A vida pelos olhos da guarda real (antologia)

Título: A vida pelos olhos da guarda real
Autor: vários autores
Organização: Naylane Sartor
Editora: Essência Literária
Páginas: 172
Ano: 2020

Quantos de nós, brasileiros, já paramos, alguma vez em nossas vidas, para pensar como seria a vida de um guarda real? Ok, eles são seres humanos como qualquer outro, mas possuem um trabalho extremamente rígido. Será que dá para ser realmente normal com uma rotina dessas?

“Coloquei minha farda acima dos meus sentimentos e me tornei um dos melhores no meu ramo, mas a que preço?”

(Sob a proteção do guarda real — Nathany Teixeira)

A proposta desta antologia é justamente isso: nos fazer embarcar nesse universo e imaginar o que ocorre antes, durante e depois do serviço de um guarda real. E, veja bem, não há guardas reais apenas na Inglaterra não!

Aliás, isso é algo muito interessante deste livro: o tanto que ele tem a nos ensinar. Mesmo para as autoras, foi um desafio escrever as histórias (elas mesmas comentaram isso nesta live) e elas se dedicaram a buscar informações para trazer elementos concretos, que foram muito bem mesclados às narrativas que cada uma criou.

Ao todo, nos deparamos com cinco histórias e, apesar da temática em comum, cada uma delas tem o seu toque especial. O primeiro conto, por exemplo, chama-se “Quebrando regras” e foi escrito pela autora Denilia Carneiro. Só pelo título já dá para imaginar que lá vem confusão pela frente, né?

Trata-se da história de uma irmã da mais nova princesa britânica e, através desta jovem, percebemos como nem todos têm interesse em fazer parte de toda a grandiosidade que a realeza representa.

“Eu gosto de liberdade e ser princesa, de certa forma, te deixa presa”

(Quebrando regras — Denilia Carneiro)

O segundo conto, por sua vez, traz um título que atiça a curiosidade de qualquer um. Trata-se de “O guarda solitário“, escrito por Maya Brito.

A história começa com aquele clichê de uma pessoa (no caso, Theo Truman, um guarda real) que tem o coração fechado e que resiste a se entregar ao amor, mas que, na possibilidade de perder a pessoa que, no final das contas, ama, acaba tomando uma decisão.

“E quando ela saiu do meu quarto e da minha vida, eu me tornei o hipócrita que disse não ser”

(O guarda solitário — Maya Brito)

Esse conto é lindo, como tudo o que a Maya Brito escreve (você pode ler a minha resenha de “A melodia da alma” que está virando livro!).

O terceiro conto, isto é, o conto central da antologia, nos transporta para outra realidade: o convento de Mafra, em Portugal. O título deste é “Certo ou errado” e foi escrito por Mila Paziol. Uma história de amor muito bonita, com uma linda lição de vida.

Em seguida, somos apresentados a Oliver Jones em “Sob a proteção do guarda real“, da Nathany Teixeira. Uma história de vidas que se cruzam de maneiras inesperadas, nos fazendo refletir sobre nossas escolhas e sobre as pessoas que nos influenciam.

“Não pode permitir que alguém escolha qual sonho você deve sonhar”

(Sob a proteção do guarda real — Nathany Teixeira)

Por fim, vem o conto da Naylane Sartor, “Jasper, o corgi cupido“, um conto que consegue dar voz até mesmo a um cachorro! Dei boa risadas com essa história.

A leitura dos contos é leve e rápida, ainda que, em alguns contos, houvesse tantos erros de português que a fluidez da leitura tenha sofrido um pouco. Não costumo comentar sobre isso em minhas resenhas, principalmente de obras nacionais, pois sei o quão difícil é entregar uma obra impecável e que isso, muitas vezes, não depende apenas do revisor, mas, infelizmente, neste caso realmente atrapalhou um pouco a minha experiência de leitura que, se não fosse por isso, teria sido maravilhosa, pois achei a proposta desta antologia realmente muito diferente do que estou acostumada a ver.

Se você quer conhecer este trabalho, clique aqui.

Artigos definidos em italiano

Artigos são algo muito básico da língua. Em português, temos quatro artigos definidos: “a”, “as”, “o” e “os”. Fácil, não é? Em italiano, porém, as coisas são um pouco mais complicadas que isto. Ao menos à primeira vista.

Antes de chegar aos artigos, porém, precisamos ter em mente duas coisas: o gênero das palavras (feminino ou masculino) e o número (singular ou plural). Sei que existem muitas discussões de gênero hoje em dia, mas aqui não entraremos nesse mérito, tudo bem? Atualmente, o português e o italiano são línguas que não admitem o gênero neutro (ainda que seja possível escrever um texto sem usar palavras que determinem o gênero do escritor ou leitor, mas isso também é outra discussão que não cabe aqui).

Palavras femininas e masculinas

Na maioria dos casos, palavras que terminam com a vogal “a” são femininas, enquanto as que terminam com vogal “o” são masculinas. Há exceções, como há no português: “il problema” (o problema) ou “la moto” (a moto). Há, ainda, palavras que terminam com vogal “e” e essas podem ser femininas ou masculinas, vai depender da palavra mesmo, como “la madre” (a mãe) e “il padre” (o pai).

Entender o gênero das palavras, em italiano, é relativamente tranquilo. A terminação em “e” é a mais complicada de reconhecermos logo de cara, mas logo torna-se natural. O problema maior, talvez, seja o número. De maneira bem diferente do português, o plural, na língua italiana, não é marcado pelo acréscimo da letra “s” ao final da palavra.

Singular e plural

Palavras que terminam em “a”, no plural italiano, terminarão em “e”. As que terminam em “o”, passarão a terminar em “i”. E as que terminam em “e” (no singular, não importando se são femininas ou masculinas) terminarão em “i” também. Confuso? Vejamos:

  • Casa (casa) – case (casas) / acqua (água) – acque (águas)
  • Sguardo (olhar) – sguardi (olhares) / occhio (olho) – occhi (olhos)
  • Madre (mãe) – madri (mães) / voce (voz) – voci (vozes)
  • Padre (pai) – padri (pais) / amore (amor) – amori (amores)

Agora que já vimos o feminino e o masculinos, o singular e o plural, podemos compreender melhor os artigos definidos do italiano. Como eu disse no começo, em português temos apenas quatro. Em italiano, por outro lado, temos oito!

Articoli determinativi femminili

Os artigos definidos femininos, no italiano, são três:

  • Para as palavras femininas e singulares que começam com consoante, usamos la: la casa.
  • Se a palavra, ainda no singular, começa com vogal, porém, usamos l’: l’acqua.
  • No plural, contudo, temos apenas uma forma, que é o le: le case, le acque.

Articoli determinativi maschili

Os artigos definidos masculinos, por outro lados, são cinco:

  • Igual ao feminino, para palavras que começam com vogal, no singular, usamos l’: l’occhio.
  • Palavras que começam com s impura (s + outra consoante), ps, pn, gn, z, letras estrangeiras (como j, x e y), no singular, são precedidas pelo artigo lo: lo sguardo, lo psicologo, lo zio.
  • Palavras que começam com consoante e que não se encaixam nos casos acima, no singular, usam o artigo il: il padre.
  • No plural, palavras que começam com consoante (e que, no singular, usam “il”) passam a ser precedidas por i: i padri.
  • Os outros dois casos, isto é, palavras que começam com vogais ou os casos especiais (s impura, ps, pn, gn, z e letras estrangeiras), no plural, pedem o artigo gli: gli occhi, gli sguardi, gli psicologi, gli zii.

Resumindo

Muito complicadas essas regrinhas? Num primeiro momento, acredito que sim, mas os italianos usam muito mais os artigos do que nós, falantes de português, então a gente logo se acostuma a usar também e, aos poucos, passamos a usar sem grandes dificuldades. Mas, para não esquecer, gli articoli determinativi italiani são:

  • La – le (feminino, palavras que começam com consoante)
  • L’ – le (feminino, palavras que começam com vogal)
  • Il – i (masculino, palavras que começam com consoante)
  • L’ – gli (masculino, palavras que começam com vogal)
  • Lo – gli (masculino, palavras que começam com s + consoante, pn, ps, z, gn, letras estrangeiras)

Fevereiro é mês de festa!

Já começo esse texto fazendo uma confissão: não sou fã de carnaval. Adoro o feriado (apesar de não saber mais o que é feriado), mas não gosto nem um pouco da bagunça, das aglomerações, do barulho e dos excessos. Esse ano, ao menos, as aglomerações não existirão (ou não deveriam existir). Mas também não haverá o feriado. Ou haverá? Já nem sei mais!

De qualquer forma, quando digo que fevereiro é mês de festa, não estou me referindo ao carnaval (não para mim), mas a outras duas comemorações: meu aniversário (que já passou) e o que importa aqui, o aniversário deste blog!

Foi exatamente em 12 de fevereiro de 2018 que retomei esse universo, como vocês podem ler, com mais detalhes, na aba sobre. Hoje, portanto, completo exatos 3 anos por aqui. E vou confessar a vocês: parece muito mais!

Nos últimos três anos, escrevi quase que continuamente para este espaço. Comecei com apenas uma postagem por semana, mas logo fui aumentando o ritmo e há um bom tempo venho tentando manter três textos semanais (sendo que, quase sempre, ao menos um deles é uma resenha). E ainda ouso dizer que não sou escritora. Haja coisa para escrever!

Neste período, também, muita coisa mudou, claro. Eu mesma, estou sempre mudando. Mas estou muito feliz com os frutos que este espaço me traz, com tanto carinho que recebo vindo das pessoas que me acompanham aqui. E acho que não importa quanto tempo passe, eu sempre vou me surpreender com algum comentário relativo ao blog. Principalmente de pessoas conhecidas e/ou daquelas que silenciosamente acompanham tudo (ou quase tudo) que posto por aqui.

Meu antigo blog sobreviveu a pouco mais que esses três anos. Espero que este, por sua vez, exista por muito mais tempo. Ainda estou cheia de ideias de coisas que quero compartilhar com vocês.

Mas também gostaria de pedir um favorzinho a você que está lendo este texto: o que você gosta de ver por aqui? Você gosta das resenhas? De quotes literários? Das traduções? Ou textos sobre músicas? Gosta do material de italiano que estou começando a trazer? Ou prefere meu texto mais livres? Gosta de ver TAG’s? Indicações? Conhecer o universo literário? Enfim, me conte um pouco nos comentários, vamos trocar ideais!

Ah, e claro, por último, mas não menos importante: muito obrigada por estar aqui! Muito obrigada por me animar a seguir em frente com esse querido projeto! Palavras não são suficientes para dizer o que sinto, mas o mínimo que posso dizer é o meu mais sincero obrigada.

O casamento — Tayana Alvez

Título: O casamento
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 336
Ano: 2020

Como a própria Tayana nos revela, O casamento era para ser apenas um conto que nos mostrasse o que vem depois do “felizes para sempre”, mas, felizmente, ele virou uma história bem maior e intensa.

“Foi completamente inevitável amá-la com todo o meu coração”

Ao longos das páginas deste livro não são poucos os sentimentos que vêm à tona. E não é à toa, portanto, que uma das coisas que mais fica evidente nesta narrativa é importância da terapia.

“O amor é superar as adversidades, suportar o outro, engolir o próprio orgulho e despir a alma. Amar é estar vulnerável”

Uma vez mais nos encontramos com Júlia, Robert, Annabelle e Alice. Agora, porém, eles estão começando a construir uma família. E, outra diferença com relação a O irlandês é que, neste volume, os capítulos se alternam entre Júlia e Robert, e alguns trechos inclusive retomam passagens do primeiro livro, conectando ainda mais as histórias.

“E talvez o amor seja isso, duas pessoas com problemas e imperfeitas que lutam para fazer dar certo diariamente”

Outra coisa que achei muito interessante é que este livro se passa na pandemia! Sim, na pandemia que ainda estamos vivendo. Ou seja, pela primeira vez vi, em uma história, os personagens em quarentena, usando máscaras e álcool gel ao sair… Foi uma experiência bem diferente. E lembrando que a história se passa na Irlanda, então tive um gostinho de como as coisas se desenrolaram por lá no ano passado.

“Não é o melhor dos mundos conviver constantemente com uma ameaça”

O que me encanta e me surpreende nas histórias da Tayana é como ela consegue nos entregar um relacionamento tão real e tão encantador. E claro que, neste livro, não seria diferente: Robert e Júlia têm ainda muitas marcas da vida que precisam superar. Mas quem não tem? Que casal é 100% do tempo totalmente seguro de si?

“O amor não é sobre merecer, é sobre encontrar alguém, entre bilhões de pessoas no mundo, que te aceite com os seus defeitos e com quem você, apesar dos defeitos dela, queira viver a vida inteira ao seu lado. O amor é muito mais sobre ser grato pelo encontro de duas almas do que um atestado de merecimento”

Esse discurso sobre merecimento pega lá no fundo, né? Quem nunca sentiu que “não era suficiente” para alguém que ama/amava? E isso aparece em diversos momentos da história, tanto por parte de Júlia quanto de Robert.

“Mulheres negras têm sorte quando o namorado as apresenta para os amigos e anda de mãos dadas com elas na rua”

Mas O casamento vem para nos lembrar que nenhum casal é perfeito, porém que a harmonia pode existir se houver, em primeiro lugar, diálogo (e amor e respeito, claro, mas isso esse casal já demonstra desde o primeiro volume).

“Rob e eu tínhamos um diálogo super aberto, até não termos mais. Não me isento de culpa porque eu também me calei por muito tempo, mas a diferença é que eu cedi e ele não”

Eu sempre digo isso em minhas resenhas das obras da Tayana Alvez, mas vou dizer novamente: vale a pena conhecer cada uma delas. Para além de um romance envolvente, a autora sempre tem algo novo a acrescentar às nossas reflexões, além de uma visão que poucos encontramos por aí: a de uma mulher negra que sabe o que é ser brasileira e que também sabe o que é viver em outro país.

“Apesar de tudo, nem nos meus sonhos mais esperançosos imaginei que Robert estaria aqui por mim e pelas minhas cicatrizes e não por ele”

Se você se interessou por O casamento, não deixe de clicar aqui e saber mais sobre esse livro maravilhoso.

Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar — Adrielli Almeida

Título: Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar
Autora: Adrielli Almeida
Editora: Publicação independente
Páginas: 31
Ano: 2020

Costuma-se brincar que melhor amigo de verdade é aquele que estará ao nosso lado mesmo se matarmos alguém. E que ainda vai nos ajudar a enterrar o corpo! Adrielli Almeida, jogando com isso, criou uma história que inclui fatores, digamos, sobrenaturais, uma vez que o protagonista Kaio realmente tem de lidar, por diversas vezes, com mortos.

“Kaio era o que as pessoas podiam chamar de ceifador…”

Geralmente, porém, Kaio tem de lidar apenas com fantasmas, não com os corpos em si. Tanto é que, o fato de ser um ceifador, é segredo até mesmo para Cedrico, seu melhor amigo. Mas, em uma noite, tudo muda e amizade desses dois jovens é colocada à prova.

Abordando de maneira bem sútil a questão do suicídio, Adrielli Almeida insere na história uma celebridade, Otávio Augusto, que precisa de uma ajudinha de Kaio para, finalmente, descansar em paz. Kaio, por sua vez, precisará de um favorzinho de Cedrico para se livrar do fantasma de Otávio Augusto.

A história é narrada em terceira pessoa, nos fazendo sentir quase como um quarto elemento desse grupo bem peculiar, que tem muitos outros segredos a nos revelar.

Apesar de parecer uma leitura extremamente macabra, Eu, meu melhor amigo e o cadáver que acabamos de enterrar é uma narrativa engraçada e, por ser um conto, bem rapidinha de ler. Uma leitura para te fazer pensar sem que você perceba.

Ficou com vontade de ler também? Então clica aqui e conheça Kaio, Cedrico e Otávio.

Livros tradicionais e audiolivros [tradução 11]

Hoje é dia de traduzir mais um artigo italiano e a escolha da vez foi Livros tradicionais e audiolivros: segundo a ciência, são (quase) iguais. O artigo original foi postado no site Focus, em 4 de setembro de 2019, por Chiara Guzzonato.

Para variar, encontrei esse artigo enquanto preparava aula, e o título chamou a minha atenção porque sou uma pessoa que não se imagina ouvindo um audiolivro. Nada contra a tecnologia em si, mas vejo como coisas diferentes. Não sou uma pessoa de ver muito filme ou vídeos, porque gosto bastante do silêncio e a leitura me permite isso. Também sinto que absorvo melhor lendo e isso é algo que varia muito de pessoa para pessoa, cada um aprende melhor de uma forma.

Vamos à tradução?


Ler e ouvir colocariam em atividade as mesmas regiões do cérebro, fazendo-as trabalhar da mesma forma. Alguns especialistas, porém, ressaltam as diferenças entre as duas modalidades.

Livros: melhor lê-los ou… escutá-los? Segundo um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia e publicado no Jornal de Neurociência, em níveis práticos, não faz diferença. “As informações semânticas são elaboradas de maneira similar”, explica Fatma Deniz, pesquisadora em neurociência e chefe do estúdio. “Sabíamos que quando lemos ou escutamos uma palavra algumas regiões do nosso cérebro se ativam de maneira análoga, mas não esperávamos que as duas modalidades estimulassem as mesmas áreas emocionais e cognitivas”, destaca um pouco surpresa.

Mapas cerebrais (quase) idênticos

O estudo envolveu nove voluntários que primeiro escutaram uma história transmitida pela BBC e, depois, leram a transcrição.

A atividade cerebral era praticamente igual em ambos os casos: as palavras, de acordo com seu significado, ativavam diversas regiões do cérebro. “O mapa semântico que surgiu (ou seja, a representação gráfica das áreas do cérebro que se ativam quando escutamos uma palavra, ndr) nos permitiu prever com precisão quais partes do cérebro seriam estimuladas pelas várias palavras”, explica a doutora Deniz.

Culturalmente superior

Nem sempre, porém, a ciência está alinhada com as percepções que nós, meros mortais, temos. Conforme uma pesquisa de 2016, conduzida pela YouGov, de fato, só 10% dos britânicos considera que escutar um livro seja equivalente a lê-lo: a maior parte está convencida, ao contrário, que a leitura é culturalmente superior à escuta. Opiniões fundamentadas ou não? Para alguns especialistas, ainda que não se possa falar em “superioridade cultural”, igualar a leitura à escuta não é correto.

“Realmente faz rir!”. Como você leu essa exclamação? Como um sincero elogio ou uma irônica brincadeira? Se você tivesse escutado essa frase, não teria dúvida sobre o seu significado, como nos faz notar Daniel Willingham, professor de psicologia da Universidade de Virgínia e jornalista do New York Times, uma das principais diferenças entre o falado e o escrito é a prosódia. “No texto, falta o tom, o tempo, o ritmo do discurso falado”, explica Willingham em um artigo dedicado ao tema.

Problemas de compreensão

Em uma pesquisa de 2010, foi colocada à prova a capacidade de compreensão de alguns estudantes: uma parte deles escutou uma gravação de 22 minutos; a outra leu a transcrição. Ainda que os dois grupos tivessem usado o mesmo tempo para assimilar o texto nas duas modalidades, 41% dos ouvintes não passou no teste de compreensão feito dois dias depois, contra apenas 19% de “reprovados” entre os leitores.

“O grupo de ouvintes foi pior que aquele de leitores, de longe, não ligeiramente”, ressalta David Daniel, professor de psicologia na Universidade James Madison (Virginia, USA) e coautor da pesquisa. Os estudantes que ouviram a gravação sabiam que não tinham aprendido muito: “antes de começar o experimento, poucos queriam fazer parte do grupo de leitores”, afirma Daniel. “Mas depois de ouvir o podcast, antes do teste de compreensão, quase todos tinham mudado de ideia: se pudessem voltar atrás, teriam escolhido o grupo de leitura”.

Afinal, melhor ler ou ouvir? A resposta é: depende. Se você tivesse que estudar um livro (ou seja, entendê-lo e assimilar o seu conteúdo), talvez fosse melhor seguir fiel ao papel (ou ao e-reader). Se, por outro lado, é apenas lazer, sinal verde para os audiolivros: “eu escuto vários, inclusive enquanto estou no carro e dirigindo”, declara Willingham. “Mas jamais escutarei algo de importante para o meu trabalho. Quando estou concentrado, diminuo o ritmo, releio as partes mais difíceis. Tudo coisas muito mais fáceis de se fazer em se tratando de voltar uma página”.


Agora me conta aqui: qual é a sua opinião sobre o tema? Já ouviu algum audiolivro? Gostou da experiência? Notou alguma diferença com relação à leitura?

O irlandês — Tayana Alvez

Título: O irlandês
Autora: Tayana Alvez
Editora: Publicação independente
Páginas: 294
Ano: 2020

Uma vez mais, Tayana Alvez nos presenteia com uma obra que traz como protagonista uma mulher negra. E dessa vez ela vai ainda mais além, colocando em sua história muitos elementos sobre ser uma intercambista na Irlanda.

A ambientação irlandesa, assim como os detalhes, incluindo os perrengues do intercâmbio, são muito bem escritos, pois Tayana viveu tudo isso na pele. O que significa que em O irlandês nós somos transportados e essa viagem, mas ficamos com a parte boa do conforto de nossas casas.

“É bom sentir que o passado está no passado e que temos a vida inteira pela frente”

O fato da autora ser brasileira enriquece ainda mais essa história, pois ela pode nos apresentar com propriedade as diferenças culturais que há entre esses países, tornando a nossa imersão ainda mais completa e real.

“Ouvir da boca de um irlandês que você é o seu amuleto mais precioso é quase tão bonito quanto ouvir um eu te amo”

A protagonista deste livro é Júlia, que sai de Nilópolis (na Baixada Fluminense) para tentar a vida fora do país. E sim, tentar a vida, porque ela espera que o intercâmbio seja apenas uma porta, pela qual ela não pretende voltar tão cedo.

Para isso, porém, Júlia tem de trabalhar muito. Literalmente. E, como trata-se de um intercâmbio estudantil, ela tem de estudar também. Mas sabe aquelas pessoas que não sabem dizer “não”, principalmente quando surge mais uma oportunidade de ganhar um dinheirinho que fará diferença no final do mês? Pois bem, essa é Júlia.

“Quanto mais dinheiro você tem, mais dinheiro quer ter”

E é por não saber/não querer dizer “não” que Júlia, mesmo já trabalhando como garçonete e como cuidadora (em algumas noites), começa a cuidar de Annabelle e Alice. Ela tem de ficar apenas algumas poucas horas com as meninas, entre o fim do expediente da babá e o retorno do pai, Robert.

“Eu estou preparada para muita coisa. Mesmo. Até curso de primeiros socorros eu tenho, mas a dor do abandono de uma mãe? Isso eu não sei como lidar…”

E é assim que vamos, aos poucos, conhecendo essa protagonista tão cheia de si, mesmo que tenha seus medos, inseguranças e, claro, marcas do passado. Júlia sabe de onde vem, mas também sabe onde quer chegar e, ao mesmo tempo, sabe que terá de lutar em dobro simplesmente porque é uma mulher negra.

“Isso pesa. Essa sensação de nunca ser boa o bastante, de ser parada por causa da minha cor, de ser uma subcategoria de mulher porque nasci com mais melanina do que outras pessoas”

Por outro lado, também vamos cada vez mais conhecendo Robert e suas encantadoras meninas. E é muito instigante querer saber mais sobre o seu passado. Sobre as marcas que ele carrega. E as meninas, de certa forma, ainda que sejam muito jovens.

“Dói demais ver uma criança sofrer tanto”

O fato de termos uma (quase) babá e uma pai solteiro com um passado e tanto, me lembrou um pouco Alameda do Carvalho, outra história que gostei muito. A experiência de leitura de cada uma dessas histórias, porém, é bem única, porque os rumos que o enredo toma e o que está por trás de cada trauma são bem diferentes.

O irlandês tem tudo para ser um clichê, mas também tem muito mais para transformá-lo numa história rica e capaz de nos transmitir mensagens importantes como a necessidade de um bom diálogo em qualquer tipo de relacionamento, bem como a solidão da mulher negra (e, por mais que isso possa soar um pouco solto dito assim, fica muito claro o significado disso quando você lê essa história).

“Então é assim que as pessoas se relacionam quando elas têm um bom diálogo e não escondem medos e inseguranças?”

Ah, e claro, tudo isso é feito através de uma narrativa envolvente, daquelas que te fazem rir no momento certo e ficar com o coração apertado na mesma medida.

Ficou com vontade de conhecer a Julia, o Robert e as meninas? Então clica aqui.

TAG: material escolar

Faz muito tempo que não respondo uma TAG por aqui! E olha que não é por falta de opção não.

TAG’s podem parecer algo bobinho, mas sempre me surpreendo com o fato de que as pessoas costumam interagir com esse tipo de post. Fora que eu me divirto respondendo e relembrando leituras.

E a TAG de hoje eu vi no IG @aterradoslivros, que inclusive indico para que vocês conheçam! E, sem mais delongas, vamos às respostas, claro!

Mochila: um livro que você guarda na memória, embora tenha lido há algum tempo

Menino de ouro, da Abigail Tarttelin. Aprendi demais com essa história e sinto que ela é mais desconhecida do que deveria. Fiz essa leitura em 2015.

Borracha: um livro que você queria apagar da memória

⁣Há quem ame, há quem odeie, mas, certamente, Uma casa no fundo de um lago, do Josh Malerman. Até hoje me pergunto porque li esse livro.

Agenda: último livro lido, leitura atual e próxima leitura
Corretivo: um livro que você mudaria alguma coisa

Vou me abster de responder essa, porque se fosse para mudar algo, eu que escrevesse o livro, né?

Lápis de cor: um livro com capa colorida

O mais lindo de todos: A lógica inexplicável da minha vida (Benjamin Alire Sáenz).

Régua: um livro com muitas páginas

⁣Claro que a minha mais longa leitura de 2020: As mil e uma noites (Antoine Galland) [cada volume, na edição que li, tem 500 e poucas páginas].

Pincel: uma capa que é uma obra de arte ou um livro com ilustrações lindas

A minha capa preferida da vida é a de Um amor para chamar de meu, né? (espero que dispense apresentações…).

Dicionário: autora/autora com excelente qualidade narrativa

Nossa, vocês podiam facilitar, né? Tanto autor que eu leria até a lista de compras! Tipo a Tayana Alvez, a Marie Pessoa, a Ingrid Sousa, a Michelle Pereira, a Maya Brito…

Uniforme: livros com histórias ou capas parecidas

Eu sou péssima nessa coisa de relacionar um livro com outro, mas recentemente isso me aconteceu: Alameda do Carvalho (Ninna Vicari) e O irlandês (Tayana Alvez) têm uma premissa bem parecida, mas características únicas em seus desenvolvimentos. De qualquer forma, é difícil não relacionar uma história com a outra.

E qual seria o seu material escolar feito de livros? Vou adorar conhecer as suas respostas.

Dê um match — Maicon Moura

Título: Dê um match
Autor: Maicon Moura
Editora: Publicação independente
Páginas: 13
Ano: 2020

Um título com um imperativo desses pode fazer parecer que este conto é o que não é. Mas a verdade é que nada nele é o que uma primeira olhada indica.

Então não ache que nessas 13 páginas você encontrará fórmulas mágicas de como conseguir muitos matches no tinder. Acho que mais fácil você encontrar o que não fazer nesse aplicativo, ainda que haja as inserções de Otávio, um personagem que tem várias frases prontas de “conselhos de beleza e afins”.

Entre nos alertar, de maneira sutil, sobre os perigos do Tinder e nos fazer rir com as abobrinhas de Otávio, esta história toma rumos e chega a um desfecho que acho difícil não te deixar de queixo caído.

Ao mesmo tempo que pensamos “puts, como eu não pensei nisso”, a leitura de Dê um match também nos faz pensar como a imaginação do autor foi longe! E olha que não é a primeira obra do autor que eu leio (você pode conferir as resenhas anteriores aqui e aqui), mas mesmo assim eu fui surpreendida pela quarta vez.

Então deixo a dica de que se você for ler algo do Maicon, já leia pensando “o que será que ele vai me aprontar dessa vez?”.

Ah, e claro, não deixe de conhecer Dê um match.

Céu de menta — Camila Martins

Título: Céu de menta
Autora: Camila Martins
Editora: Hope
Páginas: 185
Ano: 2018

Depois que li O que me faz pular, tornei-me uma leitora que não pode ver livros sobre autismo que já quer devorar todos. E assim foi com Céu de menta que, no entanto, é bem diferente de qualquer outra leitura que eu já tenha feito sobre o tema.

“Como se deixar envolver por algo que não se conhece?”

Comecemos pelo fato de que Céu de menta é uma ficção (enquanto os demais livros que li geralmente foram não-ficção ou ficção baseado em fatos reais, coisa que não sei se é aplicável neste caso). E Céu de menta é uma ficção que nos mostra uma vida muito normal, afinal de contas, o autismo não é algo que nos torne incapazes de sentir e viver. A narrativa é bem doce e, por vezes, um pouco parada. Mas nada que torne esta história menos especial.

Sem grandes ambientações (a história se passa quase toda entre casas vizinhas de uma pequena cidade), Céu de menta nos mostra duas famílias extremamente diferentes que vivem lado a lado.

“Ser feliz com pouco, e curtir isso, é um dom”

Primeiro somos apresentados aos Salles, família formada por Carolina (mãe), Roberto (pai), Ana Maria (a protagonista) e Davi (o irmão mais novo). Depois, aos Alencar, família formada por João (o vizinho de Ana e também protagonista desta história), sua vó Clara, suas duas irmãs mais velhas e rebeldes (Paula e Bianca), sua mãe acamada (Sílvia) e seu pai ausente (Paulo). Acho que essa descrição já deixou bem claro que não temos aqui uma família muito fácil, não é mesmo?

“A família Alencar sempre foi uma granada prestes a explodir”

E tem mais: a família de Ana é simples, vive muito bem com o que tem e mudou-se para essa pequena cidade com o intuito de oferecer uma vida melhor à filha, portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista), enquanto a família de João está mergulhada numa vida de ostentação material, mas de ausência de amor. Contudo, mesmo tendo crescido nesse ambiente, João é um garoto calmo, compreensível e amoroso.

“João era um diamante em meio aos cacos de vidro”

É ele quem, ainda jovem, aproxima-se de Ana. E assim nasce uma amizade muito linda, já que ele está disposto a compreender a amiga e fazer de tudo para sempre deixá-la confortável. Os pais de Ana, claro, veem essa amizade com bons olhos, pois também sabem da raridade de se encontrar pessoas como João no mundo.

“Não tem preço ter alguém inteiro em nossas vidas. São raridades”

O mais bonito desta história, porém, é ver como ambos têm suas dificuldades e como um pode ajudar — e muito — o outro. Cada um com o seu jeito, cada um com suas habilidades, Ana e João crescem e amadurecem juntos. E claro que, nesse caminho, alguns percalços acontecem, fazendo com que a autora aborde questões como a pressão sobre os jovens na escolha de uma carreira, depressão, as máscaras da nossa sociedade, preconceito…

“Como chegar perto de alguém que se cercou de um enorme muro?”

Logo no início, o título do livro já passa a fazer sentido, mas somente ao final é que o entendemos realmente, e ainda com uma última bela lição deixada pela autora.

Aliás, temos muito a aprender com Céu de menta e um dos aprendizados que mais me marcou é de que o fato de uma pessoa não saber muito bem como lidar e demonstrar seus sentimentos, não significa que ela não sente (e muito!).

“Ah, como Ana ama abraços. Ah, como é difícil para Ana entender os abraços”

Se você busca um livro com uma protagonista autista e, ao mesmo tempo, quer ler algo bem leve, com certeza é Céu de menta que você procura. Então clica aqui e saiba mais sobre essa história que vai te deixar com um quentinho no coração.