A sandália virada — H. L. Amaral

Título: A sandália virada
Autor: H. L. Amaral
Editora: Publicação independente
Páginas: 180
Ano: 2021

Eu era bem pequena quando outra criança, tão pequena quanto eu, ensinou-me que não se pode deixar as sandálias viradas para baixo, porque isso causa a morte da mãe. Assunto macabro para crianças, né? Mas bem, são as crendices populares que permeiam o nosso imaginário cultural.

E neste livro, H. L. Amaral trabalha justamente com essa ideia, criando uma narrativa muito instigante, daquelas que não queremos largar, porque cada capítulo nos faz querer ler “só mais um…”.

Lara, a protagonista desta história, tem apenas 12 anos e a vida de ponta cabeça. Bom, na verdade eu talvez esteja sendo tão dramática quanto ela, mas ao longo da leitura vamos entendendo como ela tem seus motivos e, em momento algum, ela é uma protagonista insuportável, ainda que seja um pouco mimada.

“Não importa o quanto ela quisesse, era como tentar abrir uma porta com a chave errada”

O que acontece é que Lara perdeu sua mãe aos oito anos de idade e não consegue aceitar sua madrasta. Para piorar tudo, é por conta dessa madrasta que ela e seu pai precisam mudar de cidade, o que só aumenta a raiva da jovem.

“O nome ‘Cidade Nova’ era bem literal para mim”

Um dia — ou, sendo mais específica, uma noite — Lara, irritada com sua madrasta, decide testar a famosa crendice popular da sandália virada. Mas ela não esperava que o efeito pudesse ser tão potente e real! No dia seguinte, Lara e Heloísa — sua madrasta — sofrem um acidente de carro, do qual Lara sai praticamente ilesa, enquanto Heloísa fica entre a vida e a morte.

“Eu era a rainha dos planos idiotas, acho que isso já ficou claro”

Claro que, neste dia, o pai de Lara viajara a trabalho e teve de voltar às pressas para Cidade Nova. Mas Lara, acreditando que tudo aquilo era culpa da sandália virada, decide fugir do hospital e voltar o quanto antes para casa, para tentar reverter o estrago.

“De onde estava, pude ver que era um sinal de noventa segundos de espera. Esses intervalos parecem durar uma eternidade quando tudo que você quer é chegar em casa”

A maior parte do livro se passa nesse momento, isto é, no caminho de Lara até a sua casa. Um caminho, porém, recheado de obstáculos, não apenas pelo fato dela não conhecer a cidade, mas por ser carnaval e por Cidade Nova, de acordo com as descrições da história, não ser muito segura, principalmente a noite.

“Agora, perdida no meio da noite, vejo que aquilo foi um erro. Eu não devia brincar com o que eu não entendia por completo”

Por “sorte”, no início desse percurso, Lara encontra Elmo, seu único amigo naquela cidade (e que, até então, ela sequer sabia se poderia realmente chamar de amigo).

“Amigos precisam ser transparentes feito amebas”

E é assim que por páginas e páginas acompanhamos as aventuras e desventuras desses dois jovens e, ao mesmo tempo, vamos conhecendo um pouco mais cada um e de seus respectivos passados e presentes.

“Quando me dei conta, já estávamos rindo pela noite de Cidade Nova, rindo como as crianças que éramos”

É impressionante como, se pararmos para analisar, Sandália Virada se passa basicamente (mas não totalmente) em uma única noite. Melhor ainda, em algumas poucas horas. E, ainda assim, há muito conteúdo entremeado ali. Sem contar o fato de que o autor consegue, em meio a tanta ação, abordar alguns assuntos como nuances das mais diversas relações familiares, a verdadeira amizade, confiança, bullying e superação.

“Tem gente que tem o sorriso torto. Tem gente que sequer sorri. Já vi gente legal e gente ruim em ambos os casos”

Sandália virada se passa em uma noite que mais parece uma vida e ainda toca em temas importantes, conseguindo ser leve e emocionante, fluída e prazerosa de ler. Uma história para todas as idades e que provavelmente vai te surpreender.

“Aquela noite não era sobre o que eu queria ou o que eu precisava. Nunca foi”

Esse livro caiu do céu em meio às minhas leituras, sendo aquela fuga necessária em meio a tanto caos, ainda que o universo de Lara seja bem caótico também.

“Eu podia ser uma maluca que acreditava em pragas da época da minha bisavó, mas ele ainda segurava minha mão”

Se você se interessou por essa história, clique aqui para conhecer Lara, Elmo e toda a confusão que uma simples sandália virada pode causar!

Como não acabar com seu ídolo — Fátima Aparecida Silva

Título: Como não acabar com seu ídolo
Autora: Fátima Aparecida da Silva
Editora: Publicação independente (a versão que eu li)
Páginas: 417
Ano: 2020

Depois de duas resenhas de livros um pouco mais densos, chegou a vez de resenhar este que, apesar de trazer muita coisa real, é bem mais leve. E o mais legal: essa história também se passa em São Paulo. É muito gostoso ler uma história e poder reconhecer os cenários, não?

“Nunca temos o suficiente de São Paulo”

Como não acabar com seu ídolo é uma daquelas histórias feitas para aquecer nossos corações (com muitos “apesares” no meio do caminho) e, mais ainda, para fazer outros escritores sonharem grande.

“É difícil falar de livros com as pessoas que não têm o hábito de ler”

A protagonista desta história é Camille (ou Mille), uma jovem escritora e estudante de Letras que, em meio aos seus diversos projetos e compromissos pessoais, gosta, também, de acompanhar às lives de Celebrity — seu gamer favorito e por quem tem uma enorme queda — na Twitch. Já perceberam como esse livro traz muitos elementos da atualidade, né?

“Aliás, minha vida era um trem fadado ao fracasso, principalmente quando se tratava de sentimentos”

Logo no início do livro nos deparamos, claro, com um acontecimento que pode mudar a vida desses dois personagens em diversos aspectos. Nathanael Dante — o tal Celebrity — decide que está na hora de criar algo. Mais especificamente um curta metragem de suspense. Mas ele não se sente preparado para escrever o roteiro sozinho e começa a buscar escritores em suas redes sociais.

“Deixar uma escritora sem palavras? Essa arte Nathanael domina”

Os leitores de Camille — que conhecem seu trabalho do wattpad —, sabendo da paixão dela por Celebrity, logo começam a marcar a autora na postagem do gamer, fazendo com a vida dos dois finalmente se cruze (finalmente porque Mille o acompanha já há um bom tempo, mas ele não sabia quem ela era na vida real).

“As coisas não são mais reais, sabe? Você enfeita tudo na internet para mostrar uma vida perfeita, mas está morrendo por dentro”

Aqui eu preciso fazer um parênteses: conheci a Fátima e seus obras através do twitter. Bom, “conhecer” talvez seja uma palavra muito forte, não é como se eu soubesse tudo sobre a vida dela ou se eu acompanhasse de perto tudo o que ela faz. Mas com o rápido vislumbre que tive, não consegui deixar de enxergá-la em Camille, o que tornou essa personagem ainda mais real em minha mente.

“Eu sempre me vi encurralada pela maldade dos outros todas as vezes em que era verdadeira, norteada pelos meus sentimentos mais puros”

Mas, voltando à história, graças ao fato dos leitores marcaram incessantemente Camille, Nathanael finalmente a nota e decide chamá-la para uma entrevista. Ao longo do livro vai ficando claro como era impossível ela não ser a escolhida: Camille é uma pessoa extremamente inteligente — ela sabe muita coisa mesmo — e sabe transmitir esse conhecimento e, ao mesmo tempo, é uma pessoa tão normal quanto qualquer outra. Uma pessoa com um coração enorme.

“Você é feliz com a simplicidade”

Como não acabar com seu ídolo, um título propositalmente ambíguo e explicado ao longo da história, é narrado em primeira pessoa, por Camille, mas ela consegue ir nos apresentando muito bem Nathanael, nos mostrando a visão dele sobre a fama e também sobre como as pessoas o veem. E o que torna essas apresentações mais verossímeis é que, geralmente, temos essa visão através dos diálogos, ou seja, de coisas realmente ditas por Nathanael, e não apenas por Mille.

“Porque se você sempre tiver medo de decepcionar as pessoas com a verdade, nunca será 100% autêntico”

E, ao mesmo tempo que esses dois personagens vão se conhecendo, vão se aproximando e vão avançando no roteiro do curta de Nathanael, eles também vão discutindo sobre os mais diversos assuntos e, como não poderia deixar de ser, vão se envolvendo sentimentalmente também. E isso, por vezes, pode nos deixar malucos com essa história!

“Se você ama, deve agarrar isso com todas as suas células, caso contrário, pode nunca mais encontrá-lo de novo”

Como não acabar com seu ídolo é um livro recheado de momentos leves, engraçados, mas também de ensinamentos (nem que seja sobre teoria das cores, sobre a nossa língua, sobre construção de roteiros) e muitos sentimentos! Uma leitura excelente para esquecer um pouco o caos que estamos vivendo.

“Poucas coisas na vida doem mais do que um coração partido”

Ah, e você lembra daquele meu post sobre músicas italianas e suas versões em português? Num dado momento deste livro, Camille começa a mostrar para Nathanael diversas canções brasileiras que são, em verdade, músicas norte-americanas ou que ao menos pegam a mesma melodia.

“Músicas que marcaram a infância são meio que músicas para o resto da vida”

E aí, também ficou com vontade de ler esse livro e conhecer melhor a Camille e o Nathanael? Você pode escolher entre o ebook e o físico dele!

Céu de menta — Camila Martins

Título: Céu de menta
Autora: Camila Martins
Editora: Hope
Páginas: 185
Ano: 2018

Depois que li O que me faz pular, tornei-me uma leitora que não pode ver livros sobre autismo que já quer devorar todos. E assim foi com Céu de menta que, no entanto, é bem diferente de qualquer outra leitura que eu já tenha feito sobre o tema.

“Como se deixar envolver por algo que não se conhece?”

Comecemos pelo fato de que Céu de menta é uma ficção (enquanto os demais livros que li geralmente foram não-ficção ou ficção baseado em fatos reais, coisa que não sei se é aplicável neste caso). E Céu de menta é uma ficção que nos mostra uma vida muito normal, afinal de contas, o autismo não é algo que nos torne incapazes de sentir e viver. A narrativa é bem doce e, por vezes, um pouco parada. Mas nada que torne esta história menos especial.

Sem grandes ambientações (a história se passa quase toda entre casas vizinhas de uma pequena cidade), Céu de menta nos mostra duas famílias extremamente diferentes que vivem lado a lado.

“Ser feliz com pouco, e curtir isso, é um dom”

Primeiro somos apresentados aos Salles, família formada por Carolina (mãe), Roberto (pai), Ana Maria (a protagonista) e Davi (o irmão mais novo). Depois, aos Alencar, família formada por João (o vizinho de Ana e também protagonista desta história), sua vó Clara, suas duas irmãs mais velhas e rebeldes (Paula e Bianca), sua mãe acamada (Sílvia) e seu pai ausente (Paulo). Acho que essa descrição já deixou bem claro que não temos aqui uma família muito fácil, não é mesmo?

“A família Alencar sempre foi uma granada prestes a explodir”

E tem mais: a família de Ana é simples, vive muito bem com o que tem e mudou-se para essa pequena cidade com o intuito de oferecer uma vida melhor à filha, portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista), enquanto a família de João está mergulhada numa vida de ostentação material, mas de ausência de amor. Contudo, mesmo tendo crescido nesse ambiente, João é um garoto calmo, compreensível e amoroso.

“João era um diamante em meio aos cacos de vidro”

É ele quem, ainda jovem, aproxima-se de Ana. E assim nasce uma amizade muito linda, já que ele está disposto a compreender a amiga e fazer de tudo para sempre deixá-la confortável. Os pais de Ana, claro, veem essa amizade com bons olhos, pois também sabem da raridade de se encontrar pessoas como João no mundo.

“Não tem preço ter alguém inteiro em nossas vidas. São raridades”

O mais bonito desta história, porém, é ver como ambos têm suas dificuldades e como um pode ajudar — e muito — o outro. Cada um com o seu jeito, cada um com suas habilidades, Ana e João crescem e amadurecem juntos. E claro que, nesse caminho, alguns percalços acontecem, fazendo com que a autora aborde questões como a pressão sobre os jovens na escolha de uma carreira, depressão, as máscaras da nossa sociedade, preconceito…

“Como chegar perto de alguém que se cercou de um enorme muro?”

Logo no início, o título do livro já passa a fazer sentido, mas somente ao final é que o entendemos realmente, e ainda com uma última bela lição deixada pela autora.

Aliás, temos muito a aprender com Céu de menta e um dos aprendizados que mais me marcou é de que o fato de uma pessoa não saber muito bem como lidar e demonstrar seus sentimentos, não significa que ela não sente (e muito!).

“Ah, como Ana ama abraços. Ah, como é difícil para Ana entender os abraços”

Se você busca um livro com uma protagonista autista e, ao mesmo tempo, quer ler algo bem leve, com certeza é Céu de menta que você procura. Então clica aqui e saiba mais sobre essa história que vai te deixar com um quentinho no coração.

Citações #32 — A casa de vidro

Quem leu minha resenha do livro A casa de vidro deve ter visto que eu não entendi muito bem a história, mas que, mesmo assim, gostei de alguns aspectos dela. E também me encantei com diversos trechos que destaquei ao longo da leitura, mas nem todos couberam no post anterior. Por isso, hoje vamos de quotes de A casa de vidro. Já adianto que será um post curto, mas necessário. Fica comigo até o final que eu explico melhor isso.

Coisa encantadora, o corpo humano… O quanto ele é capaz de fazer e desfazer e quão frágil ele é! Um copo de bebida estranha e toda a estrutura desmonta”

Esse foi um aspecto que me chamou a atenção ao longo da leitura: a visão de um não humano em relação a nós e a como agimos e vivemos. No trecho acima, faz-se uma menção às bebidas alcoólicas e ao alcoolismo.

Esse mesmo ser também é capaz de compreender (e descrever) como funcionam nossas relações e como, por vezes, vemos verdades onde elas não existem.

“Amor não é algo que exista por decreto. Nem mesmo entre gente da mesma matriz”

E, por falar em amor, há um trecho em que esse mesmo personagem nos faz refletir sobre algo muito importante: a nossa relação com os sentimentos, principalmente em contraposição à razão.

“Vocês creditam ao coração a coragem e a bondade, não é?”

E, para terminar, um trecho para nos fazer refleti sobre como, por vezes, precisamos de uma “sacudida” na vida.

“As duas revelações lhe foram brutais, mas ao atravessar a brutalidade ele encontrou algum tipo de existência”

Foram poucos trechos que haviam ficado de fora, mas achei que eram frases muito importantes para deixar para trás e, por isso, quis trazê-las aqui para vocês. Alguma, em especial, te chamou a atenção?