Citações #23 — O retorno do jovem príncipe

Citações #23

Na minha resenha de O retorno do jovem príncipe (A. G. Roemmers) — publicado em 2011 pela Fontanar — eu comentei sobre o quanto os diálogos do livro nos ensinam sobre a vida. O livro é pequeno, mas cheio de passagens marcantes, muitas das quais deixei de fora da resenha e agora trago a vocês.

“As lembranças agradáveis e as experiências gratificantes podem reconfortar você em momentos de solidão e dificuldade”

O retorno do jovem príncipe (p.56)

E como pode um livro nos ensinar algo sobre a vida se ele não falar majoritariamente sobre sentimentos? Pois isso é o que não falta em O retorno do jovem príncipe. 

“O sentimento de culpa — disse eu — nos paralisa e nos impede de resolver muitos problemas”

O retorno do jovem príncipe (p.22)

Sim, aquele famoso sentimento de culpa paralisante. Mas há também o medo, o amor (ou a falta dele). Tudo abordado de maneira muito atual (ou devo dizer atemporal?)

“Percebi como agimos sob a influência do medo e da desconfiança, em vez de nos deixarmos guiar pelo amor que tantas vezes reprimimos”

O retorno do jovem príncipe (p.50)

E o que significa a falta de amor nesse livro?

“A falta de amor: isso que é o inferno”

O retorno do jovem príncipe (p.92)

Aliás, há outra consideração sobre esse sentimento que considero de grande importância e sobre a qual deveríamos refletir:

“Se os pais se esforçassem para ensinar o amor a seus filhos como se esforçam para lhes incutir disciplina, este planeta seria um lugar muito mais agradável para se viver”

O retorno do jovem príncipe (p.64)

Mas esse livro não fala apenas de amar o próximo, mas também de amor próprio. E de uma maneira muito didática.

” — Como alguém pode amar a si mesmo conhecendo as próprias imperfeições? — questionou o Jovem Príncipe.

— Da mesma forma que podemos amar os outros conhecendo as limitações deles”

O retorno do jovem príncipe (p.80)
Gostou dessas citações? Você pode encontrar esse livro aqui.

Guardião do medo – Michelle Pereira

Título: Guardião do medo
Autor: Michelle Pereira
Editora: Editora Garcia
Páginas: 252
Ano: 2016 (1º edição)

guardião do medo

Já adianto que falar de Guardião do medo não será nem um pouco fácil, simplesmente porque esse livro é doido demais (calma, no bom sentido!). A Michelle (autora parceira <3) disse que eu ia sentir raiva do personagem principal desse livro, mas eu, como sempre, saio em defesa desse ser… Bom, vamos à história para que vocês possam compreender tudo isso.

“Por que julgar uma pessoa pela aparência e não pelo caráter?”

Guardião do medo é narrado por Alexander Magnus, um rapaz que cresceu em um terrível orfanato — que é apresentado para nós logo nas primeiras páginas — e que, aos 20 anos é internado com câncer.

“Nunca mais senti frio. Mas também excluí qualquer possibilidade de ter um amigo”

Imaginem vocês crescer em um lugar onde não há amor, onde as demais crianças fazem bullying com você e quando você se torna um adulto, já machucado disso tudo, se descobre com uma doença que está, aos poucos, te matando por dentro?

“Eu sou um jovem que poderia ser tudo. Poderia ter sonhos. Poderia ter uma família. Poderia ter um emprego. Mas estou mergulhado na morte”

Alexander é aquele paciente que certamente todos os médicos e enfermeiras odeiam: fechado, mal-humorado, sem fé na vida. Ele apenas deseja morrer logo, mas não tem coragem de se matar, então o máximo que ele faz é não comer muito a comida do hospital. Até porque ele vive revoltado com o fato de sempre servirem sopa ou algo que não precisa ser mastigado.

“Ninguém deveria viver a vida que você estava vivendo, se escondendo dentro de mágoas e tormentos e esperando pela morte todos os dias”

Alexander é um ser descrente de tudo até que Raya aparece. Ela é a guardiã dele e tenta mostrá-lo que há um lado bom em toda essa história. E mais, que Alexander pode escolher juntar-se ao bem. Justo ele, que enquanto esperava a morte, se via indo para o inferno.

“Quando está escuro, todos os nossos medos vêm à tona. Quando não há ninguém acordado para ouvir nossos lamentos, ele parecem nos afogar”

Eu confesso que quando a Raya surgiu eu fiquei com um pé atrás em relação à história. Isso porque, no início, ela ficava tentando convencer Alexander de que ainda havia motivos para acreditar no bem. Gente, olha a história dele! Qualquer pessoa teria perdido toda sua fé na humanidade.

“—Eu não tenho motivos para achar que a ajuda chegou agora. Não há mais tempo. Não há como voltar atrás”

Mas eu gostei da transformação que se deu em Alexander. Obviamente ele não vira a pessoa mais positiva e feliz do mundo, pois isso seria muito inverossímil, mas ele se permite olhar para o lado. E isso faz com que ele conheça Mateus, converse mais com a enfermeira Lúcia e, mais tarde, venha a conhecer Marcela.

“—Mas é um fato, Alexander: você não precisa ser uma pessoa má porque as pessoas lhe fizeram mal”

Mas voltemos à Raya: ela é um anjo, uma Guardiã da Criação, e sua missão é fazer com que Alexander acredite no bem e escolha isso em sua morte. E Raya vai até as últimas consequências para convencer seu protegido. E por que? Porque Alexander é um Vórtice do Medo, uma criatura poderosíssima tanto para o bem quanto para o mal. E obviamente as Filhas de Daemon, ou seja, o lado mau, está vencendo dentro do coração de Alexander.

“É melhor não tentar entender isso pela lógica. É melhor apenas sentir”

O espaço da história é bem restrito — ela se passa basicamente no hospital — e, ainda assim, nos surpreendemos com o tanto de coisa que pode acontecer nesse ambiente tão “controlado”. A narrativa, como eu disse, é feita por Alexander, mas há alguns interlúdios escritos por Raya também. E ela, além de esconder muitas coisas de Alexander, nos esconde muitas outras. Que personagem misteriosa e intensa!

“Como ela podia ter olhos tão expressivos?”

Se você quer ler um livro que parece que trará elementos “normais” e, de repente, te joga no olho do furacão, trazendo diversos mistérios, imprevistos e angústias, recomendo Guardião do medo. Só não seja como o Alexander: não tenha pressa de descobrir as respostas, porque quando elas chegam, meus amigos… Que reviravolta!

“Acho que não posso confiar em ninguém”

Você ficou curioso(a) com as escolhas de Alexander? Então clica aqui para adquirir seu ebook de Guardião do Medo!

Maria, Maria – Milton Nascimento

Maria, Maria Milton Nascimento

Hoje eu quis trazer para vocês uma música que não podemos deixar passar em branco: Maria, Maria, de Milton Nascimento, em parceria com Fernando Brant. Tal canção faz parte do álbum Clube da Esquina 2 e foi lançada em 1978 (mas é atemporal).

Na música, vemos descrita uma Maria que pode ser qualquer Maria. E mais que isso: pode ser qualquer mulher. A tal da Maria é uma pessoa que batalha, que tem força e que, apesar de tudo, tem fé na vida. Maria também tem o direito de amar e de sonhar, mesmo que a vida seja dura.

A escolha do nome da música pode ter sido motivada por dois fatores: o fato de Maria ser um nome comum no Brasil e também porque este é, inclusive, o nome da mãe de Milton Nascimento, uma Maria que também batalhou muito na vida.

É fácil visualizar as mulheres se emocionando com esta canção, que em tão pouco fala tanto. E, não à toa, essa música toca em muitos lugares e já foi regravada por muitas pessoas, inclusive cantoras como Elis Regina (mãe de uma Maria também).

Vamos à letra?
Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta
Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho, sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê
Hei! Hei! Hei! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Ah! Hei! Ah! Hei! Ah! Hei!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
Lá Lá Lá Lerererê Lerererê!
E, para ouvir, deixo aqui um clipe novo (de 2018) e lindíssimo. A música foi regravada por Milton Nascimento no cd A festa, e, por isso, ganhou esse clipe incrível e emocionante:

O retorno do jovem príncipe – A. G. Roemmers

Título: O retorno do jovem príncipe
Original: The return of the young prince
Autor: A. G. Roemmers
Editora: Fontanar
Páginas: 105
Ano: 2011
Tradução: Paulo Afonso

Retorno do jovem principe

A primeira coisa na qual pensei quando vi a capa de O retorno do jovem príncipe, foi, sem dúvidas, o livro O pequeno príncipe, sem me atentar, no entanto, para a palavra “retorno”, contida no título do livro que hoje resenho.

“Os cegos veem o que ninguém mais ousa ver. Eles devem ser as pessoas mais corajosas de todas”

O retorno do jovem príncipe (p.14)

Só quando comecei a ler O retorno do jovem príncipe foi que percebi que se tratava de uma espécie de continuação, por assim dizer, d’O pequeno príncipe. Senti que a linguagem desse livro, porém, era muito mais simples e acessível. Isso porque li O pequeno príncipe umas duas vezes quando era mais nova, mas sempre senti que não absorvi nem metade do que as pessoas costumam absorver.

“É impressionante como sempre presumimos que os outros seguem a mesma direção que nós”

O retorno do jovem príncipe (p.11)

O retorno do jovem príncipe também é um livro super curto e que narra um encontro inesperado entre um adulto e o pequeno príncipe (que já não é mais tão pequeno assim). O narrador, que nos conta a história em primeira pessoa, está dirigindo por uma estrada deserta da Patagônia quando avista um jovem dormindo à beira dessa estrada. E aí começa esse encontro.

“Por alguns momentos, pensei em como os adultos, com alertas que visam nossa própria proteção, fazem com que nos afastemos das outras pessoas, a ponto de que tocar um indivíduo, ou olhá-lo nos olhos, provoca um desconfortável sentimento de apreensão”

O retorno do jovem príncipe (p.10)

O narrador motorista resolve acolher em seu carro aquele pequeno ser de loiros cabelos. E quando o jovem príncipe acorda, começa a fazer diversas perguntas. Boa parte do livro é construído em cima dos diálogos entre o adulto e o jovem príncipe, que conversam sobre tudo, nos dando uma bela aula sobre a vida.

“Quem era aquele jovem que irradiava inocência e sacudia as bases do sistema de crenças que eu herdara?”

O retorno do jovem príncipe (p.13)

Presume-se que quem lê O retorno do jovem príncipe já tenha lido O pequeno príncipe, pois há diversas referência à história original. Inclusive, uma das lições mais importantes (que, no entanto, pode ser compreendida mesmo por aqueles que não leram O pequeno príncipe) tem a ver com um episódio marcante do primeiro livro.

“Por que tantas vezes preferimos a pessoa que nos desilude àquela que nos oferece uma ilusão?”

O retorno do jovem príncipe (p.44)

É interessante pensar que no plano “concreto”, o narrador e o jovem príncipe estão fazendo uma viagem de carro, enquanto que no plano metafórico eles empreendem uma viagem existencialista ou espiritual.

“As pessoas às vezes são como ostras. Tudo o que temos de fazer é esperar, até que elas entreguem a pérola que trazem no seu interior”

O retorno do jovem príncipe (p.29)

Outro ponto interessante d’O retorno do jovem príncipe é o fato de que como ele está na adolescência, o livro aborda mais essa questão da transição para o mundo adulto, uma transição que, muitas vezes, não é tão fácil.

“Às vezes, sem perceber, nós, adultos, jogamos com os mais profundos sentimentos das crianças e destruímos coisas muito mais valiosas que qualquer objeto que elas possam quebrar”

O retorno do jovem príncipe (p.31)

Ao longo da leitura, meu lado professora ficou ecoando que seria interessante trabalhar esses livros em conjunto. São livros curtos, escritos por autores diferentes, mas que conversam entre si, além de ensinarem muitas coisas e permitirem diversas reflexões. Claro que, depois de concluída minha leitura de O retorno do jovem príncipe fui correndo ler, pela terceira vez, O pequeno príncipe. No entanto, compreendi uma coisa: trata-se realmente de um livro atemporal, que precisamos revisitar de tempos em tempos. Se hoje posso compreender muito mais que antes, daqui uns anos posso ter uma experiência totalmente nova também.

Ficou com vontade de ler O retorno do jovem príncipe? Saiba mais aqui.

Super-homem (a canção) – Gilberto Gil

Super homem

Você conhece a música Super Homem (a canção)? Trata-se de uma música lançada por Gilberto Gil, em 1979, no álbum Realce. Essa é uma daquelas músicas que eu escuto e deixo a letra ficar ecoando em minha cabeça, mas só agora resolvi realmente tentar entendê-la. E, ao fazer isso, descobri uma história interessante, contada pelo próprio Gilberto Gil!

O cantor estava de passagem pelo Rio de Janeiro, hospedado na casa de Caetano Veloso, quando este chega todo animado do cinema, contando sobre sobre o filme do Super Homem que acabara de assistir. Segundo Gilberto Gil, as descrições de Caetano eram tão boas que, quando foi se deitar, ele não conseguia deixar de visualizar mentalmente tudo o que ouvira, principalmente a cena em que o Super Homem volta o movimento de rotação da Terra para salvar sua namorada de um acidente de trem. E foi assim que nasceu Super Homem (a canção).

O ritmo da música contribuiu para que ela fique em nossa cabeça, mas não vou negar que gosto muito da letra, porque ela valoriza o feminino que há em todo ser humano, valoriza a sensibilidade e, ao mesmo tempo, a força. E claro que, conhecendo a história do Super Homem (o filme), principalmente a cena que serviu de inspiração para Gilberto Gil, fica ainda mais fácil compreender os versos finais da canção.

Um dia, vivi a ilusão
De que ser homem bastaria
Que o mundo masculino
Tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada
Minha porção mulher
Que até então se resguardara
É a porção melhor
Que trago em mim agora
É que me faz viver
Quem dera
Pudesse todo homem compreender
Oh Mãe, quem dera
Ser no verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe
O Super Homem
Venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus
O curso da história
Por causa da mulher

Ouvindo essa música eu sempre penso muito na figura materna, então fica aqui minha homenagem (um pouco atrasada) a todas as mães!

Amar, verbo intransitivo – Mário de Andrade

Título: Amar, verbo intransitivo
Autor: Mário de Andrade
Editora: Círculo do livro
Páginas: 151
Ano: 1984

amar verbo

Amar, verbo intransitivo não é uma leitura das mas fáceis, mas garanto que possui suas singelezas e aborda o amor de uma maneira peculiar: como algo que pode (deve, na verdade) ser ensinado a um jovem.

“É coisa que se ensine o amor?”

Amar, verbo intransitivo (p.26)

Laura e Felisberto Souza Costa são um casal tradicional, católico. Junto de seus filhos Carlos, Maria Luísa, Laurita e Aldinha, eles formam uma interessante família rica  e paulistana, que mora em Higienópolis.

A questão é que as coisas começam a mudar um pouco quando Souza Costa decide contratar Elza, uma alemã, para ensinar sobre o amor a Carlos. Elza, porém, entra na casa da família como “professora de alemão”, língua que ensina a Carlos e Maria Luísa, os filhos mais velhos. E ela também ensina piano e costura para as meninas. Na casa, Elza é chamada de Fräulein que, se não estou enganada (eu não sei nada de alemão), pode significar “senhorita”.

“O amor nasce das excelências interiores”

Amar, verbo intransitivo (p.9)

A narrativa do livro, ainda que um pouco confusa para mim, aos poucos vai deixando claro que Elza já desempenhara esse papel — de ensinar o amor — outras vezes, mas que Souza Costa tinha certa vergonha dessa presença em casa, deixando, inclusive de contar a verdadeira tarefa de Elza para Laura, sua esposa, que, ao descobrir, fica chocadíssima.

“Fräulein achava desnecessária tanta mentirada, e bobo tanto preconceito”

Amar, verbo intransitivo (p.57)

O mais interessante do livro foi perceber como ele vai lidando com certos assuntos polêmicos e tabus da sociedade. Ao longo da história aparecem questões como os imigrantes, o preconceito de Elza — alemã — com relação aos brasileiros, o sexo para os jovens, as doenças, drogas, e até sobre o “ser mulher”.

Também gostei dos momentos em que o narrador começa a dialogar com o leitor, explicando melhor algum aspecto da história ou mesmo dando sua opinião.

“Mas eu só quero saber neste mundo misturado quem concorda consigo mesmo!”

Amar, verbo intransitivo (p.49)

O livro também é bem curto, então se você está pensando em se aventurar pelos clássicos da literatura brasileira e não sabe bem por onde começar, esta é uma boa pedida, mesmo não sendo uma leitura tão fácil. Vale lembrar que algumas coisas ficam subentendidas na história, mas que se você consegue entender o contexto dela, certamente a leitura acabará fluindo.

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Uma raposa que caça um urso – Adrielli Almeida

Título: Uma raposa que caça um urso
Autor: Adrielli Almeida
Editora: publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2019

raposa caça urso

Conheci a escrita de Adrielli Almeida por acaso, ao me deparar com Feita de letra e música em uma livraria. Desde então me encantei e passei a acompanhar a autora, principalmente por saber que esse primeiro livro teria continuação. Foi assim que li, também, Feita de melodia e sonho. E esse ano, Adrielli lançou mais uma obra: Uma raposa que caça um urso, um conto lançado de forma independente pela Amazon. Fui correndo comprar e ler (mas acabei demorando pra achar um espacinho na programação aqui do blog).

Mia Jung e Kim Jihoon se conhecem há anos, mas também vivem distantes um do outro há muito tempo — seis anos, para ser mais exata —, uma vez que Kim se mudou para Seul, em busca de seu sonho de se tornar cantor. O reencontro desses dois não se dá de maneira fácil e fica evidente para o leitor que há muitos sentimentos por traz de todas as palavras que eles trocam entre si.

“As palavras enclausuradas em algum lugar entre língua, mente e coração”

Kim Jihoon era coreano, mas durante muitos anos morou nos Estados Unidos, onde conheceu Mia, uma jovem descendente de coreanos. O reencontro que vemos no conto acontece quando Kim volta aos Estados Unidos para gravar um clipe.

“Era engraçado como sempre parecia haver algo entre eles. Dessa vez não era Seul. Dessa vez não era a diferença de idade. Dessa vez era uma única palavra”

A relação entre eles é engraçada: podemos perceber que há certa reciprocidade nos sentimentos deles, mas também há algo que os impede de estar juntos.

“Uma raposa que caça um urso, era assim que ela se sentia nos braços dele”

O conto é curto, mas cheio de altos e baixos, tensões e momentos de paz. Uma leitura que te faz refletir sobre prioridades. É assim que Adrielli nos fala um pouco sobre kpop, amor e amizade. Adorei!

“Ela tinha cheiro de sol, mar e verão, de todas as coisas quentes das quais ele sentia falta”

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Citações #22 — Ensinando a transgredir

Citações #22

Na resenha que fiz sobre Ensinando a transgredir (bell hooks, 2017), publicado pela editora WMF, eu espero ter conseguido demonstrar o quanto gostei do livro e o quanto o considero uma leitura importante em diversos aspectos. Como muitas passagens ficaram de fora da resenha, trago-as aqui e começo destacando uma que, mesmo estando em um dos últimos ensaios, é essencial para o início deste post:

“Reconhecer que através da língua nós tocamos uns nos outros parece particularmente difícil numa sociedade que gostaria de nos fazer crer que não há dignidade na experiência da paixão, que sentir profundamente é marca de inferioridade; pois dentro do dualismo do pensamento metafísico ocidental, as ideias são sempre mais importantes que a língua” (p.233)

Tendo consciência de através da língua tocamos os outros, quero trazer neste post as citações que deixei de fora da minha resenha sobre Ensinando a transgredir para, quem sabe, conseguir não só despertar o interesse pelo livro, mas também mostrar a vocês como a educação como prática da liberdade não é algo tão complexo assim.

“A prática do diálogo é um dos meios mais simples com que nós, como professores, acadêmicos e pensadores críticos, podemos começar a cruzar as fronteiras, as barreiras que podem ou não ser erguidas pela raça, pelo gênero, pela classe social, pela reputação profissional e por um sem-número de outras diferenças”  (p.174)

A receita para a prática do diálogo é relativamente simples: criar um ambiente harmonioso e igualitário.

“Por isso, uma das responsabilidades do professor é criar um ambiente onde os alunos aprendam que, além de falar, é importante ouvir os outros com respeito” (p.201)

É importante lembrarmos que bell hooks é uma mulher negra que sabe bem o que esses dois termos significam, vivendo-os intensamente. Quando passou a estudar em um colégio misto (para brancos e negros), bell hooks pode compreender bem o preconceito racial.

“Nossa amizade de colegial não se formara porque ele era branco e eu, negra, mas porque víamos a realidade do mesmo modo” (p.40)

Mas bell hooks conseguiu superar muitas das dificuldades impostas pela vida e hoje busca demonstrar como uma excelente saída para o ensino é a educação como prática para a liberdade.

“Para educar para a liberdade, portanto, temos que desafiar e mudar o modo como todos pensam sobre os processo pedagógicos” (p.193)

Uma das maiores dificuldades nessa transformação são os próprios professores, que têm medo de sair de suas zonas de conforto e segurança.

“Sinto que uma das coisas que impedem muitos professores de questionar suas práticas pedagógicas é o medo de que ‘essa é minha identidade e não posso questioná-la'”. (p.180)

E mais do que isso, alunos e professores esquecem que essa é uma relação, acima de tudo, entre seres humanos.

“Essa é uma das tragédias da educação hoje em dia. Um monte de gente não reconhece que ser professor é estar com as pessoas” (p.222)

Mas o engessamento não parte somente dos professores ou então dos alunos, parte também das instituições em que se dão o ensino e como ele é visto pela sociedade.

“Para provar a seriedade acadêmica do professor, os alunos devem estar semimortos, silenciosos, adormecidos. Não podem estar animados, entusiasmados, fazendo comentários, querendo permanecer na sala de aula” (p.194)

Ensinando a transgredir, portanto, faz com que a gente reflita sobre esse aspectos e tantos outros. Se eu fosse falar de cada tema que aparece no livro, de cada pensamento que tive enquanto lia, eu precisaria de posts e mais posts sobre isso, porque quanto mais escrevo, mais penso nos assuntos ali abordados.

As fases da lua – Cínthia Sampaio

Título: As fases da lua
Autor: Cínthia Sampaio
Editora: publicação independente
Páginas: 120
Ano: 2018 (1º edição)

Design sem nome

O livro As Fases da Lua nos traz poemas e pensamentos da autora Cínthia Sampaio. Bem, os textos são dela, mas quem nunca sentiu ou pensou algo do que ela traz nas deliciosas páginas desse livro? E a própria autora fala sobre sua obra da seguinte maneira:

“As Fases Da Lua representam as fases da vida e mudanças que podem ou não acontecer com todo ser. Espero que se encontre nas folhas deste livro”

De minha parte, posso dizer que o desejo da autora foi atendido: me identifiquei com muitos trechos ao longo da leitura!

“Escrever sobre mim,

Talvez seja ainda mais complicado.

Porque as palavras ficam registradas

Enquanto eu sigo sempre mudando”

O livro é composto por muitos poemas e canções escritos por Cínthia, mas há também alguns textos em prosa que, confesso, foram os que mais gostei, apesar do meu texto preferido dentre todos os escritos do livro ter sido “Palavras”, que é um dos poemas.

As palavras, aliás, são a base de muitas das reflexões da autora, e isso é uma coisa que eu amo encontrar nos livros que leio.

“Espero um dia fazer alguma diferença nesse mundo e que minhas palavras não sejam apenas parte de um rascunho como esse”

Ainda bem que os textos da Cínthia saíram do rascunho e ganharam o mundo. Aliás, quem saiu ganhando fomos nós!

“Muitos disseram que eu não deveria escrever, que não deveria chorar, que não deveria cantar. Eu as escutei? Não. Eu escrevi”

Eu li As fases da lua super rápido, porque o livro permite essa fluidez na leitura. Você vai lendo um texto atrás do outro e, quando vê, já acabou o livro. Claro que, por diversos momentos, tive de parar, erguer a cabeça e absorver as palavras apenas lidas. E isso só tornou a leitura desse livro ainda melhor.

“A vida é um ciclo”

E claro que eu não poderia deixar de encerrar essa resenha com alguns versos que eu adorei, sobre um assunto que sempre acabo escrevendo por aqui: o poder das palavras e o quanto precisamos tomar cuidado com o que dizemos uns aos outros.

“Brincamos de viver

Não levemos a sério

Cada palavra dita ao próximo”

Se você se interessou pelo livro, saiba que ele está disponível em ebook aqui.

 

Sorri – João de Barro

Sorri

Sorri é uma linda canção que ficou conhecida na voz de Djavan, mas cuja versão brasileira foi apresentada por João de Barro (Braguinha) em 1955. Digo “versão brasileira”, pois Sorri vem da melodia Smile, composta por Charlie Chaplin em 1936, para o filme “Tempos modernos”. A letra de Smile, no entanto, foi composta somente em 1954, por John Turner e Geoffrey Parsons. A gravação de Djavan é de 1996 e faz parte do álbum Malásia, décimo segundo álbum do cantor.

Trata-se de uma música linda, com uma letra inspiradora e uma melodia leve e doce. Já cheguei a me emocionar inúmeras vezes com essa canção!

Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Smile

Trata-se de uma letra que instiga o ouvinte a sorrir, apesar de tudo. A tentar levar uma vida feliz, mesmo ante as adversidades. E, apesar disso, é uma música triste, principalmente se destacarmos os versos finais da canção.

A música em inglês é um pouco diferente, o que é de se esperar se considerarmos que Sorri é uma versão em português e não uma tradução (uma versão permite que exista um toque de quem a cria, enquanto a tradução tem de ser mais fiel ao original).

Smile, though your heart is aching
Smile, even though it’s breaking
When
there are clouds in the sky
you’ll get by
If you smile through your fear
and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll see the sun come shining
through
for you

Light up your face with gladness
Hide every
trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you
must keep on trying
Smile what’s the use of crying
You’ll find that life
is still worthwhile
If you’ll just
Smile

Em Smile, também há uma ideia de se esconder a tristeza, mas pelo fato dela não nos levar a nada, pelo fato de que, às vezes, precisamos nos lembrar e enxergar que a vida ainda vale a pena e que devemos continuar lutando.

Para encerrar, uma curiosidade: quando escrevi o post sobre O bêbado e o equilibristaque dentre outras coisas homenageia Charles Chaplin — descobri que não são apenas as menções diretas ao ator que aparecem na música, mas que a própria linha melódica dela é muito parecida com a de Smile.