Livros em suspenso e mensagens secretas [tradução 14]

Tempos atrás, também através da tradução de um artigo, falei sobre os “livros no escuro“, ou seja, o ato de comprar um livro que você não sabe qual é, nem mesmo quem é o autor. No post mencionado eu explico isso um pouco melhor.

Hoje, porém, quero falar sobre outra iniciativa bem interessante (e antiga) relacionada a esse universo: os livros “em suspenso” e as mensagens “secretas”. Do que será que eu estou falando?

Para isso, escolhi este artigo, escrito por Beatrice, há sete anos (portanto, em 2014, mas acredito que ainda existam iniciativas do tipo), no Blog L’angolo dei libri, que, de maneira relativamente esporádica, ainda publica novos conteúdos.

Vamos ao que interessa? A tradução do título do artigo original é o que dá nome ao meu post e aqui embaixo você encontra a tradução do conteúdo.


A Itália, por antonomásia o país dos não leitores (de acordo com as estatísticas), continua produzindo iniciativas para promover a leitura: do #livroemsuspenso às citações escondidas entre as páginas de “quem deixa um bilhete, deixa um tesouro“. Não dê ouvidos aos dados: o marketing literário se faz no boca a boca

Se alguma vez você já foi a Napoli ou tem amigos napolitanos, talvez conheça a tradição do café em suspenso. Vai-se à lanchonete e pagam-se dois cafés: um você toma e o outro fica pago para quem vier depois, seja lá quem for. Uma bela ideia, não? Imagine que agora é possível fazer isso com os livros também. De fato, começou, algumas semanas atrás, a iniciativa #livroemsuspenso: passa-se na livraria e compra-se um volume, deixando-o à disposição de quem passará depois.

Na verdade, tudo começou em 2011, na livraria Modus Vivendi, em Palermo e, de vez em quando, outra pequena realidade independente se inspira nisto, como aconteceu nos últimos meses com a Ex Libris, em Salerno, e em Milão, com a livraria Il mio libro.

Levando em conta a generosidade da iniciativa (e talvez esperando por um pouco de marketing), até as livrarias Feltrinelli entraram nessa: entre os dias 23 de abril a 5 de maio, foi promovida a ideia de deixar um livro em suspenso para um outro leitor apaixonado. Porque a ideia é justamente essa: difundir a leitura e deixar as suas marcas. É mais ou menos como se eu te sugerisse um dos meus livros preferidos, mas ao invés de só te passar o título e o autor, te desse logo um exemplar.

Ainda melhor, porém é deixar uma mensagem entre as páginas, uma citação ou um conselho adicional para quem pegar aquele livro, como acontece com a iniciativa “quem deixa um bilhete, deixa um tesouro”, de Laura Cau. A jovem estudante de Cagliari lançou essa ideia entre os seus seguidores no Facebook e parece que está tendo um ótimo sucesso.

As regras para participar do jogo são muito simples: basta escrever em um pedaço qualquer de papel uma frase ou um pensamento e inserir o bilhete entre as páginas de um livro, em uma livraria ou biblioteca. Mas sem, no entanto, comprá-lo. É fundamental deixar o livro onde está, para fazê-lo ser encontrado por outro leitor. No bilhete também vai o escrito “siga-nos no Facebook, na página Um bom livro um ótimo amigo: aqui você poderá encontrar foto de todos os “papeizinhos” encontrados pelos amantes dos livros.


Sei que no Brasil livros físicos costumam ser caros, mas você teria coragem de comprar um a mais e deixar para outra pessoa que você sequer sabe quem é? E um bilhetinho, você deixaria?

Quando eu envio um livro em trocas no Skoob, costumo sempre enviar um bilhetinho junto, mas é coisa simples, apenas desejando uma boa leitura. Mas também já realizei a leitura de alguns livros pensando numa pessoa específica e grifando alguns trechos ou mesmo deixando recados.

Se conhecer outras iniciativas como essa, me conte nos comentários!

Livros no escuro Feltrinelli [tradução 10]

Pensando no que traduzir este mês, aqui para o blog, deparei-me, entre as opções, com o tema “livros no escuro”. Na hora em que vi esse tema, lembrei-me do post Papo de clube: Tag, experiências literárias, da Nati, do Napolitano como meu pé e, pesquisando um pouco, encontrei um artigo que achei bem interessante (e talvez um pouco ácido — perdoa os italianos, gente) de traduzir aqui.

Por isso, hoje trago a vocês a tradução de Libri al buio Feltrinelli, escrito por Andrea Cabassi, em 19 de julho de 2016.

Apenas a título de curiosidade, a Feltrinelli é uma das maiores e mais conhecidas redes de livraria da Itália, e é também uma grande editora.


Eu estava, pela enésima vez, aproveitando o ócio na Feltrinelli, quando os meus olhos curiosos se depararam com um expositor que me deixou completamente perplexo.

Tratava-se da prateleira da iniciativa Livros no escuro, ou seja, uma seleção especial de títulos colocados à venda em uma caixa fechada, sem que seja possível conhecer o título, autor ou capa do livro. Únicos indícios: três adjetivos e um mini comentário escrito pelos vendedores da loja.

Movido pela curiosidade, fui até o caixa e fiz algumas perguntas ao Vendedor Misterioso, que, para não comprometer a segurança dos seus amigos e familiares, permanecerá anônimo.

Andrea Cabassi: Oi. Gostaria de pedir algumas informações sobre os Livros no escuro: como funciona?

Vendedor Misterioso: Nós, vendedores, escolhemos os títulos, dividindo entre nós os livros necessários para preencher o expositor. Uma vez selecionados, escolhemos para cada um desses três adjetivos que, para nós, são representativos daquele livro, e depois escrevemos um breve comentário ou copiamos uma citação do livro que tenha particularmente nos tocado. A escolha é basicamente orientada pelo gosto pessoal, ou então pensando naquilo que pode agradar aos clientes e fazem parte todas as editoras, não só os livros da Feltrinelli.

Andrea Cabassi: Você conhece o Appuntamento al buio con un libro [Encontro no escuro com um livro], de Sperling & Kupfer?

Vendedor Misterioso: Não, devo dizer que é a primeira vez que ouço falar. Sei que não inventamos nada, por exemplo: me disseram que no exterior é uma prática difundida há anos, portanto, não temos a pretensão de ter feito a descoberta do século. Mas não sabia que alguém na Itália já tivesse feito… O nosso, porém, é um trabalho manual, não uma produção automatizada de alguns títulos escolhidos, cada pacote tem um conteúdo diferente do outro… Pelo menos uma diferença importante existe!

Andrea Cabassi: E as vendas, como estão?

Vendedor Misterioso: Te digo: no início eu estava cético, me parecia uma jogada irresponsável. Como leitor, eu pensava que dificilmente alguém pudesse escolher um livro sem folheá-lo, ler o início ou qualquer outra página, menos ainda sem conhecer o título. Mas me enganei: os Livros no escuro estão tendo um bom sucesso e ontem mesmo uma senhora me cumprimentou pelo comentário que escrevi sobre um livro que ela comprou e me perguntou quando irei preparar o próximo… No momento, os meus Livros no escuro estão todos vendidos!

Andrea Cabassi: Você acha que a sua colega Anna Paola sabe a diferença entre um adjetivo e um substantivo?

Vendedor Misterioso: (não responde)

Fotografei alguns, pode-se ver que é realmente um trabalho artesanal. Ainda me lembram muito o Appuntamento al buio con un libro de Sperling & Kupfer e ainda me fazem arrepiar mas, resumindo, as diferenças são significativas:

  • São escolhidos pelos vendedores entre todo o catálogo da livraria, não se trata do estoque de um único editor.
  • Cada pacote é único, não tem aquela caixa de livros com papel amarelo que escondem todos o mesmo título
  • Voltamos à sensação que se tinha quando existiam os livreiros no lugar dos vendedores, com que podíamos conversar e escutar as sugestões.

Neste ponto, agradeço-o satisfeito e vou dar uma olhada nos livros. Não antes de captar o comentário de uma cliente que esclarece, definitivamente, a questão, dizendo mais ou menos o seguinte:

“Algumas dessas avaliações são muito bonitas, mas o risco de que te caia em mãos um livro de Fabio Volo é muito alto. Me valho da faculdade de escolher!”


Agora me diga uma coisa: você teria coragem de comprar um livro sem saber absolutamente nada sobre ele? Ou você já assina algum clube (que, de certa forma, é como comprar um livro no escuro)?

Citações #16 — I pesci non chiudono gli occhi

Ao escrever minha resenha do livro I pesci non chiudono gli occhi, de Erri de Luca, acabei deixando muitas citações de lado. Vamos conferi-las agora?

“Eu acredito naquilo que vejo escrito” (p.33)

Algo escrito realmente tem muito mais força do que algo falado, no sentido de ficar gravado na mente das pessoas. Mas nem sempre tudo o que está no papel (ou nas telas) é tão verdadeiro assim…

“Aquele menino de dez anos continua até hoje inalcançável para mim. Eu posso descreve-lo, mas não o posso conhecer” (p.55)

Essa é uma citação que diz muito sobre a história, sobre o narrador, sobre o que passa(va) dentro dele. Mas também é algo que diz muito sobre nós mesmos, que nunca paramos para efetivamente refletir sobre nós.

Uma citação que eu não poderia deixar de fora, por achar a minha cara, é essa aqui:

“Amavam-se, aqueles dois, davam-se livros de presentes” (p.71)

Eu dou livro de presente mesmo, por sentir que eles são capazes de nos transformar! E claro que também amo receber livros de presente. Já comentei aqui no blog sobre alguns que dei e recebi.

“Para aqueles que têm o torto desejo de jamais ter existido, resta o cargo de fantasma” (p.72)

Sobre essa citação, fico pensando sobre pessoas que de tão tímidas preferiam ser invisíveis, já que a inexistência não é exatamente uma opção. Ou então aquelas pessoas que acham que não fazem/conseguem fazer nada que possa parecer transformador, e que acabam por sentir que vivem num eterno e silencioso anonimato, quando, na realidade elas podem fazer uma enorme diferença na vida de alguém próxima a elas.

Por fim, uma citação que para alguém que ama estudar línguas, não poderia ser deixada de lado:

“A língua é a última propriedade de quem parte para sempre, e ela não voltou mais à sua terra” (p.73)

Podemos ser imigrantes ou refugiados, mas a nossa primeira língua, aquela que aprendemos na infância, que crescemos escutando, levaremos para sempre conosco.

E por fim, para quem quiser acompanhar as citações no original, aqui estão elas:

“Io credo a quello che trovo scritto” (p.33)

“Quel bambino di dieci anni resta oggi al di fuori della mia portata. Lo posso scrivere, conoscere no” (p.55)

“Si amavano, quei due, si regalavano libri” (p.71)

“Per chi ha lo storpio impulso di non esserci mai stato, resta il mestiere di fantasma” (p.72)

“La lingua è l’ultima proprietà di chi parte per sempre e lei non tornò più nella sua terra” (p.73)

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Citações #15 — La sposa giovane

Hoje trarei a vocês apenas mais 2 citações do livro La Sposa giovane, escrito por Alessandro Baricco e publicado pela editora Universale Economica Feltrinelli em 2016. Como trata-se de um livro em italiano, vou aproveitar para colocar também o original aqui, ao final do post.

“A infelicidade rouba tempo ao prazer, e no prazer se constrói a prosperidade” (p.27).

É muito doido como, de repente, as coisas passam a fazer sentido, não é mesmo? Pensem nas pessoas que vocês conhecem e que, pelos rumos da vida, dedicam-se a uma atividade que não é aquela que elas queriam. Imagine essa mesma pessoa trabalhando no que gosta. Ela poderia até receber menos, mas estaria muito mais feliz. Muito mais satisfeita consigo mesma. E teria muito mais força para realizar tantas outras coisas em sua vida.

Essa citação aí de cima, para mim, tem muito a ver com saúde mental. E com sentir. O que nos leva à segunda citação de hoje:

“- Sentir é muito pouco, minha querida.

– Mas às vezes é tudo, senhor” (p.142)

Essa é uma passagem que, na história, tem mais a ver com a questão da intuição. Mas podemos ampliar para os sentimentos como um todo. Viver vazio de sentimento não é viver, assim como arrastar-se em uma vida infeliz.

E pensando nisso tudo, eu gostaria de dizer mais uma coisa também: lute ao lado daqueles que você ama. Ajude-os a realizar os seus sonhos, independentemente do tamanho deles. Essa é a melhor maneira de ver cada um prosperar e viver em paz. E é apenas isso que queremos para quem nos faz bem, não?

Para encerrar, como prometido, as citações originais:

“L’infelicità ruba tempo alla gioia, e nella gioia si costruisce prosperità” (p.27)

“- Sentire è un po’ poco, cara.

– Ma alle volte è tutto, signore” (p.142)

Assinatura

 

I pesci non chiudono gli occhi – Erri de Luca

Título: I pesci non chiudono gli occhi
Autor: Erri de Luca
Editora: Feltrinelli
Páginas: 115 
Ano: 2015 (5º edição)

Voltando no tempo e na memória, Erri de Luca nos conta, em I pesci non chiudono gli occhi, sobre um verão vivido aos 10 anos de idade. No livro não há capítulos, apenas um espaçamento maior entre um trecho e outro, nos dando ainda mais a sensação de uma história contínua, de uma recordação. O narrador é um garoto de 10 anos, que possui um linguajar um tanto quanto adulto, mas totalmente aceitável para aqueles que entram em contato com essa história, pois trata-se de um jovem que adora ler, fazer palavras-cruzadas e que desenvolve um pensamento crítico e filosófico desde cedo

A narrativa se passa em uma ilha, onde o garoto está passando as férias com a mãe. Seu pai, justamente naquele ano, fora para a América (Estados Unidos) em busca de trabalho e melhores condições de vida. Sua irmã, por outro lado, estava passando as férias com os amigos.

O narrador é um menino tímido, quieto e muito inteligente, e além de passar seus dias na praia, fazendo palavras-cruzadas ou lendo, também aproveitava o mar ou ia ao encontro dos pescadores que ele tanto admirava.

“Eu era um menino viciado no isolamento”

I pesci non chiudono gli occhi (p.87)

O verão apresentado neste livro foi um verão importante para o narrador, que estava crescendo e tomando ainda mais consciência de si e do mundo ao seu redor.

“Crescer comporta uma infinidade de efeitos desconhecidos”

I pesci non chiudono gli occhi (p.90)

Por meio dos livros o jovem aprendia muito. Mas, para além das páginas lidas, é nesse mesmo verão que Erri de Luca conhece o amor verdadeiro, em carne e osso, através de uma menina que não recebe nome algum ao longo da história, pois a lembrança desse sentimento apagara qualquer outra informação da memória do autor.

“Através dos livros de meu pai, aprendi a conhecer os adultos por dentro”

I pesci non chiudono gli occhi (p.14)

A tal jovem, no entanto, era dona de uma beleza que chamava a atenção, o que começou a gerar certa inveja em três garotos um pouco maiores que o narrador. Isso leva a uma perseguição e, para o autor, ao momento marcante de seu crescimento: quando ele apanha desses três garotos.

“A descoberta da inferioridade serve para decidirmos sobre nós mesmos”

I pesci non chiudono gli occhi (p.21)

Não se trata, porém, de uma história de amor, sentimento que o autor não conhecia tão bem e tinha certa dificuldade de acreditar. Como eu disse, é um livro de memórias e a principal temática é a descoberta de si. Mas garota em questão não deixa de roubar um beijo desse menino quieto e isolado. E é então que o título do livro passa a fazer total sentido.

“Fiquei observando-a. ‘Mas você não fecha os olhos quando beija? Os peixes não fecham os olhos'”

I pesci non chiudono gli occhi (p.98)

I pesci non chiudono gli occhi é, portanto, uma belíssima narrativa sobre o autoconhecimento e, principalmente, sobre crescimento. Aos 10 anos de idade, nosso jovem narrador consegue descrever suas dúvidas e seus sentimentos de uma maneira que chega a ser poética. O livro é curto, mas cheio de vida e de lições.

“O papel quer retornar vazio, como acontecerá com a terra depois de nós”

I pesci non chiudono gli occhi (p.93)

Citações #9 — Diário de escola

O livro da vez é Diário de Escola, escrito por Daniel Pennac. Li a edição em italiano (Diario di scuola) publicada em 2017 (10º edição) pela editora Universale Economica Feltrinelli. Tentarei colocar as citações em português, torcendo para que a minha tradução consiga abarcar o significado de cada trecho que destaquei. Esse é o primeiro livro que aparece aqui no Citações e que tem, também, a resenha completa no blog. Em minhas resenhas costumo colocar algumas passagens do livro, mas são diferentes das que trarei aqui.

Como eu comentei na resenha, neste livro, Pennac fala sobre os alunos que são considerados maus alunos, falando com propriedade, por ter sido um deles. É por isso que ele consegue nos transmitir o quão difícil e solitário é para uma criança que é considerada burra ou um fracasso escolar.

“Experimentei cedo o desejo de fugir. Para onde? Não sei bem. Digamos que fugir de mim mesmo e, ao mesmo tempo, dentro de mim” (p.25)

“Quando uma pessoa sente que não pertence a nada, tende a fazer juramentos a si mesma” (p.30)

O autor nos mostra o quanto há de incompreensão por parte dos que ensinam ou não são maus alunos.

“Falar a eles do que está por vir significa pedir que meçam o infinito com uma régua” (p.74)

Por outro lado, ele é a prova viva de que tudo passa e que as coisas tomam seus devidos rumos com o passar dos anos.

“As coisas nunca acontecem como prevemos, mas uma coisa é certa: nós nos tornamos” (p.84)

Daniel Pennac foi de mau aluno a um grande professor e escritor. Destaco ainda  passagens que trazem esse lado dele, o lado adulto que superou as dificuldades da infância:

“Uma boa classe não é regimento que marcha cadentemente, é uma orquestra que experimenta a mesma sinfonia” (p.107)

[Claro que eu não deixaria de lado esse trecho em que o autor faz uma comparação da sala de aula com uma orquestra. É um dos trechos mais lindos do livro (ou talvez eu seja suspeita para falar por adorar colocar música em tudo)].

Mas voltando ao lado professor, Pennac, por ter tido suas dificuldades como estudante, consegue aplicar métodos interessantes em sala de aula. Um deles é saber jogar com a matéria, transformando o aprendizado em diversão, como podemos perceber com esta última passagem que trago a vocês:

“E além do mais, brincar com a matéria é uma maneira, como tantas outras, de se acostumar a dominá-la” (p.131)