Eu escrevo poemas — Triz Santos

Título: Eu escrevo poemas
Autora: Triz Santos
Editora: Publicação independente
Páginas: 11
Ano: 2021

Eis que você decide ler um conto — “só 11 páginas, uma leiturinha rápida para passar o tempo” — e sai mais destruída do que quando iniciou a leitura.

Há histórias que são bonitas, mas há histórias que são ainda melhores quando lidas no momento certo. E foi o que aconteceu entre Eu escrevo poemas e eu. Literalmente, um conto que caiu do céu em meio à leituras que estavam sendo retomadas.

Na primeira linha da história conhecemos Ethan. Ele está em sua escrivaninha, aos prantos, e escrevendo… Um poema, claro. Poema este que, dentre tantos outros, foi escrito para Anthony, seu ex que nunca lerá nenhum desses versos.

“Sempre que Ethan se lembrava disso, seu peito doía e a sua respiração tornava-se escassa, enquanto se permitia chorar até não poder mais. Ele viu tudo de mais precioso que tinham se esvair diante de seus olhos, e não pôde fazer nada”

Não, Ethan não perdeu Anthony para a morte. O perdeu para a vida mesmo: sem mais nem menos, este decidiu que era hora de partir, de dizer adeus àquele relacionamento, deixando Ethan com o coração totalmente despedaçado e a mente totalmente caótica.

“E esse foi o fim. O fim de uma história de amor que ninguém jamais imaginou que um dia terminaria”

Há três anos Ethan tenta entender o que aconteceu. Há três anos Ethan vive no automático. E há três anos Ethan escreve para tentar expurgar essa dor que o consome.

“Muitas coisas foram deixadas pendentes

E eu revivo os momentos

Sempre que fecho os olhos

Como um filme

Que eu dolorosamente insisto em assistir”

Apesar de poder parecer apenas um conto extremamente dramático, Eu escrevo poemas é uma história bela, dolorosamente possível e, ao mesmo tempo, que nos faz refletir sobre a vida, sobre nossos sentimentos e a vontade ou necessidade de seguir em frente.

“Sua vida não ia para frente nem para trás, estava completamente estagnada…”

É, também, um conto para nos fazer lembrar que ciclos se fecham — repentinamente ou não —, mas que podemos (e devemos) nos permitir sentir a dor necessária, nos mostrando, porém, que também é importante buscar uma forma de contorná-la, porque ninguém quer seguir vivendo no automático, não?

Se você quiser realizar essa leitura também (e depois me contar a sua opinião, pois, como eu disse, li no momento certo, então, para mim, o impacto desta breve narrativa foi bem forte!), clique aqui.

Tamara Jong: a última flor do paraíso — José M. S. Freire

Título: Tamara Jong: a última flor do paraíso
Autor: José M. S. Freire
Editora: publicação independente
Páginas: 361
Ano: 2020

Em 2019 eu escrevi uma resenha sobre o segundo volume de Tamara Jong e, já naquele momento, expliquei que é possível ler as obras separadamente. Foi por isso que não pestanejei em mergulhar na leitura de Tamara Jong: a última flor do paraíso, quinto volume desta série de ficção científica criada pelo autor José M. S. Freire.

“A vida é dura em toda parte, mas, ainda assim, é tudo que temos, e nós devemos lutar por ela”

Uma vez mais, o prefácio é crucial para o embarque nessa aventura. Ele nos dá um bom panorama do que veio antes e nos faz entrar no clima da história.

“Eu perdi uma batalha, mas haverá muitas outras. Quando você crescer, você entenderá que as guerras são como a própria vida: só se para de lutar quando se morre!”

Desta vez, porém, os protagonistas estão cada um em um canto, lutando para sobreviver. E a narrativa vai, a cada capítulo, nos mostrando um desses personagens e suas aventuras.

Conhecemos, assim, diversos cenários e, claro, ficamos de cabelo em pé em algumas situações, sempre imaginando que é o fim da linha para alguém. Mas será que é mesmo?

“Aliás, na verdade, era isto que mais doía em André: o ego ferido por ter sido enganado por uma criatura rudimentar como aquela. Ele não se perdoava por ter sido tão descuidado”

Dentre esses cenários, uma vez mais, notamos muitas similaridades com o nosso verdadeiro mundo, principalmente com relação a problemas e coisas ruins… E, ao mesmo tempo, nosso verdadeiro mundo entra “disfarçadamente” na história de uma maneira que achei genial:

“No reino do Brehzil, sabe-se tudo mas não se faz nada!”

(assim, somente com o quote, não dá para pegar totalmente a ideia, então sugiro que você leia a obra para que entenda completamente porque isso foi muito criativo).

E claro que, uma vez mais, temos muito sobre o que refletir e mais ainda a aprender, porque isso, desde o primeiro livro que li, já fica claro: o autor consegue inserir diversas passagens interessantes, mas sem que fiquem forçadas na narrativa.

“Eu, que sempre vivi no luxo e na riqueza, acabei de aprender com você e o Rodrigo que a joia mais preciosa que podemos ostentar em nossas vidas é a face radiante das pessoas leais e amigas, estampada para sempre no véu de nossas lembranças”

Neste volume, no entanto, senti que, apesar de todas as cenas de arrepiar, a ação não esteve tão bem presente quanto anteriormente, dando mais espaço a descrições. Além disso, os capítulos são grandinhos, então se acomode bem no momento de ler e embarque nesta aventura única.

Se quiser conhecer essa história — e também os outros volumes de Tamara Jong — clique aqui.

L’ultimo arrivato — Marco Balzano

Título: L'ultimo arrivato
Autor: Marco Balzano
Editora: Sellerio Editore Palermo
Páginas: 205
Ano: 2018

Provavelmente uma das coisas que mais me faz apaixonada pelos livros é o quanto posso aprender com eles. E L’ultimo arrivato foi uma obra que trouxe muitas novidades para mim.

Infelizmente, a obra ainda não tem tradução para o português, mas para dar um gostinho dela, traduzirei os trechos que selecionei para compor esta resenha, colocando ao final os trechos originais, na sequência que aparecem aqui.

“Para aprender é preciso confiança e eu não confiava nele”

Uma história inventada, mas que ao mesmo tempo é real: fruto de muitas pesquisas e recortes de entrevistas com pessoas de carne e osso, L’ultimo arrivato nos mostra uma Itália de não muitos anos atrás e que, ao mesmo tempo, pouco se sabe ou se estuda.

“Não restaram traços, porque o esforço dos pobres cristãos não deixa vestígios. Não resta testemunho disso nem mesmo nos livros escolares, onde se lê apenas sobre o rei e a rainha”

Logo no início da obra o autor já nos explica sobre o que ela trata e o tema, por si só, nos faz pensar em uma história de terror que nos deixa boquiabertos por ter, de fato, acontecido.

“Nos anos cinquenta, a mudar-se do Sul ao Norte, em busca de trabalho, não eram apenas homens e mulheres prontos para a experiência e para a vida, mas também crianças — às vezes com menos de dez anos — que nunca haviam se afastado de casa. O fenômeno da imigração infantil envolve milhares de garotinhos que diziam adeus os pais, aos irmãos e se mudavam — muitas vezes eternamente — para as metrópoles distantes”

Em L’ultimo arrivato conhecemos Ninetto, um garoto que teve o mesmo destino de tantos de sua época e idade: mudar-se para Milão em busca de uma vida um pouco melhor. Mas a mudança era nos termos acima mencionados: sozinho e para trabalhar.

“Há momentos nos quais você não tem mais nada no que se agarrar a não ser a sua história”

Durante 31 capítulos vamos acompanhando a história desse garoto que, no início, levava uma vida muito simples — e já com algumas dificuldades — mas até que, na medida do possível, feliz.

“Não é verdade que basta boa vontade para virar a página e recomeçar”

Apesar de nem sempre ter comida na mesa — ou comer sempre a mesma coisa — e ver a sua mãe doente — mas não entender o que acontecia com ela — Ninetto ia à escola e, a cada dia, voltava fascinado com o que aprendia ali.

“Depois do Peppino, ainda que eu jamais o tenha dito, a pessoa a quem eu mais queria bem era o professor Vincenzo”

Depois de nos contar sua infância, Ninetto narra a viagem de trem até o norte e tudo o que passa a viver nessa nova e desconhecida cidade. Ali ainda há pobreza, mas também há a chance de se mudar de vida com muito suor e muita vontade.

“De qualquer forma, foi justamente aquele trabalho de mensageiro que me fez entender que Milão é um lugar mágico e horrível ao mesmo tempo”

Um ponto muito interessante da narrativa é que ela é feita de maneira crua, sem máscaras e sem a menor intenção de colorir uma realidade tão cinza. O que não significa, porém, que as palavras empregadas não transmitam com certa magia uma história tão difícil.

“Talvez as lembranças sejam aqueles fatos que não conseguimos esquecer”

Ao longo da narrativa, não sei se pelo fato dela ser narrada em primeira pessoa ou se pelo fato de ser muito bem escrita — ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo — nos sentimos imersos, lendo aquelas passagens quase como quem assiste a um filme.

E, para nos deixar ainda mais presos à história, em determinado momento ficamos sabendo que Ninetto viveu um tempo na cadeia e passamos a querer saber o motivo disso, ainda que ele não dê grande importância ao fato. Pelo contrário, aliás, os anos passados na prisão são apenas um borrão na narrativa, mesmo que depois disso, Ninetto jamais possa ser quem fora antes.

“Não há o que dizer, é fora do cárcere que está a verdadeira pena a se cumprir”

Mas o livro não é apenas tristeza. Como eu disse antes, é uma história sem máscaras, mostrando os momentos como eram. Há a celebração das pequenas conquistas, o amor, o casamento, a filha, o reencontro com a família, a poesia.

“Tem quem nasce avenida principal e quem nasce rua sem saída”

Se você lê em italiano, recomendo esta obra — desde que você aceite um soco no estômago — e se você não lê, recomendo ao menos que pesquise sobre esse momento da História italiana. Procure sobre os “trens da felicidade” e sobre os anos cinquenta.

E, como prometido, seguem os trechos originais, na ordem em que apareceram nesta resenha:

“Per imparare bisogna fiducia e io di lui non ne avevo”

“Non ne è rimasta traccia perché la fatica dei poveri cristi non lascia mai traccia. Non ne rimane testimonianza nemmeno nei libri di scuola, dove si legge soltanto del re e la regina”

“Negli anni Cinquanta a spostarsi dal Meridione al Nord in cerca di lavoro non erano solo uomini e donne pronti all’esperienza e alla vita, ma anche bambini a volte più piccoli di dieci anni che mai si erano allontanati da casa. Il fenomeno dell’emigrazione infantile coinvolge migliaia di ragazzini che dicevano addio ai genitori, ai fratelli, e si trasferivano spesso per sempre nelle lontane metropoli”

“Arrivano dei momenti in cui non hai nient’altro che la tua storia a cui aggrapparti”

“Non è vero che basta la buona volontà per girare pagina e ricominciare”

“Dopo Peppino, anche se non gliel’ho mai detto, la persona a cui volevo più bene era il maestro Vincenzo”

“Comunque, è stato proprio quel lavoro di galoppino a farmi capire che Milano è un posto magico e orribile insieme”

“Forse i ricordi sono quei fatti che non riusciamo a dimenticare”

“Non ci sono storie, è fuori dal carcere la vera pena da scontare”

“C’è chi nasce strada principale e chi strada senza uscita”

No coração de um assassino — Davi Busquet

Título: No coração de um assassino
Autor: Davi Busquet
Editora: Lettre
Páginas: 166
Ano: 2021

A resenha de hoje é para quem gosta de um bom thriller. Mas daqueles de nos deixar de queixo caído mesmo!

Se você já leu a antologia Serial Killer: a verdadeira face do mal, publicada também pela Editora Lettre, talvez se lembre do conto O sangue. Ele já é surpreendente por si só, e é o prólogo desta obra, que irá trabalhar sobre o serial killer ali apresentado.

“Alguns homens não precisam de motivos, perfis de vítimas, traumas de infância ou distúrbios psiquiátricos para fazer o que fazem — alguns simplesmente são cruéis”

Em No coração de um assassino entramos em contato com a vida de Hermanni, um rapaz relativamente jovem, um pouco solitário, e que vai no contando sua vida, fazendo-nos chegar a sentir pena dele.

“A Hermanni, mais uma vez, restava-lhe somente chorar”

O livro é dividido em duas partes, além de ter um prólogo — que já mencionei — e um epílogo.

Na primeira parte, somos apresentados a alguns flashes da vida do protagonista da obra. São alguns momentos específicos — quase que aleatórios — mas que parecem ser importantes para a construção deste personagem.

“Tanto o coração em seu peito, quanto a comida em seu colo esfriaram, com o ar noturno soprando para longe as cinzas, o cheiro de queimado e os planos tão cuidadosamente pensados ao longo de tanto tempo”

Como eu disse, esses momentos no fazem sentir certa pena de Hermanni — ao menos comigo foi assim — e quase nos fazem esquecer o tipo de livro que estamos lendo.

“Era incrível que uma única gaveta tivesse tanto para dizer e o fazia de maneira silenciosa, para um menino mais calado que a cômoda”

Mas então a segunda parte chega sem aviso prévio. Digo, a separação no livro é bem clara, mas não sei se eu estava preparada para o que viria. Não sei se eu imaginava que a divisão em partes representava uma quebra tão grande e, ao mesmo tempo, tão clara para uma pessoa minimamente mais esperta que eu (o que não é difícil, convenhamos).

“Você mesma disse: algumas coisas têm que ser arrancadas do jardim, para que outras cresçam em seu lugar”

Nessa segunda parte, todas as pontas são atadas e muitas revelações são feitas.

Realmente, me surpreendi com a forma como o autor conduziu e construiu essa história. Tendo lindo a antologia que mencionei no início desta resenha, também adorei as inserções nada forçadas que o autor colocou de outros contos em sua obra. Uma homenagem muito bonita e uma criatividade sem igual. Se você gosta de caçar easter eggs recomendo a leitura de Serial Killer: a verdadeira face do mal e, em seguida, a leitura de No coração de um assassino.

Li a obra em formato ebook e gostei bastante da diagramação. Já adquiri a versão física e estou ansiosa por ela, porque sei que tem detalhes ainda mais bonitos e caprichados. E, por falar nisso, a obra está em pré-venda até amanhã, sendo possível adquiri-la por um preço promocional. O frete é gratuito para todo o Brasil e hoje ainda foram anunciados alguns brindes exclusivos para quem adquirir nessas últimas 48 horas.

“Ele compreendeu, a duras penas, que nada é para sempre”

Para conhecer um pouco mais o autor e acompanhar os trabalhos dele, sugiro que você leia a entrevista postada no blog da Editora Lettre e que siga-o no Instagram.

“Apesar de tudo, a dor cedeu e outra maior tomou o seu lugar”

Titubeio — Maitê Rosa Alegretti

Título: Titubeio
Autora: Maitê Rosa Alegretti
Editora: Urutau
Ano: 2020
Páginas: 62

Para uma pessoa que lê bem mais prosa do que poesia, até que esse ano (e ainda estamos no primeiro semestre) posso dizer que já li muitos bons versos. Depois da antologia poética Girassol, agora é a vez de uma obra solo, escrita por Maitê Rosa Alegretti.

Ler Titubeio não é apenas uma experiência literária, mas também sensorial. Os versos são impressos como quem dança, e as palavras misturam poesia, sentimento, corpo e natureza.

A obra é bem curta, mas feita para se apreciar aos poucos, um poema por vez, saboreando também o trabalho gráfico do livro, que vai muito além da disposição não convencional dos versos, sendo abraçado por uma capa e uma contracapa extremamente lindas e orelhas muito bem preenchidas pelas belas palavras de Gabriela de Azevedo, também poeta.

O livro é dividido em quatro partes, sendo elas:

  • Titubeio;
  • Observações astronômicas;
  • Maré baixa;
  • Tenho conversado comigo.

Em cada uma das três primeiras partes, na página chapada (aquelas páginas toda pretas que dão um efeito muito bonito) de abertura, além do título há uma epígrafe, de escritores como Chico Alvim, Laura Liuzzi e Fabrício Corsaletti. Na última parte, porém, não há epígrafe alguma e ela é composta por um único poema, que se inicia justamente com “Tenho conversado comigo”.

Eu não teria como escolher uma poesia preferida. Acredito que cada uma carrega a sua beleza, o seu significado e que todas elas juntas é que fazem deste um livro tão singular.

Não conseguindo escolher um poema preferido, portanto, deixo aqui o meu convite para que você conheça a obra inteira e faça o seu mergulho nestas palavras tão bem escolhidas e harmonizadas. O livro pode ser adquirido no site da Editora Urutau. E você pode acompanhar os trabalhos da autora através do Instagram, do Medium ou da Newsletter dela.

Poeira estelar — Gabriela Araujo

Título: Poeira Estelar
Autora: Gabriela Araujo
Editora: Publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2020

Começando de maneira totalmente despretensiosa, Poeira estelar vai nos fisgando até que, ao final, estamos sentido um mix de sentimentos difícil de explicar.

“Não tema as mudanças, minha pequena. Elas virão, mas fazem parte do mundo que conhecemos”

Apesar da brevidade da narrativa — mais um conto para a minha lista de contos que deveriam ser lidos por muitas outras pessoas — Gabriela Araujo consegue traçar um arco temporal um pouco mais complexo, fazendo-nos acompanhar o desenvolvimento da protagonista Marta, que começa a história como uma simples garotinha que viaja de carona nas estrelas.

“Quanto mais crescemos, menos acreditamos no poder das estrelas”

Mas aos poucos essa garotinha vai crescendo e vendo como o mundo não é simples. E muitas vezes, sequer é justo.

“A mãe enxergou o seu próprio passado naquela frase e desejou poder transferir para a filha sua experiência de vida, poupando-a dos anos de sofrimento até entender”

Porém, não se engane: Poeira estelar não é a simples história de uma garota que cresce e acaba por descobrir o mundo. Brasileira, Marta é uma mulher negra e tem de enfrentar muitos outros desafios que, por vezes, não conseguimos imaginar.

“Queria dizer para a mãe que não era sobre sentir que precisava ser como as outras meninas, ela apenas sentia não ter escolha”

Eu sou mulher e sei dos desafios que encontramos em uma sociedade machista. Mas sou uma mulher branca, que não sofre preconceitos nos lugares que frequenta, que não tem de provar a todo instante que não está fazendo nada de errado e que tem igual direito de estar em qualquer lugar.

“Aos 13 anos, Martinha não tinha uma simples vontade de ter um namorado. Era a vontade de ser vista, de receber carinho, de se sentir ‘normal'”

E é assim, através dos olhos da menina que vira mulher, que Gabriela Araujo consegue abordar de maneira extremamente leve e envolvente assuntos de grande importância, como amadurecimento, preconceito, solidão e até mesmo relacionamentos abusivos (de qualquer tipo, não apenas românticos) e emancipação feminina.

“Marta não sabia daquilo ainda, mas aquele momento selou a completa ruptura entre a pessoa que era e a pessoa que viria a ser”

Não vou dizer que a história me fisgou desde as primeiras páginas, que têm um ar mais onírico, mas logo fui ficando mais e mais presa às palavras desta narrativa e, agora, indico-a a quem busca uma leitura inspiradora, forte, impactante, mas, ao mesmo tempo, que cai como um abraço, um afago, um ombro amigo.

“Não podemos usar o espelho do outro pra enxergar o nosso próprio reflexo, Martinha”

E mesmo sendo uma história de personagens femininas, a leitura é excelente para homens e mulheres, pois com palavras simples, Gabriela Araujo consegue nos ensinar muito.

“A gente cresce e aprende a ignorar o que a gente quer?”

Se você se interessou por Poeira estelar, não deixe de garantir o seu ebook aqui. E conheça as outras obras e trabalhos da autora no site dela.

Cigarro e anéis no rabo do gato — Maicon Moura

Título: Cigarro e anéis no rabo do gato e outros contos
Autor: Maicon Moura
Editora: publicação independente
Páginas: 57
Ano: 2021

No início do ano eu postei aqui no blog a resenha de Não quero patos elétricos, indicando fortemente a leitura desta obra. Mas se mesmo depois do que escrevi você não se convenceu a ler um livro que talvez te tire da zona de conforto, hoje eu trago uma nova (e talvez mais fácil) opção: a coletânea Cigarro e anéis no rabo do gato e outros contos, publicada pelo mesmo autor.

“As horas passam rápido. Como os dias, os meses e os anos. Coisas irão acontecer e outras não irão”

Considero que esta possa ser uma forma “mais fácil” de te convencer a embarcar em um novo gênero literário porque as histórias aqui são mais curtas (afinal, são contos) e você pode saboreá-las com calma, além de pegar algumas sutis menções à space opera anteriormente resenhada. Porém, um alerta: o fato das histórias serem mais curtas e de você poder lê-las com calma não significa que você irá se deparar com histórias banais ou toscas. Muito pelo contrário!

“Existem pessoas que sabem muitas coisas. Essas pessoas não estão na faculdade, não estão em escritórios, não são Deuses. Estão por aí, esperando o momento certo para mudarem seu modo de ver as coisas”

A coletânea Cigarro e anéis no rabo do gato reúne cinco contos que se passam numa realidade que (ainda) não é nossa, com simulacros, tecnologia e uma consciência ambiental muito acima da que temos hoje (e que ainda tem tanto a melhorar). É muito maluco perceber, porém, como apesar de tudo isso, os personagens são bem parecidos conosco, sendo reais e humanos mesmo quando não o são (achou confuso? Leia e entenderá!).

“O pensar é um grande mistério, as lembranças são confusas e nossa opinião é falha. Somos um amontoado de incertezas não confiáveis”

Outro aspecto excelente desta coletânea é que as narrativas trazem muitos significados e descobertas para nós, leitores, nos fazendo refletir sobre a vida e a morte e tudo o que há entre essas duas pontas.

“Sabemos que vai acabar e o que estamos fazendo?”

Confesso que tive a honra de ler essa obra ao menos duas vezes (porque, além de tudo, eu a revisei!) e não vou negar que a cada leitura eu me surpreendo com um novo detalhe, um novo pensamento.

“Deprimente é pensar que esse não é o mundo real”

E se você ainda está achando o título desse livro muito estranho, saiba que ele é o nome de um dos contos, e que depois da leitura, talvez as coisas passem a fazer mais sentido. Aliás, os títulos dos contos, em ordem, são:

  1. Beijo e chuva de sábado
  2. Cigarro e anéis no rabo do gato
  3. “Papai?” perguntou minha menininha
  4. Ele, a moça e a saída
  5. Mas eu quero morrer (conto bônus, que eu já havia lido de maneira separada e cuja resenha você encontra aqui).

“Corri como se a vida dependesse daquilo. E dependia”

Espero ao menos ter despertado a sua curiosidade com relação à essa coletânea e a tudo o mais que o Maicon escreve. Você pode acompanhar o trabalho do autor através da newsletter, do Instagram e do Linkedin.

“Eu devia ter me esforçado mais”

Com relação a esse trabalho, ele está disponível na Amazon, mas em breve ganhará o formato físico… Com um prefácio meu! Entre em contato com o autor para adquirir o seu exemplar.

Girassol (Antologia)

Título: Girassol
Autor: vários autores
Organização: Chris Calixto
Editora: Lettre
Páginas: 74
Ano: 2021

Já diria a famosa frase do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain: “são tempos difíceis para os sonhadores”. Sim, as coisas não têm sido fáceis e parece até repetitivo dizer isso (eu, pelo menos, já não aguento mais repetir essa frase, mas é a mais pura verdade). Porém, hoje eu estou aqui para falar de coisa boa, então fique até o final do post!

“Tenho sido confusão.
Tenho tido caos interno
e lágrimas retidas”

(João Barreto)

A antologia Girassol nasceu com o intuito de ser um respiro, uma alegria em meio ao momento que estamos vivendo. E tudo nela foi pensado para deixar isso bem claro, desde a capa clean até a seleção dos poemas, que, por sua vez, não precisavam falar sobre essa flor em questão, mas que deveriam carregar o que ela significa: felicidade, calor, lealdade, vitalidade e entusiasmo. Tudo aquilo que estamos precisando em grandes doses, não?

“Que neste enorme jardim que é a vida,
possamos florescer, dia após dia,
transbordando alegria”

(Chris Calixto)

Em suas poucas páginas, a obra reúne 22 autores dos mais diferentes entre si, vindos de várias regiões do país, tendo idades diversas e com sua experiências e bagagens únicas.

Ando com saudades
Do tempo em que o tempo corria
Sem nenhuma pressa.

(LMC Oliveira)

Há muitos versos que falam sobre a própria poesia; outros que brincam com a imagem do girassol. Mas também há poemas sobre o dia, a noite, a natureza, a lua, o caminhar… Poesias que falam sobre amores, anjos, amigos e ciclos.

Mergulho em teu sorriso
Sem pressa para voltar
Encontro então o paraíso
Que fi ca dentro desse mar.

(Rachel Reis)

A diagramação da Editora, uma vez mais, nos surpreende: delicada e detalhista, como em todas as suas obras.

Se você está em busca de algo que te traga calma, acalento e que seja tranquilo de ler, acredito que tenha acabado de encontrar: a antologia Girassol certamente irá te surpreender e te encantar. A obra está disponível em formato físico e está em pré-venda até o final desta semana no site da Editora Lettre. Creio que, passado este período, será difícil comprar a obra neste formato, então aproveite para garantir o seu (e uma motivação a mais para isso: o livro está com desconto e o frete é gratuito!). Também há o ebook, na Amazon (gratuita pelo Kindle Unlimited).

Adorei a oportunidade de conhecer novos poetas contemporâneos, coisa que, se não fosse essa obra, talvez nunca viesse a ocorrer. Não sou a maior consumidora de poesia, mas é difícil não se encantar com essa antologia! Desejo muito sucesso a cada um de vocês que dela participou!

Citações #37 — Novecento

Como eu comentei na resenha, Novecento (Alessandro Baricco) foi um livro que me surpreendeu muito (positivamente). E alguns trechos que eu adorei, não consegui usar naquele momento, deixando-os para um post que, finalmente trago a você. Uma vez mais, por se tratar de uma obra em italiano, colocarei primeiro a minha tradução e, ao final, os trechos originais, na ordem em que aparecerem aqui.

Como ressaltado na resenha, a história se passa em um navio, local onde nasceu o protagonista da história. Sua vida era muito diferente da vida de qualquer outra criança, desde o início:

“Assim, de repente, Novecento torna-se órfão pela segunda vez. Ele tinha oito anos e já tinha ido e voltado da Europa à América umas cinquenta vezes. O oceano era a sua casa”

Para além desse peculiar fato e tudo o que ele gera, Novecento logo torna-se um grande músico. E esta é uma arte que se faz presente ao longo da história, inclusive sendo usada em paralelo com a própria vida do personagem:

“Se você toca trompete, no mar você é um estrangeiro e sempre será”

A obra ainda nos traz algumas reflexões peculiares, mas que, ao mesmo tempo, fazem muito sentido. No trecho em questão, fazia-se uma reflexão sobre como as coisas mudam e porque mudam, usando, para isso a imagem de um quadro que cai da parede:

“O que acontece a um prego para fazê-lo decidir que não aguenta mais?”

E ao mesmo tempo que a história nos coloca essas perguntas e pensamentos, também nos alerta para o fato de que há coisas nas quais não devemos pensar muito, pois talvez jamais encontremos uma resposta para elas:

“É uma daquelas coisas que é melhor você não pensar, se não fica maluco”

Esse é, sem dúvidas, um livro que vale a pena ser lido e espero ter deixado um bom gostinho da obra com esse post e com a resenha. E, como prometido, abaixo estão os trechos originais, na ordem que aparecem neste post:

“Così, d’improvviso, Novecento divenne orfano per la seconda volta. Aveva otto anni e si era già fatto avanti e indietro dall’Europa all’America una cinquantina di volte. L’Oceano era casa sua”

“Se suoni la tromba, sul mare sei uno straniero, e lo sarai sempre”

“Quando non sai cos’è, allora è jazz.”

“Cos’è che succede a un chiodo per farlo decidere che non ne può più?”

“È una di quelle cose che è meglio che non ci pensi, se no ci esci matto”

Qual foi o trecho que você mais gostou ou aquele que mais chamou sua atenção?

Alzehan: Magos e Alquimistas — Rikelmy Ribeiro

Título: Alzehan: Magos e Alquimistas
Autor: Rikelmy Rodrigues Ribeiro
Editora: Lettre
Páginas: 166
Ano: 2021

Antes de iniciar essa resenha, preciso confessar que sou um pouco cética quanto aos comentários de outras pessoas sobre os livros. Gosto de ler resenhas — principalmente de obras que nunca ouvi falar na vida — mas nunca tomo as palavras do resenhista como verdades universais e, assim, não importa se a pessoa amou ou odiou o livro, se pego aquele livro para ler, inicio a leitura sem nenhuma expectativa.

Dito isso, gostaria de acrescentar que o que eu ouvia falar de Alzehan é que este é um livro de fantasia — coisa que já dá para esperar pela capa e pelo título — mas com algumas questões filosóficas inseridas na história. Eu pensava se não era um pouco exagerada essa definição, mas resolvi conferir com meus próprios olhos.

No início da história conhecemos Alzehan, a cidade dourada. Mais que isso, uma cidade poderosa e cheia de mistérios, que abriga dentro de seus muros grandes magos. E dentre eles temos os personagens centrais desta história: Évelon Kovalev, pai de Isaac e Eivil Kovalev, irmãos gêmeos completamente diferentes entre si em todos os sentidos possíveis.

“Eivil não era mal, mas curioso e disposto. O mundo não gosta de pessoas assim, então ele tenta derrubá-las e foi exatamente o que aconteceu com Eivil Kovalev”

Nesta história, porém, não é apenas Alzehan que tem seus mistérios. Todos os personagens parecem carregar mais do que falam e mostram ao longo da narrativa. E, claro, existem outros reinos para além de Alzehan. Reinos não tão ricos e não tão protegidos, mas que têm algo em comum: a vontade de destruir a Cidade Dourada.

“Desde que a vida caminhou sobre a Terra, ela permaneceu em guerra. A paz tornou-se uma utopia, visto que os instintos primitivos se sobressaem até mesmo nas mentes mais intensas”

Nós conhecemos um pouco mais sobre o que há para além dos muros Alzehanianos através de Eivil que, na infância, é expulso da cidade ao desrespeitar uma regra importante. E também é graças a esse acontecimento que conhecemos Érica Asténs, uma figura feminina de muita força, coragem e tristes lembranças, além de outros personagens que compõem a narrativa.

Évelon é um mago muito poderoso e esse poder não só é passado aos filhos, como é aprimorado por eles. Por isso, querendo ou não, todos temiam o que poderia acontecer após a expulsão de Eivil de Alzehan, ainda que, na época, ele fosse apenas um garoto. Isaac também já previa as consequências e, por isso, dedicava-se dia e noite a se tornar um mago ainda mais poderoso que seu pai. É como se todos soubessem que Eivil se vingaria da expulsão, ainda que em momento algum ele seja descrito como vingativo.

“Nós lutamos de maneira imperfeita para que Alzehan continue perfeita, entende?”

É muito fácil mergulhar nessa história — e olha que fantasia não é sequer o meu gênero preferido — e ficar com aquela vontade de saber o que vem a seguir, como os fatos irão se desenrolar. A guerra está sempre pairando, é verdade, mas ela vai muito além de um “bem” contra um “mal” e isso nos deixa sem conseguir prever o que pode acontecer ou mesmo o que gostaríamos que acontecesse.

“— No mundo real não existem vilões, apenas convicções diferentes”

E é justamente por brincar com questões como essa — de não haver exatamente um lado certo e um errado numa guerra — ou então com a questão de que, se não mudarmos, sempre haverá guerras no mundo, porque queremos apenas que nossos desejos sejam atendidos, é que Alzehan: magos e alquimistas é uma obra de fantasia que consegue ir muito além daquilo que esperamos.

“Uma vez, travei uma batalha contra um mago de Zafira. Ele me disse que ‘o mundo trabalha contra os bons’ e, de certa forma, fazia sentido”

Esse é o livro de estreia do autor e a história não acaba aqui (espero!). Se você é um amante de fantasia e quer conhecer esses personagens tão cheios de segredos e reflexões, adquira o ebook aqui ou o livro físico aqui e boa leitura!