Positivo — Marcela Brazão

Título: Positivo
Autora: Marcela Brazão
Editora: Publicação independente
Páginas: 58
Ano: 2020
Cabeçalho com capa do livro "Positivo", da autora Marcela Brazão

Positivo é a obra de estreia de Marcela Brazão e não posso deixar de dizer que foi um ótimo início! Trata-se de uma novela (então sim, a leitura é bem rapidinha) e, já pelo título, podemos perceber como tudo foi muito bem planejado e como cada coisa se encaixa ali.

“Eu sabia que não deveria me abalar pelo que os outros pensavam ou como as pessoas olhavam, contudo, era algo que ainda me incomodava”

Quando leio a palavra “positivo”, logo penso em algo bom, alto astral, feliz. Mas esse não é o sentido primeiro da palavra usada no título deste livro e isso já vai sendo explicado desde as páginas iniciais da obra. “Positivo” é, antes de tudo, o resultado de um teste. O teste que muda a vida de Rosa, a protagonista.

“Não idealize achando que o amor será uma explosão e que vai acontecer de repente, de um momento para o outro. Cada cuidado, cada carinho e cada preocupação é amor”

Aos 40 anos, solteira, acima do peso, morando na casa da madrasta, reconstruindo a vida, Rosa descobre-se grávida. E, apesar de tudo o que acabei de listar, esta não é a história de uma pobre coitada que acha a vida injusta. Não, Rosa é uma mulher forte, capaz de dar a volta por cima quantas vezes forem necessárias. Mas, mais que isso: Rosa é uma mulher real.

Não, não estou dizendo que a novela baseia-se em fatos reais (isso eu não tenho como afirmar, nada é falado sobre o assunto), mas que Rosa é uma protagonista como tantas mulheres que existem, em carne e osso, em nosso planeta. Alguém com medos e traumas, mas com vontade de seguir em frente.

“A estatística cruel que mostrava que metade das mulheres eram demitidas após a licença maternidade era um dos pontos que me assombrava diariamente”

A narrativa em primeira pessoa torna a história quase um diálogo conosco. Um diálogo no qual temos a possibilidade de conhecer o passado e o presente de Rosa. Mais ainda: o passado que se faz presente em seus medos, inseguranças, angústias.

“Ricardo tinha me feito desacreditar do amor e esse rapaz estava me ensinando a amar de verdade”

Positivo é um livro que consegue, mesmo em sua curta extensão, abordar temas muito importantes como relacionamento abusivo (e tantas coisas que giram ao redor disso, como inseguranças, os outros desacreditando a sua história…), gravidez após os 40 anos, padrões de beleza (e peso) impostos pela sociedade (e por médicos também, diga-se de passagem), gravidez e mercado de trabalho, homofobia… Enfim, tem muito pano para manga ao longo dessas páginas.

“As agressões eram completamente desacreditadas pela minha madrasta. Tudo era exagero da minha parte”

A forma como a história é contada e o fato de conhecermos Rosa após seu relacionamento abusivo, tornam os acontecimentos um pouco mais leves e, acredito, esta não é uma história que desperte tão facilmente algum tipo de gatilho, mas se você tem muita sensibilidade a esse tema (ou algum outro dos que mencionei acima), claro, talvez seja melhor não ler. De qualquer forma, tudo foi tratado com a seriedade necessária e, ao mesmo tempo, com uma leveza muito plausível.

O texto é muito bem escrito e percebe-se que houve preocupação da autora com a revisão do mesmo. A leitura, como eu disse antes, é rápida — devido à curta extensão da obra — e fluída, uma vez que queremos chegar ao final e saber o que acontecerá com Rosa. O que o destino guarda para ela.

E aliás, o final! Se estamos falando de uma história que retrata algo tão palpável, o final também deveria ser assim, sem idealizações. E Marcela conseguiu trabalhar bem essa questão: o final é feliz, claro, mas um feliz real. Um feliz que enxerga que o futuro pode mudar tudo de novo e que está tudo bem ser assim, porque sempre podemos nos reerguer mais uma vez.

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Amuleto — Tiê

Amuleto — Tiê

Se você nunca ouviu Amuleto, deixo aqui meu alerta: essa é uma daquelas músicas que gruda na cabeça. A canção ficou conhecida na voz de Tiê e foi lançada em 2017, mas seu compositor é Bruno Caliman, que também já compôs para muitos outros cantores conhecidos. É uma música leve, melodiosa, gostosa de ouvir.

Não deixe eu me arrepender
De um dia eu ter te amado João
Não deixe eu escapar assim
Me prende nos seus braços João

Com os versos acima começa essa canção, que fala sobre relacionamento. Sobre uma história, que poderia ser tantas. Um romance entre um eu lírico (não nomeado) e João, um nome, por sua vez, um tanto quanto genérico. Mas eu confesso que toda vez que ouvia essa música, ficava incomodada. Alguns versos específicos me causavam essa estranheza e eu sentia que precisava pesquisar sobre ela, para ver se eu estava enganada ou não.

Cola do meu lado
Tranca um cadeado
Ponha alarme em mim
Não deixa eu chorar no quarto
Pensando em você João
Não deixe o tempo apagar
Eu posso te esquecer João
Me liga toda hora
Vigia a minha porta
Cuida do meu coração
Resolve os meus problemas
Me leva pro cinema
Depois até a lua
Me traz uma estrela
Me faz a gentileza
Comete uma loucura

Eu ouvia isso e pensava “que abusivo”. Talvez sim, talvez não. Trata-se de uma música em que o eu lírico realmente tenta, a todo custo, salvar uma relação, mostrar para o outro que eles ainda podem (e talvez precisem) estar juntos. Mas a que custo?

Me leva no seu bolso
Me faz de travesseiro
Me pendura em seu pescoço feito um amuleto
Você me tem nas mãos
Mas não aperta João
Que eu escapo entre os seus dedos

Ao mesmo tempo, é uma letra que mostra uma relação desgastada, em que os amuletos são também as marcas que carregamos conosco. Sim, uma letra metafórica, no final das contas. E triste. Mas talvez não tão assustadora quanto me pareceu em um primeiro momento.

É bom quando uma música, por mais despretensiosa que pareça ser, nos faz parar para pensar. Valeu a pena ter parado para analisar essa letra com mais calma. Talvez agora eu consiga realmente apreciar essa canção sem me assustar a cada vez que a escuto (ainda que agora ela toque bem menos nas rádios).

 

Vertigo — Marie Pessoa

Título: Vertigo
Autor: Marie Pessoa
Editora: Publicação independente
Páginas: 162
Ano: 2019

vertigo

Vertigo não é um livro previsível: você vai lendo página após página e não imagina onde a história vai dar. Isso sem contar que muitos temas importantes são abordados ao longo da narrativa e que diversas coisas nos são ensinadas a cada guinada na história.

“Pequenos elogios como esse faziam total diferença a alguém despedaçado”

Quem narra Vertigo é Mia, uma jovem publicitária que descobre que seu noivo a está traindo com a sua até então melhor amiga. Desempregada e sozinha, Mia entra em depressão.

“Era doloroso demais terminar um relacionamento. Qualquer um deles; até mesmo os que não havia mais sentimentos”

Um belo dia, Mia resolve ir ao Satan’s Bar, localizado perto de sua casa. Até essa primeira visita, ela imaginava que aquele fosse apenas mais um barzinho, cheio de jovens, mas ao chegar lá se depara com algo totalmente diferente do que esperava.

No dia seguinte, Mia é acordada por uma ligação chamando-a para uma entrevista de emprego. E, então, sua vida começa a tomar rumos inesperados. Suas vidas profissional e pessoal vão se misturando de maneira complicada e intensa.

“Posso afirmar com convicção: recomeços não são fáceis”

Na noite em Santan’s bar, Mia conhece Matteo. Em seu novo emprego, Giorgio. Dois personagens em um mesmo corpo. Dois personagens (ou apenas um) que mexem muito com Mia. Ainda que ela carregue mágoas do fim de seu último relacionamento, ela não consegue deixar de se apaixonar por esse homem que está disposto a ensinar tudo o que sabe sobre BSDM, mas que, ao mesmo tempo, não parece disposto a se entregar a um relacionamento monogâmico, que apesar de tudo continua a ser o sonho de Mia.

“Precisava de novas amizades, e principalmente criar novas lembranças. As antigas já não me serviam mais”

Com a relação entre Mia e Giorgio (ou Matteo) — uma relação que não é apenas sexual, mas também de amizade — vamos descobrindo sobre o passado da protagonista e, com ela, vamos percebendo como seu relacionamento anterior era abusivo e tóxico.

“Eu não queria viver numa eterna vertigem. Estava farta de desistir dos meus sonhos por pessoas que não fariam o mesmo por mim”

Neste livro, portanto, vemos uma mulher se livrando de amarras, se descobrindo e aprendendo a se amar. Mia também reflete muito sobre o feminismo — lembrando que, além de tudo, ela foi traída por sua melhor amiga —  e sobre suas ações em relação às suas crenças e ideologias.

“Era o tipo de sorriso que eu gostaria de ver todos os dias ao acordar e antes de dormir. O sorriso de alguém que se importava comigo”

É uma história hot, mas sem cair no lugar comum de tantas outras histórias. Uma narrativa com temáticas que valem a discussão e com um final aberto que — ainda que isso desagrade a muitos —  não poderia ser diferente: Vertigo não é um conto de fadas, mas uma história que se mostra como real e plausível.

“Mas com a vida adulta percebi que nem todos os sonhos são alcançáveis. A gente realiza o que pode”

Se você quiser conhecer Mia e sua trajetória, clique aqui.