Meu Juiz Envolvente — Juju Figueiredo

Título: Meu Juiz Envolvente
Autora: Juju Figueiredo
Editora: Publicação independente
Páginas: 475
Ano: 2019

meu juiz blog

E mais uma vez eu estou aqui, impactada com a escrita da autora Juju Figueiredo. Dessa vez, após a leitura do segundo livro da série Envolventes: Meu Juiz Envolvente. Se em Meu Envolvente Professor temos como protagonista a forte e determinada Bruna Ávila, aqui o foco é Eduarda Medeiros, uma mulher não menos determinada e incrível.

“Eduarda era uma surpresa, uma surpresa que eu não sabia lidar”

Eduarda se formou com honras na Universidade de São Paulo e tornou-se uma advogada renomada. Na reta final de sua graduação e início de sua brilhante carreira, porém, ela se deparou com Arthur Brandão, um grande e temido juiz. E claro, que, entre os dois, começa a rolar um certo clima… Clima esse já anunciado em Meu Envolvente Professor, mas que fica muito mais claro e desenvolvido neste livro.

Enquanto Eduarda e Arthur não resolvem se ficam ou não juntos, vamos acompanhando uma narrativa que se alterna entre a visão de um e outro e que nos apresenta seus passados, seus presentes e até mesmo aquilo que eles desejam para o futuro.

“Como apagar um passado que, mesmo tendo me destruído por completo, me fez ver que eu poderia amar e ser amado?”

Mas, como sempre acontece nos livros da Juju, essa é uma história que vai muito além de um simples romance hot. Em Meu Juiz Envolvente a autora conseguiu inserir temas fortes como prostituição (e prostituição infantil), adoção e um esquema criminoso que gera uma trama de tirar o fôlego.

“Diferente do seu corpo, seus olhos demonstravam uma fraqueza que jamais pensei que veria nela”

O livro é um grande quebra-cabeça que apresenta suas peças aos poucos e que também as encaixa com calma, no momento certo, nos prendendo até a última página. Um livro capaz de arrancar risadas e lágrimas, enquanto nos faz pensar e nos deixa revoltados com coisas que, infelizmente, realmente acontecem à nossa volta.

“Queria apenas que minha vida fosse menos complicada”

Há um ou outro capítulo escritos por personagens que não são Eduarda ou Arthur. Mas são personagens que conhecemos seja do primeiro volume dessa série, seja da série spin off (que é a trilogia Recomeços). Alguns também ainda terão seus próprios livros. E é incrível vermos surgir diante de nossos olhos uma trama que realmente envolve (perdão o trocadilho) seus personagens, suas histórias, o passado e o presente, as conquistas, as derrotas, os medos.

Este é o segundo livro da série Envolventes, mas a cada livro que leio me sinto mais parte de um grupo de amigos unidos, sempre prontos a ajudar uns aos outros, ainda que cada um tenha sua história, sua dor e seus fantasmas.

Os livros da série Envolventes podem ser lidos separadamente, mas vale à pena mergulhar nesse mundo (e de preferência na ordem em que foram publicados, para evitar spoilers)

Quer conhecer melhor Eduarda Medeiros? Então clica aqui e descubra se ela se deixa ou não conquistar por Arthur Brandão.

Música em Contos 2 – Susana Silva (parte 2)

música em contos 2

Vamos conhecer o segundo conto que pude saborear da antologia Música em Contos 2? Hoje apresento a vocês A Tísica, escrito por José Miguel e baseado na música I know you care, da Ellie Goulding.

Ainda que o conto case muito bem com a letra da música escolhida, não se trata de uma história que imaginamos encontrar em uma antologia como essa. Eu, pelo menos, não esperava, pois acabo sempre associando histórias baseadas em músicas com histórias românticas, de superação, algo mais nessa linha.

Apesar de inspirado em uma  música relativamente recente (de 2013), a narrativa de A Tísica se passa em Portugal, muitos ano atrás, ainda governado por Salazar. Mais que isso: trata-se de uma época em que a luta contra a tuberculose e a busca por um tratamento adequado ainda eram intensas e esse é um dos principais focos dessa história.

O protagonista é João Carlos, um jovem que deseja ajudar no combate à tuberculose no Porto, sua cidade natal. Ele vem de uma família abastada, mas isso não é suficiente para o livrar da enrascada na qual se mete ao tentar ajudar a tal tísica que dá título ao conto.

Ao longo das páginas dessa história, portanto, vemos um protagonista que tenta lutar pelo que é certo e justo, mas que, sozinho, não tem como ir contra um sistema já formado. Um conto que traz um certo passado histórico, mas uma triste atualidade em relação às injustiças. É também um conto que contrasta um tratamento humano com certa desumanização. A tísica é, portanto, um conto extenso e denso, e que merece uma leitura calma e atenta.

Meu envolvente professor — Juju Figueiredo

Título: Meu envolvente professor
Autora: Juju Figueiredo
Editora: Publicação independente
Páginas: 385
Ano: 2019

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Meu envolvente professor faz parte da série Envolventes, uma série de livros que podem ser lidos de forma independente, ainda que haja elementos que os interligam. Esse é o primeiro volume da série e aqui trarei um pouco do enredo e das minhas impressões sobre ele.

Em Meu envolvente professor acompanhamos a história de Bruna Ávila de Albuquerque, uma jovem extremamente dedicada e que dá seu sangue pela faculdade de Administração, para provar a seu pai — com quem sempre teve um relacionamento extremamente complicado  de que ela é capaz de se dar bem na vida sem precisar da ajuda dele.

“Você não tem o poder de controlar o destino ou o que irá acontecer com as pessoas ao seu redor”

Nessa jornada, Bruna acaba conhecendo Fellipo Vitale, um professor que se torna seu orientador substituto,uma vez que seu orientador oficial sofre um acidente e precisa se afastar por um tempo para se cuidar.

“As coisas acontecem porque tem que acontecer, não carregue o peso do mundo em suas costas”

É claro que, só pelo título do livro, já dá para ter uma ideia do que acontecerá. O que não imaginamos, porém, são os percalços do caminho.

“Se permita viver um pouco e descobrir o que o amor pode fazer com duas pessoas”

Bruna tem muito a descobrir sobre si mesma e sua família, enquanto também acaba descobrindo muito do nada fácil passado de Fellipo.

“A dor nos torna pessoas diferente, Bruna, ela nos molda”

Entre idas e vindas, Bruna tem de terminar sua faculdade, lidar com a perda de uma grande amiga, aceitar o seu passado e, claro, lidar com muitos sentimentos intensos.

Essa é uma leitura daquelas leves (apesar de tudo) e, ao mesmo tempo, intrigantes. Um daqueles livros que devoramos avidamente e que traz uma personagem feminina extremamente forte e admirável. Além disso, como Fellipo é um professor jovem, não sendo, portanto, muito mais velho que Bruna, essa história está longe de ser uma narrativa revoltante de um relacionamento absurdo entre professor e aluno.

Os capítulos são escritos em primeira pessoa, ora por Bruna, ora por Fellipo, o que nos dá uma visão muito boa (e privilegiada) da história, fazendo com que, aos poucos, cada peça de um complicado quebra-cabeça se encaixe e nos permitindo simpatizar com os protagonistas.

Se você se interessou pela história de Bruna e Fellipo, não deixe de clicar aqui.

Música em Contos 2 – Susana Silva (parte 1)

Musica em contos

Conheci a antologia Música em Contos 2 através do Blog Inspirações Paralelas. Eu, que amo boas histórias e boas músicas, logo me interessei pela proposta do livro, que é reunir contos inspirados em canções.

Ao ver meu interesse, a organizadora Susana Silva me disponibilizou alguns contos para que eu pudesse ler e contar para vocês minhas impressões. Durante as próximas semanas, portanto, trarei aqui o que eu achei de cada um desses contos. E quem quiser conhecer melhor o trabalho da Susana, leia também a antologia Música em Contos 1!

O primeiro conto que li chama-se Na estrada e foi escrito por C. B. Kaihatsu. Nele conhecemos Fábio, que é o filho do meio e “ovelha negra” de uma família de três filhos. Seu irmão mais velho, Raul, é um advogado bem sucedido; já Alice, sua irmã mais nova, acabara de ingressar em uma faculdade de medicina.

E Fábio? Bom, Fábio queria ser músico. E para se encontrar e se aceitar, ele decide colocar o pé na estrada, sem sem dizer nada a ninguém, deixando apenas um bilhete de despedida.

“Será que conseguiria se tornar alguém bom?”

E nessa viagem, Fábio aprende muito mais do que aprendera em toda a sua vida, nos trazendo uma história que fala sobre autoconhecimento, aceitação e empatia.

A inspiração deste conto vem da música Times Like These (Foo Fighters), que é justamente uma música que representa um certo descontentamento com a vida — como o que Fábio sente — ao mesmo tempo em que nos mostra certa positividade, uma percepção de que a gente também aprende com as dificuldades.

Gostei muito da forma como alguns trechos da música foram realmente incluídos ao longo do texto, indo muito além de uma simples inspiração, sendo base e parte da história.

Grenade — Triz Santos

Título: Grenade
Autor: Triz Santos
Editora: Viseu
Páginas: 266
Ano: 2019
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(Para ler ao som de: Grenade – Bruno Mars)

Grenade nos conta a história de William Toldd, um jovem vindo de uma família extremamente rica e com uma vida que muitos considerariam perfeita. Ele mora em uma casa imensa, estuda no melhor colégio de Londres e tem uma namorada. Mas, claro, nem tudo são flores.

“Como eu sempre digo para mim mesmo, se ninguém souber do seu sofrimento, ninguém irá te julgar”

A família de Willian havia acabado de se mudar para Londres e, portanto, no começo da história acompanhamos nosso protagonista em seus primeiros dias de aula na nova escola. E é aí que muita coisa começa a mudar.

“As coisas estavam acontecendo de um jeito que eu não imaginava e eu não sabia se isso era bom ou ruim”

William e Elise, sua namorada, passam a estudar na mesma escola. Mas o namoro deles parece estar indo por água abaixo. Para melhorar o cenário, na escola deles também estuda um garoto problema: Edward Steele. Todos os alunos da escola aconselham Willian a se manter longe de Steele, mas sem entender os motivos de tal recomendação, ele acaba não dando ouvidos a seus colegas.

“Por que Edward estava me fazendo questionar o que sou tão facilmente?”

E sim, Edward mexe (sentimentalmente) com William de uma maneira que ele não consegue entender, ao menos não de início.

“Minha sexualidade diz respeito somente a mim e ficar falando disso – mais especificamente com a desconfiança que as pessoas têm em relação a ela – me deixa desconfortável e chateado”

Já deu para imaginar, portanto, que Grenade é um romance LGBTQ+ e que nele acompanhamos Willian se conhecendo. Mas esse também é um livro que aborda outros assuntos, como depressão, drogas e violência.

“A verdade é que os demônios de Edward estavam o arrastando para a ponta do abismo cada dia mais e ele estava a um passo de cair na imensa escuridão que era a sua mente”

Grenade toma rumos inesperados e fortes, o que faz que esse não seja um livro recomendado para qualquer pessoa. É preciso ter estômago e sanidade para ler essas páginas.

“Os demônios haviam vencido a batalha travada por anos e agora, ninguém mais poderia salvá-lo”

Mas se você sente que pode encarar essa história, encare. Vale a pena! Os plots dela são ótimos e nos prendem à leitura, fazendo a gente querer saber que fim haverá a narrativa (e que fim! Esse é realmente chocante)

“O amor não é justo. Ele não liga se a pessoa é uma psicopata ou a mais bondosa do mundo”

Ficou curioso(a) para conhecer a história de Willian? Então clica aqui!

Caixa de pássaros — Josh Malerman

Título: Caixa de pássaros
Original: Bird Box
Autor: Josh Malerman
Editora: Intríseca
Páginas: 272
Ano: 2015
Tradutor: Carolina Selvatici

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Sei que muito já foi falado sobre Caixa de pássaros (mais conhecido por Bird Box) e que talvez eu não traga nada de novo aqui, mas como não gostei tanto de Uma casa no fundo de um lago, nada mais justo que voltar a Josh Malerman e escrever sobre uma história que gostei.

Me lembro que quando o filme estourou na Netflix, muitas pessoas tentaram interpretar a história, e tantas outras não a entenderam. Depois de assistir ao filme e ler o livro, fico aqui pensando quantas camadas tem essa história e o quão pouco eu realmente devo ter absorvido dela.

“Ninguém tem respostas. Ninguém sabe o que está acontecendo. As pessoas estão vendo alguma coisa que as leva a machucar os outros. A machucar a si mesmas”

(p.31)

Neste livro, para quem ainda não o conhece, é retratado um mundo em que algo faz com que as pessoas que o vêem, se suicidem. Ninguém sabe ao certo o que é que desencadeia essa reação, mas as pessoas passam a compreender que a única solução é não olhar.

“Parece que não importa sob que ângulo vemos as criaturas, elas sempre nos machucam”

(p.75)

Deste modo, “não olhe”, se torna o mantra dos sobreviventes deste mundo apocalíptico. Só é possível sair às ruas de olhos vendados. E ainda que as pessoas tentem tomar cuidado, chega um momento em que a sobrevivência vai se tornando cada vez mais complicada, porque ainda que se saia de olhos vendados, onde conseguir itens básicos, como comida e produtos de higiene?

A narrativa se alterna entre passado — quando tudo começa a ficar estranho e Malorie, sozinha no mundo e grávida, encontra um grupo que está fazendo o possível para sobreviver, dividindo uma casa — e presente, quando Malorie está com duas crianças, tentando dar uma vida digna a elas num cenário que se tornou ainda mais apocalíptico.

“Como pode esperar que seus filhos sonhem em chegar às estrelas se não podem erguer a cabeça e olhar para elas?”

(p.71)

Caixa de pássaros é um livro que nos prende pelo seu suspense, por seus pontos angustiantes e por nossa curiosidade diante do desconhecido total. Duvido que você leia esse livro e não fique se perguntando como seria viver sem poder ver.

Como eu disse anteriormente, a frase “não olhe” é repetida como um mantra salvador que às vezes pode nos parecer estranho. Mas fico pensando quantas coisas nos são repetidas (quase como mantras) diariamente e que se tornam normais para nós (ainda que não o sejam)? (eu penso muito, por exemplo, quando pego metrô no horário de pico e — todo santo dia — eles dão repetidamente os mesmos avisos, como “utilize a escada fixa no final do corredor” ou “a faixa amarela é a sua segurança” e afins).

“Disseram a eles que poderiam enlouquecer. Então eles enlouquecem”

(p.190)

E se Caixa de Pássaros me faz refletir sobre o que está à minha volta, mesmo retratando algo totalmente diferente do que eu conheço ou vivo, então, certamente, esse é um livro para não deixar passar.

Para saber mais sobre esse mundo assustador e sobre como termina a aventura vivida por Malorie, clique aqui.

Melanie — Maxwell dos Santos

Título: Melanie
Autor: Maxwell dos Santos
Editora: Giostri
Páginas: 88
Ano: 2019

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Não importa quantos livros eu leia, ainda me impressiono como, por vezes, livros tão curtos conseguem abordar diversos assuntos importantes ao longo de suas páginas. Com Melanie não foi diferente, ainda que, ao meu ver, fosse possível ampliar a história, aprofundando algumas das temáticas da obra.

Melanie nos conta a história de uma menina que tem exatamente esse nome. Ela vem de uma família humilde e seu pai falecera alguns anos antes, de câncer. O sonho dessa jovem era ser médica, mas todos nós sabemos que os cursos de Medicina são extremamente concorridos nas Universidade Públicas e absurdamente caros nas Particulares.

“Uma menina linda por dentro e por fora, com olhar que encanta a qualquer pessoa, tem a voz mais doce que eu já escutei, tão educada e meiga!”

(p.22)

Apesar de estar bem distante de ter as condições que os jovens ricos tinham — como acesso às melhores escolas e cursinhos — Melanie sempre foi extremamente dedicada e batalhadora. Trabalhou para juntar dinheiro para pagar um cursinho, se inscreveu no Programa Universidade para Todos, se destacou entre os alunos do cursinho e teve a oportunidade de estudar em um grande cursinho pré-vestibular com 100%, devido ao seu desempenho.

E é por meio dessa história que Maxwell dos Santos nos fala sobre as desigualdades do sistema educacional, sobre o império dos cursinhos pré-vestibulares e, principalmente, sobre cotas.

E se esses três assuntos já nos dão muito pano para manga, há ainda mais um elemento que o autor incluiu em sua história: um acidente de carro causado por dois jovens extremamente ricos e irresponsáveis, que custou a vida de duas pessoas queridas e importantes para Melanie: sua prima e seu irmão mais novo.

“De que vale alcançar o objetivo, se as pessoas queridas não tão mais entre a gente pra partilhar essa alegria?”

(p.45)

E por falar no irmão mais novo de Melanie, mais um assunto que entra nas páginas deste livro: ele era portador de Síndrome de Down e, através desse personagem, o autor também fala sobre preconceito e discriminação.

O livro também começa com uma dedicatória que já me deixou arrepiada e totalmente curiosa por essa história que é daquelas que amo ler (e amo ainda mais quando são reais).

Apesar de ter gostado da premissa e mesmo da história em si, achei — como disse lá no começo — que o livro poderia ter se alongado um pouco mais, se aprofundando em alguns aspectos, ainda que o autor, ao falar das cotas, por exemplo, tenha trazido tanto a visão de quem precisa delas ou é a favor, como daqueles que se vêem “prejudicados” por elas.

Por vezes, achei a mudança de cenário meio brusca, assim como alguns saltos rápidos demais na linearidade da história. O modo como ela é narrada também é um pouco jornalística demais, direta, tirando um pouco da experiência de se ler a história de uma jovem contada realmente pelos olhos de alguém dessa idade.

Ainda assim, Melanie é uma leitura extremamente necessária. Um livro que nos faz refletir sobre algumas condições extremamente reais e tristes da educação brasileira e da luta de tantos jovens.

Se você ficou com vontade de conhecer Melanie, clique aqui.

 

 

Faca na Língua — Eunice Mendes

Título: Faca na língua
Autora: Eunice Mendes
Editora: AGWM Editores
Páginas: 158
Ano: 2019

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Faca na língua é uma obra singular que nos traz contos variados e um projeto gráfico lindo; uma coletânea que nos faz refletir sobre a vida em seus mais diversos aspectos; um livro que surge da necessidade de colocar no mundo as palavras que estão dentro de nós.

“Acredito que as palavras podem ser janelas abertas para o amanhã”

(p.13)

A obra é dividida em três seções: Personificação, Alteridade e Persona. A seção de que mais gostei foi Personificação, que além de ser a primeira, já começa nos dando diversos tapas na cara.

“Silêncio traz verdades incômodas e impede de nos escondermos sob a luz da ignorância”

(p.19)

Por falar em gostar, alguns dos contos que mais chamaram minha atenção foram:

  • Silêncio: é o primeiro conto do livro, abrindo-o de forma impactante e reflexiva (o trecho acima foi retirado justamente deste conto);
  • Decreto: por retratar o peso daquilo que “profetizamos” aos outros;
  • Livre-arbítrio: pelo questionamento da obrigatoriedade do desejo e do prazer sexual;
  • Dança urbana: pelo retrato fiel de um horário de pico, em apenas duas linhas.

Esse são apenas alguns. Eu conseguiria destacar tantos outros, pois em diversos momentos ao longo da leitura tive de parar, respirar refletir. Os contos são de tamanhos diferentes e há inclusive uma página com três contos que mais parecem três poemas (não só pelo tamanho, mas também pela disposição no papel).

“A busca extenuante por respostas virou sua vida de cabeça para baixo”

(p.51)

Quando vamos chegando ao final do livro podemos ter a sensação de conhecer o eu lírico dos contos ou até mesmo a autora. Isso porque algumas temáticas vão e voltam, mas sem que fiquem repetitivas.

“Tinha se acostumado tanto a enxergar a vida pelo reflexo do espelho que se esquecia de continuar vivendo o dia a dia, retirar o lixo e entulhos, fechar portas e janelas. Acessava o mundo por meio daquela janela translúcida que dispensava a necessidade de atravessar barreiras ou pontes”

(p. 99)

Ao longo das páginas, portanto, nos deparamos com textos que falam sobre isolamento, preconceito, identidade (e a perda dela), envelhecimento, relações familiares e até dor nas costas.

“O homem deformado foi embora para sempre. A humanidade e seu aleijão permaneceram”

(p.47)
Para conhecer melhor esses contos, clique aqui.

O preço do céu — Michelle Pereira

Título: O preço do céu — um conto de Guardião do Medo
Autor: Michelle Pereira
Editora: Publicação independente
Página: 19
Anos: 2017

preço do céu

“Não é a natureza que faz uma criatura boa ou má. São as circunstâncias”

Começo a resenha de hoje indo direto ao texto, porque a passagem acima, sem dúvidas, resume muito bem o que encontramos em O preço do céu, um conto de Guardião do Medo que nos apresenta Israel e Selene.

Israel era em grande guardião. Mais exatamente o Segundo Decantador da ordem dos Guardiões da Criação. Selene, sua filha, por outro lado, sempre fora uma criança renegada por tudo e todos (menos por seu pai, Israel, que parecia amá-la e protegê-la a todo custo).

“Todos tinham medo da garota, de sua aparência. Ela não era bonita, achava. Estava enganada, certamente. Sua beleza era sem igual. Imponente, sóbria. Mas estava no lugar errado. Seu tipo de beleza não se encaixava ali. E nunca se encaixaria”

Aos poucos o passado vai se revelando e passamos a compreender que há muito mais por trás do sofrimento de Selene. Ela não é renegada apenas por sua aparência, mas por ser quem é: fruto de um amor proibido e que não foi suficiente para salvar sua mãe.

Assim sendo, Selene só tem ao pai. Mas o amor dele será capaz de mantê-la viva? E se ela sobreviver, o que restará: luz ou sombra?

Quer saber qual é o destino de Selene? Clique aqui.

A ascensão da Dama da Noite — Luciano Maia

Título: A ascensão da Dama da Noite — As crônicas de Aljana
Autor: Luciano Maia
Editora: Viseu
Páginas: 250
Ano: 2019

ascensão

A resenha de hoje é para você que gosta de fantasias bem escritas ou então para você que acha que não há bons livros de fantasias escritos por brasileiros (é cada coisa que a gente tem que ler nesse mundo, né?).

A ascensão da Dama da Noite nos traz uma narrativa complexa. Para que vocês tenham uma ideia, a história tem três focos que vão se alternando a cada capítulo: a história da Dama da Noite, que dá título ao livro, e que vive com o Grão Mestre; cenas que se passam no castelo do Rei Marcado, nos mostrando, principalmente, o monarca em questão; a libertação (em diversos sentidos) de alguns personagens e os rumos que eles tomam, guiados, de uma forma ou de outra, pelo Grande Rei.

“— É preciso compreender o passado para podermos nos transformar em algo melhor”

Eu demorei um pouco para realmente mergulhar na história devido à minha dificuldade com nomes, ainda mais porque esse livro não facilitou nem um pouco: passei capítulos confundindo o Grande Rei e o Grão Mestre (shame on me).

“Revelar o nome a alguém significava tornar-se vulnerável”

Em A ascensão da Dama da Noite conhecemos Lúmen, um continente controlado pelos detentores de magia, os Magis, que são seres que possuem uma vesícula, além da glândula Magísterus, que os permite produzir o mana necessário para sentir e manipular a magia. Como em toda sociedade, porém, há Magis mais poderosos que outros e existem diversas formas de dominação.

“O mundo era injusto. Os perversos conquistavam o que queriam e os bons caíam. Parecia-lhe que a maldade compensava”

Este é um livro de fantasia que fala muito sobre vingança, poder, força. É como se uma nuvem escura pairasse sobre a história. Mas também é um livro que nos faz pensar, que toca em pontos importantes sobre quem somos e as escolhas que fazemos. Um livro com metáforas e com muitas possibilidades interpretativas.

“Cada escolha que fazemos nos leva a algum lugar, as suas os trouxeram até aqui”

Ao longo das leituras, conforme as peças desse quebra-cabeça narrativo vão se encaixando, vamos nos surpreendendo mais e mais. Mas, sendo A ascensão da Dama da Noite apenas o primeiro volume das Crônicas de Aljana, há muito por vir! Algumas pontas ainda ficaram soltas e há muito para acontecer e ser revelado neste mundo (literalmente) fantástico.

“O mundo havia se transformado num lugar imprevisível e perigoso”

Apesar dos três focos narrativos que mencionei no início deste resenha, fica claro (até mesmo pelo título) que o destaque deste primeiro volume é a jornada da Dama da Noite, e, por isso, acompanhamos acontecimentos desde a sua infância até o momento em que ela ascende a altos cargos, antes tão inalcançáveis para ela.

“Muitos vão duvidar de sua capacidade, de seu poder e até de quem você é”

Que jornada surpreendente. Que personagem única. a Dama da Noite é aquela mulher que teve uma infância difícil e solitária e que deu a volta por cima, se recuperou e lutou para se tornar reconhecida. Mas também para se vingar de tudo e todos…

Se você acha que não pode deixar de conhecer todos os mistérios de A ascensão da Dama da Noite, clique aqui.