I verbi riflessivi

Mês passado eu falei sobre os verbos italianos regulares e apresentei a conjugação deles no tempo presente do indicativo. Se você perdeu, não deixe de conferir aqui. Aproveitando o tema, hoje quero falar sobre uma “categoria especial” de verbos: os verbos reflexivos.

O que é um verbo reflexivo?

Verbos reflexivos são aqueles que indicam que o sujeito da frase é quem realiza e “sofre” a ação ali expressa. Em termos um pouco mais técnicos, o sujeito e o complemento do verbo são os mesmos.

Muitos verbos “normais” possuem a sua forma reflexiva e, por vezes, ela acaba dando a ele uma nova nuance de significado. Por exemplo, em italiano, temos o verbo alzare (levantar) e o verbo alzarsi (levantar-se). Enquanto com o primeiro você pode levantar qualquer coisa de qualquer lugar, com o segundo você pode apenar levantar a si mesmo(a), sendo geralmente usado para dizer que você levantou da cama.

Existem, ainda, os verbos reflexivos recíprocos, em que a ação não é feita necessariamente em você mesmo, mas duas pessoas fazendo a mesma ação uma para a outra, como no caso de abbracciarsi (abraçar-se, que não necessariamente significa abraçar a si mesmo, mas sim uma pessoa abraçar outra reciprocamente).

Como conjugar um verbo reflexivo?

Apesar de, inicialmente, assustar, esse -si no final do verbo não atrapalha muito as nossas vidas. Ele nada mais é do que pronome reflexivo e, pensando no tempo presente do indicativo, a gente simplesmente joga ele lá para a frente do verbo e, depois, conjuga como explicado anteriormente. Confuso? Nem tanto!

Se eu quero dizer que acordo cedo todos os dias, em italiano, posso usar um verbo reflexivo, que seria o svegliarsi. Assim, a frase ficaria: mi sveglio presto tutti i giorni. Você reparou que antes do verbo conjugado (sveglio) tem uma palavrinha? Essa palavrinha é o tal pronome reflexivo.

Mas atenção: o pronome reflexivo (assim como a própria conjugação do verbo) muda de acordo com o sujeito! Vejamos, então, quais são esses pronomes reflexivos para, em seguida, entender a conjugação completa:

iomi
tuti
lei/luisi
noici
voivi
lorosi

Isso significa que a conjugação do verbo apresentado acima (svegliarsi) seria da seguinte forma:

iomisveglio
tutisvegli
lei/luisisveglia
noicisvegliamo
voivisvegliate
lorosisvegliano

O que aconteceu aqui? Eu tinha um verbo que era svegliarsi. Esse -si virou o pronome que, no tempo presente do indicativo, vai sempre antes do verbo. Assim, fiquei apenas com o verbo “normal” (que pode terminar em -are, -ere ou -ire), que neste caso era o svegliare, o qual conjuguei conforme explicado no último post.

Claro que, uma vez mais, é muito mais simples quando o verbo é regular, porque a conjugação dele funciona apenas seguindo a regrinha das terminações. Mas percebe que o pronome em nada atrapalha? Se você sabe quem é o sujeito, você sabe que pronome usar.

Algumas frases com verbos reflexivos

  • Luigi si allena un giorno sì, uno no (Luigi treina dia sim, dia não) — verbo usado: allenarsi.
  • Ci colleghiamo più tardi per risolvere questo problema (nos conectamos mais tarde para resolver esse problema) — verbo usado: collegarsi.
  • Vi divertite sempre così? (Vocês sempre se divertem assim?) — verbo usado: divertirsi.
  • Anna e Giovanna si conoscono da molti anni (Anna e Giovanna se conhecem há muitos anos) — verbo usado: conoscersi.

Agora é com você!

Destaque, no texto abaixo, os verbos reflexivos:

Laura ama leggere la sera prima di dormire. Legge a pancia in giù, con il libro in terra, fuori dal letto. Oppure mette il libro in fondo al letto e si stende con i piedi sul cuscino. Se la storia che legge è avventurosa, si agita, si avvolge nel lenzuolo, cambia continuamente posizione. Se la storia è emozionante resta immobile come una statua: si muovono solo gli occhi sulle parole. Quando ci sono storie paurose, si stringe al suo gattone di peluche, ma non si ferma. Anche tu fai così quando leggi?

Complete as frases, tentando conjugar os verbos. Não se esqueça dos pronomes:

1. Se non ________ (voi – prepararsi) subito, farete tardi.

2. Noi ________ (nascondersi) dietro quell’albero.

3. Spesso ________ (io – addormentarsi) verso mezzanotte.

4. La mamma appena arriva a casa ________ (mettersi) a fare le pulizie.

5. I bambini di oggi spesso ________ (annoiarsi) se non possono guardare la TV.

6. Giulia, quante volte ________ (lavarsi) i denti?

7. Matteo ________ (farsi) la barba tutte le settimane.

8. La mia amica ________ (chiamarsi) Laura.

9. Io ________ (stancarsi) delle cose molte velocemente.

10. Alberto ed io ________ (riposarsi) insieme dopo un giorno di lavoro.

Confira no arquivo abaixo se você fez corretamente os exercícios e, caso ainda tenha dúvidas, fique à vontade para me chamar.

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A importância da leitura sensível e da leitura crítica

Confesso que a motivação para escrever este post vem de um livro que li ano passado. Ou melhor, não li, apenas iniciei. Eu dificilmente largo um livro depois de começar a ler, mas ano passado foram dois, quase ao mesmo tempo. E não sei se o problema estava realmente nos livros ou se foi também pelo fato de que iniciei a leitura um pouco antes de começar a quarentena por aqui… Mas o fato é que, num desses livros, havia uma coisa bem clara me incomodando.

Quem me acompanha por aqui provavelmente já sabe que eu sou professora de italiano. Fiz faculdade e continuo a estudar cotidianamente sobre a língua e a cultura. Um dos livros que larguei ano passado trazia um personagem italiano. Coisa, aliás, que me fez ir atrás do livro para ler.

Eu já sabia, antes de iniciar a leitura, que esse tal personagem, na história, pertencia à máfia italiana, mas isso não me pareceu um problema. Não até eu iniciar a leitura e me dar conta que, uma vez mais, eram pessoas de fora tentando retratar a “famosa máfia italiana”.

A questão é que máfia é uma coisa muito complicada. E muito séria também. Sabe aqueles políticos que nos deixam indignados porque desviam dinheiro, roubam milhões e deixam outras milhares de pessoas na miséria? Pois é, a máfia não é muito diferente disso… Matam sem dó, extorquem as pessoas…

Para além do fato de que reproduzimos erroneamente um conceito de máfia que foi exportado, principalmente, pela indústria cinematográfica, o livro em questão me incomodou porque a autora quis inserir “falas em italiano”, mas, aparentemente, sem ter conhecimento algum da língua e, consequentemente, recorrendo ao Google Tradutor. Era fácil perceber isso porque havia palavras que eu entendia como uma tradução literal ou então frases que não faziam sentido algum em italiano.

E o pior que esse não foi o primeiro livro no qual vi algo do tipo, mas no anterior, como não era o foco da história, consegui relevar mais facilmente.

A questão é que isso ficou ecoando em mim (bom, já faz mais de um ano e só agora que, finalmente, estou escrevendo esse post!). Eu não sou de criticar autores nacionais, muito pelo contrário aliás, vocês sabem que boa parte das minhas resenhas são de autores que estão iniciando ou que ainda não têm um grande público. E eu realmente não sou uma leitora chata, mesmo tendo um olhar crítico.

Mas o fato de eu relevar muita coisa não significa que eu não enxergue, por exemplo, erros de português (sim, tem dias que a revisora que habita em mim está atacada) ou coisas que, sinceramente, poderiam ser melhoradas em uma história.

A questão é que, muitos autores, seja por falta de tempo, de dinheiro ou mesmo de conhecimento, se esquecem que escrever um livro vai muito além de sentar e escrever (por mais contraditório que isso possa soar). Escrever um livro pode envolver muita pesquisa e planejamento antes da escrita em si e muito aprimoramento depois que é colocado o último ponto final do arquivo. Sim, porque depois da primeira escrita é que podemos lapidar e melhorar aquela obra, por mais cansativo que isso pareça (e é).

Nem sempre seremos nós a enxergar o que precisa ser melhorado! Por isso a importância de um leitor beta, um leitor crítico, por vezes um leitor sensível e, claro, um revisor (mas isso é coisa para depois da história já lapidada).

E aí você vira e me diz: leitor beta? Leitor crítico? Leitor sensível? O que são essas coisas? Bem, os nomes talvez já se expliquem (ao menos em partes), mas vou tentar trazer uma breve descrição de cada um desses tipos de leitor.

Leitor beta

O leitor beta é o seu primeiro leitor. Aquela(s) pessoa(a) para quem você vai mostrar seu livro antes de todo mundo, para poder ver as reações dessa(s) pessoa(s) enquanto lê(em). Pode ser um cônjuge, parente, amigo, quem for. Só tem de ser alguém em quem você confie e que também uma pessoa que tenha afinidade com o tipo de texto que você escreve (porque, se a pessoa não gosta daquilo, pode não gostar de seus escritos, o que não significaria que eles estão ruins!). E se você não conhece nenhuma pessoa que preencha esses requisitos, saiba que existem muitos leitores dispostos a ser leitor beta, mas é preciso saber encontrá-los. Alguns até podem cobrar por esse tipo de “serviço”, ainda que a leitura beta seja a mais fácil de se conseguir gratuitamente. Encontrar um leitor beta que não seja alguém do seu círculo social também pode ser bom, porque a pessoa poderá te dar uma opinião até mais sincera do que alguém que você conheça e que pode ter medo de te magoar.

Leitor crítico

O leitor crítico já está um passo além do leitor beta. Neste caso, é importante escolher alguém que tenha uma certa bagagem literária e que seja ainda mais sincero em suas opiniões (aqui já é mais difícil contar com conhecidos, pois eles acabarão tendo uma visão menos imparcial da obra). O que espera-se desse leitor é que ele leia a obra e aponte os pontos fortes e fracos, sugerindo modificações onde achar necessário (modificações essas que podem ou não ser aceitas pelo autor, que é quem dá a palavra final) e apontando o que poderia ser melhorado. Neste caso, é mais provável que você encontre pessoas que cobrem por esse serviço, afinal, ele requer dedicação e conhecimento.

Leitor sensível

Por fim, alguns tipos de obra requerem a leitura de um leitor sensível. Se você escrever sobre alguma minoria ou cultura que não é a sua, contrate um leitor sensível que tenha conhecimento sobre aquela causa. Isso vai evitar que você passe vergonha com o seu livro publicado, viu?

Vamos supor que você quer escrever sobre um personagem surdo, mas você é uma pessoa ouvinte. Por mais que você pesquise, se informe, conheça pessoas surdas, é importante contratar um surdo para fazer a leitura sensível de sua obra, pois só ele poderá dizer se a sua representação está bem feita, se você não deixou passar algo (para um ouvinte colocar um personagem surdo ouvindo algo é rapidinho, né?).

No caso de autores brasileiros que queiram escrever sobre a máfia italiana, claro, a leitura sensível já é um pouco mais complicada. Isso porque o ideal seria contratar alguém que vive (ou viveu) numa cidade dominada por esse tipo de poder, mas aí temos dois empecilhos: o fato de que “onde eu vou achar uma pessoa dessas? Eu nem falo italiano!” e o fato de que talvez as pessoas não queiram falar sobre isso, porque a vida delas poderia estar em risco (pois é!).

Para esses casos, porém, é importante buscar informações em fontes seguras e históricas, a fim de evitar apenas a reprodução de estereótipos. Além disso, você também pode contar com a leitura de pessoas que tenham mais conhecimento que você sobre aquele determinado assunto, de acordo com a formação delas (e outras bagagens culturais, porque diploma também não é tudo nessa vida, né?).

E você, já leu algum livro e sentiu que faltou uma leitura crítica e/ou sensível antes da publicação?