I falsi amici — italiano / portoghese

Há quem ache as línguas portuguesa e italiana parecidas. Realmente, há muitos aspectos similares entre elas, assim como também há muitas diferenças e precisamos estar atentos a isso! Assim sendo, hoje resolvi falar um pouco sobre os falsos amigos (ou falsos cognatos), isto é, aquelas palavras que podem ser parecidas entre uma língua e outra, mas que têm significados bem diferentes!

Cozinha

Resolvi começar a apresentação das palavras com termos relacionados à culinária (sim, estou tentando conquistar você pela barriga), afinal, nada mais triste do que encontrar uma receita maravilhosa e ela sair péssima pelo simples fato de você ter entendido errado alguma coisa, não é mesmo?

Algumas palavras são fáceis, mesmo que você nunca tenha estudado italiano. Por exemplo, você provavelmente já sabe que pasta (italiano) é macarrão (português), certo? E geralmente quem gosta de beber também já costuma saber que birra (italiano) é a nossa cerveja (português). Ah, sim, aquilo que nós chamamos de pasta por aqui, em italiano pode ser cartella o valigetta, e quando alguém faz birra, podemos dizer, em italiano, capriccio, scenata.

Agora não estranhe se em alguma receita estiver pedindo para você passar ou adicionar burro (italiano)! Isso nada mais é do que manteiga (português). Se você quiser chamar alguém de burro (português), terá de usar a palavra asino (italiano). E muita atenção aqui: manteca (italiano) não é manteiga, mas pomada!

No frio você gosta de tomar um bom caldo? Então se estiver na Itália, procure no cardápio por um brodo. Mas saiba que a palavra caldo também existe em italiano, mas significa calor. E se quiser fazer uma refeição com milho? Então procure por mais (italiano). Mas se precisar colocar mais algo no prato, use a palavra più.

Lugares

Pensando em lugares aos quais podemos ir, o primeiro falso amigo que me vem em mente é o clássico palestra (italiano). Acredita que isso significa academia (português)? Agora se você realmente estiver indo assistir uma palestra, então precisa usar a palavra conferenza.

Mas o mais chocante/engraçado dos falsos amigos é esse trio aqui: asilo (italiano) é a escola infantil (escola para criancinhas). Já o nosso asilo (lar de idosos), em italiano é ospizio. E hospício? Em italiano usa-se a palavra manicomio.

Ah, se você precisar resolver alguma questão financeira, na Itália, deve procurar uma banca. Se quiser comprar jornal, vá à edicola (italiano). E se você ouviu falar de alguém que estava em galera (italiano) não se engane: a pessoa estava na prisão! Se ela apenas estivesse acompanhada, estaria em gruppo ou com a banda (turma).

Verbos

Aqui a lista pode ser extensa, viu? Mas vou tentar destacar aqueles mais usados e que, por sua vez, podem confundir mais. Começando pelo clássico salire (italiano) que significa subir. Se você precisar dizer sair, use uscire. O mesmo vale para salita (subida) e uscita (saída).

Se alguém te pedir para aspettare, ela quer que você espere. Se fosse para espetar, seria pizzicare. Da mesma forma, guardare (italiano) é olhar. Para guardar algo você precisa usar tenere, conservare, custodire. E se te pedirem para cercare algo, querem que você procure algo. Procurare (italiano), por sua vez, significa providenciar.

Contrattare (italiano) significa negociar, enquanto assumere é o nosso contratar alguém. E por favor, procure não derubare (roubar) ninguém e nem rovesciare (derrubar) algo!

Família

Uma categoria mais rápida, mas ainda assim com alguns falsos amigos que valem a menção.

Por exemplo, a palavra primo existe em italiano, mas significa primeiro. Se quisermos falar do parente, precisamos dizer cugino. Por outro lado, para falarmos de um genro (português), temos a palavra genero. Já o gênero de algo, em italiano, se diz genere.

Uma palavra para tomar cuidado é coppia. Assim, com dois “p”, significa casal. Para falar da xerox (cópia), podemos usar copia ou, para evitar confusões, fotocopia.

Corpo humano

Aqui, só duas palavrinhas para prestarmos atenção: baffo (italiano) que é bigode, e não um mau hálito. Este, por sua vez, seria alito che puzza. E também tem a testa (italiano) que é toda a nossa cabeça, enquanto se quisermos falar testa (português), temos de dizer fronte (italiano).

Outros

Por fim, há algumas palavras que eu não poderia deixar de fora, mas que não fazem parte de nenhuma categoria trazida até agora. Por exemplo motorista, que em italiano é autista. Já autista (português) é autistico. E não se engane: feriale é dia útil. O feriado (português) é giorno festivo.

Depois, temos também algumas palavrinhas que são quase pegadinhas, como abbastanza, que significa suficiente (bastante seria parecchio); appena, que é logo depois, enquanto apenas (português) é soltanto; e allora, que é um então (agora, em italiano, é adesso).

Para concluir, uma palavra que requer muita atenção de nossa parte: mai. Mai significa NUNCA. Se você quiser dizer mais, como já mencionado por aqui, use più.

E assim eu encerro esse post recheado de falsos amigos entre o português e o italiano. Com certeza tem muito mais, mas acho que o post já estava longuinho o suficiente. Se você conhece algum, não deixe de me contar nos comentários! E também me diga o que achou desse post, será um prazer ter a sua opinião por aqui.

O mito do professor nativo

Como professora de idiomas, mais de uma vez me deparei com vagas que buscavam somente falantes nativos para dar aula. Confesso que sempre fiquei bem confusa com isso e este post é justamente para mostrar como não faz sentido exigir (somente) que a pessoa seja nativa.

Para começo de conversa, ensinar uma língua requer muito mais que meros conhecimentos linguísticos. Caso contrário, bastaria que eu nascesse no Brasil para poder sair dando aulas de português por aí, certo? Você sente que é capaz de dar aulas de português para um estrangeiro? Pois é, a tarefa já começa bem mais complicada do que parece.

Além disso, não se trata apenas de saber bem determinada língua, trata-se, também, de ter didática. Você pode até se sentir apto a ensinar uma língua a outra pessoa, mas você saberá fazer isso didaticamente, ou seja, de maneira clara e coerente? Aqui a coisa começa a ficar ainda mais complicada!

Para unir os elementos que apresentei até aqui o ideal é que, em primeiro lugar, o professor tenha formação na área de ensino de línguas, isto é, que tenha feito um curso superior (Licenciatura em Letras). Claro que, o curso por si só não costuma ser suficiente, então esse professor terá de se dedicar horas e horas à língua, para chegar a um patamar mais elevado de conhecimento (na verdade, professores estão constantemente aprendendo).

Isso significa, portanto, que se o professor for formado em Letras e for nativo, ele será o professor perfeito? Também não necessariamente! Já tive aulas com professores nativos, formados em Letras e que, ainda assim, não se deram bem com o público brasileiro. É que aqui entra um terceiro fator: choques culturais. Isto é, um professor, se for nativo, além de realmente ter um bom conhecimento da língua e didática para ensiná-la, precisará, também, estar aberto à outra cultura e à forma como as pessoas daquela cultura lidam com o aprendizado (e com todo o resto que nos cerca).

Outro mito que circunda o professor nativo é a questão do sotaque: “ah, mas se eu tiver aulas com um professor nativo, eu vou falar a língua dele sem sotaque algum”. Gente, que país no mundo não tem sotaque? Em que país toda a população fala igualzinho? Eu não conheço nenhum…

Agora, uma coisa que realmente pode ser uma vantagem nas aulas com um professor nativo é poder ter um contato mais próximo com uma cultura diversa, isto é, ter alguém a quem perguntar diretamente “como funciona” algo em determinado país. Ainda assim, temos de ter em mente que teremos a visão de uma pessoa e que ela não necessariamente representa toda uma cultura local.

Aliás, aprender línguas nos abre portas para conhecer novos mundos, novas formas de pensar. E essa experiência pode ser ainda melhor se aprendermos com alguém realmente qualificado para tanto, não é mesmo?

Então, ao procurar um professor de línguas, mais do que perguntar se a pessoa é nativa, pergunte quais as qualificações dela e, muito importante, como ela trabalha (eu até poderia usar o termo “método” aqui, mas essa também é uma discussão para outro post…).

E antes de concluir, gostaria de indicar esse texto que encontrei enquanto pensava no que escreveria aqui e que achei bem interessante (e bem pertinente com o que eu trouxe): O mito do “professor nativo” no ensino de línguas estrangeiras.