TAG: Conhecendo cada blogueiro

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Hoje é dia de responder à primeira indicação que este blog recebeu! Trata-se da TAG Conhecendo cada blogueiro, criada pela Thais, do Felicisses. Mas antes, claro, gostaria de agradecer imensamente esta indicação, que mostra que o que vem sendo apresentado neste blog tem sido lido por outros blogueiros também. Muito obrigada, Thais!

A ideia é que com essa TAG a gente possa conhecer um pouquinho mais cada blogueiro, por isso, após responder às perguntas, a ideia é indicar outros blogs também. Vamos lá?

1-Qual foi a sua primeira opção de plataforma quando pensou em criar um blog? O que lhe chamou mais atenção?

Minha primeira opção de plataforma para o blog foi o Worpress mesmo, pois gostei do aplicativo dele e, após breves pesquisas na internt, percebi que esta plataforma atendia às minhas expectativas (que não eram muitas, na realidade).

2-Você está satisfeito(a) com o WordPress? Por quê?

Sim, muito satisfeita. Como eu disse, ele atende minhas expectativas, sendo possível criar um blog do jeitinho que eu gostaria e, mais tarde, sei que pode ser possível ter o domínio dele, deixando-o ainda mais profissional.

3-Por que quis criar um blog? Sempre teve essa vontade?

Não vou dizer que seeempre tive vontade de criar um blog, mas quando essa ideia surgiu… Não saiu mais da cabeça!

4-O que você mais gosta em seu blog?

Gosto de compartilhar minhas leituras, mas o mais interessante mesmo são as interações com outros blogueiros e visitantes.

5-Consegue postar com frequência?

Por enquanto estabeleci a frequência de uma vez por semana postar algo e tenho conseguido mantê-la.

6-Quais tipos de conteúdos gosta mais de abordar?

Bem, uma breve visita por aqui e já é possível perceber que falo majoritariamente sobre livros. Mas ainda trarei outros assuntos também.

7-Você interage muito com outros blogueiros? O que acha bacana quando lê posts de outros blogs?

Quando o conteúdo realmente me atrai e sinto que posso comentar algo de interessante ou incentivador, eu comento. E procuro sempre responder comentários feitos em meu blog.

Eu gosto da variedade de assuntos dos blogs e de ver como um mesmo assunto pode  ser abordado e escrito de formas diferentes por pessoas diferentes.

8-Como é a elaboração de suas postagens? Segue algum tipo de “ritual”?

Como a maioria dos meus posts são resenhas, obviamente eu preciso, em primeiro lugar, ler o livro. Ao longo dessa leitura já vou pensando um pouco no que seria legal destacar, além de registrar algumas frases que podem entrar na resenha. Depois, eu jogo tudo aqui, pesquiso algumas informações e vou montando o quebra-cabeça. Por fim, tiro uma foto do livro, para colocar junto ao post.

9-Que tipo de música gosta de escutar? Indique uma para os seus amigos blogueiros.

Gosto de tudo um pouco, mas ouço muita música brasileira (mpb no geral).

Fiquei com vontade de indicar Céu de Santo Amaro – Flávio Venturini e Caetano Veloso

10-Qual o seu gênero favorito de filme? Indique aí também!

Difícil essa… Talvez comédia ou comédias românticas.

Mas a indicação é fácil: A Família Bélier (amo esse filme!)

 

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Uma paixão chamada livros

Amanhecer literário

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P. R. Cunha escritor

Koisas e Coisas

 

 

Enclausurado – Ian McEwan

Título: Enclausurado
Original: Nutshell
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 199
Ano: 2016 (1º edição)
Tradução: Jorio Dauster

Leia as primeiras linhas de Enclausurado e você talvez pense “Machado de Assis!”. Isso porque o narrador desta história é um feto. Sim, o extremo oposto de um defunto-autor, mas ainda assim, algo bem Machadiano. E mais: trata-se de um narrador irônico, esperto, observador do mundo à sua volta. Ian McEwan, no entanto, não foi tão longe para se inspirar, fazendo referências mais claras à Hamlet, de seu conterrâneo Willian Shakespeare.

“Deus disse: que seja feita a dor. E depois se fez a poesia”

Enclausurado (pg. 53)

Os três primeiros capítulos trazem uma apresentação  dos personagens centrais desta trama: no primeiro conhecemos Truddy, a mãe do narrador, depois somos apresentados a John Cairncross, que é o pai e, por fim, a Claude, uma figura não muito querida aos olhos do feto. Além disso, o próprio narrador vai se apresentando ao longos destes capítulos iniciais.

“Éramos capazes de perdoar todas as pessoas que conhecíamos. Nosso amor era pelo bem do mundo”

Enclausurado (pg. 76)

Parece uma história fácil de ler: o livo é pequeno, a leitura flui bem. Mas não nos enganemos: Enclausurado nos apresenta um grande domínio narrativo do autor, que mescla temas relativamente atuais com questões filosóficas e existenciais. O próprio narrador, por exemplo, antes mesmo de nascer, vive o dilema da vida e da morte.

“Por que o mundo se organiza de forma tão cruel?”

Enclausurado (pg. 41)

Além disso, por estar ainda na barriga de sua mãe, o narrador não tem como conhecer por inteiro os personagens de sua história, construindo-os com o leitor.

“Por mais perto que estejamos das pessoas, nunca se pode penetrar nelas, mesmo quando se está dentro de uma”

Enclausurado (pg. 119)

A história em si é praticamente um romance policial: Truddy e John estão separados, mas ele ainda a ama. E muito. Ela, no entanto, já possui um novo amor (ou uma relação por interesse?) e planeja coisas terríveis. As relações todas, aliás, são muito ambíguas e o final não nos ajuda a esclarecê-las, uma vez que é bem aberto.

“Já é claro para mim quanto da vida é esquecido mesmo enquanto acontece”

Enclausurado (pg. 166)

Enclausurado é, portanto, um livro rápido de ler, mas ao mesmo tempo denso. Um livro chocante e, ao mesmo tempo, realista. Um livro para quem busca uma leitura curta, mas que faça refletir.

Notas sobre a experiência e o saber de experiência

Título: Notas sobre a experiência e o saber de experiência
Autor: Jorge Larrosa Bondía
Revista Brasileira de Educação, nº 19
Páginas: 11
Ano: 2002
Tradução: João Wanderley Geraldi
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf

Hoje é dia de trazer para o Blog uma resenha um pouco diferente. Na verdade a resenha em si não é muito diferente das demais, mas traz minhas impressões sobre um artigo que li e não, como de costume, sobre um livro. Seria um erro, no entanto, deixar tal artigo esquecido, uma vez que ele pode gerar inúmeras reflexões. O texto está divido em sete pontos nos quais o autor tenta pensar a educação a partir do par experiência e sentido.

Inicialmente, Larrosa explora a palavra experiência:

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 21)

Dito isso, segundo o autor, a experiência é cada vez mais rara e ele enumera quatro elementos que a impedem de acontecer de forma devida:

  1. o excesso de informação, que não deixa lugar para a experiência: “A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma antiexperiência” (pg.21);
  2. o excesso de opinião: “Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados” (pg.22);
  3. a falta de tempo, uma vez que tudo tem se passado muito depressa, o que impede uma conexão entre os acontecimentos e seus legados: “A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos” (pg.23);
  4. o excesso de trabalho: “E por isso, porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos sempre em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E, por não podermos parar, nada nos acontece” (pg. 24).

No segundo ponto presente no texto, Larrosa fala sobre o sujeito da experiência:

“É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 25)

Já no item 3 o autor nos mostra o que a palavra experiência carrega consigo, partindo de sua origem latina com o significado de provar, experimentar:

“A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 25)

No item 4, Larrosa menciona uma definição de experiência encontrada em Heidegger com a qual ele concorda. Esta definição também ajuda a reforçar as características de experiência como travessia e perigo (características estas encontradas também em uma interessante comparação que o autor faz entre o ser da experiência e o pirata).

O quinto item é um dos mais bonitos. Nele o autor postula que a experiência é uma paixão e busca explicar este seu ponto de vista. Para isso, ele também apresenta alguns significados da palavra paixão.

No sexto item o autor fala sobre o saber de experiência:

“O saber de experiência se dá na relação entre o conhecimento e a vida humana”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 26)

E mais:

“Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 27)

Este item pode render boas reflexões. Evidentemente estamos chegando ao final do texto e o que vemos aqui é quase uma síntese do que o autor tentou apresentar ao longo de seu artigo.

Para terminar, no item 7, Larrosa nos mostra como a experiência é vista pela ciência moderna:

“A experiência já não é o que nos acontece e o modo como lhe atribuímos ou não um sentido, mas o modo como o mundo nos mostra sua cara legível, a série de regularidades a partir das quais podemos conhecer a verdade do que são as coisas e dominá-las”

Notas sobre a experiência e o saber de experiência (pg. 28)

Quis falar sobre este artigo, pois ao lê-lo senti-me realmente maravilhada. E sei que preciso retornar a ele quantas vezes forem precisas. Um texto que não se esgota em si e que, como eu disse ali no comecinho, pode gerar inúmeras reflexões.

Gostaria de deixar também um vídeo sobre este mesmo texto, para que vocês possam ver outras opiniões acerca deste artigo: Comentando: Notas sobre a experiência e o saber da experiência.

Noturnos – Kazuo Ishiguro

Título: Noturnos: histórias de música e anoitecer
Original: Nocturnes: five stories of music and nightfall 
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 210
Ano: 2017 (2º edição)
Tradução: Fernanda Abreu

(para ler ao som de Oh, you crazy moon – Chet Baker)

Esteticamente falando, Noturnos é lindo: capa azul, bordas das páginas na mesma cor, pássaros desenhados na capa, com um lindo violino. No entanto (e para a nossa sorte) o livro vai muito além desta beleza exterior, nos trazendo cinco contos protagonizados por instrumentistas e amantes da música e escritos em linguagem coloquial, fácil de ler e de se apaixonar.

Antes de falar sobre os contos, no entanto, vale a pena tentar entender o título do livro: na linguagem musical, um “noturno” é uma música clássica que reproduz estados de espírito únicos e extremamente líricos e que, originalmente, deveriam ser executadas em eventos sociais que ocorriam a noite, ao ar livre. A ambientação dos contos de Ishiguro não são exclusivamente noturnas, uma vez que os músicos tocam em diversos momentos do dia. Mas há o lirismo dos “noturnos” e os estados de espírito únicos.

O primeiro conto do livro chama-se Crooner. Com ele já pude aprender várias coisas sobre o mundo da música que, mesmo sendo uma de minhas paixões, eu desconhecia: crooner, por exemplo, é um cantor ou cantora de música popular que canta com uma orquestra ou conjunto instrumental. Além disso, o crooner que aparece nesta história é real: Tony Gardner (e eu nunca havia escutado nada sobre ele…).

Neste conto conhecemos o jovem músico Jan, cuja mãe era apaixonada por Tony Gardner. Numa bela tarde, enquanto Jan toca em uma praça de Veneza, ele avista Tony Gardner e decide ir conversar com ele. A partir disso Jan descobre muitas coisas: conhece Lindy Gardner, esposa de Tony; ouve um pouco mais da história de ambos; descobre que Tony já não é mais o mesmo sucesso de antes. Um conto sobre fama, amor, fins e recomeços.

Em Chova ou faça sol Raymond, que dá aulas de música na Espanha, decide visitar seus amigos de faculdade, Emily e Charlie, em Londres. Ao chegar lá, porém, vê-se diante de um casal em crise que quer usá-lo para demonstrar que existem outros tipos de fracasso na vida. Um conto cheio de intrigas, rancores, segredos e mágoas.

Malvern Hills começa ambientado em Londres, mas logo passamos para Malvern Hills, no interior da Inglaterra, onde o narrador, um músico iniciante decide se refugiar para compor mais algumas músicas. Para isso, no entanto, ele hospeda-se na casa de sua irmã, Maggie e seu cunhado, Geoff e os ajuda no café que possuem. Ali ele conhece Tilo e Sonja, que lhe causa uma péssima primeira impressão. Mais tarde, porém, este jovem músico encontra novamente Tilo e Sonja e os três conversam de igual para igual: todos ali são músicos. Um conto sobre inspiração, preconceito e, novamente, amor.

Noturno, além de ser um conto com o título muito parecido com o do livro é, também, o conto mais extenso de todos, além de ser o mais cheio de aventuras, altos e baixos, confusões. Aqui um saxofonista acaba se rendendo à ideia de fazer uma plástica facial em Beverly Hills para poder, finalmente, estar entre os melhores da música. Durante o período de recuperação ele conhece ninguém menos que Lindy Gardner (sim, a mesma do primeiro conto!) e então muitas coisas malucas começam a acontecer. Um conto sobre  aceitação, sucesso e aparências.

O último conto, Celistas, nos conta sobre quando Tibor, um músico em início de carreira, conhece uma americana que se considera uma virtuose. Pois bem, fui (novamente) pesquisar e, na música, a virtuose está relacionada ao excepcional domínio técnico desta arte. A tal moça americana, no entanto, possuia muito deste talento técnico, mas pouco tocava de verdade. Ainda assim, ela conseguiu ajudar Tibor. Um conto sobre amizade, influências e talento.

Apesar de histórias independentes, os contos carregam algumas semelhanças ou proximidades entre si: os finais, por exemplo, são bem abertos, deixando muito espaço para que nossa imaginação complete a história; a música que aparece nas histórias muitas vezes é o jazz (tanto é que o nome de Chet Baker aparece em todas elas) ou algum outro tipo de música considerado mais clássico; as narrativas não são exatamente felizes, ainda que consigam ter um toque de leveza e graça.

Noturnos foi um livro que, apesar da rápida leitura, me fez pensar sobre as histórias e me fez pesquisar e conhecer muitas coisas sobre o mundo da música. Para quem ama ler e ama música é, sem dúvidas, um prato cheio. Mas também não é um livro restrito somente a este público, graças à sua linguagem e narrativas que prendem. Ficou com vontade de ler? Então clica aqui:

O som do amor – Jojo Moyes

Título: O som do amor
Original: Night music
Autora: Jojo Moyes
Editora: Intríseca
Páginas: 304
Ano: 2016 (1º edição)
Tradução: Adalgisa Campos da Silva

Se a capa do livro e o título nos fazem pensar que O som do amor é apenas mais um romance “água-com-açúcar” devemos nos lembrar de “não julgar um livro pela capa”. Dito isso, meu primeiro “choque” com esta obra foi a quantidade de personagens. Evidentemente, Isabel Delancey é a protagonista, porém há muitos outros personagens essenciais nesta narrativa e a quantidade de nomes pode, em um primeiro momento, nos confundir. Além disso, a narrativa é, em boa parte do livro, lenta, demorando a chegar naquele ponto da história que não queremos mais largar o livro. Mas não larguei e não me arrependo!

O som do amor apresenta diversas histórias interligadas pela Casa Espanhola, uma construção em ruínas localizada no interior da Inglaterra, no condado de Norfolk. Através dela conhecemos seu velho proprietário, o Sr. Pottisworth; seus vizinhos gananciosos Laura e Matt, pais de Anthony; a já mencionada Isabel Delancey, mãe de Kitty e Thierry e viúva de Laurent; o misterioso Byron; o velho e simpático casal Henry e Asad; o imobiliário romântico Nicholas… E muitas outras pessoas que vivem em Londres ou Norfolk.

A narrativa é em terceira pessoa e a cada instante o narrador focaliza um personagem diferente, o que nos permite conhecê-los mais a fundo. Isto é importante para a história, por retratar dificuldades humanas, dores, medos e até mesmo recomeços.

“A tristeza nunca passaria, tinham lhe dito, mas ficaria mais fácil suportar”

O som do amor (pg. 67)

De maneira bem resumida: Isabel Delancey, primeiro violino na Orquestra Sinfônica Municipal e uma mulher totalmente dedicada à música, mesmo sendo casada e tendo dois filhos, vê sua vida mudar completamente com a morte do marido, Laurent, que deixa para trás enormes dívidas. Por sorte, um velho tio de Isabel, vem a falecer também, deixando a ela, como herança, uma bela casa. A tal casa, porém, estava caindo aos pedaços e ainda era objeto de cobiça de muitas pessoas, o que causa tantas confusões ao longo do livro.

O som do amor apresenta temas que podem ser muito comuns em romances, mas faz isto de maneira interessante, trazendo em doses homeopáticas os segredos de cada personagem e deixando pontas soltas para que possam ser amarradas mais adiante. Ao longo das páginas nos deparamos com o luto, o amor, intrigas (muitas!), recomeços, amizade, inveja, traições, vitórias, derrotas, sonhos, concessões. Uma história que fala do ser humano, em suma, com todos os seus desejos, contradições e projetos.

Caro professor – Ana Maria Machado

Título: Caro professor
Autora: Ana Maria Machado
Editora: Global
Páginas: 191
Ano: 2017 (1º edição)

Como explicado na apresentação deste livro, Caro professor reúne textos escritos por Ana Maria Machado para uma revista de educação que tinha como público alvo professores do ensino fundamental. Os textos eram publicados mensalmente e eram apresentados como uma espécie de carta. O “diálogo” mantém-se nítido mesmo com as cartas reunidas em livro.

“Gente que lê (e fala com entusiasmo do que leu) desperta nos outros a curiosidade para seguir seu exemplo e procurar ler também”

Caro professor  (pg. 20)

O livro é curto (ou talvez seja o fato dele ser composto por cartas que nos dá essa impressão) e possui uma linguagem simples e direta, sem termos técnicos relacionados à educação ou áreas afins, o que torna a leitura possível para todos aqueles que gostam de textos sobre projetos sociais, leis, acontecimentos históricos, causos cotidianos, educação (em sentido amplo), viagens. Um livro, portanto, eclético e divertido.

“E ler literatura é incomparável. Uma oportunidade de vivenciar algo único: a alteridade. Quer dizer, ser outro, continuando a ser o mesmo”

Caro professor (pg. 136)

Caro professor traz 60 cartas escritas entre 2008 e 2014. A organização dele é cronológica e, por vezes, podemos perceber como certas temáticas são recorrentes para a autora (ou talvez para seus leitores, uma vez que ela escrevia seus textos com base em cartas que recebia).

É difícil escolher um texto preferido, mas fiquei positivamente surpresa e feliz ao ler duas cartas sobre projetos de leitura. Eu acabara de ler A arte de ler e este assunto ainda ecoava em minha mente. Em Ler juntos a autora fala do projeto homônimo, que ocorre em Ballobar, na Espanha. Já em Um olhar cheio de esperança, Ana Maria Machado apresenta alguns projetos de estímulo à leitura que ocorrem no Brasil.

Também gostei muito de Palavrinhas mágicas, em que a autora narra uma história interessante de alunos que se surpreenderam com o simples “Boa tarde!” que uma funcionária distribuía a todos na entrada da escola. Este fato fez com que tal funcionária se desse conta de como palavras de cortesia estavam sendo subestimadas e subutilizadas.

“Hoje sabemos que somos nada. Que a vida é o lampejo do cisco. Que o que amamos é infinitamente precioso”

Caro professor (pgs. 54 e 55)

Fiquei encantada ainda com Todos podem fazer, que fala do projeto Candoco. Conhecem? Pois é, eu também não, mas após o convite da autora, entrei no site deles e adorei! E do mesmo modo que Ana Maria Machado nos convidou a conhecer este projeto, convido vocês a conhecer o livro dela.

Diário de Escola – Daniel Pennac

Título: Diario di scuola
Original: Chagrin d’école
Autor: Daniel Pennac
Editora: Universale Economica Feltrinelli
Páginas: 243
Ano: 2017 (10º edição)
Tradução (para o italiano): Yasmina Melaouah

Diário de escola não é o primeiro livro que leio de Daniel Pennac e, espero, não será o último. O autor tem uma escrita leve e fluída e trata de assuntos que muito me interessam. Neste livro, por exemplo, ele fala sobre alunos com baixo rendimento escolar e faz isso com propriedade por conhecer os dois pontos de vista: como aluno, Pennac era considerado um fracasso; como professor, ele tem de lidar diariamente com estudantes que não possuem um desempenho satisfatório.

“Basta um professor – apenas um! – para nos salvar de nós e nos fazer esquecer de todos os outros”

Diário de escola (pg. 209)

É muito interessante o modo como o autor nos mostra que o “mau aluno” muitas vezes (quase sempre, na verdade) é fruto da forma como os outros o tratam: considera-se o “mau aluno” um aluno perdido e não é dada a chance para que ele prove o contrário. Mais que isso: o próprio estudante deixa de acreditar em si mesmo.

“E é esse o destino do ignorante: ninguém acredita nele”

Diário de escola (pg. 73)

O livro é dividido em 6 grandes capítulos (que chamarei de seções), cada um deles subdividido em 12 capítulos menores. Apenas as seções possuem título e são acompanhadas de uma epígrafe, como mostrarei abaixo:

I- O aterro de Djibuti

Estatisticamente tudo se explica; pessoalmente tudo se complica.

II- Tornar-se

Tenho doze anos e meio e não concluí nada

III- Nós ou o presente da encarnação

Nunca conseguirei

IV- Mas então você faz isso de propósito

Não fiz de propósito

V- Maximilien ou o culpado ideal

Os professores nos tiram do sério

VI- O que significa amar

Neste mundo é preciso ser um pouco bom demais para ser o suficiente (Marivaux, Il gioco dell’amore del caso).

Diário de escola foi um livro que tive vontade de falar para o mundo sobre. Ele é uma importante ferramenta para professores, uma ótima leitura para curiosos e uma excelente ajuda para “maus alunos”. Um livro, portanto, para muitos gostos.

“Nada sai como o previsto, é a única coisa que o futuro nos ensina quando se torna passado”

Diário de escola (pg. 43)

A minha vontade é citar quase metade do livro aqui, mas não quero estragar o prazer da leitura daqueles que se interessaram por ele. Deixo, então, apenas mais uma citação e aproveito para dizer que li o livro em italiano e todas as citações que aqui aparecem foram traduzidas por mim do italiano para o português.

“Reduzidos a nós mesmos, somos reduzidos a nada. Tanto que, por vezes, nos suicidamos”

Diário de escola (pg.58)

A Arte de Ler – Michèle Petit

Título: A arte de ler ou como resistir à adversidade
Original: L'Art de lire ou comment résister à l'adversité 
Autora: Michèle Petit
Editora: 34
Páginas: 304
Ano: 2010 (2º edição)
Tradução: Arthur Bueno e Camila Boldrini

Este foi O livro que me deu a certeza de que eu precisava e gostaria de voltar a ter um blog sobre minhas leituras. E, claro, eu não poderia tê-lo ganhado de outra pessoa que não aquela que me deu a coragem e a vontade de retornar a este mundo online.

“Nossas vidas são completamente tecidas por relatos, unindo entre eles os elementos descontínuos”

A arte de ler (pg. 122)

Aliás, estas minhas palavras, percebo agora, ficaram um pouco parecidas com as do depoimento de um jovem colombiano, depoimento este que se encontra na capa final do livro:

“Aquele livro me deu a força necessária para enfrentar a virada decisiva de minha vida, aceitar que eu não era mais o mesmo, suportar sê-lo entre meus amigos, que não compartilhavam o que eu pensava e que tive de enfrentar para defender minha nova maneira de ver a vida…”

A arte de ler

São relatos como este que tornam este livro encantador. E não só: a autora nos apresenta, sob diversas perspectivas, a importância da leitura não apenas na educação mas, principalmente, como ferramenta de resistência ao nosso caos interior. A capacidade de “construir sentido” proporcionada pela leitura permeia as páginas desta obra.

“Os livros lidos ajudam algumas vezes a manter a dor ou o medo à distância, transformar a agonia em ideia e a reencontrar a alegria: nesses contextos difíceis, encontrei leitores felizes”

A arte de ler (pgs. 33 e 34)

O livro nos mostra a vivência de leitores, mediadores de leitura, bibliotecários, professores, psicanalistas, escritores e animadores culturais, além de apresentar alguns projetos interessantes de leitura compartilhada, principalmente na América do Sul. No Brasil, por exemplo, são citados o projeto Vaga Lume e o Instituto A Cor da Letra.

Lendo este livro pude redimensionar a importância da leitura. Para muitos, ela pode ser uma importante forma de resgate cultural e de sentido; para mim, ela tornou-se algo ainda mais mágico e poderoso.

“Os livros eram, naquele lugar, moradias provisórias, a maneira de recriar um pouco a casa perdida”

A arte de ler (pg. 90)

Como disse no início, esta obra me deu a certeza de que eu gostaria de voltar a escrever sobre os livros que leio pelo simples fato de que, me lembro bem, o grande desejo que eu tinha quando criei meu primeiro blog era justamente esse: falar sobre livros e despertar, no outro, a vontade de lê-los. Falar sobre livros e espalhar pelo mundo essa sensação incrível que a leitura nos propicia.

“Abramos então as janelas, abramos os livros”

A arte de ler (pg. 266)

E se alguém conhece projetos de mediação de leitura ou similares por este Brasil afora, por favor, compartilhe aqui!

O livro das Tatianices – Tatiana Belinky

Título: O Livro das Tatianices
Autora: Tatiana Belinky
Editora: Salamandra
Páginas: 53
Ano: 2004

Para dar início a este blog nada mais justo que falar deste livro que, como vocês já devem ter deduzido, me inspirou no nome que utilizo aqui. E não é apenas pelo fato de nossos nomes combinarem que este livro e sua autora me encantam. Vejam só o que é dito na apresentação desta obra:

“Este livro fala de coisas sérias, mas fala brincando!”

O Livro das Tatianices (pg.6)

Neste blog eu pretendo fazer justamente isso, falar de coisas sérias, mas falar brincado. Pretensões à parte, isso é algo que vale destacar: livros, em minha opinião, são coisa séria. Mas, ao mesmo tempo, são grandes fontes de conhecimento e de prazer. Assim como a música!

Sobre o livro em si o que posso dizer é que visualmente ele é lindo: tem páginas coloridas e ilustrações feitas pelo Laerte. Com relação ao conteúdo, temos variadas poesias da autora, que ao publicar este livro contava já com seus 85 anos.

É preciso deixar claro que não se trata de um livro apenas para crianças; muito pelo contrário, aliás: devido ao seu jeito provocativo e sua ideia de desconstrução, é uma obra altamente recomendada para adultos também, que deveriam ler os poemas com um olhar atento e um ar de desconfiança.

Confesso que esta dica fica para mim também, que há muitos anos não retorno a esta obra. Aquilo que li há anos (ganhei e devorei este livro em 2007) certamente já mudou, assim como eu mesma mudei nesses anos todos.