Citações #3 — Hamlet ou Amleto?

Vocês já ouviram falar de Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos, escrito por Rodrigo Lacerda? As citações de hoje são dessa obra, publicada em 2015, pela editora Zahar.

Nesse livro o autor vai explicando toda a peça Shakespeariana, de maneira que possamos compreendê-la e admirá-la. Com isso, podemos perceber todo o drama que envolve a história:

“O seu mundo perfeito morreu de forma precoce e nada heroica, durante o cochilo da tarde” (p.31)

E, em se tratando de um drama, não podem faltar lágrimas na história:

“(…) todo mundo aprende a chorar, a vida ensina, é fatal” (p.56)

A vida nos ensina a chorar, seja de tristeza, seja de alegria. Mas vocês já pararam para pensar em como, apesar de tudo, ainda sentimos vergonha disso? Seja por qual motivo for, parece que chorar é sinal de fraqueza, quando na verdade, precisamos de coragem para nos mostrar tão vulneráveis ao outro.

Outra passagem bem interessante do livro tem muito a ver com uma da semana passada (Citações #2 – Pedagogia da Autonomia). Vejam se conseguem perceber de qual estou falando:

“O mundo passou a ser o campo de batalha das percepções individuais” (p.94)

E por falar em nossa sociedade, que vive uma rotina cada vez mais louca, vale lembrar que:

“Até um vilão precisa de um pouco de calma para viver” (p.153)

Ou seja, sempre é válido tirarmos um tempinho para nós mesmos, um descanso, um momento para nos refazermos. Mais do que válido, aliás, é algo realmente necessário.

Para terminar, uma citação bem impactante, que deixarei aqui para que pensemos um pouco sobre ela:

“Você enxergou a verdade, e a verdade é má” (p.234)

Ônibus – Marianne Dubuc

Título: Ônibus
Original: L'autobus
Autor: Marianne Dubuc
Editora: Jujuba
Ano: 2015
Tradução: Maria Viana

(Para ler ao som de: Exagerado – Cazuza).

E hoje é dia de resenha no Blog!

Acho que pela capa já dá para perceber que Ônibus é um livro infantil. E realmente é. Que saudades de livros coloridos, não?

Logo que a gente abre o livro, na parte da ficha catalográfica, uma bela surpresa: cada coisinha vem bem explicadinha. O que é autor, ilustrador, tradutor, diagramação, ISBN… É muito lindo, didático e necessário!

Além disso, o livro é todo ilustrado pela própria autora. Ele conta a história de uma menina que está pegando um ônibus para ir visitar sua vó. É a primeira vez que ela pega o ônibus sozinha e está levando uma cesta e um casaquinho consigo. 

No ônibus há diversos animais e a protagonista vai interagindo com eles. Por isso, ela chega cheia de histórias para contar para a avó. O enredo lembra muito chapeuzinho vermelho, mas com um quê diferente e especial que só lendo para captar bem. Então deixo aqui o meu convite para que você possa apreciar Ônibus:

Citações #2 — Pedagogia da Autonomia

As citações de hoje são de Pedagogia da Autonomia, escrito por Paulo Freire. As páginas são da edição de 2016, da Editora Paz e Terra. Um livro que, como o próprio título já diz, fala de propostas pedagógicas necessárias à uma educação que construa a autonomia dos estudantes. As citações que escolhi mostram um pouquinho das ideias do autor.

“Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (p.25).

Isso quase dá um nó na nossa cabeça, não? Mas é bem simples, se pararmos para pensar: quando ensinamos algo a alguém estamos, ao mesmo tempo, aprendendo melhor aquilo (diz-se que a melhor maneira de aprender algo é ensinando). Por outro lado, a pessoa que está aprendendo, está, ao mesmo tempo, ensinando algo, inclusive, nos ensinando a ensinar. Louco, não?

Há, ainda, outra citação que acho muito importante e que, aparentemente, esquecemos muito nos dias de hoje:

“E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiados certos de nossas certezas” (p.29)

Por que a gente sempre acha que tem que ter razão e que são os outros que não entendem os nossos argumentos? Mais mente aberta e menos briga desnecessária!

“Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor” (p.43)

Quem nunca teve um professor que marcou sua vida ou até mesmo que mudou completamente algo em você? Ou ainda, ampliando a citação: quem nunca conheceu alguém que mudou a sua vida? Todos nós temos o poder de transformar, para o bem ou para o mal, a vida daqueles que estão ao nosso redor. Por isso devemos ser cuidadosos com nossas palavras e ações.

Voltando ao Paulo Freire, vamos entender melhor uma parte de sua visão sobre a educação. Para isso, acredito que a próxima citação possa ser de grande ajuda:

“Me movo como educador, porque primeiro me movo como gente” (p.92)

Não importa qual é a nossa profissão, precisamos, em primeiro lugar, sermos humanos uns com os outros. E professores, evidentemente, não ficam de fora dessa, até porque estão constantemente lidando com outros seres humanos, seres que carregam histórias, dores, alegrias. Seres que são sensíveis.

E falando em sensibilidade, para terminar:

“Precisamos aprender a compreender a significação de um silêncio, ou de um sorriso, ou de uma retirada da sala” (p.95)

Costumo ampliar o sentido dessa passagem também, pensando que nós nunca sabemos exatamente o que está se passando na vida das outras pessoas e que, por isso, a compreensão (ou a empatia) é tão necessária para um bom viver em sociedade.

Sobre a escrita – Stephen King

Título: Sobre a escrita: a arte em memórias
Original: On writing 
Autor: Stephen King
Editora: Suma das Letras 
Páginas: 256 
Ano: 2015 (1º edição) 
Tradução: Michel Teixeira

Vai ser difícil falar de um livro sensacional como esse, viu? É verdade que eu nunca havia lido nada desse autor e confesso que deu vontade de saborear alguma de suas histórias, até para ver, na prática, a escrita dele.

“Acredito que muitas pessoas têm pelo menos algum talento para escrever ou contar histórias, e esse talento pode ser fortalecido e afiado”

Sobre a escrita (p.20)

Me lembro que só de abrir o livro já dei um sorriso e me encantei. As epígrafes são as seguintes: “A honestidade é a melhor política” (Miguel de Cervantes) e “Mentirosos prosperam” (Anônimo) (!!!!).

Em seguida nos deparamos com três prefácios: no primeiro o autor fala sobre uma banda de rock da qual participou. Pode parecer aleatório, mas ele faz isso para mencionar uma frase interessante que ouviu. No segundo prefácio, mais curto que o primeiro, o autor nos fala sobre o tamanho do livro. Por fim, no terceiro prefácio, Stephen King fala, em apenas um parágrafo, sobre a importância do editor. De certa forma, cada um desses prefácios é um agradecimento a uma pessoa diferente.

O livro está dividido em algumas partes, cada uma delas com uma estrutura única. E todas são bem interessantes!

Primeiro temos Currículo, que é onde Stephen King nos conta um pouco sobre sua infância, adolescência, vida adulta, os primeiros contos que escreveu, as dificuldades.

“O que me levava a acreditar que eu tinha algo de útil a dizer?”

Sobre a escrita (p.10)

É uma parte em que a leitura flui. Eu ri, senti compaixão pelo escritor e até aflição! (Pois é, tem uma parte sobre os problemas de ouvido que ele tinha que são de arrepiar. Se as histórias de terror dele são assim, não sei te terei coragem de ler não…). Também podemos ter uma ideia de como eram as relações de King com sua família, principalmente a mãe e o irmão. A mãe, aliás, foi sua primeira grande incentivadora nessa empreitada de se tornar escritor.

“Ela disse que era tão bom que deveria estar em um livro. Nada que ouvi desde então conseguiu me fazer mais feliz”

Sobre a escrita (p. 29)

Depois desta “introdução”, temos O que é a escrita, que é uma espécie de conto sobre o tema. Trata-se de algumas reflexões do autor e é uma parte que quase chega a ser poética.

“Estou convencido de que o medo é a raiz de toda má escrita”

Sobre a escrita (p.113)

A terceira parte, Caixa de ferramentas, começa com uma espécie de crônica sobre este objeto e Stephen King, a partir dessa narrativa, inicia uma metáfora muito interessante sobre os elementos essenciais para uma boa escrita.

“É melhor sempre ter as ferramentas consigo. Se não tiver, pode ser que você encontre alguma coisa inesperada e desanime”

Sobre a escrita (p.101)

Aqui o autor fala sobre vocabulário, gramática, elementos de estilo e ritmo.

“A gramática não é apenas chateação; é a estrutura em que você se apóia para construir os pensamentos e colocá-los no papel”

Sobre a escrita (p.108)

Em seguida vem Sobre a escrita, uma parte homônima ao título do livro, em que o autor traz mais alguns princípios importantes da escrita. Ele considera este o coração da obra.

“Quando acerta o alvo, uma metáfora nos agrada tanto quanto encontrar um velho amigo em meio a uma multidão de desconhecidos”

Sobre a escrita (p.153)

Uma coisa que Stephen King faz questão de destacar ao longo deste livro e principalmente nesta parte, é a necessidade de ler e escrever muito.

“Cada livro que se pega para ler tem uma ou várias lições, e geralmente os livros ruins têm mais a ensinar que os livros bons”

Sobre a escrita (p.126)

Apesar de muito interessante também, confesso que essa foi a parte que mais enrolei para ler. No entanto, ao chegar ao final e passar para a última parte, uma surpresa…

“A escrita não é a vida, mas acho que, algumas vezes, pode ser o caminho de volta a ela”

Sobre a escrita (p. 212)

Em Sobre a vida: um postscriptum, o autor nos conta sobre um sério acidente que sofreu. Era algo que eu realmente não esperava encontrar neste livro, mas que achei muito interessante. Primeiro porque, novamente, Stephen King nos dá uma aula (prática) de narrativa. E também porque ele parece cada vez mais se aproximar do leitor para mostrar a ele que somos todos igualmente seres humanos.

“Quando você escreve, está criando seus próprios mundos”

Sobre a escrita (p.136)

Outro ponto que achei muito interessante ao longo do livro, mas que fica ainda mais claro nessa última parte, é o amor de King por sua esposa, Tabby. Ele reconhece a felicidade de ambos, os esforços dela com relação a ele e sua imensurável ajuda.

“Escrever é um trabalho solitário. Ter alguém que acredite em você faz muita diferença”

Sobre a escrita (p.68)

Tabby não só apoia e incentiva Stephen King, como também é sua primeira e mais fiel leitora.

“Todas as opiniões têm o mesmo peso? Para mim, não. No fim das contas, eu ouço mais a de Tabby, porque é para ela que escrevo, é ela que quero surpreender”

Sobre a escrita (p.186)

Nem todo mundo consegue encontrar o amor da sua vida e, menos ainda têm a sorte de ter um amor tão compreensível e dedicado. E só quem já teve essa sorte na vida sabe o quão incrível é!

Por fim, o autor ainda colocou duas listas de livros que ele leu nos últimos anos. Pode ser um bom lugar para encontrar sua próxima leitura!

Citações #1 — Fúria Vermelha

Comecarei as citações do blog com frases retiradas do livro Fúria Vermelha, escrito por Pierce Brown e publicado no Brasil pela editora Globo Alt. Trata-se do primeiro volume da série Red Rising e é um romance de ficção científica que se passa em Marte.

É interessante como esse livro fala sobre nosso lugar no mundo e sobre força.

“Não sou tão durão quanto imaginava ser. Nenhum mergulhador-do-inferno de fato é. Nenhum home de fato é” (p.83)

“Nos lugares densos de homens, a humanidade se desintregra com mais facilidade” (p.101)

“O mundo é muito grande e frio. Sou pequeno demais” (p.326)

Fúria vermelha também faz algumas críticas à sociedade e ao poder.

“Vazia é a vida sem liberdade, Darrow” (p.52)

“Vingança é uma coisa vazia, Darrow” (p.89)

(é engraçado perceber como, no livro, essas duas citações estão relativamente distantes uma da outra, mas colocadas assim, tão perto, nos mostra o quão parecidas e complementares são).

“Poder não é uma coisa real. É apenas uma palavra” (p.115)

“Ninguém saca o jogo, porque ninguém conhece as regras. Ninguém segue o mesmo conjunto de regras. É como a vida” (p.365)

Há, ainda, uma forte presença da humanidade, que, contraditoriamente, está muito em falta na história.

“Cansado de ver todos os olhos cheios se esvaziarem” (p.124)

“Ele é feio num mundo onde deveria ser bonito e, por causa de suas deficiências, foi escolhido para morrer. Ele, de muitas maneiras, não é melhor do que um vermelho” (p.289)

“É como se ele fosse tão sensato a ponto de ser inumano” (p.423)

Itinerãças – Béatrice Costa

Título: Itinerãças
Autor: Béatrice Réichen V. Costa
Editora: Paulistana
Páginas: 110
Ano: 2018

Como o título desse livro provavelmente causa certo estranhamento, começo esta resenha por ele. Vocês conhecem Manoel de Barros? Se conhecerem, provavelmente já terão entendido a referência. Caso contrário, explico: Manoel de Barros, poeta brasileiro que adorava brincar com as palavras, possui um livro chamado Livro das Ignorãças. Béatrice deparou-se com essa obra justamente quando pensava em um título para seu livro e resolveu entrar na brincadeira: assim nasceu Itinerãças.

Mas não é apenas o título que supreende: Itinerãças é algo inédito, e tudo está muito bem explicado desde o início. O que temos aqui é uma espécie de diário (literalmente) de mestrado, em que a autora compartilha conosco suas dúvidas, incertezas, medos, alegrias, descobertas e avanços.

Mas como e por quê um “diário de mestrado”? Béatrice começa seu livro nos explicando isso. Tudo surgiu com uma sugestão de sua orientadora:

“Compre um caderno bem bonito. E comece a escrever”

Itinerãças (p.7)

Esta sugestão foi dada ante a angústia de Béatrice, que não sabia bem como e nem por onde começar a escrever sua dissertação. A ideia foi acatada, sem que elas desconfiassem que a “brincadeira” viria a ser publicada.

A escrita de Béatrice é deliciosa. Tem certo ar poético e brincalhão e consegue ser leve mesmo nos momentos em que ela provavelmente se encontrava em grande dúvida. Os capítulos são super curtos e é possível ler esse livro “em uma sentada só”. Mais do que isso, dá vontade de ler de novo e de novo!

Pessoalmente, fui pega de surpresa com um capítulo em que Béatrice fala sobre o livro O som e o sentido, que estou há tempos enrolando para começar a ler. O mesmo ocorreu com ela e por motivo semelhante: o medo que ele nos causa, parecendo extremamente técnico para alguém que folheia suas páginas. Quando li esse medo descrito nas páginas de Itinerãças percebi que está mais do que na hora de enfrentá-lo.

Confesso que não sei se é muito fácil encontrar esse livro, talvez apenas entrando em contato com a editora Paulistana. Só cheguei a ele por conhecer sua autora: Béatrice foi mestranda do Programa de Pós-Graduação em Francês, da Universidade de São Paulo e sua pesquisa é muito interessante. Ela trabalha com a canção no ensino de línguas, tema que muito me atrai. Além disso, o formato que ela usou em sua dissertação é inovador e torna até mesmo a leitura de um trabalho acadêmico totalmente prazerosa (quando minha orientadora sugeriu que eu lesse, não achei que iria gostar tanto quanto gostei. Me tornei fã de Béatrice sem que ela soubesse). É possível ter acesso a essa pesquisa, entitulada A música como experiência: potencialidades da canção no ensino-aprendizagem de francês língua estrangeira, e eu recomendo para aqueles que se interessam por língua estrangeira e música.

Já com relação ao livro, recomendo a todos que pretendem fazer um mestrado ou um doutorado, ou mesmo para aqueles que já estão nesta trajetória. Poderia ir mais além, e recomendar esta obra para todos aqueles que se encontram em um momento de bloqueio de escrita ou mesmo para aqueles que têm medo de uma página em branco. Este diário nos mostra como começar colocando tudo o que nos vem à mente em um papel pode ajudar a clarear nosso pensamentos e “destravar” a escrita.

“Perco-me em devaneios. É tão mais fácil e prazeroso sonhar. Realizar é perigoso, dá trabalho, abre espaço para críticas”

Itinerãças (p.47)

A menina que não sabia ler – John Harding

Título: A menina que não sabia ler
Original: Florence and Giles
Autor: John Harding
Editora: LeYa
Páginas: 282
Ano: 2010 (1º edição)
Tradução: Elvira Serapicos 

Imagine viver em uma mansão decaída, no meio do nada, sem grandes entretenimentos e sem poder ler. Terrível, não? Pois era assim que viviam, a princípio, Florence e Giles. Por causa da morte dos pais, os irmãos são enviados pelo tio (que nunca viram na vida) para Blithe House (a tal mansão), para viver na companhia da Sra. Grouse – a governanta – e de Meg, Mary e John, os empregados.

Fiquei pensando se a figura do tio ausente – ou qualquer outro parente próximo – que se torna o guardião de seus sobrinhos órfãos não é um lugar comum na literatura. Existem muitas histórias como essa, em que aparece também uma mansão, para onde são enviadas essas crianças, como por exemplo em O Jardim Secreto (para citar ao menos um).

Florence – narradora desta história -, no entanto, não fica parada: ela adora inventar brincadeiras com seu irmão mais novo e ama explorar a mansão em que vive. Em um de seus passeios descobre uma enorme biblioteca, totalmente abandonada e cheia de pó. Por ordens expressas do tio, Florence não deveria ser alfabetizada, apenas Giles. Por conta desta proibição, nossa narradora se alfabetiza sozinha!

“O que eu mais gostava em Shakespeare era a facilidade com que lidava com as palavras. Parecia que, se não houvesse palavra para o que queria dizer, ele simplesmente a inventava. Ele poetava o idioma”

A menina que não sabia ler (p.18)

Até aqui a história é linda de se ler! Uma jovem se alfabetizando sozinha e indo contra as restrições impostas por seu tio, que sequer sabe como é e como vive a pequena Florence. Além disso, para acabar de vez com a monotonia daquela vida, surge em Blithe House um jovem, Theo Van Hoosier, que passa os verões em uma casa perto de Florence e Giles. Devido à sua asma, Theo começa a viver nesta casa não apenas durante o verão, e suas visitas a Florence tornam-se constantes. Ele vive tentando galanteá-la, mas ela o repele desde o início. Além disso, critica severamente os versos que ele lhe escreve. Versos simples demais para a jovem devoradora dos grandes clássicos presentes na biblioteca.

A verdade, no entanto, é que lá para o meio do livro, apesar de todos esses acontecimentos, a história parece meio parada e quase dá vontade de desistir da leitura. Uma página a mais, porém, e tudo acontece. Mas acontece tão rápido que chega a ser confuso e, no final das contas, muitas pontas ficam soltas.

O que ocorre em Blithe House é tão surreal que fica difícil distinguir o que é “realidade” e o que é apenas imaginação de Florence. Não sei, aliás, se há algo ali que tenha sido somente imaginação dela. Por ter sofrido um trauma durante a história, Florence poderia estar apenas criando coisas em sua cabeça, como uma forma de proteger-se dessas lembranças ruins. Alguns personagens, inclusive, sugerem isso explicitamente a ela. Dadas as resoluções da história, no entanto, se tudo era apenas uma criação de uma mente perturbada, pode-se dizer que temos uma bela história de horror aqui.

Mesmo que tudo o que Florence tenha visto e vivido seja real, contudo, sinto que as ações que ocorrem ao final do livro foram muito drásticas. Existiam alternativas interessantes e que também não deixariam a história tão óbvia. No entanto, não vou negar que a sucessão de acontecimentos prende o leitor e li as últimas cinquanta páginas de um fôlego só.

A playlist da minha vida – Leila Sales

Título: A playlist da minha vida 
Original: This song will save your life 
Autor: Leila Sales
Editora: Globo Livros 
Páginas: 310 
Ano: 2014 (1º edição) 
Tradução: Amanda Orlando

Narrado por Elise Dembowski, A playlist da minha vida é um livro que nos traz os dramas e as aventuras de uma jovem excluída. Aos quinze anos de idade, Elise não tem amigos e sofre bullying na escola. Em sua visão, as pessoas se afastam dela por sua inteligência admirável, seus gostos peculiares, seu jeito de ser e sua opinião formada.

“Dar duro no que quer que seja, por definição, não é nada descolado”

A playlist da minha vida (p.13)

Cansada de ser sozinha e “a esquisita da escola”, Elise decide tomar providências: ela passa as férias inteiras tentando aprender a ser uma adolescente normal e “descolada”. No primeiro dia de aula, porém, percebe que todo seu esforço foi em vão e, então, decide agir mais drasticamente, pensando em se matar. Antes, porém, ela faz um “teste” cortando apenas um pouquinho  dos pulsos.

“Eu queria ferir a mim mesma”

A playlist da minha vida (p.41)

Ao se recuperar, Elise percebe que o suicídio não era exatamente o que ela buscava para si. Ela queria dar uma lição naqueles que a maltratavam, mas ao se matar, ela só deixaria para eles um gostinho de vitória, sem conseguir provar que seria capaz de dar a volta por cima.

“Há coisas que você não pode mudar”

A playlist da minha vida (p.190)

Alguns meses depois desse acontecimento, Elise adquire o hábito de andar pelas ruas da cidade durante a noite, saindo às escondidas, depois que todos em sua casa vão se deitar. É justamente em uma dessas andanças que ela descobre a Start, uma balada underground. Ali ela faz amizades, principalmente com Vicky e Pippa, apaixona-se pelo DJ Char e ainda descobre mais um talento: discotecar.

Conhecer a Start, fazer amizades, apaixonar-se… Tudo parece um sonho para Elise, mas sua vida ainda está cheia de problemas e altos e baixos. Nossa protagonista nunca deixa de se meter em algumas enrascadas.

“Às vezes, temos aqueles dias em que tudo dá errado. Mas, às vezes, alguma coisa pode dar certo da maneira mais inesperada possível”

A playlist da minha vida (p.102)

Não dá para dizer que este seja um livro de drama adolescente, uma vez que nem todos  nesta fase são tão isolados ou sofrem tanto bullying quanto Elise. No entanto, é, sem dúvidas, uma excelente recomendação de leitura para jovens, tanto “excluídos” quanto “populares”, uma vez que, para os primeiros pode trazer alento, enquanto para os demais pode trazer alguns bons ensinamentos.

“Às vezes, as pessoas acham que sabem quem você é. Elas sabem de algumas poucas coisas a seu respeito e juntam as peças de uma forma que faça sentido para elas”

A playlist da minha vida (p.270)

Cada capítulo começa com o trecho de uma música, construindo, assim, a playlist de Elise.

E por falar nisso, uma coisa que achei interessante neste livro é o fato dele falar sobre discotecagem, afinal, quando um livro como este trata de música, geralmente são as canções e não um outro lado desse universo. Eu nunca havia pensado em como um DJ tem de tomar cuidado ao passar as músicas, não apenas combinando uma com a outra, mas também acertando a maneira de fazer esta transição. Além disso, como o próprio Char diz, o DJ deve saber ler seu público, perceber o que agrada e o que faz todo mundo sair um pouco da pista.

A música do silêncio – Andrea Bocelli

Título: A música do silêncio
Original: La musica del silenzio 
Autor: Andrea Bocelli
Editora: Generale
Páginas: 320
Ano: 2013
Tradução: Claudia Zavaglia

(Leia ao som de Con te partirò)

Antes de escrever qualquer coisa sobre este livro preciso confessar uma coisa: eu não sabia que Andrea Bocelli é cego!

Em A música do silêncio, Andrea Bocelli dá vida a Amós Bardi, que é ninguém menos que o próprio autor transformado em personagem para preservar a identidade de outras pessoas que aparecem na história. Mas basta prestar atenção às iniciais do personagem e do escritor e você começará a perceber as semelhanças…

A escrita deste grande tenor italiano é leve, quase como uma conversa, fluida. Além disso, o autor se dirige ao leitor em alguns momentos, nos tirando da ficção e nos lembrando que trata-se de uma história real. Como não poderia deixar de ser, o único personagem que conhecemos a fundo é Amós, o que não nos impede de compreender bem as relações deste com as demais pessoas que o cercam.

Através de Amós conhecemos, então, toda a vida de Andrea Bocelli, desde sua feliz infância, apesar de todas as dificuldades, passando por sua adolescência até a vida adulta e, por fim, o sucesso. Entramos em contato com suas dúvidas, seus medos, seus amores, suas conquistas.

“Ó amarga adolescência, ó verdes anos nos quais a felicidade e a serenidade inconscientes podem, inexplicavelmente, causar desconforto, solidão, tristeza…”

A música do silêncio (pg.76)

No quarto capítulo do livro o autor resolve dar um sobrenome a seu personagem, que passa a ser Amós Bardi. Neste mesmo capítulo somos apresentados à sua família e seus costumes.

Mesmo com os percalços da vida, Andrea Bocelli conseguiu manter-se, na maioria das vezes, positivo e sua narrativa é, muitas vezes, otimista. Nascido cego, o cantor italiano enxergava luzes e cores com o olho direito. Após um triste episódio – cuja narração no livro chega a ser angustiante – ele perde inclusive esta capacidade. Ainda assim, o jovem encontra forças para seguir adiante: forma-se em Direito, bate de porta em porta atrás de uma gravadora que acredite em seu trabalho, continua sempre a estudar, busca melhorar sua performance musical. Um dia, finalmente, a vida lhe sorri. E tudo muda, tornando Andrea Bocelli o nome que conhecemos hoje.

“Conclusão: cada um de nós nada mais é do que a soma de todas as próprias experiências e conhecimentos”

A música do silêncio (pg.99)

A música do silêncio é, portanto, um livro encantador. Uma história que prende e que nos ensina. Uma narrativa suave, mas ao mesmo tempo real e até mesmo doída. Andrea Bocelli não é apenas um grande tenor, é também uma pessoa cheia de sentimento e lirismo, algo que fica evidente ao longo das páginas deste livro, principalmente quando ele fala de seus sentimentos e de seus amores.

A lógica inexplicável da minha vida — Benjamin Alire Sáenz

Título: A lógica inexplicável da minha vida
Original: The Inexplicable Logic of my Life 
Autor: Benjamin Alire Sáenz
Editora: Seguinte
Páginas: 442
Ano: 2017 (1º edição)
Tradução: Flávia Souto Maior

(Para ler ao som de Paciência – Lenine)

A lógica inexplicável da minha vida é narrada por Salvador, ou então Sally, apelido criado por sua melhor amiga. Ele é um jovem que está no último ano do Ensino Médio e o livro nos mostra como sua vida vai de certezas a incertezas em apenas um instante. Por  Sally ser o narrador da história, conhecemos mais os  seus sentimentos, o que não significa que temos uma visão superficial dos demais personagens, uma vez que ele é extremamente empático.

Justamente pelo fato dos demais personagens terem um papel importante nesta trama, não podemos falar do livro sem falar deles também. A começar por Vicente, o pai adotivo de Salvador. Ele é um adulto maduro, bonito… e gay. Para Salvador isso não é um problema. Para o próprio Vicente isso não é um problema. Mas, para a sociedade em que vivemos… Bem, isso às vezes é um problema.

“As pessoas podem ser muito cruéis. Elas odeiam o que não conseguem entender”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 20)

Outro personagem importante é Mima, a avó de Salvador. Ela é uma figura doce, forte  (e ao mesmo tempo frágil) e cheia de histórias. A relação entre avó e neto é muito bonita e eles têm sempre conversas recheadas de lições e afetos.

“Se viver é uma arte, Mima é Picasso”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 53)

Temos ainda Sam a melhor amiga de Salvador. Os dois se conhecem desde muito pequenos, moram perto um do outro e compartilham de tudo. Uma amizade de irmãos. E há também Fito, que estuda no mesmo colégio que eles e enfrenta grandes batalhas: ele é filho de uma mãe viciada em drogas e é um jovem gay.

“Eu simplesmente não entendia o coração humano. O coração de Fito deveria estar partido. Mas não estava”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 74)

Há muitos outros personagens ao longo da narrativa, mas tendo conhecido estes é possível ter uma boa dimensão do que se passa, uma vez que cada um deles carrega uma grande carga de sentimentos e imprevistos que afetam, também, o nosso narrador.

“Lembrei da tempestade da noite anterior. Uma havia terminado; outra estava começando”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 133)

O livro está dividido em seis partes, uma mais supreendente que a outra. No início de cada parte sempre há uma frase ou parágrafo que sintetiza o que ocorrerá a seguir, nos ajudando a ter uma dimensão do que se passa na história sem dar spoillers. Vejamos:

  • Parte um: Talvez eu sempre tenha tido uma ideia errada sobre quem eu realmente era.
  • Parte dois: Tínhamos tanta certeza de nós mesmos, mas agora estávamos perdidos.
  • Parte três: De certo modo, por ela estar com as emoções à flor da pele, aquilo me ajudava a não ir pelo mesmo caminho. Não fazia sentido algum, mas o que eu e Sam compartilhávamos… Bom, tinha uma lógica própria.
  • Parte quatro: Talvez a vida fosse assim. Ir e voltar, depois acordar todas as manhãs e ir e voltar um pouco mais.
  • Parte cinco: Estradas são lisas e asfaltadas, e têm placas que dizem para que lado se deve seguir. A vida não é nada parecida com uma estrada.
  • Parte seis: À distância, é possível ver uma tempestade se formando: as nuvens escuras e os relâmpagos no horizonte vindo na minha direção. Eu espero, espero e espero pela tempestade. Quando ela chega, a água da chuva leva com ela os pesadelos e as lembranças. E eu não tenho medo.

Este livro consegue abordar de maneira simples, leve e deliciosa temas como preconceito, medo, amor, incertezas, amizade, união, perda, crescimento, aceitação… Fala sobre a vida, se quisermos ser sintéticos.

“Há dias em que acontecem coisas ótimas, e tudo é lindo e perfeito, e, do nada, tudo pode ir direto para o inferno”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 331)

Além disso, Salvador nos ensina que mesmo as pessoas que têm uma vida aparentemente perfeita – um pai legal, boas condições financeiras, amigos queridos, uma família bacana – podem viver grandes conflitos internos, afinal o “sentimento” é algo comum a todos os seres humanos. Bem como o amor. E é por amar cada pessoa do bem que o cerca que Salvador sofre tanto.

“Talvez tudo parecesse normal superficialmente. No interior, bem, havia sempre algum tipo de furacão”

A lógica inexplicável da minha vida (pg.267)

Eu perdi a conta de quantas vezes usei a palavra “sentimento” nesta resenha, mas é que A lógica inexplicável da minha vida definitivamente fala direto com nossos corações. Vem conferir com seus próprios olhos: