileira não é para principiantes”

Meu menino vadio (p.13)

Depois de anos vivendo na Austrália, a família de Henrique muda-se novamente, mas dessa vez para os Estados Unidos. Neste ponto da vida do jovem, outra grande mudança acontece também: se antes ele apenas passava as férias com o pai, no Brasil, agora ele começaria a passar um ano com cada um de seus pais. Sim, isso mesmo: um ano no Brasil, um ano nos Estados Unidos. Se para qualquer ser humano isso já é extremamente complicado, imagina para um menino com autismo.

Os capítulos de Meu menino vadio são curtos e escritos numa linguagem fácil de ler. A história, por sua vez, é capaz de despertar diversos sentimentos em nós, além de ser um texto atual e que nos faz refletir sobre o modo como agimos também.

“Não guardamos segredos, mas gritamos. Não registramos na memória, mas fotografamos. Não refletimos, mas opinamos”

Meu menino vadio (p.115)

Vianna também consegue mesclar muito bem seus perrengues, as dificuldades do filho, informações importantes e estudos sobre autismo, tornando o livro extremamente informativo e, ao mesmo tempo, gostoso de ler.

Outro ponto interessante do livro é que os títulos de todos os capítulos possuem inspiração musical, nos aproximando ainda mais do autor da obra. Ao final do livro, podemos encontrar uma lista das músicas que serviram de inspiração.

Eu acabei adiando e adiando essa resenha e, no final das contas, ela veio parar em abril, mês da conscientização sobre o autismo. Além desse post, em breve farei mais um sobre o tema, não perca!

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Tatianices recomenda [7]

Hoje trago a vocês mais uma dica cultural!

Se você gosta de musicais e mora em São Paulo (capital) ou arredores, recomendo a peça Meu destino é ser starem cartaz no Teatro Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569 – 7° andar). E se você gosta de Lulu Santos, provavelmente se lembrou de uma certa música dele com esse nome. Acertou em cheio: Meu destino é ser star é um musical que nos apresenta a história de alguns jovens que buscam seu espaço no ramo do teatro musical,  e suas histórias são contadas através das músicas de Lulu Santos.

Se você não conhece muito da obra de Lulu Santos, ou mesmo não é tão fã assim, não se preocupe: essa peça também é pra você. A narrativa nos traz muitas reflexões interessantes e os arranjos das músicas ficaram de arrepiar. Os atores são extremamente talentosos e a produção está de tirar o fôlego.

O musical vai ficar pouco tempo em cartaz aqui na cidade: apenas até dia 14 de abril. Então bora correr pra assistir! Os espetáculos ocorrem às sextas (20hrs), sábados (16hrs e 20hrs) e domingos (19hrs). Algumas das apresentações também contam com interpretação em libras!

Os ingressos variam entre R$25,00 (a meia-entrada mais barata) e R$150,00 (a inteira mais cara). Eu fui assistir o musical com minha amiga, que me indicou a peça, e meu namorado. Compramos os ingressos mais baratos, mas como o teatro estava até que vazio, conseguimos nos sentar mais à frente. Se, por um lado, isso foi ótimo para nós, por outro lado, achei uma pena ver o teatro tão vazio. A produção desse espetáculo com certeza não foi fácil, então espero que eles tenham mais público nas próximas sessões!

O demônio do campanário – Michelle Pereira

Título: O demônio no campanário
Autor: Michelle Pereira
Editora: Independente
Páginas: 285
Ano: 2017 (1º edição)

I am a tree Strong limbed and deeply rooted My fruit is bittersweet I am your mother

Antes de dizer qualquer coisa sobre O demônio no campanário eu preciso pedir que vocês não tenham preconceito com o título: a história não é aterrorizante. Aliás, eu quase me vi torcendo pelo tal demônio, coisa que eu jamais esperaria/imaginaria dizer.

De um lado temos Evangeline Lions — ou Eva — uma jovem de 17 anos que estuda em um bom colégio e tem amigos que são quase como irmãos, além de pertencer a uma rica família. Mas, como sempre, dinheiro não é felicidade: o pai de Evangeline quase nunca está em casa, e quando está, vive brigando com a esposa, até que um dia eles resolvem se separar e a vida de Eva vira de cabeça para baixo.

“Senti raiva da minha mãe por me condenar a viver confinada neste lugar, enquanto ela aproveitava o dinheiro do divórcio com meu pai no litoral de algum país exótico”

Eva vivia com a mãe até que esta, após a separação, decide aproveitar a vida e, para isso, envia Eva para o colégio interno do Convento Senhora das Dores.

“Fiquei pensando em todas as coisas que deixei para trás. Meu quarto, meus pertences, minha casa, meus amigos…”

É muito doido pensar que essa história se passa na atualidade. Acho que não estou acostumada a pensar em meninas indo estudar em conventos. Do lado do convento Senhora das Dores ainda tem um monastério, onde diversos meninos estudam. E isso traz boa parte do romance de O demônio no campanário, porque, no final das contas, as meninas do convento se relacionam com os rapazes do monastério, uma vez que existem ocasiões em que eles se encontram, como a missa dominical, ou as gincanas esportivas que ocorrem aos sábados . Uma loucura!

“Estudar em um convento dá a falsa impressão de rigidez e punição”

Loucura maior, porém, é pensar que na torre do sino da igreja — ou seja, no campanário — mora um demônio.

“Dizem as más língua que muitos anos atrás, sei lá, talvez na década de 50, um demônio começou a rondar o Convento em busca de almas para corromper e acabou instalando-se no campanário”

Eron, o demônio, precisa se alimentar do sangue de jovens virgens para sobreviver. Ele é um íncubo, que é um tipo de demônio que entra no sonho das pessoas a fim de atraí-las para si. Eu nem sabia que essa categoria de demônio existia de verdade (não que eu conheça categorias de demônio), mas Michelle realmente fez um trabalho e tanto, pensando em cada detalhe da história!

“Ele era um íncubo, como eu, um demônio que se alimenta das paixões humanas”

E por falar em detalhes, Michelle descreve os personagens de maneira que conseguimos visualizá-los em nossa mente, o que achei incrível.

Mas, voltando à história, Eva chega ao convento triste e revoltada com tudo o que perdera, mas ali ela faz novas amizades e vive uma infinidade de coisas, inclusive se apaixonando. Duas vezes.

“Eu queria tudo de volta. Mas a vida muda. E nós mudamos com ela”

Joan, Cristal e Carol são as novas amigas de Eva. Juntas, elas vivem as diversas aventuras que o convento lhes propicia. E, apesar do local sagrado, há espaço para inimizades também, e não estou nem falando da presença de Eron aqui!

“Mas, afinal, quem sou eu para julgá-los? Sou um demônio instalado no campanário de uma casa de Deus, pronto para deflorar a primeira virgem que passar por mim”

A narrativa de O demônio no campanário vai se alternando entre Eva e Eron, mas alguns outros personagens também ganham voz ao longo do livro, em capítulos surpreendentes. Em meio a essa narrativa alternada, vamos acompanhando as tentativas de Eron em atrair Eva, enquanto vamos descobrindo os sentimentos e os altos e baixos de Eva sob o ponto de vista dessa garota que, aos 17 anos de idade se vê obrigada a se adaptar a uma nova vida.

“Sempre tive uma dificuldade imensa em me sentir bem em meio a um mar de gente desconhecida”

Quando eu digo que quase me vi torcendo por Eron é porque ele também tem as inimizades dele e sua única chance de liberdade é conquistar Eva. Por outro lado, ele é um demônio!! Sem contar que Eva conhece um dos jovens do monastério que merece uma chance, muito mais que Eron…

Eu realmente me surpreendi (positivamente) com essa história. Quando terminei de ler, depois de devorar os últimos capítulos até saber como tudo acabaria, eu ainda fiquei com os personagens na cabeça por dias e dias. Eu sentia vontade de continuar acompanhando os passos de Eva e suas amigas — ainda que Joan e Carol fossem muito fofoqueiras —, queria saber mais sobre o que vinha depois, sobre como as coisas poderiam prosseguir depois de tantos acontecimentos marcantes.

O demônio no campanário é uma leitura que nos prende por ter mistérios na medida certa, adrenalina e romance, além de falar sobre amizade. Fora que, sendo o íncubo um demônio capaz de adentrar nossas mentes e manipular nossos pensamentos, fiquei refletindo sobre o quanto não seria isso uma metáfora para nossos próprios medos e inseguranças. Uma leitura que eu realmente indico e que, repito, não irá te deixar apavorado (a) e que, portanto, você pode ler tranquilo (a).

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citações #19 — Adelphos

Citações #19

Quem leu a resenha de Adelphos deve ter percebido o quanto amei esse livro. Escrito por M. Pattal e publicado em 2016 pela PenDragon, Adelphos é um livro de fantasia que consegue dosar muito bem ficção e realidade.

A resenha desse livro ficou bem grandinha e, ainda assim, muitas passagens ficaram de fora. Mas também, como abarcar tudo o que está contido em um livro que fala sobre amizade, justiça, humildade, perseverança e tantas coisas mais?

Por exemplo, logo no início do livro recebemos uma bela lição no quesito vingança:

“Decisões tomadas pela vingança geralmente são insensatas” (p.74)

Ou seja, não devemos nos guiar pelas “brilhantes ideias” que temos quando estamos tomados pela raiva. Ao contrário: devemos deixar que nossa cabeça esfrie e nossa mente clareie. Essa também é uma mensagem importante para a história que vemos em Adelphos e isso nos leva a outro trecho do livro:

“Se você estiver magoada com alguém, é necessário perdoá-la e não esperar que o tempo resolva as coisas. O tempo não resolve nada, quem resolve é você” (p.221)

Ah, sim, esqueci de avisar que Adelphos é tapa na cara atrás de tapa na cara!

Mas, falando em tempo…

“— Você pode possuir muito pouco ou quase nada em relação aos bens materiais, mas sempre terá o mesmo tempo que qualquer pessoa no mundo” (p.220)

Bom, a passagem acima pode ser problemática se a levarmos para o lado da meritocracia, mas não a vejo assim. A questão é que não é apenas com bem materiais que trilhamos nosso caminho. Precisamos de tempo e experiência para crescermos e isso, todos temos igualmente, mas nem todos o usam com sabedoria (alô, procrastinação). E ainda nessa linha, falando sobre tempo, outra passagem excelente:

“Ficarmos presos ao passado nos impede de viver o presente e de construir o nosso futuro” (p.337)

Somos quem somos por tudo o que vivemos, mas não podemos deixar que as coisas ruins do nosso passado afetem nossas escolhas presentes e nos impeçam de crescer. Está certo que o ser humana consegue ser bem cruel, por vezes…

“Com as pessoas é diferente. Basta uma falha com alguém para que nos descartem. E não apena isso, se não correspondemos às expectativas de alguns, já não servimos para nada, somos desprezados” (p.98)

É por isso que o mundo precisa de mais empatia e de mais humildade. A humildade, aliás, vem muito bem definida em Adelphos:

“Ser humilde é colocar o outro em primeiro lugar. Por isso condenamos o ato de diminuir as pessoas, para nós todas têm a sua importância e um propósito neste mundo” (p.149)

E a gente nunca sabe pelo que o outro está passando não é mesmo? Por falar nisso, eu comentei que Adelphos abarca muitos assuntos, certo? Pois então, na história também há muitos sentimentos. Por isso, termino esse post (que já está ficando imenso) com uma passagem belíssima, para que possamos sempre nos lembrar do poder das lágrimas:

“— As lágrimas não são nossas inimigas. Elas nos ajudam a externar nossas emoções e evitar que implodamos por dentro” (p.318)

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Ensinando a transgredir – bell hooks

Título: Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade
Original: Teaching to transgress
Autor: bell hooks
Editora: WMF Martins Fontes
Páginas: 283
Ano: 2017 (2º edição)
Tradução: Marcelo Brandão Cipolla

O livro Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, escrito por bell hooks, é um livro de ensaios tanto para alunos quanto professores. Isso porque a autora fala sobre o tema apresentando tanto suas reflexões, quanto suas vivências com os mais diversos alunos e espaços de ensino.

“Com estes ensaios somo minha voz ao apelo coletivo pela renovação e pelo rejuvenescimento de nossas práticas de ensino”

Ensinando a transgredir (p.23)

Antes de falar sobre a obra, porém, gostaria de falar um pouco mais sobre a autora. Isso porque vocês talvez estejam se perguntando porque estou escrevendo o nome dela com iniciais minúsculas. Em primeiro lugar, trata-se de um pseudônimo: bell hooks é, na verdade, Gloria Jean Watkins. Mas se escrevo esse pseudônimo em letras minúsculas é porque está escrito assim na capa do livro. Intrigada com isso fui pesquisar e descobri que a autora faz isso para valorizar o conteúdo de suas obras e não a pessoa que as escreve.

“A sala de aula não é lugar para estrelas; é um lugar de aprendizado”

Ensinando a transgredir (p.216)

Para além desse curioso fato, bell hooks é uma escritora e professora universitária norte-americana nascida na zona rural do sul dos EUA. Se destaco esses elementos da biografia da autora é porque eles nos ajudam a compreender essa obra. Ela estudou em escolas públicas para negros, por ter crescido em uma época em que ainda havia segregação racial. Na adolescência, passou a estudar em escolas mistas e sentiu a discriminação com intensidade.

“Cheguei à teoria porque estava machucada — a dor dentro de mim era tão intensa que eu não conseguiria continuar vivendo”

Ensinando a transgredir (p.83)

A despeito de ser mulher, negra, pertencente à classe trabalhadora (assim denominada por seus conterrâneos), bell hooks prosseguiu seus estudos até o fim, tornando-se professora universitária, contrariando inclusive suas próprias expectativas.

“Eu tinha medo de ficar presa na academia para sempre”

Ensinando a transgredir (p.9)

O livro possui 14 capítulos, além de contar com uma interessante introdução. Os textos são bem diferentes uns dos outros e há dois capítulos em que há uma espécie de diálogo.

“A voz engajada não pode ser fixa e absoluta”

Ensinando a transgredir (p.22)

No primeiro desses capítulos em forma de diálogo, bell hooks dialoga consigo mesma. Mas esse capítulo merece destaque por outro motivo também: ele fala sobre Paulo Freire. Sim, o “nosso” Paulo Freire! Para bell hooks esse teórico é de grande importância em sua jornada, tendo sido uma enorme inspiração e salvação para a autora. Ainda assim, ela consegue analisar a obra de Paulo Freire de maneira crítica, o que torna esse capítulo ainda mais interessante.

O segundo “diálogo” do livro aparece somente no décimo capítulo, e se dá entre bell hooks e Ron Scapp. O título do capítulo é “A construção de uma comunidade pedagógica” e é delicioso de ler, pois dá para perceber que há muita química entre o pensamento deles.

“Queria incluir aqui esse diálogo porque ocupamos posições diferentes”

Ensinando a transgredir (p.176)

Em Ensinando a transgredir, bell hooks fala sobre muitas temáticas — como o a necessidade da pedagogia engajada, o multiculturalismo em sala de aula, a necessidade da teoria e o valor da prática, a experiência, a importância da língua, a primordialidade de levarmos em consideração que um professor não é somente uma mente, mas um corpo na sala de aula — mas, certamente, os temas que mais ganham espaço nessa obra são o feminismo e a questão negra. Ou, melhor ainda, o feminismo negro. Eu, que nada sei sobre o assunto, pude me beneficiar imensamente dessa leitura, mas confesso que me deliciei ainda mais com todas as reflexões sobre o ensino — e o ensino como prática da liberdade — presentes nessa obra.

“A educação como prática da liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender”

Ensinando a transgredir (p.25)

Ensinando a transgredir é uma leitura que eu sem dúvidas recomendo. Seja para professores que ainda têm medo/dúvidas sobre como ensinar de maneira transformadora/sensível/aberta, seja para alunos que estão acostumados demais a um ensino quadrado e pouco reflexivo. A primeira edição (em português) dessa obra é de 2013 e, no entanto, li como se tivesse sido escrita ontem. Um livro necessário em tempos de crise (na educação e no mundo).

TAG dos 10 livros

TAG dos 10 livros

Durante o final de janeiro e o começo de fevereiro, participei daquela TAG que rolou no Facebook dos 10 livros que marcaram minha trajetória como leitora. A ideia era a seguinte: durante dez dias eu deveria publicar a capa de um livro que me marcou, sem dar explicações sobre a escolha. Tarefa duplamente difícil: escolher APENAS 10 livros e ainda não poder justificar a escolha de cada um deles. É por isso que hoje eu venho aqui “quebrar” essas regras, apresentando a vocês os livros que fizeram parte dessa lista e justificando minhas escolhas.

O primeiro livro, como não poderia deixar de ser, foi A princesinha (Frances Hodgson Burnett), pelo “simples” fato de que devo ter lido esse livro umas 4 ou 5 vezes e porque com ele eu entendi a necessidade de contarmos histórias. Ah, e também foi nessa história que ouvi falar pela primeira vez em “Bastilha”.

O segundo livro foi Pippi Meialonga (Astrid Lindgren), que também me ensinou muito e me acompanhou durante o início dessa jornada como leitora. Foi uma obra muito marcante pra mim.

No terceiro dia eu coloquei a capa de Comédias para se ler na escola (Luís Fernando Veríssimo) porque além de ter lido esse livro mais de uma vez, já usei diversas crônicas dele para diversos trabalhos/projetos/aulas.

Depois foi a vez de Luna Clara & Apolo Onze (Adriana Falcão), livro lido mais de uma vez também. Uma obra encantadora!

Chegando na metade da TAG, o quinto livro foi O diário de Anne Frank (Anne Frank). Já falei milhares de vezes sobre esse livro aqui no blog. O que o torna tão marcante pra mim é o fato de que ele me abriu as portas para livros sobre o Holocausto, que me ensinam demais e que sempre procuro ler.

O sexto livro escolhido foi Fazendo meu Filme (Paula Pimenta), porque além de ter amado a leitura, foi a partir daí que pensei em ter um blog (no caso o meu primeiro blog, que depois excluí).

Em seguida foi a vez de Gol (Luigi Garlando), uma série infanto-juvenil italiana que amei ler. Uma leitura leve, que fala sobre amizade, que me deu vontade de jogar futebol e que me fez praticar o italiano que estava enferrujado.

O oitavo livro foi Quincas Borba (Machado de Assis), porque eu não poderia deixar de lado esse escritor e porque eu sempre acho que Quincas Borba fica meio esquecido em relação às outras obras do autor.

No nono dia eu optei por 1984 (George Orwell), a primeira distopia que me lembro de ter lido. Ou seja, outro livro que me abriu portas.

Por fim, para fechar a TAG, escolhi Se questo è un uomo (Primo Levi), porque, novamente, é literatura italiana, além de falar sobre o Holocausto. Li esse livro duas vezes (porque usei em um trabalho da faculdade) e leria de novo.

E para vocês, quais são os 10 livros que marcaram suas trajetórias como leitores?

 

 

 

O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Título: O cão que guarda as estrelas
Original: Hoshi Mamoru Inu
Autor: Takashi Murakami
Editora: JBC
Páginas: 124
Ano: 2014
Tradução: Denis Kei Kimura

Quem acompanha esse blog sabe que essa é a primeira resenha que faço de um mangá. Isso porque não costumo ler mangás. Porém, ganhei esse do meu namorado e me aventurei nesse universo literário.

Antes que vocês se perguntem por que meu namorado meu deu um mangá se eu não costumo ler mangás, posso adiantar algumas coisas: em primeiro lugar a capa. Girassóis são importantes para nós; em segundo lugar, nunca é tarde para ler algo diferente, não é mesmo? Fora isso, ele descobriu depois o significado do título e concordamos que é lindo. Segundo a explicação da propria epígrafe do livro:

“Hoshi mamoru inu”: em tradução literal, o cão que guarda as estrelas. É uma expressão japonesa usada para descrever uma pessoa que quer algo impossível. A origem vem da imagem do cachorro que fica olhando o céu como se desejasse a estrela”

Este mangá encontra-se divido em 4 partes, além de ter um posfácio. Ele é narrado por um cachorro que vai contando sua vida ao lado, em primeiro lugar, de sua família: Miku — uma garotinha —, papai e mamãe (é assim que Happy, o cachorro, os chama).

“Quando as coisas vão mudando aos poucos, depois de alguns anos, acabam mudando bastante”

O cão que guarda as estrelas (p.16)

Um belo dia, porém, mamãe  decide se separar de papai, que passa a viver com praticamente nada. Ele perde seu lar, sua família e muitos pertences. As poucas coisas de valor que lhe restam são Happy e seu carro, que eles utilizam para empreender uma longa viagem.

“Às vezes as pessoas culpam os outros pelos seus fracassos para se sentirem melhor”

O cão que guarda as estrelas (p.42)

É essa viagem que acompanhamos até o final da terceira parte desse mangá, chegando ao desfecho da história de Happy e papai. Lado a lado eles vão atravessando o Japão, até que, sem dinheiro e sem documentos, passam a viver definitivamente no carro.

“Não estou triste porque ele roubou meu dinheiro, mas sim porque ele não consegue mais confiar nos outros”

O cão que guarda as estrelas (p.39)

A quarta parte conta uma outra história, que, no entanto, se cruza com a história de papai Happy. E essas histórias se cruzam justamente no ponto em que termina a história de nossos protagonistas.

Por ser um mangá, li a história rapidamente. Não posso negar, contudo, que me emocionei bastante. É uma narrativa cheia de altos e baixos e muito sentimentalismo. E uma história que fala, acima de tudo, sobre sonhos, como já indicava o título.

“Você deseja, deseja e mesmo assim não consegue realizar. Mas é por isso que continua sonhando”

O cão que guarda as estrelas (p.121)
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Quando a neve cair – Cínthia Sampaio

Título: Quando a neve cair
Autor: Cínthia Sampaio
Editora: independente
Páginas: 399
Ano: 2019 (1º edição)

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(para ler ao som de Gostava tanto de você)

Quando a neve cair é um romance e tanto. E o melhor: não é nada previsível! Em diversos momentos da leitura eu pensava “agora vai acontecer isso” ou “fulano vai aparecer agora”, mas acontecia algo totalmente inesperado ou aparecia quem eu nem imaginava que apareceria. Fora que a personagem principal parece ter uma raiva — ainda que muito bem justificada — que não é comum em mocinhas de tantos romances que vemos por aí. Os sentimentos transbordam nesse livro.

“Era um alívio não sentir raiva, dor, tristeza e solidão”

Maria Luíza — a narradora protagonista — é uma jovem que nasceu e cresceu em Nova Aliança, uma pequena cidade. Luíza (como é chamada a personagem ao longo da história), apesar de ter crescido em meio a uma sociedade conservadora e até mesmo retrógrada, tem o sonho de viajar, conhecer novas culturas e pessoas.

“Na cidade que nasci, sonhar era praticamente pecado, e eu, a louca que queria mudar as regras de tudo”

Luíza tinha uma vida pacata, rodeada de amigos queridos. Amanda era sua melhor amiga desde sempre e a implicância de Arthur, irmão mais velho de Amanda, com Luíza se transformou em um amor e tanto, um relacionamento que todos acreditavam que daria em casamento. Mas, nem tudo são flores…

Luíza ganha da tia um intercâmbio para a França. Seis meses em que seu sonho se tornaria realidade. Quando vai contar a novidade para Arthur, porém, tudo começa a ruir. O relacionamento dos sonhos termina ali.

“Eu não poderia culpá-lo por uma decisão minha. Mas ele aceitou tão facilmente, como se não importasse, como se me perder não significasse nada”

Luíza viaja arrasada para a França. Arthur terminou com ela sem deixar que ela explicasse coisa alguma. Afinal, seriam apenas seis meses afastados, mas conversando todos os dias. Por que um término tão abrupto?

E o pior: ao chegar na França, Luíza descobre que todos os seus amigos lhe viraram as costas. Com isso, aqueles seis meses iniciais viram 5 anos na França. Sozinha, amargurada, mas ao mesmo tempo crescendo e construindo uma nova vida.

“Arthur rompeu qualquer ligação existente entre nós e me deixou do lado de fora da muralha que ele havia criado para separar qualquer pessoa que pudesse afetá-lo”

Quantas coisas podem acontecer em cinco anos? É isso que Luíza irá descobrir quando retornar para Nova Aliança, para as Bodas de Prata de seus pais. E é nesse ponto que realmente começa a história que acompanhamos ao longo do incrível Quando a neve cair.

“O mundo enorme não me assustava, mas ter que enfrentar as pessoas que deixei para trás me fazia tremer de medo”

Como Nova Aliança era uma cidade pequena e Luíza passaria cerca de um mês lá, obviamente ela reencontraria seus velhos amigos.

“Sentia que nada mais poderia ser como antes”

Uma das primeiras pessoas que Luíza encontra é, sem dúvidas, Amanda. E é através das conversas delas e dos demais personagens que aos poucos vão aparecendo, que podemos reconstruir o que aconteceu nos cinco anos em que Luíza esteve distante de Nova Aliança. Amanda faz de tudo para reaproximar todos (ou quase todos) e, assim, vamos conhecendo Angélica, Rômulo, Suzana, Felipe, Melissa, Eric… Enfim, cada pessoa que fez parte da vida de Luíza. E claro, temos a oportunidade de conhecer melhor Arthur.

“Eles esqueceram o significado da palavra ‘amizade’ quando me deixaram de lado sem nenhuma explicação”

Por vezes, pode ser que o leitor tenha vontade de bater nesse mocinho, mas a verdade é que achei Arthur um personagem bem coerente, agindo de acordo com seus medos e sentimentos. Quem merece apanhar na história é outra personagem… (mas só lendo para descobrir!).

Para mim, além de todas as emoções despertadas, ler Quando a neve cair também foi interessante por conta desse dilema de Luíza ter passado tanto tempo fora e ter de redescobrir seu antigo mundo. Confesso que sempre tive certo receio de intercâmbio pelo medo de perder coisas importantes em seis meses. Imagina se esses seis meses se multiplicam, tornando-se cinco anos, ainda mais quando ninguém mais fala contigo realmente! É assustador e eu não queria estar na pele de Luíza.

“Se nem eu era como antes, por que queria que um lugar fosse?”

Agora, se vocês querem saber “se” e “como” Luíza e Arthur se entendem novamente, só lendo o livro. E garanto que vocês não vão se arrepender. Eu recomendo muito Quando a neve cair para todos que buscam uma leitura intensa, mas fácil; surpreendente e linda. É um livro perfeito para quem gosta de romance, intrigas, amizade e sonhos. E, de certa forma, sobre autoconhecimento também. A diagramação do livro está incrível e torna a leitura ainda mais prazerosa.

“Não era possível uma pessoa que viajou para vários países e conheceu tantas pessoas e culturas, estivesse fadada a ficar com a mente e o coração presos em um só lugar”

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