Contos Russos – Tomo I e II (parte 1)

Título: Contos Russos - Tomo I e Tomo II
Original: (não sei, está escrito no alfabeto russo, sos)
Autor: vários
Editora: Martin Claret
Páginas: 203 (Tomo I) e 201 (Tomo II)
Ano: 2014 (Tomo I) e 2015 (Tomo II)
Tradução: Oleg Almeida

A Copa na Rússia já acabou, mas a cultura desse país nunca para de marcar gol! Por isso, aproveitei o clima para ler esses dois volumes de contos russos, publicados pela editora Martin Claret. Aprendi tanta coisa que resolvi dividir essa resenha em 5 posts, para poder falar um pouco melhor sobre cada conto e seus autores. Na publicação de hoje apresentarei cada um dos livros e o primeiro conto que li. Vamos nessa?

Em Contos Russos – Tomo I somos apresentados a contos que remontam à época do Sentimentalismo e do Romantismo russo. São cinco histórias que compõem esse volume, de três autores diferentes: A pobre Lisa (Nikolai Karamzin); O tiro e A nevasca (Alexandr Púchkin), Vyi e O capote (Nikolai Gógol).

Já em Contos Russos – Tomo II temos apenas dois contos (bem mais extensos) de dois autores diversos, representando as vertentes Realista e Naturalista, predominantes na Rússia durante o século XIX: O primeiro amor (Ivan Turguênev) e Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (Nikolai Leskov).

Descobri que há ainda um Contos Russos – Tomo III. Quem será que está se segurando para não comprar imediatamente??

Eu gostei da edição desses livros (mas descobri que também há ótimas edições da editora 34). As capas têm cores lindas, as notas foram feitas na medida certa e são traduções diretas do russo. Não poderia ter entrado nesse universo literário de forma melhor (sim, nunca havia lido nada de literatura russa…). Ao final de cada edição há, ainda, uma parte sobre os autores dos contos, mas é super breve, então o ideal é pesquisar mais sobre eles.

O primeiro conto que li foi A pobre Lisa, escrito por Nikolai Karamzin, o maior expoente do Sentimentalismo russo. E ele foi, também, um dos historiadores oficiais do Império Russo!

O conto começa com uma extensa descrição da paisagem local. Isso porque o narrador está contextualizando sua história, nos contando algo que ocorrera anos antes.

“Todavia, o que mais me atrai às muralhas do mosteiro de S*** é a recordação do lamentável destino de Lisa, da pobre Lisa. Ah, eu gosto daqueles temas que me enternecem o coração e fazem verter as lágrimas de uma meiga tristeza”

Contos Russos – Tomo I (p.22)

É a partir desse trecho que nossa protagonista aparece, já na quarta página do conto. Vamos, aos poucos conhecendo sua história e seu triste destino. E a natureza, ao longo de toda a narrativa, está intimamente ligada aos sentimentos dos personagens.

Em se tratando de um símbolo do Sentimentalismo russo, essa história não poderia deixar de apresentar uma figura masculina, que chega para abalar a pacata vida de Lisa. Estamos falando de Erast, um jovem que não podemos categorizar exatamente como vilão, ainda que o trágico fim de Lisa seja, de certa forma, culpa dele.

“Parecia-lhe ter achado em Lisa aquilo que seu coração procurava havia tempos”

Contos Russos – Tomo I (p.28)

As descrições ao longo do conto não são cansativas para o leitor. Ao contrário, elas nos ajudam a adentrar ainda mais a história. Há uma passagem, também, em que o narrador consegue fazer com que o leitor entenda que os personagens tiveram uma relação sexual, mas sem ser tão explícito ou direto.

A Rússia pode nos parecer um país muito distante, bem como este conto, publicado, originalmente, em 1792. Mas falar de sentimentos é sempre algo universal e atemporal. Anos e anos depois, ao ler um conto como esse, ainda somos capazes de nos compadecer da protagonista e sentir, na pele, os dilemas que os personagens vivem.

O chamado do Cuco – Robert Galbraith

Título: O chamado do cuco
Original: The cuckoo's calling
Autor: Robert Galbraith
Editora: Rocco
Páginas: 447
Ano: 2013 (1º edição)
Tradução: Ryta Vinagre

Antes de falar sobre O chamado do cuco, gostaria de contar a vocês que li primeiro O bicho da seda, que, em tese, deveria ser lido depois desse. Não se trata, porém, de uma continuação, mas certamente muitas coisas ficarão mais claras se você ler O chamado do cuco primeiro.

E, um super detalhe, para quem não sabe: Robert Galbraith é pseudônimo de ninguém menos que J. K. Rowling!

O livro conta com um prólogo – que nos fala sobre a morte que será investigada ao longo da obra – cinco partes – que nos contam a história propriamente dita – e um epílogo – com o título de “dez dias depois”.

Na primeira parte vamos, aos poucos, conhecendo os personagens dessa trama policial. No primeiro capítulo, por exemplo, somos apresentados a Robin, uma jovem de 25 anos que, no dia seguinte à noite em que ficou noiva, começa a trabalhar como secretária temporária de Cormoran Strike, um detetive particular. O desejo de Robin, aliás, era ser detetive! Aqueles dias pareciam um sonho para ela.

Já a vida de Cormoran Strike ia de mal a pior. Ele rompera definitivamente com Charlotte, não tinha onde morar e os negócios não estavam em um bom momento… Ao menos não até que John Bristow aparecesse para contratar o detetive para reinvestigar a morte de sua irmã, Lula Landry, uma modelo muito famosa. Para a polícia, Lula Landry havia cometido suicídio, jogando-se da sacada de seu apartamento. John Bristow, porém, tinha certeza de que alguém a havia matado.

“Os mortos só podiam falar pela boca dos que ficaram e pelos sinais que deixavam”

O chamado do cuco (p.282)

Contribuía para o veredicto da polícia o fato de Lula Landry ter alguns problemas psicológicos e já ter se envolvido com drogas. No mais, ela era uma negra adotada por uma família branca extremamente rica e… Problemática.

O “caso Lula Landry” é mencionado por diversas vezes em O bicho da seda, por ter sido importante para a retomada dos negócios de Cormoran Strike (e esse é um dos motivos pelos quais é melhor ler primeiro O chamado do Cuco).

O título do livro, que pode parecer aleatório, passa a fazer sentido para nós somente na terceira parte, quando nos é revelado que “Cuco” era um dos apelidos da modelo Lula Landry.

Tudo é muito descrito no livro, mas não de uma maneira maçante. Podemos ter uma boa ideia de como eram os personagens e cada lugar que aparece ao longo da história. As descrições só são um pouco desesperadoras no final da história, quando queremos saber logo o que aconteceu, mas temos de nos deter nos detalhes de cada cena.

E por falar em final da história, como um bom romance policial, duvido que você acerte quem matou Lula Landry, por mais que sua leitura seja muito atenta. Claro que, para alcançar o efeito desejado, o autor tem de ocultar alguns elementos da história, que serão apresentados ou explicados com maior clareza nas páginas finais. E isso é feito de maneira excepcional!

A lista de suspeitos pela morte de Lula parece nunca acabar. Através dos olhos de Strike e Robin passamos a desconfiar de todos os amigos da modelo, como Guy Somé, Ciara Porter, Rochelle Onifade; de seus vizinhos, o casal Bestigui; de seu namorado, Evan Duffield; do rapper Deeby Mac; e até de seus familiares, como seu tio Tony Landry ou então sua mãe biológica.

J. K. Rowling conseguiu me surpreender também como escritora de histórias de detetive. Eu já havia gostado de O bicho da seda e agora posso acrescentar que gostei de O chamado do Cuco. E se você quiser conferir essa história, é só clicar aqui:

As cinco pessoas que você encontra no céu – Mitch Albom

Título: As cinco pessoas que você encontra no céu
Original: The five people you meet in heaven
Autor: Mitch Albom
Editora: Sextante
Páginas: 188
Ano: 2018

Eis a resenha do primeiro livro que ganhei em um sorteio de cortesia do Skoob! As cinco pessoas que você encontra no céu é um livro que nos faz refletir sobre nossas vidas e nossas ações.

Trata-se da história de Eddie, que após ferir a perna na guerra é enviado de volta para seu país, onde passa a trabalhar como mecânico de manutenção em um parque de diversões. O livro começa pelo fim, mas não à maneira Machadiana; apenas começa com a morte de Eddie, para que a narrativa, em si, possa ocorrer.

“Mas todos os fins são também começos. Embora, quando acontecem, não saibamos disso”

As cinco pessoas que você encontra no céu (p.9)

Eddie morre exatamente no dia de seu aniversário de 83 anos, em um acidente no parque em que trabalhava. A partir disso o livro vai intercalando capítulos que ocorrem no céu e capítulos que se passam quando ele ainda era vivo, sendo estes, em sua maioria, intitulados “Hoje é aniversário de Eddie”.

A primeira pessoa que Eddie encontra no céu é o Homem Azul, uma pessoa de quem Eddie não se lembrava de conhecer antes de sua morte. Ele está lá para mostrar ao protagonista como todos nós estamos conectados de alguma forma.

“Nenhuma história existe isoladamente”

As cinco pessoas que você encontra no céu (p.18)

A segunda pessoa que Eddie encontra no céu é seu ex-comandante na guerra. Ele esclarece algumas coisas ao protagonista com relação àquele período, mas, acima de tudo, lhe ensina que alguns sacrifícios são necessários e que a morte de uma pessoa pode significar a vida de tantas outras.

“O céu é isto. A gente vem entender nossos dias de ontem”

As cinco pessoas que você encontra no céu (p.91)

A terceira pessoa é, novamente, alguém que Eddie não se lembra de ter conhecido em vida: trata-se de Ruby. Ela também esclarece alguns acontecimentos da vida do protagonista e o ensina a perdoar. Aprendemos muito sobre questões familiares ao longo dessas páginas.

“A juventude, como o vidro novo, absorve as marcas de quem a manipula”

As cinco pessoas que você encontra no céu (p. 101)

O quarto encontro é o mais bonito de todos e nos fala sobre o amor. Eddie encontra Marguerite. Um encontro capaz de arrancar algumas lágrimas dos leitores apaixonados.

Por fim, a quinta pessoa que Eddie encontra no céu também lhe parece apenas uma desconhecida, mas que, mais uma vez, mostra-lhe como todas as vidas, de alguma forma se cruzam. E como tudo o que aconteceu na vida de nosso protagonista precisava acontecer daquela forma. Trata-se da pessoa que concede o perdão final à Eddie. Que permite que ele aceite sua história e possa viver em paz a sua morte.

As cinco pessoas que você encontra no céu nos faz refletir, portanto, sobre o encadeamento de acontecimentos que nos cercam e que vivemos diariamente, além de nos fazer enxergar que talvez certas coisas, por mais dolorosas que sejam, são necessárias em nossa história.

Se você se interessou, não deixe de clicar aqui:

As cabeças trocadas – Thomas Mann

Título: As cabeças trocadas: uma lenda indiana
Original: Die vertauschten Köpfe
Autor: Thomas Mann
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 118
Ano: 2017 (1º edição)
Tradução: Herbert Caro

Comecei a ler As cabeças trocadas e pensei: será que chego ao fim? Não sei quase nada sobre a cultura indiana, a linguagem não é das mais fáceis e nem os nomes dos personagens facilitam as coisas… Mas terminei! E gostei bastante da história e da forma como ela é contada. O narrador vai conversando conosco e nos explicando os pormenores, como alguém que realmente nos conta uma história.

“Oxalá os que ouvem esta história, talvez iludidos por seu desenrolar até agora ameno, não caiam na armadilha de uma interpretação errônea de seu verdadeiro caráter”

As cabeças trocadas (p.37)

Além de conversar conosco o narrador é bem realista. Depois da frase aí de cima a história toma uns rumos bem malucos!

O livro começa contando a história de Shridaman e Nanda, dois grandes amigos, apesar de suas diferenças: Shridaman é quase um intelectual e seu corpo é frágil, enquanto Nanda é forte, sendo um trabalhador braçal. A vida desses dois amigos começa a mudar quando eles veem Sita, a das belas cadeiras (que tipo de alcunha é essa, gente?), banhando-se no rio.

Shridaman apaixona-se perdidamente por Sita e, para sua sorte, Nanda a conhece, pedindo a mão dela em casamento para o amigo. Tudo incrível, não fosse o fato de Nanda ter um corpo maravilhoso, desejado por Sita.

As coisas complicam-se ainda mais quando os três, durante uma viagem, perdem-se e encontram um templo. Shridaman entra para rezar e ali acaba se matando, utilizando uma espada. Por conta da demora, Nanda vai atrás do amigo, para ver o que está acontecendo e ao deparar-se com a cena do amigo sem a cabeça, acaba por igualmente matar-se. É a vez de Sita averiguar o que está acontecendo. Ao constatar o horror, decide esta também se matar. Sabendo, porém, que não terá forçar para erguer a espada, decide sair do templo para se enforcar com um cipó. E então uma nova reviravolta acontece na história, sendo determinante para os momentos finais da narrativa.

Como eu disse, tive, em um primeiro momento, dificuldades para ler As cabeças trocadas, mas aos poucos a gente vai entrando na história e compreendendo as ironias da narrativa. O livro está dividido em doze capítulos relativamente curtos e nessa edição da Companhia das Letras há, ainda, um posfácio que ajuda a compreender alguns elementos da obra.

Outra coisa interessante na linguagem é que, mesmo difícil, ela é bem irreverente: algumas figuras importantes que aparecem ao longo da história nos fazem rir, chamando os protagonistas de bobos, dizendo que eles fazem tolices. Ao mesmo tempo, esses personagens fazem longos discursos, essenciais para a narrativa.

Se você quiser conferir com seus próprios olhos essa loucura toda, clique aqui:

O som e o sentido – José Wisnik

Título: O som e o sentido: Uma outra história das músicas
Autor: José Miguel Wisnik
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 283
Ano: 1989 (2º edição)

Como eu comentei na resenha de Itinerãças, o Som e o sentido é um livro que eu vinha há tempos enrolando para ler. O momento, porém, finalmente chegou. Ou não, pois confesso que ainda ficou muita coisa para que eu possa realmente entender tudo o que é dito no livro. Confesso, inclusive, que até tive dúvidas se deveria escrever uma resenha desse livro ou não, mas percebi que havia algumas coisas que eu gostaria de comentar.

O som e o sentido está divido em cinco partes, além de contar com uma apresentação e, ao final, um cd com exemplos sonoros do que é explicado ao longo do livro. As cinco partes são:

  1. som, ruído e silêncio;
  2. modal;
  3. tonal;
  4. serial;
  5. simultaneidades.

Dessas cinco partes, a que mais me interessou foi a primeira: som, ruído e silêncio.

“O som é presença e ausência, e está, por menos que isso apareça, permeado de silêncio”

O som e o sentido (p.18)

Destaco esta parte em detrimento das demais, não só por ser um assunto interessante e que muitas vezes não nos damos conta, mas também porque o resto do livro é muito mais histórico e teórico no quesito musical (sendo, portanto, as partes mais difíceis para mim).

Quando falamos em “som” quase sempre acabamos logo pensando em “música” e quando falamos em “ruído“, quase sempre pensamos em algum barulho incômodo. Som, porém, vai muito além de música, bem como ruído vai muito além de barulho. Mesmo música, se pararmos para pensar, é tanta coisa mais que aquilo que logo pensamos.

“Mexendo nessas dimensões, a música não refere nem nomeia coisas visíveis, como a linguagem verbal faz, mas aponta com uma força toda sua para o não-verbalizável”

O som e o sentido (p.28)

Além disso, “som”, “ruído”, “música” e qualquer outro termo análogo são elementos presentes em nosso dia a dia de maneiras que às vezes sequer nos damos conta. Por vezes, damos atenção àquilo que vemos e os ruídos, principalmente aqueles mais cotidianos, passam desapercebidos. Mas tudo faz parte do ambiente em que vivemos.

“A música ensaia e antecipa aquelas transformações que estão se dando, que vão se dar, ou que deveriam se dar, na sociedade”

O som e o sentido (p.13)

Outra reflexão que achei bem interessante, e que também faz parte da primeira parte do livro, foi a questão de que instrumentos, não só os musicais, mas utensílios no geral, desde a antiguidade, possuem, em grande parte, origem animal. Deste trecho destaco uma passagem que condensa bem a questão:

“Todos os instrumentos são, na sua origem, testemunhos sangrentos da vida e da morte”

O som e o sentido (p.35)

E a última reflexão que eu gostaria de destacar, ainda da primeira parte do livro, é sobre o modo como ouvimos música nos dias de hoje:

“O modo dominante de escutar (em ressonância com o da produção de som industrial para o mercado) é o da repetição (ouve-se música repetitivamente em qualquer lugar e a qualquer momento)”

O som e o sentido (p.56)

Graças à evolução das tecnologias, podemos transportar, em minúsculos aparelhos, infindáveis músicas para ouvir quando quisermos, na ordem que quisermos. Vocês já pararam para pensar que nem sempre foi assim? Que não era comum vermos pessoas nas ruas com fones enfiados nas orelhas e como isso também transformou nossas relações sociais?

Já sobre as outras partes do livro, deixo aqui breves comentários ou impressões:

Os capítulos de modal discorrem sobre as tradições musicais pré-modernas, enquanto em tonal o autor vai do desenvolvimento da polifonia medieval até o atonalismo. É um capítulo que fala sobre muitos compositores europeus renomados até os dias de hoje, nos mostrando quais foram, efetivamente, as contribuições deles para o campo da música. Já em serial, Wisnik fala sobre as formas radicais da música, chegando à música eletrônica.

Há muitos exemplos ao longo do livro, não somente os sonoros, encontrados no cd, mas também de partituras e músicos, além das inúmeras referências a outros estudos ou estudiosos.

O som e o sentido com certeza é um livro riquíssimo, mas não tão facilmente legível para quem não é mais ligado à música como uma área de conhecimento. Como eu disse, ainda preciso entender muitas coisas dele e esta leitura foi, sem dúvidas, uma aventura.

Aproveito e deixo, para aqueles que se interessaram pelo assunto, um vídeo curto, mas bem interessante: Sobre o som (música) – John Cage. E se você quiser ler o livro, saiba mais aqui:

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo – Benjamin Sáenz

Título: Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo
Original: Aristotle and Dante discover the secrets of the Universe
Autor: Benjamin Alire Sáenz
Editora: Seguinte
Páginas: 390
Ano: 2014 (1º edição)
Tradução: Clemente Pereira

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo foi o segundo livro de Benjamin Alire Sáenz que li , apesar deste livro ter sido lançado no Brasil antes de A lógica inexplicável da minha vida. Pensando nesses dois livros, é possível notar muitos elementos em comum, mas cada história possui suas surpresas e sua narrativa cativante.

Além disso, a leitura desse livro foi ainda mais especial para mim, pois ao longo das páginas havia vários recados deixados por meu melhor amigo. Cada um desses recados enriqueceu ainda mais minhas impressões e reflexões, além de me deixar muito feliz.

O livro é narrado por Aristóteles, um jovem que, assim como Salvador (de A lógica inexplicável da minha vida), tem muitas dúvidas com relação à vida. Aristóteles é um pouco mais novo que Sally, mas ambos estão em uma fase realmente conturbada: os anos de ensino médio, cheios de dúvidas, medos e descobertas.

“Acho que eu era um mistério até para mim mesmo”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.26)

Aristóteles é um jovem bem soturno (o que também torna a narração deste livro mais taciturna que a de A lógica inexplicável da minha vida). Ele mora com os pais e tem duas irmãs bem mais velhas, além de um irmão sobre o qual ninguém fala, pois ele está preso. Fora isso, seu pai é uma pessoa muito calada e guarda muita coisa dentro de si, principalmente as sombras do seu passado na Guerra do Vietnã.

“Não falar pode deixar alguém muito solitário”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.22)

Durante as férias de verão Aristóteles faz uma amizade, coisa rara para ele. Seu novo amigo chama-se Dante (até eles riem dessa “coincidência”).

“Dante se tornou mais um mistério em um mundo cheio de mistérios”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.28)

Juntos, Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo vivem momentos únicos: eles conversam, jogam, trocam conhecimentos, discutem… Enfim, fazem o que seres humanos “normais” fazem juntos (eles vivem batendo na tecla de que não são normais).

“- Ninguém sabe exatamente o que está fazendo”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.58)

Por falar em “bater na mesma tecla”, Aristóteles tem uma péssima autoestima. Além de ser fechado ele consegue se autodepreciar o livro inteiro! Fora que ele acha que é o único que tem dificuldades de entender a si mesmo e se encontrar.

“O mundo de Dante tinha ordem”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.40)

Os adultos também são importantes nessa história e estão representados, principalmente, na figura dos pais de Aristóteles e dos pais de Dante.

“Fiquei pensando que poemas são como pessoas. Algumas pessoas você entende de primeira. Outras você simplesmente não entende… e nunca entenderá”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.40)

Com relação às semelhanças entre este livro e A lógica inexplicável da minha vida, temos ainda o fato de que ambas as histórias se passam em El Paso, os jovens possuem uma questão com a identidade (entre mexicana e americana), as delineação das relações familiares e sociais, a questão da amizade, a homossexualidade, os conflitos internos pelos quais os jovens passam, a questão da lealdade… Enfim, há várias temáticas que realmente retornam.

“Às vezes, você só precisa contar a verdade às pessoas. Elas não vão acreditar. E deixarão você em paz”

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo (p.178)

Outra semelhança é a estrutura dos livros: ambos são divididos em partes, que ganham um título e uma frase (ou citação) e os capítulos são apenas numerados. As partes (e suas respectivas frases) de Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo são:

1. As diferentes regras do verão

O problema da minha vida era que ela tinha sido ideia de outra pessoa.

2. Pardais que caem do céu

Quando criança, costumava acordar achando que o mundo ia acabar

3. O fim do verão

Lembra-te do verão chuvoso… Deves deixar cair tudo o que quiser cair (Karen Fiser)

4. Letras sobre uma página

Há certas palavras que nunca aprenderei a escrever

5. Não se esqueça da chuva

Virando vagarosamente as páginas em busca de sentido (W. S. Merwin)

6. Todos os segredos do Universo

Por toda a minha juventude te busquei, sem saber o que buscava (W. S. Merwin)

Estou encantada com as histórias de Benjamin Saénz. Ele consegue falar de temas muito importantes de maneira que a história não fica nem chata e nem óbvia. Há sempre algum acontecimento que vem para modificar toda a ordem das coisas (muitas vezes já caótica) e há sempre um mistério que perdura até os momentos finais do livro. A narrativa nos permite um ritmo agradável, com altos e baixos que nos prendem, tensionam e depois nos tranquilizam.

Ônibus – Marianne Dubuc

Título: Ônibus
Original: L'autobus
Autor: Marianne Dubuc
Editora: Jujuba
Ano: 2015
Tradução: Maria Viana

(Para ler ao som de: Exagerado – Cazuza).

E hoje é dia de resenha no Blog!

Acho que pela capa já dá para perceber que Ônibus é um livro infantil. E realmente é. Que saudades de livros coloridos, não?

Logo que a gente abre o livro, na parte da ficha catalográfica, uma bela surpresa: cada coisinha vem bem explicadinha. O que é autor, ilustrador, tradutor, diagramação, ISBN… É muito lindo, didático e necessário!

Além disso, o livro é todo ilustrado pela própria autora. Ele conta a história de uma menina que está pegando um ônibus para ir visitar sua vó. É a primeira vez que ela pega o ônibus sozinha e está levando uma cesta e um casaquinho consigo. 

No ônibus há diversos animais e a protagonista vai interagindo com eles. Por isso, ela chega cheia de histórias para contar para a avó. O enredo lembra muito chapeuzinho vermelho, mas com um quê diferente e especial que só lendo para captar bem. Então deixo aqui o meu convite para que você possa apreciar Ônibus:

Sobre a escrita – Stephen King

Título: Sobre a escrita: a arte em memórias
Original: On writing 
Autor: Stephen King
Editora: Suma das Letras 
Páginas: 256 
Ano: 2015 (1º edição) 
Tradução: Michel Teixeira

Vai ser difícil falar de um livro sensacional como esse, viu? É verdade que eu nunca havia lido nada desse autor e confesso que deu vontade de saborear alguma de suas histórias, até para ver, na prática, a escrita dele.

“Acredito que muitas pessoas têm pelo menos algum talento para escrever ou contar histórias, e esse talento pode ser fortalecido e afiado”

Sobre a escrita (p.20)

Me lembro que só de abrir o livro já dei um sorriso e me encantei. As epígrafes são as seguintes: “A honestidade é a melhor política” (Miguel de Cervantes) e “Mentirosos prosperam” (Anônimo) (!!!!).

Em seguida nos deparamos com três prefácios: no primeiro o autor fala sobre uma banda de rock da qual participou. Pode parecer aleatório, mas ele faz isso para mencionar uma frase interessante que ouviu. No segundo prefácio, mais curto que o primeiro, o autor nos fala sobre o tamanho do livro. Por fim, no terceiro prefácio, Stephen King fala, em apenas um parágrafo, sobre a importância do editor. De certa forma, cada um desses prefácios é um agradecimento a uma pessoa diferente.

O livro está dividido em algumas partes, cada uma delas com uma estrutura única. E todas são bem interessantes!

Primeiro temos Currículo, que é onde Stephen King nos conta um pouco sobre sua infância, adolescência, vida adulta, os primeiros contos que escreveu, as dificuldades.

“O que me levava a acreditar que eu tinha algo de útil a dizer?”

Sobre a escrita (p.10)

É uma parte em que a leitura flui. Eu ri, senti compaixão pelo escritor e até aflição! (Pois é, tem uma parte sobre os problemas de ouvido que ele tinha que são de arrepiar. Se as histórias de terror dele são assim, não sei te terei coragem de ler não…). Também podemos ter uma ideia de como eram as relações de King com sua família, principalmente a mãe e o irmão. A mãe, aliás, foi sua primeira grande incentivadora nessa empreitada de se tornar escritor.

“Ela disse que era tão bom que deveria estar em um livro. Nada que ouvi desde então conseguiu me fazer mais feliz”

Sobre a escrita (p. 29)

Depois desta “introdução”, temos O que é a escrita, que é uma espécie de conto sobre o tema. Trata-se de algumas reflexões do autor e é uma parte que quase chega a ser poética.

“Estou convencido de que o medo é a raiz de toda má escrita”

Sobre a escrita (p.113)

A terceira parte, Caixa de ferramentas, começa com uma espécie de crônica sobre este objeto e Stephen King, a partir dessa narrativa, inicia uma metáfora muito interessante sobre os elementos essenciais para uma boa escrita.

“É melhor sempre ter as ferramentas consigo. Se não tiver, pode ser que você encontre alguma coisa inesperada e desanime”

Sobre a escrita (p.101)

Aqui o autor fala sobre vocabulário, gramática, elementos de estilo e ritmo.

“A gramática não é apenas chateação; é a estrutura em que você se apóia para construir os pensamentos e colocá-los no papel”

Sobre a escrita (p.108)

Em seguida vem Sobre a escrita, uma parte homônima ao título do livro, em que o autor traz mais alguns princípios importantes da escrita. Ele considera este o coração da obra.

“Quando acerta o alvo, uma metáfora nos agrada tanto quanto encontrar um velho amigo em meio a uma multidão de desconhecidos”

Sobre a escrita (p.153)

Uma coisa que Stephen King faz questão de destacar ao longo deste livro e principalmente nesta parte, é a necessidade de ler e escrever muito.

“Cada livro que se pega para ler tem uma ou várias lições, e geralmente os livros ruins têm mais a ensinar que os livros bons”

Sobre a escrita (p.126)

Apesar de muito interessante também, confesso que essa foi a parte que mais enrolei para ler. No entanto, ao chegar ao final e passar para a última parte, uma surpresa…

“A escrita não é a vida, mas acho que, algumas vezes, pode ser o caminho de volta a ela”

Sobre a escrita (p. 212)

Em Sobre a vida: um postscriptum, o autor nos conta sobre um sério acidente que sofreu. Era algo que eu realmente não esperava encontrar neste livro, mas que achei muito interessante. Primeiro porque, novamente, Stephen King nos dá uma aula (prática) de narrativa. E também porque ele parece cada vez mais se aproximar do leitor para mostrar a ele que somos todos igualmente seres humanos.

“Quando você escreve, está criando seus próprios mundos”

Sobre a escrita (p.136)

Outro ponto que achei muito interessante ao longo do livro, mas que fica ainda mais claro nessa última parte, é o amor de King por sua esposa, Tabby. Ele reconhece a felicidade de ambos, os esforços dela com relação a ele e sua imensurável ajuda.

“Escrever é um trabalho solitário. Ter alguém que acredite em você faz muita diferença”

Sobre a escrita (p.68)

Tabby não só apoia e incentiva Stephen King, como também é sua primeira e mais fiel leitora.

“Todas as opiniões têm o mesmo peso? Para mim, não. No fim das contas, eu ouço mais a de Tabby, porque é para ela que escrevo, é ela que quero surpreender”

Sobre a escrita (p.186)

Nem todo mundo consegue encontrar o amor da sua vida e, menos ainda têm a sorte de ter um amor tão compreensível e dedicado. E só quem já teve essa sorte na vida sabe o quão incrível é!

Por fim, o autor ainda colocou duas listas de livros que ele leu nos últimos anos. Pode ser um bom lugar para encontrar sua próxima leitura!

Itinerãças – Béatrice Costa

Título: Itinerãças
Autor: Béatrice Réichen V. Costa
Editora: Paulistana
Páginas: 110
Ano: 2018

Como o título desse livro provavelmente causa certo estranhamento, começo esta resenha por ele. Vocês conhecem Manoel de Barros? Se conhecerem, provavelmente já terão entendido a referência. Caso contrário, explico: Manoel de Barros, poeta brasileiro que adorava brincar com as palavras, possui um livro chamado Livro das Ignorãças. Béatrice deparou-se com essa obra justamente quando pensava em um título para seu livro e resolveu entrar na brincadeira: assim nasceu Itinerãças.

Mas não é apenas o título que supreende: Itinerãças é algo inédito, e tudo está muito bem explicado desde o início. O que temos aqui é uma espécie de diário (literalmente) de mestrado, em que a autora compartilha conosco suas dúvidas, incertezas, medos, alegrias, descobertas e avanços.

Mas como e por quê um “diário de mestrado”? Béatrice começa seu livro nos explicando isso. Tudo surgiu com uma sugestão de sua orientadora:

“Compre um caderno bem bonito. E comece a escrever”

Itinerãças (p.7)

Esta sugestão foi dada ante a angústia de Béatrice, que não sabia bem como e nem por onde começar a escrever sua dissertação. A ideia foi acatada, sem que elas desconfiassem que a “brincadeira” viria a ser publicada.

A escrita de Béatrice é deliciosa. Tem certo ar poético e brincalhão e consegue ser leve mesmo nos momentos em que ela provavelmente se encontrava em grande dúvida. Os capítulos são super curtos e é possível ler esse livro “em uma sentada só”. Mais do que isso, dá vontade de ler de novo e de novo!

Pessoalmente, fui pega de surpresa com um capítulo em que Béatrice fala sobre o livro O som e o sentido, que estou há tempos enrolando para começar a ler. O mesmo ocorreu com ela e por motivo semelhante: o medo que ele nos causa, parecendo extremamente técnico para alguém que folheia suas páginas. Quando li esse medo descrito nas páginas de Itinerãças percebi que está mais do que na hora de enfrentá-lo.

Confesso que não sei se é muito fácil encontrar esse livro, talvez apenas entrando em contato com a editora Paulistana. Só cheguei a ele por conhecer sua autora: Béatrice foi mestranda do Programa de Pós-Graduação em Francês, da Universidade de São Paulo e sua pesquisa é muito interessante. Ela trabalha com a canção no ensino de línguas, tema que muito me atrai. Além disso, o formato que ela usou em sua dissertação é inovador e torna até mesmo a leitura de um trabalho acadêmico totalmente prazerosa (quando minha orientadora sugeriu que eu lesse, não achei que iria gostar tanto quanto gostei. Me tornei fã de Béatrice sem que ela soubesse). É possível ter acesso a essa pesquisa, entitulada A música como experiência: potencialidades da canção no ensino-aprendizagem de francês língua estrangeira, e eu recomendo para aqueles que se interessam por língua estrangeira e música.

Já com relação ao livro, recomendo a todos que pretendem fazer um mestrado ou um doutorado, ou mesmo para aqueles que já estão nesta trajetória. Poderia ir mais além, e recomendar esta obra para todos aqueles que se encontram em um momento de bloqueio de escrita ou mesmo para aqueles que têm medo de uma página em branco. Este diário nos mostra como começar colocando tudo o que nos vem à mente em um papel pode ajudar a clarear nosso pensamentos e “destravar” a escrita.

“Perco-me em devaneios. É tão mais fácil e prazeroso sonhar. Realizar é perigoso, dá trabalho, abre espaço para críticas”

Itinerãças (p.47)

A menina que não sabia ler – John Harding

Título: A menina que não sabia ler
Original: Florence and Giles
Autor: John Harding
Editora: LeYa
Páginas: 282
Ano: 2010 (1º edição)
Tradução: Elvira Serapicos 

Imagine viver em uma mansão decaída, no meio do nada, sem grandes entretenimentos e sem poder ler. Terrível, não? Pois era assim que viviam, a princípio, Florence e Giles. Por causa da morte dos pais, os irmãos são enviados pelo tio (que nunca viram na vida) para Blithe House (a tal mansão), para viver na companhia da Sra. Grouse – a governanta – e de Meg, Mary e John, os empregados.

Fiquei pensando se a figura do tio ausente – ou qualquer outro parente próximo – que se torna o guardião de seus sobrinhos órfãos não é um lugar comum na literatura. Existem muitas histórias como essa, em que aparece também uma mansão, para onde são enviadas essas crianças, como por exemplo em O Jardim Secreto (para citar ao menos um).

Florence – narradora desta história -, no entanto, não fica parada: ela adora inventar brincadeiras com seu irmão mais novo e ama explorar a mansão em que vive. Em um de seus passeios descobre uma enorme biblioteca, totalmente abandonada e cheia de pó. Por ordens expressas do tio, Florence não deveria ser alfabetizada, apenas Giles. Por conta desta proibição, nossa narradora se alfabetiza sozinha!

“O que eu mais gostava em Shakespeare era a facilidade com que lidava com as palavras. Parecia que, se não houvesse palavra para o que queria dizer, ele simplesmente a inventava. Ele poetava o idioma”

A menina que não sabia ler (p.18)

Até aqui a história é linda de se ler! Uma jovem se alfabetizando sozinha e indo contra as restrições impostas por seu tio, que sequer sabe como é e como vive a pequena Florence. Além disso, para acabar de vez com a monotonia daquela vida, surge em Blithe House um jovem, Theo Van Hoosier, que passa os verões em uma casa perto de Florence e Giles. Devido à sua asma, Theo começa a viver nesta casa não apenas durante o verão, e suas visitas a Florence tornam-se constantes. Ele vive tentando galanteá-la, mas ela o repele desde o início. Além disso, critica severamente os versos que ele lhe escreve. Versos simples demais para a jovem devoradora dos grandes clássicos presentes na biblioteca.

A verdade, no entanto, é que lá para o meio do livro, apesar de todos esses acontecimentos, a história parece meio parada e quase dá vontade de desistir da leitura. Uma página a mais, porém, e tudo acontece. Mas acontece tão rápido que chega a ser confuso e, no final das contas, muitas pontas ficam soltas.

O que ocorre em Blithe House é tão surreal que fica difícil distinguir o que é “realidade” e o que é apenas imaginação de Florence. Não sei, aliás, se há algo ali que tenha sido somente imaginação dela. Por ter sofrido um trauma durante a história, Florence poderia estar apenas criando coisas em sua cabeça, como uma forma de proteger-se dessas lembranças ruins. Alguns personagens, inclusive, sugerem isso explicitamente a ela. Dadas as resoluções da história, no entanto, se tudo era apenas uma criação de uma mente perturbada, pode-se dizer que temos uma bela história de horror aqui.

Mesmo que tudo o que Florence tenha visto e vivido seja real, contudo, sinto que as ações que ocorrem ao final do livro foram muito drásticas. Existiam alternativas interessantes e que também não deixariam a história tão óbvia. No entanto, não vou negar que a sucessão de acontecimentos prende o leitor e li as últimas cinquanta páginas de um fôlego só.