Citações #95 — Novelion: a ascensão de uma estrela

Novelion, do Lucas Luyu, foi uma inesperada e grata leitura realizada no último ano.

“— Se são más línguas, por que escuta?

— Por que ainda são línguas?”

O livro, publicado em 2019, foi capaz de me envolver e me deixar com vontade de seguir adiante na série.

“A fagulha foi solta. O caos está presente; só não vê quem não quer”

A premissa é bem interessante: mergulhamos em uma sociedade dividida em signos e na qual é preciso conquistar o direito de viver. Para isso, portanto, os jovens precisam passar pela Seleção

“Eu sempre acreditei estar preparado para a seleção, mas agora que ela está tão próxima não sei dizer ao certo se algum dia estive”

“Novelion é o motivo da nossa existência. Eles mandam em tudo”

“Na cabeça dele, devo ter sido esfaqueado umas trinta vezes. Na minha, ele é quem está sendo esfaqueado. Isso é a Seleção Ultra-humana”

“Incrível como eles gostam de tornar nossas vidas um reality show amaldiçoado”

“No fundo, a seleção tem a ver com isso. Ou você manipula e se torna um dominante, ou é manipulado e vira o dominado”

“Parece que a garota mascarada estava certa; a Seleção Ultra-humana não é um conto de fadas. É um conto de horror”

Uma história bem ao estilo Jogos Vorazes, mas que acrescenta algumas camadas interessantes, como usar as características dos signos do zodíaco para construir os personagens

“Ele sabe que eu estou viajando além da mesa e resolve não me incomodar. Um pisciano entende um pisciano. E como entende”

“O maior inimigo de um pisciano é a própria mente dele”

“— Para onde é que os piscianos vão quando ficam olhando para o nada?”

“Eu sinto um pressentimento ruim. E quando nós, piscianos sentimos isso, significa que algo vai dar ruim. Bem ruim”

“É claro que não refletimos inteiramente as qualidades e defeitos do nosso signo de origem, entretanto, vê-lo da forma como é, me faz repensar na organização da sociedade”

“Escavei um poço gigantesco e enterrei meu lado sensível há quase dez anos. Em uma única noite, a mascarada conseguiu desenterrá-lo. Eu odeio tanto o fato de amar ser pisciano”

Neste tipo de narrativa, não poderia faltar, também, o conflito político.

“Parece que estou envolvido no meio de um jogo político pelo controle de Novelion. Um jogo, cuja principal arma é o assassinato”

“Tentar entender Novelion é o mesmo que entrar num labirinto”

“Por quê? Por que ela está fazendo isso? Será que a Cúpula a mandou propositalmente pra me matar?”

Algumas doses de ironia tornam a leitura ainda melhor.

“Eu não fazia ideia que cobras sorriam, até vê-lo”

“O negócio é que os humanos sempre acharam que exploravam o espaço quando, na verdade, nunca haviam ido mais longe que a lua”

Há, ainda, espaço para introspecção.

“É da dificuldade que nasce a necessidade”

“Que tipo de pessoa eu seria se acabasse com o sorriso dela?”

“Eu preciso meditar. Eu preciso me deitar. Eu preciso de um tempo sozinho. Eu preciso voltar para a minha bolha”

“Eu estou vivo e ao mesmo tempo morto. Não tenho ânimo. Quero chorar por um motivo desconhecido. Quero ser fraco e não forte. Quero desistir e dizer que não devia estar aqui. Mas tem algo dentro de mim, logo atrás da camada de dor que envelopa meu coração e diz que estou onde deveria estar”

E, claro, para a dor.

“É doloroso demais pensar em algo que você não sabe se existe”

“— A dor é passageira, não se preocupe. Tudo na vida é passageiro, mas aquela dor perdura por um longo tempo”

“Viver é doloroso”

Se você se interessou por essa história, leia a resenha completa clicando abaixo.

Aos teus pés — Michelle Passos

Título: Aos teus pés (Duologia “O jogador e a bailarina”) 
Autora: Michelle Passos
Editora: Publicação independente
Páginas: 312
Ano: 2015

Sinopse

A vida nunca foi fácil para Marina Casanova, mas ela sempre devolveu na mesma moeda. Apesar da grande insistência de seu pai em ser um cara arrogante e persuasivo das formas mais improváveis e cruéis, ela jamais desistiu dos seus sonhos e foi por isso que deixou para trás a sua vida na cidade de Sacramento, com destino ao seu grande objetivo na capital, São Miguel. Era para ser tudo como ela planejou: treinar, dedicar-se e então ser admitida como uma bailarina profissional na mais conceituada e famosa escola e companhia de dança do país, a Special Corpus Ballet. Mas quis o destino que Frederico, mais conhecido por seus amigos e fãs como Fred, o cara mais popular do time de futebol da Universidade de São Miguel, cruzasse o seu caminho, trazendo com ele descobertas, confusões, outras opções e sentimentos às vezes contraditórios, mas acima de tudo, verdadeiros.

Para Frederico Lamarck, um rapaz bonito, dedicado ao esporte e apaixonado por sua família, Marina é tudo aquilo que ele nunca soube estar esperando e ao mesmo tempo tem certeza de que ela terá a chave de muitas respostas que ele precisa. Prestes a ser reconhecido como o maior jogador da história de sua universidade, Fred, além de apaixonado, vê a vida lhe encurralando e o obrigando a admitir para todos coisas que jamais pensou fazer. E, claro, a pagar pelas escolhas erradas que um dia fez.

Resenha

Crescer numa família amorosa, mas com um pai terrível, não deve ser coisa fácil e, por isso, Marina Casanova tinha um plano muito claro: juntar dinheiro, fugir de Sacramento — sua cidade natal — e tentar se tornar uma bailarina profissional em São Miguel, a capital.

“Olho pela janela, enxergando pela última vez a pequena rodoviária de Sacramento sumir das minhas vistas e cada uma de suas ruas que vão ficando para trás me dão medo e, ao mesmo tempo, esperança”

Ao menos Marina tem com quem contar na Capital: Luciana (ou Lu), sua melhor amiga, faz faculdade lá e tem um espaço esperando por Marina em seu apartamento. 

“A única coisa que me deixa, de fato, tranquila, é saber que a Lu está lá me esperando, porque deixar tudo o que você é e tem para trás sem ter o mínimo de apoio moral, deve ser mais difícil do que qualquer coisa nessa vida”

Claro, porém, que nada será simples (afinal, esta história precisava existir) e, logo na primeira noite, Lu arrasta Marina para uma festa e lá ela conhece aqueles que se tornarão seus amigos (Sam, Le, Cindy, Tuca…) e também o cara que vai tirá-la do prumo: Frederico Lamarck.

“Eu assumo que cresci uma garota rebelde e que contrariar meu pai era meu passatempo favorito, mas quando olho para o Fred, penso que nem em mil vidas meu pai esperaria por uma coisa como essa, porque ele é definitivamente o oposto dos sonhos e expectativas do senhor Carlos”

Fred é o sonho de muitas garotas — tanto é que elas realmente fazem de tudo para chamar sua atenção — mas não é nada do que Marina buscava na capital, afinal, ela só queria realizar seu sonho e ter dinheiro suficiente para trazer sua família para perto de si.

“Quando se tem pressa de perseguir seus sonhos, a vida parece dificultar às vezes”

Fred também não esperava por Marina. Ao menos não até conhecê-la. Além de lindo, educado e divertido, ele é o capitão do time de futebol — que finalmente tem chances de ganhar o campeonato — e também tem um sonho bem claro: se tornar um jogador profissional.

“Porque cada um sabe com que dom nasceu, qual sonho deseja tornar realidade, qual seu objetivo de vida. O meu é viver de bola em São Miguel”

E não se engane com eu quase me enganei algumas vezes: apesar de parecer, Fred (e seu irmão, Leandro) não é um bad boy.

“O Fred é um cara muito bom, amiga”

Apesar dos irmãos Lamarck arrasarem corações, eles também são donos de corações enormes e buscam sempre o melhor para as pessoas que estão ao redor deles.

“Nunca medi esforços pelas pessoas que eu amo, com ela não será diferente”

Assim, nesse romance bem ao estilo filme teen da sessão da tarde, somos envolvidos por uma história que fala sobre sonhos e paixões, mas também sobre família, amizade e dificuldades.

“É preciso coragem para enfrentar o caminho mais longo”

Através de Mari e Fred, mergulhamos no mundo do ballet e do futebol, descobrindo muitas camadas (boas e ruins) das duas atividades.

“Fico olhando com cuidado a forma como ele domina o jogo e parece tão invencível com sua chuteira nos pés. É assim que me sinto com as minhas sapatilhas”

É inevitável torcer pelos protagonistas, não apenas como casal, mas como pessoas que merecem o melhor, por compartilharem sempre o melhor delas.

“Eu nunca pensei que São Miguel poderia me trazer tantos sentimentos diferentes ao mesmo tempo”

A narrativa é envolvente. Os capítulos acabam sempre com um gostinho de quero mais e o livro termina nos fazendo ansiar pelo segundo volume, que, claro, li logo em seguida. 

“Marina fala com os olhos sem nem precisar usar a boca e isso me tira do eixo”

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E se não fosse um sonho? — Tayana Alvez

Título: E se não fosse um sonho? 
Autora: Tayana Alvez
Editora: P.S. Edições
Páginas: 236 
Ano: 2025 

Sinopse

O que fazer quando o mundo dos sonhos se torna melhor do que a realidade?

Manoela sempre teve sucesso escrevendo livros inspirados nas histórias que cria enquanto dorme. O problema é que, agora que conseguiu vender os primeiros quinze mil exemplares em uma grande editora, a fonte parece ter secado. Ela não se lembra de sonho algum. Até Jão aparecer. Ou talvez “aparecer” não seja a palavra certa. É a primeira vez que Manoela sonha com alguém que não consegue enxergar.

Desiludida com o bloqueio criativo, as cobranças com o próprio peso e a decepção com aqueles que chamava de amigos, Manoela encontra em Jão um mistério que torna seus dias mais interessantes e uma companhia acolhedora para encerrar suas noites. Ele não é apenas o mocinho perfeito para seu próximo livro, mas também o amor com que sempre sonhou para si mesma.

Mas homens escritos por mulheres não são reais. Ou será que podem ser?

Resenha

A Tayana Alvez mal lança um livro e eu já estou fazendo o quê? Lendo, claro! (ainda que a resenha tenha demora muito para sair).

Em E se não fosse um sonho? conhecemos Manoela, uma escritora de sucesso que se encontra em um período de bloqueio criativo

“Em algum lugar na minha mente, existe uma história implorando para ser escrita”

Este é um tema que já daria muito pano para manga, mas Tayana, como sempre, consegue naturalmente ir muito além.

“Minha consciência jamais me elogiaria assim, de graça e com tanta sinceridade”

Podemos começar mencionando, por exemplo, de onde Manoela tira inspiração para suas histórias: seus sonhos. E, sabemos bem, quando as coisas não estão muito boas, é difícil lembrarmos de nossos sonhos.

“Mais uma vez, abri mão de coisas importantes para mim sem nem perceber. E isso dói bastante”

O que poderia não estar bom na vida de uma escritora de sucesso? Muita coisa, sem dúvidas. Como o fato dela perceber — e constatar a cada mais — que seu grupo de amigos talvez não seja exatamente o que ela imaginava.

“Respiro fundo, me dando conta de que não só não preciso de amigos que me façam sentir mal, como também não os quero”

Manoela tem muitas questões com as quais lidar: uma linda mulher que, durante muito tempo, esteve acima do peso e fez o possível e o impossível para se encaixar em um padrão de beleza, e então descobrir que não é isso que faz com que a vida mude da noite para o dia…

“Daqui para frente, seguir meu coração vai ser uma parte muito importante na minha carreira”

A menos, é claro, que ela literalmente volte a sonhar. E qual não é a surpresa dela ao se deparar com Jão durante suas noites de sono?

“Por algumas pessoas, vale a pena enlouquecer”

Com o perdão de todos os trocadilhos, Jão é o cara dos sonhos: paciente, inteligente, fofo, atencioso… O único porém é que Manoela não consegue enxergá-lo.

“— Eu não desisto de alguém porque descobri um defeito na pessoa, ou por uma opinião da qual discordo”

E, daqui para a frente, na história, é só para trás. Ao mesmo tempo que Manoela quer mais e mais de Jão, nós queremos mais e mais deles dois. E, assim, Tayana nos enreda numa história cujo plot faz o queixo cair.

“Uma das verdades absolutas da vida é que os planos raramente se desenrolam como imaginamos. Contudo, há aqueles que, além de fugirem do esperado, destroem algo dentro de nós”

E se não fosse um sonho? não é apenas um romance água com açúcar, mas uma história que vai nos fazer pensar sobre as relações que construímos ao longo da vida, o nosso lugar no mundo e, como não poderia faltar num livro da Tayana, a importância da terapia.

“Diz que você não tá se automedicando porque quer fugir da realidade”

Uma narrativa que nos mostra a necessidade de lutarmos por aquilo que acreditamos, deixando de lado opiniões que nada têm a nos acrescentar

“— De fato, não deveria ser normal brincar com as fraquezas de quem você ama”

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Citações #87 — Quero andar de mãos dadas

Quero andar de mãos dadas, como comentei na resenha, foi uma obra que comecei a ler sem esperar muita coisa e que me surpreendeu bastante. 

“Algumas coisas chamam nossa atenção e nos fazem ficar presos a elas de uma maneira quase hipnótica”

A obra, escrita por Victor Lopes, aborda diversos assuntos delicados, mas necessários, como as mentiras que contamos, muitas vezes numa tentativa de nos proteger ou sobreviver.

“As mentiras da minha vida ficavam cada vez maiores e nada de bom surgia delas. Nada de bom. Só surgia dor”

“Mais uma mentira contada. Agora era só esperar pela próxima”

No caso desta história, essas mentiras são a forma que os protagonistas encontram para se defender num mundo que, mesmo se dizendo tão evoluído, ainda é tão retrógrado.

“Deveria ter colocado um ponto final, pois sei melhor do que ninguém que não vai dar certo, que não posso gostar dele e deixar acontecer o que quer que seja que poderia acontecer”

“— A verdade é que nós sempre precisamos fazer as coisas mais comuns meio escondidos, isso se não quisermos que nos xinguem, ou nos batam ou tentem nos matar. Desculpa, não queria te assustar.

— De boa. Eu sei como é. 2014 e as pessoas ainda não aceitam”

“Meus sonhos de encontrar alguém por quem eu me apaixonasse trouxeram com eles o pesadelo da realidade”

“As pessoas me olhavam e eu tinha certeza de que elas viam em meus olhos o que acontecera, conseguiam ver minhas mentiras e me julgavam por ser gay. É isso o que as pessoas fazem, não importa quem sejam. Nada importa para elas se você não for igual a elas”

E, como não poderia deixar de ser, o medo se faz bem presente.

“Talvez esse seja o motivo pelo qual não nos falamos normalmente ontem, porque estamos com medo de nossos sentimentos”

“Resolvi enfrentar esse medo, mesmo sabendo que não podia haver muitas consequências positivas”

Medo esse que faz um dos protagonistas não conseguir agir como gostaria. O impede de ser quem realmente é.

“Eu não posso ser outra pessoa, ainda que queira”

“Essa minha cara é a cara de alguém que não pode ser quem é e não pode viver o que quer por medo do que vocês vão fazer e pensar e do que vai acontecer com nossa família”

“Cada coisa que eu deixava de fazer para poder manter meu segredo, era uma tonelada a mais colocada sobre meus ombros”

“— Eu estragaria tudo para eles.

— Você prefere estragar tudo para você?

— É só o que posso fazer agora”

“Eu não posso fazer o que quero fazer e preciso aceitar isso”

“Eu fiz um pedido. Pedi que tudo mudasse. Pedi que eu pudesse viver”

Uma hora, porém, quando guardamos demais dentro de nós, as coisas acabam extravasando.

“E certo dia foi exatamente o que aconteceu. Eu explodi”

À espreita, nesta história, há muito mais. A morte, principalmente, está sempre rondando, de mãos dadas com muita angústia e ansiedade.

“Um dia eu chegaria da escola e ela não estaria mais lá. Eu só torcia para que esse dia não fosse hoje”

“Eu não via como era possível existir desse jeito com coisas tão boas acontecendo e sendo substituídas, transformadas quase num passe de mágica, em sentimentos desesperadores”

“Depois de um fim, algo começa”

“E eu fiz. Às três e meia da manhã, eu fiz a dor por dentro parar. A dor por fora era muito mais libertadora. No meio do quarto escuro tudo ficou vermelho e eu vi todas as luzes se apagarem antes mesmo de conseguir pedir ajuda”

Porém nem só de dor e tristeza vivem as páginas desta obra. Há também muito amor companheirismo.

“Meu mundo estava em meus braços e eu não queria largar”

“Por fim, acho que fiz a coisa certa, por mais doloroso que possa ser para ele, eu precisava tocar no assunto, mostrar que estaria ao lado dele e que existem coisas mais importantes do que o que a família pensa sobre ele. Mas será que eu disse tudo isso?”

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O mal das flores — Gabriela Lopes de Azevedo

Título: O mal das flores [monotipias] 
Autoras: Gabriela Lopes de Azevedo e Greta Coutinho
Editora: Urutau
Páginas: 88
Ano: 2023 

Sinopse

Poder tatear um poema, uma flor, uma cidade, alguns corpos, soltos, ou uma casa inteira de mulheres é também poder e precisar confiar no caminho silencioso da transformação. Emergir do atravessamento que a literatura de Gabriela nos causa: impossível sair daqui como éramos antes. O mal das flores, além de nos enganar das possibilidades do asfalto, dos afetos passageiros, das desobediências civis desejadas, também nos seduz a tatear o que a sombra de uma flor nos causa, a textura de um fiapo nos dentes, o peso de existir e carregar o mistério da hereditariedade. Encontrar um rato morto ou a serendipidade no desabrochar do caminho é espalhar raízes confiantes através de versos, seja no escuro solitário de um lago pantanoso, no jardim selvagem ou no “transtorno sonoro da cidade nua”. Gabriela rega isso tão bem que nos convida, com sementes nas mãos, a olhar de perto e cruamente a beleza da força das relações; o abandono, o desejo, o tédio, um roubo na calada da noite, o casamento irrecusável, entranhas adentro, o tísico, o alérgico, os exauridos. Olheiras fundas roxas, inexoráveis fantasmas, unhas quebradas, pelos, celulites. “Mal de ventre, má comida”. Males que te aprisionam com garras quando se apresentam como flores. Depois, uma casa, “concreto afeto cimento”. “Cortinas empoeiradas de rancor”: uma mãe, vendo o entorno de quem nunca esteve ali, uma irmã solteira, desimportante para o amor e atrapalhando heróis, seja ela calada ou tagarela, uma irmã casada que, por tantos motivos, enlouquece; uma avó, uma tia, uma prima. A filha mais velha, a filha mais nova, a maternidade. A aspereza da doença, dos crimes cometidos dentro dos cômodos, da competição sussurrada, quase não dita, das mesquinharias típicas e dolorosas e surpreendentes dos vínculos. Uma leal confusão de afetos. A cidade dentro da família. Verdadeiro laço emaranhado de buquê que a gente compra para si mesma, para abafar as dores e ter esperança num girassol andarilho-da-terra ou numa echinacea laevigata. Que o leitor se prepare para um livro belo, amargo, cheio de delicadezas e assombrações, tudo junto e direcionado em busca de uma fresta em que seja possível entrar a luz.

Greta Coutinho,
artista plástica

Resenha

O mal das flores é um livro não apenas de poesias escritas, mas também de poesia visual, uma vez que a obra conta com algumas monotipias.

Se você, assim como eu, não sabe bem o que são monotipias, aqui vai uma breve explicação, retirada do artigo “Gravura: monotipias e as possibilidades gráficas entre o fazer e o pensar contemporâneo”, disponível aqui.

“A monotipia é um processo gráfico simples, situada num processo intermediário entre a gravura e a pintura ou o desenho, cujas possibilidades envolvem a criação de uma imagem sobre uma superfície em que se coloca tinta ou pigmentos, e, a seguir, é transferida por contato para um suporte. À essa superfície, é possível agregar outros materiais para criar texturas, gestos, formas, marcas. Num sentido amplo, as monotipias devido as suas características diretas e espontâneas, resultam em imagens únicas, aproximando-se das características da gravura, devido a impressão invertida das imagens”

As poesias estão agrupadas em duas seções

  • Vias e veias
  • As flores, o mal

Vias e veias reúne textos que falam de cidades, de vidas que as habitam, dos caminhos que percorremos, das veias que nos preenchem.

“como você vai embora

tão por acaso

como veio

e me deixa aqui

palpitando

de desastres?”

É uma seção múltipla, mas que não deixa de dialogar com a segunda parte, que reúne sobretudo poesias que falam de família (em seus mais variados sentidos e formas).

“No fim das contas

é só

sozinha

casada

e sozinha”

A poesia que dá título ao livro e que revela uma parte importante da obra — isto é, a sua intertextualidade — é muito bonita.

o mal das flores

é nos enganar 

constantemente

nos fazendo acreditar

naquela tolice

bonita

de que algo

ainda pode

nascer

no asfalto”

Mas a minha preferida é, sem dúvidas, a poesia É amor, que brinca com as diversas possibilidades na escrita de uma pichação.

Esta é uma daquelas obras para se apreciar com calma, para que possamos compreender suas referências (que são várias e variadas), degustar suas nuances e nos deleitar com as monotipias que complementam as poesias.

Aliás, a diagramação do livro contribuiu para uma leitura agradável: num papel pólen de gramatura 90, os versos estão dispostos de maneira limpa, brincando com o espaço do papel. A letra e o espaçamento são ideais para uma leitura confortável.

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Como se fosse a casa — Ana Martins Marques e Eduardo Jorge

Título: Como se fosse a casa (uma correspondência) 
Autores: Ana Martins Marques e Eduardo Jorge
Editora: Relicário
Páginas: 48
Ano: 2017

Sinopse

Durante um mês, a poeta Ana Martins Marques alugou o apartamento do amigo e também poeta Eduardo Jorge, que viajara para a França. O imóvel fica na região centro-sul de Belo Horizonte, no edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer em 1952. Enquanto viveu ali, a inquilina trocou e-mails com o locador. As mensagens, de início, abordavam questões meramente práticas. Mas, depois, se converteram em uma troca de poemas sobre o permanecer e o partir, o morar e o exilar-se, o familiar e o estranho. Um dos méritos do livro está no fato de que ambos os poetas, apesar de escreverem a partir das provocações e evocações poéticas apresentadas pelo outro, não estabeleceram uma relação simbiótica, de perda da identidade em direção a uma linguagem comum e a uma síntese estilística. Ao contrário, a singularidade de cada um foi plenamente mantida, percepção confirmada pelo poeta Ricardo Aleixo, autor do texto de orelha da obra: “Ana e Eduardo conseguiram a proeza de compor uma obra que não apaga nem relativiza as diferenças estilísticas entre ela (sua rara aptidão para o manejo da camada fônica da palavra, com especial destaque para a composição de frases de diferentes extensões) e ele (a imageria algo desorbitada e o gosto pelas ousadas torções sintáticas)”.

Resenha

Há um ditado popular que diz que os menores frascos guardam os melhores perfumes. O que será que guardam os menores livros?

Difícil fazer generalizações, ainda mais quando falamos de literatura, mas livros pequenos podem conter grandes histórias , reflexões, aprendizados.

“Duas pessoas dançando

a mesma música

em dias diferentes

formam um par?”

Como se fosse a casa nos traz uma troca de correspondências entre dois poetas: Ana Martins Marques e Eduardo Jorge. 

Troca essa que podemos notar não apenas pela própria diagramação da obra, que utiliza cores de página diferentes para cada um, mas também pelo estilo de escrita deles.

“Ensinam algo

as estrelas

sobre a distância

algo sobre o pequeno atraso

a pequena demora

que é a leitura”

Um livro pequeno, fino, extremamente leve e de leitura confortável. Diagramação simples (o que não significa que não tenha sido extremamente pensada) e conteúdo complexo.

“Devem existir palavras apropriadas

para cada lugar”

Sem palavras rebuscadas, os versos contidos nesta obra nos transportam por uma deliciosa viagem entre o mundo palpável e aquele das ideias.

“(Conhecerão também as coisas

o cansaço?)”

Essa é uma daquelas leituras para se fazer quando precisamos desacelerar e, ao mesmo tempo, necessitamos de algo com qualidade, quando buscamos leveza e beleza.

“A cura está no tempo, dizem,

mas, ela pensa, por que não

no espaço?”

Uma obra que em sua breve extensão nos fará transitar entre duas cidades não necessariamente nomeadas e as quais, aos poucos, vão se tornando também nossas.

“moro na cidade explicada

em várias línguas

muitas delas não latinas”

Por fim, gostaria de destacar alguns versos que, infelizmente, ainda são muito atuais e que deixo aqui como uma importante reflexão da necessidade do mundo ainda funcionar assim.

“penso que só sabe da casa

quem precisa atravessar

rapidamente uma fronteira

quem fez sua casa

num país que não o quer”

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Troféu — Leblon Carter

Título: Troféu 
Autor: Leblon Carter 
Editora: Se Liga Editorial 
Páginas: 208 
Ano: 2023

Sinopse

ELES TERÃO QUE COMPETIR POR UM TROFÉU.

Breno é o gerente de uma pizzaria no shopping; Oswaldo, de uma hamburgueria. Inimigos declarados há muito tempo, eles terão que competir por um troféu durante a semana do consumidor. Enquanto descobrem, em meio a uma guerra de comida, fantasias engraçadas e MUITA tensão sexual, uma paixão reprimida.

Resenha

Que Troféu era um enemies to lovers (ou seja, inimigos que se apaixonam), eu já sabia. Mas não esperava encontrar um protagonista tão reclamão e um “antagonista” tão querido (mesmo o livro sendo narrado em primeira pessoa, o que obviamente significa um olhar enviesado, mas que, por incrível que pareça, não foi tão negativo assim com relação ao coitado).

“Ou o Oswaldo era a pior pessoa que eu conhecia ou era a melhor. Não havia meio termo”

Breno acaba de ser promovido à gerência do Pizza Peels, pizzaria em que trabalha, na praça de alimentação de um shopping, e o momento mais aguardado do ano também chegou: a semana do consumidor.

Nesta semana, as lojas desse centro comercial fazem de tudo para vender muito e, assim, conquistar o troféu oferecido pelo shopping. 

E claro que Breno, querendo mostrar serviço e honrar o seu novo cargo, vai fazer realmente de tudo para se sair vencedor. 

“Eu queria aquele troféu e vencer a semana do consumidor. Só não queria ter que passar por cima dos meus sentimentos por causa disso”

O problema é que, bem ali,  de frente para a pizzaria, está a hamburgueria que Oswaldo gerencia a Queen Burger.

E a rixa da história não é apenas entre Breno e Oswaldo: as chefes deles já possuem uma briga muito mais antiga e esse é um mistério que nós também acabamos querendo entender melhor, o que contribui para não largarmos o livro. 

Ainda que se passe praticamente dentro do shopping, Troféu não deixa de nos lembrar que a cidade de fundo é São Paulo, o que pode arrancar boas identificações para quem conhece bem essa metrópole.

“Morar em São Paulo é entender que, a qualquer horário, de qualquer dia e em qualquer parte da cidade, vai haver dezenas de pessoas desse jeito: se apertando dentro de um ônibus, esperando na fila do banco ou tentando vaga em alguma padaria da Zona Sul”

A história se passa praticamente em uma semana, mas ela é bem intensa. Não só pela competição mencionada, mas também pelos sentimentos que vão aflorando e ganhando vida entre os dois personagens.

“Mas o fato de eu odiar clichês era porque nunca imaginei que fosse acontecer comigo, sabe? O romance fofo, a leveza nos diálogos, as brigas que, geralmente, acabavam em risadas”

Li esta história na edição física, publicada pela Se Liga Editorial e a diagramação dela é simples, mas extremamente confortável de ler e bonita. 

Além disso, o volume conta com o conto Troféu de Natal ao final, o que é uma delícia para quem, assim como eu, ainda não queria se despedir dos personagens. 

No conto, vemos a situação de Breno e Oswaldo já resolvida e temos a oportunidade de passar um natal com eles. Mas será um natal tranquilo? Só lendo para saber!

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Heroínas (Antologia)

Título: Heroínas 
Autoras: Laura Conrado; Pam Gonçalves; Ray Tavares 
Editora: Galera 
Páginas 254 
Ano: 2018

Sinopse

Três escritoras brasileiras ― Laura Conrado, Pam Gonçalves e Ray Tavares ― reinventam clássicos para inspirar cada vez mais heroínas. Não faltam heróis. Dos clássicos às histórias contemporâneas, os meninos e homens estão por todo lugar. Empunhando espadas, usando varinhas mágicas, atirando flechas ou duelando com sabres de luz. Mas os tempos mudam e já está mais do que na hora de as histórias mudarem também. Com discussões feministas cada vez mais empoderadas e potentes, meninas e mulheres exigem e precisam de algo que sempre foi entregue aos meninos de bandeja: se enxergar naquilo que consomem. Este é o livro de um tempo novo, um tempo que exige que as mulheres ocupem todos os espaços, incluindo a literatura. Laura Conrado imaginou as Três mosqueteiras como veterinárias de uma ONG, que de repente contam com a ajuda de uma estudante que não hesita em levantar seu escudo para defender os animais. A Távola Redonda de Pam Gonçalves é liderada por Marina, que diante do sumiço do dinheiro que os alunos de sua escola pública arrecadaram para a formatura, desembainha a espada e reúne um grupo de meninas para garantirem a festa que planejaram. E Roberta é a Robin Hood de Ray Tavares. Indignada com a situação da comunidade em que vive, a garota usa sua habilidade como hacker para corrigir algumas injustiças. Este é um livro no qual as meninas salvam o dia. No qual elas são o que são todos os dias na vida real: heroínas. Finalmente.

Resenha

Heroínas é um livro que reúne três contos, de três autoras diferentes, unidas por uma mesma proposta, que o próprio título deixa claro: trazer um protagonismo feminino e inspirador. E o melhor: em situações bem próximas à realidade. Uma proposta simples, mas necessária.

“Para uma menina como eu, conviver com a personificação do seu sonho é um presente”

Uma por todas, todas por uma

O primeiro conto foi escrito por Laura Conrado, autora também de O retorno de Saturno, que já tive a oportunidade de ler (e adorei).

A história tem o título de Uma por todas, todas por uma e é narrada por Daniela D’Artagnan, uma adolescente que está no último ano do ensino médio e que quer muito poder trabalhar na ONG Mosqueteiros.

Por isso, ao parecer uma oportunidade de se voluntariar, mesmo não cumprindo os requisitos, ela resolve tentar. E já na recepção recebe uma negativa um tanto quanto malcriada.

A sorte, porém, logo lhe sorri e Daniela começa a não apenas realizar seus sonhos, mas também a contribuir para que eles permaneçam vivos e funcionando como deveria ser.

“E eu estou convencida: o melhor lugar do mundo é o agora”

Uma por todas, todas por uma

Esta é uma história sobre amor aos animais, boas ações, conquistas, amizades e amores.

O segundo conto recebe o título de Formandos da Távola Redonda e foi escrito por Pam Gonçalves, da qual que ainda não li outras narrativas (mas pretendo em breve).

Nesta história, narrada em terceira pessoa, a protagonista é Marina, que logo de cara se vê em uma grande enrascada: salvar a formatura do terceirão a apenas oito semanas do grande evento.

O problema é que, devido a um assalto, todo o dinheiro juntado até então fora roubado e a diretora resolveu confiar a Marina, devido à sua popularidade, a missão de salvar o evento mais aguardado do ano.

Para tal empreitada, porém, Marina decide formar uma comissão de formatura, que acaba sendo totalmente composta por mulheres.

“Uma lei não dita tinha ficado bem claro para todas aquelas mulheres. Só poderiam confiar nelas mesmas”

Formandos da Távola Redonda

Com este grupo, iremos refletir sobre amizade, respeito e o poder da união e da boa vontade. Mas também iremos percorrer o caminho da dúvida, do medo e da injustiça.

“Ela não se reconhecia mais. Não sabia se o que queria era real. Mas precisava descobrir, ou não conseguiria continuar sem explodir”

Formandos da Távola Redonda

Por fim, o terceiro conto, escrito por Ray Tavares (de quem já li o divertido Os doze signos de Valentina), narra a história de Roberta Horácio, um bebê que fora abandonado na porta de Gilberto e Magdalena Horácio, mas que jamais sequer desconfiou de seu passado.

Os Horácio moravam na Selva de Pedra, uma comunidade periférica. Mas Roberta é extremamente inteligente e consegue boas oportunidades para subir na vida.

“Roberta era só cérebro e pouca atividade física”

Robin, a proscrita

O destino, porém, muitas vezes é cruel, e ela se vê órfã muito cedo.

Movida pelo desejo de vingança e utilizando seus conhecimentos, Roberta decide continuar morando — ou se escondendo — na Selva de Pedra, enquanto mexe com programas e algoritmos para roubar o dinheiro de pessoas influentes, ricas e corruptas e devolvê-lo à comunidade.

Uma história que vai muito além da sede de vingança, falando também sobre injustiças sociais, abandono, corrupção, violência e — por que não? — amor.

“Mas existia algo mágico em se sentir patética por estar amando”

Robin, a proscrita

É evidente a inspiração e a releitura feita em cada um dos contos que compõem Heroínas: o primeiro tem sua origem em Os três mosqueteiros, e isso fica claro com o título, que remete ao lema deles, mas também no sobrenome da protagonista e com o nome da ONG.

No segundo conto , a inspiração vem de Os cavaleiros da Távola Redonda, com bem aponta o próprio título da história.

Por fim, a inspiração do terceiro conto é a história de Robin Hood. Robin é o apelido de Roberta, que não apenas gosta de usar verde (como o personagem que inspira seu apelido), mas também age como ele, roubando dos ricos para dar aos pobres.

A leitura dos contos é bem tranquila e rápida. Ótima não apenas pelos temas que aborda, mas também pela leveza e naturalidade com que as histórias se desenrolam.

Para garantir seu exemplar físico ou digital, clique abaixo. E não deixe de conhecer os demais trabalhos das autoras, através de suas redes sociais.

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Morangos mofados — Caio Fernando Abreu

Título: Morangos mofados 
Autor: Caio Fernando Abreu 
Editora: Companhia das Letras 
Páginas: 188 
Ano: 2019 (1º edição)

Sinopse

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época. A prosa visceral dos dezoito contos de Morangos mofados ― potencializada pela hesitação coletiva de um país que vislumbrava a redemocratização ante a falência incipiente do regime militar ― traduziu as inconstâncias humanas mais profundas e continua, ainda hoje, arrebatando leitores de todas as gerações. Para José Castello, que assina o posfácio desta edição, embora seja um livro de narrativas curtas, “a obra mantém uma férrea unidade, em torno da coragem de se despir, da fidelidade aos sentimentos mais íntimos e mesmo os mais terríveis, e ainda à dificuldade de ser”.

Resenha

Em algum momento, uns anos atrás, li algo sobre Morangos Mofados e resolvi incluir este livro na minha lista de livros desejados e no meu aniversário deste ano, este foi um dos livros que a Isa me deu de presente e logo resolvi pegá-lo para ler.

Não me lembrava que se tratava de uma antologia de contos e confesso que, num primeiro momento, fiquei em dúvida do porquê havia me interessado por esta obra, até que entendi: os contos dela retratam, em sua maioria, relacionamentos homoafetivos.

“Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”

(Conto: Terça-feira gorda)

Os personagens, na maior parte das histórias, não possuem nome e em mais de um momento me enganei com relação ao que imaginava sobre eles (porque, claro, meu pensamento sempre acabava seguindo, mesmo que sem querer, um padrão que não era o que o autor estava retratando).

Achei alguns textos de uma poética bonita, mas que os deixam mais difíceis de ler, tornando o ritmo de leitura um pouco mais lento. Ritmo este que talvez fosse necessário para uma obra como esta.

“Sempre posso parar, olhar além da janela. Mas do interior do trem, nunca é fixa a paisagem”

(Conto: Eu, tu, ele)

As temáticas também nem sempre facilitam: falar do ser humano, da nossa complexidade, dos nossos medos, sem sombra de dúvidas não é algo que se faça de maneira simples.

“Amor não mata. Não destrói, não é assim. Aquilo era outra coisa. Aquilo é ódio”

(Conto: Caixinha de música)

A obra é dividida em três partes:

  1. O mofo — contém nove contos e é dedicada aos tempos da ditadura militar.
  2. O morango — contém oito contos e trata sobretudo das transformações interiores.
  3. Morangos mofados — contém o conto que dá nome ao livro.

Esta edição da Companhia das Letras é muito bonita: o papel tem um toque gostoso e torna a leitura confortável e as bordas são arredondadas. Além disso, ela conta com uma carta do autor a José Márcio Penido e um posfácio de José Castello, que torna toda a leitura ainda mais significativa.

“Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos — acordar, comer, caminhar, dormir —, dentro dele algo permanecia imóvel”

(Conto: Transformações)

Apesar do período em que foi publicado, Morangos mofados ainda conserva ares de atualidade (o que não necessariamente é bom). E alguns de seus trechos ganham novos e inesperados significados com o passar dos anos.

“Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval”

(Conto: Terça-feira gorda)  

Todos os contos possuem uma dedicatória, o que acrescenta mais uma dimensão às narrativas e também à obra.

O texto que mais gostei foi Aqueles dois — história de aparente mediocridade e repressão. Uma das poucas histórias em que os personagens têm nome e cuja narrativa possui uma clareza deliciosa de acompanhar.

Se você se interessou por esta obra, não deixe de clicar abaixo para saber mais e garantir o seu exemplar. A obra pode ser lida em formato físico ou digital.

Conhecer Morangos mofados se faz necessário em alguma medida.

Luzes — Leblon Carter

Título: Luzes: quando as luzes se apagam (livro 1) 
Autor: Leblon Carter 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 2015 
Ano: 2022

Sinopse

Simas é um jovem de dezenove anos que acaba de se formar na faculdade de comunicação e artes de São Paulo. Apaixonado por literatura e escrevendo seu primeiro livro para participar do concurso de pequenos escritores de Nova Iorque, ele se vê obrigado a trabalhar em um cinema antes de poder concretizar seu sonho.

Lá, ele conhece Cedric, um jovem colega de trabalho por quem começa a despertar sinceros sentimentos. Em meio ao trabalho árduo, a escrita e o amor não correspondido, Simas se vê em apuros quando percebe que relacionamentos amorosos podem gerar diversos problemas para ele e para qualquer outro que queira se aventurar nessa história.

Aos poucos, ambos vão percebendo que a última sessão só acaba quando todas as luzes se apagam, ou quando o primeiro beijo acontece.

Resenha

Alguns livros conseguem equilibrar clichê e criatividade na medida certa, trazendo uma narrativa agradável de ler. É isso o que acontece com o livro que hoje vou resenhar: Luzes.

“O conceito de arte é meio único para cada pessoa. Não dá para generalizar”

Nesta obra, Simas nos conta sobre a sua vida, nos mostrando um cotidiano que poderia ser banal, mas que carrega tanta sentimentalidade e profundidade que fica difícil não se envolver.

“Às vezes penso que o ser humano é tão complexo e vazio ao mesmo tempo”

Simas é jovem, mas logo entendemos que sua infância não foi das mais fáceis e que ele ainda tem muita coisa para ajeitar na vida (assim como ainda tem muito o que viver também).

“Tudo se refere à passado, presente e futuro. Sem isso somos um amontoado de pele, osso e carne, que anda por aí, sem destino ou rumo fixo”

Ele mora com a irmã mais velha e, ao longo das páginas, vamos entendendo que ele tem uma relação complicada com a mãe (coisa que só se explica totalmente mais para o final do livro) e pai sequer faz parte de sua vida.

Em Luzes, acompanhamos o início de Simas em seu novo emprego. Apesar de ter formação em cinema, o único cargo que ele consegue é como PAC, aquelas pessoas que conferem nossos ingressos, recolhem óculos 3D, limpam as salas do cinema…

“Quando você se forma em um curso que escolheu por amor, provavelmente acredita que as portas do mercado de trabalho vão magicamente se abrir. Porém, não foi bem isso que aconteceu comigo”

O próprio autor de Luzes — Leblon Carter — trabalhou como PAC, o que torna essa narrativa ainda mais rica, nos apresentando detalhes que muitas vezes desconhecemos.

O mais interessante, contudo, é o uso dos paralelos — muitas vezes mais presentes na forma de narrar do que fazendo parte da história em si — entre cinema e literatura e, claro, a análise das cores e luzes que o personagem volta e meia faz.

“As luzes internas tinham tons azulados, dando um ar de tranquilidade e calmaria”

A história não se passa em um intervalo de tempo muito grande, mas é o suficiente para que a vida de Simas passe por boas transformações: ele faz novas amizades e, claro, se apaixona. Mas será que esse sentimento o levará a algum lugar?

“E, mesmo com o som alto do filme nos alto-falantes, no teto, e as luzes piscando, na tela, em ritmo frenético, nada conseguia ser tão mágico quanto olhá-lo, de perto, em quase um escuro completo”

A maior parte da narrativa se passa dentro do próprio cinema, ainda que possamos, ao longo dela, também conhecer alguns outros espaços que compõem a vida do protagonista. Por mais delimitante que isso possa parecer, em momento algum a narrativa é monótona (muito pelo contrários, aliás).

“Então, independente de qual cor sejamos lá fora, temos a mesma tonalidade, aqui dentro”

Para além do cinema, das luzes e do amor, este livro nos fala bastante sobre solidão, de uma maneira que é difícil não se sentir tocado.

“Já eu… bom. Eu era a solidão. O lado azul da família. E não que eu seja antissocial ou que odeie seres humanos, mas existem momentos em que aquela tristeza momentânea bate e você só quer ficar sozinho. Ouvir apenas as vozes do seu pensamento e tentar se entender, por um milésimo de segundo, antes que as coisas comecem a ruir novamente. E as pessoas parecem nunca entender isso.  Então, quando você as abandona por um dia, para poder se dedicar totalmente nos outros trezentos e sessenta e quatro, elas acreditam que você está bravo ou que não quer mais falar com elas. E, por tê-las ignorado por um dia, você é ignorado, pelos outros trezentos e sessenta e quatro restantes”

E, claro, sendo Simas um escritor, o poder da palavra (tema que sempre chama a minha atenção) também se faz presente ao longo das páginas.

“Porque, seja de maneira intencional ou não, sempre machucamos outras pessoas. Palavras cortam como faca. Pensamentos escuros embaralham uma mente sã. Agressões físicas marcam a pele. E, às vezes, não nos damos conta disso. É como estar em uma guerra: você escolhe ser ferido ou ferir. E, acredite quando digo: a outra pessoa não vai pensar duas vezes em escolher te ferir”

Disponível apenas em formato digital, Luzes é um livro que vai te fazer vivenciar diversos sentimentos ao lado de Simas. Uma história para quem quer ler sobre amor e solidão apresentados de uma maneira quase poética, ainda que seja prosa pura.

“Não há nada mais instigante para mim do que ler um livro que me faça viajar para outro lugar”

Para garantir o seu exemplar, basta clicar abaixo. E não deixe de seguir o autor em suas redes sociais, para acompanhar o seu trabalho e seus lançamentos (Instagram | Twitter).