Que método você usa?

No último post que escrevi para a seção de ensino aqui do Blog, falei sobre o mito do professor nativo. Hoje quero falar um pouco sobre a questão dos métodos de ensino, porque essa é uma pergunta que já ouvi de alguns alunos que buscavam informações sobre minhas aulas: que método você usa?

Confesso que essa pergunta acaba me deixando em uma saia justa. Não porque eu não tenha um método ou por não saber o que estou fazendo, muito pelo contrário: métodos foi uma coisa que estudei bastante na graduação e no mestrado. E é por isso que eu optei por utilizar o pós-método em minhas aulas mas… Quem sabe o que é pós-método?

E bem, tem outra coisa também: quando uma pessoa me pergunta que método eu uso em minhas aulas, fico em dúvida sobre o que, efetivamente, ela está perguntando, uma vez que, para alguns, isto é a mesma coisa que perguntar “que livro você usa para ensinar?”, enquanto outros realmente conhecem alguns dos métodos de ensino que existem.

Antes de mais nada, então, tentarei apresentar (o mais brevemente possível) esses tais métodos e, claro, esse tal de pós-método que eu adotei para as minhas aulas.

Um dos primeiros métodos de ensino de línguas que surgiu foi a Abordagem da Gramática e da Tradução, um nome quase autoexplicativo: consiste no ensino da segunda língua a partir da primeira, ou seja, tudo aquilo que você precisar para entender algo será dado a partir da sua língua materna. Este método tem uma ênfase muito forte (quase exclusiva, aliás) na escrita.

Depois veio a Abordagem ou Método Direto, que, se colocarmos em contraposição à Abordagem da Gramática e da Tradução, também torna-se autoexplicativo: aqui proíbe-se o uso da língua materna, pois tudo deveria ser aprendido e apreendido diretamente na língua alvo. Outra contraposição ao método anterior é que, neste, há mais ênfase na língua oral.

Podemos, ainda, falar da Abordagem Audiolingual, com uma ênfase ainda maior na fala, mas como um conjunto de hábitos, coisa que ainda vou comentar mais para frente neste texto. Outra premissa deste método é que ele considera que uma língua é aquilo que os falantes nativos falam. E é por conta disso que, até hoje, alguns lugares buscam por professores que sejam falantes nativos, como dito em meu último post.

Depois surge a Abordagem Comunicativa, muito conhecida ainda hoje. Com ela, inicia-se uma real preocupação com o que podemos fazer com a língua, ou seja, com a verdadeira comunicação, aquela imprevisível, que vivenciamos em nosso dia a dia.

Muitas escolas de línguas (inglês principalmente, que é o que mais facilmente encontramos), anunciam seus cursos como baseados na Abordagem Comunicativa, mas quando paramos para analisar, utilizam-se do Método audiolingual.

E aqui retomo o que disse anteriormente: no método audiolingual, acredita-se que a língua é um conjunto de hábitos, certo? Isso significa que a repetição é algo muito presente. Vocês provavelmente já fizeram aula nesse esquema: ouve-se um diálogo algumas vezes, até que você consiga repetir perfeitamente cada parte dele.

Na verdadeira Abordagem Comunicativa, porém, considerando que ela se preocupa com a comunicação em si, o aluno tem a liberdade de criar o seu próprio diálogo, de imaginar-se em situações reais de comunicação. Conseguiram perceber a diferença? Neste método há reflexão; no outro, repetição.

E no meio do caminho entre tudo o que já citei até aqui, existem tantos outros métodos! Há, por exemplo, o Sugestopedia, no qual acredita-se que podemos aprender mais rapidamente se o ensino for baseado em técnicas psicológicas de repetição e sugestão, aumentando nossa capacidade de memorização; há, também, o Método Silencioso, que enxerga a aprendizagem como um processo e que, por isso, o professor deve ser o primeiro a falar, até que os alunos sintam-se confortáveis a efetivamente participar da aula; o Método da Resposta Física Total, baseado na forma como as crianças aprendem com seus pais, isto é, através de comandos e com respostas do próprio corpo.

Depois de aprender um pouco mais a fundo sobre cada um desses métodos mencionados, observando seus pontos positivos e negativos, fui finalmente apresentada ao pós-método. E foi aí que todas as minhas concepções caíram por terra. Vejam bem, eu aprendi inglês numa escola que usava (e acredito que ainda usa) o método audiolingual. E isso nunca foi um problema para mim, até que eu finalmente entendesse como funciona o ensino e a aprendizagem de línguas e percebesse que eu talvez não tenha aprendido inglês da melhor forma…

Uma coisa que esqueci de mencionar é que a existência de tantos métodos deve-se, dentre outras coisas, ao fato que estamos sempre em busca de algo melhor. Ora, se eu disse anteriormente que cada um desses métodos têm seus pontos positivos e negativos, o que buscava-se era eliminar esses pontos negativos, até chegarmos a um método perfeito. Mas isso é realmente possível?

Aqui torna-se necessário, portanto, deixar bem claro um ponto: o pós-método não é um método alternativo e também não é uma mistura dos métodos anteriores. Ele é, na verdade, uma nova forma de enxergar o ensino, dando autonomia aos professores (que passam a ser mais responsáveis pelo material usando em sala de aula) e aos alunos (que também tornam-se responsáveis por enxergar, com o professor, o melhor caminho a ser seguido).

O pós-método é regido por três parâmetros:

  • Particularidade: qualquer pedagogia, para ser relevante, tem de ser sensível ao contexto na qual está inserida, levando em consideração todos os elementos que compõem aquele contexto.

  • Praticabilidade: trata da relação entre teoria e prática, isto é, para que uma teoria seja realmente útil e utilizável, ela precisa ser gerada a partir da prática e, portanto, o professor passa a ser um gerador de teoria.

  • Possibilidade: o ensino deve levar em consideração a individualidade de todos os sujeitos que compõem o cenário educativo, pensando, por exemplo, em questões de classe, raça, gênero e etnia.

Ainda que sejam apenas três parâmetros, já percebemos que o pós-método, para ser realmente aplicado, precisaria de muitas mudanças por parte de inúmeras pessoas. E fora que, verdadeiramente aplicá-lo, sem que tudo torne-se uma grande bagunça, é muito difícil. Mas o próprio autor dessas ideias, o indiano Kumaravadivelu, nos apresenta macroestratégias, capazes de nos ajudar a entender o funcionamento de suas ideias, além de microestratégias, que são sugestões palpáveis de como aplicar tudo isso.

Quando eu digo que me utilizo do pós-método em minhas aulas, estou dizendo que busco compreender o que leva o aluno a querer aprender o italiano (que é o que eu ensino) e, a partir disso, saio em busca de materiais que possam realmente interessar e motivar os estudos de tal pessoa. A autonomia do aluno também é algo que me interessa, isto é, como ele pode continuar aprendendo e praticando a língua mesmo sem a minha presença.

Se você quiser entender um pouco mais sobre o pós-método, indico a tese de livre docência da professora Fernanda Ortale. Infelizmente, ainda há pouco material sobre o assunto em português (os próprios livros de Kumaravadivelu ainda não foram traduzidos).

Outro autor que podemos ler, também, para compreender um pouco melhor essa pedagogia é Paulo Freire, uma vez que Kumaravadivelu declaradamente inspirou-se nas ideias dele para criar a sua teoria.

E se vocês quiserem perguntar algo, basta deixar um comentário! Vou fazer o possível para esclarecer o que eu puder.

5 comentários em “Que método você usa?

  1. Muito interessante, estes métodos se aplicam a qualquer língua independente do país onde é ensinado?

    Eu quando estudei fora do BR, achava muito interessante a forma em que éramos ensinados. Trabalhava-se as 4 competências mas em contextos escondidos nos materiais. Não sei se utilizavam por ser um nível mais avançado, e se nos níveis mais básicos faziam o mesmo. Talvez entre no comunicativo, mas a única coisa que lembro é que éramos desafiados o tempo todo a ir além e produzir por conta. O professor era meio que um guia, um mediador somente, e nos corrigia sempre que sentia que a coisa saia um pouco da rota. Parabéns pelo texto, apesar de ser um leigo, me interesso muito pelo tema.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Com algumas pequenas adaptações a contextos e culturas, acredito que sim. As teorias que li sobre eles não eram brasileiras e algumas são realmente bem antigas.

      Pelo que você descreveu dessa experiência, me parece sim um método comunicativo (de verdade hahahah). E essa questão da correção em momentos pontuais (e não a todo instante) também é uma característica desse método, porque se o professor ficar corrigindo a todo instante, a comunicação (que é o que importa) acaba não fluindo.

      Agradeço a sua leitura e o seu comentário! Espero trazer mais conteúdos assim (:

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  2. Que incrível!
    Eu nunca tinha lido sobre a estrutura do pós-método.
    Sempre estive do outro lado da história, como aluna, mas me interesso muito em entender os dois lados. Até porque acho que facilita na hora do aprendizado.

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