Próximo ao fim — Diário de leitura (20)

Estou rapidamente me aproximando do fim de As mil e uma noites e hoje aproveito para comentar sobre duas histórias de uma vez. A primeira delas é A história do cavalo encantado. O título, como sempre, é bem autoexplicativo, ainda que, claro, deixe de fora muitas nuances da história.

Tudo começa com um homem que se apresenta com o tal cavalo encantado, capaz de levar aquele que nele subir para o local desejado, em um período temporal muito pequeno.

O preço por tal objeto, porém, é altíssimo: a mão da princesa. E, com isso, dá-se início a uma série de confusões, como não poderia deixar de ser. Mas uma, em especial, eu gostaria de narrar aqui.

Depois de alguns problemas iniciais, este homem rapta outra princesa — que se casaria com o príncipe daquela corte — como uma forma de vingança por tudo que lhe acontecera.

No meio do caminho, porém, a princesa consegue pedir socorro, e é salva por um homem que parece ser uma ótima pessoa. Mas as aparências enganam, não é mesmo? Tal homem quer, a todo custo, desposá-la. E ela se vê uma profunda agonia por isso. Claro que, depois disso, muitas outras coisas acontecem e tudo se resolve. Mas me chamou a atenção uma passagem em específico:

“Sultão de Cachemira, quando outra vez pretenderes desposar uma princesa que te roga proteção, trata antes de obter-lhe o consentimento!”

Tudo bem que este é um discurso de um quase marido bravo por ver outro homem querendo roubar sua esposa, mas, ainda assim, essa frase me parece um grande passo em relação ao tratamento dispensado às mulheres das histórias que preenchem as páginas de As mil e uma noites.

Veja bem: é um homem dando bronca em outro homem sobre a necessidade do consentimento da mulher. Esse é um discurso que, infelizmente, até hoje, muitos homens ainda não entenderam.

A segunda narrativa que quero comentar aqui é A história do príncipe Ahmed e da fada Pari-Banu. Uma história muito fantástica, com várias reviravoltas e permeada por objetos mágicos.

O que chamou minha atenção nesta narrativa foi que, nela sim, vi aparecer um “tapete voador”, coisa que não me recordo de ter visto na história de Aladin. O que, uma vez mais, me faz pensar na adaptação da Disney… Será que há referências a outras histórias de As mil e uma noites em Aladin? O que vocês acham?

De volta ao formato — Diário de leitura (17)

Depois de muito tempo, deparei-me novamente com uma história que engloba outras três narrativas em As mil e uma noites. E, neste caso, tudo começa com As aventuras do califa Harun Al-Rashid.

Depois de ter lido tantas histórias desta obra, sei já que o califa é uma pessoa importante para a cultura e a religião em questão. E, nesta narrativa, tudo começa quando tal figura encontra-se em um dia de grande tristeza, mas é lembrado pelo seu grão-vizir de que deve cumprir algumas obrigações e, como muitas vezes pode acontecer, essa distração acaba fazendo com que seu humor mude.

Disfarçado de mercador, o califa sai pela cidade, acompanhado do seu grão-vizir, para verificar como anda o policiamento nas ruas. E é nesta ronda que o califa encontra os três personagens que darão origem às narrativas que estão dentro desta.

O primeiro personagem encontrado é um pedinte cego, mas que só aceita esmolas mediante uma bofetada. E é através de A história do cego Baba-Abdalá que podemos compreender porque se dá tal absurdo.

Depois, conhecemos A história de Sidi Numan, que, em praça pública, açoitava impiedosamente uma égua. Aqui temos uma narrativa como já mencionei algumas vezes: de humanos transformados em animais e, depois, novamente transformados em humanos.

Por fim, chegamos à História de Codja Hassan, um homem muito humilde que pôde enriquecer — graças a uma aposta feita entre dois amigos — a ponto de sua nova moradia atrair a atenção do califa. Mas Codja Hassan apenas enriqueceu por ser homem sério e disposto a multiplicar uma súbita riqueza ao invés de gastá-la de uma vez. Isso, porém, após alguns interessantes percalços que, ouvindo, jamais acreditaríamos.

Estas três narrativas que descrevi, emolduradas pelos questionamentos do califa, compõem uma história capaz de nos apresentar traços culturais muito interessantes, mas não só: elas nos mostram, de forma bem sintética, o formato de tantas outras histórias de As mil e uma noites.

E, para melhorar, sabe o que vem depois? A história de Ali Babá e dos quarenta ladrões exterminados por uma escrava! Mas essa, claro, deixo para meu próximo diário de leitura.

Brincadeira sem limites— Diário de leitura (15)

Como comentei em meu último diário de leitura, esses dias li A história do adormecido despertado. E confesso que ainda estou tentando entender essa narrativa…

Ao mesmo tempo que aprendi várias coisas interessantes ao longo dessas páginas, também me senti lendo uma história que nos mostrava aquelas brincadeiras de criança de tentar ficar enganando um ao outro. Juro para vocês, metade das páginas dessa narrativa trata-se disso, de um personagem rindo-se às custas do outro.

O personagem central é Abu Hassan, um jovem que, como em outras narrativas que já comentei por aqui, quando se vê dono de grandes riquezas, passa a levar uma vida de festas e gastos desmedidos. Mas, ao contrário de muitos, ele, desde o início, deixou metade do dinheiro guardado, jurando não usá-lo de maneira desmedida. E foi isso que o salvou da miséria total.

Infelizmente, porém, como sempre acontece nessas histórias, ao se ver sem dinheiro (ao menos paras as grandes festas que dava até então), Abu Hassan viu-se, também, sem amigos.

Mudando totalmente seu estilo de vida, Abu decidiu que, a cada noite, receberia um viajante em sua casa, oferecendo-lhe um jantar e a hospedagem por uma noite. Mas apenas isso. No dia seguinte, o viajante teria de sair da casa e nunca mais voltar e nem mesmo dirigir-se a Abu Hassan.

Acontece que, um belo dia, um dos viajantes era ninguém menos que o Califa, disfarçado de mercador (e até agora não entendi como alguém não teria reconhecido o Califa após este passar a noite em sua casa. Achei que esta fosse uma figura de feições conhecidas pela cidade). E é neste ponto da narrativa que começam as brincadeiras de criança (mas com graves consequências!).

O Califa, disfarçado de mercador, após o delicioso banquete oferecido por Abu, pergunta qual é sonho dele e este responde, sem saber com quem está realmente falando, que gostaria de ser Califa por um dia, para punir alguns de seus vizinho, explicando o motivo da punição e detalhando como isto se daria.

O Califa, então, coloca um pó na bebida de Abu, e este pó faz com que ele durma quase que imediatamente. O Califa, ajudado por seu escravo, carrega Abu, ainda dormindo, até o palácio e instrui a todos para o tratarem, no dia seguinte, como o verdadeiro Califa e acatar todas as ordens dadas por ele.

Claro que Abu, ao acordar, sente-se extremamente confuso. Mas, depois de muita insistência de seus “servos”, acaba aceitando que é o verdadeiro Califa e dá as ordens que gostaria de dar.

E esse “sonho” dura apenas um dia. Na manhã seguinte, Abu acorda novamente em sua verdadeira casa, porém não aceitando que fosse Abu e afirmando que era o Califa. Uma loucura só. Tão louca que ele tem de ser levado ao “hospital dos loucos”, onde é extremamente maltratado diariamente, durante cerca de um mês.

Esse ponto da história me fez refletir um pouco sobre isso — isto é, sobre hospícios —, sobre como, desde sempre e nos mais variados países/culturas, este tipo de hospital se apresenta como um lugar de maus tratos e de tratamento desumano para com seus pacientes.

Uma característica interessante desses acontecimentos é que, quando hospedou o Califa em sua casa, Abu recomendou — mais de uma vez — que caso ele saísse muito cedo, que não esquecesse, em hipótese alguma, de fechar a porta do quarto. E claro, o Califa fez questão, em sua pegadinha, de não fechar a porta.

Depois de “recuperado” de sua loucura, Abu passou a culpar o Califa (ou o mercador) pelo ocorrido, acreditando que o fato deste não ter fechado a porta, permitira a entrada de demônios em seus sonhos, causando tudo o que veio a seguir.

Mas vocês se enganam se acham que a história acaba aí e que essa foi a única brincadeira ocorrida. Ainda tiveram outras duas! E as coisas só pioram. Como eu disse, ainda não sei muito bem o que pensar disso tudo.

Contudo, no início deste texto, eu disse que aprendi coisas interessantes. Além dessa questão da porta do quarto, que acabei de mencionar, também recebi, ao longo dessas linhas, uma explicação bem interessante sobre a bebida consumida durante as refeições:

“Nos três primeiros salões Abu Hassan só havia bebido água, segundo o costume observado em Bagdá tanto entre o povo e as camadas superiores como na corte do califa, onde só se bebe vinho à noite. Todos que procedem diversamente são tidos por devassos e não ousam mostrar-se durante o dia”

(pág. 236 — volume 2)

Outra costume que aprendi com essa narrativa foi o de sempre colocar o corpo de um morto a ser velado com os pés voltados para Meca. Este, aliás, foi um dos poucos momentos que vi uma referência bem clara e direta a Meca. Não foi a primeira vez, claro, mas levando em consideração a extensão da obra, são relativamente poucas as vezes que este local tão importante é mencionado.

No meu post anterior, comentei sobre a extensão desta história. Ela é realmente longa, mas a que vem a seguir é ainda mais. Trata-se, porém, de uma história mais “conhecida” e muito aguardada: A história de Aladim, ou a lâmpada maravilhosa.

Destacando alguns aspectos — Diário de leitura (13)

Depois de um breve hiato, é hora de voltar com o meu diário de leitura de “As mil e uma noites” e, desta vez, com A história de Ganem, filho de Abu Airu, Escravo do Amor. E confesso que, escrevendo esse título, percebi que ele pode ser um pouco ambíguo, pois “Escravo do Amor” poderia referir-se à Ganem ou à Abu Airu. Lendo a história, porém, compreendo que refere-se à Ganem.

Essa é uma história, de uma forma ou de outra, muito parecida com algumas outras, mas não sei se pelos dias que fiquei afastada do livro ou se pela forma da narrativa mesmo, consegui detectar claramente dois traços culturais interessantes. Antes disso, porém, gostaria de destacar essa passagem, que ainda hoje nos serve tão bem:

“Apressou o passo para chegar mais depressa, mas como acontece frequentemente, quanto mais pressa se tem tanto menos se avança, tomou um caminho pelo outro e perdeu-se na escuridão, de modo que já era quase meia-noite quando chegou à porta da cidade”

Isso é o que hoje chamaríamos de Lei de Murphy. É interessante ver esse tipo de pensamento já numa história tão antiga quanto As mil e uma noites. Mas passemos aos traços culturais que mais pude notar nesta narrativa.

Outro dia, meu namorado me ensinou que, na cultura do Oriente Médio, coisas importantes não podem ser ditas em pé, porque essas coisas não podem ser ditas com pressa, já que, sendo importantes, precisamos refletir sobre elas. Quando ele me disse isso, pensei já ter visto algo do tipo em As mil e uma noites, mas não tinha nenhum exemplo concreto em mente. Nesta história, porém, isto apareceu novamente:

“Ele queria permanecer de pé, mas ela respondeu que não tocaria em nada se ele não se sentasse e comesse também”

Tendo esse conhecimento que meu namorado me transmitiu, uma frase que poderia não significar grande coisa, adquire todo um novo sentido. E isso, uma vez mais, me faz pensar em quanta coisa provavelmente foi passando ao longo da leitura, ainda que tantas outras me tenham feito pensar.

Porém, nessa mesma história, em duas ocasiões ocorre algo que eu ainda não sei o real significado, mas que me parece importante também: para demonstrar que determinada ordem do Califa será cumprida, seus súditos colocam a mão (ou uma carta, no caso de um deles) sobre a cabeça, como uma forma de “jurar” o cumprimento das ordens dadas. Alguém conhece o significado desse gesto na cultura oriental?

Para pensar sobre outras culturas — Diário de leitura (12)

Como eu comentei em meu último diário de leitura, agora não há mais a interrupção da narrativa a cada noite, e também já não é mais possível acompanhar em que noite da história nos encontramos.

Ainda assim, a história que venho comentar hoje, “A história de Beder, príncipe da Pérsia, e de Sahara, princesa do reino de Samandal”, era relativamente longa e, por isso, foi dividida em duas partes. Em minha opinião, achei a divisão desnecessária. Continuou sendo um longo “capítulo” que, por diversas vezes, interrompi no meio da leitura.

A história em sim, porém, foi mais uma narrativa capaz de prender o leitor. Era difícil escolher o momento de interromper a leitura, pois eu sempre queria saber o que viria a seguir. E olha que há muitos elementos já presentes em outras narrativas desta obra, como um casal que passa por mil desventuras até chegar ao final feliz, humanos transformados em animais, lutas entre reinos.

Logo no início, contudo, uma questão me deixou pensativa e é daí que vem o título do diário de hoje. Não quero fazer qualquer julgamento aqui, pois sei que estou me referindo a uma cultura muito diferente da minha (e sobre a qual continuo não sendo grande conhecedora), mas chamou-me a atenção que, de início, esta era uma narrativa sobre um rei que “apesar das mil mulheres”, não teve um filho para dar continuidade a seu reinado.

“Só num ponto se julgava infeliz: estar muito idoso e de todas as suas mulheres não haver uma só que lhe tivesse dado um príncipe que lhe sucedesse após a sua morte. No entanto, possuía mais de cem, todas acomodadas magnífica e separadamente, com escravas para servi-las e eunucos para guardá-las”

E bem, pensando aqui comigo, se de 100 mulheres, nenhuma lhe deu filhos, talvez o problema não fossem as mulheres… Mas não pude deixar de achar “engraçado” esse pensamento de que nem mesmo com tudo do bom e do melhor, o rei pode ter um filho. A prepotência dele, por assim dizer, também fica clara em outra passagem, um pouco mais adiante:

“Por que ficas tão silenciosa? De onde vem essa frieza, essa tristeza que te aflige? Lastimas teus pais, teus amigos? Mas então um rei da Pérsia, que te ama, que te adora, não é capaz de fazer-te esquecer tudo no mundo?”

O mais curioso de tudo isso, porém, é que a história flui. Eu tive certa estranheza com esses pontos, apenas de início, mas tudo segue tão naturalmente que acabamos não sentido nada de negativo com relação a esse rei. Muito pelo contrário, aliás, pois ressalta-se a sua bondade e lealdade que qualquer outra coisa. Para ser sincera, eu até mesmo havia me esquecido desse início… E aí, relendo agora, fico pensando como ele havia dito que era velho, mas, no final das contas, teve o filho que tanto desejava e ainda foi capaz de vê-lo crescer.

Mas faz sentido que a história seja assim e, principalmente, que o modo de se comportar deste rei não nos cause repulsa. É uma outra cultura e eram também, outros tempos. E é por isso que tem sido tão interessante fazer esse mergulho pelas “Mil e uma noites”.

Mudanças na estrutura da obra — Diário de leitura (11)

Depois das narrativas apresentadas em meu último diário de leitura, dei início à História de Nuredin e da Formosa Persa. Logo de cara, porém, um baque: deste ponto em diante não há mais a interrupção a cada noite, isto é, os “capítulos” do livro, agora, são formados por cada uma das narrativas de maneira completa, o que significa que são capítulos mais extensos.

Eu, particularmente, não gostei muito deste novo formato pois, como dito acima, os capítulos ficam mais extensos, mas também porque as interrupções a cada novo amanhecer me instigavam a continuar a leitura. Era aquela coisa de “só mais um capítulo”, porque geralmente isso significava só mais algumas páginas. Agora não, agora sinto que tenho de me dedicar à história inteira de uma vez e isso, por vezes, dá uma certa preguiça…

Esse formato, também, me faz pensar se, daqui para frente, haverá menos narrativas dentro das outras narrativas, como acontecia anteriormente. Na história de agora, por exemplo, foi assim. Havia, ali, apenas a história de Nuredin e da Formosa Persa.

Não que tenha sido uma história sem graça, muito pelo contrário. Trata-se de uma narrativa no estilo de outras que já li nesta obra, com idas e vindas e com passagens que nos fazem pensar “não é possível, isso não pode acontecer”. E, uma vez mais, o amor se faz presente, nos mostrando, também, muitos costumes da época ou da cultura oriental.

Um dos pontos que mais me chamou a atenção, porém, foi uma passagem sobre a confiança. Sobre como, desde sempre, muitas relações são baseadas no interesse e que, quando não temos mais nada a oferecer ao outro, ele nos dá as costas.

“Reconheceu, então, o erro irreparável de ter confiado tão facilmente nos falsos amigos e nos seus protestos de amizade, enquanto lhes oferecia banquetes suntuosos e os cumulava de benefícios”

Imagino que essa passagem mesmo seja uma crítica a esse comportamento e é uma pena ver que, passam-se anos e anos e algumas coisas não mudam.

Das reviravoltas — Diário de leitura (10)

Como eu disse em meu diário anterior, chegando ao final do primeiro volume de As mil e uma noites, iniciei a leitura de mais uma história de amor. Trata-se de uma narrativa longa, que durou da noite 211 até a 236.

Compõem esse arco as seguintes narrativas:

  • A história dos amores de Camaralzaman, príncipe da ilha dos filhos de Kaledan, e de Badura, princesa da China;
  • A história de Marzavan, com o prosseguimento da história de Camaralzaman;
  • Separação do príncipe e da princesa de Badura;
  • A história da princesa Badura após a separação do príncipe Camaralzaman;
  • Continuação da história do príncipe Camaralzaman desde a sua separação da princesa Badura;
  • A história dos príncipes Amdjad e Assad;
  • A prisão do príncipe Assad ao entrar na Cidade dos Magos;
  • A história do príncipe Amdjad e de uma dama da Cidade dos Magos;
  • Continuação da história do príncipe Assad.

São muitos encontros e desencontros aqui, bem como muitos momentos tensos. Eu diria até angustiantes. Foi uma história que me prendeu bastante e que dava vontade de saber o que viria a seguir. E o final é daqueles que você fica “aaaah, não acredito, que final incrível!”.

Começamos conhecendo dois jovens que, cada um em seu reino, precisam se tornar rei e rainha, e que, portanto, precisam se casar. Seus pais, porém, querem lhes dar a liberdade de escolher o par perfeito, mas esses jovens são bem exigentes…

Em tese, eles nunca viriam a se conhecer, mas alguns seres mágicos, para satisfazer seus próprios desejos, acabam por aproximá-los… E igualmente separá-los. E é neste ponto que as coisas começam a ganhar mais emoção.

Mas não para por aí não. Toda vez que achamos que as coisas estão se resolvendo, uma nova reviravolta ocorre. O próprio título “Separação do príncipe e da princesa de Badura” já nos dá uma ideia disso. Lembro-me que quando vi tal nome fiquei chocada. Como assim, depois de tanto trabalho para ficarem juntos, eles se separaram? Mas claro, as coisas não são tão simples assim… Até princesa se travestindo de príncipe tem nessa história toda (o que me fez pensar em Mulan também).

Mas… Se lá no primeiro diário eu super elogiei a minha edição desta obra, agora venho trazer uma pequena decepção: a editora provavelmente quis fazer dois volumes de tamanho praticamente iguais e, para isso, teve de colocar uma parte dessas narrativas que acabei de apresentar no primeiro volume, e uma parte no segundo. A divisão, assim, ficou um pouco abrupta. Achei que seria melhor ter deixado todo um arco no mesmo volume. Mas isso pode ter sido uma estratégia também, para nos fazer continuar, da mesma maneira que a Sherazade faz…

Como vocês devem ter percebido, portanto, terminei o primeiro volume de As mil e uma noites! E dando uma fuçadinha aqui, já vi que terei algo para comentar (talvez reclamar, de novo) no próximo diário, sobre esse segundo volume…

Histórias de amor — Diário de leitura (9)

Em meu último diário de leitura de As mil e uma noites, comentei que havia começado a leitura de uma história que parecia prometer. Isso porque, desde o início, notei que era uma narrativa de amor como até então eu não havia visto nesta obra. Algo diferente do que vinha aparecendo, mais forte e profundo.

Com efeito, a História de Abul-Hassan Ali Ebn Becar e de Chemselnihar, favorita do Califa Harun al-Rashid — que dura das noites 185 até a 210 — é bem intensa, nos apresentando um amor proibido, quase num estilo Romeu e Julieta (olha eu comparando ocidente e oriente de novo).

E, no meio dessa narrativa, é inserido um novo tipo textual: a carta, meio de comunicação entre os protagonistas. É importante destacar isso porque As mil e uma noites, além de ser uma obra coletiva (sim, ela não foi construída por narrativas de um único autor) é uma obra com diversos gêneros que, ao longos das traduções e adaptações, foram se perdendo. Hoje, temos acesso, a uma grande parte narrativa, mas As mil e uma noites é composta por poesias, cartas, bilhetes…

Estou chegando perto do final do primeiro volume da edição que tenho. A história que ainda está se desenrolando também é de amor, mas com a intervenção de criaturas mágicas, algo já um pouco mais próximo do que havia aparecido anteriormente.

Será que conseguirei falar sobre a conclusão desse primeiro volume justamente no 10º diário de leitura? Espero que sim! E veremos o que me aguarda no segundo (e último) volume. Vocês estão gostando dessa série de posts?

Choque temporal — Diário de leitura (7)

Sim, certamente, apesar de ter arriscado, Sherazade conseguiu se manter viva por mais uma noite e, então, dar início a uma nova narrativa: A história do pequeno corcunda, contada entre as noites 123 e 128.

Eu diria que se trata de uma história tragicômica: devido a um incidente, o tal corcunda vem a falecer na casa de um alfaiate, que busca a qualquer custo se livrar do corpo, por medo de ser acusado de assassinato. O corpo, então, passa de um a outro personagem, todos achando-se culpados pela morte do corcunda, mas dando um jeito de se livrar dele, que, no final das contas, é encontrado perto de um mercador cristão, que acaba levando a culpa (vale lembrar que “As mil e uma noites” vem de uma cultura não cristã e na qual essa rixa se faz presente).

Para completar o quadro, o tal corcunda pertencia ao sultão e, por isso, para fazer justiça à sua morte, o mercador é condenado à forca. Com peso na consciência, porém, os outros personagens começam a se entregar também e, por isso, todos são levados à presença do sultão. E a única forma de salvarem suas vidas é, adivinhem só? Contando uma história que seja melhor que as que o corcunda contava ao sultão.

Assim sendo, dentro deste arco, temos as seguintes histórias:

  • A história contada pelo mercador cristão
  • A história contada pelo fornecedor do sultão de Casgar
  • A história contada pelo médico judeu
  • A história contada pelo alfaiate
  • A história contada pelo barbeiro

E o barbeiro da última história abre um novo arco de narrativas, contando a história de seus irmãos, coisa que ainda estou lendo e, portanto, não sei que fim levarão esses personagens! (Sim, estou curiosa).

Mas, como não poderia deixar de ser, o momento reflexão do diário de hoje: esses dois arcos narrativos, talvez tenham sido, até o momento, os mais difíceis de ler. Isso porque é possível perceber a maldade e o desprezo que há com as deficiências das pessoas. O corcunda, por exemplo, além de ser uma “posse” do sultão, era motivo de chacota. E os irmãos do barbeiro (cujas histórias estou lendo) também possuem alguma deficiência, que os torna motivo de risada e desprezo.

Eu sei que a distância temporal que separa o momento em que essas histórias foram escritas e os dias de hoje é enorme, mas não deixou de me incomodar o fato que autor que selecionou as narrativas que iriam compor a famosa versão de “As mil e uma noites”, deixa claro que tomou cuidado de tirar coisas que desagradariam seu público. Coisas essas que hoje em dia, provavelmente seriam mais bem recebidas que esse tipo de preconceito.

Mudam-se os tempos, muda-se aquilo que a sociedade considera certo ou errado. E os livros nos permitem acessar esses momentos. Doido, não?

A riqueza de um clássico — Diário de leitura (6)

Depois das narrativas de Simbá, o marinheiro, que pareciam nunca acabar, cheguei em A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, que se estendeu da 93º noite até a 122º. Essa sim me cativou: mesmo sendo uma história relativamente extensa, eu sempre queria saber o que viria a seguir, visto que ela é cheia de encontros e desencontros.

Tudo começa com dois irmãos que cresceram muito unidos, mas que, em dado momento, brigaram. E, com essa briga, um deles decide partir e é aí que as coisas vão ficando mais e mais interessantes, até chegarmos ao surpreendente desfecho.

Por conta dessa narrativa, acabei pensando um pouco na diferença temporal que existe entre o momento que As mil e uma noites foram escritas e o momento em que as leio. As tecnologias que conhecemos hoje, e mesmo algumas mais rudimentares de anos atrás, teriam evitado muitos dos desencontros que vemos nesta história. Bem, na verdade ela provavelmente sequer existiria.

Por outro lado, há cenas que beiram ao absurdo nesta narrativa, como a manipulação que fazem com Bedredin Hassan para que ele acredite que tudo o que vivera não passara de um sonho. Parece absurdo não por ser impossível, mas porque todos parecem se divertir às custas desse episódio, inclusive Shahriar, o sultão que, noite após noite, escuta Sherazade.

“Shahriar não pôde deixar de rir por ter Bedredin Hassan tomado a realidade por simples sonho”

No meio dessa história, chegamos à 100º noite. E, na edição que tenho em mãos, há uma nota do tradutor:

“A 101º e a 102º noites, no original, passaram-se na descrição de sete vestidos e de sete adornos diferentes trocados pela filha do vizir Chemsedin Mohammed, ao som dos instrumentos. Como tal descrição não me pareceu agradável, e como também vem acompanhada de versos belíssimos em árabe, mas que nós não poderíamos apreciar, julguei conveniente não traduzi-las”

Uma nota como essa me faz lembrar a riqueza que essa obra possui. E como aqui no Brasil, até o momento, temos acesso a apenas uma parcela dela. E, ainda assim, olha o quanto de coisa é possível extrair dessas páginas. Não cheguei sequer à metade do primeiro livro (a edição que eu tenho é dividida em dois volumes), mas já fiz diversas reflexões diante do que li, além de ter conhecido muitas histórias cheias de detalhes.

Terminada A história de Nunredin Ali e de Bedredin Hassan, Sherazade se arrisca: o dia já estava amanhecendo e ela não teria tempo de dar início a uma nova narrativa, mas fala o seguinte para Shahriar:

“— Mas, senhor — acrescentou Sherazade, notando que o dia estava a despontar —, por mais agradável que seja a história que acabei de vos contar, sei outra que é muito mais. Se desejardes ouvi-la amanhã de noite, estou certo de que vos agradará”

Se funcionou? Bem, acredito que vocês já saibam a resposta, mas o resto eu deixo para contar somente na próxima semana…