De repente, nós – Tici Pontes

Título: De repente, nós
Autor: Tici Pontes
Editora: publicação independente
Páginas: 373
Ano: 2019 (1º edição)

de repente nós blog

Ao longo da leitura de De repente, nós senti que a história poderia ser muito previsível. Ainda assim, eu fiquei bem presa a ela: toda hora eu queria saber o que viria depois e algo que certamente contribuiu para isso foi o fato da narrativa ser alternada entre os personagens principais de toda a trama: Owen e Lucy. Essa alternância, porém, pode ter dificultado um pouco a escrita da história, pois, em alguns momentos, nos deparamos com informações repetidas que não precisavam aparecer (ao menos eu me lembrava bem delas quando apareceram pela segunda vez). De qualquer forma, eu gostei muito desse livro e espero que dê para perceber isso ao longo dessa resenha.

Lucy é professora de uma escola infantil (e eu amei todas as passagens dela trabalhando) e Owen é um veterinário super fofo que ama o que faz e que aparenta amar a vida também.

“Criar um amor pelos estudos desde a infância era fundamental para que essas crianças de tornassem adultos com um futuro promissor”

No começo do livro conhecemos também Scott, que forma um belo casal com Lucy, apesar dele não compreender a vergonha/ o medo que Lucy sente de contar para os pais que namora, mesmo ela sendo totalmente independente. Em uma das primeiras cenas do livro vemos Scott indo embora da casa de Lucy após mais uma discussão sobre esse mesmo tema.

“Eu tinha certeza que uma tempestade ainda viria com toda força, antes que a calmaria se instalasse”

Do outro lado temos Owen formando uma dupla romântica com Hannah. Eles estão em um jantar na casa de amigos de Hannah, que está grávida. O relacionamento dos dois, porém, vai de mal a pior. E o jantar só estraga ainda mais o clima que (não) há entre eles. No carro, indo embora desse jantar, os dois começam a discutir intensamente.

“Nosso relacionamento havia se transformado em uma teia de mentiras e enganações”

Até aqui parece que já aconteceu bastante coisa (já foram duas brigas!), mas ainda estamos bem no início do livro e é nesse momento que acontece o primeiro ponto crucial da história: um acidente de carro. Os envolvidos nele? Scott, sozinho em seu carro, mas falando ao celular com Lucy — que está tentando (e conseguindo) fazer as pazes — e Owen e Hannah, discutindo no outro carro. Para Scott, o acidente foi fatal. Para Owen e Hannah não.

“Bastou uma fração de segundo para definir não só o meu futuro, como também as vidas de Scott e Lucy”

Eu achei bem interessante a questão do acidente, pois, de um lado, havia um motorista falando ao celular e, de outro, um casal discutindo e, consequentemente, um motorista que não estava prestando atenção no caminho à sua frente. Durante toda a leitura do livro eu fiquei pensando que essa questão deveria ter até sido mais explorada, como um forma de conscientização sobre o tema. Mas agora, escrevendo essa resenha eu me perguntei: e já não basta todas as consequências apresentadas no desenrolar da história? As consequências desse acidente mudam completamente a vida dos envolvidos nele e mesmo de seus familiares.

“Haviam marcas dentro de nós que não eram visíveis e só o tempo iria se encarregar de corrigir os erros do passado e ajudar a traçar o futuro”

Por ter sobrevivido ao acidente, Owen torna-se o culpado de tudo e acaba sendo preso (sim, o veterinário fofinho e que parece amar a vida tem de passar anos 8 em uma cadeia). Lucy, por sua vez, tenta seguir com sua vida, por mais que a dor seja quase que paralisante.

“Por causa dele meu coração tinha se transformado em uma chaga aberta, que sangrava a cada lembrança que eu tinha com meu namorado”

Em de repente, nós, portanto, vamos acompanhando a vida pós-acidente de Owen e Lucy. Uma vida cheia de altos e baixos, surpresas, encontros, recomeços.

“Existem coisas que não conseguimos esquecer, que iremos carregar conosco pelo resto de nossas vidas”

Meu coração quase teve um treco em alguns momentos do livro. Se o acidente já nos deixa mal, é porque vocês não viram o final dessa história linda! Como eu disse, o enredo tomou rumos um pouco previsíveis, mas, ainda assim, cheio de elementos surpresa que tornam este livro único.

“Lucy fora minha luz e transformou-se em minha escuridão”

De repente, nós é um romance para quem está buscando refletir sobre os acasos da vida, para quem quer acreditar que o destino, por vezes, nos prega boas peças. Um livro intenso, de tirar o fôlego e cheio de amor e lágrimas.

“A vida é cheia de mistérios, Owen. E sempre caminha por estradas que nem sempre conhecemos e compreendemos”

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Guardião do medo – Michelle Pereira

Título: Guardião do medo
Autor: Michelle Pereira
Editora: Editora Garcia
Páginas: 252
Ano: 2016 (1º edição)

guardião do medo

Já adianto que falar de Guardião do medo não será nem um pouco fácil, simplesmente porque esse livro é doido demais (calma, no bom sentido!). A Michelle (autora parceira <3) disse que eu ia sentir raiva do personagem principal desse livro, mas eu, como sempre, saio em defesa desse ser… Bom, vamos à história para que vocês possam compreender tudo isso.

“Por que julgar uma pessoa pela aparência e não pelo caráter?”

Guardião do medo é narrado por Alexander Magnus, um rapaz que cresceu em um terrível orfanato — que é apresentado para nós logo nas primeiras páginas — e que, aos 20 anos é internado com câncer.

“Nunca mais senti frio. Mas também excluí qualquer possibilidade de ter um amigo”

Imaginem vocês crescer em um lugar onde não há amor, onde as demais crianças fazem bullying com você e quando você se torna um adulto, já machucado disso tudo, se descobre com uma doença que está, aos poucos, te matando por dentro?

“Eu sou um jovem que poderia ser tudo. Poderia ter sonhos. Poderia ter uma família. Poderia ter um emprego. Mas estou mergulhado na morte”

Alexander é aquele paciente que certamente todos os médicos e enfermeiras odeiam: fechado, mal-humorado, sem fé na vida. Ele apenas deseja morrer logo, mas não tem coragem de se matar, então o máximo que ele faz é não comer muito a comida do hospital. Até porque ele vive revoltado com o fato de sempre servirem sopa ou algo que não precisa ser mastigado.

“Ninguém deveria viver a vida que você estava vivendo, se escondendo dentro de mágoas e tormentos e esperando pela morte todos os dias”

Alexander é um ser descrente de tudo até que Raya aparece. Ela é a guardiã dele e tenta mostrá-lo que há um lado bom em toda essa história. E mais, que Alexander pode escolher juntar-se ao bem. Justo ele, que enquanto esperava a morte, se via indo para o inferno.

“Quando está escuro, todos os nossos medos vêm à tona. Quando não há ninguém acordado para ouvir nossos lamentos, ele parecem nos afogar”

Eu confesso que quando a Raya surgiu eu fiquei com um pé atrás em relação à história. Isso porque, no início, ela ficava tentando convencer Alexander de que ainda havia motivos para acreditar no bem. Gente, olha a história dele! Qualquer pessoa teria perdido toda sua fé na humanidade.

“—Eu não tenho motivos para achar que a ajuda chegou agora. Não há mais tempo. Não há como voltar atrás”

Mas eu gostei da transformação que se deu em Alexander. Obviamente ele não vira a pessoa mais positiva e feliz do mundo, pois isso seria muito inverossímil, mas ele se permite olhar para o lado. E isso faz com que ele conheça Mateus, converse mais com a enfermeira Lúcia e, mais tarde, venha a conhecer Marcela.

“—Mas é um fato, Alexander: você não precisa ser uma pessoa má porque as pessoas lhe fizeram mal”

Mas voltemos à Raya: ela é um anjo, uma Guardiã da Criação, e sua missão é fazer com que Alexander acredite no bem e escolha isso em sua morte. E Raya vai até as últimas consequências para convencer seu protegido. E por que? Porque Alexander é um Vórtice do Medo, uma criatura poderosíssima tanto para o bem quanto para o mal. E obviamente as Filhas de Daemon, ou seja, o lado mau, está vencendo dentro do coração de Alexander.

“É melhor não tentar entender isso pela lógica. É melhor apenas sentir”

O espaço da história é bem restrito — ela se passa basicamente no hospital — e, ainda assim, nos surpreendemos com o tanto de coisa que pode acontecer nesse ambiente tão “controlado”. A narrativa, como eu disse, é feita por Alexander, mas há alguns interlúdios escritos por Raya também. E ela, além de esconder muitas coisas de Alexander, nos esconde muitas outras. Que personagem misteriosa e intensa!

“Como ela podia ter olhos tão expressivos?”

Se você quer ler um livro que parece que trará elementos “normais” e, de repente, te joga no olho do furacão, trazendo diversos mistérios, imprevistos e angústias, recomendo Guardião do medo. Só não seja como o Alexander: não tenha pressa de descobrir as respostas, porque quando elas chegam, meus amigos… Que reviravolta!

“Acho que não posso confiar em ninguém”

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O retorno do jovem príncipe – A. G. Roemmers

Título: O retorno do jovem príncipe
Original: The return of the young prince
Autor: A. G. Roemmers
Editora: Fontanar
Páginas: 105
Ano: 2011
Tradução: Paulo Afonso

Retorno do jovem principe

A primeira coisa na qual pensei quando vi a capa de O retorno do jovem príncipe, foi, sem dúvidas, o livro O pequeno príncipe, sem me atentar, no entanto, para a palavra “retorno”, contida no título do livro que hoje resenho.

“Os cegos veem o que ninguém mais ousa ver. Eles devem ser as pessoas mais corajosas de todas”

O retorno do jovem príncipe (p.14)

Só quando comecei a ler O retorno do jovem príncipe foi que percebi que se tratava de uma espécie de continuação, por assim dizer, d’O pequeno príncipe. Senti que a linguagem desse livro, porém, era muito mais simples e acessível. Isso porque li O pequeno príncipe umas duas vezes quando era mais nova, mas sempre senti que não absorvi nem metade do que as pessoas costumam absorver.

“É impressionante como sempre presumimos que os outros seguem a mesma direção que nós”

O retorno do jovem príncipe (p.11)

O retorno do jovem príncipe também é um livro super curto e que narra um encontro inesperado entre um adulto e o pequeno príncipe (que já não é mais tão pequeno assim). O narrador, que nos conta a história em primeira pessoa, está dirigindo por uma estrada deserta da Patagônia quando avista um jovem dormindo à beira dessa estrada. E aí começa esse encontro.

“Por alguns momentos, pensei em como os adultos, com alertas que visam nossa própria proteção, fazem com que nos afastemos das outras pessoas, a ponto de que tocar um indivíduo, ou olhá-lo nos olhos, provoca um desconfortável sentimento de apreensão”

O retorno do jovem príncipe (p.10)

O narrador motorista resolve acolher em seu carro aquele pequeno ser de loiros cabelos. E quando o jovem príncipe acorda, começa a fazer diversas perguntas. Boa parte do livro é construído em cima dos diálogos entre o adulto e o jovem príncipe, que conversam sobre tudo, nos dando uma bela aula sobre a vida.

“Quem era aquele jovem que irradiava inocência e sacudia as bases do sistema de crenças que eu herdara?”

O retorno do jovem príncipe (p.13)

Presume-se que quem lê O retorno do jovem príncipe já tenha lido O pequeno príncipe, pois há diversas referência à história original. Inclusive, uma das lições mais importantes (que, no entanto, pode ser compreendida mesmo por aqueles que não leram O pequeno príncipe) tem a ver com um episódio marcante do primeiro livro.

“Por que tantas vezes preferimos a pessoa que nos desilude àquela que nos oferece uma ilusão?”

O retorno do jovem príncipe (p.44)

É interessante pensar que no plano “concreto”, o narrador e o jovem príncipe estão fazendo uma viagem de carro, enquanto que no plano metafórico eles empreendem uma viagem existencialista ou espiritual.

“As pessoas às vezes são como ostras. Tudo o que temos de fazer é esperar, até que elas entreguem a pérola que trazem no seu interior”

O retorno do jovem príncipe (p.29)

Outro ponto interessante d’O retorno do jovem príncipe é o fato de que como ele está na adolescência, o livro aborda mais essa questão da transição para o mundo adulto, uma transição que, muitas vezes, não é tão fácil.

“Às vezes, sem perceber, nós, adultos, jogamos com os mais profundos sentimentos das crianças e destruímos coisas muito mais valiosas que qualquer objeto que elas possam quebrar”

O retorno do jovem príncipe (p.31)

Ao longo da leitura, meu lado professora ficou ecoando que seria interessante trabalhar esses livros em conjunto. São livros curtos, escritos por autores diferentes, mas que conversam entre si, além de ensinarem muitas coisas e permitirem diversas reflexões. Claro que, depois de concluída minha leitura de O retorno do jovem príncipe fui correndo ler, pela terceira vez, O pequeno príncipe. No entanto, compreendi uma coisa: trata-se realmente de um livro atemporal, que precisamos revisitar de tempos em tempos. Se hoje posso compreender muito mais que antes, daqui uns anos posso ter uma experiência totalmente nova também.

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Amar, verbo intransitivo – Mário de Andrade

Título: Amar, verbo intransitivo
Autor: Mário de Andrade
Editora: Círculo do livro
Páginas: 151
Ano: 1984

amar verbo

Amar, verbo intransitivo não é uma leitura das mas fáceis, mas garanto que possui suas singelezas e aborda o amor de uma maneira peculiar: como algo que pode (deve, na verdade) ser ensinado a um jovem.

“É coisa que se ensine o amor?”

Amar, verbo intransitivo (p.26)

Laura e Felisberto Souza Costa são um casal tradicional, católico. Junto de seus filhos Carlos, Maria Luísa, Laurita e Aldinha, eles formam uma interessante família rica  e paulistana, que mora em Higienópolis.

A questão é que as coisas começam a mudar um pouco quando Souza Costa decide contratar Elza, uma alemã, para ensinar sobre o amor a Carlos. Elza, porém, entra na casa da família como “professora de alemão”, língua que ensina a Carlos e Maria Luísa, os filhos mais velhos. E ela também ensina piano e costura para as meninas. Na casa, Elza é chamada de Fräulein que, se não estou enganada (eu não sei nada de alemão), pode significar “senhorita”.

“O amor nasce das excelências interiores”

Amar, verbo intransitivo (p.9)

A narrativa do livro, ainda que um pouco confusa para mim, aos poucos vai deixando claro que Elza já desempenhara esse papel — de ensinar o amor — outras vezes, mas que Souza Costa tinha certa vergonha dessa presença em casa, deixando, inclusive de contar a verdadeira tarefa de Elza para Laura, sua esposa, que, ao descobrir, fica chocadíssima.

“Fräulein achava desnecessária tanta mentirada, e bobo tanto preconceito”

Amar, verbo intransitivo (p.57)

O mais interessante do livro foi perceber como ele vai lidando com certos assuntos polêmicos e tabus da sociedade. Ao longo da história aparecem questões como os imigrantes, o preconceito de Elza — alemã — com relação aos brasileiros, o sexo para os jovens, as doenças, drogas, e até sobre o “ser mulher”.

Também gostei dos momentos em que o narrador começa a dialogar com o leitor, explicando melhor algum aspecto da história ou mesmo dando sua opinião.

“Mas eu só quero saber neste mundo misturado quem concorda consigo mesmo!”

Amar, verbo intransitivo (p.49)

O livro também é bem curto, então se você está pensando em se aventurar pelos clássicos da literatura brasileira e não sabe bem por onde começar, esta é uma boa pedida, mesmo não sendo uma leitura tão fácil. Vale lembrar que algumas coisas ficam subentendidas na história, mas que se você consegue entender o contexto dela, certamente a leitura acabará fluindo.

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Uma raposa que caça um urso – Adrielli Almeida

Título: Uma raposa que caça um urso
Autor: Adrielli Almeida
Editora: publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2019

raposa caça urso

Conheci a escrita de Adrielli Almeida por acaso, ao me deparar com Feita de letra e música em uma livraria. Desde então me encantei e passei a acompanhar a autora, principalmente por saber que esse primeiro livro teria continuação. Foi assim que li, também, Feita de melodia e sonho. E esse ano, Adrielli lançou mais uma obra: Uma raposa que caça um urso, um conto lançado de forma independente pela Amazon. Fui correndo comprar e ler (mas acabei demorando pra achar um espacinho na programação aqui do blog).

Mia Jung e Kim Jihoon se conhecem há anos, mas também vivem distantes um do outro há muito tempo — seis anos, para ser mais exata —, uma vez que Kim se mudou para Seul, em busca de seu sonho de se tornar cantor. O reencontro desses dois não se dá de maneira fácil e fica evidente para o leitor que há muitos sentimentos por traz de todas as palavras que eles trocam entre si.

“As palavras enclausuradas em algum lugar entre língua, mente e coração”

Kim Jihoon era coreano, mas durante muitos anos morou nos Estados Unidos, onde conheceu Mia, uma jovem descendente de coreanos. O reencontro que vemos no conto acontece quando Kim volta aos Estados Unidos para gravar um clipe.

“Era engraçado como sempre parecia haver algo entre eles. Dessa vez não era Seul. Dessa vez não era a diferença de idade. Dessa vez era uma única palavra”

A relação entre eles é engraçada: podemos perceber que há certa reciprocidade nos sentimentos deles, mas também há algo que os impede de estar juntos.

“Uma raposa que caça um urso, era assim que ela se sentia nos braços dele”

O conto é curto, mas cheio de altos e baixos, tensões e momentos de paz. Uma leitura que te faz refletir sobre prioridades. É assim que Adrielli nos fala um pouco sobre kpop, amor e amizade. Adorei!

“Ela tinha cheiro de sol, mar e verão, de todas as coisas quentes das quais ele sentia falta”

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As fases da lua – Cínthia Sampaio

Título: As fases da lua
Autor: Cínthia Sampaio
Editora: publicação independente
Páginas: 120
Ano: 2018 (1º edição)

Design sem nome

O livro As Fases da Lua nos traz poemas e pensamentos da autora Cínthia Sampaio. Bem, os textos são dela, mas quem nunca sentiu ou pensou algo do que ela traz nas deliciosas páginas desse livro? E a própria autora fala sobre sua obra da seguinte maneira:

“As Fases Da Lua representam as fases da vida e mudanças que podem ou não acontecer com todo ser. Espero que se encontre nas folhas deste livro”

De minha parte, posso dizer que o desejo da autora foi atendido: me identifiquei com muitos trechos ao longo da leitura!

“Escrever sobre mim,

Talvez seja ainda mais complicado.

Porque as palavras ficam registradas

Enquanto eu sigo sempre mudando”

O livro é composto por muitos poemas e canções escritos por Cínthia, mas há também alguns textos em prosa que, confesso, foram os que mais gostei, apesar do meu texto preferido dentre todos os escritos do livro ter sido “Palavras”, que é um dos poemas.

As palavras, aliás, são a base de muitas das reflexões da autora, e isso é uma coisa que eu amo encontrar nos livros que leio.

“Espero um dia fazer alguma diferença nesse mundo e que minhas palavras não sejam apenas parte de um rascunho como esse”

Ainda bem que os textos da Cínthia saíram do rascunho e ganharam o mundo. Aliás, quem saiu ganhando fomos nós!

“Muitos disseram que eu não deveria escrever, que não deveria chorar, que não deveria cantar. Eu as escutei? Não. Eu escrevi”

Eu li As fases da lua super rápido, porque o livro permite essa fluidez na leitura. Você vai lendo um texto atrás do outro e, quando vê, já acabou o livro. Claro que, por diversos momentos, tive de parar, erguer a cabeça e absorver as palavras apenas lidas. E isso só tornou a leitura desse livro ainda melhor.

“A vida é um ciclo”

E claro que eu não poderia deixar de encerrar essa resenha com alguns versos que eu adorei, sobre um assunto que sempre acabo escrevendo por aqui: o poder das palavras e o quanto precisamos tomar cuidado com o que dizemos uns aos outros.

“Brincamos de viver

Não levemos a sério

Cada palavra dita ao próximo”

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O escritor – Dalton Menezes

Título: O escritor
Autor: Dalton Menezes
Editora: publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2019

o escritor

Sempre ouvimos falar que a vida de escritor não é fácil ou então que escritores fumam demais ou são pessoas excêntricas. Mas será que isso é verdade ou é nosso imaginário trabalhando na construção de um personagem? E em quantas páginas de livros esse tal personagem ganhou voz? Sim, talvez em um bom número… mas não como em O escritor! É impressionante como Dalton conseguiu colocar em poucas páginas tanto do universo da escrita.

“Se eu fracassar, tenho duas opções: choramingar feito uma criança e desistir ou encarar a realidade de cabeça erguida e tentar novamente, quantas vezes forem necessárias e o meu corpo mortiço aguentar”

O que se pode esperar de um livro em cuja dedicatória está escrito “Para mim”? Sim, pois é exatamente desta maneira que se inicia O escritor, um livro que fala sobre livros, sobre publicação, sobre ser escritor.

“Sou do tipo que se apaixona fácil, mas sei das minhas limitações enquanto poeta e escritor. Poetas não nascem para ter, nascem para sentir falta”

Ao longo das páginas nos deparamos com um escritor rumo a uma reunião para uma possível publicação de seu livro. Ansiedade, orgulho, medo. Os sentimentos desse personagem se misturam e se revelam aos nossos olhos, nos fazendo torcer por essa pessoa que mal se apresenta para nós. E nem poderia: O escritor pode representar qualquer escritor, ou mesmo qualquer leitor que se identifique com tantos medos e angústias. E isso só é possível porque, ao longo da história, o escritor (o personagem, não exatamente o escritor real) também conversa conosco sobre a vida.

“Quanto mais importante forem as suas possíveis conquistas, mais a vida te colocará obstáculos. Você que se vire. Ela não se importa”

O escritor é um livro cheio de ironia, mas que também contém muitas verdades. Uma leitura que eu recomendo para você que quer ler algo rápido, mas sem superficialidade e que, ao mesmo tempo, ainda quer dar umas boas risadas e se surpreender (tanto é que deixei de fora dessa resenha um dos detalhes mais interessantes sobre o livro que esse tal escritor quer publicar…).

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O colóquio dos cachorros – Miguel de Cervantes

Título: O colóquio dos cachorros
Original: El coloquio de los perros
Autor: Miguel de Cervantes
Editora: Grua
Páginas: 96
Ano: 2014 (1º edição)
Tradução: Nylcéa Thereza

Blog das Tatianices (2)

No mesmo estilo de A cidade do sol, O colóquio dos cachorros também conta uma história através de um diálogo. Aqui, porém, de maneira surpreendente, o diálogo se dá entre dois cães. E esta, aliás, é a primeira história de cachorros falantes na literatura ocidental.

O colóquio dos cachorros é uma das novelas que compõem as “Novelas exemplares”, livro de Miguel de Cervantes publicado pela primeira vez em 1613. Esta história nos mostra o diálogo entre Cipião e Berganza, cachorros que protegem o Hospital da Ressurreição de Valladolid (cidade espanhola situada a noroeste da Península Ibérica). Em uma bela noite, sem explicações, esses cachorros adquirem o dom da fala e combinam que, nesta primeira noite, Berganza narrará sua vida a Cipião e que, na noite seguinte, caso eles ainda possuam o dom da fala, será a vez de Cipião narrar a sua vida.

Berganza, portanto, passa toda a noite falando sobre sua vida, sendo, porém, inúmeras vezes interrompido por Cipião, que faz pontuações e correções, demonstrando ser um cachorro mais sábio e equilibrado.

“Controla a língua, porque nela estão os maiores estragos da vida humana”

O colóquio dos cachorros (p.17)

Por meio da vida de Berganza, vamos passeando pela Espanha do século XVII, conhecendo cidades e hábitos. É por meio de cachorros, portanto, que aprendemos sobre o homem e a ética daquele tempo. E não só: inúmeros comentários também contém questões filosóficas, literárias e científicas.

“Mas nada me admirava mais e nem me parecia pior do que ver que estes açougueiros matam com a mesma facilidade um homem e uma vaca”

O colóquio dos cachorros (p.16)

Berganza teve muitos donos, pois a cada vez que se sentia injustiçado e maltratado, fugia e buscava um dono melhor. Poucos sabemos sobre seu dono atual, mas sempre havia algum momento em que o ser humano perdia sua humanidade e, consequentemente, seu fiel cão (e está aí uma das inúmeras possibilidades de leitura que esse livro nos dá).

“Ah, amigo Cipião! Se você soubesse como é difícil passar de um estado feliz para um infeliz!”

O colóquio dos cachorros (p.35)

O tempo da narrativa é curtíssimo — uma madrugada — as lições, porém, são inúmeras. A leitura é rápida; os aprendizados ficam.

“Agora as coisas não seguem mais o rigor de antigamente: hoje se faz uma lei e amanhã se rompe com ela e, talvez, seja conveniente ser assim”

O colóquio dos cachorros (p.41)
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A matemática das relações humanas

Título: A matemática das relações humanas
Autor: Aimee Oliveira, Clara Savelli, Bruna Ceotto, Bruna Fontes
Editora: Duplo Sentido
Páginas: 124
Ano: 2018 (1º edição)

Blog das Tatianices (1)

Uma coisa é certa: quem não sabe sobre o que é o livro A matemática das relações humanas, estranha o título. Já adianto que não sou nada fã de números, mas que, mesmo assim amei esse livro e vocês já vão entender meus motivos.

Como vocês devem ter visto, A matemática das relações humanas tem mais de uma autora (siiim, só mulheres!). Isso porque trata-se de um livro de contos! Antes dos contos, porém, há uma introdução da Vanessa S. Marine, organizadora do livro, e só com esse texto eu já fiquei emocionada e arrepiada. Ela fala sobre vestibular e sobre como não passar não significa que sejamos fracassados. E é por isso (e pelos contos, que reforçam essa ideia) que recomendo muito essa leitura para quem está nesse momento tenso da vida.

Sobre os contos, as histórias são independentes, mas possuem alguns fios condutores e, por isso, recomendo que vocês leiam na sequência. Todos eles se passam no cursinho “Desígnio” e alguns personagens aparecem mais de uma vez.

O primeiro conto, da Aimee Oliveira, chama “Uma lição de Victória” e é excelente para quem está naquela dúvida entre faculdade pública (e possivelmente uma mudança de cidade) e faculdade particular. Esse conto também consegue trabalhar uma intensa relação de amor entre avó e neta e um lindo romance.

“O poder de uma conversa franca nunca deveria ser subestimado”

A matemática das relações humanas (p.35)

O poder de uma conversa franca, aliás, acaba permeando todas as outras histórias também, de uma forma ou de outra.

Quem narra esse primeiro conto é Victória, que além de estar se preparando para o vestibular de gastronomia, também faz as famosas bolotas de queijo vendidas na lanchonete do cursinho. E essas bolotas fazem sucesso mesmo (fiquei com vontade de experimentar)!

O segundo conto do livro chama-se “Miçangas” e foi escrito por Clara Savelli. Eu não sei se consigo escolher um preferido no livro, mas esse certamente tocou meu coração de forma intensa, pois mexe muito com a questão de buscarmos nossos sonhos (não que os demais contos também não abordem essa temática).

“Era doloroso não ter ninguém que comprasse meu sonho comigo. Mas era mais doloroso ainda saber que ninguém sequer acreditava que eu era capaz de conseguir”

A matemática das relações humanas (p.48)

Narrado por Júlia, uma jovem que além de estudar faz caderninhos artesanais e tem um pequeno negócio online para vendê-los, esse conto nos mostra o quão difícil pode ser fazer com que os outros enxerguem nossos esforços, além de trazer um romance que realmente me surpreendeu.

“Para perguntas como as minhas, nem o melhor cursinho tinha respostas”

A matemática das relações humanas (p.66)

Até aqui tivemos personagens que se mostram um tanto quanto incertas com relação ao vestibular como um todo. Victória não sabe se quer mudar de cidade e nem se tem chances de passar nos concorridos vestibulares de gastronomia; Júlia, por outro lado, não entende essa necessidade de passar em uma universidade, quando ela já tem um negócio que está aos poucos crescendo.

Em “Múltipla escolha”, o conto escrito por Bruna Ceotto, a situação muda um pouco: Karen é excelente aluna, a melhor em matemática. O problema dela é com relação ao curso. Enquanto seus pais querem que ela faça engenharia, ela sonha com ciência da computação. Este é um conto, portanto, sobre escolher o próprio destino ou deixar que escolham por nós (o que, socorro, tocou no meu calcanhar de Aquiles).

“É difícil para mim admitir algo assim. Eu sou racional. A garota de exatas. Aquela que confia mais em números, porque números não comportam grandes interpretações: eles são o que são”

A matemática das relações humanas (p.86)

Esse conto é para ler com muita atenção e pensar bem sobre a mensagem que ele passa.

Para concluir o livro, temos o conto “Tabula Rasa”, escrito pela Bruna Fontes. Como eu fui surpreendida pela personagem desse conto, não direi muito sobre ela, com medo de que seja um spoiler. Já adianto, contudo, que esse conto segue um pouco a linha do anterior, com relação à necessidade de que tomemos as rédeas de nossas vidas.

“Em um momento estávamos falando sobre a morte; no outro, falamos sobre a vida. E, talvez, a diferença entre uma coisa e a outra, no modo como nos afeta ao acontecer, não seja assim tão diferente”

A matemática das relações humanas (p.114)

É um conto mais “pesado”, por assim dizer, um tapa na cara necessário. E, por falar nisso, encerro essa resenha com o melhor tapa de todos:

“Durante todo o ensino médio, somos levados a acreditar que o ano do vestibular é o ‘ano decisivo’, que esse é o momento em que devemos fazer as nossas escolhas, determinar o nosso futuro e, a partir dali, apenas construir nossa caminhada rumo ao sucesso. Eu gostaria que alguém tivesse me falado naquela época, enquanto eclodiam minhas crises de ansiedade por medo de não conseguir uma vaga e, assim, arruinar toda a minha vida, que nada disso é verdade”

A matemática das relações humanas (p.116)

Felizmente já passei pela fase de vestibulanda, mas adoraria ter lido esse livro naquela época. O que não significa que não amei ler agora. Me fez relembrar muitas coisas e também me fez refletir sobre minhas escolhas. Porque esse livro é assim: não te faz pensar apenas no vestibular, mas também no seu percurso por inteiro, na sua vida.

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O apocalipse dos trabalhadores – Valter Hugo Mãe

Título: O apocalipse dos trabalhadores
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 208
Ano: 2017 (2º edição)

O paraíso

Ler O apocalipse dos trabalhadores foi uma experiência e tanto, por diversos motivos. Para começar, a obra é escrita em português de Portugal, o que pode causar alguns estranhamentos ao longo da leitura — principalmente com relação a alguns termos. Além disso, o texto todo é escrito em letras minúsculas, sem parágrafos. Há pontos finais e podemos distinguir capítulos (não numerados ou nomeados), mas o texto todo é quase como um fluxo contínuo.

A história também, não é das mais banais: o livro retrata principalmente a vida de Maria da Graça e Quitéria, duas empregadas domésticas que também, por vezes, recebem para ir a funerais, chorar o morto. Além delas, outro personagem destacado no enredo, por todo o seu sofrimento e dureza é Andriy, um “homem do leste” (ou um ucraniano) que se envolve com Quitéria.

“era, na realidade, como um leão de fantasia que, subitamente, podia ganhar vida e, obviamente, trazer no estômago toda a grande fome ucraniana”

O apocalipse dos trabalhadores (p.112)

Não sei se pelo modo como a história era narrada ou até se pelo local retratado — a cidade de Bragança —, bem como os costumes, mas por diversas vezes eu imaginava a história se passando em meados do século XIX ou XX. Mas creio que seja uma história mais atual, dado a presença inclusive de celulares no meio da narrativa. O tempo, porém, não importa, porque se pensarmos bem, o Apocalipse dos trabalhadores é um texto atemporal que retrata a dura realidade dos três personagens mencionados e de tantos outros que aparecem ao longo da história, enriquecendo-a.

“os mortos não têm idade”

O apocalipse dos trabalhadores (p.42)

Para além do trabalho pesado, dos poucos diálogos e da batalha diária, o apocalipse dos trabalhadores fala também sobre nossos sentimentos, principalmente o amor. Todos ali, no fundo, buscam poder experimentar essa sensação, ainda que façam isso por caminhos tortuosos e incertos. Maria da Graça, por exemplo, é casada com Augusto, marinheiro que passa boa parte do ano fora de casa. Ela trabalha na casa do senhor Ferreira, que quase que diariamente abusa dela (!). Aos poucos, porém, Maria da Graça vai confundindo seus sentimentos e o ódio pelo senhor Ferreira transforma-se em afeição (!). É, pensando bem, esse livro é bem atemporal.

Quitéria, por outro lado, envolve-se com diversos rapazes, até sentir-se apaixonada por Andriy. Este personagem, por sua vez, longe de seus amados pais, tenta tornar-se uma máquina, mas é sentimental demais para isso.

Além de retratar as idas e vindas diárias de cada um desses personagens, o livro também nos repete o sonho recorrente de Maria da Graça: toda noite ela se vê no Paraíso, tentando adentrar seu descanso merecido. No entanto, a cada noite ela é barrada por São Pedro, irritando-se com a situação.

“o são pedro inclinava-se, cabeça para trás e barriga para a frente, e ria-se, dizia, ó minha senhora, isso agora não tem valor, os mortos são todos iguais, não têm profissão e não lhes vale de nada o que aprenderam fazer, ou parece-lhe que aqui existem quartos para limpar”

O apocalipse dos trabalhadores (p.18)

Realidade, sonho, sentimentos, angústias. Tudo nesse livro se mistura, seja pela história em si, seja pelo texto com poucas pontuações. Uma obra para abrir nossas mentes e nos fazer enxergar uma realidade que muito provavelmente o leitor de um livro como esse não vive.

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