Ler é bom, por que nós não gostamos? [tradução 18]

Dia desses vi alguém comentando que hoje, mais do que nunca, ler é importante. Difícil discordar, né? Quer dizer, acho que ler sempre foi importante, mas às vezes a gente perde a dimensão do quanto um livro pode nos abrir muitas portas. Por outro lado, sabemos como existem muitos não leitores por aí, mesmo com tantos estudos e publicações que demonstram os benefícios que esse hábito nos traz.

E foi pensando nessas questões que me deparei com um texto (quase uma entrevista de uma pergunta só) que achei muito interessante e que acrescentou alguns pontos à minha reflexão, principalmente por mencionar o papel das escolas (e, em menor grau, dos pais) nisso tudo. O texto em questão foi publicado com o título “Leggere è bello, perché non ci piace?”, no Popolis, em 25 de julho de 2002 e, abaixo, você poderá ler a tradução que fiz dele.

Antes, porém, gostaria de ressaltar que talvez a opinião do autor possa gerar uma pequena polêmica, ainda mais se pensarmos no contexto brasileiro, que carece de tantas coisas: investimento material e intelectual, incentivos, formação adequada… Ainda assim, acredito que podemos retirar dessas palavras uma reflexão válida e que pode nos ajudar a encontrar um norte interessante e, quem sabe, até mais eficiente para o incentivo à leitura.


Prezado Mario Lodi, somos estudantes da IV de Bùssero, na província de Milão. Sabemos que ler é bom, mas nem todos nós lemos sempre de boa vontade e espontaneamente, mesmo sabendo que isso é importante para aprender a nos expressar de maneira correta, para experimentar novas emoções, enriquecer a nossa fantasia, sonhar e estimular nosso pensamento e criatividade. Por quê?

Responde Mario Lodi

Caros amigos, vivemos em um tempo em que se lê cada vez menos, sejamos adultos ou crianças. O fenômeno do abandono da leitura por parte dos jovens americanos havia se tornando quase generalizado e a opinião pública pensava que fosse por causa da televisão.

O psicólogo Bruno Bettelheim, com um grupo de outros cientistas, estudou o problema e publicou os resultados da pesquisa em um livro, traduzido também na Itália, com o título “Imparare a leggere” [aprender a ler] (Editora Feltrinelli). Eles descobriram que a culpa do abandono da leitura não era da televisão, mas da escola, ou melhor, do primeiro livro que a primeira professora oferece à criança na primeira aula, no momento “mágico” no qual ensina a usar os sinais alfabéticos para ler e escrever. Naquele momento, diz Bettelheim, as crianças estão prontas para entrar, através da leitura, nos jardins da cultura, com os livros mais lindos que existem.

As escolas, porém, oferecem às crianças de quase todo o mundo os livros mais chatos que existem, aqueles escolares, iguais para todos. Então as crianças, que são curiosas de tudo, recorrem à televisão. Mas se elas tivessem descoberto de início os bons livros, a leitura se tornaria a mais bela aventura criativa, e uma necessidade. Os pais e os professores, portanto, deveriam substituir os textos escolares e chatos, pelos livros mais lindos e adaptados às crianças de todas as idades.

E quando encontram um, deveriam ler junto, sem fazer exercícios de gramática, e depois procurar outro, e depois outro… Assim nascerá a vontade dos livros como descoberta do mundo real e fantástico. Quem não teve a sorte de, imediatamente, ler bons livros, prefere a TV, mais cômoda, e torna-se preguiçoso diante do monitor. A sua fantasia adormece, o seu pensamento para. E quando o pensamento para é quase impossível colocá-lo em movimento novamente. Boas leituras, caros amigos.


E aí, qual é a sua opinião sobre isso? Não deixe de me contar nos comentários!

“Musica leggerissima” o significado da música de Colapesce e Di Martino [tradução 17]

Se tem uma coisa que eu adoro é poder usar música nas minhas aulas. E faço isso não apenas pelo fato de que eu sempre gostei de música, mas também porque é bem comum os próprios alunos pedirem indicações. Então, ao invés de simplesmente jogar um monte de informação de uma vez, vou compartilhando as poucos as músicas que conheço ou vou conhecendo.

Tento sempre buscar músicas que tenham a ver com o assunto da aula em questão ou então que usem muito alguma construção que será trabalhada, o que pode ajudá-los a entender e praticar tal construção. Mas, para não correr o risco de transformar as músicas em um mero instrumento gramatical, também gosto de entender o texto de cada uma, pesquisando seus possíveis significados. É impressionante o quanto já me surpreendi com músicas que diziam muito mais do que parecia em um primeiro momento.

Foi em meio a essas pesquisas que encontrei o texto que traduzirei aqui. Estava procurando sobre Musica leggerissima, uma das participantes do Festival de Sanremo de 2021. Esse é o mais importante festival de música italiana e esta é uma daquelas canções que ficam na nossa cabeça por alguns dias e que dá muita vontade de sair dançando, o que faz jus ao nome da canção.

Para além disso, porém, eu já adorava o fato de que é uma música sobre música e que usa termos do léxico musical — não apenas o leggerissima, que seria um tipo de música e que aqui traduzirei como música pop, mas também termos como crescendo, que pode ser encontrado em partituras, além de nomes de instrumentos musicais e situações nas quais costumamos ouvir música.

Foi só pesquisando um pouco, porém, que percebi que havia muito mais naquelas palavras. E acho que o artigo que traduzirei abaixo, escrito por Eleonora Damiani e publicado em 15 de março de 2021, neste site, já nos dá uma dimensão de como há profundidade em Musica leggerissima.


Italo Calvino dizia que “leveza não é superficialidade, mas planar acima das coisas, não ter pedras no coração”. Encontramos esse mesmo sentido de leveza no texto de Sanremo 2021 de Lorenzo Urcillo, conhecido como Colapesce, e de Antonio Di Martino.

É muito fácil cair na armadilha de etiquetar alguém como “superficial”, não vendo o quanto a pessoa que temos diante de nós está cheia de precisar permanecer na superfície das coisas para sobreviver. De fato, nem todos nós somo dotados de uma máscara e um cilindro de oxigênio que nos permitem descer às profundezas e quando o mar interior se mostra escuro, agitado e cheio de elementos que parecem assustadores, podemos apenas sentir a necessidade de permanecer na superfície. O mesmo vale para quando começa a acabar o fornecimento do cilindro e a pessoa sente a necessidade de subir novamente.

“Cantam-na os soldados, os filhos alcoolizados, os padres progressistas”

Seja o soldado em meio à guerra, seja o filho que depende do álcool, seja o padre que precisa combater pelos direitos humanos em uma Igreja ancorada no julgamento, têm-se em comum um elemento: todos se encontram lutando, seja em casa, seja no trabalho ou no fronte, pelos direitos humanos próprios e dos outros e justamente as lutas mais difíceis são cheias de sangue e lama.

TODOS NÓS TEMOS A NECESSIDADE DE VOLTAR PARA A SUPERFÍCIE

O ser humano não é feito para ficar muito tempo submerso na dor profunda. A mente precisa, de vez em quando, voltar à superfície, tomar um ar e isolar-se em suas zonas confortáveis. O termo “autista”, nos dias de hoje, nos faz imediatamente pensar no Distúrbio do Espectro Autista, mas cada um de nós tem uma zona de conforto, uma pequena zona autista salvadora, na qual podemos encontrar um pouco de espaço para fugir da dor quando ela se torna sufocante. Essa é a mensagem que parece nos transmitir Musica leggerissima: o ser humano precisa flutuar ou surfar sobre uma vivência interna emotiva que poderia nos levar para baixo como os pesos nas laterais de um mergulhador.

O buraco negro é algo que absorve, um lugar indefinido onde podemos nos perder para sempre, mas somente se o vemos assim. Na verdade, por mais que nos assustemos, os nossos lados mais profundos não são buracos negros, mas podem ser percebidos assim porque são intocáveis. As nossas partes escondidas, que fazem parte de nós, são mais parecidas a um abismo e do abismo pode-se voltar, munindo-se das ferramentas necessárias.

COLOQUE UM POUCO DE MÚSICA POP…

Coloque um pouco de música pop porque não estou com vontade de nada, ou melhor, muito pop, palavras sem mistério, alegre mas não muito é o pedido de que está sobrecarregado de vivências interiores pesadas e precisa enlevezar-se, não conseguindo entrar ou permanecer na profundidade.

Nós escavamos o buraco negro quando permitimos que pensamentos depreciativos tomem conta de nós, como repense sua vida, as coisas que você deixou cair no espaço da sua indiferença selvagem. Conseguimos transformar dentro de nós os irreparáveis buracos negros em abismos exploráveis a ponto de poder escutar e aceitar aquela nossa parte que, de tempos em tempos, precisa de música pop?

Os italianos falam com as mãos [tradução 16]

Se tem uma aula que eu adoro preparar e dar é a aula sobre gestos italianos. Porque por mais que isso pareça apenas um estereótipo, existem verdadeiramente muitos gestos usados na comunicação italiana (e não só, pense bem), tornando tudo mais expressivo e expansivo.

Uma vez, lendo sobre o assunto, deparei-me com o artigo que resolvi traduzir aqui hoje. Ele foi escrito por Elisa Torretta e publicado em março de 2010, aqui neste site (sim, é blog sobre italianos em Paris. Como cheguei até ele? Não faço nem ideia). Vejamos o que ela tem a dizer sobre o assunto.


Existem muitos hábitos italianos, para nós absolutamente normais, que os estrangeiros acham surpreendentes ou inexplicáveis. Por exemplo: usar quase sempre óculos de sol ou falar alto. Entre os hábitos que suscitam mais curiosidade, talvez, está aquele de gesticular enquanto falamos.

De fato, muitos estrangeiros não entendem a necessidade de mover as mãos para comunicar e, em geral, chegam a uma simples conclusão: “os italianos falam com as mãos”. Em primeiro lugar, gostaria de precisar que nós, italianos, falamos com palavras, de acordo com uma sintaxe e uma gramática precisas. A prova disso é que é possível falar italiano inclusive ao telefone (coisa que conseguimos fazer muito bem, mesmo que continuemos a gesticular com o aparelho em mãos…), e que é possível também escrever e ler em língua italiana, sem imagens explicativas.

Então para que serve agitar-se tanto enquanto se fala? As palavras não são suficientes?

Naturalmente, as palavras são suficientes, mas por que limitar-se às palavras quando podemos usar todo o corpo? O gesto não substitui a palavra, mas a enriquece. É uma linguagem paralela, que adiciona nuances o muda o significado do nosso discurso. Experimente falar sem mover um músculo: a sua voz será monótona e insignificante.

Talvez, para quem olhe de fora, os gestos sejam apenas uma dança incompreensível, uma série de movimentos sem sentido. Mas, na Itália, o gestual é um elemento cultural muito importante e não um simples folclore. Os gestos são uma linguagem decodificada e precisa e têm um significado claro para quem sabe interpretá-los.

Não quero oferecer uma explicação dos numerosos gestos existentes, mas apenas lembrar a importância deles para nós, na comunicação. Com o gesto podemos exprimir uma emoção melhor que com muitas palavras, porque o movimento é mais espontâneo e sincero que a palavra. Podemos demonstrar raiva ou alegria, indiferença ou surpresa, e mudar a amplitude e a intensidade de acordo com o estado de ânimo e a situação.

Como todas as línguas, o gestual se aprende somente depois de anos de exercício e observação. Portanto, aconselho os estrangeiros a não tentar usar os gestos “à italiana” quando falam a nossa língua, porque poderiam não ser entendidos ou ser mal interpretados.

Por exemplo, o gesto mais célebre é a mão “em pinha”: as pontas dos dedos unidos em direção ao alto e a mão que se move para cima e para baixo. É um gesto que, em geral, acompanha uma pergunta ou uma dúvida. Portanto, é muito estranho agitar as mãos dessa forma e, ao mesmo tempo, dizer bom dia, como, por vezes, fazem os estrangeiros que imitam os italianos. Parece muito um falso pizzaiolo em um filme americano.

Influenciados pelas boas maneiras anglo-saxãs, hoje, usar muito as mãos quando falamos é considerado vulgar e simplório. Mas é amplamente tolerado, quase obrigatório, em casos de particular excitação, como uma briga ou uma partida de futebol.

De qualquer forma, gesticular continua sendo sempre um costume enraizado na nossa cultura. Faz parte da nossa identidade: através dos nossos gestos, podemos nos reconhecer imediatamente, mesmo no exterior, e podemos nos entender melhor entre nós, mesmo na Itália, para além dos dialetos e das barreiras sociais.

Diz-se, de fato, que desenvolvemos os gesto para poder nos entender entre nós, porque no passado, as pessoas falavam principalmente os dialetos e não o italiano.

Para mim, é também um sintoma do nosso constante desejo de comunicar ou, simplesmente, da nossa exuberância. Para nós, com efeito, é normal dividir com os outros os nossos sentimentos. Com o gesto, mesmo quem não pode nos ouvir, entende do que estamos falando.

Não, a discrição não faz parte da nossa bagagem cultural… Mas isso é realmente um defeito tão intolerável?


Depois desse texto, sempre sinto a necessidade de lembrar uma coisa: os gestos italianos são uma coisa totalmente diferente dos sinais das línguas de sinais. Mesmo da língua de sinais italiana, que foi reconhecida neste ano como língua oficial. E, mais que isso, cada país tem a sua língua de sinais, que assim como qualquer língua oral, é muito rica e singular. E é, como estou chamando aqui, uma língua, não uma linguagem! Os gestos italianos — que enriquecem a língua falada—, como você pode ter notado ao longo da leitura, são chamados apenas de linguagem, não de língua. Uma diferença que pode parecer sutil, mas que, no fundo, não é.

Agora me conta aqui: que gestos italianos você conhece? E o que achou deste artigo?

O que os italianos leem? [tradução 15]

“O que os italianos leem” é uma pergunta que vira e mexe salta em minha cabeça — tanto é que fui conferir se eu realmente nunca havia traduzido um artigo do tipo —, principalmente quando ouço as pessoas dizendo que brasileiro não lê, que nós não valorizamos a nossa literatura. Pergunto-me se é assim apenas aqui ou em todo o mundo (ou ao menos em outros lugares do mundo).

Nas minhas buscas por artigos para traduzir para este espaço do blog, já me deparei mais de uma vez com afirmações de que os italianos leem pouco. Sim, a mesma afirmação que fazemos sobre nós mesmos. Faltava responder apenas o que, afinal, leem os italianos.

Por isso, no post de hoje, trago a tradução deste artigo, escrito por Enzo Scudieri e postado em 21 de novembro de 2020 no site habitante.it. Para ler o original, basta clicar aí em cima, no “deste artigo” que você chegará ao post em italiano. E vamos à tradução?


Ler livros é uma forma de viajar para milhares de mundos diversos, conhecer pessoas e apaixonar-se por histórias. Mas qual é a relação dos italianos com a leitura, o que e quanto leem?

Os italianos amam ler?

A paixão pela leitura te impede de dormir à noite, porque você está tão arrebatado por aquilo que está lendo que não quer parar; amar os livros significa comprar novos exemplares, mesmo já tendo a casa invadida por livros que você ainda precisa ler. Ler ajuda a abrir a mente e desenvolver ideias; a cultura da leitura gera progresso social, econômico e, obviamente, cultural.

Através das últimas estatísticas sobre o que os italianos leem, descobrimos que lê-se mais no norte, entre as mulheres e entre pessoas com mais títulos acadêmicos. As compras de livros são direcionadas prevalentemente aos romances e contos, de faixa econômica médio-baixa.

O relatório publicado pelo Istat* em 2019 sobre Produção e leitura de livros na Itália revela que 40,6% da população lê ao menos um livro por ano, dado estável no último triênio. 78,4% dos leitores leem só livros físicos, 7,9% somente ebook ou livros on line.

Diferentemente daquilo que se pode imaginar, a quantidade mais alta de leitores continua a ser aquela dos jovens: em 2018, os leitores entre 15 e 17 anos eram em 54,5%, quantidade em crescimento em relação aos 47,1% de 2016. Entre homens e mulheres existe uma lacuna relevante: o percentual de leitoras é de 46,2% contra 34,7% de leitores. Em absoluto, porém, o público mais afeiçoado à leitura é representado por garotas entre 11 e 19 anos (mais de 60% leu pelo menos um livro no ano).

O que os italianos leem?

Os rankings falam claramente e, deixem-me dizer, são sempre muito iguais ano a ano. Existem autores que estão sempre no “top ten”: Smith, Camilleri, Tamaro, Grishmam. Depois estão os personagens do momento, aqueles que escrevem livros para desfrutar de uma notoriedade sazonal, autores no estilo Fabio Volo, por exemplo.

Nunca faltam nos rankings, também, escritores como Stefano Benni e Beppe Servagnini. E não nos esqueçamos, depois, de toda a vertente bibliográfica de personagens famosos, muitas vezes ainda vivos, que decidem, justamente, escrever um livro para contar a sua história.

Fecharei esta lista com os agora indispensáveis livros de cozinha: encontramos um pouco de tudo, dos chef famosos para o grande público, graças às participações em reality shows, à vizinha de casa, que conta no seu blog as receitas da avó. E o sucesso do blog é, então, traduzido em livro.

As grandes livrarias

As livrarias de grandes redes geralmente estão cheias de pessoas entre as prateleiras, curiosas ou ocupadas, folheando um livro ou bebendo um café na cafeteria da própria livraria. Nos últimos anos, de fato, assistimos a uma transformação das livrarias em verdadeiros “centros comerciais”.

Feltrinelli, Mondadori, Mel Bookstore, Giunti al punto, apenas para citar algumas, abandonaram as aparências de simples livrarias. Tudo é dividido, separado e exposto em setores específicos, identificados por placas realmente muito similares àquelas das seções dos supermercados: em evidência é possível encontrar imediatamente os livros do ranking nacional e também os inesquecíveis “conselhos” de compras.

E, caminhando pelas seções, pode-se encontrar também toda uma oferta de multimídias como dvd, cd e videogame. A seção de papelaria também tem uma oferta muito rica de canetas, agendas, cadernos e papéis de vários tipos e cores. Essas redes, se por um lado multiplicam a oferta e a enriquecem com outras comodidades, por outro correm o risco de perder sua vocação original e a relação de confiança livreiro-leitor.

As livrarias independentes e lojas online

Do relatório ISTAT surge, porém, um dado contraditório. As modalidades de distribuição consideradas mais estratégicas pelos editores são as livrarias independentes, os canais de distribuição online e os eventos como feiras, festivais e salões de leitura.

As grandes distribuições organizadas (supermercados, grandes lojas) e os pontos de vendas genéricos (bancas, papelarias, autogrill, correios) são considerados canais de distribuição relativamente menos eficazes para aumentar a demanda e ampliar o mercado editorial.

Os editores, além disso, estão investindo sempre mais, também, na oferta de títulos em formato e-book: o percentual de obras publicadas em formato físico, disponíveis também em versão digital, em apenas dois anos, passou de 35,8% a quase 40%. A versão digital é mais comum para:

  • aventura e suspense (82,1%)
  • informática (62,9%) e matemática (61,4%)
  • atualidade político-social e econômica (56,1%)

Os grandes editores publicam mais de 90% dos livros em formato e-book, com uma cobertura de obras publicadas fisicamente de 45,8%.

Lê-se mais no Norte e nas grandes cidades

No Norte, uma pessoa a cada duas, na Sicília, só uma a cada quatro. A leitura está muito mais difundida nas regiões do Norte: 49,9% das pessoas que moram no Noroeste leu pelo menos um livro e 48,4% no Nordeste. No Sul, a cota de leitores cai para 26,7% enquanto nas ilhas observa-se uma realidade muito diferente entre a Sicília (24,9%) e a Sardenha (44,7%).

O hábito da leitura, além disso, é muito difundido nas cidades centrais de áreas metropolitanas, onde declaram-se leitores pouco menos da metade dos habitantes (49,2%) enquanto a cota cai para 36,1% nas cidades de menos de 2 mil habitantes.

O nível de instrução também se confirma como um elemento determinante: leem livros 73,6% dos graduados, 46,7% dos diplomados e só 26,5% dos que possuem acima do nível elementar.

A leitura é mais fortemente influenciada pelo ambiente familiar: as crianças e adolescentes são certamente favorecidos se os pais têm esse hábito. Por exemplo, entre os jovens abaixo de 18 anos, 74,9% entre quem tem mães e pais leitores e só 36,2% entre aqueles que têm ambos os pais não leitores.

Pílulas de curiosidade. Eu não sabia e você?

  • As bibliotecas mais frequentadas da Itália são aquelas do Trentino Alto-Adige e do Valle d’Aosta.
  • As motivações que encorajam as pessoas a irem a uma biblioteca são “pegar um livro emprestado” (57,1%) e “ler e estudar” (40,1%).
  • Na Itália são cerca de 8 milhões e 960 mil pessoas que foram a uma biblioteca pelo menos uma vez por ano.

* O ISTAT é o Instituto Nacional de Pesquisa italiano (o correspondente ao nosso IBGE) e eles sempre têm dados sobre os mais diversos assuntos.


E aí, o que achou deste artigo e dos dados que ele traz? Você imaginava algo assim?

A repetição em “As mil e uma noites” — Diário de leitura (5)

Voltando às minhas leituras de As mil e uma noites, na 69º noite, Sherazade dá início às narrativas de Simbá, e elas se estendem até a 90º noite. As histórias deste ciclo são:

  • A história de Simbá, o marinheiro
  • A primeira viagem de Simbá, o marinheiro
  • A segunda viagem de Simbá, o marinheiro
  • A terceira viagem de Simbá, o marinheiro
  • A quarta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A quinta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A sexta viagem de Simbá, o marinheiro
  • A sétima e última viagem de Simbá, o marinheiro

Confesso que quando cheguei na quinta viagem de Simbá eu já estava “ah, não, de novo não!”. Não que as histórias sejam tão repetitivas quanto os títulos que acabo de apresentar, mas há um “quê” semelhante entre uma e outra: são narrativas cheias de surrealismo.

Simbá, em cada uma de suas viagens, se depara, em algum momento, com uma quase morte (sim, a morte novamente presente aqui) e, de alguma forma, se sai bem de todas as situações, conseguindo, inclusive, inúmeras riquezas a cada retorno bem sucedido.

E a cada retorno, Simbá diz que não irá mais se aventurar pelos mares, que irá desfrutar de suas riquezas em segurança, com a família. Mas sempre surge uma nova aventura que ele não consegue recusar e assim se vão as sete viagens narradas por ele.

Todos esses acontecimentos me fizeram pensar sobre a presença do maravilhoso em As mil e uma noites. “Maravilhoso” e “fantástico”, dois gêneros literários que se confundem, o que me lembra que eu também estava com vontade de trazer para vocês posts sobre isso, né? Ainda não desisti, mas percebi que preciso estudar e revisar muitas coisas antes. E quem sabe essa leitura de As mil e uma noites não me ajude também!

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é que, na 70º noite, há uma nota: dali em diante não haverá mais, constantemente, as palavras da irmã de Sherazade, pedindo que ela continue a história do dia anterior. Segundo a nota que explica isso, Antoine Galland suprimiu essas passagens de sua tradução pois elas haviam “chocado” o público da época. “Chocado” é o termo que o próprio tradutor utiliza em sua nota, mas creio que seja mais uma questão de incômodo, como eu fiquei incomodada com a “repetição” nas histórias de Simbá.

Efetivamente, a partir desse trecho, a passagem de uma noite a outra é muito mais direta, sem grandes falas ou explicações, entrando quase que diretamente na continuação das narrativas de Sherazade.

Depois das 8 histórias de Simbá, temos “As três maçãs” (contada entre as noites 90 e 92) e “A história da jovem trucidada e do seu jovem marido” (contada entre as noites 92 e 93), duas narrativas interligadas e que levam a outra, de grande extensão, que comentarei somente no próximo post, pois ainda estou lendo.