Para o garoto que já tem tudo — Leblon Carter

Título: Para o garoto que já tem tudo
Autor: Leblon Carter
Editora: Publicação Independente
Páginas: 49
Ano: 2021

O Natal está batendo à porta e — juro! — por coincidência a resenha de hoje é justamente sobre um conto natalino que, aliás, li sem sequer imaginar que tinha relação com a temática (como eu conhecia o autor, peguei sem nem ler a sinopse, confesso, até porque o título já tinha chamado a minha atenção).

Você costuma fazer desejos nesta época? Não só de metas para o ano que está por vir, mas também de coisas que gostaria de ter ou alcançar? Pois aqui vai um lembrete sempre válido: cuidado com o que você deseja! Mas o que isso tem a ver o conto? Calma que eu te explico.

“‘Quando acreditar que tudo está perdido e ao seu redor só há escuridão, olhe mais fundo. Talvez a luz que procure esteja dentro de você. E, mesmo que não esteja, não se preocupe. Não se precisa de luzes quando se é uma estrela’”

Emílio (ou Milo) é o garoto que já tem tudo. Ou quase. Ele mora em uma casa de quatro andares e todo dia seu motorista vai buscá-lo — dirigindo uma limusine — na escola caríssima em que estuda.

“Lembram quando falei sobre o número de andares representar superioridade? Então…minha casa tem quatro. A maior de todo o bairro. Mas não é por superioridade. Minha mãe diz que, para pessoas pretas, quatro andares é a mesma coisa que dois para pessoas brancas. Ou seja, não estamos no topo. Estamos igualados. Mesmo que igualdade seja bem controversa hoje em dia”

Mas já diria aquele velho ditado: dinheiro não é tudo na vida. E Milo sabe que está bem longe de ter tudo. Ao menos tudo o que deseja. Na escola, por exemplo, ele e seu melhor amigo, Yong Soon, são excluídos, sendo vítimas de racismo, xenofobia, bullying.

“Ei, Pastel de Flango! – o tom debochado de sua voz nos fez criar uma expressão de antipatia e constrangimento. – Você vai conseguir entregar aquela “coisa” – sussurrou bem próximo ao Yong”

Além disso, Milo — e todo o resto de sua classe — é apaixonado por Maria, que o despreza. Mas isso não o impede de fazer o possível para tirá-la no amigo secreto de final de ano e, assim, poder presenteá-la.

E engana-se quem pensa que a falta do amor de Maria é o único que machuca nosso protagonista: ele também se sente muito sozinho em casa, tendo pais extremamente ausentes, mas que também querem determinar para ele um futuro que talvez não seja exatamente o que ele deseja.

“Às vezes pode parecer que eu sou o garoto que já tem tudo: móveis lustrados, limusines espaçosas e uma casa gigantesca. Mas, quando vejo momentos iguais esse da foto do Yong com a mãe, é como se eu não tivesse nada. A simplicidade parecia me atrair mais”

E foi em uma noite solitária e reflexiva que Milo viu uma estrela cadente e fez o seu pedido. Um pedido que mudou o seu dia seguinte, trazendo revelações que ele não poderia esperar.

“Um vislumbre azulado surgiu no céu. Estrela cadente; pensei. A primeira vez em que via uma com meus próprios olhos. Normalmente deveríamos fazer um pedido. Desejar algo que nosso coração sempre ansiou, mas nunca teve”

A leitura desse conto é super rápida e envolvente. A cada página que viramos fica aquele gostinho bom de “o que mais será que está por vir?”. E os personagens cativam, deixando a história ainda mais emocionante.

“As pessoas costumavam sorrir somente pelos lábios, mas ele não”

Se você já está em clima natalino ou se preparando para entrar, recomendo esse conto. Uma história com representatividade, para esquentar nossos corações e também nos fazer refletir.

Alguma coisa acontece — Mariana Chazanas

Título: Alguma coisa acontece
Autora: Mariana Chazanas
Editora: Duplo Sentido Editorial
Páginas: 60
Ano: 2014

Lembra daquela viagem pelo Brasil, com a Duplo Sentido Editorial? Se não sabe do que estou falando, clique aqui. Nós finalmente chegamos ao Sudeste e começamos por ninguém menos que ela, a minha cidade do coração: São Paulo.

“Aqui, parece que você pode ser qualquer coisa. Você pode fazer o que quiser e nunca vai ser a pessoa mais esquisita da rua”

Eu estava ansiosa por esse conto, porque uma coisa é ler sobre lugares que não conheço ou então que visitei em algum momento da vida, mas outra coisa totalmente diferente é ler sobre o lugar que nasci e cresci. Queria muito saber como São Paulo seria retratada e já adianto: amei! Mas leia até o final para entender porque.

“Essepê é uma cidade que engole tudo. Sotaques, rios, culinária, receitas de pizza”

Mesmo tendo nascido e crescido aqui, consigo entender o medo e o deslumbre experimentados por Gabriel, o protagonista que vem de uma pequena cidade do interior, pronto (ou não) para desbravar essa grande selva urbana.

“Bem, era a primeira noite de sua viagem. Possivelmente a primeira noite do resto de sua vida”

Foi impossível não sorrir lendo Alguma coisa acontece. São diversos trechos que retratam tão bem São Paulo e que talvez deixem quem não a conhece pensando “mas isso é possível?”. Spoiler: provavelmente sim, pois não vi nada absurdo na narrativa! *emoji de risos nervosos*.

“— Vocês enterraram um rio?
— Eu pessoalmente, não. Mas, sim, enterramos, tipo, um monte”

Apesar dos sorrisos, esse conto também me deixou nostálgica, fazendo-me revisitar lugares que já foram tão cotidianos e que hoje parecem pertencer a outra vida. Senti saudade da São Paulo que não vejo há quase dois anos, mesmo ainda morando aqui. Mas vamos olhar para o lado bom, né? Isso só vem reforçar o quanto o conto é bem escrito e como a narrativa é gostosa de ler (e é mesmo).

“E, ali, aprendeu a terceira coisa: a estação da Consolação não dava na Rua Consolação”

Claro que a história não gira somente em torno da cidade, mas também da relação que está sendo construída entre Gabriel e Elliot, filho de uma amiga da mãe de Gabriel e que deveria recebê-lo, mesmo que os dois ainda não se conhecessem (e parecessem não fazer questão de se conhecer).

“Tinha energia ali, estalando nos ouvidos, fazendo a pele do garoto se arrepiar”

Aliás, Elliot deveria ter ido buscar Gabriel na rodoviária e não o faz. Mas, aos poucos, vamos entendendo o que aconteceu e percebendo mais uma característica de São Paulo: a cidade que pode ser assustadora até mesmo para quem sempre viveu nela.

“Ele pediu informação numa banca de jornal que parecia mais uma lojinha de doces, brinquedos e suvenires para turistas”

Por último, gostaria de destacar um trecho que ri muito lendo, porque eu juro que sempre imaginei isso (o que reforça meu senso de identificação com essa texto):

“Principalmente se você estivesse na estação da Luz, imensa, labiríntica e tão organizada que o garoto não se surpreenderia se alguma pessoa sinalizasse com seta e buzina quando quisesse sair do fluxo”

Se você não é de São Paulo, indico este conto para que você tenha um gostinho da cidade. E se você é de São Paulo, indico este conto para que você revisite lugares e reflita sobre o local em que vivemos, além de aprender um pouco mais. Ou seja: indico esse conto para qualquer pessoa que tenha uma mínima curiosidade sobre São Paulo.

“O lugar podia ser antigo e podia ter uma história interessante, mas por enquanto o caminho consistia basicamente em prédios feios alternados com prédios menos feios”

Não deixe de conferir também os posts anteriores da série Meu Brasil é assim:

Ah, e se você não pegou a referência do título deste conto, não deixe de ouvir Sampa:

E se eu pudesse voltar no tempo? — Marie Pessoa

Título: E se eu pudesse voltar no tempo?
Autora: Marie Pessoa
Editora: Publicação independente
Páginas: 45
Ano: 2021

Você provavelmente já pensou “e se eu pudesse voltar no tempo?”. Nos últimos meses, talvez mais do que nunca. Mas este conto da autora Marie Pessoa carrega outros tantos momentos de reconhecimento de alguma situação que já vivemos ou de algo que sentimos.

“Em alguns dias seria a nossa formatura e eu não via a hora de entrar na faculdade para esquecer o período escolar”

Clarice é uma jovem que está se formando no ensino médio e sua infância e adolescência foram permeadas de dificuldades. Sendo filha da “tia da faxina”, ela teve a oportunidade de estudar em uma boa escola particular, o que poderia lhe permitir um bom futuro, mas também muitos percalços nos anos escolares.

“No entanto, demorei para entender que não era sua culpa o bullying e as constantes ameaças sofridas naquele lugar”

Não bastasse isso, as dificuldades de sua vida também deviam-se ao fato dela não estar dentro dos padrões estéticos impostos pela sociedade e também por ser não ter pai.

“Aprendi desde cedo que uma família era composta por um homem e uma mulher, e quando o amor era demais, surgiam crianças. Então, era muito triste a ideia de não fazer parte de uma família ‘de verdade’”

As coisas começam a melhorar um pouco, porém, quando ainda pequena, ela conhece Sofia, que apesar de ser quase seu oposto, tem ao menos algo em comum: o fato de não ter pai. Mas, para além disso, Sofia tem um enorme coração e elas logo se tornam grandes amigas.

“Às vezes, quando me imaginava em um filme, reparava em como a nossa amizade parecia indestrutível. Nada poderia nos separar”

Para Clarice, porém, esse sentimento acaba ganhando uma força ainda maior, o que, claro, acaba deixando-a muito confusa.

“E, mais profundo do que nossa amizade, eu a amava tanto que em muitos momentos duvidava da força do sentimento”

E se eu pudesse voltar no tempo? é uma história que nos suga para dentro de suas palavras; uma narrativa que nos faz recordar nossa adolescência, nossas descobertas. É, ainda, um conto capaz de nos fazer sentir, torcer, querer. Querer voltar no tempo, mas também seguir em frente, tirando força de onde não sabemos que podemos tirar.

“Sofia sabia viver, e eu precisava apenas de mais alguns momentos com ela para aprender também”

Esta é uma obra que eu indico a quem precisa sentir um abraço amigo ou então acreditar numa segunda chance. É também uma história para quem só quer se libertar de uma dor, um peso, uma saudade, algumas lembranças de um passado que já ficou para trás.

“Eu me sentia, enfim, grata pela oportunidade, independente do sofrimento. Aquilo era passado, em breve daria início a um novo momento da minha vida”

Uma vez mais fui presenteada com a escrita da autora Marie Pessoa, que a cada novo lançamento me surpreende com seu talento e sua força. Obrigada por mais essa história que tanto me ensinou, Marie!

E para quem nunca leu nada dela, já deixo aqui essas duas obras incríveis:

Quando a neve cair — Thaís Bergmann

Título: Quando a neve cair
Autora: Thaís Bergmann
Editora: Duplo Sentido
Páginas: 43
Ano: 2021

Segunda parada da nossa viagem pelo Brasil: Santa Catarina! Se você chegou aqui agora e não sabe de que viagem estou falando, não deixe de conferir esse post aqui. E antes de contar sobre a história da vez, quero contar da minha relação com Santa Catarina.

Visitei, apenas uma vez na vida, Florianópolis. E isso foi lá em 2013, um pouco depois de prestar vestibular Eram umas merecidas férias de janeiro e fiz essa viagem turística, com meus pais. Ficamos mais pelo hotel mesmo, mas em um dos dias, fizemos uma volta pela ilha.

Se eu fosse hoje para lá, a experiência seria muito diferente, sem dúvidas! Agora eu teria a possibilidade de conhecer pessoalmente muitas pessoas que conheci, nesse último ano, através das telas e, com certeza, aproveitaria ainda mais cada momento e conheceria muitos outros lugares.

Esse contato com tantas pessoas de Santa Catarina têm me ensinado muito, mesmo que elas provavelmente nem se deem conta disso. E acredito que esse aprendizado tornou a minha experiência de leitura desse conto ainda mais especial e divertida.

Quando a neve cair não se passa em Florianópolis, mas na Serra Catarinense. Camila, a protagonista, tem apenas 16 anos e está hospedada, com seus pais, em um hotel fazenda em Urubici. Eles estão ali não apenas para aproveitar o final de semana em grande estilo, mas também pelas notícias de que nevaria por lá.

A verdade é que eles sabem bem o que é a “neve” da Serra Catarinense, mas é evidente que Camila e sua família adoram aquele lugar e o passeio em si. A paixão de Camila, porém, fica ainda mais evidente quando ela conhece Hugo, um rapaz da sua idade, que também está ali com os pais, mas pela primeira vez e ansioso por ver neve!

“A afirmação me pega um pouco de surpresa porque nenhum catarinense chega aos dezesseis anos sem ter subido a serra pelo menos uma vez na vida. Ainda mais que, pelo “s” bem puxado, parecendo com o som de “x”, é óbvio que ele é manezinho da ilha, e Florianópolis fica ainda mais perto de Urubici do que Imbituba, de onde eu sou!” 

Este conto, porém, não é apenas uma história sobre “a neve na serra catarinense” — aliás, esse é quase um detalhe na história — mas sobre amor. Contudo, não se trata de uma mera narrativa melosa e de contos de fadas. Muito pelo contrário, para ser sincera!

Apesar de nova, Camila já sofreu uma bela desilusão amorosa, então mesmo sentindo um belo frio na barriga por ver — e conversar! — um rapaz tão bonito e simpático, ela tenta, a qualquer custo, se manter racional. Claro, ela acaba falhando em alguns momentos, mas tendo a certeza de que aquela história duraria apenas um final de semana, Camila se mantém firme em algumas decisões suas — daquelas que nos fazem pensar: “pare de ser assim, vai aproveitar a vida!” —, para evitar se machucar novamente.

“É nesse momento que tenho certeza que não importa que a gente tenha menos do que vinte e quatro ou quarenta e oito horas juntos: jamais vou esquecer dele ou dessa viagem”

Quando a neve cair é, portanto, um conto que consegue, mesmo em sua brevidade, nos apresentar belas paisagens catarinenses, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o quanto vale realmente à pena tentar ser mais racional que sentimental, apenas para evitar um sofrimento.

Fiquei abismada com o desfecho da história, que é daqueles que acende uma luzinha em nossa cabeça, nos lembrando que a vida está aí para ser vivida e sentida. E se você quiser entender do que eu estou falando, já vem aqui garantir o seu conto.


Confira a viagem do Meu Brasil é assim através das minhas resenhas:

Antes que a morte morra — Victor Marques

Título: Antes que a morte morra
Autor: Victor Marques
Editora: Publicação independente
Páginas: 26
Ano: 2020

Imagine viver em uma cidade onde ninguém morre, porque uma corajosa senhora matara a morte? Parece muito estranho esse meu pedido? Mas é exatamente a um cenário desses que somos introduzidos em Antes que a morte morra.

Claro, porém, que nada é tão simples quanto parece, não é mesmo? E é assim que acabamos ficando tão encucados quanto o protagonista desta história, Vicente, tataraneto desta heroica senhora, Dona Laura, que enfrentara e exterminara a morte de Santa Temis, uma cidadezinha amazônica.

“Queria ter força e coragem para fugir de casa e subir num barco, remar até a próxima cidade e matar a morte, como a tataravó fez. E então seguiria para a próxima, e mais uma, até que não tivesse mais dor em nenhum canto do país”

Acho que só pelo que eu apresentei no parágrafo e no trecho acima já dá para ter uma ideia da imaginação do autor, não?

E não para por aí não! Acho que, lendo, é muito difícil não se sentir ao lado de Vicente, uma criança curiosa, tentando entender como é possível matar a morte (até porque, se nada morre, como a morte morreu?), principalmente porque seu professor dissera que isso era tudo invenção. Como seria invenção se há décadas não são registradas mortes naquela cidadezinha? Como explicar isso?

“No fim, o maior horror da humanidade continua sendo o ser humano, raça inescrupulosa, que acha que pode brincar de Deus e enganar jovens almas como a do ingênuo rapaz. Ninguém merece isso”

O conto é narrado em terceira pessoa, o que poderia não nos deixar tão próximos de Vicente (bom, ao menos alguns leitores pensam assim), mas, como eu disse, os questionamentos dele e a trama são construídos de uma forma que é difícil não querer continuar e, ao lado do pequeno, desvendar todo esse mistério.

O final, não posso negar, me deixou de queixo caído. Um desfecho que aponta para uma crítica social, ao mesmo tempo que torna toda a narrativa ainda mais palpável. E para coroar a leitura, fiquei me perguntando se a escolha do nome da cidade foi mero acaso ou caso pensado…

Se você quer conhecer o desenrolar de Antes que a morte morra, clique aqui e visite a misteriosa cidade de Santa Temis.

Eu escrevo poemas — Triz Santos

Título: Eu escrevo poemas
Autora: Triz Santos
Editora: Publicação independente
Páginas: 11
Ano: 2021

Eis que você decide ler um conto — “só 11 páginas, uma leiturinha rápida para passar o tempo” — e sai mais destruída do que quando iniciou a leitura.

Há histórias que são bonitas, mas há histórias que são ainda melhores quando lidas no momento certo. E foi o que aconteceu entre Eu escrevo poemas e eu. Literalmente, um conto que caiu do céu em meio à leituras que estavam sendo retomadas.

Na primeira linha da história conhecemos Ethan. Ele está em sua escrivaninha, aos prantos, e escrevendo… Um poema, claro. Poema este que, dentre tantos outros, foi escrito para Anthony, seu ex que nunca lerá nenhum desses versos.

“Sempre que Ethan se lembrava disso, seu peito doía e a sua respiração tornava-se escassa, enquanto se permitia chorar até não poder mais. Ele viu tudo de mais precioso que tinham se esvair diante de seus olhos, e não pôde fazer nada”

Não, Ethan não perdeu Anthony para a morte. O perdeu para a vida mesmo: sem mais nem menos, este decidiu que era hora de partir, de dizer adeus àquele relacionamento, deixando Ethan com o coração totalmente despedaçado e a mente totalmente caótica.

“E esse foi o fim. O fim de uma história de amor que ninguém jamais imaginou que um dia terminaria”

Há três anos Ethan tenta entender o que aconteceu. Há três anos Ethan vive no automático. E há três anos Ethan escreve para tentar expurgar essa dor que o consome.

“Muitas coisas foram deixadas pendentes

E eu revivo os momentos

Sempre que fecho os olhos

Como um filme

Que eu dolorosamente insisto em assistir”

Apesar de poder parecer apenas um conto extremamente dramático, Eu escrevo poemas é uma história bela, dolorosamente possível e, ao mesmo tempo, que nos faz refletir sobre a vida, sobre nossos sentimentos e a vontade ou necessidade de seguir em frente.

“Sua vida não ia para frente nem para trás, estava completamente estagnada…”

É, também, um conto para nos fazer lembrar que ciclos se fecham — repentinamente ou não —, mas que podemos (e devemos) nos permitir sentir a dor necessária, nos mostrando, porém, que também é importante buscar uma forma de contorná-la, porque ninguém quer seguir vivendo no automático, não?

Se você quiser realizar essa leitura também (e depois me contar a sua opinião, pois, como eu disse, li no momento certo, então, para mim, o impacto desta breve narrativa foi bem forte!), clique aqui.

Poeira estelar — Gabriela Araujo

Título: Poeira Estelar
Autora: Gabriela Araujo
Editora: Publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2020

Começando de maneira totalmente despretensiosa, Poeira estelar vai nos fisgando até que, ao final, estamos sentido um mix de sentimentos difícil de explicar.

“Não tema as mudanças, minha pequena. Elas virão, mas fazem parte do mundo que conhecemos”

Apesar da brevidade da narrativa — mais um conto para a minha lista de contos que deveriam ser lidos por muitas outras pessoas — Gabriela Araujo consegue traçar um arco temporal um pouco mais complexo, fazendo-nos acompanhar o desenvolvimento da protagonista Marta, que começa a história como uma simples garotinha que viaja de carona nas estrelas.

“Quanto mais crescemos, menos acreditamos no poder das estrelas”

Mas aos poucos essa garotinha vai crescendo e vendo como o mundo não é simples. E muitas vezes, sequer é justo.

“A mãe enxergou o seu próprio passado naquela frase e desejou poder transferir para a filha sua experiência de vida, poupando-a dos anos de sofrimento até entender”

Porém, não se engane: Poeira estelar não é a simples história de uma garota que cresce e acaba por descobrir o mundo. Brasileira, Marta é uma mulher negra e tem de enfrentar muitos outros desafios que, por vezes, não conseguimos imaginar.

“Queria dizer para a mãe que não era sobre sentir que precisava ser como as outras meninas, ela apenas sentia não ter escolha”

Eu sou mulher e sei dos desafios que encontramos em uma sociedade machista. Mas sou uma mulher branca, que não sofre preconceitos nos lugares que frequenta, que não tem de provar a todo instante que não está fazendo nada de errado e que tem igual direito de estar em qualquer lugar.

“Aos 13 anos, Martinha não tinha uma simples vontade de ter um namorado. Era a vontade de ser vista, de receber carinho, de se sentir ‘normal'”

E é assim, através dos olhos da menina que vira mulher, que Gabriela Araujo consegue abordar de maneira extremamente leve e envolvente assuntos de grande importância, como amadurecimento, preconceito, solidão e até mesmo relacionamentos abusivos (de qualquer tipo, não apenas românticos) e emancipação feminina.

“Marta não sabia daquilo ainda, mas aquele momento selou a completa ruptura entre a pessoa que era e a pessoa que viria a ser”

Não vou dizer que a história me fisgou desde as primeiras páginas, que têm um ar mais onírico, mas logo fui ficando mais e mais presa às palavras desta narrativa e, agora, indico-a a quem busca uma leitura inspiradora, forte, impactante, mas, ao mesmo tempo, que cai como um abraço, um afago, um ombro amigo.

“Não podemos usar o espelho do outro pra enxergar o nosso próprio reflexo, Martinha”

E mesmo sendo uma história de personagens femininas, a leitura é excelente para homens e mulheres, pois com palavras simples, Gabriela Araujo consegue nos ensinar muito.

“A gente cresce e aprende a ignorar o que a gente quer?”

Se você se interessou por Poeira estelar, não deixe de garantir o seu ebook aqui. E conheça as outras obras e trabalhos da autora no site dela.

A jornada — Davi Busquet

Título: A jornada
Autor: Davi Busquet
Editora: Publicação independente
Páginas: 11 
Ano: 2020

Em uma história rápida — o conto pode ser lido em questão de minutos — e certeira, Davi Busquet nos faz refletir sobre a vida (e a morte) e sobre as pessoas que nos cercam.

Com personagens sem nome — chamados apenas de o Velho, o Garoto e a Esposa do Velho — a história torna-se ainda mais universal. Uma narrativa cujo título já explica muito e, ao mesmo tempo, não tem como explicar nada.

No conto, somos jogados em um úmido fim de tarde, chegando com o Velho a um lugar que não sabemos qual… Ou que apenas não queremos saber qual é. Ali, diante de um muro, muitas lembranças se passam em sua mente, mesmo que sejam muito poucas perto da vida que ele provavelmente viveu.

“Assim se defendia a mente de um velho”

Também vamos acompanhando algumas reflexões desse tal Velho, enquanto os demais personagens estão ali para compor a sua história.

Com uma linguagem metafórica, o conto exige uma leitura atenta, para que sejamos realmente transportados nessa viagem existencial.

Para ler o conto, clique aqui. Além disso, o autor está lançando um novo livro pela Editora Lettre. Trata-se da obra No coração de um assassino que, de maneira diferente da apresentada neste conto, também nos faz refletir sobre nossa existência e o que fazemos com o nosso lugar no mundo.

Bela Amizade — Jacqueline Gulmini

Título: Bela Amizade
Autora: Jacqueline Gulmini
Editora: Publicação independente
Páginas: 18
Ano: 2021

Ressurgi das cinzas — depois de pouco mais de uma semana afastada daqui do Blog, uma pausa necessária às vezes, né? — para trazer a resenha de um conto super leve e com uma bela mensagem (já voltei fazendo trocadilhos ruins, perdoe-me). Em poucas páginas, Jacqueline consegue transmitir aos seus leitores muito mais do que o que está escrito ali.

Luna é uma jovem que acabou de conquistar sua independência plena, isto é, saiu da casa dos pais para morar sozinha. Mas imagina dar esse grande passo e… Bum! Uma pandemia para te deixar totalmente isolada. Imagina como dever ter sido para quem tem boas relações familiares, mas decidiu se mudar e foi surpreendido por uma pandemia. Esse isolamento forçado deve ter sido um baque e tanto e esse conto nos faz pensar nisso. Mas não só!

O título do conto, claro, não é à toa e, mesmo em meio ao isolamento, nasce uma bela amizade: Luna, inspirada por outros jovens, coloca-se à disposição para ajudar quem ela puder ajudar e, assim, conhece a Dona Dulce, uma senhora que mora no mesmo prédio que ela e que não pode ficar saindo para ir ao mercado.

Luna, portanto, se compromete a ajudá-la com as compras e, além disso, elas também passam a fazer companhia uma para a outra, através de vídeo chamadas e até de jogos online. E é assim que elas vão tentando driblar a saudade da família e da rotina pré-pandemia.

As duas personagens desta história são bem diferentes entre si, principalmente pela distância entre uma faixa etária e outra. Mas ambas têm algo a ensinar e é muito bonito ver isso, além, claro, da relação que elas vão construindo.

“Ela sempre me dizia que, quando somos jovens, tudo parece ser o fim, sem solução, que não vamos aguentar”

Nós, assim como a própria Luna, passamos a história na expectativa de um encontro presencial entre ambas. Como seria? Qual seria a sensação de conversar cara a cara?

“Ainda que não pudéssemos nos abraçar, eu sabia que um dia teríamos o nosso abraço”

Indico Bela Amizade para quem já não tem esperanças de (ou mesmo que já não consegue) ver coisas boas no meio dessa pandemia. Às vezes, algo pode acontecer quando menos esperamos e vir de onde menos esperamos. Aliás, de acordo com os acontecimentos deste conto, tanto algo bom quanto algo um pouquinho assustador pode acontecer a qualquer momento… Mas logo tudo (de ruim) passa!

E aí, ficou com vontade de fazer essa leitura rapidinha? Então clica aqui.

As 220 mortes de Laura Lins — Rafael Weschenfelder

Título: As 220 mortes de Laura Lins
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação Independente
Páginas: 53
Ano: 2020

Escrever um conto não é uma tarefa tão simples quanto parece, porque não é simplesmente escrever uma histórinha curta e acabou. A “histórinha” precisa ter começo, meio e fim na medida certa. E se tem algo que eu posso dizer é que As 220 mortes de Laura Lins tem exatamente isso. Ok, talvez eu não importasse de ler um pouco mais… Mas isso é pelo que ainda vou apresentar abaixo.

Acho que uma das coisas que surpreende logo de cara neste conto é a linguagem: totalmente acessível. Digo, o conto é escrito numa linguagem adequada aos personagens nele apresentados (dois jovens que estão no ensino médio) e, ao mesmo tempo, é recheado de referências que nos aproximam ainda mais dos acontecimentos e da narrativa. Não é uma história que termina em si mesma, mas que nos abre horizontes.

E aqui pegamos outro ponto crucial: a narrativa. Impossível não ser fisgado por essas páginas. Rafael pegou uma ideia e trabalhou em cima dela de maneira muito criativa, divertida e, apesar de tudo (e vocês já vão entender essa “ressalva”), leve.

Em certo momento da leitura, fiquei pensando se havia uma metáfora por trás daquelas palavras, onde tudo aquilo chegaria. Entendi que não era exatamente uma metáfora, mas havia uma grande mensagem a ser passada e… Uau! Como isso foi muito bem feito.

Mas vamos ao que interessa: antes de começar a leitura da história propriamente dita, somos apresentados a 5 regras. Guarde-as, você logo entenderá cada uma e — provavelmente, ao menos comigo foi assim — achará muito bacana o paralelo ali traçado.

“Nesse jogo, é a mente que fica com as cicatrizes mais profundas”

Os capítulos são nomeados de “ciclos” e isso também logo se explica. Se você olhar o sumário, verá: Ciclo 1, Ciclo 2, Ciclo 3, Ciclo 220, Ciclo 221 e Laura. Não, não é um erro. Lembre-se que estamos falando de um conto e você, ao iniciar a leitura, logo entenderá que não seria possível narrar cada um dos ciclos (eu leria, viu?). Mas por quê?

A cada novo ciclo, Daniel acorda em seu quarto, olha para o celular e vê a mesma data e hora: 17 de maio, 13:23. A cada novo ciclo, Daniel vai se encontrar com Laura no Parque do Ibirapuera. E a cada novo ciclo, Daniel tenta evitar a morte de sua amiga (e falha).

É claro que depois do 3º ciclo, tanto Daniel quanto nós, leitores, já entendemos que ele está preso em um looping temporal. O que não sabemos — e nem ele — é como sair disso.

E apesar disso poder soar repetitivo, não é. Não apenas porque, a cada ciclo, Daniel descobre algo novo, mas também porque somos, aos poucos, apresentados à história dele e de Laura, que é muito mais complexa e instigante do que poderíamos esperar de dois jovens colegiais.

Ok, talvez “instigante” tenha sido um adjetivo exagerado, mas a realidade é retratada ali de maneira tão palpável que não tem como não vermos um filme passando em nossas cabeças.

“Viver a mesma tragédia 219 vezes e não poder conversar com ninguém é demais até para Daniel Trombadinha”

Li esse conto bem rapidamente, torcendo até o último momento por um final feliz. Não posso dizer que cheguei onde esperava, mas o final está realmente muito bem pensando.

E se te deixei com vontade de saber mais sobre essa história, clica aqui.