Uma mentira imperfeita — Beatriz Cortes

Título: Uma mentira imperfeita 
Autora: Beatriz Cortes 
Editora: Bendita Editora 
Páginas: 314 
Ano: 2021

Estava com saudades de ler um clichê e, ao mesmo tempo, uma história capaz de me surpreender. Parece impossível que esses dois elementos possam coexistir? Pois Uma mentira imperfeita está aí para provar que isso é possível sim!

“Como podemos ser nós mesmos em um mundo que insiste em nos dizer quem devemos ser?”

Narrado em primeira pessoa, podemos quase dizer que a história não possui uma, mas duas protagonistas: Marina e Nina.

“A Nina era bem mais divertida do que a Marina, com essas roupas sérias e a agenda regrada. A Nina aproveitava a vida de verdade, ela tinha sonhos…”

Marina está prestes a assumir a empresa de seu pai, falecido antes da hora. É uma responsabilidade enorme, afinal não é uma empresa qualquer. E ela, sempre série e tentando entender suas funções, sendo sempre pressionada e criticada pela madrasta, ainda tem de lidar com as nada simples questões do coração.

“Na minha vida, é tanta tempestade que já estou até sem barco. Naufraguei de vez e, a cada vez que saio com alguém, bebo um pouco mais de água salgada”

Nina, por outro lado, é uma pessoa leve, que consegue equilibrar novas e emocionantes aventuras com as suas obrigações. Como diria Otto, seu melhor amigo, ela pega sem se apegar.

“A Nina é uma baita de uma sortuda!”

A verdade, porém, é que Nina e Marina são a mesma pessoa. Nina é, no fundo, uma versão quase perdida de Marina, resgatada por Otto, que está cansado de vê-la levando a vida tão a sério e deixando de lado a oportunidade de aproveitar um pouco o que há de bom.

“Otto pode ter umas ideias meio doidas, mas acho fofa a forma como ele se preocupa comigo”

É aquela velha história: é só quando deixamos de nos preocupar com certas coisas que elas acontecem. E foi assim que Marina (quer dizer, Nina, porque ela sim é despreocupada) conheceu Zac.

“É engraçado olhar para trás e perceber tudo de bom que eu teria perdido se as coisas tivessem acontecido como eu planejava”

Desde o começo da história fica muito claro para nós, leitores, que Marina não está nada confortável com a ocupação que ocupa e, menos ainda, com a que vai ocupar. E logo vamos entendendo quais são as suas verdadeiras paixões.

“— Pensar no que a gente ama sempre faz bem, Nina. Esse é o segredo”

Mas aos poucos também vamos percebendo outro detalhe: Marina carrega uma culpa. E nós passamos boa parte da leitura tentando entender que culpa é essa, coisa que vai sendo revelada bem aos poucos, na medida certa.

“Estou tremendo. A parede que levei anos construindo dentro de mim para isolar essa história do resto do mundo (e de mim mesma) parece se rasgar como uma folha de papel”

Não foi somente a forma como a autora soube usar esse sentimento para construir um mistério na trama, porém, que me prendeu até a última página. Também fiquei bem intrigada com o desenrolar do nó em que Nina se enfiou.

Mesmo sendo uma grande apaixonada por histórias de amor, chegou um ponto da história que eu não poderia torcer para ela ter o final feliz dela ao lado de Zac. Não da forma como as coisas estavam acontecendo, porque Marina era apenas Nina para ele, mas ela precisava se encontrar entre uma e outra (ou até em ambas, na medida certa. Ou em nenhuma).

“Eu definitivamente não sei quem sou”

Confesso que tive medo da história simplesmente acabar feliz, mas de maneira absurda. Mas se tem uma coisa que posso dizer, sem dar spoilers, é que a história não decepciona. A autora vai conduzindo tudo de forma a nos fazer ler com atenção até o último ponto final, sedentos por todos os desfechos bem pensados e que nos fazem concluir a leitura com um sorriso no rosto e um quentinho no coração.

“Há muito tempo não me sentia assim, livre, desprendida, animada”

Que tal conhecer Marina, Nina e o que mais puder surgir dessa mulher que tem muito a aprender, mas também a ensinar? É só clicar aqui embaixo!

Presentear quem você ama com um livro [tradução 22]

Já que hoje é um dia especial para mim (meu aniversário) e também dia de tradução por aqui, resolvi falar um pouco sobre o hábito de dar livros de presente.

Confesso que, para muitas pessoas, a primeira coisa que penso em comprar quando chega a hora de presentear é, claro, em livros. Mas também me esforço para não dar sempre livros, mesmo sabendo que cada um é único e é um universo.

No final das contas, o artigo escolhido para hoje fala justamente sobre isso: sobre o poder dos livros e como eles são um presente e tanto.

Então te deixo aqui com a tradução de Regalare un libro a chi si ama, escrito por Valeria Sabater, em 15 de novembro de 2021, no site La mente è meravigliosa.


Quando amamos alguém, dar um livro de presente é o melhor que podemos fazer. Se você tem um amigo com quem se importa, escolha um livro especial para ele. Que seja um romance, um ensaio, um manual de autoajuda, um livro de culinária ou uma antologia, cada livro contém um universo de conhecimentos que nos enriquece e, ao mesmo tempo, nos torna mais livres.

O dia 23 de abril é a jornada mundial do livro. Como bem sabemos, este dia é rico em eventos voltados para a leitura, que nos colocam em contato com os nossos escritores preferidos, nos fazendo refletir sobre o trabalho deles e também nos lembrando da importância das bibliotecas.

Um mundo sem livros não seria um mundo. Estaríamos perdidos em um prédio nu, sem portas para o aprendizado, a aventura, a descoberta. Valorizar o mundo dos livros e da leitura é fundamental. Descobrir novos autores e nos abrir para outros gêneros para tomar consciência da imensidão dessa babel é uma experiência magnífica.

Além disso, como dizia Jorge Luis Borges, de todos os instrumentos inventados pelo homem, o mais surpreendente é o livro, porque é uma maravilhosa extensão da nossa imaginação e memória.

Porque presentear com um livro quem amamos

Existem livros mal escritos e livros inesquecíveis. Existem livros para passar o tempo e outros que deixam uma marca. Alguns nos fazem descobrir novas perspectivas, outros nos envolvem em suas tramas policiais e com outros ainda experimentamos arrepios de terror.

Dizem, também, que não existe nada como as primeiras leituras da infância e da adolescência, momentos nos quais alguns títulos mudaram nossas vidas e conseguiram abrir a nossa mente para novas paixões, conhecimentos e hobbies.

Os primeiros contatos com a leitura podem acontecer com Jules Verne ou Arthur Conan Doyle para depois chegar à maturidade, devorando todos os gêneros e autores. Às vezes precisamos dos clássicos como Cechov, voltar à Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou descobrir as últimas novidades de Joël Dicker ou Ian McEwan. Ou seja, o que conta, depois de tudo, é o prazer em mergulhar em um mar de palavras e se deixar levar.

Em Viagem à Inglaterra, um estudante diz ao personagem, que nos filmes é interpretado por Anthony Hopkins, que as pessoas leem para não se sentirem sozinhas. Talvez seja verdade, talvez não, mas os autores desejam despertar o nosso interesse pela leitura: quanto mais lermos, melhor será.

No entanto, os verdadeiros amantes da leitura não fazem das livrarias a sua segunda casa somente pelo prazer em ler. Os livros oferecem a oportunidade de pensar.

A arte de escolher um título para uma pessoa especial

Quando temos uma pessoa de particular estima, o ideal é presentear com um livro. Um livro não é um objeto de uso, não é somente uma capa ou um amontoado de folhas. O conhecimento é inerente ao seu interior. Em cada página existem dezenas de pensamentos e reflexões. Se se trata de uma romance, passaremos um tempo, muitas vezes inesquecível, com os personagens e as suas emoções.

Geralmente, quando presenteamos alguém com um livro, não o fazemos de maneira casual. Muitas vezes, aliás, tendemos a escolher os títulos que nos fascinaram.

Desejamos que a pessoa que receberá o nosso presente experimente aquilo que nós experimentamos com aquela leitura. Não vemos a hora de compartilhar experiências e viajar em direção aos mesmos mundos descritos na trama.

Companheiro, amigo, colega ou filho… Dê um livro de presente!

Existem livros para entender o mundo. Existem livros que nos ensinam, que nos ajudam. Existem aqueles que nos entretêm e também aqueles que nos marcam para sempre. Se você conhece alguém que, como você, sofre de bibliofilia, dê-lhe um livro, um que te tenha fascinado e que você não consegue esquecer.

Se você tem um amigo, um familiar ou um colega que prefere as séries à leitura, não jogue a toalha: presenteie-o com um livro. O importante é escolhê-lo bem. Sondar os seus gostos e surpreendê-lo com um título ao qual não poderá resistir.

Por outro lado, se você tem filhos, sobrinhos, irmãos ou amigos com crianças, não hesite em dar a eles um livro, não importa quantos anos tenham. Você fará um favor a eles, dando-lhes uma chave para viajar, descobrir, ser livres e voar alto.

Quando descobrimos o prazer de ler durante a infância, não existe remédio. É um veneno sem antídoto, mas com um tratamento paliativo: leituras frequentes, e quanto mais, melhor.

Cedo ou tarde, como dizia Thomas Carlyle, descobriremos que os livros são amigos que não nos decepcionam jamais. Tenhamos eles em mente, nos circundemos deles e não paremos mais de dá-los de presente.


E aí, você costuma dar livros de presente? Tem facilidade em escolhê-los?

Citações #46 — Proibida pra mim

Costumo ter em mente que um dos indicadores de que eu amei um livro é a quantidade de trechos dele com os quais me identifico ou que chamam a minha atenção.

Ainda assim, estou totalmente surpresa com o tanto de quotes de Proibida pra mim, da Tayana Alvez, que tenho para trazer aqui. Provavelmente deixarei alguns de fora, porque é realmente muita coisa. Mas não era para menos: o livro é realmente ótimo, além de relativamente extenso.

“E, pela primeira vez em anos, isso lhe traz esperança em vez de a assustar”

Na resenha, comecei destacando Lavínia, a protagonista desta obra. Mesmo assim, muitas coisas ficaram de fora, então aqui vão alguns trechinhos a mais para conhecê-la melhor, ressaltando o fato dela tentar ser fria e forte, mas, ainda assim, não conseguir lutar e acreditar em coisas boas para si.

“É, você tem um pedacinho de coração em algum lugar aí”

“— Quando a Lavínia precisa de alguém, não é porque ela está machucada, é porque ela quebrou, Mandy”

“Eu gostaria que você lutasse mais pelas coisas, minha filha”

Também mencionei como é difícil não se identificar em alguma medida com esse furacão chamado Lavínia.

“Lavínia traz uma cor diferente à sua vida, e o que mais o surpreende é que, antes dela chegar, ele nem tinha percebido o quão preto e branco era”

“Só alguém que guarda todos os pesos do próprio mundo consegue ler outra pessoa na mesma situação com facilidade”

“Cair, agora, seria mais do que o fim de um amor, seria o fim de todas as pontes que ela construiu, de todas as permissões que ela deu a si mesma, e ela não se sente nem um pouco preparada para isso”

“Os primeiros meses do ano sugaram toda a sua energia vital e, agora, ela precisa de calmaria e solidão para recarregar suas baterias”

Como boa apaixonada por romances que sou, não poderia de ter amado esse livro pela boa dose de sentimentos e reflexões sobre o amor que ele carrega.

“Beijar Lavínia era como saltar de paraquedas para um viciado em adrenalina, e ele poderia fazer aquilo por horas”

“Ah, pelo que ele fala as coisas não deram certo; mas pelo que ela fala, eles estudavam juntos, se apaixonaram e viveram um grande amor… Até que acabou”

“Uma mulher muito sábia disse um dia que um amor verdadeiro não precisa ser o único. Que um amor verdadeiro significa amar de coração, amar por inteiro”

O amor resiste a muita coisa, minha filha, mas se tem uma coisa que o amor é incapaz de superar é um ego”

“Amar é uma coisa esquisita. Você não controla nada do que sente nem do que pensa. E, por mais que essa sensação ainda incomode Lavínia, não há mais nada que ela possa fazer agora”

“Se o coração de Daniel estivesse inteiro, ele teria se partido com essas palavras”

“Nada nela é apenas dela agora, e isso é desesperador”

“Amar uma pessoa e não poder estar com ela é pior do que não amar ninguém”

Devo admitir, porém, que o que torna esta obra tão sensacional são os tapas na cara (sutis ou não) que ela nos dá.

“E você está se formando aos vinte e quatro, tendo conhecido doze países. Acho que você está em vantagem, embora a vida não seja uma competição”

Quando você opta por ser um pai ausente durante anos, a sensação é de que você vai estar sempre em falta, o que é, além de uma sensação, uma verdade”

“Quero que sejamos honestos um com o outro, sobre tudo, mesmo sobre o que você não consegue sentir”

“Porque nem todos os amores são eternos”

“— Não é porque a sociedade decide que existem idades para fazer as coisas que essas idades são reais, tá bem?”

“Talvez a gente tenha se apegado à pessoa errada e virado as costas para quem estava gritando por socorro. — E assim você acaba de definir a adolescência”

Mas o melhor de tudo é pegar esses quotes e perceber como alguns que já faziam sentido, podem fazer ainda mais com o tempo.

“Contudo, ainda que o coração dissesse o tempo inteiro que ela precisava se manter firme em suas decisões, quando se escolhe priorizar os desejos daqueles que se ama, sofrer ao ver tudo dar errado é uma das possibilidades mais reais”

E, para encerrar, algo para nunca nos esquecermos:

“Todo mundo está passando pelo próprio processo e enfrentando os próprios preconceitos, não dá para a gente exigir que os outros tenham a nossa mesma maturidade”

Algum trecho despertou sua curiosidade? Então não deixe de ler o livro inteiro e encontrar as suas próprias passagens preferidas.

Laços divergentes — Michele Meneses

Título: Laços divergentes
Autora: Michele Meneses
Editora: Publicação independente
Páginas: 171
Ano: 2021

O quanto você sabe sobre islamismo?

Reconheço que sei muito pouco e, por isso, a capa e a sinopse de Laços divergentes logo despertou minha curiosidade.

“Aquela frase foi o ápice. Podia ser apenas um comentário engraçado para elas, mas não pra mim. Desde quando o Islã se tornou sinônimo de terrorismo?”

A história é narrada por Amtullah, uma jovem que vive no Iraque com sua família, mas que tem o grande sonho de fazer um intercâmbio para o Brasil, mesmo que isso seja um absurdo para seu pai.

“Que tipo de amiga eu seria se quisesse te impedir de realizar um dos seus maiores desejos ao invés de te ajudar?”

Amtullah, no entanto, está decidida em seus desejos e consegue realizar esse grande sonho. E eu estava muito empolgada de ver como essa garota se sairia em nossa terra, principalmente pensando nas tantas diferenças que encontraria por aqui.

“Mais uma das experiências singulares que eu jamais teria vivido se não tivesse persistido no meu grande sonho”

Um pouco depois de Amtullah chegar ao Brasil, porém, a história toma um rumo que eu, confesso, não esperava. E, infelizmente, acabei me decepcionando um pouco com essa reviravolta, porque não encontrei o que esperava e ainda fiquei com um certo pé atrás, uma vez que, devido ao meu desconhecimento, não sei o quanto essa narrativa pode ou não gerar algum tipo de desconforto com relação às fés ali envolvidas.

“As pessoas mudam. Esse não é o lugar à que meu novo eu pertence”

No geral, porém, gostei de realizar esta leitura. Até leria uma continuação, caso existisse.

A escrita é leve, positiva e aborda não apenas a questão do intercâmbio, das diferenças culturais e religiosas, mas também da amizade, da família e da necessidade de buscarmos aquilo que nos torna felizes.

“Saudade, medo, insegurança… Tudo parecia se misturar dentro de mim”

Para católicos ou para quem tem curiosidade sobre a bíblia, também há diversas passagens desta e algumas opções de interpretação, então pode ser uma forma de iniciar este percurso que, certamente, não é dos mais fáceis.

E se você acha que este livro é para você, não deixe de saber mais sobre ele clicando aqui embaixo!

Antologias para quê?

Janeiro foi um mês que acabei falando mais de uma vez sobre antologias, seja resenhando uma, seja trazendo quotes de outra.

A cada vez que leio uma antologia e falo sobre ela, acabo, de alguma forma, destacando o fato de que eu gosto da pluralidade delas, das possibilidades que elas carregam.

Por isso, finalmente resolvi tirar dos rascunhos (mentais, no caso) um texto que há tempos queria escrever, falando sobre os benefícios de uma antologia para todos aqueles envolvidos em uma, de organizadores e escritores até os leitores.

Como leitora, o que mais gosto nas antologias é a oportunidade de, com uma única obra, conhecer diversos autores. Como aconteceu mais de uma vez ano passado, peguei antologias para ler por ter contos de autoras que eu já admirava e, então, conheci outras que passei a admirar também.

Sem contar que, por vezes, a antologia tem um tema em comum, mas traz histórias de gêneros diversos ou o contrário: é de um gênero específico, mas com temas bem variados. O ponto é: dificilmente a gente não se surpreende lendo uma antologia!

Para autores, as antologias também têm os seus benefícios. Ali em cima, comentei como conheci novos autores graças às antologias que li ano passado, o que significa que elas acabam sendo uma boa vitrine para autores, sejam eles conhecidos ou não.

Mais do que isso, porém, como escritora (não que eu seja uma), vejo as antologias como uma oportunidade de exercitar a escrita. Os editais costumam colocar limitações diversas: tema, gênero, limite de palavras/páginas. Pensar em uma boa história que respeite tantos critérios, te garanto, não é nada simples!

Mas e as editoras, onde entram nisso tudo? Por que muitas (principalmente as editoras menores) investem tanto neste tipo de publicação?

Por um lado, a editora, ao organizar uma antologia, tem a oportunidade de mostrar aos autores um pouco do seu trabalho, do seu cuidado (ou não) com os manuscritos recebidos. Além disso, também é uma excelente oportunidade para conhecer alguns talentos que ainda estão escondidos por aí.

Mas há outro ponto que, certamente, torna as antologias tão vantajosas para as pequenas editoras: geralmente os autores acabam pagando para participar delas.

Quando as antologias vão para financiamento coletivo, também acaba sendo mais fácil bater a meta, porque são vários autores interessados nisso e, consequentemente, divulgando a campanha.

Sem contar que, para muitos deles, essa acaba sendo a primeira publicação, então os autores costumam ficar bem empolgados e fazer o possível para o projeto sair do papel.

Infelizmente, porém, é verdade que muitas (principalmente pequenas) editoras acabam fazendo um trabalho não tão bom com relação às antologias, o que acaba contribuindo para o preconceito de muitos leitores (e, às vezes, até mesmo de escritores) com relação a esse tipo de publicação.

Se você der uma procurada aqui pelo Blog, porém, poderá encontrar resenhas de diversas antologias. E a maioria delas eu super recomendo, por sinal.

Além disso, você também pode saber um pouco mais sobre como foi, para mim, a experiência de organizar uma antologia.

Por fim, não deixe de me contar aqui: você costuma ler antologias? O que acha delas?

A mágica da arrumação — Marie Kondo

Título: A mágica da arrumação
Original: Jinsei Ga Tokimeku Katazuke No Maho 
Autora: Marie Kondo 
Editora: Sextante 
Páginas: 160 
Ano: 2015 
Tradução: Marcia Oliveira

Não me peça para explicar meus gostos literários, porque eu realmente não consigo realizar essa proeza. A verdade é que eu dificilmente torço o nariz para um livro, apesar de, claro, ter as minhas preferências.

Tenho muita vontade de ler de um tudo e apesar de amar ficção, também gosto de livros que podem me ensinar algo que eu esteja precisando aprender. Foi por isso que acabei me interessando por A mágica da arrumação.

“Colocar as coisas em ordem significa zerar tudo para poder seguir em frente”

Não sou exatamente uma pessoa desorganizada e acho que nem uma grande acumuladora, mas também há muitos momentos que penso ter mais do que preciso.

Ao iniciar a leitura desta obra, achei o texto um pouco repetitivo e com um tom que parecia que prometeria mais do que entregaria. Foi quase como ver um daqueles vídeos que tem um título chamativo, de algo que você quer muito melhorar em sua vida, mas que, no final das contas, fica só na superfície e o mais aprofundado você só verá se comprar o curso que está sendo anunciado ali.

Ainda assim, prossegui na leitura e confesso que aprendi mais do que esperava, além de sentir que realmente ao menos uma chavinha foi virada em minha cabeça.

A obra é dividida em cinco grandes blocos de capítulos, que, por sua vez, são divididos em capítulos menores, tornando a leitura bem tranquila e rápida (também ajuda o fato do livro não ser muito grande). Os blocos são:

  1. Por que não consigo manter minha casa organizada?
  2. Em primeiro lugar, descarte
  3. Como organizar por categoria
  4. Arrumando suas coisas para ter uma vida sensacional
  5. A mágica da organização transforma a sua vida

Talvez esses títulos tenham deixado mais claro a sensação que eu tive no começo da leitura. Ainda assim, gostei de entender um pouco mais sobre como uma boa arrumação pode funcionar e durar. E achei bem interessante que há uma sequência ideal para se fazer essa arrumação:

“Portanto a melhor sequência é: roupas, livros, papelada, itens variados e, por fim, itens de apego emocional, incluindo presentes e lembranças”

Seguindo essa lógica, fica mais fácil desapegar até daquilo que achamos que não vamos conseguir desapegar.

Aliás, sobre esse tópico, também há trechos que nos fazem refletir sobre o que acumulamos, o que também pode nos ajudar a enxergar o que é essencial manter e o que talvez possa ganhar novos destinos.

“Não devemos celebrar as lembranças, mas sim a pessoa que nos tornamos por causa das experiências que tivemos”

Ao longo da leitura, fiquei pensando que esse é o tipo de livro que daria para fazer um projeto bem legal, unindo o texto a outros recursos, como, por exemplo, vídeos mostrando mais sobre as dobras mencionadas.

Essa pode ser uma boa leitura para quem se sente perdido em meio às próprias coisas ou para quem está buscando formas mais funcionais de ter a casa para o dia a dia. Mas também acho que pode ser uma boa leitura para quem está precisando se reconectar consigo mesmo ou dar uma mudada na vida.

“O princípio básico da organização é exatamente este: defina um lugar específico para cada coisa uma única vez e coloque-a em seu devido lugar assim que terminar de usá-la”

Le regioni italiane

Você é do tipo de pessoa que quando resolve aprender um novo idioma se preocupa somente em compreender a língua e suas estruturas?

Que elas são essenciais, não há dúvidas. Entender como determinado idioma funciona e como você pode manipulá-lo adequadamente é muito importante para uma boa comunicação. Mas não acho que o aprendizado deva se limitar a isso.

Toda língua carrega consigo uma cultura e uma história e aprender sobre elas também faz parte do processo. Sem contar a quantidade de vocabulário que esses temas têm a acrescentar, não é mesmo?

Por isso, depois de muito pensar no que trazer de conteúdo de italiano esse mês, resolvi falar um pouco mais sobre a Itália em si, começando por uma coisa que deveria ser elementar, mas que nem sempre sabemos muito bem:

Como é dividido o território italiano?

Para começo de conversa, precisamos entender que a divisão político-geográfica da Itália é um pouco diferente da nossa, mas não muito. No Brasil nós temos as regiões (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul), divididas em Estados que, por sua vez, são divididos em municípios.

Na Itália também existem regiões (regioni), mas em número bem maior: ao todo, são vinte. As regiões, por sua vez, são divididas em províncias (province) e em cidades (comuni).

Tanto no Brasil quanto na Itália, as regiões agrupam espaços com características (culturais, históricas, monetárias, naturais…) semelhantes, mas as regiões italianas podem ser equiparadas — politicamente falando — aos nossos Estados, uma vez que cada uma delas possui o seu estatuto (que, claro, deve respeitar a constituição nacional). Quem comanda uma região recebe o título de presidente della giunta regionale.

Além disso, a Itália possui cinco regiões de estatuto especial — regioni a statuto speciale — que possuem uma autonomia a mais — sobre suas características históricas e culturais — em relação às demais.

Le province, por sua vez, são um ente intermediário entre as regiões e as cidades, porém, é difícil estabelecer um paralelo com a divisão brasileira. Uma província é a união de algumas cidades limítrofes, incluindo entre elas a “capital” (já falo sobre elas) daquela região. As províncias possuem um chefe, que é o sindaco della Provincia (uma espécie de prefeito da província).

Por fim, chegamos aos comuni, que seriam os nossos municípios. Cada comune tem o seu sindaco (prefeito).

I capoluoghi

Como mencionei acima, cada região possui uma capital, que nada mais é do que a sua cidade principal (maior, mais rica, centro mais importante…). A palavra usada nesses casos é capoluogo (singular) ou capoluoghi (plural). Se temos 20 regiões, temos também 20 capoluoghi.

Um capoluogo funciona mais ou menos como as capitais dos nossos Estados e, uma vez mais, é por isso que costumo enxergar as regiões italianas mais próximas deles que das nossas regiões propriamente ditas.

Mas afinal, quais são as regiões italianas?

Chegou o momento de conhecer o nome de cada uma das regiões italianas, bem como seus respectivos capoluoghi. As regiões com asterisco são as de estatuto especial, que mencionei anteriormente:

Italia Settentrionale (Nord)

  • * Valle d’Aosta – Aosta
  • Piemonte – Torino
  • Liguria – Genova
  • Lombardia – Milano
  • Emilia Romagna – Bologna
  • Veneto – Venezia
  • * Trentino-Alto Adige – Trento
  • * Friuli-Venezia Giulia – Trieste

Italia Centrale

  • Toscana – Firenze
  • Marche – Ancona
  • Lazio – Roma
  • Umbria – Perugia

Italia Meridionale (Sud)

  • Abruzzo – L’Aquila
  • Molise – Campobasso
  • Puglia – Bari
  • Campania – Napoli
  • Basilicata – Potenza
  • Calabria – Catanzaro

Italia Insulare (isole)

  • * Sicilia – Palermo
  • * Sardegna – Cagliari

Por que saber tudo isso?

Existem muitos motivos pelos quais essas informações todas podem ser interessantes para você que tem curiosidade ou estuda a língua italiana.

Em primeiro lugar, saber quais são as regiões e qual é a cidade principal de cada uma delas pode te ajudar a organizar a sua viagem, caso o seu interesse seja meramente turístico.

Para além do interesse turístico, porém, ter um mínimo conhecimento geográfico pode te ajudar a evitar uma brutta figura (ou seja, evitar passar vergonha). E se você tem (ou pensa em tirar) cidadania italiana, então, nem se fala! (Ok, eu sei que tem muito brasileiro que não sabe os nomes e capitais de todos os Estados daqui, mas na Itália eles pegam um pouco mais no pé com relação a isso).

Mas conhecer a divisão político-geográfica de um país também pode ser útil para quem pensa em morar por lá. Cada ente (regione, provincia, comune) possui as suas obrigações e oferece os seus serviços, então isso ajuda a saber em que tipo de lugar você tem de ir para fazer cada um dos documentos que precisará (sim, burocracia existe em todo lugar).

Agora me conta aqui: o que você aprendeu com esse post?

Citações #45 — O baú do Zumbi Gelado

Por mais que eu goste de um conto, é difícil sobrarem trechos dele que eu achei interessante e destaquei ao longo da leitura, mas que não usei na resenha. Isso ocorre, principalmente, devido à curta extensão deles.

No entanto, após a resenha de O baú do Zumbi Gelado, escrito por Rafael Weschenfelder, ainda fiquei com alguns quotes que gostaria de trazer para vocês e fico feliz em ter mais uma oportunidade de falar sobre esta obra sensacional!

“Sabe quando você está falando e a palavra certa foge?”

Na resenha eu comento sobre o quanto esse conto surpreende, ainda que haja elementos que — espero eu — podem se tornar marca registrada do autor.

“— Não estou jogando enquanto espero ele acordar. Estou jogando para ele acordar”

É o que acontece, por exemplo, com a naturalidade de Rafael em criar histórias que incluem conhecimentos interessantes, mesmo quando se referem a coisas um pouco mais técnicas, como já comentado na resenha.

“Um dos grandes charmes de Zumbizeira é a inteligência artificial dos NPCs. Com respostas infinitamente mais sofisticadas — e hilárias — que as da Siri da Apple e da Alexa da Amazon, conversar com eles se transformou numa espécie de passatempo para os jogadores”

Ou então com a facilidade que ele tem para criar um humor gostoso de ler.

“Se recuperou o senso de humor, está curada”

Além, claro, do fato dele inserir discussões importantes em suas histórias aparentemente despretensiosas.

“— O mundo te deu as costas. Nada mais justo que dar as costas para o mundo”

Outra característica que adoro encontrar nas histórias que leio e que apareceram muito bem inseridas em O baú do zumbi gelado são elementos do cotidiano, da cultura na qual estou inserida, da realidade em que vivo.

“Nos filmes de terror, sempre tem um cara que não acredita em fantasmas: o cientificozão, que faz piada com o sobrenatural e finge ter sido possuído quando o grupo resolve usar um tabuleiro Ouija para se comunicar com o além. Geralmente é o primeiro a morrer”

Depois de tudo isso, claro que é difícil não querer indicar a leitura de O baú do Zumbi Gelado para todo mundo, né? Então, de novo, se você ainda não leu, fica aqui o meu convite para que você conheça essa história.

“Nos encaramos por um instante. Um equilíbrio prestes a se romper”

Não precisamos dele — Taynara Melo

Título: Não precisamos dele
Autora: Taynara Melo
Editora: Publicação independente
Páginas: 114
Ano: 2021

Não precisamos dele é um livro narrado por duas personagens femininas que estão se (re)descobrindo, (re)erguendo e aprendendo a viver em suas próprias companhias.

“Precisei perder você para me encontrar. Precisei relembrar todas as suas falas para me amar. Precisei criar coragem para avançar”

De um lado temos Miranda Karpi, uma jovem que, no início do livro, nos revela não ter concluído seus estudos e que, por isso, vive às custas do namorado.

Quer dizer: vivia.

Ao anunciar uma gravidez não planejada, tudo vai por água abaixo e, sozinha, Miranda precisa encontrar um rumo na vida para dar ao bebê que está por vir tudo o que for necessário.

“A mulher é capaz de transformar uma casa em um lar, independentemente se esse lar é composto por um homem ou não”

De outro lado, temos Anna Veloso, casada, médica ginecologista, mãe de um garotinho de 6 anos. Uma vida que poderia ser perfeita, não fosse o casamento, que vai de mal a pior.

“— Às vezes, precisamos levar várias porradas da vida para compreender uma coisa simples como essa”

Muito mais que o fato de serem mulheres que precisam se reencontrar, essas duas personagens, mesmo tão diferentes, têm muito em comum. E, claro, suas vidas acabam se cruzando.

“Foi preciso uma amante aparecer na minha porta para abrir meus olhos e eu criar coragem para recomeçar”

A leitura de Não precisamos dele é rápida e cheia de temas importantes e reflexões necessárias. Uma obra que fala sobre amor próprio, feminismo, empoderamento, amizade, traição, paternidade e até mesmo violência doméstica e suicídio.

“Se eu não me respeitar, então quem vai?”

Trata-se de um livro necessário, retratando mulheres que eu só não direi que são reais porque elas possuem uma maturidade que talvez a maioria de nós ainda precisa trabalhar muito para alcançar. Mas ler Não precisamos dele pode ser uma forma de nos fazer entender isso.

“A inteligência emocional é resultado de muito treino, assim como qualquer outra competência”

Se você acha que este livro é para você ou se ainda tem dúvidas disso, não deixe de saber mais sobre ele clicando aí embaixo!

Ler e reler: uma teoria sobre a leitura [tradução 21]

Você tem o hábito de reler livros?

Eu não tenho (o que não significa que eu nunca releia livros, ok?), e provavelmente já falei isso aqui outras vezes. Sou daquelas pessoas que acha que a vida é muito curta para ler tudo o que queremos, então não dá para ficar relendo livros, por melhor que eles sejam.

Deparei-me, porém, com um texto muito interessante sobre o ato de ler e reler e achei que seria interessante trazê-lo aqui e saber o que você pensa sobre isso.

Você me acompanha nessa? O texto original foi postado no Il libraio, em 27 de dezembro de 2020 e aqui embaixo você encontra a minha tradução.


Por que precisamos ler? E por que, às vezes, desejamos reler um livro que gostamos? E se nós gostamos, podemos dizer que aquela obra é “objetivamente” um texto de valor? Partindo das teorias da recepção, um aprofundamento sobre a experiência da leitura, sobre o papel do leitor e sobre a nossa capacidade de compreender de verdade aquilo que lemos.

Por que temos necessidade de ler? De onde nasce essa exigência?

São diversas as razões pelas quais nos aproximamos de um texto, mas se refletirmos um pouco, podemos detectar dois motivos principais: a necessidade de conhecer informações e a busca pelo prazer estético.

Reduzidas ao máximo, as duas motivações que nos conduzem à leitura são, portanto, opostas: de um lado somos movidos pelo útil; de outro, pelo agradável.

De qualquer forma, seja qual for o motor, a leitura é uma atividade que requer um gasto de tempo e de energia e, por isso, cada leitor, quando se aproxima de um livro, espera ser recompensado pelo manzoniano cansaço de ler.

Trata-se, no entanto, para usar as palavras do crítico Vittorio Spinazzola, “em um confronto entre custo e benefício: quanto me custou a leitura daquele texto, a respeito do empenho que tive de empregar para me apropriar dele? Se se trata de uma leitura literária, a pergunta é: que riqueza e intensidade de prazer da imaginação eu alcancei?”.

O papel do leitor

Desde quando começaram a circular as teorias sobre a leitura e sobre a recepção, no mundo literário, o leitor assumiu um papel central, quase mais que o escritor e o editor: sem ele, a obra literária em si não existe, se é verdade que esta última é uma pião que ganha vida quando está em movimento, ou seja, quando alguém a lê.

Em Que é a literatura? (1947) o filósofo existencialista Jean Paul Sartre defende que sem leitores não há literatura: na prática, um livro, se não é lido por ninguém, é só um objeto material sem significado. Um amontoado de folhas cheias de palavras e tinta, sem valor algum. Existe, portanto, um vínculo fortíssimo entre quem lê e quem escreve, inclusive porque sempre se escreve para ser lido (até por si mesmo, visto que todo escritor é, antes de nada nada, leitor).

O valor de uma obra

Depois da revolução do romance, ler se transformou em um fenômeno extremamente pessoal e individual. Um gesto mudo, solitário, íntimo. Cada leitor, quando entra em contato com um texto, carrega consigo uma bagagem de conhecimentos, o seu percurso literário, um gosto pessoal e a sua própria sensibilidade. Pode-se dizer, portanto, que cada um formula juízos diferentes dos outros e que cada um desses juízos têm a sua razão de ser.

Mas então não existe objetividade na avaliação de um texto?

Não exatamente. Porque se é verdade que o juízo estético muda de pessoa para pessoa, também é verdade que o valor de uma obra literária pode ser estabelecido somente por leitores conscientes, espertos, estudiosos e literários. E não por leitores de puro prazer, para deixar claro.

Um exemplo? Eu posso dizer que subjetivamente eu não gosto de Os noivos, mas objetivamente não posso deixar de reconhecer seu valor literário. É preciso, portanto, distinguir (pelo menos no plano teórico) entre leitura de gosto e leitura de competência, mesmo que, como nos lembra Spinazzola, seja quase impossível separá-los no plano prático: “do texto provém um apelo total, que investe a globalidade das nossas atitudes: competência e gosto são duas dimensões de atividade que se reforçam reciprocamente, na concretude do ler”.

As duas leituras estão, portanto, estritamente ligadas: quanto mais me torno competente, mais meu gosto se afina. Por outro lado, o meu desejo de ser educado é feito da minha atitude, do quanto gosto ou não de ler.

Ler e reler

Vocês já se perguntaram por que releem um livro? A resposta certa, como geralmente acontece, é aquela mais imediata: relemos um livro porque gostamos dele. Porque os nossos esforços de leitura foram bem recompensados e, portanto estamos dispostos a renovar aquela experiência.

O ato de reler possui, porém, uma natureza mais profunda e consciente, e pode decretar efetivamente o valor de um texto. De um lado porque resolver voltar a um livro significa que aquele livro conseguiu satisfazer as nossas necessidades e as nossas expectativas; de outro, porque a segunda leitura será mais diligente e crítica que a primeira, na qual não podíamos estar particularmente atentos, porque estávamos nos movendo principalmente pela curiosidade (o literário Karlheinz Stierle a considera, com efeito, uma “não leitura”).

Ler uma segunda vez é, portanto, uma ação mais literária e formal: é dirigida a uma recolha das técnicas e das complexidades de uma obra, a decifrar os significados profundos, a não se deixar levar exclusivamente pelos eventos da trama. Não para exclusivamente no conteúdo e, por isso, pode compreender verdadeiramente a essência e o valor do escrito.

É sempre Spinazzola quem escreve: “segundo Gramsci o povo lê ‘conteudicamente’, procurando no apêndice melodramático uma consolação para os seus problemas e uma revanche imaginada das injustiças que sofre. Só o leitor educado literariamente educado sabe evitar as armadilhas de sonhar de olhos abertos”.

Ler com consciência

Pode-se, portanto, deduzir que ler é uma prática subjetiva que, como dissemos no início, deve satisfazer necessidades ou prazeres pessoais; reler, por outro lado, é uma ação orientada em um sentido mais objetivo, porque visa a um aprofundamento de alguns aspectos do texto — o estilo da prosa, a voz do autor, o papel e o significado social da ópera — que antes haviam passado em segundo plano.

Claro, não significa que a releitura seja sempre uma vitória, aliás, é possível que um livro que você tenha gostado uma vez possa não te agradar em uma releitura. Ao contrário, um livro que não havia agradado no passado pode nos surpreender positivamente e desmentir o juízo que havíamos feito anteriormente.

O que é certo é que para de tornar um leitor consciente é preciso ler e reler: só tendo múltiplos termos de comparação se poderá alcançar os instrumentos necessários para decifrar o valor do texto que temos diante dos olhos. E só assim poderemos finalmente nos aproximar da leitura de modo total e completo.