Mocassins e All Stars — Clara Savelli

Título: Mocassins e All stars 
Autora: Clara Savelli 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 519 
Ano: 2019

[para ler ao som de all star — Cassia Eller

Sinopse

Julie está em um momento complicado da vida. Depois da morte do seu pai, ela e sua mãe se mudam para o outro lado do país – lar de sua avó materna, que ela nunca conheceu. Julie se vê obrigada a deixar seus melhores amigos para trás, a enfrentar colegas nem um pouco receptivos no novo colégio, e a conviver com Arthur, esse garoto implicante que parece amar tirar sarro de seus sapatos e que a coloca em furadas desde seu primeiro dia de aula. Entre mistérios, brigas e romance, Julie descobre algo sobre sua avó que muda o rumo de tudo. Ela só queria terminar o Ensino Médio e decidir o que fazer na faculdade, mas a vida não poderia facilitar tudo para ela, poderia? 

Resenha

Não importa de onde você é, se existe uma verdade universal é a de que o último ano da escola nunca é fácil.

“Para piorar tudo, não estava certa quanto ao que fazer na porcaria da faculdade. Por que a gente tem que escolher tão cedo, afinal de contas?”

É um marco muito importante, uma mudança muito abrupta e muitas escolhas para fazermos. E em Mocassins e all stars é justamente esta a fase retratada.

Julie está para iniciar seu último ano do Ensino Médio. Com alguns adendos: poucos meses antes ela perdera o pai, figura extremamente importante em sua vida, e, com isso, sua mãe decide sair de Nova Iorque e ir para Monterey, do outro lado do Estado, onde mora a vó materna de Julie, com quem ela nunca teve muito contato.

“O dia seguinte marcava o início de uma nova fase na minha vida. Uma escola nova, em um estado novo”

Para dificultar ainda mais as coisas, claro, Julie tem de encarar colegas não muito receptivos.

“Como se ir para uma escola nova, num estado novo não fosse ruim o bastante, a escola era, além de tudo, a melhor do estado”

A começar por Arthur, que logo implica com o all star de Julie. Quer dizer, ela encara o comentário dele como uma implicância, mas, aos poucos, vamos vendo que não é bem assim.

“Quando eu me dei conta da situação, você já tinha roubado um pedaço enorme de mim. E eu não quero que você devolva, não importa o que o mundo pense”

Também há Bárbara, a garota super popular. Ela sim implica de verdade com Julie. Principalmente ao notar o interesse de Arthur na novata…

“E não é nisso que consiste ser jovem? Querer tudo e, mesmo assim, ter tanto medo das coisas darem errado?”

Apesar de todos os pesares, Julie consegue fazer novas amizades, além de conquistar a admiração de muitos outros estudantes da nova escola. Ela acaba se juntando à Leah e aos meninos do basquete, David, Roger, Peter e Jack, criando laços que, num primeiro momento, pareciam impossíveis.

“Vocês perdem a oportunidade de fazer amigos muito legais, porque são preconceituosos, porque são fúteis”

É ao lado de seus novos amigos — mas também dos antigos, que ficaram em Nova Iorque — que Julie vai viver um turbilhão de sentimentos e acontecimentos que um ano pode comportar.

“— Você não sabe o que ter um amigo aqui significa pra mim”

Até poderia parecer surreal o que acontece nos 12 meses no qual a história majoritariamente se passa, mas sabemos que a vida é uma caixinha de surpresas e que algumas pessoas são mais predestinadas a viver milhares de altos e baixos seguidos.

“Estiquei meus braços na direção dele, esperando que pudesse ajudar a completar o vazio que ele carregava dentro do coração da mesma forma que ele ajudava a completar o que eu carregava”

E, como não poderia deixar de ser, há um fator essencial para tornar tudo ainda mais intenso e complicado nesta narrativa: o amor.

“O amor não é cor de rosa. O amor é vermelho, cor de sangue, cor de luta, cor de coragem”

Inclusive, os plots relacionados a isso são bem interessantes! Confesso que fui pega de surpresa e só conseguia pensar “não, não é possível”.

“Às vezes, a gente se questiona por que a vida nos prega peças”

Contudo, como acredito que já ficou claro, Mocassins e all stars não é somente um romance, abordando diversos outros assuntos importantes, como a perda (e o luto), a amizade, a necessidade de seguirmos em frente e, claro, o encerramento do ensino médio e a montanha-russa que isso gera dentro de nós.

“De certa maneira, o Ensino Médio nunca acabava mesmo. As lembranças que a gente construía por lá ficavam para sempre com a gente, assim como as mágoas e as tristezas também”

Mocassins e all stars é uma das primeiras obras de Clara Savelli e, apesar de trazer uma escrita ainda um pouco crua, é capaz de nos envolver, encantar e surpreender. Fiquei com muita vontade de ler outros livros da autora, e tenho certeza que a escrita dela amadureceu muito nos últimos anos, o que só torna tudo ainda melhor.

E se você ficou com vontade de ler Mocassins e all stars, clique abaixo para garantir a sua versão digital ou física. Aproveite também para já seguir a autora em suas redes sociais (Site | Instagram | Twitter | Facebook) e ficar por dentro dos próximos lançamentos dela.

Sorte ou destino? — Bruna Oliveira

Título: Sorte ou destino? 
Autora: Bruna Oliveira 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 212 
Ano: 2018

(para ler ao som de Acima do sol — Skank)

Anna é uma protagonista com a qual muitas leitoras podem se identificar: tímida, fora dos padrões (absurdos) de estética, leitora voraz, extremamente tímida e romântica incorrigível.

“Apesar de estar sempre sofrendo com alguma paixonite, nunca conto isso para ninguém. Eu tento me iludir fingindo que não me importo com essas coisas, mas no final das contas eu sempre quis ter alguém que estivesse ao meu lado quando eu precisasse”

Ela sonha em encontrar seu príncipe encantado e, mais que isso, em ser notada por ele, mas não move um dedo sequer para isso.

“Não fica com medo de se machucar. A sensação de medo de arriscar às vezes pode ser bem pior”

Felizmente, Anna divide um apartamento com Manu, sua amiga desde o ensino fundamental. Elas moram e estudam em Fonte Nova e, apesar de terem personalidades quase opostas, se dão muito bem. 

“Minha amiga não tem medo de se jogar de cabeça na vida, ela tem pressa para ser feliz, e eu tenho que aprender muito com ela”

Anna cursa Administração e Manu, Publicidade e Propaganda. Algumas matérias elas fazem juntas e é justamente numa delas que Anna conhece Cadu e não consegue esconder da melhor amiga que está totalmente caída pelo colega.

“Por mais que eu tente me policiar, meus pensamentos insistem em focar em Cadu, o atual alvo da minha paixão platônica e meu colega de classe”

Manu tem certeza que Cadu também tem algum tipo de interesse por Anna, já que olha várias vezes para ela. A protagonista, porém, acha que isso é coisa da cabeça da amiga.

“A Manu tem esse defeito, ela é otimista demais, e muitas vezes acaba por imaginar coisas para tentar animar a gente”

Seja como for, Manu convence Anna a ir — finalmente — a uma das festas da faculdade, logo no início de mais um ano letivo. Porém, é claro que as coisas ali não saem como o planejado…

“Mas o fato é que nós nunca estamos preparados para ver a pessoa que a gente gosta ficando com outra. É cruel demais”

Contudo, um esbarrão, quando está praticamente fugindo da festa, fará com que a vida de Anna mude completamente. E de uma maneira que ela jamais esperaria. 

“A vida às vezes prega cada peça na gente, não é mesmo?!”

João entra na vida de Anna muito por acaso e vai derrubando as barreiras da garota, uma a uma (clichê? Talvez…).

“A questão é que para mim, uma relação de amizade não é fácil de construir, eu tenho que ter muito tempo de convivência com alguém para poder agir como eu mesma, mostrar meu lado descontraído e até mesmo divertido”

E ele ainda se revela um cara e tanto, para surtos e mais surtos da Anna. Um príncipe mil vezes mais encantado do que ela poderia imaginar.

“Ai meu Deus! Além de lindo ainda gosta de ler como eu. Ele é bom demais para ser de verdade”

Mas é claro que quando a história já está dando certo demais e não estamos nem na metade do livro… É porque vem bomba! E por mais que esperemos isso — e saibamos que no fim as coisas se ajeitam — é sempre uma agonia imensa ver tudo desmoronando.

“Como a vida pode dar um giro de cento e oitenta graus em apenas vinte e quatro horas?”

Sorte ou destino? é uma história deliciosa de se ler. Daquelas que vamos avançando sem nem perceber e nos apaixonamos pelos personagens até sem querer. 

“Estou encantado com a Anna, ela parece real, não essas bonecas de porcelana fabricadas, que a gente vê a torto e a direito nas baladas”

Para além do romance, este é um livro que fala sobre as nossas escolhas — principalmente profissionais — e sobre como recomeços são necessários, principalmente quando significam irmos atrás daquilo que realmente nos faz feliz.

“Quando prestei vestibular eu não tinha ideia do que eu queria fazer da vida, e agora não consigo me enxergar exercendo essa profissão no futuro”

E, no final das contas, também podemos perceber que a história nos mostra que não precisamos mudar para nos encaixarmos no mundo. Que, com calma, as coisas se ajeitam para todos, independentemente do nosso jeitinho.

“Eu não tenho experiência com essas coisas de paquera, então não sei o que de fato aconteceu”

Sim, eu gostei muito dessa leitura, mas como já está quase virando hábito por aqui, fui procurá-la de novo na Amazon e… Ela não está mais disponível. No entanto, a autora tem outras publicações por lá (vem aqui conferir) e você também pode segui-la em suas redes sociais para conhecer melhor o trabalho dela (Instagram). E prometo semana trazer uma resenha de livro recém-saído do forno e com possibilidade de garantir exemplares.

Proibidos de esquecer — Tayana Alvez

Título: Proibidos de esquecer 
Autora: Tayana Alvez 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 528 
Ano: 2022

[leia esta resenha ao som de Pensando em você — Paulinho Moska]

Se você já viveu uma história de amor — talvez A história de amor da sua vida — e jurou que aquela seria a última após seu doloroso término, atenção para este livro.

“E é assim que eu percebo, três anos, dois meses e doze dias depois de sair de casa e jurar para mim mesmo que nunca mais me envolveria com ninguém, que estou me apaixonando”

A história de Paulo e Bianca é bem peculiar: Bianca casou-se aos 17 anos, com seu primeiro (e único) namorado; Paulo também logo constituiu família, mas um acontecimento — que vai sendo revelado aos poucos, como todos os detalhes que nos prendem a essa narrativa — nos mostra como ela ruiu de maneira irreparável. Assim como a de Bianca.

“Meu próprio filho me condenou ao inferno na Terra”

Dois corações que, mesmo após anos, ainda estão em frangalhos e que se encontram. Duas histórias bem diferentes, mas também muito parecidas.

“—  Sentir a dor é melhor do que não sentir nada. — Encolhe os ombros. — A dor é uma lembrança de que foi real…”

Aliás, é preciso dizer uma coisa: ao longo dessa história você vai sentir um nó na garganta inúmeras vezes. E vai chorar outras tantas. Provavelmente você vai se identificar em diversos pontos. Mas ao final, talvez você pense que jamais viveu algo tão forte quanto esses protagonistas. E isso é algo que torna esta história ainda mais incrível: mesmo ela estando longe de ser a sua história (ainda bem?), você vai acabar se identificando em alguma medida.

“Aquela que não carrega mais as dores, mas sempre terá as cicatrizes”

E preciso dizer que neste livro talvez esteja o ápice da representatividade que Tayana Alvez tenta sempre trazer em suas histórias, com protagonistas negras, mães solo… Para mim, finalmente uma protagonista que não bebe e que deixa isso bem claro (aliás, só fiquei curiosa com os motivos dela)!

“— Ah, eu não bebo — diz completamente sem graça. — Desculpa, eu devia ter avisado. — Sorri sem jeito”

Brincadeiras à parte, é difícil falar de Proibidos de esquecer. A narrativa já começa intensa, nos deixando claro que tem muito por vir mas, como eu disse, as peças desse quebra-cabeça vão sendo reveladas aos poucos, na medida certa.

“O que a garota me diz é triste, pesado e doloroso, mas seu tom é como o de alguém que pergunta as horas”

A leitura é catártica. Ao final, percebemos que há muita maturidade e, principalmente, muito amadurecimento. As falas e os acontecimentos impactam e é difícil não ficar com esta narrativa impressa na alma.

“Passei tanto tempo tentando encontrar minha voz que esqueci que ouvir também é necessário”

Proibidos de esquecer se passa — majoritariamente — em Búzios e o verão tem um papel muito importante na história: é a estação que permite a reconexão, tanto de Bianca, quanto, no final das contas, de Paulo.

“Vamos sarar feridas nesse verão”

A história é narrada, alternadamente, pelos dois personagens, mas Bianca certamente domina a narrativa. 

“Às vezes dá vontade de perguntar o que mais as pessoas querem de mim”

Ela, que perdeu a mãe quando ainda era jovem; que perdeu o amor da sua vida aos 20 e poucos anos; que está tentando provar — para os outros, mas também para si — que está bem, que está seguindo a vida.

“O problema com o sofrimento é que todo mundo tem um conselho para você”

Ela, que decide viver um verão inesquecível. Mas que não imaginava o quanto ele seria transformador e revelador.

“Querendo ou não, quando você se entrega totalmente a uma pessoa, você entrega sua verdade a ela também, e se tem algo que nós concordamos, mesmo que sem palavras, é que não estamos prontos para falar do passado”

Bianca passa o verão em Búzios porque é ali que sua família tem uma casa. A casa na qual ela passava o verão na infância, mas que, com a morte da mãe, acabou sendo deixada de lado, mesmo que, contraditoriamente, seu pai finalmente a tenha deixado como a mãe sempre sonhara.

“A vida não para quando alguém que a gente ama morre”

Claro que é em Búzios que Bianca conhece Paulo, o dono da sorveteria cujos sabores têm nomes bem… Exóticos (e adoráveis).

Mas quando Paulo oferece protetor solar para Bianca, na praia, ela não imaginava que ele era dono de uma sorveteria. Nem que era tão solitário. Menos ainda que carregava um fardo tão pesado e triste.

“É difícil descrever o quanto os ‘e se’ podem atrapalhar a vida de alguém”

Tentei colocar em palavras a intensidade de Proibidos de esquecer e talvez eu tenha feito parecer que essa é uma história só de tristeza, mas a verdade é que a Tayana sempre sabe equilibrar passagens mais leves e até momentos que nos arrancam no mínimo um sorrisinho de lado e nesta narrativa não seria diferente.

“E, por Deus, que sensação maravilhosa essa de contar o que a gente quer contar para as nossas pessoas favoritas no mundo”

Falei, falei e falei, mas no final das contas, não sei se consegui apresentar esta obra à altura e, infelizmente, a Tay a retirou da Amazon, por estar reestruturando a sua carreira. Ou seja, quem leu, deu sorte. E quem não leu… É torcer para ela relançar em algum momento!

Agora, se você quiser conhecer um pouco da escrita maravilhosa desta autora, já segue ela nas redes sociais (Instagram | Twitter) e vem aqui neste link ver o que ainda é possível ler de obra dela em ebook. E, claro, não deixe de garantir o seu exemplar físico de O Irlandês, em uma nova edição tão ou mais incrível que a primeira.

Andata e ritorno — B. A. Polinari

Título: Andata e ritorno 
Autora: B. A. Polinari 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 262 
Ano: 2021

[Leia esta resenha ao som de Con te partirò — Andrea Bocelli]

Andata e ritorno (que, em português significa “ida e volta”) é um livro que contém duas histórias paralelas e, ao mesmo tempo, transversais: no presente, conhecemos Stella e suas aventuras, narradas em primeira pessoa; no passado, temos Gildo e sua dura vida, narrados em terceira pessoa.

A verdade é que Stella é uma jovem que decide embarcar rumo à Itália para tentar descobrir mais sobre seu avô — Gildo — e, ao mesmo tempo, reconectar-se consigo. Então, enquanto ela narra sua própria história, ela também conta sobre a infância, a adolescência e a vida adulta de seu avô.

Como tantas famílias ítalo-brasileiras, a de Stella é marcada por imigrações, batalhas e recomeços.

“É incrível como deixamos de prestar atenção em nós mesmos quando vivemos cercados de outras pessoas”

O que a jovem não imaginava era que a sua própria história poderia se assemelhar tanto à de seu avô: ao longo de sua viagem, Stella conhece Guido, que transforma sua vida e faz com que ela precise fazer escolhas que não estavam em seus planos.

“Naquelas cartas talvez encontrasse a resposta para meus questionamentos constantes”

Com a história de Gildo, mergulhamos em uma Verona antiga, que viveu a guerra. Conhecemos uma família grande, cheia de amor e que, unida, passa por diversas provações.

“Por algum motivo, a ideia de que sua família estava sofrendo com sua suposta morte o machucava muito mais do que as dores que sentia ou as feridas que ainda não haviam cicatrizado por completo”

A história de Stella, por sua vez, nos fala sobre a solidão de estar em um país estrangeiro, a saudade, os fantasmas do passado.

As narrativas, como eu disse, não são apenas paralelas, mas transversais, e é gostoso perceber como, apesar do anos e das diferenças, Stella não nega o sangue que tem.

Andata e ritorno é uma publicação independente, baseada em fatos reais, que vai te transportar em inúmeras viagens. 

A diagramação da obra é confortável, com impressão em papel pólen e belos detalhes que minuciosamente adornam as páginas.

Se esta história te interessa, adquira seu ebook abaixo ou veja a possibilidade de também adquirir um exemplar impresso entrando em contato com a autora. Aliás, aproveite e já acompanhe o trabalho dela em suas redes sociais (Site | Instagram).

Fisheye — Kami Girão

Título: Fisheye 
Autora: Kami Girão 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 320 
Ano: 2020 (2º edição)

Uma pessoa querida já te recomendou tanto um livro que a sua curiosidade só aumentava? Pois foi assim que conheci Fisheye, mais de uma vez indicado, sempre com lindas palavras, pela Michelle Pereira.

Dizem que a expectativa é inimiga da apreciação, mas isso não aconteceu com esse livro que superou — e muito — tudo o que eu poderia esperar para esta história.

“Não queria mais promessas sem fundamento”

A narrativa é intensa, bem escrita e propicia ao leitor um mix de emoções que é até difícil colocar em palavras.

“Era sempre mais fácil fugir daquilo que não se quer encarar”

A protagonista, Ravena Sombra, gera, por si só, sentimentos bem contraditórios dentro de nós: de início, ela é a típica popularzinha odiável do Ensino Médio. Mas então ela passa a descobrir coisas sobre si mesma e sobre a vida, transformando-se. E aí é impossível não sentir compaixão e querer abraçá-la, dizendo que tudo ficará bem.

“A imagem que construí na escola não era uma que eu gostaria de carregar para o meu futuro, mas ela me pertencia. Era a minha memória”

Logo no começo do livro encontramos a protagonista ansiosamente se arrumando para uma festa. Mas ela não imaginava que era ali que tudo começaria a mudar e desmoronar.

“Os adolescentes conseguem ser bem maldosos com um pouco de boa vontade”

Ravena fica momentaneamente cega por conta de um flash na balada e isso causa um acidente: um belo tombo, no meio da festa, que ainda vai gerar muitos burburinhos falsos e um belo castigo para ela.

Dias depois, porém, investigando a causa dessa cegueira momentânea, Ravena descobre muito mais, sobre seu passado e seu futuro: ela tem retinose pigmentar.

“Nomes grandes de doenças nunca era bom sinal”

Se você não sabe nada sobre essa doença, tudo bem. Este é um ótimo livro para aprender um pouquinho sobre isso, com a própria protagonista, ao mesmo tempo em que tantos outros assuntos importantes também são discutidos.

“Era diferente encarar o mundo daquela maneira, mas não era de todo ruim”

Acredito que os trechos que já usei até aqui deixam claro que a autora trabalha, na história, muitos aspectos da adolescência e da crueldade que essa fase carrega. Para além do bullying e das aparências, Kami Girão ainda consegue falar sobre as escolhas diante do final da fase escolar e do quão difícil elas são.

“Não conseguia imaginar o que me aguardava do lado de fora da escola. Viver ali era seguro, apesar dos pesares, e a realidade lá fora parecia assustadora”

Fisheye também fala — e muito — sobre relações familiares. Ravena podia não ser a melhor pessoa do mundo no início da história, mas seu lar certamente contribuía para sua personalidade terrível.

“Senti uma lágrima escorrer quando me dei conta de que estava sozinha”

O pai está sempre trabalhando ou aproveitando a vida com a amante; a mãe vive assistindo televisão e se afogando em sua tristeza; a irmã mais velha, quando ainda morava com eles, vivia provocando Ravena.

“Para sobreviver em um mundo de aparências, é necessário obedecer às regras impostas”

Mas nem tudo é maldade e dor neste livro. Ao mesmo tempo em que o mundo de Ravena começa a ruir, entra em cena um personagem capaz de mudar tudo (mais uma vez).

“Era esquisito perceber que o belo e o horrível podiam habitar a mesma pele e montar a feição da  mesma pessoa”

Daniel — também conhecido pelas más línguas por Queimadinho — é um jovem que tem um passado bem pesado, mas que leva a vida de maneira leve e que, com isso, tem muito a ensinar.

“Aquele era um lado de Daniel que eu desconhecia completamente. Mas também era um lado que me fascinava”

É assim que, através dele, a narrativa ainda aborda a importância da verdade, do amor, do cuidado com o outro e de não julgarmos pela aparência, pois o interior sempre esconde muito mais.

“A verdade nem sempre é o caminho mais fácil, mas é o mais adequado em qualquer situação”

Fisheye é uma história na qual podemos acompanhar um grande amadurecimento da protagonista, ao mesmo tempo em que aprendemos e refletimos sobre assuntos diversos, mas intimamente conectados.

“Possuir, no instante de um clique, aquilo que não se tinha mais, registrar momentos usando outras formas de sentir, revolucionar a arte e a percepção de quem enxerga por ser cego e fotografar”

Uma narrativa que facilmente nos leva às lágrimas. No meio do livro, há um interlúdio escrito por Victória, a irmã de Ravena, e se você acha que ali iremos respirar com mais tranquilidade, não se engane: o bolo na garganta só aumenta!

“Não se fica triste com demonstrações verdadeiras de carinho e afeto”

Se você se interessou por Fisheye (e eu espero que tenha se interessado!), clique abaixo para garantir o seu ebook ou entre em contato com a autora para verificar a disponibilidade de um exemplar físico (eu tive a sorte de garantir um e foi nele que realizei minha leitura. Edição excelente!). Aproveita e já segue a Kami nas redes sociais (Instagram | Twitter), para ficar por dentro dos demais trabalhos dela.

Citações #59 — Proibida de amar

Se tem uma autora que eu amo, essa autora é Tayana Alvez! A escrita dela envolve, encanta, fascina.

Quem não acompanha o trabalho da Tay, contudo, provavelmente não sabe que muitos dos livros que li (e que já resenhei por aqui) foram retirados da Amazon, pois ela está se reposicionando no mercado literário.

Os quotes que trago hoje são de um desses livros. Porém, não posso deixar de compartilhar essas passagens, tanto para que você tenha um gostinho do que perdeu, quanto para que você entenda o quão incrível essa autora é.

Proibida de amar traz a história de uma jovem com um passado por si só complexo, mas que, além de tudo, está tentando se recuperar de um relacionamento extremamente tóxico.

“Só que, Lavínia, eu ainda cresci sem a presença do meu pai, e isso dói”

A protagonista foi mãe muito cedo, e tem de lidar com as responsabilidades dessa condição, ao mesmo tempo em que luta para se livrar de amarras tão dolorosas.

“Não choro, mas sofro”

O livro carrega uma profundidade e uma densidade que não temos como ignorar, como é típico das histórias de Tayana.

“Então talvez o para sempre exista mesmo, só não seja para mim”

“Eu precisava de pelo menos mais um dia perfeito antes de tudo acabar”

Mas também tem o seu toque de leveza, que torna a leitura extremamente prazerosa.

“Oliver me mostrou o lado bom de estar com outra pessoa”

Uma narrativa que nos faz, ao mesmo tempo, refletir, rir, chorar, amar, se desesperar. E que, com o seu toque sutil, vai nos marcar das mais diferentes formas.

“No dia a dia, contudo, aprendi com minha mãe que as coisas que as pessoas falam de mim não dizem nada sobre mim, dizem sobre elas”

Para não perder mais nenhum trabalho da Tayana, recomendo que você acompanhe as autoras em suas redes sociais (Instagram | Twitter). E se quiser conhecer melhor a história de Proibida de amar, leia a resenha aqui. Se quiser saber que histórias da autora você ainda encontra na Amazon, basta clicar aqui.

Aquela vez em Pirenópolis — Héber Luciano

Título: Aquela vez em Pirenópolis 
Autor: Héber Luciano 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 25 
Ano: 2020

Aquela vez em Pirenópolis é uma história curta — são apenas 25 páginas — mas que consegue deixar a sua marca e gerar muitos sentimentos em nós.

O cenário da história já é tenso por si só: Henrique e Sarah estão presos às ferragens de um carro que capotou e caiu em um barranco, no meio de uma estrada, a noite. 

Enquanto tentam se manter acordados — e vivos — os dois vão relembrando como se conheceram e alguns dos momentos marcantes vividos até ali, nos apresentando à história deles.

“Não teria sido tão incrível, se não fosse tão inesperado, tão desajeitado assim”

A descrição do local do acidente e da situação deles é sempre angustiante. E saber que eles estão esperando um resgate que tem chances baixíssimas de aparecer é ainda mais desesperador.

Entremeado a isso, contudo, temos o romance deles, para trazer um pouco de respiro e alento.

“Jamais amaria alguém da maneira que a amava”

O final desta narrativa surpreende e explica, finalmente, o título dela, nos deixando de queixo caído (e coração em pedaços).

Uma grata surpresa que, se te interessar, pode ser lida a partir do link abaixo, em formato ebook. E se quiser saber mais sobre o autor, não deixe de acompanhar suas redes sociais (Blog | Instagram).

Clichês em rosa, roxo e azul — Maria Freitas

Título: Clichês em Rosa, Roxo e Azul: coleção de contos com protagonismo bissexual 
Autora: Maria Freitas 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 685 
Ano: 2021

Introdução

Durante a pandemia que se iniciou em 2020 e, aqui no Brasil, se prolongou com um cenário tão terrível quanto em 2021, inúmeros autores e editoras deixaram, em algum momento, suas obras liberadas para download gratuito

“Acho que o mundo não vai acabar. Ele só vai ser diferente daqui em diante”

(Conto: Amor de janela)

Muitos artistas — ao menos aqueles que conseguiram manter um pouco de sanidade em meio ao caos — também aproveitaram esse período para produzir e publicar. 

“Via na expressão artística a chance de escapar um pouquinho, de atingir o outro, de mudar o mundo”

(Conto: As razões de Henrique)

Foi justamente nessa época que surgiram os contos da Maria Freitas, reunidos, posteriormente no livro Clichês em rosa, roxo e azul: coleção de contos com protagonismo bissexual

“Estou muito longe de ser aquilo que esperam que eu seja e de amar o tipo de pessoa que eles esperam que eu ame”

(Conto: Mas… e se?)

Foram inúmeras as vezes que essas histórias apareceram para mim, mas foi somente agora que realmente parei para entrar em contato com elas. E, como sempre, acredito que foi no momento certo.

“É difícil não se sentir um incômodo quando você passou a vida inteira se sentindo exatamente desse jeito”

(Conto: um corpo de verão)

O livro me tocou bastante e os contos, cada um à sua maneira, ao seu estilo, me fizeram refletir sobre inúmeros assuntos (para além, claro, do protagonismo bissexual). Assim sendo, achei que seria justo comentar um a um, então esse post talvez fique um pouco longo, mas é por uma ótima causa.

“Eu entendo, Cecília. Mas é preciso estar vivo pra militar”

(Conto: Azeitonas)

Sobre o livro

Antes, porém, alguns apontamentos sobre a obra como um todo: apesar da grande quantidade de páginas (são mais de 600), a leitura flui muito rapidamente, afinal são diversos contos reunidos e todos eles conseguem nos fazer mergulhar na história.

“Não preciso nem abrir os olhos para saber que estou no lugar certo”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Além disso, é muito interessante ver que diversas narrativas, de alguma forma, se conectam, assim como há elementos que se repetem, como, por exemplo, a presença de pesadelos. Também dei altas risadas a cada título ou nome de autor real que vi levemente modificado ao longo dessas páginas. Sem contar o quentinho no coração de ver a literatura nacional sendo valorizada dentro da literatura nacional. 

“Se ela gosta dos livros do Mariano, é porque tem bom caráter, não é?”

(Conto: Bregafunk do amor)

Gostei muito das descrições dos personagens, sempre inseridas de maneira natural e nos possibilitando uma visualização melhor deles. Outro ponto positivo é que a maioria dos personagens é “fora do padrão“, trazendo uma diversidade muito maior e natural à obra.

“Quando eu era criança, confiava demais em todo mundo. Mas aí me tornei um adolescente solitário, com tantas questões internas, tantas coisas guardadas dentro de mim, flutuando entre mil “eus”, que me fechei”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Sem mais delongas, vamos a cada uma das histórias, na ordem em que aparecem no livro que as reúne. Ao clicar sobre o título, você irá acessar a página da Amazon do conto em si. Ao final do post, deixarei o link para a obra completa, caso você, assim como eu, não queira perder nenhuma dessas maravilhosas histórias.

Mas… e se?

Depois de uma (longa) temporada de shows, o cantor sertanejo Henrique finalmente volta para casa. 

“Cansei de dormir no banco de passageiro, cansei de chorar de saudade com a cabeça encostada no vidro frio da janela”

(Conto: Mas… e se?)

Mas, além de ter que se readaptar à calmaria da vida numa cidade do interior de Minas, ele também tem de se acostumar com o novo (não tão novo assim) namorado de sua esposa

“Preciso beber algo quente, preciso da cafeína para me situar, para entender todas as mudanças que aconteceram na minha vida, quando eu não estava vivendo”

(Conto: Mas… e se?)

Confuso? Bem, esse conto já começa nos mostrando que o amor é algo realmente complexo e que, por vezes, há espaço para mais de um amor verdadeiro dentro de nossos corações.

“Quem nos bagunça são os outros”

(Conto: Mas… e se?)

E bota amor verdadeiro nisso, viu? Nem as traições do passado foram capazes de diminuí-lo (e claro que não darei mais detalhes, porque se eu estava muito curiosa para entender o passado desses personagens, também quero deixar a curiosidade te dominar).

“Porque o amor muda tudo”

(Conto: Mas… e se?)

Um corpo de verão

Acho que o título desse conto já deixa bem claro um dos pontos principais dessa narrativa: a insegurança que temos com relação aos nossos corpos, principalmente diante de tantas pressões estéticas impostas pela mídia e pela sociedade.

“As pessoas sempre vão encontrar algo para dizer. Sempre. Não importa o que você faça, elas sempre vão estar lá para te julgar”

(Conto: um corpo de verão)

Mas Vanessa também tem muitas outras coisas com as quais lidar, como as dificuldades pelas quais a mãe passou e tudo o que teve de abrir mão para que a protagonista tivesse uma vida razoável.

“Nunca achei justo o sacrifício que ela teve que fazer. Nunca achei justo não termos escolha”

(Conto: um corpo de verão)

Não bastasse isso, Vanessa ainda queria poder beijar a amiga de infância. Amiga da qual havia se afastado quando tudo ficou confuso dentro dela.

“Parecia que a gente tinha se perdido uma da outra, se desconhecido”

(Conto: um corpo de verão)

E nessa busca uma pela outra e por si mesmas, vamos enxergando o quanto Vanessa guarda dentro de si, e vamos aprendendo a amá-la como ela mesma, aos poucos, também vai aprendendo.

“Algo se revirou no meu estômago. Uma sensação ruim de quem está sentindo coisas demais, coisas que não sabe como decifrar”

(Conto: um corpo de verão)

Espero que não perca

Acho que esse é um dos contos mais diferentes deste livro, numa pegada mais romance de época. Sim, com protagonismo bi, por que não?

“Ninguém se importa com o que sentimos”

(Conto: Espero que não perca)

Mas essa não era a única dificuldade das protagonistas dessa história: Mercedes pertencia à burguesia, enquanto Alzira era uma mulher negra. Já imaginou o tamanho do problema para uma história que começa por volta dos anos 30?

A história das duas se cruza pela primeira vez no velório da avó de Mercedes, uma mulher que, segundo as descrições, parece ter sido incrível.

“Há uma linha tênue que separa a vida da morte. Um suspiro. Um último sorriso. Mas nem sempre a morte é o fim de uma história. Às vezes, ela é o começo”

(Conto: Espero que não perca)

Dali para frente elas têm de lidar com os sentimentos do coração e os preconceitos que a cercam, fazendo nascer uma história cujo final emociona até o mais duro dos corações.

“As partes quebradas dos dois se encaixavam”

(Conto: Espero que não perca)

Amor de janela

Amor de janela era um conto que eu tinha curiosidade em ler, porque o título já deixa bem explícito o período em que se passa a narrativa: a pandemia.

“— Ficar em casa é mais difícil pra algumas pessoas que pra outras, né?”

(Conto: Amor de janela)

Apesar de estar acostumada à paz do seu quarto, a pandemia também mexe muito com Camila, que tem de aprender (e tentar) a conviver com sua família.

“Já estava acostumada a ficar em casa o dia inteiro, mas a impossibilidade de sair deixa as coisas muito piores. É essa falta de escolha que me incomoda, não a limitação de opções de lazer”

(Conto: Amor de janela)

Um belo dia, porém, algo (alguém) quebra a monotonia dessa vida reclusa: Erick, o vizinho de Camila.

“Ando sentindo tão pouco, que sentir algo, mesmo que bobo, faz meu coração saltar”

(Conto: Amor de janela)

E enquanto os dois vão se conhecendo, nós vamos nos apaixonando por cada um e torcendo por aquele quentinho no coração necessário. 

“Para você que está em casa, sonhando com abraços e lidando com a solidão. Nós vamos vencer isso!”

(Conto: Amor de janela)

Outra dimensão para nós dois

Já imaginou se ver vivendo cenários futuros que dependem das escolhas que você faz hoje?

Pois é isso que encontramos em Outra dimensão para nós dois, história na qual conhecemos Maycon, apaixonado por Rafael, o melhor amigo com quem divide a casa.

“Em algum ponto desastroso do tempo ou das nossas escolhas”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

E claro que Rafael não facilita em nada a situação. Primeiro porque ele é daqueles que quer pegar todo mundo e não ficar com ninguém (bem diferente de Maycon). E segundo porque ele é muito tranquilo, acha que a vida não precisa ser levada tão a sério.

“A gente faz escolhas erradas todos os dias. Ainda estamos aqui, não estamos?”

(Conto: Outra dimensão para nós dois)

Este é um conto leve, apesar de trazer questões pesadas. Um conto que começa como uma nuvem cinza pairando, deságua e, enfim, faz o sol brilhar sobre nós.

Estrela e a Flor

Aqui temos um conto que está mais no gênero da fantasia, retratando uma região que era de terras pacíficas — Alveiros —, até que um brilho forte surge no céu e muda a história local. 

“As coisas não começam do meio, Estrela…”

(Conto: Estrela e a flor)

Na noite em que começa a história, tudo está ainda mais diferente: o pai de Estrela, única pessoa capaz de acender uma fogueira que resista ao frio da região, já não está mais vivo para desempenhar seu papel.

“Esta noite, em especial, tudo parece grande demais para suportar”

(Conto: Estrela e a flor)

Mas a festa é salva por uma figura que também desperta sentimentos e reflexões dentro de Estrela, que tem muito a aprender sobre sua própria história.

“Eu nem sabia que estava sentindo tantas coisas até todas elas transbordarem”

(Conto: Estrela e a flor)

Azeitonas

Óbvio que eu, que amo azeitonas, fiquei intrigada com o título desse conto. Só não imaginava que essa simples maravilha poderia ser tão significativa para a história de um relacionamento.

“Rótulos são políticos. Você deve usá-los para se reunir com pessoas iguais a você, para reivindicar direitos e debater sobre dores em comum. Não para se diminuir”

(Conto: Azeitonas)

Ao mesmo tempo, a história nada tem a ver com as azeitonas em si, indo muito além disso. Aliás, este é outro conto que retrata muito bem o período da pandemia.

“Passo o mais longe dele que consigo e vou (mais uma vez) tomar um banho. Já estou de saco cheio. Essa pandemia tem que acabar!”

(Conto: Azeitonas)

Cecília está vivendo esse período com o avô, e resolveu se voluntariar para fazer as compras para ele e para outros vizinhos idosos. 

Ela tem todo um esquema para organizar as compras, mas um dia, perdida em pensamentos, acaba misturando as coisas, dando início a uma troca de bilhetes entre seu avô e um dos vizinhos.

“Acho que preciso focar um pouco mais no mundo que está aqui à minha frente”

(Conto: Azeitonas)

A troca de bilhetes, os sentimentos de Cecília e as conversas que ela tem com seu avô fazem com que a jovem acabe entendendo um pouco melhor o término do seu relacionamento, além de compreender as novas relações em sua vida.

“Pra mim é isso o que mais importa, Cecília. Ter alguém que preencha, ao menos um pouquinho, o meu vazio”

(Conto: Azeitonas)

Nós também temos muito a aprender com essa história, que retrata o amor na sua forma mais pura, simples e verdadeira.

“Quero falar sobre sentir dor, sobre estar triste, sobre… amar as pessoas…”

(Conto: Azeitonas)

As razões de Henrique

Henrique mora no interior de Minas com sua mãe, Débora, e suas irmãs, Vanessa, Carol e Alessandra. O pai vive com outra família.

“A separação dos pais é um acontecimento traumático para a maioria das pessoas. Para Henrique não. Sentia-se aliviado” 

(Conto: As razões de Henrique)

O drama na vida de Henrique, porém, são as inúmeras vezes que teve de trocar de escola devido a problemas.

“Ele queria dizer a ela que nunca tinha feito aquilo. Queria dizer que, na verdade, estava fugindo das perseguições dos colegas das outras escolas onde havia estudado”

(Conto: As razões de Henrique)

O que ninguém sabe, porém, é que os “problemas” dele são o bullying sofrido por ser diferente de seus colegas.

“Henrique queria ser hétero, queria muito, mas não era”

(Conto: As razões de Henrique)

Em Santa Maria Madalena, contudo, as coisas parecem ser diferentes.

“Nunca havia sido acolhido em escola nenhuma antes, nem tinha passado por sua cabeça a possibilidade de que ali ele pudesse se sentir bem. Mas ele se sentiu, assim que Malu se sentou na cadeira do lado dele”

(Conto: As razões de Henrique)

E realmente são. É nessa cidade que Henrique passa a viver um amontoado de sentimentos, buscando entender o que se passa em seu coração.

“Em todos os seus quinze anos, Henrique nunca havia sentido o coração bater tão forte no peito”

(Conto: As razões de Henrique)

Mais do que falar sobre a descoberta da bissexualidade (em um lugar onde ainda há muito preconceito com o que “foge à norma”), esse conto também nos faz refletir sobre o tempo, sobre olhar com calma ao nosso redor.

“É que… às vezes, a gente está com tanta pressa, tão preso na nossa própria vida, que esquece de todas as vidas que nos cercam. Elas também são importantes, mas ninguém vê”

(As razões de Henrique)

Um conto que também faz com que nos apaixonemos pelos personagens.

“Pela primeira vez na vida, Henrique quis parar. E permanecer”

(As razões de Henrique)

Emma, Cobra e a criatura na parede

Devo confessar que o título deste conto não despertava muito da minha curiosidade, mas hoje eu leria até mesmo o livro que aprofunda essa história.

Emma e Cobra eram bons amigos. Até deixarem de se falar. E claro que o afastamento deles se deve a um mix de sentimentos que só a adolescência e essa fase de descobertas é capaz de despertar em nós.

Alguns acontecimentos estranhos, porém, juntam esses dois amigos novamente: Emma ouve vozes vindas da sua parede (e não são vizinhos, pois ela mora na última casa da cidade), enquanto Cobra é capaz de ler os pensamentos dos outros.

“E eu penso que está muito além da nossa compreensão entender como aquele meteoro nos transformou na nova geração dos X-Men, só que no interior de Minas Gerais”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Enquanto tentam entender o que está acontecendo, Emma e Cobra se reaproximam, conhecem criaturas vindas de outra dimensão do tempo e espaço e têm a oportunidade de perdoar um ou outro.

“Ela respeitou meu pronome no íntimo de sua mente… E pensar nisso faz com que eu me sinta culpado”

(Conto: Emma, Cobra e a criatura na parede)

Acho que eu fiz uma música

Ao contrário do último conto, este aqui obviamente já ganhou meu coração só pelo nome, apesar do começo ter sido um pouco mais arrastado do que eu esperava.

Tudo começa com Juan indo assistir a uma apresentação de Lili simplesmente porque ela um dia fora parceira musical de João Vinícius, por quem Juan é apaixonado desde a adolescência.

“Perdi mais uma vez para João Vinícius”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Acontece que Juan não tem ideia do fim desastroso que a parceria e a amizade de Lili e João Vinícius tivera.

Ainda assim (e mesmo que muito a contragosto), Lili aceita a proposta de Juan: ela o ajuda a conhecer João Vinícius e ele a ajuda a melhorar seu marketing. 

“Parte de mim ainda acha que deveria lutar contra isso. Só que tenho lutas demais na vida, não preciso de mais uma”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Juan só não contava em se apaixonar mais uma vez no meio desse caminho. E é difícil não torcer por esse amor.

“Eu não havia reparado tanto nela antes, mas Lili é muito bonita. Do tipo de beleza que parece um tapa na cara, você só percebe quando bate. E te tira do eixo”

(Conto: Acho que fiz uma música)

Bregafunk do amor

Preciso confessar que eu jamais imaginaria que um conto com esse título poderia falar, também, de uma paixão que me move: livros.

“Há um lugar, porém, onde sempre posso encontrar um refúgio, onde sei que irei me identificar com os personagens vivendo suas vidas de forma extremamente mágica… ou não. E esse lugar são os livros do Mariano Madeira”

(Conto: Bregafunk do amor)

E é justamente isso que une Ana Cecília, Felipe e Mirela, três jovens apaixonados pelos livros de Mariano Madeira

“Então vocês também gostam do Madeira? — Mirela pergunta baixinho. Parece até que estamos planejando derrubar o presidente. O que não seria uma má ideia”

(Conto: Bregafunk do amor)

Felipe e Mirela já se conhecem de longa data e têm um passado que fica pairando no ar a todo momento.

“E meu coração acelerou por Felipe por muito, muito tempo. Até o dia em que ele o feriu”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ana, por sua vez, também parece ter um passado e tanto, mas é nova na cidade e está tentando recomeçar e se reencontrar ali.

“O olhar de Ana é puro terror. Parece que já viu mais coisas do que deveria ser aceito uma adolescente ver”

(Conto: Bregafunk do amor)

Ao descobrir a paixão em comum, porém, os três jovens se unem em um plano infalível (só que não) para ir à sessão de autógrafos do autor na cidade vizinha.

“Nossa sintonia é tão palpável que eu poderia morar nesse espaço que estamos construindo”

(Conto: Bregafunk do amor)

Narrado em primeira pessoa, cada vez por um desses personagens, este conto nos entrega muitas reflexões e muita profundidade, disfarçadas de uma história totalmente leve e até engraçada.

“Só posso me responsabilizar por aquilo que eu faço. As atitudes, mentiras e silêncios deles, são responsabilidades deles”

(Conto: Bregafunk do amor)

Um papai Noel de outro planeta

É natal, mas a data não está nada celebrativa para Gal, pois sua namorada está desaparecida.

“O vazio que eu sinto ao perceber que minha mãe não me conhece mais — que ela nunca me conheceu — foi até suportável em outros natais, mas não neste”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

O que Gal não imagina é que é justamente um Papai Noel (um pouco diferente talvez) a pessoa que irá ajudar nessa busca.

“É engraçado como naturalizamos o que não deveria ser naturalizado”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Este é o último conto do livro e ele consegue reunir muitas das outras histórias lidas. É muito gostoso passar pelas aventuras de Gal, que por si só já dão muito pano para manga, e, ao mesmo tempo, relembrar um pouco do que foi lido ao longo do livro.

Aqui, novamente, temos viagem pelo tempo e espaço, mistérios a serem resolvidos e muitos sentimentos envolvidos.

“Viajar no tempo é conviver com sua própria inexistência”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

E também temos muita reflexão disfarçada em meio a algo que pode parecer leve.

“Eu me deixei de lado, por muito tempo, tentando ser aquilo que esperavam de mim”

(Conto: Um papai Noel de outro planeta)

Conclusão

Como eu disse lá no começo dessa resenha, Clichês em rosa, roxo e azul foi uma obra que me tocou bastante. Com ela, pude ter ótimos momentos de lazer, mas também aprendi muito.

“Não é a quantidade nem a frequência das mensagens, é a conversa em si e a atenção que você dá a ela”

(Conto: Azeitonas)

Através dos personagens, passei a enxergar a diversidade com olhos ainda mais amplos, compreendendo, também, que são inúmeras e variadas as formas de amar verdadeiramente. Além de enxergar com mais clareza uma parte de mim também.

“É muito fácil me acostumar com ele aqui, como se sua presença fosse natural”

(Conto: Mas… e se?)

E para quem, assim como eu, não saberia escolher apenas um conto para ler, deixo aqui o link para a obra completa. Aproveite para também conhecer as redes sociais da autora (Site | Instagram | Twitter) e ficar por dentro dos lançamentos dela.

Profissão Fangirl — Ana Farias Ferrari

Título: Profissão fangirl 
Autora: Ana Farias Ferrari 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 258 
Ano: 2022

Você já teve a sensação de que um livro foi escrito para você ou sobre você?

Pois ao iniciar a leitura de Profissão fangirl eu tive essas duas sensações juntas. 

Logo de cara, um livro que — infelizmente — tocou diretamente no meu coração.

“Amiga, desculpa, mas que idiota! Quem termina por mensagem?”

A sensação de tamanha identificação foi estranha, porque ao pegar Profissão fangirl para ler, eu imaginava uma protagonista muito distante de mim, uma vez que nunca fui uma pessoa com ídolos que admire tanto a ponto de me considerar uma fangirl.

Seguindo a leitura, porém, a impressão de que o livro era sobre mim foi logo substituída pela sensação de um livro escrito para mim. E para tantas pessoas que certamente precisam desta leitura.

“A gente sempre acha que a melhor época da nossa vida ou já passou, ou vai chegar, em vez de tentar aproveitar a época em que estamos vivendo”

Como dito ali no início, essa história começa com o término de um relacionamento de cinco anos entre Alice e Diego, deixando a protagonista completamente sem rumo.

“Durante todo o resto da manhã fui fazendo as tarefas automaticamente enquanto deixava minha mente vagar pelos últimos cinco anos da minha vida, todos aqueles em que o Diego esteve presente”

Conversando sobre o acontecimento com suas inseparáveis amigas, porém, Alice percebe que tem muito mais coisa fora do lugar em sua vida.

“Por quase dois anos eu estava acomodada a um emprego que não era nada daquilo que eu queria, e se eu tinha aprendido alguma coisa com o meu relacionamento é que não dá para continuar em um lugar só porque é confortável, eventualmente você vai receber uma mensagem te dizendo que tudo acabou e o que vai restar é o vazio de saber que você só estava ali por medo de mudar”

Decidida a recomeçar — e talvez um pouco alcoolizada também — Alice resolve acompanhar a turnê dos The Rabbits, sua amada banda que, de repente, ela descobre que estará no Brasil em breve. E claro que, para esse momento, ela também decide reativar o blog que criara, anos antes, com as amigas.

“Eu precisava descobrir de novo o que era ser feliz, e não era me adequando aos padrões dos outros que eu conseguiria isso”

Após pedir demissão do emprego que não a fazia feliz, Alice embarca para Belo Horizonte, onde acompanhará sozinha o primeiro show, e depois para o Rio de Janeiro, onde ficará alguns dias na casa de seu amigo Fred e cidade na qual acompanhará o segundo show da banda.

“A felicidade é feita de momentos, e o responsável por fazer esses momentos existirem somos nós!”

Mas é claro que essas viagens não seriam transformadoras por si só. O que mais mexe com Alice, para além das tantas mudanças com as quais ela tem de lidar ao mesmo tempo, é o fato dela ter conhecido Theo, uma figura misteriosa, distante, mas que tem seus motivos e suas vivências para ser assim.

“— Eu sei o que é estar em um relacionamento ruim e em um emprego que você odeia — ele disse, e agora seu sorriso parecia triste. — Nem todo mundo tem coragem de admitir isso e fazer algo para mudar”

É difícil essa história não mexer em algum nível com você. E eu preciso deixar bem claro aqui que mesmo que você ache que shows e a vida de uma fangirl não têm nada a ver contigo, a narrativa desta obra vai muito além disso: ela fala sobre sentimentos, perdas, inseguranças, felicidade. Fala sobre relacionamentos e amizades e aborda cada tema de maneira leve e madura, nos arrancando suspiros, risadas, lágrimas e muita vontade de viver um final feliz.

“Eu só quero descobrir o que é ser feliz de novo, sabe? Aos quinze anos eu sabia de alguma coisa que hoje eu já não consigo mais lembrar”

A narrativa em primeira pessoa nos permite um mergulho no universo da protagonista, tornando a leitura ainda mais intensa. A construção da narrativa também ajuda a tornar os acontecimentos factíveis, nos aproximando ainda mais de cada linha desta história.

“Droga, como alguém podia ser tão ignorante dos próprios sentimentos?”

Se você acha que essa história é para você, já clica ali embaixo para saber mais. E não deixe de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram | Twitter).

Ah, e se por acaso você prefere ler fantasias, Ana Farias Ferrari também é autora de Os guardiões dos livros. Não deixe de conferir a resenha! 

O lado extraordinário da falta — Ana Hantt e Josie Baron

Título: O lado extraordinário da falta 
Autoras: Ana Hantt e Josie Baron 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 184 
Ano: 2020

Logo de cara, o que chama a atenção nesse livro é o título: O lado extraordinário da falta.

“Afinal, o ‘felizes para sempre’ poderia ser diferente em cada história”

Na vida, podemos sentir um vazio por diversos motivos e, aos poucos, é isto que esse livro vai nos mostrando, mesmo que nem sempre tão diretamente.

“Mas, aí, ela me falou sobre todas as novas possibilidades que as perdas iriam me proporcionar. Assim que meu coração estivesse forte o suficiente para entender o que acontecera, eu iria procurar por novas aventuras, me arriscar, descobrir caminhos que não consideraria se fosse de outro modo”

O começo pode ser um pouco confuso, porque a história alterna entre as duas protagonistas e, até que nos acostumemos com ambas, as coisas podem ficar um pouco perdidas.

“— Meu nome é Jackie.

— Meu nome é Elena.

E aquele foi o momento em que suas vidas mudaram para sempre”

Aliás, Jackie e Elena, as tais protagonistas, tinham tudo para jamais cruzarem o caminho uma da outra, mas o destino quis que não apenas elas se encontrassem, mas que virassem amigas. Praticamente a única amiga uma da outra. 

“Tenho que saber que consigo fazer as coisas sozinha, que não preciso contar com ninguém”

A vida de Jackeline Foster é marcada por episódios difíceis desde cedo. A perda, ali, parece natural (mas não deveria).

“Ela já não queria ser a princesa de Niagara Falls. O reino perdera o encanto”

Elena Whitehill, por outro lado, deveria ter tudo. Mas ela não necessariamente quer tudo o que tem e, para buscar seus verdadeiros desejos, terá de abdicar de muita coisa.

“Vai cursar o seu semestre na Itália, Elena. Você não pode viver uma vida que não é sua. Eu não posso viver uma vida que não é minha. Nós vamos dar um jeito de fazer a nossa mãe entender isso”

A história dessas duas se cruza, ainda, com a de muitas outras pessoas, principalmente suas próprias famílias e o fardo que elas trazem à vivência dessas jovens.

“Ela sabia que, depois de uma vida inteira de mudanças constantes, tudo o que Daniel queria era um lugar para pertencer”

O lado extraordinário da falta é uma história (ou várias, se pararmos para analisar), portanto, que vai nos ensinando a lidar com as mudanças, com as perdas, com o deixar para trás para seguir em frente.

Quando comecei a ler, encontrei algo totalmente diferente do que eu esperava (o que eu esperava, afinal?) e demorei um pouco para me conectar à história, até que fui enredada pelo que poderia acontecer com as protagonistas e em que ponto a história delas se concluiria.

Sim, porque não posso dizer que a narrativa termina: são dores reais demais, acontecimentos palpáveis. Acompanhamos as meninas desde a infância até o início da vida adulta e só podemos esperar que o que acontece depois da última página seja o melhor para elas.

Se você quer (ou precisa) dar novos significados às suas perdas, recomendo a leitura de O lado extraordinário da falta, já alertando para os possíveis nós na garganta que essa história vai te dar. 

“Seu maior oponente vencera aquela batalha e técnica nenhuma ajudaria a aplacar a dor dessa perda”

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