Citações #22 — Ensinando a transgredir

Citações #22

Na resenha que fiz sobre Ensinando a transgredir (bell hooks, 2017), publicado pela editora WMF, eu espero ter conseguido demonstrar o quanto gostei do livro e o quanto o considero uma leitura importante em diversos aspectos. Como muitas passagens ficaram de fora da resenha, trago-as aqui e começo destacando uma que, mesmo estando em um dos últimos ensaios, é essencial para o início deste post:

“Reconhecer que através da língua nós tocamos uns nos outros parece particularmente difícil numa sociedade que gostaria de nos fazer crer que não há dignidade na experiência da paixão, que sentir profundamente é marca de inferioridade; pois dentro do dualismo do pensamento metafísico ocidental, as ideias são sempre mais importantes que a língua” (p.233)

Tendo consciência de através da língua tocamos os outros, quero trazer neste post as citações que deixei de fora da minha resenha sobre Ensinando a transgredir para, quem sabe, conseguir não só despertar o interesse pelo livro, mas também mostrar a vocês como a educação como prática da liberdade não é algo tão complexo assim.

“A prática do diálogo é um dos meios mais simples com que nós, como professores, acadêmicos e pensadores críticos, podemos começar a cruzar as fronteiras, as barreiras que podem ou não ser erguidas pela raça, pelo gênero, pela classe social, pela reputação profissional e por um sem-número de outras diferenças”  (p.174)

A receita para a prática do diálogo é relativamente simples: criar um ambiente harmonioso e igualitário.

“Por isso, uma das responsabilidades do professor é criar um ambiente onde os alunos aprendam que, além de falar, é importante ouvir os outros com respeito” (p.201)

É importante lembrarmos que bell hooks é uma mulher negra que sabe bem o que esses dois termos significam, vivendo-os intensamente. Quando passou a estudar em um colégio misto (para brancos e negros), bell hooks pode compreender bem o preconceito racial.

“Nossa amizade de colegial não se formara porque ele era branco e eu, negra, mas porque víamos a realidade do mesmo modo” (p.40)

Mas bell hooks conseguiu superar muitas das dificuldades impostas pela vida e hoje busca demonstrar como uma excelente saída para o ensino é a educação como prática para a liberdade.

“Para educar para a liberdade, portanto, temos que desafiar e mudar o modo como todos pensam sobre os processo pedagógicos” (p.193)

Uma das maiores dificuldades nessa transformação são os próprios professores, que têm medo de sair de suas zonas de conforto e segurança.

“Sinto que uma das coisas que impedem muitos professores de questionar suas práticas pedagógicas é o medo de que ‘essa é minha identidade e não posso questioná-la'”. (p.180)

E mais do que isso, alunos e professores esquecem que essa é uma relação, acima de tudo, entre seres humanos.

“Essa é uma das tragédias da educação hoje em dia. Um monte de gente não reconhece que ser professor é estar com as pessoas” (p.222)

Mas o engessamento não parte somente dos professores ou então dos alunos, parte também das instituições em que se dão o ensino e como ele é visto pela sociedade.

“Para provar a seriedade acadêmica do professor, os alunos devem estar semimortos, silenciosos, adormecidos. Não podem estar animados, entusiasmados, fazendo comentários, querendo permanecer na sala de aula” (p.194)

Ensinando a transgredir, portanto, faz com que a gente reflita sobre esse aspectos e tantos outros. Se eu fosse falar de cada tema que aparece no livro, de cada pensamento que tive enquanto lia, eu precisaria de posts e mais posts sobre isso, porque quanto mais escrevo, mais penso nos assuntos ali abordados.

As fases da lua – Cínthia Sampaio

Título: As fases da lua
Autor: Cínthia Sampaio
Editora: publicação independente
Páginas: 120
Ano: 2018 (1º edição)

Design sem nome

O livro As Fases da Lua nos traz poemas e pensamentos da autora Cínthia Sampaio. Bem, os textos são dela, mas quem nunca sentiu ou pensou algo do que ela traz nas deliciosas páginas desse livro? E a própria autora fala sobre sua obra da seguinte maneira:

“As Fases Da Lua representam as fases da vida e mudanças que podem ou não acontecer com todo ser. Espero que se encontre nas folhas deste livro”

De minha parte, posso dizer que o desejo da autora foi atendido: me identifiquei com muitos trechos ao longo da leitura!

“Escrever sobre mim,

Talvez seja ainda mais complicado.

Porque as palavras ficam registradas

Enquanto eu sigo sempre mudando”

O livro é composto por muitos poemas e canções escritos por Cínthia, mas há também alguns textos em prosa que, confesso, foram os que mais gostei, apesar do meu texto preferido dentre todos os escritos do livro ter sido “Palavras”, que é um dos poemas.

As palavras, aliás, são a base de muitas das reflexões da autora, e isso é uma coisa que eu amo encontrar nos livros que leio.

“Espero um dia fazer alguma diferença nesse mundo e que minhas palavras não sejam apenas parte de um rascunho como esse”

Ainda bem que os textos da Cínthia saíram do rascunho e ganharam o mundo. Aliás, quem saiu ganhando fomos nós!

“Muitos disseram que eu não deveria escrever, que não deveria chorar, que não deveria cantar. Eu as escutei? Não. Eu escrevi”

Eu li As fases da lua super rápido, porque o livro permite essa fluidez na leitura. Você vai lendo um texto atrás do outro e, quando vê, já acabou o livro. Claro que, por diversos momentos, tive de parar, erguer a cabeça e absorver as palavras apenas lidas. E isso só tornou a leitura desse livro ainda melhor.

“A vida é um ciclo”

E claro que eu não poderia deixar de encerrar essa resenha com alguns versos que eu adorei, sobre um assunto que sempre acabo escrevendo por aqui: o poder das palavras e o quanto precisamos tomar cuidado com o que dizemos uns aos outros.

“Brincamos de viver

Não levemos a sério

Cada palavra dita ao próximo”

Se você se interessou pelo livro, saiba que ele está disponível em ebook aqui.

 

Sorri – João de Barro

Sorri

Sorri é uma linda canção que ficou conhecida na voz de Djavan, mas cuja versão brasileira foi apresentada por João de Barro (Braguinha) em 1955. Digo “versão brasileira”, pois Sorri vem da melodia Smile, composta por Charlie Chaplin em 1936, para o filme “Tempos modernos”. A letra de Smile, no entanto, foi composta somente em 1954, por John Turner e Geoffrey Parsons. A gravação de Djavan é de 1996 e faz parte do álbum Malásia, décimo segundo álbum do cantor.

Trata-se de uma música linda, com uma letra inspiradora e uma melodia leve e doce. Já cheguei a me emocionar inúmeras vezes com essa canção!

Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios

Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos

Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Smile

Trata-se de uma letra que instiga o ouvinte a sorrir, apesar de tudo. A tentar levar uma vida feliz, mesmo ante as adversidades. E, apesar disso, é uma música triste, principalmente se destacarmos os versos finais da canção.

A música em inglês é um pouco diferente, o que é de se esperar se considerarmos que Sorri é uma versão em português e não uma tradução (uma versão permite que exista um toque de quem a cria, enquanto a tradução tem de ser mais fiel ao original).

Smile, though your heart is aching
Smile, even though it’s breaking
When
there are clouds in the sky
you’ll get by
If you smile through your fear
and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You’ll see the sun come shining
through
for you

Light up your face with gladness
Hide every
trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That’s the time you
must keep on trying
Smile what’s the use of crying
You’ll find that life
is still worthwhile
If you’ll just
Smile

Em Smile, também há uma ideia de se esconder a tristeza, mas pelo fato dela não nos levar a nada, pelo fato de que, às vezes, precisamos nos lembrar e enxergar que a vida ainda vale a pena e que devemos continuar lutando.

Para encerrar, uma curiosidade: quando escrevi o post sobre O bêbado e o equilibristaque dentre outras coisas homenageia Charles Chaplin — descobri que não são apenas as menções diretas ao ator que aparecem na música, mas que a própria linha melódica dela é muito parecida com a de Smile.

O escritor – Dalton Menezes

Título: O escritor
Autor: Dalton Menezes
Editora: publicação independente
Páginas: 27
Ano: 2019

o escritor

Sempre ouvimos falar que a vida de escritor não é fácil ou então que escritores fumam demais ou são pessoas excêntricas. Mas será que isso é verdade ou é nosso imaginário trabalhando na construção de um personagem? E em quantas páginas de livros esse tal personagem ganhou voz? Sim, talvez em um bom número… mas não como em O escritor! É impressionante como Dalton conseguiu colocar em poucas páginas tanto do universo da escrita.

“Se eu fracassar, tenho duas opções: choramingar feito uma criança e desistir ou encarar a realidade de cabeça erguida e tentar novamente, quantas vezes forem necessárias e o meu corpo mortiço aguentar”

O que se pode esperar de um livro em cuja dedicatória está escrito “Para mim”? Sim, pois é exatamente desta maneira que se inicia O escritor, um livro que fala sobre livros, sobre publicação, sobre ser escritor.

“Sou do tipo que se apaixona fácil, mas sei das minhas limitações enquanto poeta e escritor. Poetas não nascem para ter, nascem para sentir falta”

Ao longo das páginas nos deparamos com um escritor rumo a uma reunião para uma possível publicação de seu livro. Ansiedade, orgulho, medo. Os sentimentos desse personagem se misturam e se revelam aos nossos olhos, nos fazendo torcer por essa pessoa que mal se apresenta para nós. E nem poderia: O escritor pode representar qualquer escritor, ou mesmo qualquer leitor que se identifique com tantos medos e angústias. E isso só é possível porque, ao longo da história, o escritor (o personagem, não exatamente o escritor real) também conversa conosco sobre a vida.

“Quanto mais importante forem as suas possíveis conquistas, mais a vida te colocará obstáculos. Você que se vire. Ela não se importa”

O escritor é um livro cheio de ironia, mas que também contém muitas verdades. Uma leitura que eu recomendo para você que quer ler algo rápido, mas sem superficialidade e que, ao mesmo tempo, ainda quer dar umas boas risadas e se surpreender (tanto é que deixei de fora dessa resenha um dos detalhes mais interessantes sobre o livro que esse tal escritor quer publicar…).

Ficou com vontade de conhecer O escritor? Então clica aqui e divirta-se!

 

 

 

Citações #21 — O demônio no campanário

Citações #21

Na resenha de O demônio no campanário — escrito por Michelle Pereira e lançado em 2017 de forma independente — eu comentei sobre o quanto gostei do livro e permaneci ainda alguns dias com os personagens na cabeça. Hoje, então, trago a vocês algumas das passagens que destaquei ao longo da leitura, mas que ficaram de fora da minha resenha.

Uma coisa muito interessante ao longo da história é a maneira como a Michelle fala sobre o diferente, sobre coisas que não estamos acostumados a ver.

“Ser diferente do padrão esperado pela sociedade é tido como algo errado”

Com relação à parte em que o trecho acima foi retirado, podemos pensar, inclusive, na questão do bullying. Mas Michelle também nos faz refletir sobre superação, incluindo uma personagem extremamente forte na história.

“Não é qualquer um que caminha por aí com uma estaca no peito e finge estar tudo bem, sem lamuriar ou se fazer de coitado”

Mas o que torna O demônio no campanário ainda mais interessante são os sentimentos que vão surgindo ao longo da obra.

“Aquela sensação era boa, de ter um porto seguro, de ter alguém que gostava de mim”

Mais interessante ainda era poder ver a visão do tal demônio sobre os sentimentos humanos.

“Ah! O amor e o ódio, sempre amigos inseparáveis. Sempre tornando os humanos vulneráveis…”

Não que ele também não tivesse lá seus sentimentos…

“Ela beijava-me como se o o mundo não fosse durar um minuto a mais, e eu a beijava como se ela fosse a última fêmea de qualquer espécie. Mordi seu lábio e senti o gosto doce do seu sangue em minha língua, pulsante e poderoso. Excitante”

E sem contar que Eron, o tal demônio, nos dá uma descrição simples e poderosa de Eva:

“Como poderia ser tão bela e tão poderosa? Tão frágil e tão forte?”

Por tudo isso, e por tanta coisa mais, eu recomendo fortemente a leitura desse livro. E se você estiver interessado, saiba mais aqui.

 

 

O colóquio dos cachorros – Miguel de Cervantes

Título: O colóquio dos cachorros
Original: El coloquio de los perros
Autor: Miguel de Cervantes
Editora: Grua
Páginas: 96
Ano: 2014 (1º edição)
Tradução: Nylcéa Thereza

Blog das Tatianices (2)

No mesmo estilo de A cidade do sol, O colóquio dos cachorros também conta uma história através de um diálogo. Aqui, porém, de maneira surpreendente, o diálogo se dá entre dois cães. E esta, aliás, é a primeira história de cachorros falantes na literatura ocidental.

O colóquio dos cachorros é uma das novelas que compõem as “Novelas exemplares”, livro de Miguel de Cervantes publicado pela primeira vez em 1613. Esta história nos mostra o diálogo entre Cipião e Berganza, cachorros que protegem o Hospital da Ressurreição de Valladolid (cidade espanhola situada a noroeste da Península Ibérica). Em uma bela noite, sem explicações, esses cachorros adquirem o dom da fala e combinam que, nesta primeira noite, Berganza narrará sua vida a Cipião e que, na noite seguinte, caso eles ainda possuam o dom da fala, será a vez de Cipião narrar a sua vida.

Berganza, portanto, passa toda a noite falando sobre sua vida, sendo, porém, inúmeras vezes interrompido por Cipião, que faz pontuações e correções, demonstrando ser um cachorro mais sábio e equilibrado.

“Controla a língua, porque nela estão os maiores estragos da vida humana”

O colóquio dos cachorros (p.17)

Por meio da vida de Berganza, vamos passeando pela Espanha do século XVII, conhecendo cidades e hábitos. É por meio de cachorros, portanto, que aprendemos sobre o homem e a ética daquele tempo. E não só: inúmeros comentários também contém questões filosóficas, literárias e científicas.

“Mas nada me admirava mais e nem me parecia pior do que ver que estes açougueiros matam com a mesma facilidade um homem e uma vaca”

O colóquio dos cachorros (p.16)

Berganza teve muitos donos, pois a cada vez que se sentia injustiçado e maltratado, fugia e buscava um dono melhor. Poucos sabemos sobre seu dono atual, mas sempre havia algum momento em que o ser humano perdia sua humanidade e, consequentemente, seu fiel cão (e está aí uma das inúmeras possibilidades de leitura que esse livro nos dá).

“Ah, amigo Cipião! Se você soubesse como é difícil passar de um estado feliz para um infeliz!”

O colóquio dos cachorros (p.35)

O tempo da narrativa é curtíssimo — uma madrugada — as lições, porém, são inúmeras. A leitura é rápida; os aprendizados ficam.

“Agora as coisas não seguem mais o rigor de antigamente: hoje se faz uma lei e amanhã se rompe com ela e, talvez, seja conveniente ser assim”

O colóquio dos cachorros (p.41)
Se interessou pelo livro? Compre aqui.

 

 

Tatianices recomenda [8] — Livros: abril azul

Como abril é um mês dedicado à conscientização sobre o autismo — o abril azul — quis trazer para vocês um Tatianices recomenda com livros sobre o assunto.

Comecei a me interessar pelo tema quando li O que me faz pular (Naoki Higashida), em 2014. Depois, cheguei ao Passarinha (Kathryn Erksine), também em 2014. E este ano eu finalmente li Meu menino vadio (Luiz Fernando Vianna). Foram três leituras que me ensinaram muito e que eu realmente recomendo para quem quer compreender um pouco mais sobre autismo. E o mais interessante é que são livros completamente diferentes. Vejam as sinopses abaixo e me digam o que acharam ou se já leram algum desses livros.

O que me faz pular por [Higashida, Naoki]

NAOKI HIGASHIDA sofre de autismo severo. Com grande dificuldade de se comunicar verbalmente, o jovem aprendeu a se expressar apontando as letras em uma cartela de papelão, e aos treze anos ele realizou um feito extraordinário: escreveu um livro. Delicado, poético e profundamente íntimo, O que me faz pular traz uma nova luz para entendermos a mente autista. O autor explica o comportamento muitas vezes desconcertante das pessoas com essa condição e nos oferece suas percepções de tempo, vida, beleza e natureza, apresentadas em um relato inesquecível. O que me faz pular, trazida para o leitor ocidental pelo renomado escritor David Mitchell e sua esposa, é uma obra única. A história de Naoki demonstra que, longe de serem insensíveis e indiferentes ao mundo, as pessoas com autismo são tão complexas quanto qualquer um de nós e dotadas de senso de humor, empatia e uma intensa imaginação. Seu mundo é incrivelmente rico, e esse relato autobiográfico nos oferece um vislumbre comovente dessa riqueza. Belamente ilustrado, o livro traz também pequenas fábulas e um conto emocionante, todos de autoria de Naoki.

No mundo de Caitlin, tudo é preto e branco. Qualquer coisa entre um e outro dá uma baita sensação de recreio no estômago e a obriga a fazer bicho de pelúcia. É isso que seu irmão, Devon, sempre tentou explicar às pessoas. Mas agora, depois do dia em que a vida desmoronou, seu pai, devastado, chora muito sem saber ao certo como lidar com isso. Ela quer ajudar o pai – a si mesma e todos a sua volta –, mas, sendo uma menina de dez anos de idade, autista, portadora da Síndrome de Asperger, ela não sabe como captar o sentido. Caitlin, que não gosta de olhar para a pessoa nem que invadam seu espaço pessoal, se volta, então, para os livros e dicionários, que considera fáceis por estarem repletos de fatos, preto no branco. Após ler a definição da palavra desfecho, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam. E Caitlin está determinada a consegui-lo. Seguindo o conselho do irmão, ela decide trabalhar nisso, o que a leva a descobrir que nem tudo é realmente preto e branco, afinal, o mundo é cheio de cores, confuso mas belo. Um livro sobre compreender uns aos outros, repleto de empatia, com um desfecho comovente e encantador que levará o leitor às lágrimas e dará aos jovens um precioso vislumbre do mundo todo especial dessa menina extraordinária.

O jornalista Luiz Fernando Vianna e seu filho, Henrique, são unha e carne ― às vezes unha do filho na carne do pai. Henrique é autista. Pouco fala, mas algumas palavras repete à exaustão. Tem momentos de agressividade contra si mesmo e contra terceiros. Sabe ser irônico. Gosta de desenhos animados e de mergulhar no mar. Como todo adolescente, tem suas curiosidades e seus impulsos, só que sem grande cerimônia. Luiz Fernando decifra os sons que ele emite, seus desejos imediatos e muitos de seus silêncios, no entanto não tem como alcançar o que o filho sente lá no fundo do fundo.Há quem diga que ter um filho com deficiência é uma benção. Luiz Fernando Vianna discorda. Se fosse mesmo um presente, antes de receber ele diria: “Ah, não precisava.” Com toda a franqueza e um pouco de música, o autor conta a sua experiência, cheia de altos e baixos, momentos de ternura e também de desespero ao lado do seu menino vadio.

Se vocês tiverem se interessado por algum dos livros, basta clicar na imagem para ver onde encontrá-los (:

A matemática das relações humanas

Título: A matemática das relações humanas
Autor: Aimee Oliveira, Clara Savelli, Bruna Ceotto, Bruna Fontes
Editora: Duplo Sentido
Páginas: 124
Ano: 2018 (1º edição)

Blog das Tatianices (1)

Uma coisa é certa: quem não sabe sobre o que é o livro A matemática das relações humanas, estranha o título. Já adianto que não sou nada fã de números, mas que, mesmo assim amei esse livro e vocês já vão entender meus motivos.

Como vocês devem ter visto, A matemática das relações humanas tem mais de uma autora (siiim, só mulheres!). Isso porque trata-se de um livro de contos! Antes dos contos, porém, há uma introdução da Vanessa S. Marine, organizadora do livro, e só com esse texto eu já fiquei emocionada e arrepiada. Ela fala sobre vestibular e sobre como não passar não significa que sejamos fracassados. E é por isso (e pelos contos, que reforçam essa ideia) que recomendo muito essa leitura para quem está nesse momento tenso da vida.

Sobre os contos, as histórias são independentes, mas possuem alguns fios condutores e, por isso, recomendo que vocês leiam na sequência. Todos eles se passam no cursinho “Desígnio” e alguns personagens aparecem mais de uma vez.

O primeiro conto, da Aimee Oliveira, chama “Uma lição de Victória” e é excelente para quem está naquela dúvida entre faculdade pública (e possivelmente uma mudança de cidade) e faculdade particular. Esse conto também consegue trabalhar uma intensa relação de amor entre avó e neta e um lindo romance.

“O poder de uma conversa franca nunca deveria ser subestimado”

A matemática das relações humanas (p.35)

O poder de uma conversa franca, aliás, acaba permeando todas as outras histórias também, de uma forma ou de outra.

Quem narra esse primeiro conto é Victória, que além de estar se preparando para o vestibular de gastronomia, também faz as famosas bolotas de queijo vendidas na lanchonete do cursinho. E essas bolotas fazem sucesso mesmo (fiquei com vontade de experimentar)!

O segundo conto do livro chama-se “Miçangas” e foi escrito por Clara Savelli. Eu não sei se consigo escolher um preferido no livro, mas esse certamente tocou meu coração de forma intensa, pois mexe muito com a questão de buscarmos nossos sonhos (não que os demais contos também não abordem essa temática).

“Era doloroso não ter ninguém que comprasse meu sonho comigo. Mas era mais doloroso ainda saber que ninguém sequer acreditava que eu era capaz de conseguir”

A matemática das relações humanas (p.48)

Narrado por Júlia, uma jovem que além de estudar faz caderninhos artesanais e tem um pequeno negócio online para vendê-los, esse conto nos mostra o quão difícil pode ser fazer com que os outros enxerguem nossos esforços, além de trazer um romance que realmente me surpreendeu.

“Para perguntas como as minhas, nem o melhor cursinho tinha respostas”

A matemática das relações humanas (p.66)

Até aqui tivemos personagens que se mostram um tanto quanto incertas com relação ao vestibular como um todo. Victória não sabe se quer mudar de cidade e nem se tem chances de passar nos concorridos vestibulares de gastronomia; Júlia, por outro lado, não entende essa necessidade de passar em uma universidade, quando ela já tem um negócio que está aos poucos crescendo.

Em “Múltipla escolha”, o conto escrito por Bruna Ceotto, a situação muda um pouco: Karen é excelente aluna, a melhor em matemática. O problema dela é com relação ao curso. Enquanto seus pais querem que ela faça engenharia, ela sonha com ciência da computação. Este é um conto, portanto, sobre escolher o próprio destino ou deixar que escolham por nós (o que, socorro, tocou no meu calcanhar de Aquiles).

“É difícil para mim admitir algo assim. Eu sou racional. A garota de exatas. Aquela que confia mais em números, porque números não comportam grandes interpretações: eles são o que são”

A matemática das relações humanas (p.86)

Esse conto é para ler com muita atenção e pensar bem sobre a mensagem que ele passa.

Para concluir o livro, temos o conto “Tabula Rasa”, escrito pela Bruna Fontes. Como eu fui surpreendida pela personagem desse conto, não direi muito sobre ela, com medo de que seja um spoiler. Já adianto, contudo, que esse conto segue um pouco a linha do anterior, com relação à necessidade de que tomemos as rédeas de nossas vidas.

“Em um momento estávamos falando sobre a morte; no outro, falamos sobre a vida. E, talvez, a diferença entre uma coisa e a outra, no modo como nos afeta ao acontecer, não seja assim tão diferente”

A matemática das relações humanas (p.114)

É um conto mais “pesado”, por assim dizer, um tapa na cara necessário. E, por falar nisso, encerro essa resenha com o melhor tapa de todos:

“Durante todo o ensino médio, somos levados a acreditar que o ano do vestibular é o ‘ano decisivo’, que esse é o momento em que devemos fazer as nossas escolhas, determinar o nosso futuro e, a partir dali, apenas construir nossa caminhada rumo ao sucesso. Eu gostaria que alguém tivesse me falado naquela época, enquanto eclodiam minhas crises de ansiedade por medo de não conseguir uma vaga e, assim, arruinar toda a minha vida, que nada disso é verdade”

A matemática das relações humanas (p.116)

Felizmente já passei pela fase de vestibulanda, mas adoraria ter lido esse livro naquela época. O que não significa que não amei ler agora. Me fez relembrar muitas coisas e também me fez refletir sobre minhas escolhas. Porque esse livro é assim: não te faz pensar apenas no vestibular, mas também no seu percurso por inteiro, na sua vida.

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Papo sério: conversando sobre autores nacionais

Espaço reservado para texto (3)

No dia 11 de fevereiro eu participei do evento Folia Literária, que ocorreu na Biblioteca Pública Viriato Corrêa, em São Paulo (aliás, é um dos meus objetivos esse ano: participar de mais eventos literários. Mas esse não é o foco deste post).

No dia do evento eu já acordei com uma grande pulga atrás da orelha: porque nós não valorizamos muito aquilo que é nacional? Afinal, eu conheço coisas nacionais que são tão incríveis quanto as estrangeiras…

Quando eu cheguei no Folia Literária a minha pulga atrás da orelha foi crescendo cada vez mais. Naquele espaço eu fui recebida com muitos abraços, autógrafos e boas conversas. Tudo isso vindo de escritores! De pessoas que gastam horas em frente ao computador, transformando uma simples tela em branco em uma história fascinante. Mas, mais do que isso, de pessoas extremamente acessíveis que estavam dispostas a compartilhar o que sabiam com todos que estivessem dispostos a escutá-los.

Acho que todo mundo que gosta de ler viu, no ano passado, como o nosso mercado editorial não anda lá essas coisas. E quem sofre com isso? Bem, todos que trabalham nesse ramo e, principalmente eles, os escritores! Aqueles serzinhos maravilhosos que estavam ali naquele evento (e em tantos outros) tentando cativar novos leitores (e olha, eles conseguiram, viu!), tentando incentivar a leitura.

Felizmente, me parece que esses tais autores nacionais têm conseguido conquistar os leitores e eu acredito que eles podem ser uma ótima porta de entrada para que possamos ler inclusive autores brasileiros clássicos. E é justamento disso que estou falando aqui, da necessidade de valorizarmos o que é nosso, seja os autores de hoje, seja os de ontem. Mas autores que escreveram sobre nossos costumes, nossa sociedade, tanto de maneira ficcional quanto realista.

Eu saí do Folia Literária com o coração quentinho e dois livros autografados! E depois disso também estive em outros espaços que reuniram tantos outros escritores e leitores e a sensação é sempre a mesma. E é incrível.

Meu blog ainda é pequeno, mas a ambição é grande: incentivar a leitura. Espalhar esse amor pelos livros por esse Basil afora. E eu sei que não estou sozinha nessa. Para além de tantos leitores especiais que acompanham esse cantinho, esse semestre eu ainda tive a oportunidade de, mesmo sendo pequena por aqui, conseguir parceria com quatro escritores nacionais que me apresentaram histórias incríveis. Por isso, aproveito esse post para deixar registrado o meu enorme obrigada ao M. Pattal — que além de me presentear com Adelphos, ainda me deu ótimas dicas para as resenhas — à Cínthia Sampaio — que lançou Quando a neve cair com muito amor e também espalhou esse sentimento para todos os seus leitores, sendo uma autora extremamente aberta e que conversa de verdade com seus leitores; para a Michelle Pereira, que está me deixando maravilhada com suas histórias — O demônio do campanário me prendeu até a última página — e que também me recebeu de braços abertos e com muito carinho; ao Dalton Menezes, que ainda irei apresentar melhor a vocês, mas que já me cativou só pelo jeito de se fazer presente. Também queria deixar um super obrigado à Ingrid, do Encanto Literários, que tem me propiciado uma experiência de leitura única, com muitas trocas e quentinhos no coração.

E, se para além desse autores, vocês tiverem interesse em conhecer outros escritores nacionais, comenta aqui, vamos trocar ideias, vamos divulgar a literatura brasileira. Nesse blog mesmo, já tenho resenhas de muitos outros livros brasileiros, contemporâneos e clássicos.

E vocês, quais livros nacionais vocês já leram? O que acharam?

 

 

 

O apocalipse dos trabalhadores – Valter Hugo Mãe

Título: O apocalipse dos trabalhadores
Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 208
Ano: 2017 (2º edição)

O paraíso

Ler O apocalipse dos trabalhadores foi uma experiência e tanto, por diversos motivos. Para começar, a obra é escrita em português de Portugal, o que pode causar alguns estranhamentos ao longo da leitura — principalmente com relação a alguns termos. Além disso, o texto todo é escrito em letras minúsculas, sem parágrafos. Há pontos finais e podemos distinguir capítulos (não numerados ou nomeados), mas o texto todo é quase como um fluxo contínuo.

A história também, não é das mais banais: o livro retrata principalmente a vida de Maria da Graça e Quitéria, duas empregadas domésticas que também, por vezes, recebem para ir a funerais, chorar o morto. Além delas, outro personagem destacado no enredo, por todo o seu sofrimento e dureza é Andriy, um “homem do leste” (ou um ucraniano) que se envolve com Quitéria.

“era, na realidade, como um leão de fantasia que, subitamente, podia ganhar vida e, obviamente, trazer no estômago toda a grande fome ucraniana”

O apocalipse dos trabalhadores (p.112)

Não sei se pelo modo como a história era narrada ou até se pelo local retratado — a cidade de Bragança —, bem como os costumes, mas por diversas vezes eu imaginava a história se passando em meados do século XIX ou XX. Mas creio que seja uma história mais atual, dado a presença inclusive de celulares no meio da narrativa. O tempo, porém, não importa, porque se pensarmos bem, o Apocalipse dos trabalhadores é um texto atemporal que retrata a dura realidade dos três personagens mencionados e de tantos outros que aparecem ao longo da história, enriquecendo-a.

“os mortos não têm idade”

O apocalipse dos trabalhadores (p.42)

Para além do trabalho pesado, dos poucos diálogos e da batalha diária, o apocalipse dos trabalhadores fala também sobre nossos sentimentos, principalmente o amor. Todos ali, no fundo, buscam poder experimentar essa sensação, ainda que façam isso por caminhos tortuosos e incertos. Maria da Graça, por exemplo, é casada com Augusto, marinheiro que passa boa parte do ano fora de casa. Ela trabalha na casa do senhor Ferreira, que quase que diariamente abusa dela (!). Aos poucos, porém, Maria da Graça vai confundindo seus sentimentos e o ódio pelo senhor Ferreira transforma-se em afeição (!). É, pensando bem, esse livro é bem atemporal.

Quitéria, por outro lado, envolve-se com diversos rapazes, até sentir-se apaixonada por Andriy. Este personagem, por sua vez, longe de seus amados pais, tenta tornar-se uma máquina, mas é sentimental demais para isso.

Além de retratar as idas e vindas diárias de cada um desses personagens, o livro também nos repete o sonho recorrente de Maria da Graça: toda noite ela se vê no Paraíso, tentando adentrar seu descanso merecido. No entanto, a cada noite ela é barrada por São Pedro, irritando-se com a situação.

“o são pedro inclinava-se, cabeça para trás e barriga para a frente, e ria-se, dizia, ó minha senhora, isso agora não tem valor, os mortos são todos iguais, não têm profissão e não lhes vale de nada o que aprenderam fazer, ou parece-lhe que aqui existem quartos para limpar”

O apocalipse dos trabalhadores (p.18)

Realidade, sonho, sentimentos, angústias. Tudo nesse livro se mistura, seja pela história em si, seja pelo texto com poucas pontuações. Uma obra para abrir nossas mentes e nos fazer enxergar uma realidade que muito provavelmente o leitor de um livro como esse não vive.

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