Destacando alguns aspectos — Diário de leitura (13)

Depois de um breve hiato, é hora de voltar com o meu diário de leitura de “As mil e uma noites” e, desta vez, com A história de Ganem, filho de Abu Airu, Escravo do Amor. E confesso que, escrevendo esse título, percebi que ele pode ser um pouco ambíguo, pois “Escravo do Amor” poderia referir-se à Ganem ou à Abu Airu. Lendo a história, porém, compreendo que refere-se à Ganem.

Essa é uma história, de uma forma ou de outra, muito parecida com algumas outras, mas não sei se pelos dias que fiquei afastada do livro ou se pela forma da narrativa mesmo, consegui detectar claramente dois traços culturais interessantes. Antes disso, porém, gostaria de destacar essa passagem, que ainda hoje nos serve tão bem:

“Apressou o passo para chegar mais depressa, mas como acontece frequentemente, quanto mais pressa se tem tanto menos se avança, tomou um caminho pelo outro e perdeu-se na escuridão, de modo que já era quase meia-noite quando chegou à porta da cidade”

Isso é o que hoje chamaríamos de Lei de Murphy. É interessante ver esse tipo de pensamento já numa história tão antiga quanto As mil e uma noites. Mas passemos aos traços culturais que mais pude notar nesta narrativa.

Outro dia, meu namorado me ensinou que, na cultura do Oriente Médio, coisas importantes não podem ser ditas em pé, porque essas coisas não podem ser ditas com pressa, já que, sendo importantes, precisamos refletir sobre elas. Quando ele me disse isso, pensei já ter visto algo do tipo em As mil e uma noites, mas não tinha nenhum exemplo concreto em mente. Nesta história, porém, isto apareceu novamente:

“Ele queria permanecer de pé, mas ela respondeu que não tocaria em nada se ele não se sentasse e comesse também”

Tendo esse conhecimento que meu namorado me transmitiu, uma frase que poderia não significar grande coisa, adquire todo um novo sentido. E isso, uma vez mais, me faz pensar em quanta coisa provavelmente foi passando ao longo da leitura, ainda que tantas outras me tenham feito pensar.

Porém, nessa mesma história, em duas ocasiões ocorre algo que eu ainda não sei o real significado, mas que me parece importante também: para demonstrar que determinada ordem do Califa será cumprida, seus súditos colocam a mão (ou uma carta, no caso de um deles) sobre a cabeça, como uma forma de “jurar” o cumprimento das ordens dadas. Alguém conhece o significado desse gesto na cultura oriental?

Para pensar sobre outras culturas — Diário de leitura (12)

Como eu comentei em meu último diário de leitura, agora não há mais a interrupção da narrativa a cada noite, e também já não é mais possível acompanhar em que noite da história nos encontramos.

Ainda assim, a história que venho comentar hoje, “A história de Beder, príncipe da Pérsia, e de Sahara, princesa do reino de Samandal”, era relativamente longa e, por isso, foi dividida em duas partes. Em minha opinião, achei a divisão desnecessária. Continuou sendo um longo “capítulo” que, por diversas vezes, interrompi no meio da leitura.

A história em sim, porém, foi mais uma narrativa capaz de prender o leitor. Era difícil escolher o momento de interromper a leitura, pois eu sempre queria saber o que viria a seguir. E olha que há muitos elementos já presentes em outras narrativas desta obra, como um casal que passa por mil desventuras até chegar ao final feliz, humanos transformados em animais, lutas entre reinos.

Logo no início, contudo, uma questão me deixou pensativa e é daí que vem o título do diário de hoje. Não quero fazer qualquer julgamento aqui, pois sei que estou me referindo a uma cultura muito diferente da minha (e sobre a qual continuo não sendo grande conhecedora), mas chamou-me a atenção que, de início, esta era uma narrativa sobre um rei que “apesar das mil mulheres”, não teve um filho para dar continuidade a seu reinado.

“Só num ponto se julgava infeliz: estar muito idoso e de todas as suas mulheres não haver uma só que lhe tivesse dado um príncipe que lhe sucedesse após a sua morte. No entanto, possuía mais de cem, todas acomodadas magnífica e separadamente, com escravas para servi-las e eunucos para guardá-las”

E bem, pensando aqui comigo, se de 100 mulheres, nenhuma lhe deu filhos, talvez o problema não fossem as mulheres… Mas não pude deixar de achar “engraçado” esse pensamento de que nem mesmo com tudo do bom e do melhor, o rei pode ter um filho. A prepotência dele, por assim dizer, também fica clara em outra passagem, um pouco mais adiante:

“Por que ficas tão silenciosa? De onde vem essa frieza, essa tristeza que te aflige? Lastimas teus pais, teus amigos? Mas então um rei da Pérsia, que te ama, que te adora, não é capaz de fazer-te esquecer tudo no mundo?”

O mais curioso de tudo isso, porém, é que a história flui. Eu tive certa estranheza com esses pontos, apenas de início, mas tudo segue tão naturalmente que acabamos não sentido nada de negativo com relação a esse rei. Muito pelo contrário, aliás, pois ressalta-se a sua bondade e lealdade que qualquer outra coisa. Para ser sincera, eu até mesmo havia me esquecido desse início… E aí, relendo agora, fico pensando como ele havia dito que era velho, mas, no final das contas, teve o filho que tanto desejava e ainda foi capaz de vê-lo crescer.

Mas faz sentido que a história seja assim e, principalmente, que o modo de se comportar deste rei não nos cause repulsa. É uma outra cultura e eram também, outros tempos. E é por isso que tem sido tão interessante fazer esse mergulho pelas “Mil e uma noites”.

Mudanças na estrutura da obra — Diário de leitura (11)

Depois das narrativas apresentadas em meu último diário de leitura, dei início à História de Nuredin e da Formosa Persa. Logo de cara, porém, um baque: deste ponto em diante não há mais a interrupção a cada noite, isto é, os “capítulos” do livro, agora, são formados por cada uma das narrativas de maneira completa, o que significa que são capítulos mais extensos.

Eu, particularmente, não gostei muito deste novo formato pois, como dito acima, os capítulos ficam mais extensos, mas também porque as interrupções a cada novo amanhecer me instigavam a continuar a leitura. Era aquela coisa de “só mais um capítulo”, porque geralmente isso significava só mais algumas páginas. Agora não, agora sinto que tenho de me dedicar à história inteira de uma vez e isso, por vezes, dá uma certa preguiça…

Esse formato, também, me faz pensar se, daqui para frente, haverá menos narrativas dentro das outras narrativas, como acontecia anteriormente. Na história de agora, por exemplo, foi assim. Havia, ali, apenas a história de Nuredin e da Formosa Persa.

Não que tenha sido uma história sem graça, muito pelo contrário. Trata-se de uma narrativa no estilo de outras que já li nesta obra, com idas e vindas e com passagens que nos fazem pensar “não é possível, isso não pode acontecer”. E, uma vez mais, o amor se faz presente, nos mostrando, também, muitos costumes da época ou da cultura oriental.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção, porém, foi uma passagem sobre a confiança. Sobre como, desde sempre, muitas relações são baseadas no interesse e que, quando não temos mais nada a oferecer ao outro, ele nos dá as costas.

“Reconheceu, então, o erro irreparável de ter confiado tão facilmente nos falsos amigos e nos seus protestos de amizade, enquanto lhes oferecia banquetes suntuosos e os cumulava de benefícios”

Imagino que essa passagem mesmo seja uma crítica a esse comportamento e é uma pena ver que, passam-se anos e anos e algumas coisas não mudam.

Das reviravoltas — Diário de leitura (10)

Como eu disse em meu diário anterior, chegando ao final do primeiro volume de As mil e uma noites, iniciei a leitura de mais uma história de amor. Trata-se de uma narrativa longa, que durou da noite 211 até a 236.

Compõem esse arco as seguintes narrativas:

  • A história dos amores de Camaralzaman, príncipe da ilha dos filhos de Kaledan, e de Badura, princesa da China;
  • A história de Marzavan, com o prosseguimento da história de Camaralzaman;
  • Separação do príncipe e da princesa de Badura;
  • A história da princesa Badura após a separação do príncipe Camaralzaman;
  • Continuação da história do príncipe Camaralzaman desde a sua separação da princesa Badura;
  • A história dos príncipes Amdjad e Assad;
  • A prisão do príncipe Assad ao entrar na Cidade dos Magos;
  • A história do príncipe Amdjad e de uma dama da Cidade dos Magos;
  • Continuação da história do príncipe Assad.

São muitos encontros e desencontros aqui, bem como muitos momentos tensos. Eu diria até angustiantes. Foi uma história que me prendeu bastante e que dava vontade de saber o que viria a seguir. E o final é daqueles que você fica “aaaah, não acredito, que final incrível!”.

Começamos conhecendo dois jovens que, cada um em seu reino, precisam se tornar rei e rainha, e que, portanto, precisam se casar. Seus pais, porém, querem lhes dar a liberdade de escolher o par perfeito, mas esses jovens são bem exigentes…

Em tese, eles nunca viriam a se conhecer, mas alguns seres mágicos, para satisfazer seus próprios desejos, acabam por aproximá-los… E igualmente separá-los. E é neste ponto que as coisas começam a ganhar mais emoção.

Mas não para por aí não. Toda vez que achamos que as coisas estão se resolvendo, uma nova reviravolta ocorre. O próprio título “Separação do príncipe e da princesa de Badura” já nos dá uma ideia disso. Lembro-me que quando vi tal nome fiquei chocada. Como assim, depois de tanto trabalho para ficarem juntos, eles se separaram? Mas claro, as coisas não são tão simples assim… Até princesa se travestindo de príncipe tem nessa história toda (o que me fez pensar em Mulan também).

Mas… Se lá no primeiro diário eu super elogiei a minha edição desta obra, agora venho trazer uma pequena decepção: a editora provavelmente quis fazer dois volumes de tamanho praticamente iguais e, para isso, teve de colocar uma parte dessas narrativas que acabei de apresentar no primeiro volume, e uma parte no segundo. A divisão, assim, ficou um pouco abrupta. Achei que seria melhor ter deixado todo um arco no mesmo volume. Mas isso pode ter sido uma estratégia também, para nos fazer continuar, da mesma maneira que a Sherazade faz…

Como vocês devem ter percebido, portanto, terminei o primeiro volume de As mil e uma noites! E dando uma fuçadinha aqui, já vi que terei algo para comentar (talvez reclamar, de novo) no próximo diário, sobre esse segundo volume…

Histórias de amor — Diário de leitura (9)

Em meu último diário de leitura de As mil e uma noites, comentei que havia começado a leitura de uma história que parecia prometer. Isso porque, desde o início, notei que era uma narrativa de amor como até então eu não havia visto nesta obra. Algo diferente do que vinha aparecendo, mais forte e profundo.

Com efeito, a História de Abul-Hassan Ali Ebn Becar e de Chemselnihar, favorita do Califa Harun al-Rashid — que dura das noites 185 até a 210 — é bem intensa, nos apresentando um amor proibido, quase num estilo Romeu e Julieta (olha eu comparando ocidente e oriente de novo).

E, no meio dessa narrativa, é inserido um novo tipo textual: a carta, meio de comunicação entre os protagonistas. É importante destacar isso porque As mil e uma noites, além de ser uma obra coletiva (sim, ela não foi construída por narrativas de um único autor) é uma obra com diversos gêneros que, ao longos das traduções e adaptações, foram se perdendo. Hoje, temos acesso, a uma grande parte narrativa, mas As mil e uma noites é composta por poesias, cartas, bilhetes…

Estou chegando perto do final do primeiro volume da edição que tenho. A história que ainda está se desenrolando também é de amor, mas com a intervenção de criaturas mágicas, algo já um pouco mais próximo do que havia aparecido anteriormente.

Será que conseguirei falar sobre a conclusão desse primeiro volume justamente no 10º diário de leitura? Espero que sim! E veremos o que me aguarda no segundo (e último) volume. Vocês estão gostando dessa série de posts?

Choque temporal — Diário de leitura (7)

Sim, certamente, apesar de ter arriscado, Sherazade conseguiu se manter viva por mais uma noite e, então, dar início a uma nova narrativa: A história do pequeno corcunda, contada entre as noites 123 e 128.

Eu diria que se trata de uma história tragicômica: devido a um incidente, o tal corcunda vem a falecer na casa de um alfaiate, que busca a qualquer custo se livrar do corpo, por medo de ser acusado de assassinato. O corpo, então, passa de um a outro personagem, todos achando-se culpados pela morte do corcunda, mas dando um jeito de se livrar dele, que, no final das contas, é encontrado perto de um mercador cristão, que acaba levando a culpa (vale lembrar que “As mil e uma noites” vem de uma cultura não cristã e na qual essa rixa se faz presente).

Para completar o quadro, o tal corcunda pertencia ao sultão e, por isso, para fazer justiça à sua morte, o mercador é condenado à forca. Com peso na consciência, porém, os outros personagens começam a se entregar também e, por isso, todos são levados à presença do sultão. E a única forma de salvarem suas vidas é, adivinhem só? Contando uma história que seja melhor que as que o corcunda contava ao sultão.

Assim sendo, dentro deste arco, temos as seguintes histórias:

  • A história contada pelo mercador cristão
  • A história contada pelo fornecedor do sultão de Casgar
  • A história contada pelo médico judeu
  • A história contada pelo alfaiate
  • A história contada pelo barbeiro

E o barbeiro da última história abre um novo arco de narrativas, contando a história de seus irmãos, coisa que ainda estou lendo e, portanto, não sei que fim levarão esses personagens! (Sim, estou curiosa).

Mas, como não poderia deixar de ser, o momento reflexão do diário de hoje: esses dois arcos narrativos, talvez tenham sido, até o momento, os mais difíceis de ler. Isso porque é possível perceber a maldade e o desprezo que há com as deficiências das pessoas. O corcunda, por exemplo, além de ser uma “posse” do sultão, era motivo de chacota. E os irmãos do barbeiro (cujas histórias estou lendo) também possuem alguma deficiência, que os torna motivo de risada e desprezo.

Eu sei que a distância temporal que separa o momento em que essas histórias foram escritas e os dias de hoje é enorme, mas não deixou de me incomodar o fato que autor que selecionou as narrativas que iriam compor a famosa versão de “As mil e uma noites”, deixa claro que tomou cuidado de tirar coisas que desagradariam seu público. Coisas essas que hoje em dia, provavelmente seriam mais bem recebidas que esse tipo de preconceito.

Mudam-se os tempos, muda-se aquilo que a sociedade considera certo ou errado. E os livros nos permitem acessar esses momentos. Doido, não?

A riqueza de um clássico — Diário de leitura (6)

Depois das narrativas de Simbá, o marinheiro, que pareciam nunca acabar, cheguei em A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, que se estendeu da 93º noite até a 122º. Essa sim me cativou: mesmo sendo uma história relativamente extensa, eu sempre queria saber o que viria a seguir, visto que ela é cheia de encontros e desencontros.

Tudo começa com dois irmãos que cresceram muito unidos, mas que, em dado momento, brigaram. E, com essa briga, um deles decide partir e é aí que as coisas vão ficando mais e mais interessantes, até chegarmos ao surpreendente desfecho.

Por conta dessa narrativa, acabei pensando um pouco na diferença temporal que existe entre o momento que As mil e uma noites foram escritas e o momento em que as leio. As tecnologias que conhecemos hoje, e mesmo algumas mais rudimentares de anos atrás, teriam evitado muitos dos desencontros que vemos nesta história. Bem, na verdade ela provavelmente sequer existiria.

Por outro lado, há cenas que beiram ao absurdo nesta narrativa, como a manipulação que fazem com Bedredin Hassan para que ele acredite que tudo o que vivera não passara de um sonho. Parece absurdo não por ser impossível, mas porque todos parecem se divertir às custas desse episódio, inclusive Shahriar, o sultão que, noite após noite, escuta Sherazade.

“Shahriar não pôde deixar de rir por ter Bedredin Hassan tomado a realidade por simples sonho”

No meio dessa história, chegamos à 100º noite. E, na edição que tenho em mãos, há uma nota do tradutor:

“A 101º e a 102º noites, no original, passaram-se na descrição de sete vestidos e de sete adornos diferentes trocados pela filha do vizir Chemsedin Mohammed, ao som dos instrumentos. Como tal descrição não me pareceu agradável, e como também vem acompanhada de versos belíssimos em árabe, mas que nós não poderíamos apreciar, julguei conveniente não traduzi-las”

Uma nota como essa me faz lembrar a riqueza que essa obra possui. E como aqui no Brasil, até o momento, temos acesso a apenas uma parcela dela. E, ainda assim, olha o quanto de coisa é possível extrair dessas páginas. Não cheguei sequer à metade do primeiro livro (a edição que eu tenho é dividida em dois volumes), mas já fiz diversas reflexões diante do que li, além de ter conhecido muitas histórias cheias de detalhes.

Terminada A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, Sherazade se arrisca: o dia já estava amanhecendo e ela não teria tempo de dar início a uma nova narrativa, mas fala o seguinte para Shahriar:

“— Mas, senhor — acrescentou Sherazade, notando que o dia estava a despontar —, por mais agradável que seja a história que acabei de vos contar, sei outra que é muito mais. Se desejardes ouvi-la amanhã de noite, estou certo de que vos agradará”

Se funcionou? Bem, acredito que vocês já saibam a resposta, mas o resto eu deixo para contar somente na próxima semana…

Quantas coisas podemos aprender? — Diário de leitura (4)

Durantes as noites 28 e 69 d’As mil e uma noites, estive mergulhada em uma longa história que se desdobrou em várias narrativas menores. Observar a construção desse quadro foi muito interessante e espero conseguir compartilhar um pouco disso com vocês.

É preciso, antes de mais nada, ressaltar que a primeira narrativa recebe o segundo título: A história dos três calândares, filhos de rei, e das cinco damas de Bagdá. Só por aí já poderíamos imaginar que o desdobramento dela seria longo, uma vez que cada um desses personagens — e temos oito mencionados acima — poderia ter a sua própria história.

No caso das cinco damas, porém, não chegamos a ler uma história para cada, mas, ao longo da narrativa, também surgem outros personagens, então não é de se espantar que esse conjunto se estenda por tantos dias seguidos.

“Sherazade preparava-se para continuar a sua história, mas percebendo que era dia, calou-se. A qualidade dos novos atores que ela acaba de introduzir na cena aguçou a curiosidade de Shahriar, que certo de que sucederiam coisas singulares, aguardou com paciência a noite seguinte”

Os títulos que compõem esse arco, além do já mencionado acima, são:

  • A história do primeiro calândar, filho do rei
  • A história do segundo calândar, filho do rei
  • A história do invejoso e do invejado
  • A história do terceiro calândar, filho do rei
  • A história de Zobeida
  • A história de Amina

É uma história mais interessante que a outra, sem dúvidas. Mas me chamou a atenção um pedaço da narrativa de Zobeida que, em um dado momento, conta sobre chegar a uma cidade em que todas as pessoas estavam petrificadas. Elas encontravam-se assim devido a alguma espécie de maldição, mas não pude deixar de lembrar de Pompeia, cidade italiana que foi tragada pela lava do Vesúvio, matando muitos moradores petrificados após o resfriamento desta.

Também não posso deixar de comentar a seguinte passagem:

“Respondi-lhe que era gramático, poeta e, sobretudo, que sabia escrever perfeitamente bem. Com tudo quanto acabastes de dizer, disse-me, não ganhareis neste país o suficiente para um simples pedaço de pão; aqui nada é mais inútil do que qualquer desses conhecimentos”

Ouvir que conhecimentos linguísticos e poesia são conhecimentos inúteis é algo comum até os dias de hoje, mas ver isso estampado em uma história que representa justamente o poder que as narrativas têm de salvar vidas (coisa que já comentei melhor aqui) é assustador. Passam-se os anos — afinal, As mil e uma noites foi escrita tanto tempo atrás — e não evoluímos nossas crenças…

Outra coisa que tem chamado minha atenção, não apenas nas histórias aqui mencionadas, mas também em tantas outras anteriormente lidas: a quantidade de narrativas que apresentam humanos transformados em animais e vice-versa. Essa é uma característica que talvez valesse a pena uma pesquisa um pouco mais aprofundada, pois certamente há muito da cultura local e da época por trás disso. Inclusive, se alguém tiver algum conhecimento relacionado a isso, não deixe de compartilhar aqui, porque, confesso, sou uma negação em saberes relacionados à cultura oriental.

Contar histórias salva vidas? — diário de leitura (2)

Depois da introdução existente na edição da Nova Fronteira, finalmente podemos mergulhar na história d’As mil e uma noites. E quando ouvimos falar nesta obra, logo pensamos em Sherazade contando uma história após a outra para adiar a sua morte e, consequentemente, salvar a de tantas outras mulheres, certo? Mas, evidentemente, o livro não começa por aí (e, aliás, esse momento, na minha edição, só chega lá na página 47).

Primeiro precisamos entender quando um certo rei — Shahriar — decide que a cada dia se casará com uma nova mulher que, no dia seguinte, será assassinada, evitando assim que se repita o que sua primeira esposa havia feito: traí-lo.

“Aquela desumanidade sem precedentes causou consternação geral na cidade, onde só se ouvia gritos e lamentações.

É interessante destacar esse trecho, pois é a tomada dessa decisão que faz com que todo o resto da obra exista. Porém, trata-se de uma ação cruel, fruto de um coração partido. O que nos leva a refletir sobre como um coração que sofre pode vir a tentar causar o mesmo sofrimento a outros corações. E faz isso de maneira irracional.

A reflexão acima, no entanto, me faz pensar em outra, ainda relacionada à história: um coração ferido, foi capaz de gerar muito mal à uma sociedade. E um bom coração foi capaz de encontrar uma cura para esse mal. Uma lição que aparece das mais diversas formas em tantas histórias que lemos até hoje e também algo para levarmos para a vida.

Ainda antes das histórias de Sherazade, ainda temos uma fábula contada por seu pai, no intuito de tentar dissuadi-la da ideia de se apresentar como próxima esposa do rei Shahriar. Tal história chama-se “A fábula do burro, do boi e do lavrador” e não foi suficiente para demover Sherazade de seu propósito. E é assim que, finalmente, podemos mergulhar em suas histórias.

A primeira delas é “O mercador e o gênio”, e é contada da primeira até a quarta noite, quando se inicia “A história do primeiro ancião e a da corsa”. Como se pode imaginar, essa segunda história é como uma narrativa menor dentro da primeira (que por sua vez, já é uma narrativa menor dentro da obra). E ela é acompanhada, ainda, de “A história do segundo ancião e dos dois cães negros”, contada entre às sexta e oitava noites.

Porém, nem sempre uma história é apenas uma história menor dentro de outra. Sherazade consegue encontrar outras formas de ligar uma história na outra, de modo que o rei não perca o interesse em suas narrativas e, assim, adie a sua morte. Isso acontece, por exemplo, na 8º noite quando, terminada a história do segundo ancião, mas ainda com tempo sobrando, Sherazade dá início à “História do pescador”, que passará a englobar outras narrativas, como a “História do rei grego e do médico Dubã”, que dura até a 14º noite.

Um elemento que tenho sentido muito presente nas histórias até aqui é a questão da morte. Sempre há alguém que morre ou deve morrer por algo. Mas também há algo que aparece logo nas primeiras histórias e que não deixa de ser uma das grandes molduras desta obra: o fato de que contar histórias pode nos salvar. Contar histórias salva vidas. Deixo esses pontos aqui, para ver o que acontece até o final do livro…

As mil e uma noites — diário de leitura (1)

A vida às vezes nos traz alegrias e prazeres doidos, não é?

Eu adoro criar novas sessões por aqui e, confesso, estou empolgada com esta. Assim como estou empolgada com a leitura que ela apresentará e isso foi algo que me surpreendeu muito!

Não me recordo bem se foi em um aniversário ou num natal, e nem exatamente em que ano, só sei que um dia meu irmão me chega com uma belíssima edição de As mil e uma noites, da Editora Nova Fronteira. Sem brincadeira, é difícil não se apaixonar por tamanha beleza, viu?

Já se imaginou ganhando uma caixa com dois volumes (e que volumes… Cada um tem cerca de 500 páginas!) em capa dura e cores lindíssimas? Pois é, essa já é a impressão que essa edição passa, logo de cara. E basta uma folheada rápida para ver que a leitura será muito confortável, pois a fonte é boa, assim como o espaçamento e a qualidade do papel.

E, apesar de tudo isso… Enrolei para pegar esses livros. Porque, claro, eles assustam. Vejam bem, é uma edição lindíssima, mas enorme. Nada prática de sair carregando por aí. Sem contar que eu pensava que nunca conseguiria acabar de ler… Somados os dois volumes, temos exatas 1120 páginas!

Mas a quarentena nos faz repensar algumas coisas, não? Bem, no meu caso, sim. E lá no começo do ano eu me propus a ler 12 tipos de livros em 2020. Naquele momento eu não selecionei os títulos, não sirvo para fazer isso com muita antecedência, gosto de ler o que me der vontade; selecionei apenas alguns gêneros ou algumas características que gostaria de encontrar a cada mês em minhas leituras. E resolvi incluir ao menos um clássico.

E foi assim que, juntando esse desafio, com os livros encalhados na estante e o pensamento de que eu não preciso ter pressa e posso ler no meu tempo que, finalmente, resolvi pegar As mil e uma noites. E tem sido muito bom! Tem sido tão bom que, ao invés de fazer um comentário genérico lá na frente, quando eu terminar as 1120 páginas (e talvez não lembrar mais com detalhes das primeiras) que resolvi vir aqui toda semana contar um pouco do que li e das minhas impressões. Vocês embarcam comigo nessa viagem?

Como esse texto já ficou mais longo do que eu esperava, vou apenas comentar sobre algo que vem antes da história em si. Nesta edição da Nova Fronteira, temos uma apresentação que vem esclarecer e explicar muitas coisas que eu não sabia!

O texto que temos em mão é a tradução de uma versão d’As mil e uma noites original. É uma das primeiras versões, mas, ainda assim, já não é o texto original. E mais, essa versão, feita por um francês, cortou muito da história original (de fato, ela pega somente 1/4 da história original, segundo a apresentação desta edição), pois o autor considerava que, assim, o texto se tornaria mais agradável e aceito por seu público. Bem, o objetivo desse autor e tradutor francês, Antoine Galland (que também é apresentado no começo do livro) foi atingido, pois a obra tornou-se um grande sucesso não apenas na França, mas em toda a Europa. E, no final das contas, ela é traduzida até hoje.

Aliás, é importante dizer, apenas para concluir, que minha edição é de 2015 e foi traduzida por Alberto Diniz. E, como eu comentei mais acima, tem sido uma leitura bem fluida, o que significa que é uma tradução que, ao menos para mim, tem funcionado muito bem.

Se você se interessa pelo livro, pode encontrá-lo aqui.