Citações #37 — Poeira Estelar

Recentemente, escrevi uma resenha do conto Poeira Estelar, da Gabriela Araujo, publicado de maneira independente, na Amazon, em 2020.

Como espero ter deixado claro na resenha, esta foi uma história que me conquistou aos poucos, deixando-me totalmente encantada ao final da leitura. Uma narrativa daquelas que aquecem o coração e que realmente surpreendem bastante.

“Em todos os momentos Marta sabia que não tinha controle sobre a velocidade nem sobre o seu destino, mas aquilo não a perturbava”

É fácil notar estes meus sentimentos pela quantidade de trechos da obra que destaquei. E como muitos ficaram de fora da resenha, trago-os aqui para que você também possa sentir esse gostinho e se animar a ler o conto inteiro (indico de verdade a leitura).

“Questionava-se quantas histórias deixou de viver porque foi somente cedendo ao que a vida parecia pedir”

Eu gosto muito — e acabo ficando bem reflexiva — quando leio histórias que falam sobre as nossas escolhas e sobre como deveríamos ser quem queremos ser e não quem os outros querem que sejamos. Tenho o péssimo hábito de tentar a agradar a todos, deixando-me em segundo plano, e histórias assim me fazem pensar sobre isso.

“Nunca pôde ser a mulher que era, pois estava muito ocupada falhando em ser a mulher que queriam que fosse”

Mas Poeira Estelar é encantador porque também mostra, de maneira muito palpável, o processo de amadurecimento de uma garotinha, e como esse crescimento nos faz deixar a criança que há em nós (e, muitas vezes, os sonhos que carregamos) para trás.

“Ela largou de bobagem, como sua amiga diria, e manteve seu foco no futuro que podia traçar. O preço disso foi algumas noites em claro e dias no escuro”

Em mais de um ponto, aliás, a história fala sobre perdas e despedidas, das mais variadas.

“Marta sentia cada vez mais que a vida era uma permanente coleção de despedidas e temia chegar em um ponto em que não teria mais nada”

E a verdade é que esses dois assuntos que acabei de mencionar — o do amadurecimento que nos faz deixar sonhos para trás e o das perdas —, misturam-se de maneira muito bonita na história.

“E evitar mudanças era como tentar segurar a areia entre os dedos. A cada perda, ela foi se despedindo dos próprios sonhos até quase se despedir de si”

Se você ainda não se convenceu a ler Poeira Estelar, mais uma coisa que achei muito bonita na história: o fato da protagonista não apenas crescer (em tantos sentidos), mas também o fato dela ter mudado de cidade, o que a faz viver ainda mais desafios do que ela já vivia. Se você já passou por isso, provavelmente irá se identificar (eu nunca me mudei, sequer de casa ainda, mas as palavras de Poeira Estelar conseguem transmitir muitos dos sentimentos envolvidos).

“Ela se mudou para a cidade e se mudou de si, porque não reconhecia mais a pessoa na qual aos poucos se transformava”

E então, o que achou desses trechos? Que tal adquirir o seu ebook? Boa leitura!

Cigarro e anéis no rabo do gato — Maicon Moura

Título: Cigarro e anéis no rabo do gato e outros contos
Autor: Maicon Moura
Editora: publicação independente
Páginas: 57
Ano: 2021

No início do ano eu postei aqui no blog a resenha de Não quero patos elétricos, indicando fortemente a leitura desta obra. Mas se mesmo depois do que escrevi você não se convenceu a ler um livro que talvez te tire da zona de conforto, hoje eu trago uma nova (e talvez mais fácil) opção: a coletânea Cigarro e anéis no rabo do gato e outros contos, publicada pelo mesmo autor.

“As horas passam rápido. Como os dias, os meses e os anos. Coisas irão acontecer e outras não irão”

Considero que esta possa ser uma forma “mais fácil” de te convencer a embarcar em um novo gênero literário porque as histórias aqui são mais curtas (afinal, são contos) e você pode saboreá-las com calma, além de pegar algumas sutis menções à space opera anteriormente resenhada. Porém, um alerta: o fato das histórias serem mais curtas e de você poder lê-las com calma não significa que você irá se deparar com histórias banais ou toscas. Muito pelo contrário!

“Existem pessoas que sabem muitas coisas. Essas pessoas não estão na faculdade, não estão em escritórios, não são Deuses. Estão por aí, esperando o momento certo para mudarem seu modo de ver as coisas”

A coletânea Cigarro e anéis no rabo do gato reúne cinco contos que se passam numa realidade que (ainda) não é nossa, com simulacros, tecnologia e uma consciência ambiental muito acima da que temos hoje (e que ainda tem tanto a melhorar). É muito maluco perceber, porém, como apesar de tudo isso, os personagens são bem parecidos conosco, sendo reais e humanos mesmo quando não o são (achou confuso? Leia e entenderá!).

“O pensar é um grande mistério, as lembranças são confusas e nossa opinião é falha. Somos um amontoado de incertezas não confiáveis”

Outro aspecto excelente desta coletânea é que as narrativas trazem muitos significados e descobertas para nós, leitores, nos fazendo refletir sobre a vida e a morte e tudo o que há entre essas duas pontas.

“Sabemos que vai acabar e o que estamos fazendo?”

Confesso que tive a honra de ler essa obra ao menos duas vezes (porque, além de tudo, eu a revisei!) e não vou negar que a cada leitura eu me surpreendo com um novo detalhe, um novo pensamento.

“Deprimente é pensar que esse não é o mundo real”

E se você ainda está achando o título desse livro muito estranho, saiba que ele é o nome de um dos contos, e que depois da leitura, talvez as coisas passem a fazer mais sentido. Aliás, os títulos dos contos, em ordem, são:

  1. Beijo e chuva de sábado
  2. Cigarro e anéis no rabo do gato
  3. “Papai?” perguntou minha menininha
  4. Ele, a moça e a saída
  5. Mas eu quero morrer (conto bônus, que eu já havia lido de maneira separada e cuja resenha você encontra aqui).

“Corri como se a vida dependesse daquilo. E dependia”

Espero ao menos ter despertado a sua curiosidade com relação à essa coletânea e a tudo o mais que o Maicon escreve. Você pode acompanhar o trabalho do autor através da newsletter, do Instagram e do Linkedin.

“Eu devia ter me esforçado mais”

Com relação a esse trabalho, ele está disponível na Amazon, mas em breve ganhará o formato físico… Com um prefácio meu! Entre em contato com o autor para adquirir o seu exemplar.

A jornada — Davi Busquet

Título: A jornada
Autor: Davi Busquet
Editora: Publicação independente
Páginas: 11 
Ano: 2020

Em uma história rápida — o conto pode ser lido em questão de minutos — e certeira, Davi Busquet nos faz refletir sobre a vida (e a morte) e sobre as pessoas que nos cercam.

Com personagens sem nome — chamados apenas de o Velho, o Garoto e a Esposa do Velho — a história torna-se ainda mais universal. Uma narrativa cujo título já explica muito e, ao mesmo tempo, não tem como explicar nada.

No conto, somos jogados em um úmido fim de tarde, chegando com o Velho a um lugar que não sabemos qual… Ou que apenas não queremos saber qual é. Ali, diante de um muro, muitas lembranças se passam em sua mente, mesmo que sejam muito poucas perto da vida que ele provavelmente viveu.

“Assim se defendia a mente de um velho”

Também vamos acompanhando algumas reflexões desse tal Velho, enquanto os demais personagens estão ali para compor a sua história.

Com uma linguagem metafórica, o conto exige uma leitura atenta, para que sejamos realmente transportados nessa viagem existencial.

Para ler o conto, clique aqui. Além disso, o autor está lançando um novo livro pela Editora Lettre. Trata-se da obra No coração de um assassino que, de maneira diferente da apresentada neste conto, também nos faz refletir sobre nossa existência e o que fazemos com o nosso lugar no mundo.

A sandália virada — H. L. Amaral

Título: A sandália virada
Autor: H. L. Amaral
Editora: Publicação independente
Páginas: 180
Ano: 2021

Eu era bem pequena quando outra criança, tão pequena quanto eu, ensinou-me que não se pode deixar as sandálias viradas para baixo, porque isso causa a morte da mãe. Assunto macabro para crianças, né? Mas bem, são as crendices populares que permeiam o nosso imaginário cultural.

E neste livro, H. L. Amaral trabalha justamente com essa ideia, criando uma narrativa muito instigante, daquelas que não queremos largar, porque cada capítulo nos faz querer ler “só mais um…”.

Lara, a protagonista desta história, tem apenas 12 anos e a vida de ponta cabeça. Bom, na verdade eu talvez esteja sendo tão dramática quanto ela, mas ao longo da leitura vamos entendendo como ela tem seus motivos e, em momento algum, ela é uma protagonista insuportável, ainda que seja um pouco mimada.

“Não importa o quanto ela quisesse, era como tentar abrir uma porta com a chave errada”

O que acontece é que Lara perdeu sua mãe aos oito anos de idade e não consegue aceitar sua madrasta. Para piorar tudo, é por conta dessa madrasta que ela e seu pai precisam mudar de cidade, o que só aumenta a raiva da jovem.

“O nome ‘Cidade Nova’ era bem literal para mim”

Um dia — ou, sendo mais específica, uma noite — Lara, irritada com sua madrasta, decide testar a famosa crendice popular da sandália virada. Mas ela não esperava que o efeito pudesse ser tão potente e real! No dia seguinte, Lara e Heloísa — sua madrasta — sofrem um acidente de carro, do qual Lara sai praticamente ilesa, enquanto Heloísa fica entre a vida e a morte.

“Eu era a rainha dos planos idiotas, acho que isso já ficou claro”

Claro que, neste dia, o pai de Lara viajara a trabalho e teve de voltar às pressas para Cidade Nova. Mas Lara, acreditando que tudo aquilo era culpa da sandália virada, decide fugir do hospital e voltar o quanto antes para casa, para tentar reverter o estrago.

“De onde estava, pude ver que era um sinal de noventa segundos de espera. Esses intervalos parecem durar uma eternidade quando tudo que você quer é chegar em casa”

A maior parte do livro se passa nesse momento, isto é, no caminho de Lara até a sua casa. Um caminho, porém, recheado de obstáculos, não apenas pelo fato dela não conhecer a cidade, mas por ser carnaval e por Cidade Nova, de acordo com as descrições da história, não ser muito segura, principalmente a noite.

“Agora, perdida no meio da noite, vejo que aquilo foi um erro. Eu não devia brincar com o que eu não entendia por completo”

Por “sorte”, no início desse percurso, Lara encontra Elmo, seu único amigo naquela cidade (e que, até então, ela sequer sabia se poderia realmente chamar de amigo).

“Amigos precisam ser transparentes feito amebas”

E é assim que por páginas e páginas acompanhamos as aventuras e desventuras desses dois jovens e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo um pouco mais cada um e de seus respectivos passados e presentes.

“Quando me dei conta, já estávamos rindo pela noite de Cidade Nova, rindo como as crianças que éramos”

É impressionante como, se pararmos para analisar, Sandália Virada se passa basicamente (mas não totalmente) em uma única noite. Melhor ainda, em algumas poucas horas. E, ainda assim, há muito conteúdo entremeado ali. Sem contar o fato de que o autor consegue, em meio a tanta ação, abordar alguns assuntos como nuances das mais diversas relações familiares, a verdadeira amizade, confiança, bullying e superação.

“Tem gente que tem o sorriso torto. Tem gente que sequer sorri. Já vi gente legal e gente ruim em ambos os casos”

Sandália virada se passa em uma noite que mais parece uma vida e ainda toca em temas importantes, conseguindo ser leve e emocionante, fluída e prazerosa de ler. Uma história para todas as idades e que provavelmente vai te surpreender.

“Aquela noite não era sobre o que eu queria ou o que eu precisava. Nunca foi”

Esse livro caiu do céu em meio às minhas leituras, sendo aquela fuga necessária em meio a tanto caos, ainda que o universo de Lara seja bem caótico também.

“Eu podia ser uma maluca que acreditava em pragas da época da minha bisavó, mas ele ainda segurava minha mão”

Se você se interessou por essa história, clique aqui para conhecer Lara, Elmo e toda a confusão que uma simples sandália virada pode causar!

Eu matei minha mãe — Brias Ribeiro

Título: Eu matei minha mãe
Autora: Brias Ribeiro
Editora: Publicação independente
Páginas: 22
Ano: 2021

Se o título desse lançamento da autora Brias Ribeiro parece pesado, logo compreende-se que muito mais pesada é a narrativa. Aliás, para ser mais justa, a narrativa é até leve, mas aborda uma questão muito importante.

Neste conto conhecemos Diego, um rapaz cuja infância e pré-adolescência foram relativamente boas no aspecto familiar, mas um pouco complicadas na escola, onde sofria bullying, sendo chamado de “viadinho” e “afeminado”, coisa que os pais diziam ser impossível.

Como esses pais sempre faziam tudo por Diego, aos 12 anos ele conseguiu convencê-los que era hora de trocar de colégio. Aos 14 anos, porém, tudo mudou: Diego foi pego atrás da escola, com outro garoto. Aquele foi o fim da relação familiar aparentemente tranquila e equilibrada que existia até ali.

Os pais de Diego, que até então o “amavam”, passaram a odiá-lo e desprezá-lo. Também passaram a brigar constantemente, o que levou à separação deles. Diego continuou morando com a mãe até quando foi possível, mas a situação tornou-se insustentável cedo demais.

“Sentia uma vontade imensa de chorar, mas não conseguia mais”

Logo no início da faculdade — Diego optou por cursar artes cênicas — ele foi definitivamente expulso de casa e teve de se virar. Por sorte, tudo o que lhe faltava de amor familiar, transbordava de amor em suas poucas amizades, que prontamente o acolheram.

“Foram 6 anos de invencibilidade. 6 anos sem chorar que finalmente chegaram ao fim. Era difícil chorar, difícil estar chorando”

Apesar de ter sido totalmente rejeitado por seus pais apenas pela sua sexualidade, Diego sempre tentou conversar, tentou se reaproximar deles, mas todas as suas tentativas foram em vão.

O final do conto é um pouco ambíguo — propositalmente — e, ao mesmo tempo, catártico, ao menos para Diego. Um desfecho que, ao mesmo tempo que surpreende, nos deixa com aquela sensação de “como assim essa história vai acabar aqui?”.

Eu matei minha mãe, portanto, é um conto que fala sobre relações familiares, autoconhecimento, homofobia, amizade, bullying… Caramba, são muitos temas importantes em poucos páginas, mas sem ficar atropelado ou forçado!

E se você quer conferir essa história, clique aqui.

Como não acabar com seu ídolo — Fátima Aparecida Silva

Título: Como não acabar com seu ídolo
Autora: Fátima Aparecida da Silva
Editora: Publicação independente (a versão que eu li)
Páginas: 417
Ano: 2020

Depois de duas resenhas de livros um pouco mais densos, chegou a vez de resenhar este que, apesar de trazer muita coisa real, é bem mais leve. E o mais legal: essa história também se passa em São Paulo. É muito gostoso ler uma história e poder reconhecer os cenários, não?

“Nunca temos o suficiente de São Paulo”

Como não acabar com seu ídolo é uma daquelas histórias feitas para aquecer nossos corações (com muitos “apesares” no meio do caminho) e, mais ainda, para fazer outros escritores sonharem grande.

“É difícil falar de livros com as pessoas que não têm o hábito de ler”

A protagonista desta história é Camille (ou Mille), uma jovem escritora e estudante de Letras que, em meio aos seus diversos projetos e compromissos pessoais, gosta, também, de acompanhar às lives de Celebrity — seu gamer favorito e por quem tem uma enorme queda — na Twitch. Já perceberam como esse livro traz muitos elementos da atualidade, né?

“Aliás, minha vida era um trem fadado ao fracasso, principalmente quando se tratava de sentimentos”

Logo no início do livro nos deparamos, claro, com um acontecimento que pode mudar a vida desses dois personagens em diversos aspectos. Nathanael Dante — o tal Celebrity — decide que está na hora de criar algo. Mais especificamente um curta metragem de suspense. Mas ele não se sente preparado para escrever o roteiro sozinho e começa a buscar escritores em suas redes sociais.

“Deixar uma escritora sem palavras? Essa arte Nathanael domina”

Os leitores de Camille — que conhecem seu trabalho do wattpad —, sabendo da paixão dela por Celebrity, logo começam a marcar a autora na postagem do gamer, fazendo com a vida dos dois finalmente se cruze (finalmente porque Mille o acompanha já há um bom tempo, mas ele não sabia quem ela era na vida real).

“As coisas não são mais reais, sabe? Você enfeita tudo na internet para mostrar uma vida perfeita, mas está morrendo por dentro”

Aqui eu preciso fazer um parênteses: conheci a Fátima e seus obras através do twitter. Bom, “conhecer” talvez seja uma palavra muito forte, não é como se eu soubesse tudo sobre a vida dela ou se eu acompanhasse de perto tudo o que ela faz. Mas com o rápido vislumbre que tive, não consegui deixar de enxergá-la em Camille, o que tornou essa personagem ainda mais real em minha mente.

“Eu sempre me vi encurralada pela maldade dos outros todas as vezes em que era verdadeira, norteada pelos meus sentimentos mais puros”

Mas, voltando à história, graças ao fato dos leitores marcaram incessantemente Camille, Nathanael finalmente a nota e decide chamá-la para uma entrevista. Ao longo do livro vai ficando claro como era impossível ela não ser a escolhida: Camille é uma pessoa extremamente inteligente — ela sabe muita coisa mesmo — e sabe transmitir esse conhecimento e, ao mesmo tempo, é uma pessoa tão normal quanto qualquer outra. Uma pessoa com um coração enorme.

“Você é feliz com a simplicidade”

Como não acabar com seu ídolo, um título propositalmente ambíguo e explicado ao longo da história, é narrado em primeira pessoa, por Camille, mas ela consegue ir nos apresentando muito bem Nathanael, nos mostrando a visão dele sobre a fama e também sobre como as pessoas o veem. E o que torna essas apresentações mais verossímeis é que, geralmente, temos essa visão através dos diálogos, ou seja, de coisas realmente ditas por Nathanael, e não apenas por Mille.

“Porque se você sempre tiver medo de decepcionar as pessoas com a verdade, nunca será 100% autêntico”

E, ao mesmo tempo que esses dois personagens vão se conhecendo, vão se aproximando e vão avançando no roteiro do curta de Nathanael, eles também vão discutindo sobre os mais diversos assuntos e, como não poderia deixar de ser, vão se envolvendo sentimentalmente também. E isso, por vezes, pode nos deixar malucos com essa história!

“Se você ama, deve agarrar isso com todas as suas células, caso contrário, pode nunca mais encontrá-lo de novo”

Como não acabar com seu ídolo é um livro recheado de momentos leves, engraçados, mas também de ensinamentos (nem que seja sobre teoria das cores, sobre a nossa língua, sobre construção de roteiros) e muitos sentimentos! Uma leitura excelente para esquecer um pouco o caos que estamos vivendo.

“Poucas coisas na vida doem mais do que um coração partido”

Ah, e você lembra daquele meu post sobre músicas italianas e suas versões em português? Num dado momento deste livro, Camille começa a mostrar para Nathanael diversas canções brasileiras que são, em verdade, músicas norte-americanas ou que ao menos pegam a mesma melodia.

“Músicas que marcaram a infância são meio que músicas para o resto da vida”

E aí, também ficou com vontade de ler esse livro e conhecer melhor a Camille e o Nathanael? Você pode escolher entre o ebook e o físico dele!

O som no fim do túnel — N. R. Melo

Título: O som no fim do túnel
Autora: N. R. Melo
Editora: Publicação independente
Páginas: 173
Ano: 2018

Títulos com a palavra “som” sempre chamam a minha atenção. Quando bati o olho na sinopse dessa história, só consegui pensar que precisava muito dela. Ainda assim, dentre tantos ebooks, acabei postergando a leitura deste. E quando finalmente comecei, não foi uma leitura que me prendeu rapidamente, mas, ao mesmo tempo, eu queria saber onde tudo acabaria.

“Ambos insatisfeitos, ambos tão frágeis a ponto de desconsiderarem que deveriam possuir algo em comum, a humanidade”

No início, somos apresentados a Cecília e logo descobrimos que ela é jovem, professora e que está esgotada.

“Por alguns segundos, pensou em dormir de novo, mas o que ela tinha não era sono ou cansaço físico, era pior: cansaço mental, psicológico e pouquíssima vontade de viver”

Mas também logo ficam claras as razões de tal esgotamento: Cecília mora em Niterói e trabalha em uma escola estadual localizada próxima a uma comunidade, na cidade do Rio de Janeiro. Não bastasse trabalhar em uma escola que nós — que não temos esse contato e nem conhecimento dessas realidades — chamamos de “difícil”, Cecília seguia uma carreira que sequer era a que ela um dia sonhara.

Imagine querer ser artista — mais exatamente uma cantora — e ver seus sonhos podados por outros? Por pessoas que você ama. Foi o que aconteceu com Cecília, levando-a a seguir esse caminho inesperado e tortuoso.

“Na verdade, ele sabia que ela tinha talento, mas tinha medo de perdê-la para o mundo artístico. No fim das contas, ele a perdeu de qualquer forma”

Mas também é nessa escola que Cecília conhece alguém que irá fazê-la ir atrás de seus sonhos. E, ainda no começo da história, a vemos feliz, voltando de uma tarde inspiradora. Até que temos o acontecimento que muda sua vida: um arrastão no qual seu notebook — item essencial para o trabalho desenvolvido durante toda aquela tarde — é levado embora.

Paralelamente à história de Cecília, vamos conhecendo a história de Maycom Douglas, um garoto que mora na comunidade — e claro que é a comunidade próxima à escola em que Cecília trabalha — e que vive uma realidade daquelas difícil de explicar: a mãe abandonara a família há muito tempo e o pai, Joaquim, vivia bêbado pelos cantos, sempre acusando Maycom pelo abandono da mãe. Sobrava-lhe o irmão mais velho, Jefferson, que era quem tentava manter Maycom Douglas nos trilhos, para que o menino tivesse um futuro.

Jefferson tentava manter o irmão mais novo nos trilhos, enquanto estava metido no tráfico, tentando prover o sustento da casa. Ele conhecia bem aquela realidade e não a desejava para Maycom. Mas houve um dia em que Maycom quis experimentar a vida do crime. O exato dia em que Cecília se viu em um arrastão. E essa foi apenas a primeira vez em que os destinos desses personagens se cruzaram.

A narrativa de O som no fim do túnel é muito intensa e uma coisa fica bem clara: não existe bem e mal. Se o que contei aqui faz parecer que Cecília é uma vítima, saiba que apresentei apenas o começo da história e que essa moça privilegiada também comete erros bem complicados de se explicar, ao passo que Maycom é apenas um garoto que sempre viu a violência, mas que sempre buscou o amor.

“Era como se ambos estivessem presos a um túnel e, por mais que caminhassem no intuito de encontrar a luz, faltava aquele estímulo que ilumina as paredes próximas à saída. Até aquele momento, só o que viam era a escuridão”

E, felizmente, o título não me enganou: a música faz-se presente na história, como um fio que une duas histórias aparentemente tão diversas e distantes. Cecília buscava seu lugar no mundo da música, assim como Maycom, que descobriu-se apaixonado pelo mundo do rap e das rimas.

“Há quem diga que já aprendeu mais lições com as batalhas de rima do que na própria escola regular”

O som no fim do túnel é uma obra que retrata uma realidade dura, mas existente no Brasil. Uma narrativa que merece ser lida, mas que é preciso certo estômago para encarar. Gostei bastante de ter tido a possibilidade de ler este livro e, se você quiser ler também, clique aqui.

O casamento — Tayana Alvez

Título: O casamento
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 336
Ano: 2020

Como a própria Tayana nos revela, O casamento era para ser apenas um conto que nos mostrasse o que vem depois do “felizes para sempre”, mas, felizmente, ele virou uma história bem maior e intensa.

“Foi completamente inevitável amá-la com todo o meu coração”

Ao longos das páginas deste livro não são poucos os sentimentos que vêm à tona. E não é à toa, portanto, que uma das coisas que mais fica evidente nesta narrativa é importância da terapia.

“O amor é superar as adversidades, suportar o outro, engolir o próprio orgulho e despir a alma. Amar é estar vulnerável”

Uma vez mais nos encontramos com Júlia, Robert, Annabelle e Alice. Agora, porém, eles estão começando a construir uma família. E, outra diferença com relação a O irlandês é que, neste volume, os capítulos se alternam entre Júlia e Robert, e alguns trechos inclusive retomam passagens do primeiro livro, conectando ainda mais as histórias.

“E talvez o amor seja isso, duas pessoas com problemas e imperfeitas que lutam para fazer dar certo diariamente”

Outra coisa que achei muito interessante é que este livro se passa na pandemia! Sim, na pandemia que ainda estamos vivendo. Ou seja, pela primeira vez vi, em uma história, os personagens em quarentena, usando máscaras e álcool gel ao sair… Foi uma experiência bem diferente. E lembrando que a história se passa na Irlanda, então tive um gostinho de como as coisas se desenrolaram por lá no ano passado.

“Não é o melhor dos mundos conviver constantemente com uma ameaça”

O que me encanta e me surpreende nas histórias da Tayana é como ela consegue nos entregar um relacionamento tão real e tão encantador. E claro que, neste livro, não seria diferente: Robert e Júlia têm ainda muitas marcas da vida que precisam superar. Mas quem não tem? Que casal é 100% do tempo totalmente seguro de si?

“O amor não é sobre merecer, é sobre encontrar alguém, entre bilhões de pessoas no mundo, que te aceite com os seus defeitos e com quem você, apesar dos defeitos dela, queira viver a vida inteira ao seu lado. O amor é muito mais sobre ser grato pelo encontro de duas almas do que um atestado de merecimento”

Esse discurso sobre merecimento pega lá no fundo, né? Quem nunca sentiu que “não era suficiente” para alguém que ama/amava? E isso aparece em diversos momentos da história, tanto por parte de Júlia quanto de Robert.

“Mulheres negras têm sorte quando o namorado as apresenta para os amigos e anda de mãos dadas com elas na rua”

Mas O casamento vem para nos lembrar que nenhum casal é perfeito, porém que a harmonia pode existir se houver, em primeiro lugar, diálogo (e amor e respeito, claro, mas isso esse casal já demonstra desde o primeiro volume).

“Rob e eu tínhamos um diálogo super aberto, até não termos mais. Não me isento de culpa porque eu também me calei por muito tempo, mas a diferença é que eu cedi e ele não”

Eu sempre digo isso em minhas resenhas das obras da Tayana Alvez, mas vou dizer novamente: vale a pena conhecer cada uma delas. Para além de um romance envolvente, a autora sempre tem algo novo a acrescentar às nossas reflexões, além de uma visão que poucos encontramos por aí: a de uma mulher negra que sabe o que é ser brasileira e que também sabe o que é viver em outro país.

“Apesar de tudo, nem nos meus sonhos mais esperançosos imaginei que Robert estaria aqui por mim e pelas minhas cicatrizes e não por ele”

Se você se interessou por O casamento, não deixe de clicar aqui e saber mais sobre esse livro maravilhoso.

Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar — Adrielli Almeida

Título: Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar
Autora: Adrielli Almeida
Editora: Publicação independente
Páginas: 31
Ano: 2020

Costuma-se brincar que melhor amigo de verdade é aquele que estará ao nosso lado mesmo se matarmos alguém. E que ainda vai nos ajudar a enterrar o corpo! Adrielli Almeida, jogando com isso, criou uma história que inclui fatores, digamos, sobrenaturais, uma vez que o protagonista Kaio realmente tem de lidar, por diversas vezes, com mortos.

“Kaio era o que as pessoas podiam chamar de ceifador…”

Geralmente, porém, Kaio tem de lidar apenas com fantasmas, não com os corpos em si. Tanto é que, o fato de ser um ceifador, é segredo até mesmo para Cedrico, seu melhor amigo. Mas, em uma noite, tudo muda e amizade desses dois jovens é colocada à prova.

Abordando de maneira bem sútil a questão do suicídio, Adrielli Almeida insere na história uma celebridade, Otávio Augusto, que precisa de uma ajudinha de Kaio para, finalmente, descansar em paz. Kaio, por sua vez, precisará de um favorzinho de Cedrico para se livrar do fantasma de Otávio Augusto.

A história é narrada em terceira pessoa, nos fazendo sentir quase como um quarto elemento desse grupo bem peculiar, que tem muitos outros segredos a nos revelar.

Apesar de parecer uma leitura extremamente macabra, Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar é uma narrativa engraçada e, por ser um conto, bem rapidinha de ler. Uma leitura para te fazer pensar sem que você perceba.

Ficou com vontade de ler também? Então clica aqui e conheça Kaio, Cedrico e Otávio.

O irlandês — Tayana Alvez

Título: O irlandês
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 294
Ano: 2020

Uma vez mais, Tayana Alvez nos presenteia com uma obra que traz como protagonista uma mulher negra. E dessa vez ela vai ainda mais além, colocando em sua história muitos elementos sobre ser uma intercambista na Irlanda.

A ambientação irlandesa, assim como os detalhes, incluindo os perrengues do intercâmbio, são muito bem escritos, pois Tayana viveu tudo isso na pele. O que significa que em O irlandês nós somos transportados e essa viagem, mas ficamos com a parte boa do conforto de nossas casas.

“É bom sentir que o passado está no passado e que temos a vida inteira pela frente”

O fato da autora ser brasileira enriquece ainda mais essa história, pois ela pode nos apresentar com propriedade as diferenças culturais que há entre esses países, tornando a nossa imersão ainda mais completa e real.

“Ouvir da boca de um irlandês que você é o seu amuleto mais precioso é quase tão bonito quanto ouvir um eu te amo”

A protagonista deste livro é Júlia, que sai de Nilópolis (na Baixada Fluminense) para tentar a vida fora do país. E sim, tentar a vida, porque ela espera que o intercâmbio seja apenas uma porta, pela qual ela não pretende voltar tão cedo.

Para isso, porém, Júlia tem de trabalhar muito. Literalmente. E, como trata-se de um intercâmbio estudantil, ela tem de estudar também. Mas sabe aquelas pessoas que não sabem dizer “não”, principalmente quando surge mais uma oportunidade de ganhar um dinheirinho que fará diferença no final do mês? Pois bem, essa é Júlia.

“Quanto mais dinheiro você tem, mais dinheiro quer ter”

E é por não saber/não querer dizer “não” que Júlia, mesmo já trabalhando como garçonete e como cuidadora (em algumas noites), começa a cuidar de Annabelle e Alice. Ela tem de ficar apenas algumas poucas horas com as meninas, entre o fim do expediente da babá e o retorno do pai, Robert.

“Eu estou preparada para muita coisa. Mesmo. Até curso de primeiros socorros eu tenho, mas a dor do abandono de uma mãe? Isso eu não sei como lidar…”

E é assim que vamos, aos poucos, conhecendo essa protagonista tão cheia de si, mesmo que tenha seus medos, inseguranças e, claro, marcas do passado. Júlia sabe de onde vem, mas também sabe onde quer chegar e, ao mesmo tempo, sabe que terá de lutar em dobro simplesmente porque é uma mulher negra.

“Isso pesa. Essa sensação de nunca ser boa o bastante, de ser parada por causa da minha cor, de ser uma subcategoria de mulher porque nasci com mais melanina do que outras pessoas”

Por outro lado, também vamos cada vez mais conhecendo Robert e suas encantadoras meninas. E é muito instigante querer saber mais sobre o seu passado. Sobre as marcas que ele carrega. E as meninas, de certa forma, ainda que sejam muito jovens.

“Dói demais ver uma criança sofrer tanto”

O fato de termos uma (quase) babá e uma pai solteiro com um passado e tanto, me lembrou um pouco Alameda do Carvalho, outra história que gostei muito. A experiência de leitura de cada uma dessas histórias, porém, é bem única, porque os rumos que o enredo toma e o que está por trás de cada trauma são bem diferentes.

O irlandês tem tudo para ser um clichê, mas também tem muito mais para transformá-lo numa história rica e capaz de nos transmitir mensagens importantes como a necessidade de um bom diálogo em qualquer tipo de relacionamento, bem como a solidão da mulher negra (e, por mais que isso possa soar um pouco solto dito assim, fica muito claro o significado disso quando você lê essa história).

“Então é assim que as pessoas se relacionam quando elas têm um bom diálogo e não escondem medos e inseguranças?”

Ah, e claro, tudo isso é feito através de uma narrativa envolvente, daquelas que te fazem rir no momento certo e ficar com o coração apertado na mesma medida.

Ficou com vontade de conhecer a Julia, o Robert e as meninas? Então clica aqui.