O apocalipse dos trabalhadores – Valter Hugo Mãe

Título: O apocalipse dos trabalhadores
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 208
Ano: 2017 (2º edição)

O paraíso

Ler O apocalipse dos trabalhadores foi uma experiência e tanto, por diversos motivos. Para começar, a obra é escrita em português de Portugal, o que pode causar alguns estranhamentos ao longo da leitura — principalmente com relação a alguns termos. Além disso, o texto todo é escrito em letras minúsculas, sem parágrafos. Há pontos finais e podemos distinguir capítulos (não numerados ou nomeados), mas o texto todo é quase como um fluxo contínuo.

A história também, não é das mais banais: o livro retrata principalmente a vida de Maria da Graça e Quitéria, duas empregadas domésticas que também, por vezes, recebem para ir a funerais, chorar o morto. Além delas, outro personagem destacado no enredo, por todo o seu sofrimento e dureza é Andriy, um “homem do leste” (ou um ucraniano) que se envolve com Quitéria.

“era, na realidade, como um leão de fantasia que, subitamente, podia ganhar vida e, obviamente, trazer no estômago toda a grande fome ucraniana”

O apocalipse dos trabalhadores (p.112)

Não sei se pelo modo como a história era narrada ou até se pelo local retratado — a cidade de Bragança —, bem como os costumes, mas por diversas vezes eu imaginava a história se passando em meados do século XIX ou XX. Mas creio que seja uma história mais atual, dado a presença inclusive de celulares no meio da narrativa. O tempo, porém, não importa, porque se pensarmos bem, o Apocalipse dos trabalhadores é um texto atemporal que retrata a dura realidade dos três personagens mencionados e de tantos outros que aparecem ao longo da história, enriquecendo-a.

“os mortos não têm idade”

O apocalipse dos trabalhadores (p.42)

Para além do trabalho pesado, dos poucos diálogos e da batalha diária, o apocalipse dos trabalhadores fala também sobre nossos sentimentos, principalmente o amor. Todos ali, no fundo, buscam poder experimentar essa sensação, ainda que façam isso por caminhos tortuosos e incertos. Maria da Graça, por exemplo, é casada com Augusto, marinheiro que passa boa parte do ano fora de casa. Ela trabalha na casa do senhor Ferreira, que quase que diariamente abusa dela (!). Aos poucos, porém, Maria da Graça vai confundindo seus sentimentos e o ódio pelo senhor Ferreira transforma-se em afeição (!). É, pensando bem, esse livro é bem atemporal.

Quitéria, por outro lado, envolve-se com diversos rapazes, até sentir-se apaixonada por Andriy. Este personagem, por sua vez, longe de seus amados pais, tenta tornar-se uma máquina, mas é sentimental demais para isso.

Além de retratar as idas e vindas diárias de cada um desses personagens, o livro também nos repete o sonho recorrente de Maria da Graça: toda noite ela se vê no Paraíso, tentando adentrar seu descanso merecido. No entanto, a cada noite ela é barrada por São Pedro, irritando-se com a situação.

“o são pedro inclinava-se, cabeça para trás e barriga para a frente, e ria-se, dizia, ó minha senhora, isso agora não tem valor, os mortos são todos iguais, não têm profissão e não lhes vale de nada o que aprenderam fazer, ou parece-lhe que aqui existem quartos para limpar”

O apocalipse dos trabalhadores (p.18)

Realidade, sonho, sentimentos, angústias. Tudo nesse livro se mistura, seja pela história em si, seja pelo texto com poucas pontuações. Uma obra para abrir nossas mentes e nos fazer enxergar uma realidade que muito provavelmente o leitor de um livro como esse não vive.

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