Pessoas normais — Sally Rooney

Título: Pessoas Normais 
Original: Normal People
Autora: Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 264 
Ano: 2019
Tradução: Débora Landsberg

Sinopse

Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes ― contudo, um deles está determinado a esconder a relação.

Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Resenha

Pessoas normais foi um livro que, para mim, pareceu demorar demais para chegar ao ponto, mas tendo concluído a leitura, acredito que o tempo dele é na medida para assimilar certos sentimentos que a obra busca transmitir.

“Os sentimentos eram suprimidos com tamanho cuidado na vida cotidiana, forçados a caber em espaços cada vez menores, que acontecimentos aparentemente banais tomavam uma importância insana e assustadora”

A narrativa nos conduz, aos poucos, a uma reflexão sobre a sociedade e os tempos que vivemos, fazendo isso através de uma história que poderia ser extremamente banal, mas que, no final das contas, não é. Ou melhor, é, só que isso não a torna menos necessária

“Bom, sempre é fácil pensar em razões para não se fazer alguma coisa”

A história é narrada em terceira pessoa, com diversos diálogos, e num ritmo que é quase um fluxo de consciência. Algo nessa combinação me incomodou, mas não consegui definir exatamente o quê.

“Muitas pessoas realmente a odeiam”

Os protagonistas são dois: Connell Waldron e Marianne Sheridan.

“Quer dizer, você nunca vai conhecer de verdade a outra pessoa, e coisa e tal”

Connell é um garoto que, apesar de pobre, é relativamente bem popular na escola, principalmente por suas habilidades esportivas.

“Connell gostaria de saber como as outras pessoas conduziam suas vidas particulares, para que pudesse copiar seus exemplos”

Marianne, por sua vez, encontra-se no lado oposto da sociabilidade: considerada esquisita, ninguém faz muita questão de se aproximar dela, assim como ela não faz questão de se aproximar dos outros. 

“Marianne tinha uma vida drasticamente livre, ele percebia. Ele estava imobilizado por várias razões. Ele se importava com o que os outros pensavam dele”

Ao menos na aparência é assim. Mas a verdade é que a mãe de Connell trabalha na casa de Marianne e isso acaba por aproximá-los.

“Estar sozinho com ela é como abrir uma porta para fora da vida normal e fechá-la depois de passar”

Além disso, a história começa quando ambos estão no último ano da escola, mas a situação muda quando vão para a faculdade: Marianne torna-se popular, enquanto Connell vê-se à margem.

“Ele não é do tipo que se sente confortável confiando nos outros, ou exigindo coisas deles”

E é aqui que as coisas vão ficando interessantes, porque somos, aos poucos, arrastados para uma narrativa que vai se tornando complexa justamente por retratar a complexidade humana: angústias, amores, autoconhecimento, crises, segredos.

“Se as pessoas pareciam agir despropositadamente no luto, era porque a vida humana era despropositada, e esta era a verdade que o luto revelava”

Os protagonistas são jovens, sentem-se perdidos em momentos diferentes e por causas diversas. Mas, no fundo, são humanos, possuem tanto em comum

“Seria tarde demais para falar que queria ficar com ela, isso era claro, mas quando havia ficado tarde demais?”

Por diversas vezes, senti vontade de chacoalhar os dois, mas a verdade é que isso só é possível porque vemos de fora o desenrolar dos fatos. No fundo, já fomos (ou ainda somos) Connell e Marianne.

“Parece intelectualmente frívolo se preocupar com pessoas ficcionais se casando. Mas é isso: a literatura o comove”

O tom narrativo parece acompanhar o clima do local onde se passa a história: no interior da Irlanda em um primeiro momento, a história é melancólica e lenta; e em Dublin, quando os jovens vão para a faculdade, as coisas começam a acelerar.

“A vida propicia esses momentos de alegria, apesar de tudo”

A história se passa em cerca de quatro anos e é interessante acompanhar o quanto as coisas podem mudar, ir e voltar, neste espaço temporal. São muitos momentos e reflexões, não apenas para os protagonistas, mas também para nós, que os acompanhamos nesta jornada. 

“Ele não tem certeza do que é permitido que amigos curtam uns nos outros”

Sendo Pessoas normais um livro que divide opiniões, gostaria de saber: você já leu? O que achou?

Morangos mofados — Caio Fernando Abreu

Título: Morangos mofados 
Autor: Caio Fernando Abreu 
Editora: Companhia das Letras 
Páginas: 188 
Ano: 2019 (1º edição)

Sinopse

Em sua obra mais célebre, publicada em 1982, quando tinha trinta e quatro anos, Caio Fernando Abreu faz transbordar de cada página a angústia, o desassossego e o estilo confessional que o consolidaram como uma das vozes mais combativas e radicais de sua época. A prosa visceral dos dezoito contos de Morangos mofados ― potencializada pela hesitação coletiva de um país que vislumbrava a redemocratização ante a falência incipiente do regime militar ― traduziu as inconstâncias humanas mais profundas e continua, ainda hoje, arrebatando leitores de todas as gerações. Para José Castello, que assina o posfácio desta edição, embora seja um livro de narrativas curtas, “a obra mantém uma férrea unidade, em torno da coragem de se despir, da fidelidade aos sentimentos mais íntimos e mesmo os mais terríveis, e ainda à dificuldade de ser”.

Resenha

Em algum momento, uns anos atrás, li algo sobre Morangos Mofados e resolvi incluir este livro na minha lista de livros desejados e no meu aniversário deste ano, este foi um dos livros que a Isa me deu de presente e logo resolvi pegá-lo para ler.

Não me lembrava que se tratava de uma antologia de contos e confesso que, num primeiro momento, fiquei em dúvida do porquê havia me interessado por esta obra, até que entendi: os contos dela retratam, em sua maioria, relacionamentos homoafetivos.

“Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”

(Conto: Terça-feira gorda)

Os personagens, na maior parte das histórias, não possuem nome e em mais de um momento me enganei com relação ao que imaginava sobre eles (porque, claro, meu pensamento sempre acabava seguindo, mesmo que sem querer, um padrão que não era o que o autor estava retratando).

Achei alguns textos de uma poética bonita, mas que os deixam mais difíceis de ler, tornando o ritmo de leitura um pouco mais lento. Ritmo este que talvez fosse necessário para uma obra como esta.

“Sempre posso parar, olhar além da janela. Mas do interior do trem, nunca é fixa a paisagem”

(Conto: Eu, tu, ele)

As temáticas também nem sempre facilitam: falar do ser humano, da nossa complexidade, dos nossos medos, sem sombra de dúvidas não é algo que se faça de maneira simples.

“Amor não mata. Não destrói, não é assim. Aquilo era outra coisa. Aquilo é ódio”

(Conto: Caixinha de música)

A obra é dividida em três partes:

  1. O mofo — contém nove contos e é dedicada aos tempos da ditadura militar.
  2. O morango — contém oito contos e trata sobretudo das transformações interiores.
  3. Morangos mofados — contém o conto que dá nome ao livro.

Esta edição da Companhia das Letras é muito bonita: o papel tem um toque gostoso e torna a leitura confortável e as bordas são arredondadas. Além disso, ela conta com uma carta do autor a José Márcio Penido e um posfácio de José Castello, que torna toda a leitura ainda mais significativa.

“Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos — acordar, comer, caminhar, dormir —, dentro dele algo permanecia imóvel”

(Conto: Transformações)

Apesar do período em que foi publicado, Morangos mofados ainda conserva ares de atualidade (o que não necessariamente é bom). E alguns de seus trechos ganham novos e inesperados significados com o passar dos anos.

“Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval”

(Conto: Terça-feira gorda)  

Todos os contos possuem uma dedicatória, o que acrescenta mais uma dimensão às narrativas e também à obra.

O texto que mais gostei foi Aqueles dois — história de aparente mediocridade e repressão. Uma das poucas histórias em que os personagens têm nome e cuja narrativa possui uma clareza deliciosa de acompanhar.

Se você se interessou por esta obra, não deixe de clicar abaixo para saber mais e garantir o seu exemplar. A obra pode ser lida em formato físico ou digital.

Conhecer Morangos mofados se faz necessário em alguma medida.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios — Marçal Aquino

Título: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios 
Autor: Marçal Aquino 
Editora: Companhia das Letras 
Páginas: 232 
Ano: 2005

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios sempre foi um título que me intrigou e do qual muitas vezes ouvi falar bem, sendo um dos livros preferidos de muitas pessoas que admiro. Devo confessar, porém, que mesmo após a leitura, essa obra ainda me intriga.

“Sustentar aquele olhar escuro foi uma experiência difícil. Fez com que eu me sentisse desamparado. Fiquei com a impressão de estar sendo visto de verdade pela primeira vez na vida. E também de estar vendo algo que o mundo não tinha me mostrado até então”

Com uma narrativa que nos enreda, esta é uma história que fala sobre o amor. Mas que vai muito além daquilo que podemos imaginar, ao mesmo tempo em que é simplesmente real. E, justamente pela soma desses fatores, ainda há muito que, com uma única leitura, tenho certeza que não compreendo nessa obra e que, provavelmente, tanto fascina aqueles que a adoram.

“O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta”

O livro é narrado em primeira pessoa por Cauby, um fotógrafo de 44 anos que trabalha numa região de garimpo no Pará. Por isso, somos tragados pelos fortes sentimentos do narrador (nada confiável, vale ressaltar), ao mesmo tempo em que nos deparamos com uma realidade complicada e perigosa.

“Criada num ambiente rarefeito de afetos, tinha dificuldade na hora de identificar e nomear suas emoções com precisão”

O perigo, aliás, está sempre à espreita, mas é somente mais para o fim da obra que vamos realmente nos dando conta da sua força. E o que mais dói é saber que realmente existe essa violência desmedida causada, sobretudo, pelo poder. 

Com despedidas escondidas a cada esquina, percorremos as páginas deste livro com medo da ruptura que está por vir, tendo a certeza, contudo, que ela sempre chega, pois esta é inevitável e se tem uma coisa que este livro não faz é maquiar a verdade (muito pelo contrários, aliás, ele consegue ser bem visceral e direto ao ponto, ainda que carregue certa delicadeza e maciez em seu tom).

“Eu queria vê-la uma última vez, queria ouvir da sua boca que tinha acabado”

Indo e vindo entre passado e presente, a narrativa entra, por vezes, em um turbilhão e, por vezes, é calmaria. Exatamente como acontece com Lavínia, a grande paixão de Cauby e esposa do pastor Ernani. Vamos conhecendo esta personagem aos poucos, pelas lentes (com o perdão do trocadilho) do nosso protagonista.

“Ninguém viu brotar a flor esplêndida. Metade branca, metade sombria”

Mas nem mesmo esse vórtex de sentimentos e sensações é capaz de nos preparar para um fim tão complicado para esses personagens, que não são os únicos que compõem a narrativa.

“Sou apenas mais uma aberração num lugar onde elas brotam a cada esquina”

A narrativa do grande amor da juventude (e da vida) de Careca, que mora na mesma pensão que Cauby, também permeia as páginas deste livro, nos presenteando com a certeza de que existem inúmeras formas de amar nesta vida (e como cada uma, a seu modo, pode nos machucar).

O amor também está presente nas passagens do fictício filósofo Schianberg, cujas reflexões e ensinamentos enriquecem a narrativa e as passagens desta obra.

Sendo Eu receberia as piores notícias do seus lindos lábios um livro tão denso, mesmo que escrito com uma linguagem relativamente simples (e quase poética), só posso deixar o meu convite para que você conheça esta obra e tire as suas conclusões sobre a mesma. 

Livre para voar — Ziauddin Yousafzai

Título: Livre para voar: a jornada de um pai e a luta pela igualdade
Original: Let her fly: A father's journey and the fight for equality
Autor: Ziauddin Yousafzai e Louise Carpenter
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 162
Ano: 2019
Tradutor: Denise Bottmann

livre para voar blog

(Leia essa resenha ao som de A modo tuo — Ligabue)

É muito difícil ler Eu sou Malala e não ficar impactado com essa leitura que nos transforma e muda nossa maneira de ver o mundo. Esse é um dos meus livros preferidos e quando descobri que havia um escrito pelo pai dela, logo quis ler também. Infelizmente, o logo demorou um pouco, mas, como sempre, veio no momento certo.

Livre para voar já nos impacta no título. Não só pela beleza da imagem, mas porque qualquer um que conheça minimamente a realidade de onde vêm Malala e Ziauddin Yousafzai, sabe que “liberdade” não é uma palavra muito comum. Menos ainda se dirigida a uma mulher.

“Realmente acredito que as normas sociais são grilhões que nos escravizam”

(p. 56)

Ao longo desta obra (que é bem curta, na verdade), conhecemos um pouco mais o pai de Malala — Ziauddin Yousafazai — e, por meio de suas histórias, acabamos conhecendo mais a fundo também sua família e sua cultura.

“Comecei a repensar as ideia culturais de meu pai, do pai dele e de todos os pais do Paquistão de outrora”

(p. 46)

Ainda que Ziauddin só tenha vindo a conhecer essa palavra muitos anos depois, não podemos deixar de pensar em feminismo ao ler essa obra. Principalmente porque, quando falamos sobre esse assunto, tendemos a desconsiderar qualquer opinião ou palpite masculino, afinal, essa não é “a causa deles”, o lugar de fala deles.

Com a narrativa de Ziauddin, porém, temos de reconhecer que algumas lutas serão impossíveis sem os homens. Se ele não fosse quem é, se não tivesse conseguido refletir sobre a própria forma como foi criado, a Malala que conhecemos hoje não existiria. Ela seria apenas mais uma menina do Paquistão, dona de casa, que viveria em função de seu marido.

“Meu pai via as qualidade especiais de Malala, via como a respeitávamos e a valorizávamos, e foi assim que descobriu que uma menina vale tanto quanto um menino”

(p. 57)

Já deu para imaginar que esse livro, apesar de curto, é bem denso, certo? Certíssimo! De maneira leve vamos conhecendo mais a fundo o Paquistão e as consequências das ações do Talibã. De maneira não tão leve, vamos acompanhando a jornada de um pai que luta pela igualda feminina e, mais que isso, que incentiva sua filha a erguer a voz em uma sociedade onde mulheres sequer são consideradas parte da família.

“Ser esposa era um papel, e sem uma esposa uma casa não sobrevivia”

(p. 42)

Esse foi um livro que, enquanto lia, queria comentar com todo mundo, mas, ao mesmo tempo, não conseguia comentar com ninguém, pois precisava absorver cada linha dele. Um livro que eu queria abraçar forte, ao mesmo tempo que precisava desse abraço para poder ler as suas páginas.

“Vi meninas incríveis que foram obrigadas a renunciar à sua educação e a seu futuro. Essas meninas nunca tiveram uma chance de ser quem eram”

(p. 12)

Enquanto o Eu sou Malala é uma leitura e tanto para jovens (mas não só), Livre para voar é excelente para pais que querem refletir sobre a maneira como educam seus filhos, ou então para aqueles pais que se sentem sozinhos, travando batalhas grande demais. Ziauddin Yousafzai só sentiu medo do que estava fazendo, da mudança que estava construindo, quando ameaçaram (e atingiram) seu calcanhar de Aquiles: Malala, sua adorada filha.

“Mas há aí uma mensagem: os sonhos dos pais podem ser um fardo”

(p. 65)

Mas, sem dúvidas, ambos os livros são uma inspiração para qualquer um que esteja disposto a tornar-se mais humano e que queira expandir seus horizontes culturais e sociais.

“É assim que acredito que se dá a transformação social. Ela começa por nós”

(p. 62)
Ficou interessado(a) em Livre para voar? Então clica aqui.

As cabeças trocadas – Thomas Mann

Título: As cabeças trocadas: uma lenda indiana
Original: Die vertauschten Köpfe
Autor: Thomas Mann
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 118
Ano: 2017 (1º edição)
Tradução: Herbert Caro

Comecei a ler As cabeças trocadas e pensei: será que chego ao fim? Não sei quase nada sobre a cultura indiana, a linguagem não é das mais fáceis e nem os nomes dos personagens facilitam as coisas… Mas terminei! E gostei bastante da história e da forma como ela é contada. O narrador vai conversando conosco e nos explicando os pormenores, como alguém que realmente nos conta uma história.

“Oxalá os que ouvem esta história, talvez iludidos por seu desenrolar até agora ameno, não caiam na armadilha de uma interpretação errônea de seu verdadeiro caráter”

As cabeças trocadas (p.37)

Além de conversar conosco o narrador é bem realista. Depois da frase aí de cima a história toma uns rumos bem malucos!

O livro começa contando a história de Shridaman e Nanda, dois grandes amigos, apesar de suas diferenças: Shridaman é quase um intelectual e seu corpo é frágil, enquanto Nanda é forte, sendo um trabalhador braçal. A vida desses dois amigos começa a mudar quando eles veem Sita, a das belas cadeiras (que tipo de alcunha é essa, gente?), banhando-se no rio.

Shridaman apaixona-se perdidamente por Sita e, para sua sorte, Nanda a conhece, pedindo a mão dela em casamento para o amigo. Tudo incrível, não fosse o fato de Nanda ter um corpo maravilhoso, desejado por Sita.

As coisas complicam-se ainda mais quando os três, durante uma viagem, perdem-se e encontram um templo. Shridaman entra para rezar e ali acaba se matando, utilizando uma espada. Por conta da demora, Nanda vai atrás do amigo, para ver o que está acontecendo e ao deparar-se com a cena do amigo sem a cabeça, acaba por igualmente matar-se. É a vez de Sita averiguar o que está acontecendo. Ao constatar o horror, decide esta também se matar. Sabendo, porém, que não terá forçar para erguer a espada, decide sair do templo para se enforcar com um cipó. E então uma nova reviravolta acontece na história, sendo determinante para os momentos finais da narrativa.

Como eu disse, tive, em um primeiro momento, dificuldades para ler As cabeças trocadas, mas aos poucos a gente vai entrando na história e compreendendo as ironias da narrativa. O livro está dividido em doze capítulos relativamente curtos e nessa edição da Companhia das Letras há, ainda, um posfácio que ajuda a compreender alguns elementos da obra.

Outra coisa interessante na linguagem é que, mesmo difícil, ela é bem irreverente: algumas figuras importantes que aparecem ao longo da história nos fazem rir, chamando os protagonistas de bobos, dizendo que eles fazem tolices. Ao mesmo tempo, esses personagens fazem longos discursos, essenciais para a narrativa.

Se você quiser conferir com seus próprios olhos essa loucura toda, clique aqui:

O som e o sentido – José Wisnik

Título: O som e o sentido: Uma outra história das músicas
Autor: José Miguel Wisnik
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 283
Ano: 1989 (2º edição)

Como eu comentei na resenha de Itinerãças, o Som e o sentido é um livro que eu vinha há tempos enrolando para ler. O momento, porém, finalmente chegou. Ou não, pois confesso que ainda ficou muita coisa para que eu possa realmente entender tudo o que é dito no livro. Confesso, inclusive, que até tive dúvidas se deveria escrever uma resenha desse livro ou não, mas percebi que havia algumas coisas que eu gostaria de comentar.

O som e o sentido está divido em cinco partes, além de contar com uma apresentação e, ao final, um cd com exemplos sonoros do que é explicado ao longo do livro. As cinco partes são:

  1. som, ruído e silêncio;
  2. modal;
  3. tonal;
  4. serial;
  5. simultaneidades.

Dessas cinco partes, a que mais me interessou foi a primeira: som, ruído e silêncio.

“O som é presença e ausência, e está, por menos que isso apareça, permeado de silêncio”

O som e o sentido (p.18)

Destaco esta parte em detrimento das demais, não só por ser um assunto interessante e que muitas vezes não nos damos conta, mas também porque o resto do livro é muito mais histórico e teórico no quesito musical (sendo, portanto, as partes mais difíceis para mim).

Quando falamos em “som” quase sempre acabamos logo pensando em “música” e quando falamos em “ruído“, quase sempre pensamos em algum barulho incômodo. Som, porém, vai muito além de música, bem como ruído vai muito além de barulho. Mesmo música, se pararmos para pensar, é tanta coisa mais que aquilo que logo pensamos.

“Mexendo nessas dimensões, a música não refere nem nomeia coisas visíveis, como a linguagem verbal faz, mas aponta com uma força toda sua para o não-verbalizável”

O som e o sentido (p.28)

Além disso, “som”, “ruído”, “música” e qualquer outro termo análogo são elementos presentes em nosso dia a dia de maneiras que às vezes sequer nos damos conta. Por vezes, damos atenção àquilo que vemos e os ruídos, principalmente aqueles mais cotidianos, passam desapercebidos. Mas tudo faz parte do ambiente em que vivemos.

“A música ensaia e antecipa aquelas transformações que estão se dando, que vão se dar, ou que deveriam se dar, na sociedade”

O som e o sentido (p.13)

Outra reflexão que achei bem interessante, e que também faz parte da primeira parte do livro, foi a questão de que instrumentos, não só os musicais, mas utensílios no geral, desde a antiguidade, possuem, em grande parte, origem animal. Deste trecho destaco uma passagem que condensa bem a questão:

“Todos os instrumentos são, na sua origem, testemunhos sangrentos da vida e da morte”

O som e o sentido (p.35)

E a última reflexão que eu gostaria de destacar, ainda da primeira parte do livro, é sobre o modo como ouvimos música nos dias de hoje:

“O modo dominante de escutar (em ressonância com o da produção de som industrial para o mercado) é o da repetição (ouve-se música repetitivamente em qualquer lugar e a qualquer momento)”

O som e o sentido (p.56)

Graças à evolução das tecnologias, podemos transportar, em minúsculos aparelhos, infindáveis músicas para ouvir quando quisermos, na ordem que quisermos. Vocês já pararam para pensar que nem sempre foi assim? Que não era comum vermos pessoas nas ruas com fones enfiados nas orelhas e como isso também transformou nossas relações sociais?

Já sobre as outras partes do livro, deixo aqui breves comentários ou impressões:

Os capítulos de modal discorrem sobre as tradições musicais pré-modernas, enquanto em tonal o autor vai do desenvolvimento da polifonia medieval até o atonalismo. É um capítulo que fala sobre muitos compositores europeus renomados até os dias de hoje, nos mostrando quais foram, efetivamente, as contribuições deles para o campo da música. Já em serial, Wisnik fala sobre as formas radicais da música, chegando à música eletrônica.

Há muitos exemplos ao longo do livro, não somente os sonoros, encontrados no cd, mas também de partituras e músicos, além das inúmeras referências a outros estudos ou estudiosos.

O som e o sentido com certeza é um livro riquíssimo, mas não tão facilmente legível para quem não é mais ligado à música como uma área de conhecimento. Como eu disse, ainda preciso entender muitas coisas dele e esta leitura foi, sem dúvidas, uma aventura.

Aproveito e deixo, para aqueles que se interessaram pelo assunto, um vídeo curto, mas bem interessante: Sobre o som (música) – John Cage. E se você quiser ler o livro, saiba mais aqui:

A lógica inexplicável da minha vida — Benjamin Alire Sáenz

Título: A lógica inexplicável da minha vida
Original: The Inexplicable Logic of my Life 
Autor: Benjamin Alire Sáenz
Editora: Seguinte
Páginas: 442
Ano: 2017 (1º edição)
Tradução: Flávia Souto Maior

(Para ler ao som de Paciência – Lenine)

A lógica inexplicável da minha vida é narrada por Salvador, ou então Sally, apelido criado por sua melhor amiga. Ele é um jovem que está no último ano do Ensino Médio e o livro nos mostra como sua vida vai de certezas a incertezas em apenas um instante. Por  Sally ser o narrador da história, conhecemos mais os  seus sentimentos, o que não significa que temos uma visão superficial dos demais personagens, uma vez que ele é extremamente empático.

Justamente pelo fato dos demais personagens terem um papel importante nesta trama, não podemos falar do livro sem falar deles também. A começar por Vicente, o pai adotivo de Salvador. Ele é um adulto maduro, bonito… e gay. Para Salvador isso não é um problema. Para o próprio Vicente isso não é um problema. Mas, para a sociedade em que vivemos… Bem, isso às vezes é um problema.

“As pessoas podem ser muito cruéis. Elas odeiam o que não conseguem entender”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 20)

Outro personagem importante é Mima, a avó de Salvador. Ela é uma figura doce, forte  (e ao mesmo tempo frágil) e cheia de histórias. A relação entre avó e neto é muito bonita e eles têm sempre conversas recheadas de lições e afetos.

“Se viver é uma arte, Mima é Picasso”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 53)

Temos ainda Sam a melhor amiga de Salvador. Os dois se conhecem desde muito pequenos, moram perto um do outro e compartilham de tudo. Uma amizade de irmãos. E há também Fito, que estuda no mesmo colégio que eles e enfrenta grandes batalhas: ele é filho de uma mãe viciada em drogas e é um jovem gay.

“Eu simplesmente não entendia o coração humano. O coração de Fito deveria estar partido. Mas não estava”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 74)

Há muitos outros personagens ao longo da narrativa, mas tendo conhecido estes é possível ter uma boa dimensão do que se passa, uma vez que cada um deles carrega uma grande carga de sentimentos e imprevistos que afetam, também, o nosso narrador.

“Lembrei da tempestade da noite anterior. Uma havia terminado; outra estava começando”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 133)

O livro está dividido em seis partes, uma mais supreendente que a outra. No início de cada parte sempre há uma frase ou parágrafo que sintetiza o que ocorrerá a seguir, nos ajudando a ter uma dimensão do que se passa na história sem dar spoillers. Vejamos:

  • Parte um: Talvez eu sempre tenha tido uma ideia errada sobre quem eu realmente era.
  • Parte dois: Tínhamos tanta certeza de nós mesmos, mas agora estávamos perdidos.
  • Parte três: De certo modo, por ela estar com as emoções à flor da pele, aquilo me ajudava a não ir pelo mesmo caminho. Não fazia sentido algum, mas o que eu e Sam compartilhávamos… Bom, tinha uma lógica própria.
  • Parte quatro: Talvez a vida fosse assim. Ir e voltar, depois acordar todas as manhãs e ir e voltar um pouco mais.
  • Parte cinco: Estradas são lisas e asfaltadas, e têm placas que dizem para que lado se deve seguir. A vida não é nada parecida com uma estrada.
  • Parte seis: À distância, é possível ver uma tempestade se formando: as nuvens escuras e os relâmpagos no horizonte vindo na minha direção. Eu espero, espero e espero pela tempestade. Quando ela chega, a água da chuva leva com ela os pesadelos e as lembranças. E eu não tenho medo.

Este livro consegue abordar de maneira simples, leve e deliciosa temas como preconceito, medo, amor, incertezas, amizade, união, perda, crescimento, aceitação… Fala sobre a vida, se quisermos ser sintéticos.

“Há dias em que acontecem coisas ótimas, e tudo é lindo e perfeito, e, do nada, tudo pode ir direto para o inferno”

A lógica inexplicável da minha vida (pg. 331)

Além disso, Salvador nos ensina que mesmo as pessoas que têm uma vida aparentemente perfeita – um pai legal, boas condições financeiras, amigos queridos, uma família bacana – podem viver grandes conflitos internos, afinal o “sentimento” é algo comum a todos os seres humanos. Bem como o amor. E é por amar cada pessoa do bem que o cerca que Salvador sofre tanto.

“Talvez tudo parecesse normal superficialmente. No interior, bem, havia sempre algum tipo de furacão”

A lógica inexplicável da minha vida (pg.267)

Eu perdi a conta de quantas vezes usei a palavra “sentimento” nesta resenha, mas é que A lógica inexplicável da minha vida definitivamente fala direto com nossos corações. Vem conferir com seus próprios olhos:

Enclausurado – Ian McEwan

Título: Enclausurado
Original: Nutshell
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 199
Ano: 2016 (1º edição)
Tradução: Jorio Dauster

Leia as primeiras linhas de Enclausurado e você talvez pense “Machado de Assis!”. Isso porque o narrador desta história é um feto. Sim, o extremo oposto de um defunto-autor, mas ainda assim, algo bem Machadiano. E mais: trata-se de um narrador irônico, esperto, observador do mundo à sua volta. Ian McEwan, no entanto, não foi tão longe para se inspirar, fazendo referências mais claras à Hamlet, de seu conterrâneo Willian Shakespeare.

“Deus disse: que seja feita a dor. E depois se fez a poesia”

Enclausurado (pg. 53)

Os três primeiros capítulos trazem uma apresentação  dos personagens centrais desta trama: no primeiro conhecemos Truddy, a mãe do narrador, depois somos apresentados a John Cairncross, que é o pai e, por fim, a Claude, uma figura não muito querida aos olhos do feto. Além disso, o próprio narrador vai se apresentando ao longos destes capítulos iniciais.

“Éramos capazes de perdoar todas as pessoas que conhecíamos. Nosso amor era pelo bem do mundo”

Enclausurado (pg. 76)

Parece uma história fácil de ler: o livo é pequeno, a leitura flui bem. Mas não nos enganemos: Enclausurado nos apresenta um grande domínio narrativo do autor, que mescla temas relativamente atuais com questões filosóficas e existenciais. O próprio narrador, por exemplo, antes mesmo de nascer, vive o dilema da vida e da morte.

“Por que o mundo se organiza de forma tão cruel?”

Enclausurado (pg. 41)

Além disso, por estar ainda na barriga de sua mãe, o narrador não tem como conhecer por inteiro os personagens de sua história, construindo-os com o leitor.

“Por mais perto que estejamos das pessoas, nunca se pode penetrar nelas, mesmo quando se está dentro de uma”

Enclausurado (pg. 119)

A história em si é praticamente um romance policial: Truddy e John estão separados, mas ele ainda a ama. E muito. Ela, no entanto, já possui um novo amor (ou uma relação por interesse?) e planeja coisas terríveis. As relações todas, aliás, são muito ambíguas e o final não nos ajuda a esclarecê-las, uma vez que é bem aberto.

“Já é claro para mim quanto da vida é esquecido mesmo enquanto acontece”

Enclausurado (pg. 166)

Enclausurado é, portanto, um livro rápido de ler, mas ao mesmo tempo denso. Um livro chocante e, ao mesmo tempo, realista. Um livro para quem busca uma leitura curta, mas que faça refletir.

Noturnos – Kazuo Ishiguro

Título: Noturnos: histórias de música e anoitecer
Original: Nocturnes: five stories of music and nightfall 
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 210
Ano: 2017 (2º edição)
Tradução: Fernanda Abreu

(para ler ao som de Oh, you crazy moon – Chet Baker)

Esteticamente falando, Noturnos é lindo: capa azul, bordas das páginas na mesma cor, pássaros desenhados na capa, com um lindo violino. No entanto (e para a nossa sorte) o livro vai muito além desta beleza exterior, nos trazendo cinco contos protagonizados por instrumentistas e amantes da música e escritos em linguagem coloquial, fácil de ler e de se apaixonar.

Antes de falar sobre os contos, no entanto, vale a pena tentar entender o título do livro: na linguagem musical, um “noturno” é uma música clássica que reproduz estados de espírito únicos e extremamente líricos e que, originalmente, deveriam ser executadas em eventos sociais que ocorriam a noite, ao ar livre. A ambientação dos contos de Ishiguro não são exclusivamente noturnas, uma vez que os músicos tocam em diversos momentos do dia. Mas há o lirismo dos “noturnos” e os estados de espírito únicos.

O primeiro conto do livro chama-se Crooner. Com ele já pude aprender várias coisas sobre o mundo da música que, mesmo sendo uma de minhas paixões, eu desconhecia: crooner, por exemplo, é um cantor ou cantora de música popular que canta com uma orquestra ou conjunto instrumental. Além disso, o crooner que aparece nesta história é real: Tony Gardner (e eu nunca havia escutado nada sobre ele…).

Neste conto conhecemos o jovem músico Jan, cuja mãe era apaixonada por Tony Gardner. Numa bela tarde, enquanto Jan toca em uma praça de Veneza, ele avista Tony Gardner e decide ir conversar com ele. A partir disso Jan descobre muitas coisas: conhece Lindy Gardner, esposa de Tony; ouve um pouco mais da história de ambos; descobre que Tony já não é mais o mesmo sucesso de antes. Um conto sobre fama, amor, fins e recomeços.

Em Chova ou faça sol Raymond, que dá aulas de música na Espanha, decide visitar seus amigos de faculdade, Emily e Charlie, em Londres. Ao chegar lá, porém, vê-se diante de um casal em crise que quer usá-lo para demonstrar que existem outros tipos de fracasso na vida. Um conto cheio de intrigas, rancores, segredos e mágoas.

Malvern Hills começa ambientado em Londres, mas logo passamos para Malvern Hills, no interior da Inglaterra, onde o narrador, um músico iniciante decide se refugiar para compor mais algumas músicas. Para isso, no entanto, ele hospeda-se na casa de sua irmã, Maggie e seu cunhado, Geoff e os ajuda no café que possuem. Ali ele conhece Tilo e Sonja, que lhe causa uma péssima primeira impressão. Mais tarde, porém, este jovem músico encontra novamente Tilo e Sonja e os três conversam de igual para igual: todos ali são músicos. Um conto sobre inspiração, preconceito e, novamente, amor.

Noturno, além de ser um conto com o título muito parecido com o do livro é, também, o conto mais extenso de todos, além de ser o mais cheio de aventuras, altos e baixos, confusões. Aqui um saxofonista acaba se rendendo à ideia de fazer uma plástica facial em Beverly Hills para poder, finalmente, estar entre os melhores da música. Durante o período de recuperação ele conhece ninguém menos que Lindy Gardner (sim, a mesma do primeiro conto!) e então muitas coisas malucas começam a acontecer. Um conto sobre  aceitação, sucesso e aparências.

O último conto, Celistas, nos conta sobre quando Tibor, um músico em início de carreira, conhece uma americana que se considera uma virtuose. Pois bem, fui (novamente) pesquisar e, na música, a virtuose está relacionada ao excepcional domínio técnico desta arte. A tal moça americana, no entanto, possuia muito deste talento técnico, mas pouco tocava de verdade. Ainda assim, ela conseguiu ajudar Tibor. Um conto sobre amizade, influências e talento.

Apesar de histórias independentes, os contos carregam algumas semelhanças ou proximidades entre si: os finais, por exemplo, são bem abertos, deixando muito espaço para que nossa imaginação complete a história; a música que aparece nas histórias muitas vezes é o jazz (tanto é que o nome de Chet Baker aparece em todas elas) ou algum outro tipo de música considerado mais clássico; as narrativas não são exatamente felizes, ainda que consigam ter um toque de leveza e graça.

Noturnos foi um livro que, apesar da rápida leitura, me fez pensar sobre as histórias e me fez pesquisar e conhecer muitas coisas sobre o mundo da música. Para quem ama ler e ama música é, sem dúvidas, um prato cheio. Mas também não é um livro restrito somente a este público, graças à sua linguagem e narrativas que prendem. Ficou com vontade de ler? Então clica aqui: