Algumas considerações sobre grupos de leitura [tradução 24]

Imersa no segmento literário das redes sociais, muitas foram as vezes que vi chamadas para leituras coletivas e clubes de leitura. Nunca tive coragem, porém, de me aventurar nesses universos.

Reconheço, contudo, que essas práticas têm muito a agregar e trazem inúmeros benefícios a seus participantes e, por isso, hoje resolvi trazer a tradução de um artigo que fala justamente sobre essa temática.

O texto original foi escrito por Morgan Palmas, em 30/10/2009, no site Sul Romanzo, e você pode conferi-lo aqui. Apesar de publicado há anos, é impressionante como ele continua atual e certeiro.


Na Itália, a prática da leitura está em declínio, como se sabe, mas, por outro lado — ou talvez justamente por isso — percebe-se, por parte de quem lê habitualmente, uma forte necessidade de encontrar-se e dividi-la. Porque essa categoria de pessoa existe e é bem presente, mesmo que rara: cada biblioteca ou livraria tem os seus habitués, talvez apenas um ou dois, mas eles são muito presentes, amam os livros e amam falar de livros.

Na esteira de um hábito difundido principalmente em países anglófanos e hispânicos, estão espalhando-se entre nós, então, aqueles que são chamados Grupos de Leitura.

Moda? Imitação?

Claro, às vezes o pontapé inicial para a criação de um grupo também pode ser esse, mas muitas vezes reunir-se é uma necessidade real dos indivíduos para compartilhar interesses e paixões

Mas o que é um Grupo de Leitura?

É uma ponte entre a leitura individual e aquela coletiva.

No primeiro caso temos um leitor sozinho consigo mesmo e o seu livro em uma leitura silenciosa e íntima. No segundo, uma ou mais pessoas que se alternam lendo em voz alta um texto para os outros.

No Grupo de Leitura, “mais pessoas leem ao mesmo tempo um livro” (para usar uma definição agora consolidada) e depois se reúnem para discutir, juntas, sensações e problemáticas que ele provocou nelas.

O objetivo é justamente aprofundar e enriquecer-se mutuamente em uma análise de leitura não imposta (como pode acabar sendo uma palestra crítica ou mesmo uma leitura coletiva), mas elaborada pelo indivíduo e desenvolvida na pluralidade.

Aquilo que move as pessoas a juntar-se, além disso, é o interesse pela leitura em si, não circunscrita a um único texto ou livro.

Mas onde e quando se reúne um Grupo de Leitura?

Não há a necessidade de sedes especiais: na prática, basta um cômodo tranquilo com um círculo de cadeiras, de modo que todos possam olhar-se cara a cara. Geralmente quem patrocina ou propõe a iniciativa é uma Biblioteca ou uma Livraria, mas também conheço Grupos de Leitura que se encontram em Círculos Culturais ou Associações várias. Não é o lugar que cria o grupo, mas a vontade de se encontrar. No verão, uma solução simpática pode ser um jardim ou um quintal sombreado.

O único requisito é a vontade e a disponibilidade para ouvir e compartilhar.

A frequência (semanal, mensal ou qual for) é decidida pelo grupo mesmo, conforme os tempos e as exigências dos participantes.

Que regras deve ter um Grupo de Leitura?

No âmbito inglês foi elaborado um regulamento muito rígido, mas, pessoalmente, acho isso um pouco limitante. Acho que para além das regras comuns da boa educação, depende do grupo se autodeterminar as regras adequadas ao próprio caso.

De maneira geral, vale aquela (bem óbvia) de que só quem leu o livro pode pedir a palavra, mas as perguntas ou intervenções mesmo de quem não leu podem ser escutadas, principalmente quando se abordam temas mais gerais retirados da leitura.

Um coordenador pode ser útil, sobretudo no começo, e para fazer e atualizar a lista dos participantes (caso desejem fazê-la para simplificar as eventuais comunicações entre um encontro e outro) e gerenciar as questões práticas relacionadas, por exemplo, ao local. O importante é que a pessoa tenha a capacidade de permanecer no círculo, de ser justo com os outros, sem abuso e sem firmar-se como centro da reunião, caso contrário tudo descamba em uma exposição passiva, não em uma participação coral.

É importante lembrar que cada grupo é um mundo em si, em contínua evolução, depende somente da vontade dos participantes que podem mudar, suceder-se, alterna-se nos vários encontros.

Mas como se escolhe um livro?

O grupo o escolhe. Pela maioria, fazendo uma seleção entre alguns propostos, ao acaso pela internet, seguindo um gênero ou uma temática… Pode-se elaborar um calendário sazonal, por exemplo, ou estabelecer a cada encontro.

O importante é que sejam textos que podem gerar discussões dentro do grupo.

Em geral, para a primeira reunião, aqueles de quem parte a iniciativa escolhem um livro que sabem que podem interessar o maior número de pessoas, não para impor as coisas, mas justamente para dar o pontapé inicial e quebrar o gelo.

Quem participa de um Grupo de Leitura?

Quem ama ler e falar sobre aquilo que leu. Bastam duas pessoas (em tese) para formar um Grupo. Obviamente, quanto mais pessoas participam, mais se sente o enriquecimento, mas também só de poder falar com outra pessoa já é positivo.

Geralmente, a predominância feminina nesses encontros é esmagadora.

Mas, em resumo, por que eu deveria participar de um Grupo de Leitura?

Para além do simples prazer de compartilhar e comunicar para os outros as próprias impressões, pode-se encontrar um enriquecimento pessoal inesperado.

Impelidos pela vontade de participar, podemos encontrar livros ou gêneros que jamais, por preconceito ou outros motivos, teríamos aberto ou que jamais teríamos ido além das primeiras páginas por nossa própria conta. Acontece. Como pode acontecer de descobrirmos que gostamos ou que ao menos valia a pena lê-los.

Quando lemos, colocamos muito de nós na leitura, notamos detalhes, interpretamos fatos. Mas as chaves de leitura são diversas e incontáveis: perceber, através dos comentários sobre o mesmo texto, fatos dos outros, com outros percursos e outros pontos de vista é muito estimulante e ajuda a expandir os horizontes. De repente, sentimos vontade de reler, de perceber coisas que nos fugiram. Ou, por outro lado, destacar aquilo que fugiu aos outros. Ou aprofundar por nossa conta temas não abordados antes.

Um diferencial pode ser, durante a reunião, a leitura de frases ou pequenos trechos que os participantes tenham achado, de alguma maneira, estimulantes para a conversação.

Em geral, discutir junto permite refletir sobre o quanto se leu, não esquecer de imediato, mas elaborar a leitura e focar melhor os conceitos e sensações. Parar, apropriar-se de tempos que muitas vezes perdemos, arrastados pela fúria do fazer.

Enfim, para retomar o início do discurso, reunir-se dá a sensação de não estar sozinho em uma ocupação tão pouco considerada nos dias de hoje, que é a leitura.

Vale reiterar que ler não é inútil.

Na internet, muitos são os sites que se ocupam de Grupos de Leitura ou que os organizam, lembro, dentre estes: http://gruppodilettura.wordpress.com/


Ufa, chegou até aqui? Qual é a sua opinião sobre grupos de leitura? Participa de algum?

Quero aproveitar o tema para deixar uma super dica para você que, além de ler, estuda italiano: conheça o grupo de leitura Leggiamo Tutti e se inscreva! O primeiro encontro será dia 12 de março, não fique de fora.

8 comentários em “Algumas considerações sobre grupos de leitura [tradução 24]

  1. Das vezes que participei de LCs , mal li o livro, tenho lido mais sozinha. No entanto, estou em uma LC de desencalhe. Dificilmente os leitores lê o mesmo livro, apenas seguem um tema, como o mês de março que é:ler um livro escrito por mulher. Dessa forma, eu consigo participar de LC, mas não consigo seguir cronograma, pois, depende muito do meu humor para querer ler ou não 😅.

    No entanto, sou a favor da LC , vejo que é muito divertido, rola muito respeito nos debates, além de um só lugar, encontrar diversas opiniões sobre o mesmo livro

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  2. Eu participei de alguns e organizei um durante dois anos. Foi bem legal… a interação entre livro-leitores foi bem gostosa. As diferentes opiniões, ver a maneira como cada um recebia o livro. Foi bem gostoso e no caso da Scenarium (selo independente pelo qual sou responsável), foi ótimo por ter a presença do autor, virou um bate papo bem gostoso.

    bacio

    Curtido por 1 pessoa

  3. Eu acho a prática super bacana, a interação entre leitores etc.. Trocar ideias, conversar sobre diferentes perspectivas…
    Cheguei a entrar em um grupo da minha cidade, mas confesso que, tendo tempo escasso para leitura, prefiro me dedicar aos livros que eu escolho do que me dedicar a uma leitura que não me apetece.
    Se não fosse a falta de tempo, acho que eu tentaria com mais afinco, rs.

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    1. Nossa, esse seu comentário me fez ter uma outra visão do porque eu prefiro ler sozinha, mesmo achando que essas experiências de leitura compartilhada podem ser bem enriquecedoras: a questão do tempo. Mal consigo ler o que quero muito ler, imagina conseguir me dedicar a leituras que não necessariamente escolhi!
      Obrigada pelo comentário

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