AmoreZ — Regiane Folter

Título: AmoreZ 
Autora: Regiane Folter 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 47 
Ano: 2020

Existem inúmeras formas de amar e de demonstrar esse amor e é exatamente isso o que encontramos nesta breve obra: um amor para cada letra do alfabeto, como sutilmente sugere o título.

“Já pensou que existem tantos tipos de amor quanto pessoas esperando ser amadas?”

Através de 22 contos curtinhos, a autora faz um lindo passeio pelo alfabeto, nos propiciando as mais diversas leituras e os mais variados sentimentos.

“Enfim, eu leio. Às vezes mais, às vezes menos; mas estou permanentemente em busca de histórias para colecionar em uma biblioteca mental que me ajuda a enxergar o mundo com novos olhos”

Ao longo das páginas deste livro, também somos lembrados que nem toda história de amor é necessariamente alegre, com um “felizes para sempre”.

“Engraçado como amar alguém não é garantia que você vai estar com essa pessoa para sempre”

E assim como várias são as formas de amor, diversas são as maneiras de apreciar este livro: de uma sentada só ou, como acho mais interessante, aos poucos, uma dose de amor diária e necessária.

“Eu leio. Desde que aprendi, nunca mais parei. Em quase tudo que faço, levo um livro comigo”

Claro que, para mim, foi fácil eleger um texto preferido dentre todos os lidos: não resisto a histórias que falam sobre livros e leituras e, assim, o meu escolhido é o Biblioteca.

“Ler para mim é uma droga, eu não posso parar. Não depois de tudo que vivi”

Mas, como se pode imaginar, tem história para todos os gostos neste livro e também acho que ele pode ser uma boa pedida para quem quer sair de uma ressaca literária ou simplesmente começar a ler, já que ele é leve e, de novo, super rapidinho.

“Guardo o momento da leitura com carinho em um compartimento do meu dia. Porém, às vezes, por causa da correria do demandante mundo real, deixo de ler”

Ah, este também é um livro para quem precisa recuperar um pouco dos tantos sentidos do amar.

“Existem coisas que têm mais força que “eu te amo”. Uma frase é só uma frase. Os pedaços de vida que duas pessoas decidem conectar significam muito mais que três palavras entoadas juntas”

AmoreZ reúne, portanto, breves histórias despretensiosas, mas que, ao mesmo tempo, nos fazem pensar. E se você acha que é deste livro que está precisando, não deixe de clicar abaixo para saber mais. Aproveite para seguir a autora no Instagram e conhecer mais do seu trabalho.

“Não é para qualquer um que mostramos o carrinho de compras cheio de quem somos”

Depois da caixa preta — Rafael Weschenfelder

Título: Depois da caixa preta
Autor: Rafael Weschenfelder
Editora: Publicação independente
Páginas: 99
Ano: 2022

Será que os fofoqueiros de plantão já pensaram em unir a paixão por reality shows e literatura? Se sim ou se não, a dica de leitura de hoje é um prato cheio para isso e, sem dúvidas, vai agradar não apenas os fãs desse tipo de programa, mas também aqueles que acreditam numa boa teoria da conspiração.

Em Depois da caixa preta conhecemos Lorenzo, um ator de novelas adolescentes que quer entrar na famosa Casa de Vidro não para ganhar dinheiro ou fama, mas para descobrir o que há de verdade na tal caixa preta, único cômodo da casa que não tem câmeras e paredes transparentes.

Acho que só com a breve descrição acima já dá para ter ideia das referências que permeiam esta história, certo?

“A Casa de Vidro muda a gente — diz, por fim. — Você não entenderia”

Uma vez mais, porém, Rafael Weschenfelder surpreende seus leitores. Por trás de uma história que parece a simples busca de um jovem apaixonado pela verdade que mudou por completo o comportamento de sua (ex)namorada, Lisbela, que três anos antes participara desse mesmo programa, o autor esconde muito mais.

Chips, manipulação, insegurança e depressão são alguns dos assuntos que encontramos nas poucas páginas que compõem esta narrativa cujo vilão não tem uma cara precisa, mas faz-se claramente presente.

“Ninguém é livre para fazer suas próprias escolhas dentro da Casa de Vidro. Somos fantoches, marionetes”

Se esta história despertou sua curiosidade, saiba mais sobre ela clicando abaixo. Uma leitura rápida e que, como sempre acontece com os textos do Rafael, vai te prender e, no final, te deixar de boca aberta, pensando em milhares de possibilidades.

Também te convido a seguir o autor no Instagram e conhecer suas outras obras: as 220 mortes de Laura Lins (nessa tem looping temporal) e O baú do zumbi gelado (para quem curte videogame ou jogos online).

Cidade das Mandalas — Nayara Van Dike

Título: Cidade das Mandalas 
Autora: Nayara Van Dike 
Editora: Publicação independente 
Páginas: 204 
ano: 2022

Paris, a cidade luz, geralmente associada a histórias românticas, ganha novas características em Cidade das Mandalas, da autora Nayara Van Dike.

“Por que ir para Paris significa abandonar?”

Nesta história não é (somente) o amor que está no ar, mas também a poluição em níveis exorbitantes, o que confere à narrativa um quê apocalíptico.

“As pessoas estavam em suas casas, respirando seus ares menos poluídos, debatendo-se contra os seus demônios”

Aliás, é difícil não traçar paralelos entre o que acontece ao longo das páginas deste livro e o que vivemos em 2020 e 2021, ainda que os motivos que levem à quarentena forçada (e indesejada) sejam diferentes (mas não por completo). 

Kundalini, a jovem de nome diferente, perde seu emprego justamente quando a situação em Paris começa a tornar-se insustentável e a cidade precisa ser esvaziada.

Mas é também nesse momento que ela reencontra seu amigo de infância, com quem inicia um relacionamento, principalmente por toda a ligação deste com seu falecido pai, cuja morte Kundalini ainda tem muito a digerir dentro de si.

Perdida em pensamentos e sentimentos, porém, Kundalini encontra outra pessoa que irá transformar sua vida: Michel.

“Tinha bons amigos, mas nenhum deles me ajudou, apenas Michel”

Assim, entre tentar entender os sinais de que ela precisa superar seu passado, do que ela deseja para um relacionamento, de quem é ela, Kundalini se perde e se encontra pelas ruas de Paris, tanto as que ela já conhece quanto pelas que ela ainda vai conhecer.

A narrativa mistura realidade e fantasia de maneira muito natural e nos faz mergulhar num universo entre o palpável e o onirico, nos ensinando um pouco sobre outras culturas e, principalmente, sobre como o exterior é um reflexo do nosso interior. 

São muitas metáforas que nos fazem pensar e buscar dentro de nós respostas que não sabíamos que estávamos precisando.

Um livro para ser lido com calma, porque ele tem uma força difícil de explicar. É uma daquelas obras que, cedo ou tarde, cairá nas suas mãos no momento certo. Ou então que você pode fazer chegar a quem mais precisa.

A obra está disponível na Amazon (clique abaixo) e indico fortemente que você conheça mais do trabalho da autora, não apenas através de suas histórias, mas também visitando o seu site recheado de materiais úteis para autores e interessantes para leitores.

Urdiduras — João Bastos de Mattos

Título: Urdiduras 
Autor: João Bastos de Mattos 
Editora: Patuá 
Páginas: 144 
Ano: 2022

Aos que acham marmelada eu resenhar o livro escrito pelo meu tio, sinto muito, mas eu não poderia deixar de falar sobre essa deliciosa obra que reúne diversos contos do autor.

O prefácio, escrito por Humberto Werneck, recebe o título de “Valeu a espera” e é exatamente essa a sensação que temos aos concluir a leitura. Como ficamos tanto tempo sem poder apreciar contos tão bons?

No entanto, não é só o prefácio que já nos deixa extremamente dispostos a mergulhar nesta leitura. Se analisarmos o título e a capa, percebemos muito da intelectualidade do autor. “Urdidura” é o ato ou efeito de “urdir”, isto é, “tramar, maquinar o desenvolvimento de algo” e ainda “compor o conteúdo, o enredo de uma obra de ficção” ou “pensar ou inventar algo na imaginação”.

Vale lembrar que a palavra “texto” também vem do “entrelaçamento, tecido”. Escrever nada mais é que tecer. Emendar e remendar palavras. E, assim como na imagem da capa, composta por um lindo e colorido patchwork — ou uma colcha de retalhos — Urdiduras nos oferece um tecido cheio de nuances e belas histórias.

Contribui muito para a leitura, também, a diagramação da obra: limpa e confortável de ler, com o livro impresso em papel de boa qualidade.

Mas vamos ao que interessa, certo? Os contos de Urdiduras estão divididos em cinco partes, que não necessariamente precisam ser lidas em ordem. Os textos são totalmente independentes um do outro, mas a verdade é que é difícil pegar o livro e ler apenas um.

As cinco partes, separadas sempre por uma folha preta — daquelas que facilmente identificamos, mesmo com o livro fechado, o que facilita muito —, recebem os seguintes títulos:

  • Que amor, que sonhos, que flores…
  • As traças da paixão
  • Ainda além da Taprobana
  • Allegro ma non troppo
  • Minhas memórias dos outros

Por esses títulos, umas vez mais, temos mostras da intelectualidade do autor. Vale ressaltar, contudo, que em momento algum a leitura fica enfadonha ou difícil de entender. Muito pelo contrário, aliás: com criatividade de sobra e uma linguagem instigante, cada conto torna-se único e saboroso.

Dentre as partes já mencionadas, acredito que a minha favorita seja a última, na qual o autor brinca com personagens e pessoas famosas, construindo histórias que nos fazem pensar que poderiam ser reais (será que não foram realmente?).

E, entre os contos dessa seção em específico, um dos que mais gostei foi aquele sobre Tarsila do Amaral — História de Tarsila, nascida e nascida —, que não poderia faltar numa obra de um autor capivariano como João Mattos.

“Não sei se algum dia tirei a limpo essa história. Pra mim, uma mulher como Tarsila podia muito bem ter nascido duas vezes”

Outros contos que destaco aqui são A linguagem dos sinais — cujo título me deu um leve susto, pois, vale lembrar, quando estamos falando de Libras (o que não é o caso aqui) devemos dizer Língua (e não linguagem) de Sinais — e Assassinato em Logan Manor, que nos faz lembrar do famoso jogo de tabuleiro “Detetive”. 

“Os sinais. Eu não soube ler”

Também me surpreendi muito com Dicionário analógico, conto que o autor dedica a Chico Buarque e que, não sei se por influência da dedicatória ou não, realmente me fez sentir uma certa sonoridade e notar um jogo de palavras bem típico do cantor e compositor.

Acho que com os contos que mencionei, também deu para perceber que a obra está recheada de referências (e olha que tantas outras eu não cheguei nem perto de pincelar aqui), levando a leitura deste livro para muito além de suas páginas. 

Se eu tiver despertado a sua curiosidade, não deixe de conhecer este livro, seja adquirindo seu exemplar no site da Editora Patuá ou, se este privilégio ainda for possível, diretamente com o autor, que sempre oferece muitas boas palavras para além daquelas já impressas em Urdiduras.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios — Marçal Aquino

Título: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios 
Autor: Marçal Aquino 
Editora: Companhia das Letras 
Páginas: 232 
Ano: 2005

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios sempre foi um título que me intrigou e do qual muitas vezes ouvi falar bem, sendo um dos livros preferidos de muitas pessoas que admiro. Devo confessar, porém, que mesmo após a leitura, essa obra ainda me intriga.

“Sustentar aquele olhar escuro foi uma experiência difícil. Fez com que eu me sentisse desamparado. Fiquei com a impressão de estar sendo visto de verdade pela primeira vez na vida. E também de estar vendo algo que o mundo não tinha me mostrado até então”

Com uma narrativa que nos enreda, esta é uma história que fala sobre o amor. Mas que vai muito além daquilo que podemos imaginar, ao mesmo tempo em que é simplesmente real. E, justamente pela soma desses fatores, ainda há muito que, com uma única leitura, tenho certeza que não compreendo nessa obra e que, provavelmente, tanto fascina aqueles que a adoram.

“O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta”

O livro é narrado em primeira pessoa por Cauby, um fotógrafo de 44 anos que trabalha numa região de garimpo no Pará. Por isso, somos tragados pelos fortes sentimentos do narrador (nada confiável, vale ressaltar), ao mesmo tempo em que nos deparamos com uma realidade complicada e perigosa.

“Criada num ambiente rarefeito de afetos, tinha dificuldade na hora de identificar e nomear suas emoções com precisão”

O perigo, aliás, está sempre à espreita, mas é somente mais para o fim da obra que vamos realmente nos dando conta da sua força. E o que mais dói é saber que realmente existe essa violência desmedida causada, sobretudo, pelo poder. 

Com despedidas escondidas a cada esquina, percorremos as páginas deste livro com medo da ruptura que está por vir, tendo a certeza, contudo, que ela sempre chega, pois esta é inevitável e se tem uma coisa que este livro não faz é maquiar a verdade (muito pelo contrários, aliás, ele consegue ser bem visceral e direto ao ponto, ainda que carregue certa delicadeza e maciez em seu tom).

“Eu queria vê-la uma última vez, queria ouvir da sua boca que tinha acabado”

Indo e vindo entre passado e presente, a narrativa entra, por vezes, em um turbilhão e, por vezes, é calmaria. Exatamente como acontece com Lavínia, a grande paixão de Cauby e esposa do pastor Ernani. Vamos conhecendo esta personagem aos poucos, pelas lentes (com o perdão do trocadilho) do nosso protagonista.

“Ninguém viu brotar a flor esplêndida. Metade branca, metade sombria”

Mas nem mesmo esse vórtex de sentimentos e sensações é capaz de nos preparar para um fim tão complicado para esses personagens, que não são os únicos que compõem a narrativa.

“Sou apenas mais uma aberração num lugar onde elas brotam a cada esquina”

A narrativa do grande amor da juventude (e da vida) de Careca, que mora na mesma pensão que Cauby, também permeia as páginas deste livro, nos presenteando com a certeza de que existem inúmeras formas de amar nesta vida (e como cada uma, a seu modo, pode nos machucar).

O amor também está presente nas passagens do fictício filósofo Schianberg, cujas reflexões e ensinamentos enriquecem a narrativa e as passagens desta obra.

Sendo Eu receberia as piores notícias do seus lindos lábios um livro tão denso, mesmo que escrito com uma linguagem relativamente simples (e quase poética), só posso deixar o meu convite para que você conheça esta obra e tire as suas conclusões sobre a mesma. 

Essa fase não vai passar — Raquel M. Linhares

Título: Essa fase não vai passar 
Autora: Raquel M. Linhares 
Editora: New Naipe 
Páginas: 143 
Ano: 2022

Essa fase não vai passar pode até não ser uma leitura muito longa, mas, definitivamente, também não é uma leitura fácil. Ela escancara demais o quanto nossos sentimentos turvam nossa visão para aquilo que está bem embaixo do nosso nariz.

“Não adiantou ela se doar, ela se anular, ela fazer vista grossa para tanta coisa errada que via e ouvia”

Amália é uma protagonista tão dolorosamente real que, por vezes, temos vontade de bater nela. E também em nós mesmas. Só assim para acordamos de certas situações.

“Amália se tornará sua amiga. E, no fim das contas, a Amália é a sua amiga. Ou a sua irmã. Ou a sua mãe. Ou até mesmo você”

O livro já começa com um prefácio daqueles que aguça nossa curiosidade e que, ao mesmo tempo, nos deixa com medo do que vem pela frente. Afinal, Essa fase não vai passar pode ser uma história com muitos gatilhos (então já fica aqui um alerta).

“Saber reconhecer a imperfeição do outro não a fazia fraca, mas compreensiva, o que são coisas totalmente distintas”

Aliás, desde o início da história, por mais que Amália esteja muito feliz, já sentimos que as coisas têm tudo para desandar. Dá para sentir de longe o cheiro da “fria” na qual a protagonista está se metendo.

“Os sentimentos de incompreensão e de humilhação cresciam dentro dela, que não aguentou esperar até o momento em que ele estivesse sóbrio para confrontá-lo”

O abismo que há entre Amália e João Pedro é tão gritante que por diversas vezes me questionei o quanto realmente não deixamos de perceber o óbvio quando estamos apaixonados. 

“Amália ficou intrigada com o comentário, sem saber se era uma crítica ou um elogio”

Sim, João Pedro vive fazendo comentários ambíguos, difíceis de saber se são elogios e o que há por trás deles. Um discurso que, por si só, já seria de deixar qualquer um com o pé atrás. Mas, para piorar a situação, ele ainda abusa da bebida e a usa como justificativa para seus erros, sem nunca mudar.

“A vida na cidade grande era, sim, transformadora, mas Amália não tinha certeza de que as transformações eram sempre positivas”

A narrativa angustia e, ao mesmo tempo, acredito que muitos leitores poderão achá-la um pouco lenta. Contudo, ela é necessária, fazendo-nos refletir e, quem sabe, até nos tirando de uma situação como a de Amália.

“Amália não sabia quando as coisas melhorariam, mas torcia para que fosse logo”

Se você sente que terá estômago para encarar essa protagonista que se encontra presa em um relacionamento abusivo, ou então se você acredita que conhece alguém nessa situação, mas não a compreende muito bem, recomendo a leitura de Essa fase não vai passar. E não esqueça de seguir a autora em suas redes sociais (Instagram, Twitter, Skoob). A obra também está disponível em versão física.

À deriva — Fernando Ferrone

À deriva — Fernando Ferrone

Título: À deriva 
Autor: Fernando Ferrone 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 212  
Ano:  2017 (2º Edição)

Há livros que caem em nossas mãos e, por todo o seu conjunto, nos conquistam de tal maneira que só nos resta mergulhar na leitura e devorar cada página, até o fim.

“a gente fica tão preocupado com o fim das coisas. de repente, vai que não tem fim, né?”

Com À deriva foi assim. Depois de ter a honra de conhecer o autor Fernando Ferrone, e de ganhar um exemplar físico da obra, fui saboreando o prazer de observar os detalhes desta edição: a foto da capa, os elementos que remetem ao mar, a sinopse.

“existem várias maneiras de saber as coisas, né? e uma delas é saber de tudo, mas desconhecer as consequências. principalmente as consequências para os outros”

Iniciei a leitura nessa empolgação e, antes de continuar, não posso deixar de comentar uma estranheza que tive: as frases não são iniciadas com letra maiúscula. Estas, aliás, apenas são usadas nos nomes próprios. 

Passada esta primeira estranheza, porém, logo adentrei a história, sedenta por saber das aventuras e desventuras de Isabela.

“você me conheceu numa época muito estranha da minha vida”

É gostoso conhecer essa paulistana com a qual dificilmente não temos algo em comum: seja a insatisfação com o trabalho, o cansaço de viver em uma metrópole como São Paulo, o sentimento de solidão ou os conflitos familiares.

“você tem os seus problemas, e eles são grandes o suficiente para você ficar mal”

O interessante, contudo, é que nenhum desses assuntos está, sozinho, no foco da obra. Ao iniciarmos a leitura, aliás, já vemos que há muito mais, pois Isabela está mandando um áudio para seu ex, contando aquilo que tanto queremos descobrir: o que ela viveu em sua viagem.

“em retrospectiva, aquele deve ter sido o primeiro momento em que Isabela começou a terminar o namoro”

Para descansar um pouco de toda a agitação, Isabela decide passar um final de semana acampando em Trindade e, mesmo indo sozinha, ela acaba por conhecer pessoas que enriquecem as reflexões e confusões desta história, como os tão importantes personagens Caetano e Bruno.

“Isabela se inquieta, porque nessas horas lembra como, mesmo após seis meses, ainda se surpreende involuntariamente pensando no ex. apesar de tudo”

Estes dois, ao lado de Isabela, compõem o cerne da narrativa, mas há outros personagens que igualmente enriquecem a narrativa e o principal dela: a vontade de encontrar respostas e a dificuldade que temos de encontrá-las, mesmo quando elas estão bem embaixo do nosso nariz.

Devo confessar que fiquei admirada com o quanto Isabela realmente entregou-se à aventura que resolveu viver, conversando com estranhos (realmente estranhos) sem o menor medo ou desconfiança. Cheguei até a me questionar como uma pessoa sai de São Paulo e aceita caronas e conselhos de pessoas semi desconhecidas!

Por mais estranhos que alguns personagens sejam, devo admitir que conforme eu lia o livro, sempre me lembrava de algum conhecido por um ou outro motivo. Ou seja, esta é uma história que realmente nos faz sentir conectados e, assim, ela flui muito facilmente. A linguagem empregada também ajuda bastante para que a leitura embale e não nos deixa tão perdidos diante da temporalidade não linear da narrativa.

Eu poderia ainda comentar muitos outros aspectos deste livro, mas como já fiquei quase uma hora na Livraria Ponta de Lança batendo um papo com o Fernando sobre À deriva e A longa noite de Bê, deixo para os mais curioso o link deste encontro e convido a todos a seguir o autor nas redes sociais (Instagram) e, claro, garantir o seu exemplar desta obra:

A ruiva ao lado — Taynara Melo

Título: A ruiva ao lado 
Autora: Taynara Melo 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 78  
Ano: 2021 (2º edição)

A ruiva ao lado é uma obra razoavelmente curta e, por isso, rápida de ler. Além disso, um dos principais plots da narrativa está colocado logo no início, mas, mesmo assim, o mistério perdura por toda a obra.

“Já vi aquele olhar. Mas não me lembro em quem”

Celine tem 32 anos e ainda carrega consigo a dor de ter sido abandonada pela mãe aos 10 anos de idade, tendo crescido apenas com o pai, alcoólatra.

“Até hoje sinto que a minha felicidade foi embora com minha mãe, no dia que ela partiu”

Apesar de tantos percalços, Celine conseguiu construir sua vida e, ao contrário da mãe, jamais abandonou o pai, mesmo diante da dificuldade e da tristeza de conviver sob o mesmo teto que alguém com um vício tão complicado e destrutivo quanto o álcool.

“Nesse exato momento, ele está na reunião do AA. Fico feliz por ele estar se empenhando. No mês anterior, ele havia completado quatro anos de sobriedade. Aquilo, para ele, era uma vitória diária. E eu estava orgulhosa dele”

Mas claro que, quando as coisas começam a se ajeitar, a vida vem e traz novas surpresas e desafios.

“Só quero seguir em frente, sem esse drama à minha volta”

Voltando de um delicioso final de semana com as amigas, Celine conhece Laura, a ruiva que pede para sentar ao seu lado no ônibus.

Desse momento, nasce uma linda e surpreende relação. Um elo que não é sempre que conseguimos criar em tão pouco tempo.

Mas é também por causa desse momento que todo o passado de Celine vem à tona e sua vida vira um caos.

A ruiva ao lado é, portanto, uma história que fala sobre abandono, alcoolismo, depressão e, acima de tudo, perdão.

“Compreendi que o perdão deve ser dado de coração”

Se quiser realizar esta leitura, prepare-se para encontrar sentimentos intensos e, claro, para chorar. Clique aí embaixo para saber mais e não deixe de seguir a autora nas redes sociais (Twitter e Instagram) para conhecer esta e suas demais obras.

Garoto conhece garoto — Leblon Carter

Título: Garoto conhece garoto 
Autor: Leblon Carter 
Editora: Publicação Independente 
Páginas: 21
Ano: 2021 

Acho que todos nós, cedo ou tarde, nos deparamos com um momento em que buscamos uma leitura gostosa, mas rápida e leve. E é exatamente isso que encontramos em Garoto conhece garoto.

O contexto é bem simples e, por si só, poderia render os mais diferentes tipos de história: uma excursão para um parque de diversões.

O foco porém — como não poderia deixar de ser em um conto — está em um momento específico: quando quebra a roda gigante em que Bruno está. 

“Só aconteceu. De forma natural”

Aqui, porém, sinto-me na obrigação de fazer alguns esclarecimentos: 

1°: Bruno estava morrendo de medo de ir em tal brinquedo.

2°: Bruno estava na fila com seu amigo — que era quem realmente queria ir ao brinquedo —, mas este sentiu uma enorme vontade de ir ao banheiro, deixando o amigo em pânico e sozinho.

Claro que esses acontecimentos eram necessários para que, mesmo quase tendo um treco, Bruno entrasse na roda-gigante e dividisse a cabine com um desconhecido. O que, no final das contas, não foi tão ruim assim…

“Nós ficamos com as mãos uma por cima da outra durante uns dois minutos antes que surgisse um outro assunto”

Ficou com vontade de conhecer e ler esse conto romântico, fofinho e curtinho? Então clique abaixo para saber mais e não deixe de seguir o autor em suas redes sociais (Twitter e Instagram).

A Estrela do Cerrado — Renata De Luca

Título: A estrela do Cerrado 
Autora: Renata De Luca 
Editora: Publicação independente
Páginas:  354
Ano: 2021

Já que pode existir carnaval fora de época, também pode ter resenha de história que se passa nessa época mesmo depois do segundo carnaval do ano, certo? Assim, já ficamos com o tão sonhado carnaval o ano inteiro.

A verdade é que, mesmo se passando nesse período de festança, A Estrela do Cerrado é uma história policial que nos apresenta um crime daqueles difíceis de acreditar e de solucionar.

“É como sempre digo, se um roteirista descrevesse um assalto desse, iam dizer que ele estava exagerando!”

Aproveitando que a maioria das pessoas estaria ocupada demais comemorando o carnaval, uma quadrilha realiza um arquitetado assalto a um banco localizado na Avenida Paulista, umas das principais avenidas da cidade de São Paulo.

No roubo, são levados documentos, dinheiro e joias, dentre elas a famosa Estrela do Cerrado. Mas algo que chama a atenção de todos que, por algum motivo, conhecem um pouco a mais dos detalhes do assalto, é que por mais que diversos cofres tenham sido roubados, parecia que eles haviam sido escolhidos a dedo.

“A Estrela do Cerrado! Ele vira o estojo em direção a cada um dos comparsas. – Um primor da joalheria, execução e design perfeitos para realçar uma das esmeraldas mais cobiçadas do mundo!”

Com o desenrolar da história — e das investigações — vamos percebendo que realmente há muito mais por trás deste enorme assalto.

“Eles trocam amabilidades e desligam, certos de que juntar esforços é sempre mais difícil do que prender bandidos…”

Devo dizer, aliás, que há muito por trás da história de cada personagem e, extrapolando ainda mais a interpretação, por trás de cada um de nós.

“Talvez tenha chegado a hora de falarem o que não foi dito ao longo de cinco anos”

E é com essa trama bem construída e escrita numa linguagem clara — quase jornalística, para combinar com a profissão da autora — que Renata de Luca consegue abordar algumas temáticas importantes, como o abuso do uso de álcool.

“Quando Pati chega, abatida, com olheiras, Luli está pronta para acolher a irmã. Decidiu não falar nada sobre a bebida, ela precisa encarar a doença, mas não hoje, não com tudo o que está acontecendo”

A narrativa também nos faz refletir sobre relações familiares, construções sociais e a (des)organização de nossos cotidianos e crenças.

“Quem vive na periferia sabe que a regra é nunca encarar marginal ou polícia”

Outra coisa que pesa na história é o fato de surgirem sentimentos onde estes não deveriam surgir, e também toda a manipulação que há por trás deles.

“Michel não precisa reler para entender que está levando o fora. Pelo celular, como essa geração costuma fazer”

São muitos os personagens que compõem está trama e a história deles está mais interligada do que parece. Cada um tem a sua importância e o seu papel na construção da narrativa, mas temos de prestar atenção à história para não nos perdermos entre eles e os cenários que percorrem.

Se você gosta de uma boa narrativa policial e de ler sobre crimes complexos, mas não gosta de cenas com muito sangue, A Estrela do Cerrado é o livro perfeito para você. Clique abaixo para conhecer esta obra e não deixe de seguir a autora nas redes sociais (Instagram).