Desmistificando o mestrado [13] — Avaliação CAPES

Chegou o meu momento de falar sobre algo que provavelmente é bem desconhecido/ incompreendido entre os alunos de pós-graduação, mas que, ao mesmo tempo, tem uma grande importância. E eu tive o privilégio de aprender quase na prática sobre como isso funciona.

Como vocês viram no título, hoje é dia de falar sobre a avaliação da CAPES. Mas o que é isso? Para que serve? E o principal: o que você, aluno, tem a ver com isso? Bem, vamos por partes.

Para começo de conversa, o que é CAPES?

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), é um órgão do Governo Federal — ligado ao Ministério da Educação — que visa promover e manter a qualidade das pessoas envolvidas na pesquisa científica e educação superior brasileiras. Para isso, portanto, tal órgão precisa realizar avaliações periódicas, as tão temidas Avaliações CAPES.

Por que temidas? Bem, em primeiro lugar porque elas são confusas e trabalhosas! E o que eu quero dizer aqui é que as pessoas diretamente envolvidas com um programa de pós-graduação — isto é professores, funcionários e alunos — têm de fazer uma série de coisas que, no final das contas vão facilitar um pouco o trabalho da CAPES. E essa série de coisas culminam no relatório CAPES (mas calma, daqui a pouco a gente chega nele).

A avaliação CAPES é dividida em duas: a Coleta CAPES, que acontece anualmente e a Avaliação Quadrienal que, como o próprio nome já diz, acontece a cada quatro anos (e aliás, 2020 encerra mais um quadriênio da CAPES… Que ano para isso, né?).

As avaliações anuais são mais um “acompanhamento” do que está acontecendo e uma preparação para a avaliação quadrienal, que é de extrema importância para os programas de pós-graduação. É na avaliação quadrienal que os programas recebem o conceito CAPES, que é uma nota que, de certa forma, determina o reconhecimento daquele programa. Mas também é algo que vai muito além disso. Veja:

Para os programas de mestrado, o conceito máximo é 5 e a classificação se dá da seguinte maneira:

Conceitos 1 e 2: um programa que recebe um desses conceitos é CANCELADO. Isso mesmo, para de existir e ser reconhecido. Começaram a perceber a importância dessa avaliação?

Conceito 3: o programa é SATISFATÓRIO, ou seja, pode existir e funcionar, mas tem que melhorar muito.

Conceito 4: o programa tem um bom desempenho, mas não é exatamente “de excelência”.

Conceito 5: o sonho distante de muitos, um programa de qualidade reconhecida pela CAPES e qualquer outra instituição.

Olhando só essas informações vocês talvez pensem: bom, então o ideal é ter uma nota 4 ou 5, sendo que não faz tanta diferença assim uma ou outra. ERRADO. Porque esses conceitos não são apenas uma questão de dizer “olha, parabéns pelo trabalho de vocês”. Eles determinam a verba que poderá ser destinada ao seu programa. Sim, estamos falando de bolsas de estudos e de financiamento de pesquisas, de participações em eventos científicos e tudo o mais.

E por que as avaliações CAPES são confusas e trabalhosas? Bem, imaginem que uma avaliação desse porte, para ter alguma eficácia, precisa analisar muitos pontos. Além disso, com o intuito de cada vez mais aprimorar essa avaliação, ela está constantemente mudando. Ou seja, em um determinado ano os avaliadores dão mais importância a determinado ponto do relatório CAPES e, no ano seguinte, é outro elemento que ganha essa importância. Acontece que o que é avaliado é fruto de ao menos um ano inteiro de trabalho, então não é tão fácil assim se adequar a regras e conceitos que sequer sabemos exatamente quais são.

Um exemplo mais concreto: imaginemos que na coleta do ano passado a CAPES avaliou melhor programas com um bom número de publicações em revistas científicas. Ótimo, então este ano vamos investir em publicações! Mas aí, próximo à nova coleta, descobre-se que, este ano, programas que investiram no seu relacionamento com a sociedade terão uma avaliação melhor. E aí, como é que fica?

E para vocês terem uma ideia, aqui vão algumas das coisas avaliadas pela CAPES: publicação de artigos (tanto por parte dos professores quanto por parte dos alunos), quantidade de alunos e a quais linhas de pesquisa eles pertencem, pessoas que já não são alunos (os egressos) e no que elas atuam, integração da pós-graduação com a graduação e com a sociedade, intercâmbios, eventos, histórico do programa, disciplinas dadas…

O documento de referência para analisar tudo isso é o tal do Relatório CAPES, um documento extremamente extenso (como bem se pode imaginar) e que deve ser redigido anualmente.

E agora a grande pergunta que não quer calar: onde entram os alunos nisso tudo?

Quem melhor do que você para dizer o que fez durante o ano e que possa ser importante para o seu programa de pós-graduação? Quem melhor que você para dizer a quais eventos científicos foi, que monitorias deu, como está o andamento da sua pesquisa, que outros projetos realizou?

O que os programas fazem — ao menos o meu e muitos outros da universidade que frequentei — é solicitar, ao final do ano, que os alunos preencham um formulário com todas essas informações, facilitando, assim, a escrita do relatório CAPES, uma vez que, claro, esses formulários já são separados de acordo com os tópicos necessários para a redação do relatório. Porém, ajuda ainda mais quando os alunos preenchem o formulário corretamente e com as informações completas.

Como e por que eu sei de tudo isso? Porque fui estagiária do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Italianas e por dois anos seguido ajudei na elaboração do relatório CAPES. Muitas das coisas que fiz foi um trabalho meramente braçal, de copiar as informações dos formulários e organizá-las de forma a ajudar na elaboração do relatório. Mas em alguns momentos também tive de bancar a detetive para compreender informações incompletas.

E tem outra coisa: imaginamos que nossas obrigações terminam quando entregamos a dissertação, mas, como egressos de um programa de pós-graduação, precisamos atualizar nossas informações para o relatório capes por mais cinco anos (afinal, tem o item que avalia o que estamos fazendo depois de termos conquistado nosso título de mestre, para averiguar a relevância deste em nossa carreira). Só que as pessoas esquecem/não sabem disso e aí temos de ficar correndo atrás de cada uma, como se todo o resto já não fosse trabalho suficiente.

Gostaria de encerrar esse post com um conselho e uma dica:

Conselho: mantenha o seu Lattes atualizado. Isso é ótimo não apenas para ajudar a você mesmo com o preenchimento do formulário para o relatório CAPES, mas também para a sua vida acadêmica, afinal esse é o seu “perfil profissional”, requisitado inclusive em concursos públicos.

Dica: faça um “diário CAPES“, isto é, crie um documento ou uma pasta e anote TUDO o que você fizer e que tenha relação com seu mestrado, sua pesquisa, sua vida acadêmica. Se você já conhecer o formulário que terá de preencher depois e ainda conseguir organizar suas informações na ordem certa e com as informações necessárias, melhor ainda. Isso vai tem poupar muito tempo e evitar muita dor de cabeça. Pense que, geralmente, o formulário é enviado no final do ano, naquela época mais corrida, mais cheia de festas. Então, como sempre, não deixe tudo para o último momento.

Desmistificando o mestrado [12] — Bolsa de pesquisa

Receber uma bolsa para realizar sua pesquisa é um sonho para muitos pesquisadores: poder dedicar-se exclusivamente aos estudos, sem o medo das contas no final do mês. Sabemos, porém, como este é um assunto cada vez mais delicado no Brasil. Principalmente para os cursos das áreas de humanas.

Eu tive a sorte/privilégio de ter uma bolsa durante o meu mestrado. Três meses após o início da contagem de tempo da minha pesquisa, fui contemplada com uma bolsa CAPES-DS (Demanda Social).

Por que trago o nome da bolsa que recebi? Porque sim, existem bolsas diversas. As da CAPES, por exemplo, são geridas pelo governo, isto é, são eles que determinam quantas serão concedidas, como devem ser distribuídas. Mas, na Universidade em que estudei, também haviam bolsas da própria instituição (isto é, a instituição destinava parte de seus recursos para pesquisa). Existem, ainda, as bolsas da FAPESP. E, com certeza, muitas outras. Essas são as que me lembro no momento (e talvez as mais conhecidas).

Destaco aqui essas diversas possibilidades, porque sei, também, que cada uma funciona de uma maneira e eu não tenho como falar sobre cada uma delas, apenas sobre a que tive durante a minha jornada.

Quando fui informada que havia sido contemplada com uma bolsa de pesquisa, tive cerca de 48 horas para confirmar o meu interesse na mesma e, principalmente, preencher, assinar e reconhecer firma dos documentos! E sim, infelizmente tudo tem de ser rápido, caso contrário perde-se a mesma. E não é por maldade, mas é que no caso de uma bolsa CAPES entende-se que se ela não tem “dono” é porque o Programa de Pós-Graduação não precisa dela. E que Programa não precisa de bolsas para seus estudantes?

Depois, com tudo certo, eu não poderia ter nenhum outro vínculo empregatício enquanto tivesse a bolsa e, semestralmente, deveria enviar um relatório com o andamento da pesquisa.

Tal relatório não precisava ser muito extenso, mas deveria conter: disciplinas cursadas no semestre (com toda a bibliografia da mesma, carga horária, nota obtida, quantidade de créditos, forma de avaliação e importância da mesma para a pesquisa desenvolvida); atividades (participação em eventos, artigos submetidos ou publicados e outras atividades relacionadas ao âmbito acadêmico e pertinentes à pesquisa); andamento da pesquisa (um breve comentário sobre o que foi desenvolvido ao longo do semestre, se o cronograma está sendo seguido, quais as previsões para o semestre seguinte); conclusão (um resumo unindo tudo o que foi apresentado antes. É sempre bom destacar aqui a importância da bolsa para a continuidade da pesquisa).

Como bolsista de um curso de humanas, minhas obrigações eram basicamente essas e a participação no programa PAE. Destaco o fator “área de humanas”, porque acredito que outras áreas, principalmente as que lidam com laboratórios, funcionam de maneira diferente.

Porém havia algumas outras obrigações não tão claras, mas importantes para a manutenção do todo: participar das reuniões do programa de pesquisa, participar de eventos para divulgar a sua pesquisa e apoiar os seus colegas, ajudar no funcionamento do programa. No meu próximo post eu pretendo falar sobre o Relatório CAPES, algo que, acredito eu, poucas pessoas saibam o que é, mas que é extremamente importante e trabalhoso.

Como conseguir uma bolsa de mestrado? Como sempre, informando-se! Antes de ingressar no mestrado eu já sabia que era importante ficar atenta ao email e também logo procurei o grupo dos alunos, no Facebook. Você também pode ter a sorte de ter um(a) orientador(a) preocupado(a), que fará questão de te informar sobre isso (mas nem sempre podemos contar com essa opção, até porque isso nem é obrigação deles!). Conversar com o orientador também é válido, pois ele/ela pode conhecer opções que você não conhece e te dar outras possibilidades de conseguir uma bolsa.

Para concluir, uma coisa que quase ninguém fala sobre ser bolsista: é ótimo receber para fazer pesquisa, mas isso também pode ser angustiante. Lembre-se, estamos falando de dinheiro público e sempre fica aquele peso de “se eu fizer algo de errado, terei de devolver o dinheiro”. E veja, não estou falando sobre fazer algo de errado por querer, mas, como muitas vezes as informações não são claras, podemos errar sem sequer saber disso! Por isso a importância de sempre se informar o máximo possível.

Ah, e claro, bate um super medo de fracassar também! Então, se você é bolsista e sente isso ou se você sonha em ter uma bolsa, saiba: vai dar tudo certo. Confie em si, confie em sua pesquisa e dedique-se. O resto virá.