Citações #56 — Resto qui

Gosto de livros que ecoam e ainda me deixam pensando sobre eles mesmo tempo depois de terminar sua leitura.

Resto qui (Marco Balzano), já resenhado neste post, é um desses livros e, felizmente, hoje tenho a oportunidade de revisitá-lo, trazendo para o Blog mais alguns trechos desta obra.

“Credevo che mi potessero salvare, le parole” 

(Eu acreditava que as palavras pudessem me salvar)

A história fala muito — e acredito que deixei isso claro na resenha — sobre (des)pertencimento.

“Ci eravamo abituati a non essere più noi stessi”

(Nós nos acostumamos a não sermos mais nós mesmos)

“– Mamma io voglio andarmene da questo posto. Qui non posso nemmeno più andare a scuola”

(— Mamãe, quero ir embora deste lugar. Aqui não posso sequer ir à escola).

O livro também trata da questão de como a língua que falamos (ou não) é importante no processo acima mencionado.

“In pochi a Curon sapevano leggere, ma nessuno capiva quella lingua che era solo la lingua dell’odio”

(Poucos em Curon sabiam ler, mas ninguém entendia aquela língua que era só a língua do ódio)

“Di fargli imparare una poesia pensai che se non me l’avessero fatto odiare dal profondo delle viscere era una bella lingua, l’italiano. A leggerla mi sembrava di cantare”

(De fazê-los aprender poesia, pensei que se não me tivessem feito odiá-la das profundezas das minhas vísceras, seria uma bela língua, o italiano. Enquanto o lia, parecia que eu cantava)

Como já era de se esperar e imaginar, a obra fala, ainda, sobre as dificuldades do viver.

“Perché vivere vuol dire per forza andare avanti?”

(Por que viver significa, necessariamente, seguir em frente?)

“Nulla è più impietoso della neve che ti cade addosso”

(Nada è mais impiedoso que a neve que cai sobre você)

Uma narrativa, por fim, que nos lembra da pureza das crianças, mesmo em um mudo tão machucado e dolorido.

“Vedrai, ti farà bene stare coi bambini, sono molto meglio degli adulti”

(Você vera que te fará bem estar com as crianças, são muito melhores que os adultos)

Resto qui me apresentou uma Itália que, mesmo estudando tanto sobre o país, eu não conhecia e que, apesar de retratar algo tão triste, era preciso conhecer. Se você quiser saber do que estou falando, não deixe de ler a resenha e, claro, a obra completa.

Resto qui — Marco Balzano

Título: Resto qui 
Autor: Marco Balzano 
Editora: Einaudi 
Páginas: 192 
Ano: 2020 
Título em português: Daqui não saio

Sabe aquele livro que a gente se pergunta por que nunca leu antes? Pois bem, Resto qui é um desses.

Não digo isso pela sua escrita, que não é tão especial assim, sendo direta e até um pouco dura. Mas, puderas: seus temas não dão muita escolha. E são justamente eles que, para mim, dão tanto destaque a esta história.

“Pelo contrário, vou te contar sobre a nossa vida, sobre sermos sobreviventes. Vou te contar sobre aquilo que aconteceu aqui em Curon. No vilarejo que não existe mais”

O texto começa com uma mãe falando com sua filha, numa espécie de carta, e, neste primeiro momento, podemos perceber uma dor que ainda não compreendemos muito bem a origem, o que nos faz querer seguir adiante, mesmo com medo do que pode vir (e que já sentimos que não tem como ser bom).

“Você não sabe nada sobre mim e, no entanto, sabe muito porque é minha filha”

Logo, então, chegamos ao primeiro assunto que me faz gostar desse livro: Curon

Talvez você já tenha ouvido falar desta pequena cidade italiana, conhecida pela torre de um campanário que desponta do meio de um lago. Há inclusive uma série da Netflix com este nome.

O que poucos sabem é a verdadeira história de Curon, e é justamente isso que encontraremos em Resto qui. Uma história que tem muita relação com o nazismo e a guerra, dois temas que me são caros e que contribuíram para o meu encantamento com esta narrativa, porque aqui aparecem de uma perspectiva diferente da que costumamos encontrar.

“O nazismo era a maior vergonha e cedo ou tarde o mundo perceberia isso”

Apesar de estar na Itália, Curon é uma cidade que faz fronteira com a Suíça e a Áustria, tendo mais características alemãs que italianas propriamente ditas. Seus habitantes, por exemplo, falavam alemão, o que foi um grande problema à época de Mussolini, que obrigou toda a Itália a falar o italiano.

“Contudo o italiano e o alemão eram muros que continuavam a ser levantados. As línguas tinham se tornado marcas de raça. Os ditadores as tinham transformado em armas e declarações de guerra”

Tina, a narradora de Resto qui — assim como praticamente toda a população de Curon —, era uma pessoa de origem e hábitos humildes. Mas havia algo que unia esse povo: o sentimento de lar que a cidade gerava neles. E, por isso, eles lutaram até o fim contra a construção da represa que deixou toda a cidade submersa, restando apenas o campanário da igreja.

“Se nós formos embora, eles terão vencido”

O problema é que os habitantes de Curon não tinham apenas a diga para se preocupar: durante a guerra, tiveram de fazer escolhas nada fáceis.

Enquanto alguns voluntariamente se alistavam aos exércitos nazistas, outros, como o marido de Tina, preferiam desertar e, por isso, tiveram de fugir e viver escondidos.

“Era difícil aceitar, mas tudo havia ficado para trás. Eu deveria apenas não pensar mais nisso”

Resto qui é uma história real e necessária, que vai nos fazer refletir sobre nossas origens, o sentimento de pertencimento, o poder de uma língua, as dores da guerra e do distanciamento dos filhos.

“Era a minha dor secreta, sobre a qual não falavo com ninguém. Nem comigo mesma”

Dentre as tantas críticas que uma história como essa pode fazer, Resto qui ainda se encerra com uma interessante reflexão sobre a banalização turistica da história local.

“A vida era mais uma questão de afetos que de ideias”

O livro foi traduzido para o português, recebendo o título de Daqui não saio. No entanto, li o original, em italiano, e os trechos acima foram traduzidos por mim. Abaixo, deixo, na ordem usada ao longo desta resenha, os trechos tais quais li no livro.

“Ti racconterò invece della vita di noi, del nostro essere sopravvissuti. Ti dirò di quello che è successo qui a Curon. Nel paese che non c’è più”

“Non sai niente di me, eppure sai tanto perché sei mia figlia”

“Il nazismo era la vergogna piú grande e presto o tardi il mondo se ne sarebbe accorto”

“Invece l’italiano e il tedesco erano muri che continuavano ad alzarsi. Le lingue erano diventate marchi di razza. I dittatori le avevano trasformate in armi e dichiarazioni di guerra”

“Se ce ne andremo avranno vinto loro”

“Era difficile da accettare, ma tutto era alle spalle. Dovevo solo non pensarti piú”

“Era il mio dolore segreto, di cui non parlavo con nessuno. Nemmeno con me stessa”

“La vita era una questione di idee prima che di affetti”

É possível ler qualquer uma das versões em formato ebook, basta clicar na que você preferir abaixo:

Citações #38 — L’ultimo arrivato

Falei sobre L’ultimo arrivato (Marco Balzano) recentemente, mas, como acaba acontecendo quando gosto muito de um livro, diversos quotes ficaram de fora da resenha.

Por ser uma obra italiana, farei o que costumo fazer: vou colocar os quotes em português (tradução livre, feita por mim) e, ao final, os originais, na ordem em que aparecerem aqui, para quem quiser dar aquela espiadinha nessa língua maravilhosa.

A história de L’ultimo arrivato é forte e nos faz refletir sobre aspectos bem diversos de nossa existência, como, por exemplo, amizades e preconceitos:

“Amigos verdadeiros me parece que só se pode ser quando pequenos, quando somos limpos por dentro e não fazemos cálculos de interesse nem outras obscenidades.

E ainda nesse caminho dos preconceitos — e coisas que precisamos desmitificar —, há uma passagem que chamou minha atenção, falando sobre o choro:

“Vendo-me chorar, ficou de boca aberta e me disse que chorar é a última coisa que devemos fazer neste mundo, porque não serve para nada”

Esse trecho chamou minha atenção porque eu sou muito a favor do choro livre, por quem for! (O que não significa, necessariamente, que você vai me ver chorando tão facilmente assim… hahahahah).

E há, ainda, uma passagem sobre a nossa história, o nosso passado e aquilo que, por vezes, não queremos que ninguém veja, porque talvez ninguém seja capaz de compreender:

“Sim, porque os desconhecidos, isso eu entendo quando sento no banquinho frio dos jardins, não têm nada para te perdoar. Nada para esquecer”

O que me faz pensar que o passado de Ninetto, protagonista desta história, não foi nem um pouco fácil, sendo marcado por uma migração forçada e solitária:

“O trem que desce não é o mesmo que sobre. É outra história”

Mas, antes dessa migração, já havia um grande distanciamento da mãe, doente e incapaz de cuidar de seu filho, mas a quem ele ama muito:

“Até o fim, a mudez foi o seu modo de se defender. Da sujeira, dos médicos, da solidão”

Até porque, em sua vida, Ninetto teve poucas pessoas e, menos ainda, pessoas que lhe fossem importantes e cuidassem verdadeiramente dele:

“É uma pena ser filho único. Falta uma palavra importante em seu vocabulário: irmão”

Mas eu estava falando sobre o passado de Ninetto e, ao longo da história, também vamos percebendo que ele carrega mais sombras do que pode parecer em um primeiro momento, o que também lhe causa certa amargura:

“Eu nunca fui uma referência”

Mas essas sombras também são fruto de um erro cometido por ele, um erro gravíssimo:

“Para certos erros não se pode pedir desculpas”

Tal erro faz com que ele seja preso, e a prisão também o transforma muito:

“O cárcere te desabitua inclusive à civilidade. Você esquece dela porque naquela imundície ela é inapropriada”

E é por tudo isso que o início e o fim da vida de Ninetto são tão parecidos: solitários, reflexivos:

“O cárcere cavou um fosso tão profundo que, ao meu lado, sobrou apenas Maddalena”

Eu disse na resenha e reforço aqui: L’ultimo arrivato é um soco no estômago. Uma história inventada, mas que foi real para muitos. Uma história para aprendermos.

E, como prometido, os quotes originais:

“Amici veri mi sa che si può essere solo da picciriddi, quando si è puliti dentro e non si fanno calcoli di interesse né altre oscenità”

“Vedendomi piangere rimase a bocca aperta e mi disse che piangere è l’ultima cosa che bisogna fare a questo mondo perché non serve mai a niente”

“Sì perché gli sconosciuti, lo capisco quando mi siedo sulla panchina fredda dei giardinetti, non hanno niente da perdonarti. Niente da dimenticare”

“Il treno che scende non è lo stesso che sale. È un’altra storia”

“Fino alla fine il mutismo fu il suo modo di difendersi. Dalla sporcizia, dai medici, dalla solitudine”

“È una disdetta essere figli unici. Ti manca una parola importante del vocabolario, fratello”

“Io non sono mai stato un punto di riferimento”

“Per certi sbagli non si può chiedere scusa”

“Il carcere ti disabitua pure alla civiltà. Te la scordi perché in quel luridume è inappropriata”

“Il carcere ha scavato un fossato così profondo che dalla mia parte è rimasta solo Maddalena”

L’ultimo arrivato — Marco Balzano

Título: L'ultimo arrivato
Autor: Marco Balzano
Editora: Sellerio Editore Palermo
Páginas: 205
Ano: 2018

Provavelmente uma das coisas que mais me faz apaixonada pelos livros é o quanto posso aprender com eles. E L’ultimo arrivato foi uma obra que trouxe muitas novidades para mim.

Infelizmente, a obra ainda não tem tradução para o português, mas para dar um gostinho dela, traduzirei os trechos que selecionei para compor esta resenha, colocando ao final os trechos originais, na sequência que aparecem aqui.

“Para aprender é preciso confiança e eu não confiava nele”

Uma história inventada, mas que ao mesmo tempo é real: fruto de muitas pesquisas e recortes de entrevistas com pessoas de carne e osso, L’ultimo arrivato nos mostra uma Itália de não muitos anos atrás e que, ao mesmo tempo, pouco se sabe ou se estuda.

“Não restaram traços, porque o esforço dos pobres cristãos não deixa vestígios. Não resta testemunho disso nem mesmo nos livros escolares, onde se lê apenas sobre o rei e a rainha”

Logo no início da obra o autor já nos explica sobre o que ela trata e o tema, por si só, nos faz pensar em uma história de terror que nos deixa boquiabertos por ter, de fato, acontecido.

“Nos anos cinquenta, a mudar-se do Sul ao Norte, em busca de trabalho, não eram apenas homens e mulheres prontos para a experiência e para a vida, mas também crianças — às vezes com menos de dez anos — que nunca haviam se afastado de casa. O fenômeno da imigração infantil envolve milhares de garotinhos que diziam adeus os pais, aos irmãos e se mudavam — muitas vezes eternamente — para as metrópoles distantes”

Em L’ultimo arrivato conhecemos Ninetto, um garoto que teve o mesmo destino de tantos de sua época e idade: mudar-se para Milão em busca de uma vida um pouco melhor. Mas a mudança era nos termos acima mencionados: sozinho e para trabalhar.

“Há momentos nos quais você não tem mais nada no que se agarrar a não ser a sua história”

Durante 31 capítulos vamos acompanhando a história desse garoto que, no início, levava uma vida muito simples — e já com algumas dificuldades — mas até que, na medida do possível, feliz.

“Não é verdade que basta boa vontade para virar a página e recomeçar”

Apesar de nem sempre ter comida na mesa — ou comer sempre a mesma coisa — e ver a sua mãe doente — mas não entender o que acontecia com ela — Ninetto ia à escola e, a cada dia, voltava fascinado com o que aprendia ali.

“Depois do Peppino, ainda que eu jamais o tenha dito, a pessoa a quem eu mais queria bem era o professor Vincenzo”

Depois de nos contar sua infância, Ninetto narra a viagem de trem até o norte e tudo o que passa a viver nessa nova e desconhecida cidade. Ali ainda há pobreza, mas também há a chance de se mudar de vida com muito suor e muita vontade.

“De qualquer forma, foi justamente aquele trabalho de mensageiro que me fez entender que Milão é um lugar mágico e horrível ao mesmo tempo”

Um ponto muito interessante da narrativa é que ela é feita de maneira crua, sem máscaras e sem a menor intenção de colorir uma realidade tão cinza. O que não significa, porém, que as palavras empregadas não transmitam com certa magia uma história tão difícil.

“Talvez as lembranças sejam aqueles fatos que não conseguimos esquecer”

Ao longo da narrativa, não sei se pelo fato dela ser narrada em primeira pessoa ou se pelo fato de ser muito bem escrita — ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo — nos sentimos imersos, lendo aquelas passagens quase como quem assiste a um filme.

E, para nos deixar ainda mais presos à história, em determinado momento ficamos sabendo que Ninetto viveu um tempo na cadeia e passamos a querer saber o motivo disso, ainda que ele não dê grande importância ao fato. Pelo contrário, aliás, os anos passados na prisão são apenas um borrão na narrativa, mesmo que depois disso, Ninetto jamais possa ser quem fora antes.

“Não há o que dizer, é fora do cárcere que está a verdadeira pena a se cumprir”

Mas o livro não é apenas tristeza. Como eu disse antes, é uma história sem máscaras, mostrando os momentos como eram. Há a celebração das pequenas conquistas, o amor, o casamento, a filha, o reencontro com a família, a poesia.

“Tem quem nasce avenida principal e quem nasce rua sem saída”

Se você lê em italiano, recomendo esta obra — desde que você aceite um soco no estômago — e se você não lê, recomendo ao menos que pesquise sobre esse momento da História italiana. Procure sobre os “trens da felicidade” e sobre os anos cinquenta.

E, como prometido, seguem os trechos originais, na ordem em que apareceram nesta resenha:

“Per imparare bisogna fiducia e io di lui non ne avevo”

“Non ne è rimasta traccia perché la fatica dei poveri cristi non lascia mai traccia. Non ne rimane testimonianza nemmeno nei libri di scuola, dove si legge soltanto del re e la regina”

“Negli anni Cinquanta a spostarsi dal Meridione al Nord in cerca di lavoro non erano solo uomini e donne pronti all’esperienza e alla vita, ma anche bambini a volte più piccoli di dieci anni che mai si erano allontanati da casa. Il fenomeno dell’emigrazione infantile coinvolge migliaia di ragazzini che dicevano addio ai genitori, ai fratelli, e si trasferivano spesso per sempre nelle lontane metropoli”

“Arrivano dei momenti in cui non hai nient’altro che la tua storia a cui aggrapparti”

“Non è vero che basta la buona volontà per girare pagina e ricominciare”

“Dopo Peppino, anche se non gliel’ho mai detto, la persona a cui volevo più bene era il maestro Vincenzo”

“Comunque, è stato proprio quel lavoro di galoppino a farmi capire che Milano è un posto magico e orribile insieme”

“Forse i ricordi sono quei fatti che non riusciamo a dimenticare”

“Non ci sono storie, è fuori dal carcere la vera pena da scontare”

“C’è chi nasce strada principale e chi strada senza uscita”