Como professora de italiano de adolescentes, foi impossível, no primeiro semestre deste ano, passar ilesa aosbrain root italianos.
No começo, eu não tinha ideia do que meus alunos estavam falando. Achei que fosse só uma brincadeirinha entre eles. Quando finalmente comecei a ver conteúdos explicando o que são esses brain root, porém, fiquei um pouco (mais) desesperada.
Se você tem a sorte de não ter ideia do que estou falando, aqui vai a tradução de um artigo publicado no Il Sole 24 ore, em 31 de julho de 2025, escrito por Marco Trabucchi. O texto original você encontra neste link.
Tradução
Rolando os conteúdos em vídeo no TikTok, você já se deparou com um tubarão usando tênis azul da Nike e cantando “tralalero tralalà” ou com um avião de guerra com cabeça de crocodilo, com intenção de bombardear cenários surreais? Então você chegou a um dos trends mais bizarros do momento: o Brain Rot italiano. Conteúdos em vídeo, gerados com ajuda da inteligência artificial generativa, nos quais personagens absurdos — como o “Bombardiro Crocodilo” ou a “Ballerina Cappuccina” — se movem em fundos psicodélicos enquanto uma voz sintética recita frases sem sentido. Vídeos nonsense que misturam ironia, surrealismo e, muitas vezes, provocações politicamente incorretas, geralmente ultrapassando o limite do bom gosto.
Um dos primeiros vídeos que contribuiu para definir o imaginário dessa trend, que reescreve a estética do meme contemporâneo, foi “Tralalero Tralalà”, no qual um tubarão antropomórfico, com tênis azul nos pés, recita versos acompanhados de um áudio gerado por inteligência artificial. Um vídeo, postado inicialmente no TikTok, que deu início a uma avalanche de imitações e reelaborações, até atingir números record: mais de 3 milhões de visualizações globais.
O termo brain rot, literalmente “lixo cerebral”, foi escolhido como palavra do ano em 2024, pelo dicionário Oxford. Na definição dos linguistas de Oxford, brain rot é “o assumido deterioramento do estado mental ou intelectual de uma pessoa, em particular como resultado de um consumo excessivo de material considerado superficial ou pouco estimulante”. Um termo com uma longa história: já nos anos 90 era usado para criticar a má televisão, os videogames ou os quadrinhos considerados “deseducativos”. Depois chegaram as redes sociais e os vídeos breves em plataformas como TikTok, na qual o algoritmo encoraja um contínuo e sem fim rolar do feed.
A pergunta é: o que acontece quando até o YouTube e outras plataformas de vídeo começam a incentivar a fruição desses conteúdos? Simples: muitos sofrem o efeito (principalmente os mais jovens), e alguns outros lucram com isso. Diversos criadores de conteúdo vendem vídeo-aulas, guias, tutoriais e cursos sobre como criar conteúdos virais com a IA. Instruções para criar o próprio universo “brainrot” e triunfar no TikTok.
E no Discord existem comunidades privadas nas quais os usuários compartilham entre si prompts para criar brainrot e técnicas para gerar conteúdos “extremos” ignorando as diretrizes dos softwares. De acordo com muitos observadores, não vai demorar muito para que as marcas comecem a desfrutar deste tipo de conteúdo com fins comerciais. Em resumo, os brainrot — quer queira, quer não — se tornaram um modelo de negócio, para além de uma estética.
Conclusão
Os brain root são mais um sinal de uma sociedade que precisa rever, desesperadamente, sua relação com a tecnologia, mas, sobretudo, que precisa entender que se chegamos onde chegamos — pensando em termos de desenvolvimento tecnológico e conforto — foi porque muitas pessoas antes de nós pensaram e pesquisaram incansavelmente.
Estamos nos deixando levar pelo caminho mais fácil, pelo “não ter que pensar”, pela lei do mínimo esforço. E os resultados disso são (e serão cada vez mais) desesperadores.
Você já tinha ouvido falar do brain root italiano? O que acha disso?
É evidente que se eu tiver a oportunidade de juntar coisas que eu gosto, juntarei. E este post é exatamente isso: uma tradução que fala sobre um livro e o aprendizado da língua italiana.
Foi um artigo que encontrei por acaso e que já me deixou muito curiosa para ler o livro que ele apresenta.
O texto original você encontra no Blog Italian With Giada e foi escrito por Giada, em 20 de dezembro de 2023. Abaixo você encontra o post.
Em outras palavras é o primeiro livro escrito em italiano por Jhumpa Lahiri, uma escritora estadunidense, de origem bengalesa, que se mudou para a Itália e agora vive em Roma. O livro fala da paixão pela língua italiana, de sua beleza, do desejo e da dificuldade de aprendê-la e dominá-la, e, em geral, de como alcançar um objetivo na vida.
Aprender italiano pode ser, às vezes, difícil, mas lendo este livro tenho certeza que você se identificará com o amor da autora pela minha língua e pelo seu percurso de estudo. Nas páginas de Em outras palavras, de fato, você encontrará a paixão e a motivação para a sua viagem linguística.
Neste post, deixo te deixo seis conselhos para melhorar o seu italiano, inspirados no percurso de estudo de Jhumpa Lahiri.
Boa leitura!!
Conselho 1
Mergulhe, jogue-se na língua! No início você terá medo e não deixará a margem, mas para aprender de verdade é preciso atravessar sem o suporte da sua língua mãe, é preciso mergulhar. Em outras palavras começa exatamente assim, com esta imagem do lago (uma língua estrangeira, neste caso o italiano) e as dificuldades de atravessá-lo, de nadar através dele sem suporte (a nossa língua mãe).
Conselho 2
Não faça tudo sozinho(a)! A beleza de aprender uma língua estrangeira está no seu compartilhamento, nas relações que estabelecemos com pessoas que falam aquela língua, em sua expressão e em sua comunicação. A língua não é uma coleção de regras gramaticais ou uma lista de vocabulários para memorizar. Compartilhe a sua paixão com outras pessoas, procure um professor nativo. Se não, como disse Jhumpa, é como estudar o funcionamento de um instrumento musical sem jamais tocá-lo.
Conselho 3
Comece a falar em italiano desde o início, mesmo que você não se sinta perfeito(a) ou confortável ou tenha medo da sua pronúncia e de não ser compreendido(a). Principalmente durante suas viagens à Itália, não hesite em falar italiano.
Conselho 4
Para mergulhar ainda mais na língua, comece pela sua literatura! Leia romances italianos em italiano. Jhumpa, em um certo momento da sua vida, resolve se mudar para Roma. O que ela faz para se preparar para a sua viagem? Renuncia sua língua, o inglês, e seus queridos livros ingleses. Começa a ler só em italiano, romances italianos. Para me preparar decido, seis meses antes da partida, de não ler mais em inglês, ela escreve. Claro, não é simples, mas Jhumpa não se deixa intimidar pela língua e pelas palavras que não entende. Não para a cada palavra, anota aquelas que a afetam, procura entender o significado delas pelo contexto.
Conselho 5
O quinto conselho inspirado na viagem linguística de Jhumpa é aquele de escrever em italiano. A escrita na língua que queremos aprender é fundamental para encontrar a própria identidade, a própria voz naquela língua. Quando aprendemos uma língua estrangeira, nos transformamos e nos reinventamos. Escrever ajuda a encontrar essa voz e nos expressar com novas palavras.
Conselho 6
O sexto e último conselho tem a ver com as palavras. Quando aprendemos uma nova língua, estamos sempre em busca de palavras novas para nos expressarmos melhor. Para memorizá-las e usá-las, ela anota em um caderno aquelas que parecem importantes, bonitas, incomuns, especiais. São palavras importantes para ela, palavras que leu, escreveu, pensou, às vezes esqueceu e relembrou. São listas de palavras vividas e suas. O meu conselho é esse: não se prenda apenas a listas de palavras pré-fabricadas, que encontramos em manuais, ou criadas por outras pessoas. Crie você mesmo(a) essas listas, faça-as suas, brinquem com elas e as leia, use-as, viva-as. Por exemplo, você pode criar listas temáticas sobre o conteúdo de um livro, de um filme, de um artigo de um jornal, de uma conversa… As palavras novas, neste caso, estão inseridas em um contexto, terão um significado particular para você e, provavelmente, será mais fácil lembrar delas e reutilizá-las no momento certo.
Se você não leu esse livro e ficou curioso(a), pode encontrá-lo em todas as livrarias. Também é possível encontrá-lo em formato áudio, gratuitamente, no YouTube:
Deixo aqui, também, a entrevista da escritora Jhumpa Lahiri, na qual ela descreve a sua experiência como estudante de italiano.
Conclusão
Como eu disse no começo, este artigo me deixou com muita vontade de ler Em outras palavras, da autora Jhumpa Lahiri.
Antes de encerrar, porém, não poderia deixar de fazer uma última observação: no segundo conselho, a autora do livro sugere ao leitor procurar um professor nativo. Já escrevi sobre isso aqui e reitero: o professor não precisa necessariamente ser nativo, mas precisa saber te fazer entender e usar a língua que você está aprendendo.
E você, que conselhos daria para quem está aprendendo uma nova língua?
Depois de um longo tempo sumida aqui do Blog (falei um pouco sobre isso aqui), finalmente trago um post novo. E, para marcar este retorno, escolhi traduzir um artigo cujo título chamou minha atenção, porque um dos intuitos deste espaço é justamente incentivar a leitura (inclusive, se você conhece alguém que colocou nas metas deste ano ler mais, já convida para conhecer esse espaço e trocar uma ideia).
Que o hábito da leitura (de livros, não de mensagens de whatsapp) faz bem, é coisa que já se sabe. Mas se por acaso passou despercebido a alguém os infinitos artigos nos quais são elencadas as vantagens físicas e psicológicas escondidas entre as páginas de um romance ou de um ensaio, de uma antologia poética ou mesmo de um bom livro de receitas, eis que María J. García-Rubio e Ana Merino, no La Vanguardia, repropõem o tema à luz das mais recentes descobertas da neurociência.
O ponto de partida, como já havia explicado Maryanne Wolf no seu Proust e il calamaro (Editora Vita e Pensiero), é que ler — diferentemente do caminhar e do falar — não é uma característica inata aos seres humanos, uma vez que a escrita existe há “apenas” seis mil anos. Em outras palavras — explicam García-Rubio e Merino — “do ponto de vista neurocientífico, a leitura não está ligada a áreas cerebrais específicas, como, por outro lado, acontece com a visão, o olfato, a audição”. Este, que poderia parecer um problema, tem, contudo, consequências positivas, porque o cérebro da menina e do menino que aprende a ler é obrigado a encontrar uma — de certo modo inédita — “especialização” que envolve várias regiões cerebrais: “o giro supramarginal, o giro angular, as áreas frontais relacionadas aos processos motores envolvidos na articulação, e as áreas occipitais responsáveis pelo processamento de estímulos visuais como as letras, sem contar as áreas ligadas à memória, ao significado e ao conteúdo emocional dos grafemas e fonemas”.
Em resumo, um treinamento que faz parecer àquele dos atletas para as Olimpíadas uma piada, e que traz consigo, conforme aumenta o nível de complexidade dos textos, outros benefícios em termos de concentração, atenção e capacidade de empatia. De acordo com os últimos estudos sobre o tema, trazem à tona García-Rubio e Merino, a leitura reduz os níveis de estresse, porque “quando lemos são liberados neurotransmissores ‘bons’ como a dopamina e a ocitocina” e “retarda o envelhecimento, graças ao conceito de reserva cognitiva, uma espécie de ‘dispensa do conhecimento’ com a qual o cérebro se reabastece”.
Diante de dados como esse, poderia-se esperar um assalto generalizado às livrarias e bibliotecas. Ao contrário, infelizmente devo dizer, quanto mais os cientistas demonstram, com estudos em mãos, que a leitura é um salva vidas, menos se lê. E não estamos falando só da Itália onde, sabe-se, a paixão pelos livros nunca foi um esporte de massa, mas de países há anos considerados como paraísos de leitores.
Os últimos números sobre a leitura dos adultos no Reino Unido são uma dolorosa confirmação disso: como escreve Ella Creamer no Guardian, mostrando os resultados do relatório The State of the Nation’s Adult Reading, 35% dos cidadãos britânicos maiores de 16 anos declara ser um ex leitor, “ou seja, uma pessoa que lia regularmente por prazer, mas agora faz isso raramente ou nunca”. Este é, provavelmente, o dado mais melancólico da pesquisa, mas existe um outro ainda mais inquietante: o grupo etário entre 16 e 24 anos registra o nível mais baixo de leitores regulares (32%). E mais: 44% dos “jovens adultos” declara se considerar um ex leitor.
Para redimir estes desertores da leitura, será suficiente sacudir debaixo dos olhos deles as pesquisas da neurociência? Duvidamos e duvidam também os editores que, na metade de julho (escreve sobre isso Porter Anderson no Publishing Perspectives) na Feira do Livro de Frankfurt e na Feira do Livro para Jovens de Bolonha anunciaram em um comunicado conjunto que “às atividades das feiras para o desenvolvimento do livro serão acrescentados um centro de negócios sobre jogos”.
Conclusão
Ler é uma delícia, para além de qualquer benefício que estudos científicos possam descobrir com relação a este hábito.
É uma pena, portanto, que poucas pessoas tenham consciência disso, mas, principalmente, que haja pouco incentivo para o florescimento deste hábito, ainda que, nos últimos tempos, temos visto redes sociais como o Tik Tok ajudando a disseminar e incentivar este hábito.
Recentemente, tive a sorte de ser apresentada ao rock progressivo (que os conhecedores chamam mais simplesmente de prog). E, como se não bastasse poder conhecer um estilo musical que estou adorando ouvir, também fui apresentada a grupos italianos de prog!
Por isso, trago aqui a tradução de uma resenha que fala sobre um grupo de prog italiano bem interessante, cujo nome despertou minha atenção logo de cara: Il paese dei balocchi.
Eu sabia que este nome não me era estranho e que estava ligado ao universo literário. E a resposta veio fácil: Pinocchio. Quer algo mais italiano que isso?
O texto que trago aqui fala sobre a banda, mas também sobre o único disco dela, que tem o mesmo nome. E se a pulga já estava atrás da orelha, bastou ver os títulos das músicas e apertar o play para pensar: eu PRECISO saber mais sobre isso.
Antes de passar para a tradução em si, porém, uma explicação sobre o que é, em Pinocchio, Il paese dei balocchi, porque isso não vai aparecer ao longo do artigo, mas acho que esta introdução pode deixar as coisas ainda mais interessantes.
Il paese dei balocchi (ou “O país dos brinquedos, da diversão”) é um lugar mágico, onde as crianças podem fazer o que querem, sem regras ou responsabilidades. Seria o paraíso, se não fosse por um detalhe: quem fica muito tempo por lá se transforma em burro.
Pinocchio é uma história infantil e Il paese dei balocchi tem a sua função ali: simbolizar que viver uma vida sem disciplina, trabalho e responsabilidade traz consequências.
O que isso tudo tem a ver com um disco de prog italiano? Bom, leia a tradução abaixo, deste texto aqui, originalmente publicado no site Donato Ruggiero, em março de 2020.
Tradução
Estamos em 1972, ano de publicação de muitas obras primas do prog italiano (só para citar alguns, o álbum homônimo e “Darwin”, dos Banco, “Us” do Balletto di Bronzo, “Nuda”, dos Garybaldi, “Jumbo” e “DNA”, dos Jumbo, “Uomo di pezza” do Orme, “Storia di un minuto” e “Per un amico”, do PFM) e entre eles encontramos uma pequena pérola, desconhecida para a maioria: Il Paese dei Balocchi, disco da banda homônima, formada em Roma.
Nascido das cinzas dos Under 2000, ativos desde 1965, o PdB, em 1971, foi notado pelo produtor Adriano Fabi, que propôs a gravação de um álbum. Isso aconteceu no ano seguinte e as gravações duraram somente duas semanas. Fizeram parte delas também o maestro Claudio Gizzi (futuro membro dos Automat, com Musumarra) que cuidou dos arranjos das cordas.
A obra que nasce das mentes de Armando Paone (voz, teclado), Fabio Fabiani (guitarra), Marcello Martorelli (baixo) e Sandro Laudadio (bateria, voz), é um álbum conceito de temática muito pessimista “porque naqueles tempos não acreditávamos nas instituições ‘oficias’ e estávamos enjoados e oprimidos por tudo o que nos rodeava (Vietnã, política, conformismo hipócrita,…) em que os ‘porquês’ eram tantos e sem respostas convincentes. Nos inspiramos espiritualmente em tudo isso para a criação do nosso LP… Justamente procurando ‘AS’ respostas. O nosso LP, em linhas gerais, é uma viagem do homem dentro de si mesmo… (‘si mesmo’… aqui imaginado como um Paese dei Balocchi, aquele onde todos nós gostaríamos de viver, fugindo de uma realidade que não nos empolga e onde quem tem os fios do poder… é um rei déspota que nos manobra como ‘fantoches’). É a busca por nós mesmos, ou melhor, pela própria identidade humana, passando através do bem e do mal, tentando entender quem somos, porque estamos aqui e aonde estamos indo, até chegar à esperança… vã, porque no final da viagem descobrimos que a ‘crua’ realidade na qual vivemos, nada mais é do que um espelho no qual podemos ver o reflexo da nossa própria alma” (da entrevista de Fabio Fabiani, concedida a Augusto Croce).
A divulgação do álbum acontece também com a participação da banda em dois grandes eventos organizados naquele ano: o grande concerto de Villa Pamphili, em Roma, e a Mostra d’Oltremare, em Napoli. Do disco, lembra Laudadio, foram publicadas somente 1800 cópias.
A capa, onde se pode ver diversos pedaços de tecido coloridos costurados, representa em cheio a colagem de sons (clássicos e eletrônicos) e atmosferas (forçadamente melancólica) presentes no álbum, que não deve ser entendido como uma composição confusa, mas como uma grande habilidade técnica e capacidade de fazer malabarismos no complicado universo do “conhecer a si mesmo”.
A primeira faixa do álbum, com um longo título, é Il trionfo dell’egoismo, della violenza, della presunzione e dell’indifferenza(o triunfo do egoísmo, da violência, da presunção e da indiferença). O início é arrebatador: um passeio que nos lembra uma pequena parte, depois do solo de bateria no início, de Il tramonto di un popolo (O pôr do sol de um povo), música do Capitolo 6, presente no álbum Frutti per Kagua (publicado no mesmo ano). Neste o destaque é a flauta, enquanto naquele não tem um elemento que se sobressai, mas é a sublime mistura entre guitarra, órgão, baixo e bateria que se impõe. E então uma mudança abrupta: entram os instrumentos de corda, criando um suspense, e a música muda completamente. Os últimos segundos são muito relaxantes.
Música multifacetada é Impotenza dell’umiltà e della rassegnazione (Impotência da humildade e da resignação). Em apenas quatro minutos, Il paese dei balocchi se aventura em numerosas e repentinas mudanças que desorientam o ouvinte. O começo é bem minimalista, com uma guitarra “distante” e um tema de poucas notas, retomados pouco depois, de maneira decidida, por uma guitarra distorcida. A evolução da música é introduzida pelo baixo de Martorelli e a sucessiva entrada de toda a banda, acompanhada por coros (presentes já um pouco antes da entrada do baixo). Pouco depois, o órgão, sozinho, tenta trazer calma, mas só aparentemente: os coros entram novamente com uma guitarra toda em estilo “western”. Em seguida, um breve trecho de teclado ao estilo de Battiato. A música termina com um bom e puro prog “made in 1972”.
Com Canzone della speranza (Música da esperança), o PdB “respira” um pouco. É a primeira faixa cantada do álbum. Um leve arpejo dá início a uma balada melancólica (estado de espírito endossado pelos coros). A tristeza base da música está presente também nos instrumentos de corda, na voz e no texto: “Eu vendo tudo e vou embora, todos os sonhos, a melancolia / deixo a tranquilidade por um pouco de liberdade / uma sobra de sinceridade, a fé, um pouco de caridade / procuro coisas que nunca tive / as mãos estendidas de um amigo, talvez um sorriso / palavras doces que nunca ouvi / perdi o país com o qual sonhei, o vento vai me levar / mundo mais novo, estou aqui para você / cores vivas me curarão / o amor que agora não está em mim, verá”.
Evasione(Evasão) tem um sabor onírico, psicodélico (sensação criada pelo som “aquoso” da guitarra na primeira parte da canção). A partir do segundo minuto, a atmosfera de sonho ganha mais força com a entrada do teclado e da bateria. Vale notar algumas esporádicas inserções de sintetizador e um final mais encorpado.
Risveglio e visione del paese dei balocchi(Despertar e visão do país dos brinquedos) tem uma estrutura e ainda cria uma atmosfera capaz de ser usada sem problemas como música de filme. O riff de baixo do interlúdio parece tirado de uma faixa dos Banco.
Música de dupla personalidade é Ingresso e incontro con i baloccanti(Entrada e encontro com os brincalhões). A primeira parte tem uma introdução muito animada, que exala algo de medieval. A segunda parte foi confiada apenas à voz, que se exibe em um canto de tom “monástico”.
A breve, mas intensa, Canzone della verità(Música da verdade), realizada apenas com cordas, lembra muito de perto músicas presentes nos três “Concerto Grosso” do New Trolls.
Outra música bem curta é Narcisismo della perfezione(Narcisismo da perfeição). Os únicos participantes da “contenda” são guitarra e voz. Enxerga-se ali algo que será próprio de Angelo Branduardi nos anos seguintes.
Vanità dell’intuizione fantastica(Vaidade da intuição fantástica). depois de dois minutos de som “em baixo volume” (órgão e guitarra), é o baixo, acompanhado das percussões, que dá sentido à música. Eles preparam o terreno para um bom trecho de prog. O solo de órgão presente aqui soa muito britânico. A última parte da música tem sonoridades mais psicodélicas.
É uma “prova de força” do órgão, muito bem tocado por Paone, que ocupa os mais de quatro minutos de Ritorno alla condizione umana(Retorno à condição humana). Para a ocasião foi usado um órgão Mescioni, de 1947, presente na igreja de S. Euclide, igreja na qual também foram registrados alguns coros (para aproveitar a reverberação) presentes no disco. Para complementar, algumas intervenções de sintetizador.
Conclusão
Se você, assim como eu, não conhecia nada disso, espero que tenha gostado. E se já conhecia, que esta tradução ao menos tenha trazido algumas informações novas.
Sigo escutando Il paese dei balocchi, tentando unir a sonoridade a todas essas possíveis interpretações e significados que cada uma das músicas (e são apenas 10, passa tão rápido!) pode ter.
Dia desses me deparei com o artigo italiano cujo título (e conteúdo) você encontra traduzido aqui: Se as escolas ensinassem bem a literatura e se enchesse as salas de aula com livros, todos saberiam o que é amor.
O artigo em questão foi escrito pela redação do site Orizzonte Scuola, e foi publicado em 12 de abril de 2024, como você pode ver no post original.
Claro que o título despertou minha curiosidade, apesar de, no fim das contas, o texto não aprofundar exatamente a questão da literatura, mas sim a importância de fazermos perguntas.
Tradução
No seu último livro para jovens, “As grandes perguntas”, Umberto Galimberti defende que as perguntas são mais importantes que as respostas. Uma afirmação que pode causar dúvidas: se não temos respostas, como podemos nos orientar no mundo?
Para Galimberti, em uma entrevista ao La Stampa, as respostas não são a chave. Inclusive, correm o risco de sufocar a nossa curiosidade e fechar a nossa mente. Como diagnósticos e receitas pré-confeccionadas, nos oferecem uma falsa segurança, nos fazendo crer que sabemos e temos tudo sob controle. Este comportamento nos leva a “desligar o cérebro”, renunciando à fadiga de buscar e se aprofundar.
Por outro lado, as perguntas nos mantém alertas, nos fazem questionar e se colocar à prova. São o motor do conhecimento, o ponto de partida para explorar novos territórios e ampliar os nossos horizontes.
Mas atenção: nem todas as perguntas são iguais. Algumas nos conduzem a ruas sem saída, enquanto outras nos abrem novas perspectivas. Como dizia Ésquilo, só o verdadeiro saber tem poder sobre a dor. E esse saber não se adquire por osmose, mas através um percurso de busca e de confronto crítico.
Um exemplo evidente é a literatura. Se as escolas ensinassem a ler os grandes clássicos, não apenas com uma abordagem didática estéril, mas com paixão e envolvimento, os jovens aprenderiam a conhecer a alma humana em todas as suas facetas. Aprenderiam a reconhecer o amor, o sofrimento, a alegria e o medo, emoções que fazem parte da vida de cada indivíduo. E, sobretudo, aprenderiam a lidar com a dor que, inevitavelmente, estas emoções carregam consigo.
Perguntas e respostas são duas faces da mesma moeda, ambas indispensáveis para o nosso crescimento intelectual e emotivo. As perguntas nos impulsionam a buscar, mas as respostas nos oferecem uma direção. Porém é importante lembrar que o verdadeiro saber não se resume a uma simples fórmula, mas é um processo contínuo de descoberta e de confronto. Só através desse processo podemos aprender a viver com sabedoria e a enfrentar os desafios que a vida nos apresenta.
Conclusão
Qual a sua opinião: perguntas são mais importantes que respostas?
Acho que vivemos numa sociedade que quer tudo pronto (e tem muita coisa assim, na palma da mão) e que talvez realmente esteja perdendo parte de sua capacidade questionadora, então consigo compreender os pontos do autor, ainda que também discorde em alguns outros pontos.
Já que em março celebra-se o Dia Internacional da Mulher, resolvi que era o momento ideal para traduzir o texto Mulheres protagonistas da História, publicado no site da editora Mondadori em 2022, na rubrica Redação do Oscar, como você pode conferir no link abaixo.
Mesmo que muitas vezes não tenham escrito a História, as mulheres sempre foram protagonistas, às vezes involuntárias, às vezes indispensáveis.
Frequentemente eram rainhas (Cleópatra, Caterina De Medici, Maria Teresa da Áustria, czarinas), ou ainda filhas de um Papa (Lucrezia Borgia), mas também havia quem, como Joana D’Arc, vinha do povo e combatia para o rei, e quem, como Margherita Sarfatti, conhecida como a amante do ditador (Mussolini), tornou-se a primeira crítica de arte mulher na Europa.
Em ocasião da aproximação da Festa da Mulher, decidimos criar uma lista de livros dedicados às mulheres protagonistas da História: da antiguidade ao século XX, dos romances às biografias, passando pelos ensaios.
Mulheres protagonistas da História: da Antiguidade à Idade Moderna
Antiguidade
Cleópatra: neste livro, Antonio Spinosa soube recompor as duas faces desta soberana bela como uma deusa, mas cega pela ambição; aquela pública, de rainha e também de peão da História, e aquela privada, de mulher de paixões sem medida.
Idade Medieval
Joana D’Arc: na biografia de Franco Cardini a controversa história que envolve o mistério da jovem camponesa guerreira, que se sente chamada por Deus para libertar a sua França dos ingleses, durante a Guerra dos Cem Anos.
Leonor de Arborea: Bianca Pitzorno reconstrói a verdadeira face da mulher que foi capaz de reunir sob uma bandeira as diversas populações sardas que, pela primeira vez, se reconheceram como “nação” e lutaram com sucesso contra os aragoneses.
Idade moderna
Lucrezia Borgia: Geneviéve Chastenet retrata uma jovem mulher cheia de vida que teve de aprender por si mesma que seu destino estava na mão de outras pessoas, vivendo sobretudo em um mundo do qual foi mais vítima que protagonista.
Caterina De’ Medici: Jean Orieux traça o retrato de uma rainha controversa: uma mulher apaixonada por um homem que não a amava, desprezada pela corte porque era estrangeira e não de sangue real, mas que soube conduzir um dos países mais potentes da Europa com energia e inteligência.
Elizabeth I:Carolly Erickson apresenta a “virgem” soberana que, unindo falta de escrúpulos políticos e punho de ferro, conseguiu, no século XVI, fazer do próprio país o senhor absoluto dos mares e a primeira potência mundial, estabelecendo as bases do império colonial britânico.
Maria I da Inglaterra: Carolly Erickson desmonta o estereótipo de impiedosa tirana ao qual Maria Tudor, a primeira mulher a subir ao trono da Inglaterra, foi condenada, delineando um retrato que contrapõe uma mulher infeliz e sozinha, mas forte e combativa.
Anna Bolena: é sempre Carolly Erickson quem reconstrói os acontecimentos que marcaram a existência desta azarada rainha, usando como pano de fundo uma perfeita reconstituição das relações humanas e da trama de razões pessoais e de Estado, em uma grande corte europeia da Renascença.
Artemisia: nesta biografia de Alexandra Lapierre, revela-se a aventura de uma das primeiras pintoras da história: numa Roma de 1600, a mulher que rompe com todas as normas para conquistar a glória e a liberdade.
Do iluminismo aos tempos modernos: as mulheres da História
Iluminismo
Caterina II, da Rússia:Carolly Erickson delineia uma mulher inteligente, amiga e apoiadora dos iluministas, obstinada e corajosa, que conseguiu se impor em um mundo estrangeiro e hostil, superando os preconceitos dos seus contemporâneos.
Maria Teresa da Áustria: Edgarda Ferri reconstrói a biografia de uma mulher fascinante e sensível, corajosa e segura, que soube conciliar o amor pela família com as necessidades do Estado e o exercício do poder, governando “como um homem entre homens”.
Maria Antonietta: Carolly Erickson percorre os passos da rainha que buscou consolação nas elegâncias excêntricas e nos divertimentos mais caros, tornando-se odiada pelos súditos, perseguidos pelas taxas e pelo péssimo governo durante os últimos anos conturbados do Antigo Regime e o início violento da Revolução.
Séculos XIX e XX
La czarina Alessandra: desta figura enigmática e do seu mundo interior, de um isolamento atormentado, Carolly Erickson traça um retrato inesquecível da rainha da Rússia antes da Revolução: uma história cada vez mais sombria, que se conclui com o trágico assassinato dos Romanov.
Margherita Sarfatti: a maior parte do público a conhece apenas como “a amante do ditador”, mas Rachele Ferrario reconstrói o temperamento de uma mulher culta, elegante, refinada e sobretudo livre, que conseguiu se impor na cena cultural e completar o seu projeto.
A imperatriz Sissi: Erika Bestenreiner conta sobre uma das figuras femininas mais amadas e contadas da história moderna, reconstruindo também os acontecimentos menos conhecidos, mas não menos tumultuados e singulares, que a caracterizam.
Rosa Parks: Minha história é a autobiografia da mulher símbolo da luta pelos direitos civis que, com palavras comoventes, uma linguagem simples e sinceridade, conta a própria vida e o seu papel na construção de uma sociedade mais justa para todos os americanos.
Herdeira que se tornou rainha por acaso, princesa que subiu numa árvore a noite para descer dele no dia seguinte como rainha. Quatro casamentos e um funeral que marcaram a sua monarquia: é Elisabetta II, 1926-2022, uma rainha como nenhuma outra.
Conclusão
Infelizmente, muitas das biografias elencadas ao longo do post original, não estão traduzidas para o português ou são difíceis de encontrar no Brasil. No entanto, trata-se de uma interessante lista de mulheres que tiveram — e ainda têm — seu papel na História.
Qual dessas histórias você teria interesse de ler ou qual dessas mulheres você conhece um pouco mais a fundo?
Ler livros em outras línguas é uma prática um tanto quanto interessante: ao mesmo tempo em que nos permite entrar em contato com uma obra em seu original, também nos permite aprender muito, seja sobre uma cultura, seja sobre seu vocabulário.
Foi assim que, lendo Storia di chi fugge e di chi resta, me deparei com o termo “ricchione” e, mesmo tendo entendido seu significado — ainda que nunca tivesse visto essa palavra antes — resolvi pesquisar sobre ele, encontrando o texto que trago para a tradução de hoje.
Você pode ler o artigo original, escrito por Chiara Cepollaro, em janeiro de 2016, aqui, no site Vesuvio Live.
Tradução
Frocio, finocchio, culattone e inúmeras variações que surgem devido às transformações dialetais da palavra. Se trata, como bem sabemos, de gírias, usadas de maneira pejorativa e ignorante para definir pessoas homossexuais. De domínio nacional, hoje em dia existe, porém, a palavra ricchione, de exportação napolitana, mas difundida em muitas cidades do Norte.
Qual é, exatamente, a origem do vocabulário? O termo tem suas raízes em contaminações linguísticas ocorridas ao longo da história, principalmente durante os períodos de dominação estrangeira, quando a língua falada pelo povo mudava e evoluía de acordo com o ambiente ao seu redor, do qual absorvia palavras que facilitavam a comunicação.
Isso, no entanto, implica um certo grau de incerteza, inclusive por parte dos próprios linguistas, sobre a proveniência específica do termo. Existem diversas hipóteses, sendo algumas mais valorizadas que outras. Vejamos:
Os Conquistadores. Depois de passar um período na América do Sul, os Conquistadores espanhóis que chegavam ao porto de Nápoles, imitando os homens poderosos das tribos Incas, usavam grandes brincos nos lóbulos, para dilatá-los, alargando a orelha. Além disso, o fato de que haviam passado muito tempo no mar, longe, portanto, de mulheres, fazia com que as pessoas pensassem em um período no qual eles tivessem “se arranjado” entre si, tendo relações homossexuais. Assim, portanto, “ricchioni”, de “orelhas grossas” (orecchie grosse).
Uma variante desta hipótese, por outro lado, identifica a palavra “ricchione” no cruzamento de duas palavras: recchia (orelha em napolitano) e Maricòn (homossexual em espanhol).
Uma hipótese próxima é que a palavra derive de Orejon (em espanhol, orelha grande): quando os conquistadores chegavam em Nápoles, contavam histórias da cultura Inca e, entre elas, havia o costume, entre os homens nobres, a fim de exercitar seu poder com virilidade e longe das tentações da carne, de ser castrados desde pequenos. Esses últimos, além disso, usavam na orelha grandes brincos que notavelmente dilatavam os lóbulos. Um outro costume típico era o de polvilhar pó de ouro sobre as orelhas desses homens, nascendo daí o modo de dizer “tené ‘a povere ncoppo ‘e rrecchie”, que faz referência ao fato que a pessoa de quem falamos é homossexual.
Longe dessas hipóteses hispânicas se coloca aquela em que o termo deriva de um verbo calabrês: arrichià, que significa literalmente ad-hircare, ou seja, andar em direção ao bode. Desejar o bode. Na natureza, a cabra arricchia, ou seja, deseja o bode, portanto…
Uma última explicação poderia vir de uma crença popular enraizada na qual acredita-se que a caxumba, a doença, pudesse tornar impotente o homem que a contraísse e, consequentemente, “não adequado” à reprodução: “nun è buono”, muitos diriam ainda hoje. Daqui a associação aos homossexuais, esses também “inadequados” à reprodução, mesmo que por outros motivos.
Seja como for, as várias hipóteses se cruzam entre si, com referências parecidas e que se combinam. Contudo, as palavras nascem por evolução natural da cultura, sem conotações negativas. Estas últimas chegam quando os termos são contextualizados, utilizados em uma realidade que constrói, sozinha, a identidade da palavra. Cada palavra é, por assim dizer, neutra. Somos nós que conferimos a ela um significado ou outro, um sentido positivo ou negativo que, na realidade, antes não existia.
Conclusão
E aí, o que achou desse texto?
Para mim, é de extrema importância o adendo feito ao final: muitas palavras são neutras, nós é que atribuímos sentidos positivos ou negativos a elas.
Foi estranho traduzir esse texto porque, mesmo achando-o muito interessante, deu muito medo de escolher termos ruins para a tradução, colocando justamente palavras negativas aqui.
Sou apaixonada pela língua Italiana muito antes de saber que a sua literatura é extremamente rica e fascinante.
Quem acompanha este blog tem visto, aos poucos, nascerem as resenhas da tetralogia napolitana, escrita por Elena Ferrante, série pela qual tenho me apaixonado mais a cada dia (e se você ainda não viu, vem aqui ler: volume 1, volume 2, volume 3).
Mas nem só de Elena Ferrante vive a literatura italiana, felizmente. Outro escritor, para citar somente um dentre tantos que merecem atenção é Italo Calvino, que em 2023 completaria 100 anos.
Autor de diversos livros já traduzidos para o português, Calvino tinha um estilo literário plural, tendo escrito de tudo um pouco.
Como este seria o ano de seu centenário, não faltam textos e eventos em sua homenagem e, assim, achei que seria bacana trazer algo para cá.
Em meio às minhas buscas, encontrei este artigo que busca apresentar este autor através de cinco palavras.
O post foi escrito por Giusi Chiofalo e publicado em 15 de outubro de 2023 no site Revista Blam. Você pode conferir o texto original clicando aqui.
Tradução
Italo Calvino é um dos escritores mais renomados e importantes da literatura italiana. Suas obras são conhecidas e traduzidas em todo o mundo e incluem romances, ensaios, escritos epistolares, traduções e músicas. Este ano festejamos o seu centenário.
Nascido em Cuba, em 15 de outubro de 1923, de pais italianos¹, passa a infância e a adolescência em Sanremo, durante a época fascista. A Segunda Guerra Mundial abala a sua vida familiar, mas fortifica a índole do escritor, levando-o a um decisivo compromisso político, alimentado pela leitura de Montale, Vittorini e Pisacane.
Italo Calvino: quem era o escritor em 5 palavras
Resistência
Na densa correspondência epistolar realizada ente Calvino e seu amigo de escola, Eugenio Scalfari, o escritor conta a própria experiência na resistência, convidando-o, dentre outras coisas, a votar pela República no referendum de 1946. Partigiano², militante no campo como porta munição, Calvino frequenta a faculdade de Letras de Torino e começa, contemporaneamente, a escrever contos e a colaborar com algumas revistas. A primeira fase da poética de Calvino é ligada ao movimento neorealista, corrente literária pós bélica de caráter antifascista. O primeiro romance A trilha dos ninhos de aranha(1947) tem como protagonista Pin, um menino que vive com a jovem irmã, que é obrigada a se prostituir para ganhar a vida. A história é ambientada exatamente no período da Resistência: “no tempo em que a escrevi, criar uma ‘literatura da Resistência’ era ainda um problema aberto” afirmará mais tarde Calvino.
Fábula
Na metade da década de 50, Calvino se dedica à reescrita de algumas fábulas italianas populares, corrigindo erros, fazendo algumas modificações, preenchendo lacunas. Segundo o autor, as fábulas são histórias que dizem respeito ao ser humano de maneira universal, uma vez que descrevem a sua passagem pela terra em cada etapa importante e em cada fase dessa passagem: “[as fábulas] são, consideradas em seu conjunto, em suas repetições e no sempre variado leque de acontecimentos humanos, uma explicação geral da vida”. É desse mesmo período a publicação de O visconde partido ao meio(1952), o primeiro volume da trilogia (desconectada) Os nossos antepassados que com O barão nas árvores (1957) e O cavaleiro inexistente(1959), constitui um percurso alegórico dedicado ao homem contemporâneo e inspirado em Orlando Furioso, de Ariosto. Recorrem aqui temas da rebelião juvenil, do sentido da incompletude, da busca pela própria identidade individual e social.
Jogo combinatório
Da pesquisa semiológica e da proximidade com o estruturalismo derivam o conceito calviniano da escrita como jogo combinatório, um tipo de literatura experimental aprendida em Paris, graças à troca intelectual com Queneau e com o grupo literário de OuLiPo (Oficina de Literatura Potencial). As cidades invisíveis (1972) é o romance que mais sofre dessas influências e da prática de uma escrita experimental. Encontramos aqui cinquenta e cinco descrições de cidades imaginárias, divididas em macronúcleos: a cidade e a memória, os sinais, o desejo, os olhos, as trocas, o céu, o nome, os mortos. Calvino se inspira n’As viagens de Marco Polo, e considera o leitor uma espécie de marionete a ser controlado e conduzido a seu bel prazer a lugares extraordinários, que representam cada aspecto da realidade: o livro é “para quem está sempre em outro lugar, para quem quer fugir do congestionamento do passado, do presente e do futuro, que bloqueia as existências calcificadas na ilusão de movimento”.
Literatura
“Sabe-se que é um autor que muda muito de livro para livro. E justamente por essas mudanças se reconhece que é ele”. Assim escreve Calvino em Se um viajante numa noite de inverno (1979), um dos últimos romances, que amarra em uma única história os incipit de dez narrativas, intercaladas com as reflexões dos personagens, um Leitor e uma Leitura. Trata-se de um livro dedicado, de fato, à leitura, uma espécie de obra-manifesto na qual a experiência estilística e a reflexão hermenêutica encontram uma expressão completa e literária. Mas o volume que condensa o pensamento teórico literário de Calvino é certamente Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas, resultado das aulas preparadas para um curso na universidade de Harvard, em que o autor associa as potencialidades e a plasticidade da palavra a temas só na aparência abstratos: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Coerência (somente projetada) são os títulos dos tantos capítulos que compõem o volume, publicado postumamente em 1988.
Fama
Após a sua morte, que aconteceu em 6 de setembro de 1985, alguns amigos de Calvino — entre os quais Natalia Ginzburg, Norberto Bobbio, Lalla Romano, Cesare Segre e Massimo Mila — fundam o prêmio Italo Calvino, que se tornou um dos mais importantes reconhecimentos literários italianos. Em Cuba também foram instituídos prêmios e associações em sua memória. Ainda hoje, ler Calvino é uma experiência iluminadora, não apenas pelo talento no uso da linguagem e a experimentação constante que caracteriza a construção de suas histórias, mas pela capacidade com a qual este autor soube fazer da literatura um instrumento para adestrar o mundo à leveza, “porque leveza não é superficialidade, mas plainar sobre as coisas, não ter pedras no coração”.
Italo Calvino: os primeiros livros para ler e conhecer este autor
Il sentiero dei nidi di ragno, Mondadori, 2012
Le città invisibili, Mondadori, 2022
Se una notte d’inverno un viaggiatore, Mondadori, 2022
Lezioni americane. Sei proposte per il prossimo millennio, Mondadori, 2022
I nostri antenati, Mondadori, 2023
Gli amori difficili, Mondadori, 2023
Notas da tradução
1. A cidadania italiana é de tipo ius sanguinis, ou seja, é considerado cidadão italiano aquele que, independentemente de onde nasceu, tem pais de origem italiana. Por esse motivo, mesmo nascido em Cuba, Calvino é italiano.
2. Os partigiani eram civis que lutaram contra o governo fascista e as posições da Itália na Segunda Guerra Mundial. Uma tradução possível para esta palavra seria “guerrilheiros”.
Conclusão
Acho que o texto deixa claro a multiplicidade de Calvino, o que contribuiu enormemente para seu sucesso.
Espero que esta tradução tenha despertado o seu desejo de conhecer o autor (caso ainda não conheça) ou de retomar seu contato com suas obras (caso já tenha lido algo dele).
Aliás, se já leu algo de Calvino, comenta aqui o que foi e o que achou!
O texto de hoje é a tradução de um artigo originalmente publicado no The nerd writer, em 27 de fevereiro de 2020. O texto em questão foi escrito por Sara Elisa Riva e você pode lê-lo (e escutá-lo!) aqui.
Resolvi trazê-lo para cá pois, como o próprio texto diz, “o que é a literatura?” é uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, os amantes (e estudiosos) desta arte acabam se fazendo.
Além disso, as palavras aqui trazidas também abordam outra questão, que esteve em pauta na minha última resenha: a do cânone literário.
Vamos, então, atrás de algumas respostas?
Tradução
Depois de finalmente compreender qual era o meu papel na difusão da cultura literária, me vi diante de um primeiro obstáculo a ser superado: de onde partir para envolver as pessoas no extraordinário mundo da literatura e da escrita? Do início, obviamente, alguém poderia dizer, mas qual é exatamente o início?
Todos nós começamos a ler sem nos fazermos grandes questionamentos, simplesmente pegamos em mãos o nosso primeiro livro e, uma sílaba depois da outra, uma palavra depois da outra, uma frase depois da outra, chegamos ao final do texto. Lemos a nossa primeira história.
Entretanto — e isso inclui tudo o que lemos a seguir — dificilmente paramos para pensar porque lemos aquele livro específico. E, para compreender isso, temos de dar um passo para trás.
O que é a literatura?
Cedo ou tarde, pelo menos uma vez na vida, um estudioso de literatura se fará a uma pergunta que não temos como escapar: o que é a literatura? Questão aparentemente banal, afinal o que é a literatura se não um amontoado de textos literários?
Começo dividindo a literatura em duas grandes categorias: os grandes clássicos da literatura mundial de um lado (e esses serão os textos aos quais irei me referir ao longo desse texto) e as narrativas contemporâneas de outro. É claro que alguns livros publicados hoje, amanhã podem se tornar clássicos. Vejamos como.
Partindo de “a literatura é um conjunto de textos literários que atravessam os séculos”. Se assumirmos como verdadeira essa afirmação, será natural nos colocarmos outra pergunta: quais são os textos literários que foram transmitidos até nós? E por que justo eles?
O cânone literário
Os textos que nós lemos, que usamos como referência, fazem parte daquilo que é definido como cânone literário, ou seja, um conjunto de autores e obras tidos como modelos estéticos de uma determinada tradição e com os quais abre-se continuamente um diálogo.
Isso vale como uma definição de máxima, mas o cânone também compreende modelos que transcendem a estética. Como, por exemplo, os valores identitários de uma comunidade, os valores éticos e a sensação de pertencimento são fundamentais, uma vez que representam o primeiro sinal de identidade.
Tudo aquilo trazido até este momento clarifica, apenas em linhas gerais, um modelo de representação da realidade externa a nós. O cânone, contudo, fornece também um exemplo do universo íntimo do eu, da interioridade, do pensamento e da memória.
Para que serve, concretamente, o cânone literário?
O cânone literário nos permite, portanto, através da imitação, definir os diversos modos de representação. Em outras palavras: quando lemos os textos que pertencem ao cânone vigente, passamos a conhecer uma série de valores que se tornam nossos através da imitação (a mimese, portanto). Assim sendo, a literatura nos apresenta modelos de comportamento aceitáveis e compreendidos pela sociedade na qual vivemos, nos fazendo viver uma série de experiências capazes de formar a nossa identidade.
Isso nos faz entender que com a variação dos valores sociais no decorrer dos séculos, existe a possibilidade de uma mudança no cânone que, realmente, não é fixo e nem imutável.
Então o que é a literatura?
Depois de esclarecer, em linhas gerais, o que é um cânone literário e de nos colocarmos algumas perguntas, podemos dizer com razoável certeza que a literatura é um conjunto de textos que contém os valores e os modelos da sociedade na qual estamos inseridos, com a qual mantemos um constante diálogo aberto, mas que, no entanto, justamente pelas variáveis típicas da natureza humana, podem ser modificadas com o passar dos anos. Não é um mistério, portanto, que alguns autores ou suas obras tenham caído no esquecimento por longos períodos para depois serem redescobertos e trazidos à luz em um momento mais adequado a receber a mensagem que o autor trazia consigo.
Resta ainda uma dúvida, a mais complexa, mas talvez a mais interessante: para o que serve a literatura?
Disso, porém, falaremos no próximo artigo!
Por enquanto, aconselhamos uma leitura fundamental: o cânone ocidental, de Harold Bloom.
Considerações finais
Ao concluir a leitura (e a tradução) de O que é a literatura não sei se as coisas ficaram mais claras ou mais confusas para mim.
A verdade é que definir literatura em poucas linhas é uma tarefa ingrata e praticamente impossível.
No entanto, o texto traz uma explicação interessante sobre o que é um cânone e como ele é estabelecido, além de trazer à luz algumas reflexões interessantes sobre a literatura.
Se você quiser a tradução do artigo sobre para que serve a literatura, me fale nos comentários (:
Dia desses, para variar, eclodiu uma polêmica no Twitter, que o Fabiano já comentou neste post, sobre ter ou não livros em casa.
A ideia deste post não é alimentar a polêmica em si, mas trazer uma tradução sobre o acúmulo de livros, que muitas vezes é mais forte que nós. Será que existe explicação para isso?
Ao longo do texto, você irá se deparar com uma palavra em japonês que não era novidade para mim, uma vez que a conheci em Lost in translation, mas cujo significado fica, agora, ainda mais claro.
O texto original foi retirado do wired.it e foi publicado em janeiro de 2023, tendo sido escrito por Maria Francesca Amodeo, como você pode conferir aqui.
Tradução
Esta pergunta é o centro de memes que circulam online; aparece com frequência nas conversas entre leitores e incomoda cada comprador que não consegue parar de comprar novos livros. Uma palavra japonesa nos ajuda a entender este fenômeno.
É uma prática muito mais difundida do que se pode imaginar — no mundo inteiro e também no nosso país — a de comprar livros e acumulá-los, adiando sua leitura. Parece uma crença besta, que muitas vezes é utilizada como uma acusação irônica nos confrontos dos leitores apaixonados (ou que se torna real com os memes), mas é pura verdade, às vezes de forma patológica: muitas pessoas não conseguem parar de comprar livros. Mesmo se já possuem o suficiente para aplacar — ao menos num curto espaço de tempo — sua sede de leitor.
Esses indivíduos acabam por encher as cômodas, os móveis da casa, as prateleiras, as escrivaninhas. Saem por aí e não são capazes de bloquear o impulso de comprar novos livros, mesmo já tendo volumes suficientes à disposição no interior do próprio apartamento. E esta é uma prática que se repete de novo e de novo, em um loop que não faz menção de ceder.
Alguns entram na livraria e, passeando entre as prateleiras, encantam-se com um título ou uma capa e sentem a necessidade de comprar; mas tem também quem segue os canais de editoras mais conhecidas, fica sempre informado dos lançamentos e compra online as publicações recentes que atiçam a sua curiosidade.
Tem também aqueles que não saem de casa com a intenção de comprar um livro, mas que simplesmente não sabem resistir ao bom perfume das páginas novas quando, por acaso, trombam com elas. Ou quem, por outro lado, não tem interesse no conteúdo e só tem a mania de possuir os volumes. E, ainda, há aqueles que amam colecionar edições preciosas e raras dos livros mais famosos do mundo.
As motivações que levam à aquisição de livros são, portanto, diferentes (ou ao menos assim parece), mas o resultado é o mesmo: na casa de cada um desses compradores compulsivos existem altas — e provavelmente empoeiradas — pilhas de livros para serem lidos. Montes de páginas que reduzem o espaço vital à disposição (como já diria Marie Kondo) e que ficam esquecidas por meses, até por anos.
O risco maior, não é nem preciso dizer, é que com a sede de dedicar-se a novas aquisições, os velhos volumes que já possuímos acabem no esquecimento e nunca sejam realmente lidos. Mesmo quando pareciam interessantes no momento da compra.
E então, por que tantas pessoas continuam a comprar livros sem parar, ficando com uma montanha de livros não lidos em casa? As possíveis respostas para este pergunta talvez sejam três.
Há quem sofra de bibliomania
A primeira resposta se refere a uma verdadeira patologia. A bibliomania é, de fato, um distúrbio obsessivo-compulsivo clinicamente reconhecido, que motiva a pessoa que sofre disso a comprar compulsivamente livros que não tem intenção alguma de ler. Neste caso, o sujeito tem como único interesse aquele de rodear-se de volumes de sua propriedade: novos, usados, muitas vezes até em versões duplas ou triplas. Não é nada incomum, de fato, que o bibliomaníaco possua cópias de um mesmo título, porque para ele não é o conteúdo de cada livro que conta, mas apenas o fato de ser proprietário da maior quantidade possível de volumes.
Se trata, neste caso, de uma mania e quem sofre disso muitas vezes tem inclusive problemas relacionais. É de tal maneira dedicado à sua obsessão de acumulador que é capaz de comprometer sua própria saúde. Por isso que quem sofre de bibliomania é tratado com remédios e terapias específicas.
A bibliofilia e o colecionismo
Bem diferente é a bibliofilia que, como é fácil compreender retomando as origens gregas do termo, nada mais é do que o profundo amor aos livros. Geralmente o bibliófilo também possui muitos exemplares, mas ele se empenha em ler todos eles e tende a conseguir. A sua, de fato, é uma sede por conhecimento, para além de um amor real pela leitura de volumes físicos de páginas ásperas.
Normalmente o bibliófilo é também um colecionador e privilegia, por isso, edições raras de livros famosos, cópias autografadas de seus autores preferidos ou volumes fora de catálogo que não se encontram mais à venda. Amando de maneira realmente visceral até mesmo a encadernação e a capa de cada volume, quem se considera um bibliófilo não pode achar mais sem sentido a tendência de design na qual se colocam estantes e prateleiras de casa cheias de livros expostos com as páginas à vista, em uma infinita extensão de bege. A bibliofilia não é absolutamente considerada uma condição patológica.
A resposta definitiva: o Tsundoku
Igualmente comum — ainda que venha confundida com a bibliomania — é a condição do Tsundoku. O termo deriva do antigo dialeto japonês e une três diferentes palavras: tsunade (amontoar as coisas, acumular), doku (ler) e oku (deixar um pouco para lá). Em resumo, portanto: acumular livros e esquecê-los deles. O termo em uso no Oriente desde 1879 para definir uma tendência que acompanha a humanidade desde a Idade Medieval.
Esta prática, muito mais difundida que as duas primeiras, diz respeito a todas aquelas pessoas que compram livros com a real intenção de lê-los. Os depositam nas prateleiras (ou sobre a cômoda, ou em qualquer lugar da casa) à espera de iniciar a leitura e depois o abandonam por um tempo indefinido. Mas por quê?
Porque no intervalo, compram novos volumes que roubam o interesse deles. E, num certo ponto, porém, parte dos “novos” livros se tornaram datados, porque serão substituídos e ultrapassados por aquisições ainda mais recentes.
Vejamos um exemplo: se uma pessoa que tende ao Tsundoku compra dez livros, começará — na melhor das hipóteses — a ler um num curto espaço de tempo, e deixará os outros nove à espera, na estante. Muito provavelmente, enquanto está empenhado em sua leitura, sua curiosidade será capturada por outros volumes que resolverá comprar. Digamos que quatro, apenas para exemplificar.
Um desses talvez se transforme em sua próxima leitura. Os outros três, contudo, entrarão na famosa “pilha da vergonha dos livros não lidos”, com os outros nove livros anteriores e sabe-se lá quantos outros mais. E assim por diante, possivelmente infinitamente.
Os benefícios do Tsundoku
O Tsundoku, porém, não é considerado uma prática negativa. Vale dizer, porém, que se refere sobretudo àqueles que, geralmente, são definidos como leitores fortes, ou seja, aqueles que leram pelo menos 12 livros no espaço de um ano.
Estima-se que em 2022, na Itália, os leitores fortes eram de apenas 15,2% da população, um percentual realmente baixo. Saber que o mercado editorial pode contar pelo menos com uma base de fortes apaixonados que continuarão a comprar livros é, contudo, uma boa notícia.
Mas comprar livros, para além do fato que serão lidos ou não, traz benefícios para a saúde também. O simples gesto de comprar um objeto — como já foi demonstrado por diversas pesquisas conduzidas na última década — melhora o humor de quem compra. E se se trata de livros, há ainda mais um ponto a favor.
O escritor estadunidense Alfred Edward Newton, que viveu entre os séculos XIX e XX e se definia um bibliófilo defendia que “mesmo quando não podemos lê-los, a presença dos livros que possuímos produz uma forma de êxtase: a compra de mais livros do que podemos ler é nada menos que uma tentativa da alma de se aproximar do infinito. Apreciamos os livros mesmo quando não os lemos, o simples fato de tê-lo e saber que estão perto nos deixa mais cômodos. Só de saber que estão disponíveis nos passa segurança”.
Ter em casa livros, olhar para eles, cheirá-los (sim, tem quem o faça) é, de fato — para quem os ama — uma espécie de remédio para a tristeza. Uma cura para as pequenas, grandes feridas cotidianas, oferecida por uma especial e única sensação de expectativa que se esconde entre as páginas desconhecidas.
Agora me conte aqui: você compra livros e mais livros, mesmo sem saber onde guardá-los? Ou já consegue resistir a esse impulso?