6 conselhos para melhorar seu italiano inspirados em Jhumpa Lahiri [tradução 40]

Introdução 

É evidente que se eu tiver a oportunidade de juntar coisas que eu gosto, juntarei. E este post é exatamente isso: uma tradução que fala sobre um livro e o aprendizado da língua italiana.

Foi um artigo que encontrei por acaso e que já me deixou muito curiosa para ler o livro que ele apresenta.

O texto original você encontra no Blog Italian With Giada e foi escrito por Giada, em 20 de dezembro de 2023. Abaixo você encontra o post.

Vamos à tradução?


Tradução 

Em outras palavras é o primeiro livro escrito em italiano por Jhumpa Lahiri, uma escritora estadunidense, de origem bengalesa, que se mudou para a Itália e agora vive em Roma. O livro fala da paixão pela língua italiana, de sua beleza, do desejo e da dificuldade de aprendê-la e dominá-la, e, em geral, de como alcançar um objetivo na vida.

Aprender italiano pode ser, às vezes, difícil, mas lendo este livro tenho certeza que você se identificará com o amor da autora pela minha língua e pelo seu percurso de estudo. Nas páginas de Em outras palavras, de fato, você encontrará a paixão e a motivação para a sua viagem linguística. 

Neste post, deixo te deixo seis conselhos para melhorar o seu italiano, inspirados no percurso de estudo de Jhumpa Lahiri.

Boa leitura!!

Conselho 1

Mergulhe, jogue-se na língua! No início você terá medo e não deixará a margem, mas para aprender de verdade é preciso atravessar sem o suporte da sua língua mãe, é preciso mergulhar. Em outras palavras começa exatamente assim, com esta imagem do lago (uma língua estrangeira, neste caso o italiano) e as dificuldades de atravessá-lo, de nadar através dele sem suporte (a nossa língua mãe).

Conselho 2

Não faça tudo sozinho(a)! A beleza de aprender uma língua estrangeira está no seu compartilhamento, nas relações que estabelecemos com pessoas que falam aquela língua, em sua expressão e em sua comunicação. A língua não é uma coleção de regras gramaticais ou uma lista de vocabulários para memorizar. Compartilhe a sua paixão com outras pessoas, procure um professor nativo. Se não, como disse Jhumpa, é como estudar o funcionamento de um instrumento musical sem jamais tocá-lo

Conselho 3

Comece a falar em italiano desde o início, mesmo que você não se sinta perfeito(a) ou confortável ou tenha medo da sua pronúncia e de não ser compreendido(a). Principalmente durante suas viagens à Itália, não hesite em falar italiano.

Conselho 4

Para mergulhar ainda mais na língua, comece pela sua literatura! Leia romances italianos em italiano. Jhumpa, em um certo momento da sua vida, resolve se mudar para Roma. O que ela faz para se preparar para a sua viagem? Renuncia sua língua, o inglês, e seus queridos livros ingleses. Começa a ler só em italiano, romances italianos. Para me preparar decido, seis meses antes da partida, de não ler mais em inglês, ela escreve. Claro, não é simples, mas Jhumpa não se deixa intimidar pela língua e pelas palavras que não entende. Não para a cada palavra, anota aquelas que a afetam, procura entender o significado delas pelo contexto.

Conselho 5

O quinto conselho inspirado na viagem linguística de Jhumpa é aquele de escrever em italiano. A escrita na língua que queremos aprender é fundamental para encontrar a própria identidade, a própria voz naquela língua. Quando aprendemos uma língua estrangeira, nos transformamos e nos reinventamos. Escrever ajuda a encontrar essa voz e nos expressar com novas palavras. 

Conselho 6

O sexto e último conselho tem a ver com as palavras. Quando aprendemos uma nova língua, estamos sempre em busca de palavras novas para nos expressarmos melhor. Para memorizá-las e usá-las, ela anota em um caderno aquelas que parecem importantes, bonitas, incomuns, especiais. São palavras importantes para ela, palavras que leu, escreveu, pensou, às vezes esqueceu e relembrou. São listas de palavras vividas e suas. O meu conselho é esse: não se prenda apenas a listas de palavras pré-fabricadas, que encontramos em manuais, ou criadas por outras pessoas. Crie você mesmo(a) essas listas, faça-as suas, brinquem com elas e as leia, use-as, viva-as. Por exemplo, você pode criar listas temáticas sobre o conteúdo de um livro, de um filme, de um artigo de um jornal, de uma conversa… As palavras novas, neste caso, estão inseridas em um contexto, terão um significado particular para você e, provavelmente, será mais fácil lembrar delas e reutilizá-las no momento certo. 

Se você não leu esse livro e ficou curioso(a), pode encontrá-lo em todas as livrarias. Também é possível encontrá-lo em formato áudio, gratuitamente, no YouTube:

Deixo aqui, também, a entrevista da escritora Jhumpa Lahiri, na qual ela descreve a sua experiência como estudante de italiano.



Conclusão 

Como eu disse no começo, este artigo me deixou com muita vontade de ler Em outras palavras, da autora Jhumpa Lahiri

Antes de encerrar, porém, não poderia deixar de fazer uma última observação: no segundo conselho, a autora do livro sugere ao leitor procurar um professor nativo. Já escrevi sobre isso aqui e reitero: o professor não precisa necessariamente ser nativo, mas precisa saber te fazer entender e usar a língua que você está aprendendo.

E você, que conselhos daria para quem está aprendendo uma nova língua?

Ler faz bem (mas não importa a ninguém) [tradução 39]

Introdução 

Depois de um longo tempo sumida aqui do Blog (falei um pouco sobre isso aqui), finalmente trago um post novo. E, para marcar este retorno, escolhi traduzir um artigo cujo título chamou minha atenção, porque um dos intuitos deste espaço é justamente incentivar a leitura (inclusive, se você conhece alguém que colocou nas metas deste ano ler mais, já convida para conhecer esse espaço e trocar uma ideia).

Desfrute abaixo da tradução de Ler faz bem (mas não importa a ninguém), escrito por Maria Teresa Carbone e publicado originalmente no Il Manifesto, em 8 de agosto de 2024.

Tradução 

Que o hábito da leitura (de livros, não de mensagens de whatsapp) faz bem, é coisa que já se sabe. Mas se por acaso passou despercebido a alguém os infinitos artigos nos quais são elencadas as vantagens físicas e psicológicas escondidas entre as páginas de um romance ou de um ensaio, de uma antologia poética ou mesmo de um bom livro de receitas, eis que María J. García-Rubio e Ana Merino, no La Vanguardia, repropõem o tema à luz das mais recentes descobertas da neurociência.

O ponto de partida, como já havia explicado Maryanne Wolf no seu Proust e il calamaro (Editora Vita e Pensiero), é que ler — diferentemente do caminhar e do falar — não é uma característica inata aos seres humanos, uma vez que a escrita existe há “apenas” seis mil anos. Em outras palavras — explicam García-Rubio e Merino — “do ponto de vista neurocientífico, a leitura não está ligada a áreas cerebrais específicas, como, por outro lado, acontece com a visão, o olfato, a audição”. Este, que poderia parecer um problema, tem, contudo, consequências positivas, porque o cérebro da menina e do menino que aprende a ler é obrigado a encontrar uma — de certo modo inédita — “especialização” que envolve várias regiões cerebrais: “o giro supramarginal, o giro angular, as áreas frontais relacionadas aos processos motores envolvidos na articulação, e as áreas occipitais responsáveis pelo processamento de estímulos visuais como as letras, sem contar as áreas ligadas à memória, ao significado e ao conteúdo emocional dos grafemas e fonemas”.

Em resumo, um treinamento que faz parecer àquele dos atletas para as Olimpíadas uma piada, e que traz consigo, conforme aumenta o nível de complexidade dos textos, outros benefícios em termos de concentração, atenção e capacidade de empatia. De acordo com os últimos estudos sobre o tema, trazem à tona García-Rubio e Merino, a leitura reduz os níveis de estresse, porque “quando lemos são liberados neurotransmissores ‘bons’ como a dopamina e a ocitocina” e “retarda o envelhecimento, graças ao conceito de reserva cognitiva, uma espécie de ‘dispensa do conhecimento’ com a qual o cérebro se reabastece”. 

Diante de dados como esse, poderia-se esperar um assalto generalizado às livrarias e bibliotecas. Ao contrário, infelizmente devo dizer, quanto mais os cientistas demonstram, com estudos em mãos, que a leitura é um salva vidas, menos se lê. E não estamos falando só da Itália onde, sabe-se, a paixão pelos livros nunca foi um esporte de massa, mas de países há anos considerados como paraísos de leitores. 

Os últimos números sobre a leitura dos adultos no Reino Unido são uma dolorosa confirmação disso: como escreve Ella Creamer no Guardian, mostrando os resultados do relatório The State of the Nation’s Adult Reading, 35% dos cidadãos britânicos maiores de 16 anos declara ser um ex leitor, “ou seja, uma pessoa que lia regularmente por prazer, mas agora faz isso raramente ou nunca”. Este é, provavelmente, o dado mais melancólico da pesquisa, mas existe um outro ainda mais inquietante: o grupo etário entre 16 e 24 anos registra o nível mais baixo de leitores regulares (32%). E mais: 44% dos “jovens adultos” declara se considerar um ex leitor.

Para redimir estes desertores da leitura, será suficiente sacudir debaixo dos olhos deles as pesquisas da neurociência? Duvidamos e duvidam também os editores que, na metade de julho (escreve sobre isso Porter Anderson no Publishing Perspectives) na Feira do Livro de Frankfurt e na Feira do Livro para Jovens de Bolonha anunciaram em um comunicado conjunto que “às atividades das feiras para o desenvolvimento do livro serão acrescentados um centro de negócios sobre jogos”. 

Conclusão 

Ler é uma delícia, para além de qualquer benefício que estudos científicos possam descobrir com relação a este hábito. 

É uma pena, portanto, que poucas pessoas tenham consciência disso, mas, principalmente, que haja pouco incentivo para o florescimento deste hábito, ainda que, nos últimos tempos, temos visto redes sociais como o Tik Tok ajudando a disseminar e incentivar este hábito.

Il paese dei balocchi [tradução 38]

Introdução

Recentemente, tive a sorte de ser apresentada ao rock progressivo (que os conhecedores chamam mais simplesmente de prog). E, como se não bastasse poder conhecer um estilo musical que estou adorando ouvir, também fui apresentada a grupos italianos de prog!

Por isso, trago aqui a tradução de uma resenha que fala sobre um grupo de prog italiano bem interessante, cujo nome despertou minha atenção logo de cara: Il paese dei balocchi.

Eu sabia que este nome não me era estranho e que estava ligado ao universo literário. E a resposta veio fácil: Pinocchio. Quer algo mais italiano que isso?

O texto que trago aqui fala sobre a banda, mas também sobre o único disco dela, que tem o mesmo nome. E se a pulga já estava atrás da orelha, bastou ver os títulos das músicas e apertar o play para pensar: eu PRECISO saber mais sobre isso.

Antes de passar para a tradução em si, porém, uma explicação sobre o que é, em Pinocchio, Il paese dei balocchi, porque isso não vai aparecer ao longo do artigo, mas acho que esta introdução pode deixar as coisas ainda mais interessantes.

Il paese dei balocchi (ou “O país dos brinquedos, da diversão”) é um lugar mágico, onde as crianças podem fazer o que querem, sem regras ou responsabilidades. Seria o paraíso, se não fosse por um detalhe: quem fica muito tempo por lá se transforma em burro

Pinocchio é uma história infantil e Il paese dei balocchi tem a sua função ali: simbolizar que viver uma vida sem disciplina, trabalho e responsabilidade traz consequências.

O que isso tudo tem a ver com um disco de prog italiano? Bom, leia a tradução abaixo, deste texto aqui, originalmente publicado no site Donato Ruggiero, em março de 2020.

Tradução 

Estamos em 1972, ano de publicação de muitas obras primas do prog italiano (só para citar alguns, o álbum homônimo e “Darwin”, dos Banco, “Us” do Balletto di Bronzo, “Nuda”, dos Garybaldi, “Jumbo” e “DNA”, dos Jumbo, “Uomo di pezza” do Orme, “Storia di un minuto” e “Per un amico”, do PFM) e entre eles encontramos uma pequena pérola, desconhecida para a maioria: Il Paese dei Balocchi, disco da banda homônima, formada em Roma.

Nascido das cinzas dos Under 2000, ativos desde 1965, o PdB, em 1971, foi notado pelo produtor Adriano Fabi, que propôs a gravação de um álbum. Isso aconteceu no ano seguinte e as gravações duraram somente duas semanas. Fizeram parte delas também o maestro Claudio Gizzi (futuro membro dos Automat, com Musumarra) que cuidou dos arranjos das cordas.

A obra que nasce das mentes de Armando Paone (voz, teclado), Fabio Fabiani (guitarra), Marcello Martorelli (baixo) e Sandro Laudadio (bateria, voz), é um álbum conceito de temática muito pessimista “porque naqueles tempos não acreditávamos nas instituições ‘oficias’ e estávamos enjoados e oprimidos por tudo o que nos rodeava (Vietnã, política, conformismo hipócrita,…) em que os ‘porquês’ eram tantos e sem respostas convincentes. Nos inspiramos espiritualmente em tudo isso para a criação do nosso LP… Justamente procurando ‘AS’ respostas. O nosso LP, em linhas  gerais, é uma viagem do homem dentro de si mesmo… (‘si mesmo’… aqui imaginado como um Paese dei Balocchi, aquele onde todos nós gostaríamos de viver, fugindo de uma realidade que não nos empolga e onde quem tem os fios do poder… é um rei déspota que nos manobra como ‘fantoches’). É a busca por nós mesmos, ou melhor, pela própria identidade humana, passando através do bem e do mal, tentando entender quem somos, porque estamos aqui e aonde estamos indo, até chegar à esperança… vã, porque no final da viagem descobrimos que a ‘crua’ realidade na qual vivemos, nada mais é do que um espelho no qual podemos ver o reflexo da nossa própria alma” (da entrevista de Fabio Fabiani, concedida a Augusto Croce).

A divulgação do álbum acontece também com a participação da banda em dois grandes eventos organizados naquele ano: o grande concerto de Villa Pamphili, em Roma, e a Mostra d’Oltremare, em Napoli. Do disco, lembra Laudadio, foram publicadas somente 1800 cópias.

A capa, onde se pode ver diversos pedaços de tecido coloridos costurados, representa em cheio a colagem de sons (clássicos e eletrônicos) e atmosferas (forçadamente melancólica) presentes no álbum, que não deve ser entendido como uma composição confusa, mas como uma grande habilidade técnica e capacidade de fazer malabarismos no complicado universo do “conhecer a si mesmo”.

A primeira faixa do álbum, com um longo título, é Il trionfo dell’egoismo, della violenza, della presunzione e dell’indifferenza (o triunfo do egoísmo, da violência, da presunção e da indiferença). O início é arrebatador: um passeio que nos lembra uma pequena parte, depois do solo de bateria no início, de Il tramonto di un popolo (O pôr do sol de um povo), música do Capitolo 6, presente no álbum Frutti per Kagua (publicado no mesmo ano). Neste o destaque é a flauta, enquanto naquele não tem um elemento que se sobressai, mas é a sublime mistura entre guitarra, órgão, baixo e bateria que se impõe. E então uma mudança abrupta: entram os instrumentos de corda, criando um suspense, e a música muda completamente. Os últimos segundos são muito relaxantes.

Música multifacetada é Impotenza dell’umiltà e della rassegnazione (Impotência da humildade e da resignação). Em apenas quatro minutos, Il paese dei balocchi se aventura em numerosas e repentinas mudanças que desorientam o ouvinte. O começo é bem minimalista, com uma guitarra “distante” e um tema de poucas notas, retomados pouco depois, de maneira decidida, por uma guitarra distorcida. A evolução da música é introduzida pelo baixo de Martorelli e a sucessiva entrada de toda a banda, acompanhada por coros (presentes já um pouco antes da entrada do baixo). Pouco depois, o órgão, sozinho, tenta trazer calma, mas só aparentemente: os coros entram novamente com uma guitarra toda em estilo “western”. Em seguida, um breve trecho de teclado ao estilo de Battiato. A música termina com um bom e puro prog “made in 1972”.

Com Canzone della speranza (Música da esperança), o PdB “respira” um pouco. É a primeira faixa cantada do álbum. Um leve arpejo dá início a uma balada melancólica (estado de espírito endossado pelos coros). A tristeza base da música está presente também nos instrumentos de corda, na voz e no texto: “Eu vendo tudo e vou embora, todos os sonhos, a melancolia / deixo a tranquilidade por um pouco de liberdade / uma sobra de sinceridade, a fé, um pouco de caridade / procuro coisas que nunca tive / as mãos estendidas de um amigo, talvez um sorriso / palavras doces que nunca ouvi / perdi o país com o qual sonhei, o vento vai me levar / mundo mais novo, estou aqui para você / cores vivas me curarão / o amor que agora não está em mim, verá”.

Evasione (Evasão) tem um sabor onírico, psicodélico (sensação criada pelo som “aquoso” da guitarra na primeira parte da canção). A partir do segundo minuto, a atmosfera de sonho ganha mais força com a entrada do teclado e da bateria. Vale notar algumas esporádicas inserções de sintetizador e um final mais encorpado.

Risveglio e visione del paese dei balocchi (Despertar e visão do país dos brinquedos) tem uma estrutura e ainda cria uma atmosfera capaz de ser usada sem problemas como música de filme. O riff de baixo do interlúdio parece tirado de uma faixa dos Banco.

Música de dupla personalidade é Ingresso e incontro con i baloccanti (Entrada e encontro com os brincalhões). A primeira parte tem uma introdução muito animada, que exala algo de medieval. A segunda parte foi confiada apenas à voz, que se exibe em um canto de tom “monástico”.

A breve, mas intensa, Canzone della verità (Música da verdade), realizada apenas com cordas, lembra muito de perto músicas presentes nos três “Concerto Grosso” do New Trolls.

Outra música bem curta é Narcisismo della perfezione (Narcisismo da perfeição). Os únicos participantes da “contenda” são guitarra e voz. Enxerga-se ali algo que será próprio de Angelo Branduardi nos anos seguintes.

Vanità dell’intuizione fantastica (Vaidade da intuição fantástica). depois de dois minutos de som “em baixo volume” (órgão e guitarra), é o baixo, acompanhado das percussões, que dá sentido à música. Eles preparam o terreno para um bom trecho de prog. O solo de órgão presente aqui soa muito britânico. A última parte da música tem sonoridades mais psicodélicas.

É uma “prova de força”  do órgão, muito bem tocado por Paone, que ocupa os mais de quatro minutos de Ritorno alla condizione umana (Retorno à condição humana). Para a ocasião foi usado um órgão Mescioni, de 1947, presente na igreja de S. Euclide, igreja na qual também foram registrados alguns coros (para aproveitar a reverberação) presentes no disco. Para complementar, algumas intervenções de sintetizador.

Conclusão

Se você, assim como eu, não conhecia nada disso, espero que tenha gostado. E se já conhecia, que esta tradução ao menos tenha trazido algumas informações novas.

Sigo escutando Il paese dei balocchi, tentando unir a sonoridade a todas essas possíveis interpretações e significados que cada uma das músicas (e são apenas 10, passa tão rápido!) pode ter.

Ah, e se quiser ouvir também, é só dar o play

Se as escolas ensinassem bem a literatura [tradução 37]

Introdução 

Dia desses me deparei com o artigo italiano cujo título (e conteúdo) você encontra traduzido aqui: Se as escolas ensinassem  bem a literatura e se enchesse as salas de aula com livros, todos saberiam o que é amor.

O artigo em questão foi escrito pela redação do site Orizzonte Scuola, e foi publicado em 12 de abril de 2024, como você pode ver no post original.

Claro que o título despertou minha curiosidade, apesar de, no fim das contas, o texto não aprofundar exatamente a questão da literatura, mas sim a importância de fazermos perguntas.


Tradução 

No seu último livro para jovens, “As grandes perguntas”, Umberto Galimberti defende que as perguntas são mais importantes que as respostas. Uma afirmação que pode causar dúvidas: se não temos respostas, como podemos nos orientar no mundo?

Para Galimberti, em uma entrevista ao La Stampa, as respostas não são a chave. Inclusive, correm o risco de sufocar a nossa curiosidade e fechar a nossa mente. Como diagnósticos e receitas pré-confeccionadas, nos oferecem uma falsa segurança, nos fazendo crer que sabemos e temos tudo sob controle. Este comportamento nos leva a “desligar o cérebro”, renunciando à fadiga de buscar e se aprofundar.

Por outro lado, as perguntas nos mantém alertas, nos fazem questionar e se colocar à prova. São o motor do conhecimento, o ponto de partida para explorar novos territórios e ampliar os nossos horizontes.

Mas atenção: nem todas as perguntas são iguais. Algumas nos conduzem a ruas sem saída, enquanto outras nos abrem novas perspectivas. Como dizia Ésquilo, só o verdadeiro saber tem poder sobre a dor. E esse saber não se adquire por osmose, mas através um percurso de busca e de confronto crítico.

Um exemplo evidente é a literatura. Se as escolas ensinassem a ler os grandes clássicos, não apenas com uma abordagem didática estéril, mas com paixão e envolvimento, os jovens aprenderiam a conhecer a alma humana em todas as suas facetas. Aprenderiam a reconhecer o amor, o sofrimento, a alegria e o medo, emoções que fazem parte da vida de cada indivíduo. E, sobretudo, aprenderiam a lidar com a dor que, inevitavelmente, estas emoções carregam consigo.

Perguntas e respostas são duas faces da mesma moeda, ambas indispensáveis para o nosso crescimento intelectual e emotivo. As perguntas nos impulsionam a buscar, mas as respostas nos oferecem uma direção. Porém é importante lembrar que o verdadeiro saber não se resume a uma simples fórmula, mas é um processo contínuo de descoberta e de confronto. Só através desse processo podemos aprender a viver com sabedoria e a enfrentar os desafios que a vida nos apresenta.


Conclusão 

Qual a sua opinião: perguntas são mais importantes que respostas?

Acho que vivemos numa sociedade que quer tudo pronto (e tem muita coisa assim, na palma da mão) e que talvez realmente esteja perdendo parte de sua capacidade questionadora, então consigo compreender os pontos do autor, ainda que também discorde em alguns outros pontos.

O que é a literatura? [tradução 33]

Considerações iniciais

O texto de hoje é a tradução de um artigo originalmente publicado no The nerd writer, em 27 de fevereiro de 2020. O texto em questão foi escrito por Sara Elisa Riva e você pode lê-lo (e escutá-lo!) aqui.

Resolvi trazê-lo para cá pois, como o próprio texto diz, “o que é a literatura?” é uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, os amantes (e estudiosos) desta arte acabam se fazendo.

Além disso, as palavras aqui trazidas também abordam outra questão, que esteve em pauta na minha última resenha: a do cânone literário.

Vamos, então, atrás de algumas respostas?


Tradução

Depois de finalmente compreender qual era o meu papel na difusão da cultura literária, me vi diante de um primeiro obstáculo a ser superado: de onde partir para envolver as pessoas no extraordinário mundo da literatura e da escrita? Do início, obviamente, alguém poderia dizer, mas qual é exatamente o início?

Todos nós começamos a ler sem nos fazermos grandes questionamentos, simplesmente pegamos em mãos o nosso primeiro livro e, uma sílaba depois da outra, uma palavra depois da outra, uma frase depois da outra, chegamos ao final do texto. Lemos a nossa primeira história.

Entretanto — e isso inclui tudo o que lemos a seguir — dificilmente paramos para pensar porque lemos aquele livro específico. E, para compreender isso, temos de dar um passo para trás.

O que é a literatura?

Cedo ou tarde, pelo menos uma vez na vida, um estudioso de literatura se fará a uma pergunta que não temos como escapar: o que é a literatura? Questão aparentemente banal, afinal o que é a literatura se não um amontoado de textos literários?

Começo dividindo a literatura em duas grandes categorias: os grandes clássicos da literatura mundial de um lado (e esses serão os textos aos quais irei me referir ao longo desse texto) e as narrativas contemporâneas de outro. É claro que alguns livros publicados hoje, amanhã podem se tornar clássicos. Vejamos como.

Partindo de “a literatura é um conjunto de textos literários que atravessam os séculos”. Se assumirmos como verdadeira essa afirmação, será natural nos colocarmos outra pergunta: quais são os textos literários que foram transmitidos até nós? E por que justo eles?

O cânone literário

Os textos que nós lemos, que usamos como referência, fazem parte daquilo que é definido como cânone literário, ou seja, um conjunto de autores e obras tidos como modelos estéticos de uma determinada tradição e com os quais abre-se continuamente um diálogo.

Isso vale como uma definição de máxima, mas o cânone também compreende modelos que transcendem a estética. Como, por exemplo, os valores identitários de uma comunidade, os valores éticos e a sensação de pertencimento são fundamentais, uma vez que representam o primeiro sinal de identidade.

Tudo aquilo trazido até este momento clarifica, apenas em linhas gerais, um modelo de representação da realidade externa a nós. O cânone, contudo, fornece também um exemplo do universo íntimo do eu, da interioridade, do pensamento e da memória.

Para que serve, concretamente, o cânone literário?

O cânone literário nos permite, portanto, através da imitação, definir os diversos modos de representação. Em outras palavras: quando lemos os textos que pertencem ao cânone vigente, passamos a conhecer uma série de valores que se tornam nossos através da imitação (a mimese, portanto). Assim sendo, a literatura nos apresenta modelos de comportamento aceitáveis e compreendidos pela sociedade na qual vivemos, nos fazendo viver uma série de experiências capazes de formar a nossa identidade.

Isso nos faz entender que com a variação dos valores sociais no decorrer dos séculos, existe a possibilidade de uma mudança no cânone que, realmente, não é fixo e nem imutável.

Então o que é a literatura?

Depois de esclarecer, em linhas gerais, o que é um cânone literário e de nos colocarmos algumas perguntas, podemos dizer com razoável certeza que a literatura é um conjunto de textos que contém os valores e os modelos da sociedade na qual estamos inseridos, com a qual mantemos um constante diálogo aberto, mas que, no entanto, justamente pelas variáveis típicas da natureza humana, podem ser modificadas com o passar dos anos. Não é um mistério, portanto, que alguns autores ou suas obras tenham caído no esquecimento por longos períodos para depois serem redescobertos e trazidos à luz em um momento mais adequado a receber a mensagem que o autor trazia consigo. 

Resta ainda uma dúvida, a mais complexa, mas talvez a mais interessante: para o que serve a literatura?

Disso, porém, falaremos no próximo artigo!

Por enquanto, aconselhamos uma leitura fundamental: o cânone ocidental, de Harold Bloom.


Considerações finais

Ao concluir a leitura (e a tradução) de O que é a literatura não sei se as coisas ficaram mais claras ou mais confusas para mim.

A verdade é que definir literatura em poucas linhas é uma tarefa ingrata e praticamente impossível.

No entanto, o texto traz uma explicação interessante sobre o que é um cânone e como ele é estabelecido, além de trazer à luz algumas reflexões interessantes sobre a literatura.

Se você quiser a tradução do artigo sobre para que serve a literatura, me fale nos comentários (:

Por que acumulamos livros sem lê-los? [tradução 32]

Introdução

Dia desses, para variar, eclodiu uma polêmica no Twitter, que o Fabiano já comentou neste post, sobre ter ou não livros em casa.

A ideia deste post não é alimentar a polêmica em si, mas trazer uma tradução sobre o acúmulo de livros, que muitas vezes é mais forte que nós. Será que existe explicação para isso?

Ao longo do texto, você irá se deparar com uma palavra em japonês que não era novidade para mim, uma vez que a conheci em Lost in translation, mas cujo significado fica, agora, ainda mais claro.

O texto original foi retirado do wired.it e foi publicado em janeiro de 2023, tendo sido escrito por Maria Francesca Amodeo, como você pode conferir aqui.


Tradução

Esta pergunta é o centro de memes que circulam online; aparece com frequência nas conversas entre leitores e incomoda cada comprador que não consegue parar de comprar novos livros. Uma palavra japonesa nos ajuda a entender este fenômeno.

É uma prática muito mais difundida do que se pode imaginar — no mundo inteiro e também no nosso país — a de comprar livros e acumulá-los, adiando sua leitura. Parece uma crença besta, que muitas vezes é utilizada como uma acusação irônica nos confrontos dos leitores apaixonados (ou que se torna real com os memes), mas é pura verdade, às vezes de forma patológica: muitas pessoas não conseguem parar de comprar livros. Mesmo se já possuem o suficiente para aplacar — ao menos num curto espaço de tempo — sua sede de leitor.

Esses indivíduos acabam por encher as cômodas, os móveis da casa, as prateleiras, as escrivaninhas. Saem por aí e não são capazes de bloquear o impulso de comprar novos livros, mesmo já tendo volumes suficientes à disposição no interior do próprio apartamento. E esta é uma prática que se repete de novo e de novo, em um loop que não faz menção de ceder.

Alguns entram na livraria e, passeando entre as prateleiras, encantam-se com um título ou uma capa e sentem a necessidade de comprar; mas tem também quem segue os canais de editoras mais conhecidas, fica sempre informado dos lançamentos e compra online as publicações recentes que atiçam a sua curiosidade.

Tem também aqueles que não saem de casa com a intenção de comprar um livro, mas que simplesmente não sabem resistir ao bom perfume das páginas novas quando, por acaso, trombam com elas. Ou quem, por outro lado, não tem interesse no conteúdo e só tem a mania de possuir os volumes. E, ainda, há aqueles que amam colecionar edições preciosas e raras dos livros mais famosos do mundo.

As motivações que levam à aquisição de livros são, portanto, diferentes (ou ao menos assim parece), mas o resultado é o mesmo: na casa de cada um desses compradores compulsivos existem altas — e provavelmente empoeiradas — pilhas de livros para serem lidos. Montes de páginas que reduzem o espaço vital à disposição (como já diria Marie Kondo) e que ficam esquecidas por meses, até por anos.

O risco maior, não é nem preciso dizer, é que com a sede de dedicar-se a novas aquisições, os velhos volumes que já possuímos acabem no esquecimento e nunca sejam realmente lidos. Mesmo quando pareciam interessantes no momento da compra.

E então, por que tantas pessoas continuam a comprar livros sem parar, ficando com uma montanha de livros não lidos em casa? As possíveis respostas para este pergunta talvez sejam três.

Há quem sofra de bibliomania

A primeira resposta se refere a uma verdadeira patologia. A bibliomania é, de fato, um distúrbio obsessivo-compulsivo clinicamente reconhecido, que motiva a pessoa que sofre disso a comprar compulsivamente livros que não tem intenção alguma de ler. Neste caso, o sujeito tem como único interesse aquele de rodear-se de volumes de sua propriedade: novos, usados, muitas vezes até em versões duplas ou triplas. Não é nada incomum, de fato, que o bibliomaníaco possua cópias de um mesmo título, porque para ele não é o conteúdo de cada livro que conta, mas apenas o fato de ser proprietário da maior quantidade possível de volumes.

Se trata, neste caso, de uma mania e quem sofre disso muitas vezes tem inclusive problemas relacionais. É de tal maneira dedicado à sua obsessão de acumulador que é capaz de comprometer sua própria saúde. Por isso que quem sofre de bibliomania é tratado com remédios e terapias específicas.

A bibliofilia e o colecionismo

Bem diferente é a bibliofilia que, como é fácil compreender retomando as origens gregas do termo, nada mais é do que o profundo amor aos livros. Geralmente o bibliófilo também possui muitos exemplares, mas ele se empenha em ler todos eles e tende a conseguir. A sua, de fato, é uma sede por conhecimento, para além de um amor real pela leitura de volumes físicos de páginas ásperas. 

Normalmente o bibliófilo é também um colecionador e privilegia, por isso, edições raras de livros famosos, cópias autografadas de seus autores preferidos ou volumes fora de catálogo que não se encontram mais à venda. Amando de maneira realmente visceral até mesmo a encadernação e a capa de cada volume, quem se considera um bibliófilo não pode achar mais sem sentido a tendência de design na qual se colocam estantes e prateleiras de casa cheias de livros expostos com as páginas à vista, em uma infinita extensão de bege. A bibliofilia não é absolutamente considerada uma condição patológica.

A resposta definitiva: o Tsundoku

Igualmente comum — ainda que venha confundida com a bibliomania — é a condição do Tsundoku. O termo deriva do antigo dialeto japonês e une três diferentes palavras: tsunade (amontoar as coisas, acumular), doku (ler) e oku (deixar um pouco para lá). Em resumo, portanto: acumular livros e esquecê-los deles. O termo em uso no Oriente desde 1879 para definir uma tendência que acompanha a humanidade desde a Idade Medieval.

Esta prática, muito mais difundida que as duas primeiras, diz respeito a todas aquelas pessoas que compram livros com a real intenção de lê-los. Os depositam nas prateleiras (ou sobre a cômoda, ou em qualquer lugar da casa) à espera de iniciar a leitura e depois o abandonam por um tempo indefinido. Mas por quê?

Porque no intervalo, compram novos volumes que roubam o interesse deles. E, num certo ponto, porém, parte dos “novos” livros se tornaram datados, porque serão substituídos e ultrapassados por aquisições ainda mais recentes.

Vejamos um exemplo: se uma pessoa que tende ao Tsundoku compra dez livros, começará — na melhor das hipóteses — a ler um num curto espaço de tempo, e deixará os outros nove à espera, na estante. Muito provavelmente, enquanto está empenhado em sua leitura, sua curiosidade será capturada por outros volumes que resolverá comprar. Digamos que quatro, apenas para exemplificar. 

Um desses talvez se transforme em sua próxima leitura. Os outros três, contudo, entrarão na famosa “pilha da vergonha dos livros não lidos”, com os outros nove livros anteriores e sabe-se lá quantos outros mais. E assim por diante, possivelmente infinitamente. 

Os benefícios do Tsundoku

O Tsundoku, porém, não é considerado uma prática negativa. Vale dizer, porém, que se refere sobretudo àqueles que, geralmente, são definidos como leitores fortes, ou seja, aqueles que leram pelo menos 12 livros no espaço de um ano.

Estima-se que em 2022, na Itália, os leitores fortes eram de apenas 15,2% da população, um percentual realmente baixo. Saber que o mercado editorial pode contar pelo menos com uma base de fortes apaixonados que continuarão a comprar livros é, contudo, uma boa notícia.

Mas comprar livros, para além do fato que serão lidos ou não, traz benefícios para a saúde também. O simples gesto de comprar um objeto — como já foi demonstrado por diversas pesquisas conduzidas na última década — melhora o humor de quem compra. E se se trata de livros, há ainda mais um ponto a favor.

O escritor estadunidense Alfred Edward Newton, que viveu entre os séculos XIX e XX e se definia um bibliófilo defendia que “mesmo quando não podemos lê-los, a presença dos livros que possuímos produz uma forma de êxtase: a compra de mais livros do que podemos ler é nada menos que uma tentativa da alma de se aproximar do infinito. Apreciamos os livros mesmo quando não os lemos, o simples fato de tê-lo e saber que estão perto nos deixa mais cômodos. Só de saber que estão disponíveis nos passa segurança”. 

Ter em casa livros, olhar para eles, cheirá-los (sim, tem quem o faça) é, de fato — para quem os ama — uma espécie de remédio para a tristeza. Uma cura para as pequenas, grandes feridas cotidianas, oferecida por uma especial e única sensação de expectativa que se esconde entre as páginas desconhecidas.


Agora me conte aqui: você compra livros e mais livros, mesmo sem saber onde guardá-los? Ou já consegue resistir a esse impulso?

O que você gosta nos livros que você curte? [tradução 5]

Vamos de mais uma tradução? Já estamos indo! E mais: sobre um tema que também estou planejando trazer para cá a minha opinião, pois tenho pensado muito sobre e ouvido falar muito também. Isso mesmo, vamos falar sobre avaliações de livros. Para aquecer os motores, porém, trago essa tradução. O post original, em italiano, você encontra aqui, e ele foi publicado em 2011!

Confesso que, “aquecer os motores” foi modo de dizer, porque vamos é começar o assunto com tudo! Depois dele, o que terei a dizer será quase nada. E vamos que vamos!


É inevitável que, de vez em quando, nos perguntemos com quais instrumentos e critérios julgamos os livros que lemos.

Tem quem se pergunte se, por acaso, o hábito de julgar os livros e exprimir-se em termos de “gosto/não gosto” não seja um mero atalho que nos mantém superficiais, fazendo das palavras que dedicamos aos livros que lemos um mero falatório. (Aproveitamos para falar disso, também, devido ao sucesso de participação dos leitores em nossos posts sobre os livros mais lindos e algumas observações que um ou outro leitor fez sobre o excesso de simplicidade que comporta um julgamento seco como esse, baseado em “gosto/não gosto”).

Fica o questionamento: o leitor comum — ou seja, nós — tem uma espécie de “dever” intelectual de aprender a usar algum instrumento crítico? Existe um espaço pleno de sentido entre o mero falatório e a crítica profissional?

É uma pergunta que, por sorte, muita crítica, principalmente anglo-saxônica, se esforça há anos para responder, “divulgando” os instrumentos da própria “ciência”.

A propósito, alguns meses atrás, eu havia indicado James Wood, que publicou um livro dedicado exatamente a isso: Como funciona a ficção (Sesi Editora). Uma obra que já faz um certo tempo que tenho sempre à mão, principalmente porque eu me divirto, de vez em quando, em testá-lo com os livros e contos que leio.

Recentemente, também (cito outro como exemplo, acredito que existem centenas que poderiam ser mencionados aqui) o crítico inglês John Sutherland escreveu um livro similar, pelo menos na questão da aplicação: 50 Literature Ideias you Really Need to Know.

Tento, portanto, quase como um jogo, listar as perguntas que eu deveria/gostaria de fazer enquanto leio um livro, se eu não quisesse ser um leitor comum, mas um “como se deve” (usarei Wood, mas podemos pensar outras dezenas de perguntas, basta tentar):

1) Qual é o tipo de narrador que o escritor incumbiu de contar a história? Para além das questões técnicas (onisciente, narrador personagem, uso do estilo indireto livre, primeira pessoa…), é um narrador que sentimos perto de nós? Quanto e como usa a ironia dramática? O quanto está perto ou longe de seus personagens?

2) Como é o jogo entre os detalhes narrativos mostrados? Por exemplo, entre aqueles importante e aqueles (aparentemente) insignificantes; do contraste entre eles depende muito da eficácia das cenas, por exemplo, na capacidade de desenvolver as tensões. É nos detalhes, que se corre o risco de cair no convencional

3) O que procuramos nos personagens? Como eles devem ser para que possamos senti-los vibrar nas páginas, para que possamos vê-los e apreciá-los com a sutiliza necessária que os faz viver? Somos objetivos com a estética do personagem ou julgamos com base em uma qualidade moral presumida?

4) E a consciência dos personagens? Como entramos no pensamento deles? E mais: entramos realmente ou o autor no engana, nos mostra uma imitação da consciência?

5) O livro que lemos é uma máquina de empatia? Conseguimos ver, sentir e compreender a complexidade do nosso “tecido moral” (“nosso” entendido como “condição humana”).

6) A linguagem contém uma multiplicidade de registros, harmonias e dissonâncias, mudanças e saltos de estilo que trazem a complexidade do mundo retratado? As metáforas sabem nos surpreender ou são óbvias, batidas e previsíveis?

7) A história e a trama nos surpreendem? Ou são óbvias, forçadas? Ou então as narrativas são tão elaboradas e centrais que esmagam todo o resto, nos fazendo esquecer que o livro é muito mais e vai muito além de uma única narrativa.

Vocês têm critérios claros de julgamento? Ou não? Me ajudem a enriquecer a lista (ou a eliminar alguns itens, se preferirem)?

Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos [tradução 2]

Quando a escola nos faz odiar os grandes clássicos
Aviso:
o texto abaixo é uma tradução. O original pode ser lido aqui.

A escola italiana — e digo isso por experiência própria, uma vez que vivi no exterior — tem grandes méritos, como propor um programa completo e variado, inclusive com relação à literatura. Acontece, porém, de um professor indigesto ou de uma abordagem errada nos fazer odiar uma obra

É exatamente sobre isso — sobre como a escola pode nos fazer odiar um autor ou um livro — que falaremos no encontro de março do Livromania, a coluna dedicada a livros e a tópicos deste tema (para saber do que se trata e como nasceu, vocês podem ler o texto introdutivo).

Quanto influencia o ensino, o modo como entramos em contato com grandes clássicos da literatura, na opinião que fazemos deles? E é possível, depois, superar o “obstáculo emotivo” e pegar novamente aquela besta escura, relê-la e ainda apreciá-la?

Com professores de italiano/literatura tive bastante sorte, principalmente nos últimos três anos da escola — não é por acaso que eu decidi, exatamente nesse período, estudar Letras na universidade. Nos dois primeiros, nem tanto¹.

É justamente a esse biênio que remontam os meus maiores “ódios literários”: “Os noivos” de Alessandro Manzoni (vencedor indiscutível do prêmio de pior coisa que suportei) e “A eneidade Virgílio.

O que fez “odiá-los” tanto? Provavelmente o fato de que não tive a oportunidade de ler e apreciar essas obras enquanto livros, mas apenas de vê-los e estudá-los como matéria de prova e atividades em sala.

Acho que é muito difícil entrar em sintonia com uma história, um autor e seus personagens — ainda mais os que fazem parte da esfera literária e dos clássicos, pela sua natureza “difícil” — se você não se aproxima deles com a abordagem correta. E, infelizmente, na escola, nem sempre os professores têm tempo, modo e sensibilidade de encontrar essa tal abordagem.

Pessoalmente, ainda me lembro, mesmo com a distância dos anos, a ira da professora porque eu não me lembrava de um detalhe importantíssimo de um episódio d’Os noivos, sinal evidente de que eu não havia lido atentamente as páginas atribuídas pela professora. Vocês devem estar se perguntando: que detalhe é esse? Que as meias de Lucia eram vermelhas.

Vocês também têm livros que odeiam desde os tempos da escola? O que fez com que vocês desenvolvessem essa aversão? E, depois de crescer, vocês foram capazes de superá-la? Escrevam os títulos nos comentários, ou nas redes sociais. Até a próxima!

—–

Nota:
¹. Os ciclos escolares, na Itália, são um pouco diferentes dos nossos. O “ensino médio” deles dura 5 anos (enquanto o que corresponde ao “ensino fundamental” dura um pouco menos que o nosso). Portanto, neste caso, a autora se refere aos dois primeiros anos do ensino médio dela.