Neros — Mila Maia

Título: Neros 
Autora: Mila Maia
Editora: Publicação independente
Páginas: 24
Ano: 2017

Sinopse

Éramos os únicos.

O destino do nosso planeta dependia de nós.

Se estivéssemos juntos seria mais fácil, porém fomos separados logo que chegamos aqui, e agora tentávamos nos adaptar nesse planeta estranho.

A Terra.

Graças à minha habilidade conseguia lembrar de tudo, mas duvidava que ele se lembrasse de qualquer coisa.

Precisava encontrá-lo e arrumar um jeito de voltarmos para Neros, era a única maneira de continuarmos vivos.

Só tínhamos três dias para deter Hunter antes que ele acabasse com tudo.

Resenha

Não é só pelo fato de se tratar de um conto que a leitura de Neros é rápida, mas também porque a história em si — ainda que breve — nos prende e instiga.

“John e eu éramos os últimos sobreviventes do nosso planeta, e tentávamos agora nos adaptar nesse planeta estranho”

A Terra não é mais o que conhecemos e é nesse planeta estranho que os protagonistas desta história aterrisam.

“Era notável a falta de afeto que as pessoas desse mundo tinham um com o outro, eles não se tocavam ou falavam, se ignoravam constantemente”

Em Neros, as pessoas têm poderes especiais. Ao menos, a maioria. E não ter poderes – ou dependendo do poder que se tem — é possível que aconteça aquilo que, infelizmente, acontece muito por aqui também: o preconceito

“Quando Norah havia sentido Hunter se aproximando, ela teve uma visão onde nós dois salvaríamos toda a Neros da destruição. Ao revelar isso para os meus pais, eles se mostraram surpresos, afinal, meu poder não era extraordinário, era até comum, porém ele salvaria nosso planeta”

Mas está história é também sobre isso: sobre como cada pessoa, com seu jeito único, pode ser essencial

“Graças a minha super inteligência e telecinese, conseguia descobrir tudo sobre qualquer coisa ou pessoa, e também movimentá-las, sem qualquer interação física. Essa era a minha habilidade, todos em meu planeta tinham habilidades especiais”

Além disso, nas poucas páginas desta história, mergulhamos em uma narrativa de autoconhecimento e com pitadas de romance.

“Quando estávamos um com o outro nos sentíamos normais, não tínhamos defeitos e o mais importante, não julgávamos um ao outro”

Uma ótima leitura para realizar rapidamente e, ao mesmo tempo, deixar a cabeça fervilhando de ideias.

“Hunter destruiria tudo o que ainda restava de Neros se eu não estivesse lá para impedir, precisava manter nosso planeta vivo, mas só tinha setenta e duas horas, esse era o tempo que levaria para ele devorar todo o planeta”

Infelizmente, a obra não está mais disponível, mas siga a autora em suas redes sociais para conhecer outros livros dela.

O quarto branco — P. Barbosa

Título: O quarto branco 
Autor: P. Barbosa
Editora: Publicação independente
Páginas: 29 
Ano: 2013

Sinopse

«Fiquei por ali, gritando o mais alto que podia, em aflição, que precisava de um caminho, de um rumo e de uma direcção, mas como não havia paredes onde o som pudesse ressoar as palavras iam e nunca voltavam. Era incapaz de me ouvir, e só sabia que estava a gritar pela trepidação dos meus ossos que sentia do esforço sobre-humano que fazia. E fiquei naquilo milhares de vezes repetindo, ou milhões ou biliões, pois nunca as contei, até que me calei por meu próprio convencimento.

Tal era a soberba ou a surdez do dono daquele lugar.»

***

«Agarrei-me a ela e ela a mim, e assim ficámos, agarrados, um ao outro, apertados por uma vontade férrea, acontecesse o que acontecesse.

— Não te quero perder. — disse-lhe. Ela soluçou e agarrou-se a mim ainda com mais força.

— Odeio este mundo e o outro. — disse-me, enquanto chorava — A felicidade não tem sítio para viver.»

***

«O homem anseia por conquistar a luz e evitar as trevas. Para mim, não há diferença entre as duas.»

Resenha

O quarto branco é uma daquelas leituras rápidas, mas que aos poucos vai revelando ir muito além do que se imagina.

“Para quê abandonar o lugar que nos oferece tudo o que se quer ter?”

Através de metáforas — principalmente a do quarto branco — a obra nos faz refletir sobre o que está (ou não) em nossa mente e sobre as armadilhas que criamos através do nosso pensamento.

“Senti-me enterrado num poço branco, que tanto podia ser branco como escuro como breu, pois quando se tem apenas uma cor para olhar é como estar cego e não ter cor nenhuma para ver”

O protagonista desta história encontra-se num lugar que, aos poucos, vai se revelando, como nossa mente, quando gradualmente vai se desfazendo de pensamentos negativos.

“Chegará o dia em que as dores de hoje serão olhadas com nostalgia e alegria. E depois tudo passará”

Conforme as coisas boas vão sendo sentidas, novos personagens surgem junto à luz.

“O problema dos horizontes do pôr-do-sol é que eles forjam o mundo numa esfera que gira sem sair do lugar”

Mas claro: perfeição não existe e mesmo quando se compreende o que nos move, ainda há algo que nos paralisa.

“O homem anseia por conquistar a luz e evitar as trevas. Para mim, não há diferença entre as duas”

Escrito em português europeu — o que meu causou menos estranhamento do que eu esperava — O quarto branco vai te tirar da zona de conforto com uma leitura rápida e profunda. 

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Catarina — Bruna Paquier Cestari

Título: Catarina: bolos, amores e outras delícias. 
Autora: Bruna Paquier Cestari
Editora: Publicação independente
Páginas: 32
Ano: 2021

Sinopse

Catarina era uma garota como todas as outras. Ou pensava ser até o dia em que os sentimentos começaram a crescer em seu peito e ela precisou tomar uma decisão sobre aquela garota. É claro que o melhor jeito de tirar tudo isso à limpo era com morangos, conversas e muitos deslizes. Não tinha como dar errado… tinha?

Resenha

Qualquer pessoa que conviveu minimamente comigo no último ano deve desconfiar porque eu não poderia deixar de me interessar por esse título.

Comecei a leitura, porém, sem saber muito o que esperar. E me surpreendi com uma leitura rápida e leve, ainda que tenha seus momentos de tensão e traga uma temática nem sempre fácil de retratar.

“Não havia dúvidas, Catarina tinha o pior dos males”

Catarina, como qualquer adolescente, só queria ser uma garota normal. Mas nada em sua vida era simples assim. Nem mesmo sua casa era exatamente uma casa: Catarina vivia em um abrigo.

“No fim, Catarina só queria ser normal, tirar notas boas como seus colegas, brincar na quadra antes de voltar para casa e, principalmente, gostar de algum menino”

O seu maior problema (e medo), no entanto, foi perceber que gostava de meninas. Mais do que isso: que sentia algo por Nina, a linda garota que sentava atrás dela na escola.

“Aqueles sentimentos a levaram para a beirada de um poço profundo de mágoas”

Sem saber se era correspondida ou não — e tendo quase certeza de que não — um dia Catarina reuniu toda a sua coragem — e um punhado de morangos — e decidiu falar com Nina.

“Mas ao mesmo tempo era bom, era muito bom. Queria continuar, queria se jogar naqueles sentimentos, mergulhar nas cores, se pintar de todas elas”

Mas claro que as coisas não poderiam ser fáceis e essa conversa foge totalmente do esperado por Catarina, ainda que ela nem sonhasse em esperar o melhor.

“Agora a menina que inspirava todas aquelas cores, trazia o cinza e o preto”

Como eu disse, a história é bem curtinha (na medida certa), mas escrita de maneira que nos aproxima da protagonista e seus (confusos) sentimentos.

“Já tinha doído muito e temia que fosse doer ainda mais”

Com uma narrativa em terceira pessoa e uma diagramação lindinha, a leitura é bem agradável e vai te propiciar uma boa horinha literária.

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Citações #52 — Uma noite inesquecível

Não sei se você chegou a ler a resenha de Uma noite inesquecível, escrito por Adrielli Almeida e publicado em 2021, de forma independente. Caso o tenha feito, deve ter percebido que me encantei com essa história e, por isso, agora trago aqui mais alguns trechinhos dela, para você saborear e ficar com ainda mais vontade de ler também.

Como dito na resenha, o dia da formatura de Darin Moon sai totalmente daquilo que ele planejara e imaginara. E tudo isso começa com um belo pé na bunda.

“Agora, segurando as flores no batente da porta de um lugar no qual não iria entrar, vendo uma namorada que não era mais a dele, Darin se sentia… um completo idiota”

“Por quase nove meses, ela foi Dora para ele. Agora era a causa do coração partido dele”

Mas outra coisa que fica clara é que o pé na bunda é apenas o começo. Porque Darin não poderia imaginar que havia muito mais por vir naquela noite.

“Foi como se aquele garoto tivesse acabado de roubar uma batida do coração dele”

E, para tais acontecimentos, não podemos deixar de mencionar Camilo, o exato oposto de Darin.

“Ao contrário de Camilo, Darin desfilou debaixo de holofotes o tempo todo”

“Camilo percebeu que realmente gostava de coisas bonitas”

“Camilo abriu um sorriso que poderia iluminar toda aquela maldita cidade”

Uma noite inesquecível é uma breve história de amor, mas é também uma narrativa carregada de outros sentimentos.

“Ele detestava chorar. Detestava que prestassem atenção nele em momentos tão… frágeis. Era como estar nu. Era como estar nu usando tênis”

“Volte quando se apaixonar, Darin. Dói na mesma medida que alivia”

Um assunto que não é central, mas que também chamou minha atenção na leitura, são as relações familiares ali construídas e descritas.

“Cadu e Camilo, por mais que não parecessem, eram família”

“Eu não tenho irmãos — Camilo disse, dando de ombros. — Mas Cadu… Cadu é isso para mim. Eu acho”

Se quiser saber o que mais essa história guarda (e são muitos os seus mistérios), não deixe de clicar aí embaixo.

Para o garoto que já tem tudo — Leblon Carter

Título: Para o garoto que já tem tudo
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação Independente
Páginas: 49
Ano: 2021

O Natal está batendo à porta e — juro! — por coincidência a resenha de hoje é justamente sobre um conto natalino que, aliás, li sem sequer imaginar que tinha relação com a temática (como eu conhecia o autor, peguei sem nem ler a sinopse, confesso, até porque o título já tinha chamado a minha atenção).

Você costuma fazer desejos nesta época? Não só de metas para o ano que está por vir, mas também de coisas que gostaria de ter ou alcançar? Pois aqui vai um lembrete sempre válido: cuidado com o que você deseja! Mas o que isso tem a ver o conto? Calma que eu te explico.

“‘Quando acreditar que tudo está perdido e ao seu redor só há escuridão, olhe mais fundo. Talvez a luz que procure esteja dentro de você. E, mesmo que não esteja, não se preocupe. Não se precisa de luzes quando se é uma estrela’”

Emílio (ou Milo) é o garoto que já tem tudo. Ou quase. Ele mora em uma casa de quatro andares e todo dia seu motorista vai buscá-lo — dirigindo uma limusine — na escola caríssima em que estuda.

“Lembram quando falei sobre o número de andares representar superioridade? Então…minha casa tem quatro. A maior de todo o bairro. Mas não é por superioridade. Minha mãe diz que, para pessoas pretas, quatro andares é a mesma coisa que dois para pessoas brancas. Ou seja, não estamos no topo. Estamos igualados. Mesmo que igualdade seja bem controversa hoje em dia”

Mas já diria aquele velho ditado: dinheiro não é tudo na vida. E Milo sabe que está bem longe de ter tudo. Ao menos tudo o que deseja. Na escola, por exemplo, ele e seu melhor amigo, Yong Soon, são excluídos, sendo vítimas de racismo, xenofobia, bullying.

“Ei, Pastel de Flango! – o tom debochado de sua voz nos fez criar uma expressão de antipatia e constrangimento. – Você vai conseguir entregar aquela “coisa” – sussurrou bem próximo ao Yong”

Além disso, Milo — e todo o resto de sua classe — é apaixonado por Maria, que o despreza. Mas isso não o impede de fazer o possível para tirá-la no amigo secreto de final de ano e, assim, poder presenteá-la.

E engana-se quem pensa que a falta do amor de Maria é o único que machuca nosso protagonista: ele também se sente muito sozinho em casa, tendo pais extremamente ausentes, mas que também querem determinar para ele um futuro que talvez não seja exatamente o que ele deseja.

“Às vezes pode parecer que eu sou o garoto que já tem tudo: móveis lustrados, limusines espaçosas e uma casa gigantesca. Mas, quando vejo momentos iguais esse da foto do Yong com a mãe, é como se eu não tivesse nada. A simplicidade parecia me atrair mais”

E foi em uma noite solitária e reflexiva que Milo viu uma estrela cadente e fez o seu pedido. Um pedido que mudou o seu dia seguinte, trazendo revelações que ele não poderia esperar.

“Um vislumbre azulado surgiu no céu. Estrela cadente; pensei. A primeira vez em que via uma com meus próprios olhos. Normalmente deveríamos fazer um pedido. Desejar algo que nosso coração sempre ansiou, mas nunca teve”

A leitura desse conto é super rápida e envolvente. A cada página que viramos fica aquele gostinho bom de “o que mais será que está por vir?”. E os personagens cativam, deixando a história ainda mais emocionante.

“As pessoas costumavam sorrir somente pelos lábios, mas ele não”

Se você já está em clima natalino ou se preparando para entrar, recomendo esse conto. Uma história com representatividade, para esquentar nossos corações e também nos fazer refletir.

Alguma coisa acontece — Mariana Chazanas

Título: Alguma coisa acontece
Autora: Mariana Chazanas
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 60
Ano: 2014

Lembra daquela viagem pelo Brasil, com a Duplo Sentido Editorial? Se não sabe do que estou falando, clique aqui. Nós finalmente chegamos ao Sudeste e começamos por ninguém menos que ela, a minha cidade do coração: São Paulo.

“Aqui, parece que você pode ser qualquer coisa. Você pode fazer o que quiser e nunca vai ser a pessoa mais esquisita da rua”

Eu estava ansiosa por esse conto, porque uma coisa é ler sobre lugares que não conheço ou então que visitei em algum momento da vida, mas outra coisa totalmente diferente é ler sobre o lugar que nasci e cresci. Queria muito saber como São Paulo seria retratada e já adianto: amei! Mas leia até o final para entender porque.

“Essepê é uma cidade que engole tudo. Sotaques, rios, culinária, receitas de pizza”

Mesmo tendo nascido e crescido aqui, consigo entender o medo e o deslumbre experimentados por Gabriel, o protagonista que vem de uma pequena cidade do interior, pronto (ou não) para desbravar essa grande selva urbana.

“Bem, era a primeira noite de sua viagem. Possivelmente a primeira noite do resto de sua vida”

Foi impossível não sorrir lendo Alguma coisa acontece. São diversos trechos que retratam tão bem São Paulo e que talvez deixem quem não a conhece pensando “mas isso é possível?”. Spoiler: provavelmente sim, pois não vi nada absurdo na narrativa! *emoji de risos nervosos*.

“— Vocês enterraram um rio?
— Eu pessoalmente, não. Mas, sim, enterramos, tipo, um monte”

Apesar dos sorrisos, esse conto também me deixou nostálgica, fazendo-me revisitar lugares que já foram tão cotidianos e que hoje parecem pertencer a outra vida. Senti saudade da São Paulo que não vejo há quase dois anos, mesmo ainda morando aqui. Mas vamos olhar para o lado bom, né? Isso só vem reforçar o quanto o conto é bem escrito e como a narrativa é gostosa de ler (e é mesmo).

“E, ali, aprendeu a terceira coisa: a estação da Consolação não dava na Rua Consolação”

Claro que a história não gira somente em torno da cidade, mas também da relação que está sendo construída entre Gabriel e Elliot, filho de uma amiga da mãe de Gabriel e que deveria recebê-lo, mesmo que os dois ainda não se conhecessem (e parecessem não fazer questão de se conhecer).

“Tinha energia ali, estalando nos ouvidos, fazendo a pele do garoto se arrepiar”

Aliás, Elliot deveria ter ido buscar Gabriel na rodoviária e não o faz. Mas, aos poucos, vamos entendendo o que aconteceu e percebendo mais uma característica de São Paulo: a cidade que pode ser assustadora até mesmo para quem sempre viveu nela.

“Ele pediu informação numa banca de jornal que parecia mais uma lojinha de doces, brinquedos e suvenires para turistas”

Por último, gostaria de destacar um trecho que ri muito lendo, porque eu juro que sempre imaginei isso (o que reforça meu senso de identificação com essa texto):

“Principalmente se você estivesse na estação da Luz, imensa, labiríntica e tão organizada que o garoto não se surpreenderia se alguma pessoa sinalizasse com seta e buzina quando quisesse sair do fluxo”

Se você não é de São Paulo, indico este conto para que você tenha um gostinho da cidade. E se você é de São Paulo, indico este conto para que você revisite lugares e reflita sobre o local em que vivemos, além de aprender um pouco mais. Ou seja: indico esse conto para qualquer pessoa que tenha uma mínima curiosidade sobre São Paulo.

“O lugar podia ser antigo e podia ter uma história interessante, mas por enquanto o caminho consistia basicamente em prédios feios alternados com prédios menos feios”

Não deixe de conferir também os posts anteriores da série Meu Brasil é assim:

Ah, e se você não pegou a referência do título deste conto, não deixe de ouvir Sampa:

E se eu pudesse voltar no tempo? — Marie Pessoa

Título: E se eu pudesse voltar no tempo?
Autora: Marie Pessoa
Editora: Publicação independente
Páginas: 45
Ano: 2021

Você provavelmente já pensou “e se eu pudesse voltar no tempo?”. Nos últimos meses, talvez mais do que nunca. Mas este conto da autora Marie Pessoa carrega outros tantos momentos de reconhecimento de alguma situação que já vivemos ou de algo que sentimos.

“Em alguns dias seria a nossa formatura e eu não via a hora de entrar na faculdade para esquecer o período escolar”

Clarice é uma jovem que está se formando no ensino médio e sua infância e adolescência foram permeadas de dificuldades. Sendo filha da “tia da faxina”, ela teve a oportunidade de estudar em uma boa escola particular, o que poderia lhe permitir um bom futuro, mas também muitos percalços nos anos escolares.

“No entanto, demorei para entender que não era sua culpa o bullying e as constantes ameaças sofridas naquele lugar”

Não bastasse isso, as dificuldades de sua vida também deviam-se ao fato dela não estar dentro dos padrões estéticos impostos pela sociedade e também por ser não ter pai.

“Aprendi desde cedo que uma família era composta por um homem e uma mulher, e quando o amor era demais, surgiam crianças. Então, era muito triste a ideia de não fazer parte de uma família ‘de verdade’”

As coisas começam a melhorar um pouco, porém, quando ainda pequena, ela conhece Sofia, que apesar de ser quase seu oposto, tem ao menos algo em comum: o fato de não ter pai. Mas, para além disso, Sofia tem um enorme coração e elas logo se tornam grandes amigas.

“Às vezes, quando me imaginava em um filme, reparava em como a nossa amizade parecia indestrutível. Nada poderia nos separar”

Para Clarice, porém, esse sentimento acaba ganhando uma força ainda maior, o que, claro, acaba deixando-a muito confusa.

“E, mais profundo do que nossa amizade, eu a amava tanto que em muitos momentos duvidava da força do sentimento”

E se eu pudesse voltar no tempo? é uma história que nos suga para dentro de suas palavras; uma narrativa que nos faz recordar nossa adolescência, nossas descobertas. É, ainda, um conto capaz de nos fazer sentir, torcer, querer. Querer voltar no tempo, mas também seguir em frente, tirando força de onde não sabemos que podemos tirar.

“Sofia sabia viver, e eu precisava apenas de mais alguns momentos com ela para aprender também”

Esta é uma obra que eu indico a quem precisa sentir um abraço amigo ou então acreditar numa segunda chance. É também uma história para quem só quer se libertar de uma dor, um peso, uma saudade, algumas lembranças de um passado que já ficou para trás.

“Eu me sentia, enfim, grata pela oportunidade, independente do sofrimento. Aquilo era passado, em breve daria início a um novo momento da minha vida”

Uma vez mais fui presenteada com a escrita da autora Marie Pessoa, que a cada novo lançamento me surpreende com seu talento e sua força. Obrigada por mais essa história que tanto me ensinou, Marie!

E para quem nunca leu nada dela, já deixo aqui essas duas obras incríveis:

Quando a neve cair — Thaís Bergmann

Título: Quando a neve cair
Autora: Thaís Bergmann
Editora: Duplo Sentido
Páginas: 43
Ano: 2021

Segunda parada da nossa viagem pelo Brasil: Santa Catarina! Se você chegou aqui agora e não sabe de que viagem estou falando, não deixe de conferir esse post aqui. E antes de contar sobre a história da vez, quero contar da minha relação com Santa Catarina.

Visitei, apenas uma vez na vida, Florianópolis. E isso foi lá em 2013, um pouco depois de prestar vestibular Eram umas merecidas férias de janeiro e fiz essa viagem turística, com meus pais. Ficamos mais pelo hotel mesmo, mas em um dos dias, fizemos uma volta pela ilha.

Se eu fosse hoje para lá, a experiência seria muito diferente, sem dúvidas! Agora eu teria a possibilidade de conhecer pessoalmente muitas pessoas que conheci, nesse último ano, através das telas e, com certeza, aproveitaria ainda mais cada momento e conheceria muitos outros lugares.

Esse contato com tantas pessoas de Santa Catarina têm me ensinado muito, mesmo que elas provavelmente nem se deem conta disso. E acredito que esse aprendizado tornou a minha experiência de leitura desse conto ainda mais especial e divertida.

Quando a neve cair não se passa em Florianópolis, mas na Serra Catarinense. Camila, a protagonista, tem apenas 16 anos e está hospedada, com seus pais, em um hotel fazenda em Urubici. Eles estão ali não apenas para aproveitar o final de semana em grande estilo, mas também pelas notícias de que nevaria por lá.

A verdade é que eles sabem bem o que é a “neve” da Serra Catarinense, mas é evidente que Camila e sua família adoram aquele lugar e o passeio em si. A paixão de Camila, porém, fica ainda mais evidente quando ela conhece Hugo, um rapaz da sua idade, que também está ali com os pais, mas pela primeira vez e ansioso por ver neve!

“A afirmação me pega um pouco de surpresa porque nenhum catarinense chega aos dezesseis anos sem ter subido a serra pelo menos uma vez na vida. Ainda mais que, pelo “s” bem puxado, parecendo com o som de “x”, é óbvio que ele é manezinho da ilha, e Florianópolis fica ainda mais perto de Urubici do que Imbituba, de onde eu sou!” 

Este conto, porém, não é apenas uma história sobre “a neve na serra catarinense” — aliás, esse é quase um detalhe na história — mas sobre amor. Contudo, não se trata de uma mera narrativa melosa e de contos de fadas. Muito pelo contrário, para ser sincera!

Apesar de nova, Camila já sofreu uma bela desilusão amorosa, então mesmo sentindo um belo frio na barriga por ver — e conversar! — um rapaz tão bonito e simpático, ela tenta, a qualquer custo, se manter racional. Claro, ela acaba falhando em alguns momentos, mas tendo a certeza de que aquela história duraria apenas um final de semana, Camila se mantém firme em algumas decisões suas — daquelas que nos fazem pensar: “pare de ser assim, vai aproveitar a vida!” —, para evitar se machucar novamente.

“É nesse momento que tenho certeza que não importa que a gente tenha menos do que vinte e quatro ou quarenta e oito horas juntos: jamais vou esquecer dele ou dessa viagem”

Quando a neve cair é, portanto, um conto que consegue, mesmo em sua brevidade, nos apresentar belas paisagens catarinenses, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o quanto vale realmente à pena tentar ser mais racional que sentimental, apenas para evitar um sofrimento.

Fiquei abismada com o desfecho da história, que é daqueles que acende uma luzinha em nossa cabeça, nos lembrando que a vida está aí para ser vivida e sentida. E se você quiser entender do que eu estou falando, já vem aqui garantir o seu conto.


Confira a viagem do Meu Brasil é assim através das minhas resenhas:

Antes que a morte morra — Victor Marques

Título: Antes que a morte morra
Autor: Victor Marques
Editora: Publicação independente
Páginas: 26
Ano: 2020

Imagine viver em uma cidade onde ninguém morre, porque uma corajosa senhora matara a morte? Parece muito estranho esse meu pedido? Mas é exatamente a um cenário desses que somos introduzidos em Antes que a morte morra.

Claro, porém, que nada é tão simples quanto parece, não é mesmo? E é assim que acabamos ficando tão encucados quanto o protagonista desta história, Vicente, tataraneto desta heroica senhora, Dona Laura, que enfrentara e exterminara a morte de Santa Temis, uma cidadezinha amazônica.

“Queria ter força e coragem para fugir de casa e subir num barco, remar até a próxima cidade e matar a morte, como a tataravó fez. E então seguiria para a próxima, e mais uma, até que não tivesse mais dor em nenhum canto do país”

Acho que só pelo que eu apresentei no parágrafo e no trecho acima já dá para ter uma ideia da imaginação do autor, não?

E não para por aí não! Acho que, lendo, é muito difícil não se sentir ao lado de Vicente, uma criança curiosa, tentando entender como é possível matar a morte (até porque, se nada morre, como a morte morreu?), principalmente porque seu professor dissera que isso era tudo invenção. Como seria invenção se há décadas não são registradas mortes naquela cidadezinha? Como explicar isso?

“No fim, o maior horror da humanidade continua sendo o ser humano, raça inescrupulosa, que acha que pode brincar de Deus e enganar jovens almas como a do ingênuo rapaz. Ninguém merece isso”

O conto é narrado em terceira pessoa, o que poderia não nos deixar tão próximos de Vicente (bom, ao menos alguns leitores pensam assim), mas, como eu disse, os questionamentos dele e a trama são construídos de uma forma que é difícil não querer continuar e, ao lado do pequeno, desvendar todo esse mistério.

O final, não posso negar, me deixou de queixo caído. Um desfecho que aponta para uma crítica social, ao mesmo tempo que torna toda a narrativa ainda mais palpável. E para coroar a leitura, fiquei me perguntando se a escolha do nome da cidade foi mero acaso ou caso pensado…

Se você quer conhecer o desenrolar de Antes que a morte morra, clique aqui e visite a misteriosa cidade de Santa Temis.

Eu escrevo poemas — Triz Santos

Título: Eu escrevo poemas
Autora: Triz Santos
Editora: Publicação independente
Páginas: 11
Ano: 2021

Eis que você decide ler um conto — “só 11 páginas, uma leiturinha rápida para passar o tempo” — e sai mais destruída do que quando iniciou a leitura.

Há histórias que são bonitas, mas há histórias que são ainda melhores quando lidas no momento certo. E foi o que aconteceu entre Eu escrevo poemas e eu. Literalmente, um conto que caiu do céu em meio à leituras que estavam sendo retomadas.

Na primeira linha da história conhecemos Ethan. Ele está em sua escrivaninha, aos prantos, e escrevendo… Um poema, claro. Poema este que, dentre tantos outros, foi escrito para Anthony, seu ex que nunca lerá nenhum desses versos.

“Sempre que Ethan se lembrava disso, seu peito doía e a sua respiração tornava-se escassa, enquanto se permitia chorar até não poder mais. Ele viu tudo de mais precioso que tinham se esvair diante de seus olhos, e não pôde fazer nada”

Não, Ethan não perdeu Anthony para a morte. O perdeu para a vida mesmo: sem mais nem menos, este decidiu que era hora de partir, de dizer adeus àquele relacionamento, deixando Ethan com o coração totalmente despedaçado e a mente totalmente caótica.

“E esse foi o fim. O fim de uma história de amor que ninguém jamais imaginou que um dia terminaria”

Há três anos Ethan tenta entender o que aconteceu. Há três anos Ethan vive no automático. E há três anos Ethan escreve para tentar expurgar essa dor que o consome.

“Muitas coisas foram deixadas pendentes

E eu revivo os momentos

Sempre que fecho os olhos

Como um filme

Que eu dolorosamente insisto em assistir”

Apesar de poder parecer apenas um conto extremamente dramático, Eu escrevo poemas é uma história bela, dolorosamente possível e, ao mesmo tempo, que nos faz refletir sobre a vida, sobre nossos sentimentos e a vontade ou necessidade de seguir em frente.

“Sua vida não ia para frente nem para trás, estava completamente estagnada…”

É, também, um conto para nos fazer lembrar que ciclos se fecham — repentinamente ou não —, mas que podemos (e devemos) nos permitir sentir a dor necessária, nos mostrando, porém, que também é importante buscar uma forma de contorná-la, porque ninguém quer seguir vivendo no automático, não?

Se você quiser realizar essa leitura também (e depois me contar a sua opinião, pois, como eu disse, li no momento certo, então, para mim, o impacto desta breve narrativa foi bem forte!), clique aqui.