Coração de Espinhos — Hadassa M Vaz

Título: Coração de Espinhos
Autora: Hadassa M Vaz
Editora: Sekhmet
Páginas: 61
Ano: 2019

coração de espinhos blog

Coração de Espinhos é um daqueles livros que trazem uma temática delicada, mas sem medo de ir direto ao ponto. Logo de cara, portanto, nos deparamos com Jana, uma adolescente de 15 anos que está grávida de Henrique, seu namorado de 17 anos. Esta, porém, não é uma história sobre um garoto que abandona sua namorada ao descobrir que ela está grávida, ou então sobre pais adolescente irresponsáveis. Muito pelo contrário, Coração de Espinhos fala sobre uma difícil escolha que esses dois adolescentes tiveram de fazer: a de colocar o filho para adoção, pois não teriam condições de criá-lo como gostariam, e também porque os pais de Jana não os apoiariam.

Essa decisão, porém, não foi nada fácil, e ainda que Henrique continuasse sendo um namorado presente e atencioso, o peso de não poder criar o próprio filho acabou minando o relacionamento desse casal adolescente.

“Então eles se afogaram juntos… E se afastaram”

E ainda que a separação pudesse ser um caminho natural — afinal, eles eram jovens, tinham muito a aprender e descobrir — chegar a ela, e mesmo ao que se seguiu, não foi nada fácil. E o fato de cada capítulo se chamar “espinho” ao invés de “capítulo”, deixa claro isso. O livro, portanto, é composto por nove espinhos, e um capítulo final. Se o amor é rosa, ele deve passar, também, por todos esses espinhos.

Na maior parte da história ficamos mais próximos de Jana e se ela fosse narrada somente por essa personagem teríamos a impressão de que Henrique seguira a vida enquanto ela ficara estagnada, sofrendo. Mas aos poucos vamos percebendo que não é bem assim…

“As pessoas mudavam muito com o passar dos anos, em vários momentos, ela nem mesmo conseguia se reconhecer naquela menina do seu passado”

Depois de cinco anos, para tentar colocar a vida de volta nos eixos, Jana decide buscar seu filho. E, para isso, ela precisa de Henrique. A reaproximação dos dois não é nada fácil, pois o relacionamento não havia acabado da melhor maneira possível. E sem contar que, em cinco anos, as pessoas podem mudar muito.

“Ele não era mais o garoto que ela um dia amou, mas para sua consternação e confusão, ele havia se tornado um homem que ela poderia amar”

É muito bacana acompanhar o crescimento desses dois protagonistas e ver os rumos que as histórias deles vão tomando. Coração de Espinhos é um livro extremamente curto e denso e que, além de ser direto, retrata algo que nem sempre é explorado em histórias que falam sobre gravidez na adolescência.

Quer saber como termina a história de Jana e Henrique? Clica aqui.

Música em contos 2 — Susana Silva (parte 4)

música em contos 4

Vamos para o quarto conto que li da antologia Música em Contos 2? Ele chama-se A canção e foi escrito por Thelma Miguel. A música de inspiração foi You don’t know me (Michael Bublé). Esse conto é um pouco mais extenso que o da semana passada, mas não chega a ser tão extenso quanto o A Tísica.

Narrado por Antônio — ou Tony —, um cidadão que vive pacatamente (até demais) numa pequena cidade, mas que, de repente, vê sua vida virar do avesso devido a um incidente na porta de sua casa, com o ônibus da cantora Catharina — ou Katy — e sua equipe.

“Dei-me conta de que a minha vida tinha um vazio enorme”

Era noite e nevava, o que obrigou Tony a hospedar todas aquelas pessoas em sua casa, que era um pouco afastada da cidade. E essa situação acaba se estendendo um pouco, devido à dificuldade de conseguir a peça necessária para arrumar o ônibus. Com isso, Tony passa a sentir algo que jamais havia sentido. Algo que se torna ainda mais intenso com a partida da banda e com uma descoberta que ele faz pouco antes disso.

“Eu havia me transformado para sempre”

Trata-se de uma história romântica, mas não é um romance óbvio. Isso porque toda essa situação e tudo o que Tony vive, geram uma modificação interna nesse personagem. Um simples acontecimento abre os olhos de Tony para o mundo que sempre esteve à sua frente, mesmo que em uma cidade pequena como a que ele vivia.

Esse é um daqueles contos que nos permite pensar em em uma infinidade de assuntos (nossas vidas, a forma como enxergamos o mundo, o que nos move, quem são as pessoas que nos cercam e muito mais), ainda que seja uma narrativa breve. E a música que inspira o conto aparece diretamente na história, mas também tem uma letra que, por si só, já nos faz entender a inspiração. Além disso, essa canção é um dos elementos que despertam Tony para sua vida.

Contos de Fadas de Cabeceira — Juliana Lima

Título: Contos de Fadas de Cabeceira
Autora: Juliana Lima
Editora: The Books
Páginas: 124
Ano: 2019

Contos de fadas

Finalmente pude ler Contos de Fadas de Cabeceira completo e aquilo que eu havia imaginado em minhas primeiras impressões se concretizou: que livro! Lembrando que o alerta que a autora dá — e que eu já havia destacado anteriormente — continua sendo mais que válido nos demais contos da obra.

“Mas, jurei a mim mesmo que naquele dia seria normal e talvez seja esse o preço imposto pela ‘normalidade'”

Quem pega esse livro para ler, não percebe o tempo passar. Vamos lendo um conto atrás do outro, intercalando com as pausas que a autora nos dá — poemas, pensamentos, micro contos — deixando a cabeça fervilhar em reflexões, pensamentos, realidades. Sim, realidades! Porque, mais que releituras atuais e importantes dos antigos contos de fadas, esse livros nos faz enxergar aquilo que nos cerca nesse mundo.

É difícil escolher um conto preferido, pois todos trazem algo que nos faz realmente refletir. Acho que (a)normalidade é um bom exemplo disso e o próprio título já chama nossa atenção.

“O problema não é o que nasce com você e sim se o que nasce com você se encaixa no quebra-cabeça da sociedade”

O conto A bela renascida, por sua vez, tem um toque poético muito bonito! E A pérola do mar — de referência tão clara quanto A bela renascida — foi um conto que chamou minha atenção porque eu sempre gostei de A pequena sereia e histórias relacionadas a mar, mas também por ser um conto bem desenvolvido e com acontecimentos surpreendentes.

O manto escarlate tem um toque mais sombrio que os demais, um ar quase de filme de terror — e convenhamos que irmãos Told é muito sobrenome de história de terror!

O extraordinário Zunkunft — que não sei se captei qual é a inspiração — me deixou bem reflexiva. Será que as previsões que ele traz se concretizarão? Só vivendo para saber…

A rosa mágica me prendeu do início ao fim, sendo um de seus temas algo que acho muito importante: a necessidade de enxergarmos além da beleza física.

“Encontre alguém que enxergue a beleza que importa em você antes que todas as pétalas caiam”

E ao chegarmos próximos do fim do livro, duas surpresas: Contos de Fadas de Cabeceira — sim, um conto com o mesmo título do livro! — que tem uma história incrível, principalmente por um elemento que não direi aqui, para não estragar a surpresa; e a segunda surpresa é A dama da noite, escrito por Sandra Milani Moreira, autora convidada.

E, para deixar tudo ainda melhor, o livro ainda possui uma playlist própria!

Se interessou pelo livro? Então clica aqui e saiba mais!

Música em Contos 2 – Susana Silva (parte 3)

música em contos 3

Eu só posso começar a resenha do terceiro conto que li da Antologia Música em Contos 2 dizendo o quanto esse é um daqueles contos do tipo que eu gosto. Logo de cara o que me chamou a atenção foi o fato dele ser baseado numa música do Brunos Mars — When I was your man — cantor que adoro. Mas, se você conhecesse a música e pensa em uma história baseada nela, dificilmente você pensará numa história feliz. Bem, a história de Adrieli, protagonista deste conto, talvez não seja realmente a mais feliz de todas, mas ela tem um lindo final.

Amor improvável foi escrito por Márcia Pavanello Pires e conta a história de Adrieli moradora de Nova Trento, uma cidade do interior de Santa Catarina. Ela era é a típica nerd da turma e, claro, tinha de se apaixonar por Roberto, um dos garotos mais populares da escola.

“Suas notas eram as melhores da turma, mas em seu íntimo, Adrieli era uma menina triste”

Se tudo isso pode soar muito clichê, é importante destacar que o conto vai além disso: mais que nos mostrar que beleza é relativa e que não é tudo o que importa, ele fala sobre solidão, cyberbullying e suicídio. Claro, devido à extensão do texto tudo é apresentado de forma superficial, mas é bem interessante observar o desenrolar dos fatos.

Mesmo não tendo um final triste como é a música no qual foi baseado, conseguimos perceber, ao longo da leitura, como When I was your man inspirou esse conto e, assim como no primeiro que apresentei aqui, a canção aparece de forma direta na história, tornando-se a música de Adrieli e Roberto.

Bella Ciao — Canção popular italiana

Bella Ciao Canção popular italiana

Começo esse post expressando minha profunda indignação comigo mesma por somente hoje estar escrevendo um post sobre Bella Ciao. Isso porque quando criei essa categoria aqui no Blog, minha ideia era justamente poder trazer um pouco de História através da música e Bella Ciao, sem dúvidas, tem muito a nos ensinar. E se engana quem pensa que esta é simplesmente a música tema da série La casa de papel. Bella Ciao é uma canção bem antiga e mesmo sua versão original não é a mais conhecida. Mas vamos por partes.

A melodia dessa música vem dos tradicionais cânticos de trabalhadores rurais italianos e sua “primeira” letra (ou a primeira letra a que temos acesso hoje) nos remete a esse contexto. Eram canções entoadas para ritmar o trabalho e diminuir o peso deste.

Stamattina mi sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato I’invasor!
A lavorare laggiù in risaia
Sotto il sol che picchia giù!
E tra gli insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi tocca far!
Il capo in piedi col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a lavorar!
Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a consumar!
Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in libertà!

De forma bem resumida, essa letra aí em cima nos mostra um trabalhador rural que acorda e tem de ir ao trabalho, no campo, debaixo de um sol que queima, em meio a insetos, com um chefe a pegar no pé. Tudo isso, em troca de pouco dinheiro e vendo a vida passar. Um trabalho praticamente escravo, feito enquanto se sonha com um trabalho livre.

Sendo uma canção popular, a letra de Bella Ciao foi mudando aos poucos com acréscimos e alterações feitas pelo próprio povo que a entoava. E assim vamos chegando à uma versão mais próxima da música que se tornou símbolo da resistência antifascista italiana, cantada pelos partigiani. Mas, de novo, vamos por partes.

O fascismo ao qual me refiro aqui é aquele que surgiu na Itália por volta de 1910, e que esteve no poder entre 1922 e 1943. Um regime totalitário, nacionalista e antiliberal, representado e exercido por Benito Mussolini. O discurso nacionalista de Benito Mussolini ganhou muitos adeptos, principalmente entre as classes conservadoras italianas, dentre elas, a dos proprietários de terra (sim, provavelmente os empregadores daqueles que entoavam a música apresentada acima!).

E mais: os fascistas queriam tomar o poder por via eleitoral, mas também através de atos violentos contra seus opositores. Desde o momento em que começaram a buscar o poder os “camisas negras” (como eram conhecidas algumas milícias partidárias do fascismo) foram extremamente agressivos, com o objetivo de intimidar e enfraquecer a oposição.

Concomitantemente à ascensão do regime fascista — e em seus anos mais duros — surge um movimento popular de resistência armada, formada pelos Partigiani (partigiano, no singular), que são combatentes que não pertencem a um exército regular. Eles se utilizavam, principalmente, de emboscadas, sabotagens e interceptações de mensagens e eram um grupo formado por desertores e praticamente todos os tipos de civis (homens, mulheres, religiosos, comerciantes e pessoas de qualquer ideologia política).

Eram esses partigiani que entoavam a versão de Bella Ciao mais conhecida nos dias de hoje, uma versão que ganha um tom de “luta pela liberdade”:

Stamattina mi sono alzato,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi sono alzato,
ed ho trovato l’invasor.
O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.
Se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.
E seppellire sulla montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire sulla montagna,
sotto l’ombra di un bel fior.
E le genti che passeranno,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno,
Ti diranno «Che bel fior!»
«Questo fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore del partigiano,
morto per la libertà!»

Percebam que, esta nova letra, começa da mesma forma que a primeira apresentada, mas é em sua continuação que está a grande mudança: a pessoa que acorda pede para que um partigiano a ajude, pois sente que está morrendo. Mas, essa pessoa pede para que, caso realmente venha a morrer, ser enterrada como partigiano, em uma montanha, à sombra de uma bela flor, a “flor do partigiano morto pela liberdade”.

É uma letra bem forte e muito melódica (daquelas que gruda na cabeça) e só por esse último verso já dá para compreender porque ela ganhou o mundo e se tornou símbolo de tantas outras lutas (ainda que muitas pessoas sequer saibam o que estão cantando…)

Meu Juiz Envolvente — Juju Figueiredo

Título: Meu Juiz Envolvente
Autora: Juju Figueiredo
Editora: Publicação independente
Páginas: 475
Ano: 2019

meu juiz blog

E mais uma vez eu estou aqui, impactada com a escrita da autora Juju Figueiredo. Dessa vez, após a leitura do segundo livro da série Envolventes: Meu Juiz Envolvente. Se em Meu Envolvente Professor temos como protagonista a forte e determinada Bruna Ávila, aqui o foco é Eduarda Medeiros, uma mulher não menos determinada e incrível.

“Eduarda era uma surpresa, uma surpresa que eu não sabia lidar”

Eduarda se formou com honras na Universidade de São Paulo e tornou-se uma advogada renomada. Na reta final de sua graduação e início de sua brilhante carreira, porém, ela se deparou com Arthur Brandão, um grande e temido juiz. E claro, que, entre os dois, começa a rolar um certo clima… Clima esse já anunciado em Meu Envolvente Professor, mas que fica muito mais claro e desenvolvido neste livro.

Enquanto Eduarda e Arthur não resolvem se ficam ou não juntos, vamos acompanhando uma narrativa que se alterna entre a visão de um e outro e que nos apresenta seus passados, seus presentes e até mesmo aquilo que eles desejam para o futuro.

“Como apagar um passado que, mesmo tendo me destruído por completo, me fez ver que eu poderia amar e ser amado?”

Mas, como sempre acontece nos livros da Juju, essa é uma história que vai muito além de um simples romance hot. Em Meu Juiz Envolvente a autora conseguiu inserir temas fortes como prostituição (e prostituição infantil), adoção e um esquema criminoso que gera uma trama de tirar o fôlego.

“Diferente do seu corpo, seus olhos demonstravam uma fraqueza que jamais pensei que veria nela”

O livro é um grande quebra-cabeça que apresenta suas peças aos poucos e que também as encaixa com calma, no momento certo, nos prendendo até a última página. Um livro capaz de arrancar risadas e lágrimas, enquanto nos faz pensar e nos deixa revoltados com coisas que, infelizmente, realmente acontecem à nossa volta.

“Queria apenas que minha vida fosse menos complicada”

Há um ou outro capítulo escritos por personagens que não são Eduarda ou Arthur. Mas são personagens que conhecemos seja do primeiro volume dessa série, seja da série spin off (que é a trilogia Recomeços). Alguns também ainda terão seus próprios livros. E é incrível vermos surgir diante de nossos olhos uma trama que realmente envolve (perdão o trocadilho) seus personagens, suas histórias, o passado e o presente, as conquistas, as derrotas, os medos.

Este é o segundo livro da série Envolventes, mas a cada livro que leio me sinto mais parte de um grupo de amigos unidos, sempre prontos a ajudar uns aos outros, ainda que cada um tenha sua história, sua dor e seus fantasmas.

Os livros da série Envolventes podem ser lidos separadamente, mas vale à pena mergulhar nesse mundo (e de preferência na ordem em que foram publicados, para evitar spoilers)

Quer conhecer melhor Eduarda Medeiros? Então clica aqui e descubra se ela se deixa ou não conquistar por Arthur Brandão.

Música em Contos 2 – Susana Silva (parte 2)

música em contos 2

Vamos conhecer o segundo conto que pude saborear da antologia Música em Contos 2? Hoje apresento a vocês A Tísica, escrito por José Miguel e baseado na música I know you care, da Ellie Goulding.

Ainda que o conto case muito bem com a letra da música escolhida, não se trata de uma história que imaginamos encontrar em uma antologia como essa. Eu, pelo menos, não esperava, pois acabo sempre associando histórias baseadas em músicas com histórias românticas, de superação, algo mais nessa linha.

Apesar de inspirado em uma  música relativamente recente (de 2013), a narrativa de A Tísica se passa em Portugal, muitos ano atrás, ainda governado por Salazar. Mais que isso: trata-se de uma época em que a luta contra a tuberculose e a busca por um tratamento adequado ainda eram intensas e esse é um dos principais focos dessa história.

O protagonista é João Carlos, um jovem que deseja ajudar no combate à tuberculose no Porto, sua cidade natal. Ele vem de uma família abastada, mas isso não é suficiente para o livrar da enrascada na qual se mete ao tentar ajudar a tal tísica que dá título ao conto.

Ao longo das páginas dessa história, portanto, vemos um protagonista que tenta lutar pelo que é certo e justo, mas que, sozinho, não tem como ir contra um sistema já formado. Um conto que traz um certo passado histórico, mas uma triste atualidade em relação às injustiças. É também um conto que contrasta um tratamento humano com certa desumanização. A tísica é, portanto, um conto extenso e denso, e que merece uma leitura calma e atenta.

Desmistificando o mestrado [2] — Prova de proficiência

Desmistificando o mestrado [2]

Hoje é, finalmente, dia de continuar a falar sobre o Mestrado! E, para falar dele, precisamos, antes de mais nada, falar como começar ele. O post de hoje, portanto, é dedicado à uma das etapas do processo seletivo: a prova de proficiência.

A proficiência é, em geral,  uma das primeiras etapas e é eliminatória. Isso significa que, para iniciar um Mestrado, você deve saber ao menos uma língua estrangeira. E falar dessa etapa é um pouco complicado, pois, só na Letras, já existem diversas nuances, imagine fora dela.

Por exemplo, se você vai fazer Mestrado em uma área de literatura (brasileira, portuguesa ou clássicas) — e se eu não estou enganada —, você pode escolher fazer a proficiência em qualquer língua. Agora, se você vai fazer um Mestrado em uma área de línguas estrangeiras (ainda que seja relacionado à literatura daquela língua), como foi meu caso, você, necessariamente, deverá comprovar proficiência naquela língua (o que, digamos, faz muito sentido).

Mas também existem diversos tipos de prova de proficiência. Na Universidade de São Paulo, a mais simples é a do Centro de Línguas, que prepara provas para diversos Programas da Universidade. Nela, você basicamente precisa demonstrar que consegue ler e interpretar um texto na língua estrangeira escolhida. Para isso, claro, há um texto na língua em questão e questões de múltipla escolha referentes a ele, em português. E ainda pode usar um dicionário monolingue.

O segundo tipo de prova é aquela preparada especialmente para os Programas de línguas estrangeiras, como é o caso do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura italianas. É uma prova relativamente parecida com a do Centro de Línguas, mas um pouco mais elaborada, entrando algumas questões dissertativas e de tradução.

Por fim, sempre temos a opção de fazer uma prova externa, que geralmente é bem mais complexa, porque abrange as quatro competências (ler, ouvir, escrever e falar). Acho que um dos exemplos mais conhecidos que posso dar desse tipo de prova é o TOEFL. No caso do italiano podemos mencionar o CELI e o CILS. E eu (que adoro complicar quando posso facilitar) optei por esse tipo de prova.

Aí você me pergunta “por que?”, já que além de mais difícil, esse tipo de prova é bem mais cara. Mas há uma vantagem: enquanto as duas primeiras provas que mencionei valem somente para ingressar no Mestrado dessa Universidade, e mesmo ali costumam ter uma validade de dois anos, as provas externas, são válidas/exigidas em diversos lugares/países, e quando têm validade, ela é de pelo menos 5 anos.

Espero ter conseguido explicar um pouco sobre as provas de proficiência, mas caso tenham dúvidas, basta comentar aqui! Em breve, falarei sobre as outras etapas do processo seletivo. Achei que caberia tudo em um único post, mas falar da proficiência já deu muito pano pra manga!

E se você não viu o primeiro post dessa série, clique aqui.

Meu envolvente professor — Juju Figueiredo

Título: Meu envolvente professor
Autora: Juju Figueiredo
Editora: Publicação independente
Páginas: 385
Ano: 2019

envolvente professor blog

Meu envolvente professor faz parte da série Envolventes, uma série de livros que podem ser lidos de forma independente, ainda que haja elementos que os interligam. Esse é o primeiro volume da série e aqui trarei um pouco do enredo e das minhas impressões sobre ele.

Em Meu envolvente professor acompanhamos a história de Bruna Ávila de Albuquerque, uma jovem extremamente dedicada e que dá seu sangue pela faculdade de Administração, para provar a seu pai — com quem sempre teve um relacionamento extremamente complicado  de que ela é capaz de se dar bem na vida sem precisar da ajuda dele.

“Você não tem o poder de controlar o destino ou o que irá acontecer com as pessoas ao seu redor”

Nessa jornada, Bruna acaba conhecendo Fellipo Vitale, um professor que se torna seu orientador substituto,uma vez que seu orientador oficial sofre um acidente e precisa se afastar por um tempo para se cuidar.

“As coisas acontecem porque tem que acontecer, não carregue o peso do mundo em suas costas”

É claro que, só pelo título do livro, já dá para ter uma ideia do que acontecerá. O que não imaginamos, porém, são os percalços do caminho.

“Se permita viver um pouco e descobrir o que o amor pode fazer com duas pessoas”

Bruna tem muito a descobrir sobre si mesma e sua família, enquanto também acaba descobrindo muito do nada fácil passado de Fellipo.

“A dor nos torna pessoas diferente, Bruna, ela nos molda”

Entre idas e vindas, Bruna tem de terminar sua faculdade, lidar com a perda de uma grande amiga, aceitar o seu passado e, claro, lidar com muitos sentimentos intensos.

Essa é uma leitura daquelas leves (apesar de tudo) e, ao mesmo tempo, intrigantes. Um daqueles livros que devoramos avidamente e que traz uma personagem feminina extremamente forte e admirável. Além disso, como Fellipo é um professor jovem, não sendo, portanto, muito mais velho que Bruna, essa história está longe de ser uma narrativa revoltante de um relacionamento absurdo entre professor e aluno.

Os capítulos são escritos em primeira pessoa, ora por Bruna, ora por Fellipo, o que nos dá uma visão muito boa (e privilegiada) da história, fazendo com que, aos poucos, cada peça de um complicado quebra-cabeça se encaixe e nos permitindo simpatizar com os protagonistas.

Se você se interessou pela história de Bruna e Fellipo, não deixe de clicar aqui.

Música em Contos 2 – Susana Silva (parte 1)

Musica em contos

Conheci a antologia Música em Contos 2 através do Blog Inspirações Paralelas. Eu, que amo boas histórias e boas músicas, logo me interessei pela proposta do livro, que é reunir contos inspirados em canções.

Ao ver meu interesse, a organizadora Susana Silva me disponibilizou alguns contos para que eu pudesse ler e contar para vocês minhas impressões. Durante as próximas semanas, portanto, trarei aqui o que eu achei de cada um desses contos. E quem quiser conhecer melhor o trabalho da Susana, leia também a antologia Música em Contos 1!

O primeiro conto que li chama-se Na estrada e foi escrito por C. B. Kaihatsu. Nele conhecemos Fábio, que é o filho do meio e “ovelha negra” de uma família de três filhos. Seu irmão mais velho, Raul, é um advogado bem sucedido; já Alice, sua irmã mais nova, acabara de ingressar em uma faculdade de medicina.

E Fábio? Bom, Fábio queria ser músico. E para se encontrar e se aceitar, ele decide colocar o pé na estrada, sem sem dizer nada a ninguém, deixando apenas um bilhete de despedida.

“Será que conseguiria se tornar alguém bom?”

E nessa viagem, Fábio aprende muito mais do que aprendera em toda a sua vida, nos trazendo uma história que fala sobre autoconhecimento, aceitação e empatia.

A inspiração deste conto vem da música Times Like These (Foo Fighters), que é justamente uma música que representa um certo descontentamento com a vida — como o que Fábio sente — ao mesmo tempo em que nos mostra certa positividade, uma percepção de que a gente também aprende com as dificuldades.

Gostei muito da forma como alguns trechos da música foram realmente incluídos ao longo do texto, indo muito além de uma simples inspiração, sendo base e parte da história.