Regras da Zona Sul — Leblon Carter

Título: Regras da Zona Sul
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação independente
Páginas: 41
Ano: 2020

Ainda na vibe de O som no fim do túnel, Regras da Zona Sul é um conto que nos mostra mais um pouco da realidade brasileira. Aqui, porém, na periferia de São Paulo. E mesmo em locais “tão” diferentes, os personagens de ambas as narrativas têm muito em comum.

A similaridade mais gritante, claro, é o fato de que Igor — protagonista e narrador de Regras da Zona Sul — também mora apenas com o pai, que está sempre bêbado e largado pelos cantos, e com Érico, seu irmão mais velho que não vê a hora de se livrar daquela realidade.

“Anos de negligência fazem isso com o afeto”

Consequentemente, a falta de amor é, também, algo muito presente na vida de Igor, assim como era na vida de Maycom.

Ao mesmo tempo que é fácil destacar essas similaridades, porém, é possível destacar muitas diferenças, que vão para além do fato da história se passar em Estados diversos.

Regras da Zona Sul é muito mais real, muito mais cru: não há uma superação da realidade ali vivida, não há uma verdadeira perspectiva de dias melhores, ainda que os personagens tenham consciência do que vivem.

“Tento evitar que as drogas comam os poucos neurônios que me restam por conviver com aquela família”

Além disso, este conto aborda algumas questões interessantes como romances LGBTQ+, religiosidade e o valor que a família tem, nos casos em que esta ainda é sólida e unida (e, lembrando, tudo isso narrado a partir do ponto de vista da periferia).

“Os Russo poderiam ser baderneiros, criminosos e violentos, mas a família sempre estava em primeiro lugar”

Ao longo das páginas também fica claro o valor que a verdade e a honra podem ter mesmo em lugares onde só parecer haver violência e injustiça.

Mas, para entender como isso se dá, só lendo Regras da Zona Sul, porque esses elementos têm a ver com os principais acontecimentos da história.

E, se me permite uma sugestão, leia este conto. Leitura rápida, mas que vai te fazer conhecer um pouco mais da nossa realidade e te fazer pensar sobre ela. E, nesta leitura, você não precisa ter tanto estômago quanto para ler O som no fim do túnel.

Se interessou? Clica aqui!

O som no fim do túnel — N. R. Melo

Título: O som no fim do túnel
Autora: N. R. Melo
Editora: Publicação independente
Páginas: 173
Ano: 2018

Títulos com a palavra “som” sempre chamam a minha atenção. Quando bati o olho na sinopse dessa história, só consegui pensar que precisava muito dela. Ainda assim, dentre tantos ebooks, acabei postergando a leitura deste. E quando finalmente comecei, não foi uma leitura que me prendeu rapidamente, mas, ao mesmo tempo, eu queria saber onde tudo acabaria.

“Ambos insatisfeitos, ambos tão frágeis a ponto de desconsiderarem que deveriam possuir algo em comum, a humanidade”

No início, somos apresentados a Cecília e logo descobrimos que ela é jovem, professora e que está esgotada.

“Por alguns segundos, pensou em dormir de novo, mas o que ela tinha não era sono ou cansaço físico, era pior: cansaço mental, psicológico e pouquíssima vontade de viver”

Mas também logo ficam claras as razões de tal esgotamento: Cecília mora em Niterói e trabalha em uma escola estadual localizada próxima a uma comunidade, na cidade do Rio de Janeiro. Não bastasse trabalhar em uma escola que nós — que não temos esse contato e nem conhecimento dessas realidades — chamamos de “difícil”, Cecília seguia uma carreira que sequer era a que ela um dia sonhara.

Imagine querer ser artista — mais exatamente uma cantora — e ver seus sonhos podados por outros? Por pessoas que você ama. Foi o que aconteceu com Cecília, levando-a a seguir esse caminho inesperado e tortuoso.

“Na verdade, ele sabia que ela tinha talento, mas tinha medo de perdê-la para o mundo artístico. No fim das contas, ele a perdeu de qualquer forma”

Mas também é nessa escola que Cecília conhece alguém que irá fazê-la ir atrás de seus sonhos. E, ainda no começo da história, a vemos feliz, voltando de uma tarde inspiradora. Até que temos o acontecimento que muda sua vida: um arrastão no qual seu notebook — item essencial para o trabalho desenvolvido durante toda aquela tarde — é levado embora.

Paralelamente à história de Cecília, vamos conhecendo a história de Maycom Douglas, um garoto que mora na comunidade — e claro que é a comunidade próxima à escola em que Cecília trabalha — e que vive uma realidade daquelas difícil de explicar: a mãe abandonara a família há muito tempo e o pai, Joaquim, vivia bêbado pelos cantos, sempre acusando Maycom pelo abandono da mãe. Sobrava-lhe o irmão mais velho, Jefferson, que era quem tentava manter Maycom Douglas nos trilhos, para que o menino tivesse um futuro.

Jefferson tentava manter o irmão mais novo nos trilhos, enquanto estava metido no tráfico, tentando prover o sustento da casa. Ele conhecia bem aquela realidade e não a desejava para Maycom. Mas houve um dia em que Maycom quis experimentar a vida do crime. O exato dia em que Cecília se viu em um arrastão. E essa foi apenas a primeira vez em que os destinos desses personagens se cruzaram.

A narrativa de O som no fim do túnel é muito intensa e uma coisa fica bem clara: não existe bem e mal. Se o que contei aqui faz parecer que Cecília é uma vítima, saiba que apresentei apenas o começo da história e que essa moça privilegiada também comete erros bem complicados de se explicar, ao passo que Maycom é apenas um garoto que sempre viu a violência, mas que sempre buscou o amor.

“Era como se ambos estivessem presos a um túnel e, por mais que caminhassem no intuito de encontrar a luz, faltava aquele estímulo que ilumina as paredes próximas à saída. Até aquele momento, só o que viam era a escuridão”

E, felizmente, o título não me enganou: a música faz-se presente na história, como um fio que une duas histórias aparentemente tão diversas e distantes. Cecília buscava seu lugar no mundo da música, assim como Maycom, que descobriu-se apaixonado pelo mundo do rap e das rimas.

“Há quem diga que já aprendeu mais lições com as batalhas de rima do que na própria escola regular”

O som no fim do túnel é uma obra que retrata uma realidade dura, mas existente no Brasil. Uma narrativa que merece ser lida, mas que é preciso certo estômago para encarar. Gostei bastante de ter tido a possibilidade de ler este livro e, se você quiser ler também, clique aqui.

O alquimista prodígio e a cidade do amanhã — Leblon Carter

Título: O alquimista prodígio e a cidade do amanhã
Autor: Leblon Carter
Editora: LN Editorial
Páginas: 38
Ano: 2021

Alô amantes de fantasia, que tal conhecer um conto nacional e muito bem escrito?

Ano passado eu trouxe a resenha de O alquimista prodígio e a espada de cobre e se você ainda não viu, é só clicar aí e conferir. Este conto, como já é de se imaginar, passa-se no mesmo universo do livro mencionado, mas, como explica o autor, acontece três anos antes do início da história que resenhei, sendo, portanto, possível ler cada obra de maneira independente.

Se você já leu O alquimista prodígio e a espada de cobre (APEC) este conto é uma oportunidade para adentrar mais este universo e, claro, matar a saudade. Por outro lado, se você nunca leu APEC, o conto é uma forma de entrar em contato com a escrita do autor e se apaixonar pela forma como ele consegue colocar a sua imaginação em palavras.

Logo de cara somos impactados com a forte presença de Versacce, Imperatriz do Clã dos Alquimagos do Sul e de Relucce, sua filha. A relação entre elas, por mais que tenhamos apenas um vislumbre, é muito bonita.

Em seguida, juntam-se a elas Bacci e Marceon. Bacci, como logo fica claro, é o pai de Relucce, mas não mora mais com elas, tendo construído uma nova família no norte, tornando-se Mestre do Clã dos Alquimagos do Norte. Marceon é seu filho com a nova esposa e é evidente a rixa que há entre os meio irmãos.

O ponto central deste conto é uma discussão que há entre Bacci e Versacce, que precisam tomar uma importante decisão. E, enquanto eles estão neste debate, Relucce e Marceon acabam se aventurando pelo palácio e se metendo em uma grande enrascada.

Uma vez mais, Leblon Carter nos lembra que é importante estarmos de olhos bem abertos e não nos deixarmos levar pelas aparências, porque nem tudo é o que parece ser… O alquimista prodígio e a cidade do amanhã é um conto para ser lido até a última página com muita atenção e com a certeza de que sempre haverá uma surpresa à espera.

Ficou com vontade de ler O alquimista prodígio e a cidade do amanhã? Então clica aqui.

Tatianices recomenda [28] — Literatura Errante

Antes de mais nada, preciso assumir que essa seção ficou um pouco abandonada neste ano de 2020, mas nunca é tarde para retomar as coisas, né? E, melhor ainda, retomar com uma super indicação para leitores e escritores.

Você já ouviu falar no Literatura Errante?

Trata-se de um projeto literário, com um espaço próprio, pensado para que você possa divulgar ou publicar seus trabalhos e textos sem custo algum. Um projeto que está crescendo e sempre agregando mais literatura e coisa boa ao nosso dia-a-dia.

Acho que seria legal, em primeiro lugar, conhecer a história do Literatura Errante, porque, através dela, podemos ter uma pequena ideia do que encontraremos pela frente. Mas, antes de vocês irem para lá, vou contar como eu conheci o Literatura Errante.

Bem, eu estava no Instagram, quando vi um post que dizia algo do tipo “você trabalha com literatura? Anuncie seu trabalho”. Resolvi fuçar um pouco o perfil que havia postado isso e descobri o Literatura Errante.

Fiquei interessada no projeto e enviei as informações para anunciar meus serviços de revisão e tradução. Por algum erro no formulário, porém, o Pablo, fundador de tudo isso, entendeu que eu estava enviando meu currículo em busca de uma vaga e, gentilmente me explicou que não tinha como contratar ninguém.

Depois de resolvida a falha na comunicação, porém, me coloquei à disposição para colaborar com o projeto e, desde então, tenho revisado alguns dos textos que, semanalmente vão ao ar. É possível encontrar todos eles aqui.

É difícil não se encantar. Imagine, toda semana ver que várias pessoas estão doando parte de seu tempo para propiciar novas leituras (gratuitas) a quem quiser acessar!

Para além disso, como eu disse antes, há sempre novos projetos no horizonte e, um deles, também acabou de se concretizar: a revista do Literatura Errante! Outro super trabalho pensado e realizado com carinho e disponível para quem quiser ler. E essa é só a primeira edição, viu?

O Literatura Errante também tem uma vitrine literária, para que autores divulguem suas obras já publicadas em qualquer plataforma (amazon, wattpad, clube do leitor) e uma página de serviços, para aqueles que trabalham com literatura (como dizia o post que eu vi).

Também é possível tornar-se membro do Literatura Errante, de maneira gratuita, ou então, se você puder colaborar financeiramente com o projeto, existem diversas opções (para todos os bolsos). Saiba sobre tudo isso aqui.

Encerro este post convidando você, leitor, a dar uma passadinha no Literatura Errante, e também nas redes sociais do projeto (Instagram, Facebook e Twitter). E depois, claro, me conte o que achou! Ah, e se você escreve, não deixe de enviar seu texto! Todos são muito bem tratados por toda a equipe errante.

Eu sou escritora?

A verdade é que este é um assunto sobre o qual penso bastante. Muitas pessoas diriam (e dizem) que sim, sou escritora. Eu, por outro lado, tenho dificuldade em concordar com elas. Mas por quê?

Tive a sorte e o privilégio de crescer em uma família de leitores e acredito que já comentei muitas vezes sobre isso aqui no Blog. Não sei qual foi o primeiro livro que li ou que livro despertou minha paixão pela leitura, só sei que, desde que me entendo por gente, sou apaixonada pelas palavras e estou sempre lendo um livro atrás do outro.

Isso significa que, desde pequena, sou fascinada pelo universo literário. Sempre achei o máximo a capacidade de completos desconhecidos me apresentarem novos mundos e novas possibilidades. Conhecer um um autor (pessoalmente, digo) era algo bem raro e surreal para mim. Então eu sempre vi essas pessoas como seres realmente fantásticos, de outro mundo, inalcançáveis, mas capazes de fazer maravilhas com as palavras.

(Ao mesmo tempo, esse pensamento não faz sentido algum, pois tenho familiares que também publicaram livros, que trabalham com livros… Enfim, a ingenuidade faz isso conosco).

Hoje em dia (ao menos antes dessa pandemia), eu vou a eventos literários e vejo com meus próprios olhos que escritores são seres de carne e osso como eu; ou então eu troco ideias, através das redes sociais e do blog, com autores que me pedem para ler seus livros e divulgá-los. São gente como a gente. E, ainda assim, não consigo me colocar no mesmo nível que eles. Não consigo me ver como escritora.

Mas, Tati, por que você deveria se considerar uma escritora?

Caso você ainda não saiba, tenho alguns contos publicados. Mas sim, por enquanto, é “só” isso. De qualquer forma, contarei um pouco mais sobre cada um deles.

Em 2016, quando eu ainda tinha meu outro Blog (que deletei pouco tempo depois), fiquei sabendo sobre uma seleção de contos natalinos, para uma antologia da Editora Illuminare.

Naquela época, eu não sabia muito bem como funcionavam essas antologias, nem a importância que elas podem ter para autores iniciantes. Ainda assim, como o natal era uma época especial para mim, resolvi escrever sobre o tema e, sem grandes pretensões, enviei meu conto. Eu só queria poder colocar no papel como eram as minhas festas natalinas, pois sei que minha família comemorava de maneira muito especial. E ver esse edital foi o empurrãozinho que eu precisava para isso.

Acontece que… meu conto foi selecionado! Eu sequer havia comentado com pessoas próximas que tinha enviando um conto para uma seleção. E só joguei a informação “no mundo” quando meus exemplares chegaram aqui em casa, porque até então eu não poderia acreditar numa coisa dessas.

Lembro-me, inclusive, que haveria um evento de lançamento da antologia, no Rio de Janeiro, e eu e meus pais até cogitamos participar. Acabou não dando certo, mas às vezes me pergunto como teria sido isso. Talvez as coisas fossem diferentes se eu tivesse ido a esse evento…

De qualquer forma, passava a existir a minha primeira publicação de verdade: o conto “Devaneios de um caloroso natal” na antologia “Natal em verso e prosa“, da Editora Illuminare.

Depois disso, só fui mergulhar novamente neste mundo mais recentemente. Desde o final do ano passado, para ser mais exata, com um edital para uma antologia sobre romance clichê. Quer algo mais a minha cara?

Li a proposta e logo senti um comichão para colocar em palavras uma ideia que foi nascendo, aos poucos, dentro de mim. Foi assim que, em dezembro de 2019, consegui ser selecionada para a antologia “Um clichê para recordar“, da Editora Cervus, com o conto “Pegue a minha mão (e a minha vida inteira)” [alguém aí sacou a referência desse título?].

Por uma série de motivos (como atrasos na publicação, falta de informação, erros), acabei não divulgando essa antologia, que só veio a ser efetivamente publicada em outubro deste ano. Mas ela finalmente existe!

Um pouco depois de ser selecionada para a antologia da Cervus, fui convidada a organizar a antologia “Um amor para chamar de meu“, da Editora Lettre. Mas, além de organizar, eu teria de escrever um conto também… E foi aí que publiquei “A língua do amor”, um dos meus contos mais queridos (por mim, digo). O ebook desta antologia foi publicado em março de 2020 e a versão física saiu em julho deste mesmo ano.

Por fim, ainda em 2020, publiquei o conto “A vida em ondas”, na antologia de halloween da Editora Lettre. “Gostosuras ou travessuras” foi publicada em outubro e pode ser lida gratuitamente!

Sim, eu tenho quatro contos publicados e, mesmo assim, não me considero escritora. Mas não, eu não acho que quem escreve apenas contos seja menos escritor que alguém que publicou um livro solo. Apenas tenho dificuldades em me ver neste papel.

Ainda assim, agradeço aos que discordam de mim e, mais ainda, aos que me apoiam em minhas loucuras literárias. Quem sabe um dia eu mesma mude essa visão que tenho? Mas me resta uma dúvida: o que é essencial para que você considere uma pessoa uma escritora?

Assassinato na praia — Mike Flint

Capa do livro "Assassinato na praia" com o nome do blog, para divulgação da resenha

Enquanto lia Assassinato na praia fiquei pensando em como defini-lo. Creio que a melhor palavra que encontrei foi “ousado”. Sim, definitivamente, “ousado” é um bom adjetivo para esse livro, que tenta mesclar algumas propostas.

O começo da história nos conduz a um romance levinho, coisa que, pelo título, imaginamos que não irá durar muito tempo. Mas vamos focar nesse início por enquanto.

Eduardo é engenheiro e, um pouco cansado de sua vida, decide tirar um tempo para si, alugando uma casa na praia e, finalmente, dando início a um projeto só seu: escrever um livro. O que ele não sabia, porém, era que ali escreveria muito mais páginas da sua vida que do livro em questão.

A praia em questão — a paradisíaca praia do Éden — fica numa pacata ilha, mesmo esta sendo próxima à capital. Tal ilha tem ares de cidade do interior, onde todos se conhecem. E claro, logo Eduardo passa a conhecer pessoas importantes dali. Mas o principal: rapidamente Eduardo conhece e se apaixona por Marcia.

Marcia é uma daquelas mulheres que todos adorariam ter por perto. Uma pessoa agradável, de coração enorme. Linda, por dentro e por fora. Não tinha como nosso protagonista não se apaixonar.

E é assim que inicia o romance levinho que eu disse ali em cima, e que logo ganha ares de romance hot, com cenas bem quentes entre os dois personagens. E aqui, portanto, já entra a segunda proposta do livro. Essas cenas hot são pontuais e adequadas ao livro, contudo, não deixam de ser uma proposta a mais.

Mas, como eu disse anteriormente, os ares de romance levinho, como o próprio título do livro indica, logo dão espaço a um mistério policial: um assassinato na praia de uma pacata ilha e a busca pelo culpado.

De início, o autor até consegue manter bem nossas dúvidas com quem pode ser o verdadeiro assassino, dando motivos para mais de um personagem ter cometido tal ato, mas logo nossas suspeitas vão se reduzindo drasticamente.

E qual a relação de Eduardo com tudo isso? Ele, claro, é o principal suspeito por tal assassinato (não para nós leitores, mas para a polícia da história), sendo o primeiro a ser mantido detido para se explicar diante da justiça. E, a partir deste ponto da narrativa, o autor mescla o momento presente — de agonia enquanto Eduardo espera seu advogado chegar e sofre a perda de uma pessoa querida — e o “passado” (de poucos dias antes), isto é, seus primeiros dias na ilha, os momento românticos e calientes que viveu com Marcia.

No meio disso tudo, ainda tem o tal livro de Eduardo. Um livro dentro do livro que lemos. O autor nos apresenta a estrutura da obra que Eduardo pensou, bem como, aparentemente, quis inserir em seu próprio livro — isto é, em Assassinato na praia — alguns conselhos que lhe pareceram interessantes para quem quer escrever um livro. Em alguns momentos, porém, senti que o autor não seguiu suas próprias recomendações, colocadas na história através do olhar de Marcia, que já trabalhara em uma editora.

Ao meu ver, na tentativa de enriquecer a história e torná-la tanto algo interessante para outros escritores, quanto algo que trouxesse mistério e romance para os mais diversos leitores, o autor acabou perdendo-se um pouco.

A história não tem pontas soltas, mas faltou certo desenvolvimento narrativo que realmente prendesse o leitor. Ainda assim, foi uma leitura curiosa de se fazer. Li até a última página, buscando imaginar que caminhos o autor tomaria. E certamente não cheguei nem perto de descobrir o verdadeiro final.

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O canto das sereias — Ingrid Sousa

Título: O canto das sereias — um conto do universo de "O despertar da profecia"
Autora: Ingrid Sousa
Editora: Lettre
Páginas: 13
Ano: 2020

Serena e Sooará são gêmeas, nascidas durante uma lua de sangue. Devido ao momento em que nasceram, porém, foram logo abandonadas à própria sorte, que, no entanto, sorriu para elas e lhes deu uma nova família, onde viveram felizes por certo período de suas vidas.

“Serena era meiga, corajosa e sempre disposta a proteger sua irmã. Já Sooará era astuta, tinha sempre uma resposta na ponta da língua, e vivia em busca de novas aventuras”

Realmente havia algo de diferente naquelas meninas. Quando Sooará ficava irritada, os objetos que estavam perto dela começavam a se mexer e se chocavam contra a parede. E a única coisa capaz de acalmá-la e restituir a ordem ao lugar era sua irmã, Serena.

Enquanto aquilo só ocorria dentro de casa, os pais iam levando. Mas um dia uma dessas cenas se deu no meio do vilarejo e, então, todos passaram a temer aquela família, dizendo que aquelas crianças eram amaldiçoadas.

Mas também não era como se dentro de casa tudo ocorresse às mil maravilhas. Serena e Sooará tinham dois irmãos mais velhos, filhos de sangue dos pais adotivos das meninas. E um desses irmãos adorava provocar Sooará… Até o dia que fúria dela foi imensa.

“Ela olhou para as duas meninas e pensou que, até aquele momento, nunca se arrependera de ter salvo aquelas pobres crianças indefesas. Mas tudo mudara naquele exato instante, quando percebeu que não havia mais chances”

“O canto das sereias” é um conto e, como tal, é de rápida leitura. A história que ele nos traz, porém, é forte e, se quisermos ir além, carrega algumas mensagens importantes. Trata-se de uma narrativa que nos mostra como, apesar de tudo, devemos agir com o coração e ouvir aquilo que ele acha certo a ser feito, ainda que estejamos assumindo um risco; também é uma história que, de certo modo, nos mostra o perigo de fazermos piada com aquilo que é diferente de nós.

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Eu quero mais — Tayana Alvez

Título: Eu quero mais
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 359
Ano: 2019

Você já se apaixonou por um livro da primeira à última página? Mas não estou falando somente das páginas da história em si, mas também aos extras, como o prefácio ou uma nota da autora? Isso provavelmente já aconteceu algumas vezes comigo, mas dessa vez foi bem intenso.

Eu já estava com vontade de ler Eu quero mais por ter visto diversos comentários positivos sobre ele, inclusive da Camila, do A bookaholic girl. Mas depois de ler o prefácio da obra, também escrito por uma leitora, minhas expectativas foram parar nas alturas. E isso poderia ser bem ruim, porque quanto mais alta a expectativa, maior o nosso tombo. Porém, para minha sorte, não foi o que aconteceu!

“Mas naquele momento, percebi que a verdade era que eu enfrentaria tudo aquilo. A única coisa que não conseguiria enfrentar seria ele amando outra pessoa…”

Logo de cara é preciso dizer que o que diferencia essa obra dos inúmeros romances que eu tanto amo é que a protagonista é negra. Sim, infelizmente. Não, não infelizmente que a protagonista seja negra, mas que esse seja o diferencial. Infelizmente que, em pleno 2020, seja necessário falar para o mundo sobre esse livro para que, quem sabe, as pessoas comecem a refletir sobre algumas coisas.

“Eu não podia ser a morena de ninguém, porque eu não sou morena”

Podemos dizer que em Eu quero mais, temos três personagens centrais: Elizabeth, essa mulher negra que luta contra o preconceito em suas mais diversas formas e que passa uma imagem de mulher forte e destemida, mas que guarda no coração uma história muito complicada; Joaquim — ou Joca — melhor amigo de infância de Elizabeth e também seu primeiro amor e primeiro “namorado”; e Breno, o cara que está ali para nos lembrar que as aparências enganam sim.

“Eu não queria que a gente fosse essa bagunça tão grande”

Não bastasse a vida de Elizabeth ser difícil por si só, ela e Joca têm de viver uma relação extremamente complexa. Ambos se conhecem desde a infância, pois Joca era melhor amigo de Paulo, irmão de Elizabeth. Aos pouco, a dupla inseparável se torna um trio, mas a amizade entre Joca e Elizabeth também se torna algo mais. E a proximidade entre eles acaba por afastar Paulo.

“Você também já engoliu alguns sapos e ninguém pode viver a vida inteira assim”

Esse afastamento precisa ser mencionado pois ele traz muitas consequências para a história. Não se trata de um simples distanciamento entre irmãos ou amigos de infância, mas algo que vai mexer com o futuro de nossos protagonistas e, principalmente, com a autoconfiança de Elizabeth.

“E você só não se vê como eu te vejo porque acredita mais no espelho do que no seu coração”

As relações familiares de Elizabeth, aliás, são construídas de maneira bem interessante nessa obra. Tendo crescido em Campos, uma cidade do Rio de Janeiro que, pela descrição, me pareceu relativamente pacata, Elizabeth teve uma infância feliz (apesar de ter poucos amigos na escola, justamente por ser negra) ao lado de seus pais e seu irmão. Quando esse dois últimos se afastam, porém, Elizabeth também acaba se afastando um pouco da mãe, pois — palavras da protagonista — ela optara por tomar partido do filho. A sua ligação com o pai, contudo, é admirável e rende lindos diálogos ao longo do livro.

“Não aguento mais ver você se submeter aos tombos da vida como se eles tivessem sido feitos para você não levantar”

Depois que Joca se muda para o sul do país, não há mais nada que prenda Elizabeth a Campos. E sim, ela é aquele tipo de protagonista livre, que quer viver a sua história de maneira plena. E é assim que ela se muda para São Paulo, onde conhece Breno.

“Ele era um cara legal, mas não me conhecia, não sabia nada sobre mim na verdade”

Breno era um mineiro, com um jeitinho nerd e poucos amigos na faculdade. Elizabeth tromba com ele em seu primeiro dia e eles logo viram amigos. E apesar de todo o amor que ela sente por Joaquim, ela também acaba se apaixonando por Breno. E é aí que o problema começa…

“Breno conhecia quem eu era por causa da vida, mas não sabia como a vida tinha me moldado até aquele momento”

Eu quero mais, porém, é uma história construída de maneira a nos deixar — até determinados momento, claro — um pouco em dúvida sobre qual lado “torcer”. Enquanto a relação entre Elizabeth e Breno — apesar do pesares — ter um certo ar de calmaria, de estabilidade, a relação entre ela e Joaquim parece fervilhante, intensa.

“Afinal, a história não é sobre com quem a garota fica no final, mas sobre o que faz a garota feliz”

Eu simplesmente não conseguia largar esse livro. Cada personagem que aparece ao longo da trama não está ali por acaso. Até mesmo Aline, a garota que divide o apartamento de São Paulo com Elizabeth e que, de início, mal dá as caras, vai, aos poucos, se revelando. E eu poderia passar horas e horas escrevendo sobre cada um dos outros personagens, mas essa resenha talvez já esteja longa demais…

Se eu fosse você, não deixaria de ler esse livro. Uma obra nacional imensamente rica, com menções inclusive à nossa História e que aborda temas que ainda precisamos discutir muito. E não estou falando apenas de racismo, mas também de relacionamentos abusivos, gaslight e saúde mental.

“Às vezes o peso me desequilibra”

Já se convenceu que está na hora de ler “Eu quero mais”? Então clica aqui.

Citações #30 — Os guardiões dos livros

Citações #30

Quem leu minha resenha de Os guardiões dos livros deve ter percebido (espero eu) o quanto eu amei essa história escrita pela autora Ana Farias Ferrari e publicada em 2019 pela Editora Cartola. O que vocês provavelmente não sabem é que tive de deixar vários trechos incríveis de fora da resenha. Mas ao menos tenho a oportunidade de trazê-los aqui!

“ela é capaz de se entregar às histórias por inteiro, e não por partes”

O que tanto me encanta nesse livro é o fato dele falar sobre sentimentos diversos e de maneiras diversas, aos poucos, com sensibilidade.

“Ela não precisou falar mais nada, apesar do escuro eu sabia das suas lágrimas e sabia que não tinha muito o que fazer, às vezes as palavras certas eram aquelas não ditas”

Também é uma história que traz muitas descobertas sobre nós mesmos e por meio de personagens tão jovens.

“Mais uma vez eu estava fazendo apenas o que era esperado de mim, mesmo que significasse não me sentir inteiro, e isso precisava mudar”

E, ainda por cima, o livro consegue ser dolorosamente atual.

“é muito difícil se manter apaixonado quando pessoas começam a morrer”

Durante a leitura acompanhamos um crescimento pessoal dos personagens, que vivem coisas que jamais esperariam viver, de maneira muito bonita também.

“era difícil ficar bravo quando a pessoa que te criou fez isso às custas da própria felicidade e não demonstra mágoa nenhuma”

E claro que, de muitas formas, o maior dos sentimentos se faz presente ao longo dessas páginas.

“Quando você ama alguém, ela nunca se torna un fardo”

Eu realmente me encantei com Os guardiões dos livros e espero que um dia vocês possam dar uma chance a esse livro!

Os guardiões dos livros — Ana Farias Ferrari

Título: Os guardiões dos livros
Autora: Ana Farias Ferrari
Editora: Cartola
Páginas: 456
Ano: 2019

guardiões dos livros blog

Sabe aquele livro que é como um abraço amigo, para o qual queremos correr nos mais diversos momentos? Pois é assim que vejo Os guardiões dos livros, uma fantasia daquelas que nos faz pensar “Mas… Será que não é verdade?”.

“Eu não tinha percebido quanto sentimento eu tinha guardado dentro de mim e agora eles saíam todos de uma vez”

Essa foi uma leitura que me acompanhou por quase abril inteiro, porque, infelizmente, sinto que tive menos tempo para ler nesse período do que eu gostaria, correndo para dar conta de tudo. Mas esse é um livro que a gente não quer ler um capítulo só por vez, quer ler tudo e, ao mesmo tempo, absorver com calma as descobertas. Em diversos momentos do meu dia eu me via pensando nesta história, morrendo de vontade de voltar logo para ela, como se houvesse ali um imã. E certamente havia.

“Olhei para ele e vi que o pedido era sincero, eu conhecia o sentimento de querer fugir de tudo”

Os capítulos são narrados, alternadamente, por Clarice e Ricardo. Dois jovens, de início, extremamente comuns, vivendo uma rotina igualmente comum, de ir para a escola e viver sua adolescência, cada um a seu modo. Clarice é aquela menina que todos consideram nerd pelo simples fato dela amar livros e viver na biblioteca da escola. Ricardo, por sua vez, é um garoto lindo e que está sempre dormindo antes das aulas começarem, além de ser considerado popular. Clarice perdera o pai, grande incentivador de seu gosto pela leitura, muito cedo. Ricardo crescera sendo criado pelo tio, Dimitri, pois se tornara órfão muito cedo. E Dimitri, além de tio de Ricardo, era o bibliotecário da escola, portanto, amigo de Clarice.

“Momentos difíceis podem afastar pessoas, mas também pode aproximá-las”

Apesar de estudarem na mesma escola desde pequenos, o que faz Clarice e Ricardo começarem a conversar verdadeiramente é o sumiço repentino de Dimitri. Em busca do tio-amigo desaparecido, os jovens acabam por descobrir o Reino das Palavras e muita coisa sobre o passado e a história de ambos.

“Nós éramos dois adolescentes, procurar bibliotecários sumidos não deveria fazer parte dos nossos planos para o fim de semana”

No Reinos das Palavras, Clarice se descobre uma Guardiã dos Livros e Ricardo se descobre Príncipe. Mas, mais que isso, eles descobrem a se enxergar e enxergar um ao outro.

“Ela não ficaria desapontada comigo se eu não fosse o príncipe que todos esperavam que eu fosse”

O que torna Os guardiões dos livros tão especial não é o simples fato dele trazer um Reino com o qual todo leitor voraz já sonhou alguma vez na vida, mas, principalmente, porque este é um livro que transforma uma “rata de biblioteca”, uma garota “qualquer” em uma poderosa Guardiã do Reino das Palavras, além de mostrar que atrás de um “garoto popular” pode haver um enorme coração, um grande escritor e também alguém solitário.

“Mas, em todos os casos, só se torna um verdadeiro Guardião aquele que tem as histórias dentro do próprio coração, independente do sangue em suas veias”

Essa é uma daquelas histórias capazes de te tirar da realidade, sem deixar de fazer com que você pense sobre muita coisa importante. E, sem dúvidas, uma narrativa que nos deixa ainda mais apaixonados pelos livros e por todo o poder que um objeto como esse pode ter.

“As respostas sempre estarão nos livros”

Os guardiões dos livros é um livro indicado para jovens e adultos, principalmente aqueles que ainda acreditam na magia de um bom livro.

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